Livros que Amei, OSHO, Capítulos 1-8

CAPÍTULO 1

1984 na Casa Lao Tsé, Rajneeshpuram, Oregon, USA

 

O convidado, o anfitrião, o crisântemo branco… esses são os momentos, as rosas brancas, os quais ninguém deve falar.

Nem o convidado,

nem o anfitrião…

apenas o silêncio.

Mas o silêncio fala da sua própria maneira, canta a sua própria canção de alegria, de paz, de beleza e bênçãos; caso contrário não haveria um Tao Te Ching, nem haveria um Sermão da Montanha. Considero-os poesias reais embora não estejam compiladas de nenhuma maneira poética. Eles são forasteiros. Eles se mantêm fora. Isso é verdade por um aspecto: eles não pertencem à norma, ao padrão, não pertencem a quaisquer medidas; eles estão além de quaisquer medições, por isso permanecem à parte.

Algumas partes de Os Irmãos Karamazov de Dostoievsky são pura poesia, e assim também algumas partes de Assim Falou Zaratustra, daquele louco Friedrich Nietzsche. Mesmo se Nietzsche não estivesse escrito mais nada além de Assim Falou Zaratustra ele teria servido imensamente à humanidade, profundamente – mais não pode ser esperado de qualquer homem – porque Zaratustra estava quase esquecido. Foi Nietzsche que o trouxe de volta, que lhe deu vida novamente, uma ressurreição. Assim Falou Zaratustra será a bíblia do futuro.

Diz-se que Zaratustra gargalhou quando nasceu. É muito difícil imaginar um bebê recém-nascido gargalhando. Sorrindo tudo bem – mas gargalhando? Perguntamos de que, porque uma gargalhada precisa de um contexto. De qual piada o bebê Zaratustra gargalhava? A piada cósmica, a piada que toda essa existência é.

Sim, escreva em suas notas, a piada cósmica e sublinhe. Isso é bom. Posso até ouvir vocês sublinhando. Isso é belo. Vê quão boa é minha audição? Quando quero posso ouvir até o som do desenho de um esboço, de uma folha. Quando quero posso ver na escuridão, na total escuridão. Mas quando não quero ouvir, finjo que não ouço, apenas para dar a você a sensação boa que tudo está indo bem.

Zaratustra em seu nascimento, gargalhando! E aquilo era apenas um começo. Ele riu ao longo de toda a sua vida. Toda a sua vida foi uma piada. Mesmo assim as pessoas se esqueceram dele. Os Ingleses mudaram seu nome, eles o chamaram de ‘Zoroaster’. Que monstruosidade! ‘Zaratustra’ tem a suavidade de uma pétala de rosa, e ‘Zoroaster’ soa como um grande desastre mecânico. Zaratustra deve estar rindo ao ver seu nome alterado para Zoroaster. Mas antes de Friedrich Nietzsche, ele foi esquecido. Ele deveria ser esquecido.

Os Islâmicos forçaram todos os seguidores de Zaratustra a tornarem-se Islâmicos. Apenas poucos, muito poucos, escaparam – para a Índia, onde mais. A Índia tornou-se o local onde qualquer pessoa pode entrar sem um passaporte ou visto, sem qualquer problema. Apenas alguns poucos seguidores de Zaratustra escaparam dos assassinos Islâmicos. Eles não são muitos na Índia, apenas cem mil. Ora, quem se preocupa com uma religião de apenas cem mil – que não apenas quase todos vivem somente na Índia, mas nos arredores de apenas uma cidade, Bombaim. Até mesmo eles se esqueceram de Zaratustra. Eles se comprometeram com os Hindus que tinham que conviver. Eles escaparam do poço e caíram em uma vala, uma vala mais profunda! De um lado o poço, do outro a vala. E o Caminho segue pelo meio – Buda o chama de caminho do meio – exatamente no meio, assim como o equilibrista que anda sobre uma corda.

O grande serviço de Nietzsche à humanidade foi trazer Zaratustra de volta ao mundo moderno. Seu grande desserviço foi Adolf Hitler. Ele fez ambos. É claro que ele não foi responsável por Adolf Hitler. Foi o próprio desentendimento de Hitler da ideia de ‘superman’ de Nietzsche. O que Nietzsche poderia fazer? Se você me entende mal, o que posso fazer a respeito? Desentender é sempre a sua liberdade. Adolf Hitler era uma mediocridade juvenil, uma criança retardada, realmente feia. Apenas lembre-se de sua face – aquele bigode pequeno, aqueles olhos temerosos como se tentando fazê-los temer e uma testa tensa. Ele era tão tenso que nunca pôde ser amável a qualquer pessoa por toda a sua vida. Para ser um amigo é necessário estar um pouco relaxado.

Hitler não podia amar, apesar dele tentar de uma maneira ditatorial. Ele tentou, como muitos maridos o fazem, infelizmente, para ditar, para ordenar, para manobrar e manipular as mulheres – mas foi incapaz de amar. O amor precisa de inteligência. Ele não pôde nem permitir que sua própria namorada estivesse a sós com ele em seu quarto a noite. Que medo! Ele tinha medo que enquanto ele estivesse dormindo… ninguém sabe, a amiga pode ser uma inimiga; ela poderia ser um agente trabalhando para o inimigo. Ele dormiu a sós toda a sua vida.

Como um homem como Adolf Hitler poderia amar? Ele não tinha simpatia, não tinha coração, nenhuma parte feminina. Ele matou a mulher interna, como poderia amar a mulher externa?  Para amar a mulher externa você tem que alimentar a mulher interna, porque apenas aquilo que está dentro é expresso em suas ações.

Ouvi dizer que Hitler atirou em uma de suas namoradas por uma razão banal; ele a matou porque havia dito que ela não deveria visitar sua mãe, mas quando ele estava fora ela foi, porém voltara antes de Hitler retornar. Ele ficou sabendo pelos guardas que ela tinha saído. Isso foi o suficiente para acabar o amor – não apenas o amor, mas a mulher também! Ele atirou nela dizendo, “Se você me desobedece, então você é minha inimiga.”

Essa era a sua lógica: quem lhe obedece é seu amigo; quem desobedece é seu inimigo. Quem está consigo está consigo, quem não está consigo está contra. Não é necessariamente assim – alguém pode estar apenas neutro, nem consigo nem contra. Ele pode não ser seu amigo, mas isso não significa necessariamente que é um inimigo.

Eu amo o livro Assim Falou Zaratustra. Eu amo muito poucos livros; posso contá-los em meus dedos…

Assim Falou Zaratustra será o primeiro da minha lista.

Os Irmãos Karamazov é o segundo.

Terceiro é o Livro de Mirdad.

Quarto é Jonathan Livingston Seagull.

O quinto livro é o Tao Te Ching de Lao Tsé.

O sexto é As Parábolas de Chuang Tzu. Ele é o homem mais amável, e este é o livro mais amável.

O sétimo é O Sermão da Montanha – apenas O Sermão da Montanha não a Bíblia inteira. Toda a Bíblia é apenas uma bobagem, exceto O Sermão da Montanha.

Oitavo… a minha numeração está correta? Isso é bom. Então você pode sentir que ainda estou na minha insanidade. O oitavo, Bhagavad Gita – a canção divina de Krishna. Aliás ‘Cristo’ é apenas uma má pronúncia de ‘Krishna’ assim como ‘Zoroaster’ é de ‘Zaratustra’. ‘Krishna’ significa o maior estado de consciência, e a canção de Krishna, o Bhagavad Gita, alcança a altura máxima do ser.

Nono, o Gitanjali. Significa ‘uma oferta de canções’. É o trabalho de Rabindranath Tagore, o qual ele ganhou o prêmio Nobel.

E o décimo é a compilação das canções de Milarepa – As Mil Canções de Milarepa – é assim que é chamado em Tibetano.

Ninguém falou,

O anfitrião,

o convidado,

nem o crisântemo branco.

Ó!… tão belo… o crisântemo branco. Ó, tão belo. As palavras são tão pobres. Não posso descrever o que está sendo trazido para mim.

O crisântemo branco.

Ninguém falou.

O anfitrião,

o convidado,

o crisântemo branco.

Bom. Por causa dessa beleza os meus ouvidos são incapazes de ouvir até mesmo o ruído, os meus olhos se enchem de lágrimas.

As lágrimas são as únicas palavras que o desconhecido pode falar,

a linguagem do silêncio.

 

CAPÍTULO 2

1984 na Casa Lao Tsé, Rajneeshpuram, Oregon, USA

 

Peço desculpas porque de manhã não mencionei alguns livros que eu deveria ter mencionado. Eu estava tão comovido por Zaratustra, Mirdad, Chuang Tzu, Lao Tsé, Jesus e Krishna que esqueci alguns livros que são até mesmo mais significantes. Não acredito como pude esquecer O Profeta de Kahlil Gibran. Isso ainda está me torturando. Quero descarregar – é por isso que peço desculpas, mas a ninguém em particular.

Como pude esquecer o livro que é o máximo: O Livro dos Sufis! Esqueci, talvez, porque ele não contém nada, apenas páginas vazias. Por mil e duzentos anos os Sufis carregam O Livro com tremendo respeito, abrindo as suas páginas e estudando-as. Alguém pergunta o que eles estudam. Quando você encara uma página em branco por um longo tempo, você vai refletir a si mesmo. Este é o estudo real – a obra.

Como pude esquecer O Livro? Agora quem me perdoará? O Livro deveria ter sido o primeiro a ser mencionado, não o último. Ele não pode ser transcendido. Como você pode criar um livro melhor do que aquele que contém nada, e a mensagem do nada?

O nada deve ser escrito em suas notas, Devageet, como não-coisidade; caso contrário, o nada terá um significado negativo – o significado de vazio, e não é esse. O significado é de ‘plenitude’. O nada no Oriente tem um contexto totalmente diferente… shunyata.

Chamei um de meus sannyasins Shunyo, mas o tolo segue chamando-se a si mesmo Doutor Eichling. Ora, a estupidez pode ser maior? ‘Doutor Eichling’ – que nome feio! E ele cortou a barba apenas para ser o Doutor Eichling… porque com a barba ele parecia um pouco bonito.

No Oriente shunyata – vacuidade – não significa vazio como na língua Inglesa. Significa plenitude, sobrelotação, tão cheio que nada é mais necessário. Esta é a mensagem do O Livro. Por favor, inclua-o na lista.

Primeiro, O Livro dos Sufis.

Segundo, O Profeta de Kahlil Gibran. Eu poderia facilmente abandonar O Profeta pela simples razão de que ele é apenas um eco de Assim Falou Zaratustra de Nietzsche. No nosso mundo ninguém fala a verdade. Somos tão mentirosos, tão formais, tão cheios de etiqueta… O Profeta é belo apenas porque ele ecoa Zaratustra.

Terceiro, O Livro de Lieh Tzu. Lao Tsé eu mencionei, Chuang Tzu eu mencionei: Lieh Tzu eu me esqueci, e este é a culminação de ambos Lao Tsé quanto Chuang Tzu. Lieh Tzu é a terceira geração. Lao Tsé foi o mestre, Chuang Tzu o discípulo. Lieh Tzu foi discípulo de um discípulo, talvez seja por isso que o esqueci. Mas o seu livro é imensamente belo e deve ser incluído na lista.

Quarto – e esse é realmente maravilhoso – não mencionei os Diálogos de Sócrates de Platão. Esqueci, talvez, por causa de Platão. Não vale a pena mencionar Platão, ele era apenas um filósofo, mas seus Diálogos de Sócrates e Sua Morte é impossível elogiar demais e deve ser incluído.

Quinto… também me esqueci de As Notas dos Discípulos de Bodidarma. Quando falo de Gautama o Buda sempre esqueço-me de Bodidarma, talvez porque eu sinta que o incluí em seu mestre, Buda. Mas não, isso não é certo; Bodidarma permanece por si só. Ele foi um grande discípulo, tão grande que mesmo o mestre poderia ter inveja dele. Ele nunca escreveu uma palavra, mas alguns de seus discípulos, desconhecidos porque eles não mencionam os seus nomes, escreveram algumas notas sobre as palavras de Bodidarma. Essas notas, apesar de serem breves, são tão preciosas como o Kohinoor. A palavra Kohinoor, você sabe, significa a luz do mundo. Noor significa luz, kohi significa do mundo. Se eu tivesse que descrever algo como Kohinoor, sim, eu indicaria essas breves notas pelos discípulos anônimos de Bodidarma.

Sexto: Eu também esqueci o Rubaiyat. As lágrimas estão chegando aos meus olhos. Posso perdoar-me por esquecer qualquer outra coisa, mas não o Rubaiyat. Omar Khayyam… posso apenas lacrimar, chorar. Posso apenas perdoar-me com minhas lágrimas, as palavras não o fariam. O Rubaiyat é um dos livros mais incompreendidos e também um dos mais lidos do mundo. É entendido em sua tradução, é incompreendido em seu espírito. O tradutor não conseguiu trazer o espírito dele. O Rubaiyat é simbólico, e o tradutor era um Inglês muito sério, o que na América eles chamariam de quadrado, nada descolado. Para entender o Rubaiyat você necessita de um pouco mais de descolamento.

O Rubaiyat fala de vinho e mulher e nada mais; ele canta de vinho e mulher. Os tradutores – e houve muitos – estão todos errados. Eles devem estar errados porque Omar Khayyam era um Sufi, um homem de tasawuf, um homem que sabe. Quando ele fala de mulher ele está falando de Deus. É dessa forma que os Sufis dirigem-se a Deus: “Amada, Ó minha amada.” E eles sempre usam o feminino para Deus, isso deve ser notado. Ninguém mais no mundo, em toda a história da humanidade e da consciência, dirigiu-se a Deus como uma mulher. Apenas os Sufis dirigem-se a Deus como a uma amada. E o ‘vinho’ é aquilo que ocorre entre o amante e a amada, não tem nada a ver com uvas. A alquimia que acontece entre o amante e a amada, entre o discípulo e o mestre, entre o buscador e o buscado, entre o adorador e seu Deus… a alquimia, a transmutação – este é o vinho. O Rubaiyat é tão incompreendido, talvez seja por isso que o esqueci.

Sétimo, o Masnavi de Jalaluddin Rumi. É um livro de pequenas parábolas. O grande somente pode ser expresso em parábolas. Jesus falava em parábolas: assim também o Masnavi. Por que o esqueci? Amo parábolas; não deveria tê-lo esquecido. Utilizei centenas de parábolas dele. Talvez ele se tornou tanto de mim mesmo que esqueci-me de mencioná-lo separadamente. Mas isso não justifica, um pedido de desculpas ainda é necessário.

Oitavo: o oitavo é o Isa Upanishad. É fácil entender porque esqueci dele. Eu o bebi, ele se tornou parte do meu sangue e ossos; eu sou ele. Falei dele centenas de vezes. É um Upanishad bem curto. Há cento e oito Upanishads e o Isa é o menor deles. Ele pode ser impresso em um cartão-postal, em apenas um lado, mas ele contém todos os outros cento e sete, então eles não precisam ser mencionados. A semente está no Isa.

A palavra Isa significa divino. Você pode ficar surpreso que na Índia não chamamos Cristo de ‘Cristo’, o chamamos de ‘Isa’ – Isa, que é muito mais próximo do original Aramaico Yeshua, em Inglês Joshua. Os seus pais devem tê-lo chamado de Yeshu. Yeshu é muito longo. O nome viajou para a Índia e de Yeshu tornou-se Isu. A Índia imediatamente reconheceu que Issu é tão próximo de Isa, que significa Deus, que seria melhor chamá-lo de Isa.

O Isa Upanishad é uma das maiores criações daqueles que meditaram.

Nono… Esqueci de falar algo sobre Gurdjieff e seu livro Tudo e Todo – talvez porque seja um livro muito estranho, nem mesmo legível. Não acho que exista algum indivíduo que o leu da primeira página à última, exceto eu. Encontrei com muitos seguidores de Gurdjieff, mas nenhum deles foi capaz de ler Tudo e Todo em sua totalidade.

É um livro grande – o oposto do Isa Upanishad – mil páginas. E Gurdjieff é um santo tão velhaco – permita-me esta expressão, santo velhaco – ele escreve de uma forma que se torna impossível de ler. Uma sentença pode seguir por páginas. Quando você chegar ao fim da sentença já esqueceu o seu início. E ele usa palavras que ele próprio criou, assim como eu. Palavras estranhas… por exemplo, quando ele escreveu sobre kundalini, ele a chamou de kundabuffer; esta era a sua palavra para kundalini. Esse livro é de imenso valor, mas os diamantes estão escondidos entre as rochas ordinárias. É preciso sair para procurá-los.

Eu li esse livro não apenas uma vez, mas muitas. Quanto mais eu ia até ele, mais eu o amava, porque mais eu podia ver o velhaco; mais eu podia ver aquilo que ele escondia daqueles que não deviam saber. O conhecimento não é para aqueles que não são capazes de absorvê-lo. O conhecimento deve ser escondido dos incautos, e é apenas para aqueles que podem digeri-lo. Deve ser dado apenas para aqueles que estão prontos. Este é todo o propósito do escrever de maneira tão estranha. Não há nenhum livro mais estranho do que o Tudo e Todo de Gurdjieff, e ele certamente é o tudo e o todo.

Décimo: Lembrei desse livro mas não o mencionei porque foi escrito por P.D. Ouspensky, um discípulo de Gurdjieff que o traiu. Eu não queria incluí-lo por causa da sua traição, mas o livro foi escrito antes de ele trair o seu mestre, então, finalmente, decidi incluí-lo. O nome do livro é Em busca do Milagroso. É tremendamente belo, ainda mais porque foi escrito por um homem que era apenas um discípulo, que não sabia ele próprio. Não apenas ele foi um discípulo, mas depois foi um Judas, o homem que traiu Gurdjieff. É estranho, mas o mundo está cheio de coisas estranhas.

O livro de Ouspensky representa Gurdjieff muito mais claramente que o próprio Gurdjieff. Talvez, em um certo estado de ser, Gurdjieff tenha possuído Ouspensky e o utilizado como um meio, assim como estou utilizando Devageet como meu meio. Agora ele está escrevendo as notas e, com os meus olhos entreabertos estou observando tudo. Posso observar mesmo com os olhos fechados. Sou apenas um observador, um observador nas montanhas. Não tenho mais nenhum trabalho a não ser observar.

Décimo-primeiro: é um livro escrito por um homem não iluminado, nem mestre nem discípulo: Folhas de Relva de Walt Whitman. Mas algo penetrou, algo veio até o poeta nele. O poeta funcionou como uma flauta de bambu, e as notas não são da própria flauta; elas não pertencem ao bambu. Walt Whitman é apenas um bambu Americano. Mas Folhas de Relva é imensamente belo. Algo transbordando de Deus foi capturado por sua poesia. Nenhum Americano que conheço, exceto Walt Whitman, pôde tocá-lo – aqui também, parcialmente; caso contrário nenhum Americano seria tão sábio.

Não interrompa! – pelo menos uma vez ou outra escreva as suas notas. Depois você se arrependerá ter perdido isso, aquilo. Apenas escreva as suas notas. Quando o tempo estiver maduro eu direi pare.

Meu tempo acabou? Meu tempo acabou há muito; não hoje, há mais de vinte e cinco anos atrás. Estou vivendo uma vida póstuma, apenas um P.S. em uma carta. Mas, às vezes, o P.S. é mais importante do que toda a carta.

Que mundo maravilhoso. Mesmo a essa altura é possível ouvir uma risadinha no vale. Por um lado, ela é boa, ela os une.

Ai de mim, em breve acabará.

Não podemos fazê-lo durar para sempre?

Pelo menos por ora não me traia.

O homem é o único covarde.

Os discípulos não podem evitar tornarem-se Judas?

Quando acabar você pode parar.

Tão bom… Aleluia!

 

CAPÍTULO 3

1984 na Casa Lao Tsé, Rajneeshpuram, Oregon, USA

Agora meu trabalho começa. Que piada! A maior piada de todas é que Sosan, o sábio Chinês, estava batendo na porta da minha consciência. Esses místicos são demais. Você nunca sabe que horas eles vão começar a bater nas suas portas. Você está fazendo amor com sua namorada e Sosan chega e começa a bater. Eles vêm a toda hora, a qualquer hora, eles não acreditam em qualquer etiqueta. E o que ele estava dizendo para mim? Ele estava dizendo, “Por que você não incluiu o meu livro?”

Meu Deus, isso é verdade! Eu não incluí o livro dele na minha lista pela simples razão que esse livro contém tudo o que existe. Se eu incluísse o seu livro então nada mais seria necessário, então nenhum outro livro seria necessário. Sosan é suficiente por si próprio. O seu livro é chamado Hsin Hsin Ming.

Hsin não deve ser escrito como no Inglês ‘sin’ mas h-s-i-n. Ora, você conhece o Chinês: que forma de cometer um pecado! Hsin… Hsin Hsin Ming.

Ok Sosan, eu incluo o seu livro também. Ele se torna meu primeiro livro de hoje. Desculpe-me, ele deveria ser o primeiro desde o início, mas eu já falei sobre vinte outros. Não importa. Hsin Hsin Ming se eu disser ou não, é o primeiro de todos. Escreva o PRIMEIRO, Devageet, com letras maiúsculas.

Hsin Hsin Ming é um livro tão pequeno que se Sosan soubesse que um dia, depois dele, Gurdjieff escreveria um livro chamado Tudo e Todo, ele teria gargalhado, porque este título pertence ao seu próprio livro. E Gurdjieff tinha que escrever mil páginas, embora as poucas palavras de Sosan são muito mais penetrantes, muito mais significantes. Elas vão diretamente para o seu coração.

Eu posso até ouvir o barulho – não daquelas palavras chegando em seu coração, mas de algum rato, algum demônio fazendo o seu trabalho. Deixe-o fazer o seu trabalho.

O livro de Sosan é tão pequeno, assim como o Isa Upanishad, e muito mais significante. Quando digo isso meu coração se rompe, porque eu gostaria que o Isa fosse o livro supremo, mas o que posso fazer? – Sosan ganhou dele. As lágrimas vêm aos meus olhos porque o Isa perdeu, e também porque Sosan é vitorioso.

O livro é tão pequeno, você pode escrevê-lo em sua palma; mas se você tentar, por favor lembre-se… a palma da mão esquerda. Não o escreva na mão direita, isso será um sacrilégio. Eles dizem, “A direita está direita, e a esquerda é errada.” Eu digo que a esquerda está direita, e a direita está errada, porque a esquerda representa tudo o que é belo em você, e Sosan pode entrar apenas pela esquerda. Eu sei porque eu entrei em milhares de corações através da mão direita, através do lado esquerdo, através do feminino, pelo yin – quero dizer do yin Chinês – eu nunca fui capaz de entrar em alguém através do seu yang. A própria palavra é suficiente para prevenir qualquer um: yang. Ela parece dizer “Mantenha-se afastado!” Ela diz “Pare. Não entre aqui. Fora! Cuidado com o cão!”

O direito é assim. O direito pertence ao lado errado da consciência. É útil, mas apenas um servo. Ele nunca deve ser o mestre. Então se você escrever o Hsin Hsin Ming de Sosan, escreva-o na sua palma esquerda.

É um livro tão belo, cada palavra é dourada. Não consigo conceber uma única palavra que pode ser apagada. É exatamente aquilo que é necessário, requerido, para dizer a verdade. Sosan deve ter sido um homem tremendamente lógico, pelo menos enquanto escrevia o seu Hsin Hsin Ming.

Eu falei sobre ele e eu amaria falar mais. Os maiores momentos do meu falar foram os que eu estava falando de Sosan. Falando e o silêncio juntos… falando embora não falando, porque Sosan só pode explicado através do não-falar. Ele não era um homem de palavras, ele era um homem de silêncio. Ele falava apenas o mínimo. Perdoe-me Sosan, esqueci-me de você. Somente por causa sua eu me lembro de alguns outros que podem bater na minha porta e perturbar o meu sono da tarde, por isso é melhor que eu os mencione.

O primeiro é Hsin Hsin Ming de Sosan.

O segundo é o Tertium Organum de P.D. Ouspensky. É um milagre que ele o tenha escrito antes de ouvir falar de Gurdjieff. Ele o escreveu antes de saber o que estava escrevendo. Ele próprio entendeu isso apenas posteriormente, ao encontrar Gurdjieff. As suas primeiras palavras para George Gurdjieff foram: “Olhando para os seus olhos eu entendi o Tertium Organum. Embora eu o tenha escrito, agora posso dizer que ele foi escrito por mim por algum poder desconhecido que eu não estava consciente.” Talvez foi aquele velhaco Gurdjieff que o escreveu por ele, ou talvez outra pessoa que os Sufis chamam de Velhaco Supremo, que fazia milagres – milagres como o Tertium Organum.

O título significa ‘o terceiro cânon do pensamento’. Os Sufis deram um nome àquele poder supremo; não é uma pessoa mas uma presença. Posso sentir aquela presença agora, aqui… nesse momento. Eles o chamam por um certo nome, porque tudo deve ter um nome, mas não vou dizê-lo, não na presença dessa beleza, desse esplendor… dessa exuberância… dessa exaltação… desse êxtase.

Eu disse que é um milagre que Ouspensky pôde escrever o Tertium Organum, um dos maiores livros em qualquer língua do mundo. De fato, diz-se, e com razão – lembre-se, enfatizo e repito, com razão – que existem apenas três livros excelentes: o primeiro é o Organum escrito por Aristóteles; o segundo é O Novo Organum escrito por Bacon; e o terceiro, por P.D. Ouspensky, o Tertium Organum. ‘Tertium’ significa terceiro. E Ouspensky muito travessamente – e apenas um santo pode ser travesso – introduziu o livro dizendo, sem qualquer ego, simples e humilde, que “o primeiro existe, mas não antes do terceiro. O terceiro existia mesmo antes do primeiro vir à existência.”

Ouspensky parece ter se desgastado total e completamente ao escrever o Tertium Organum, porque ele nunca pôde alcançar a mesma altura novamente. Mesmo reportando Gurdjieff em Na Busca do Miraculoso ele alcançou a mesma altura. Quando traiu Gurdjieff ele tentou finalmente criar algo melhor do que o Tertium. Como seu último esforço ele escreveu O Quarto Caminho mas falhou totalmente. O livro é bom, bom para qualquer currículo de universidade. Você pode ver que tenho os meus próprios métodos de condenar algo…

O Quarto Caminho pode ser parte de um currículo regular em um curso universitário, mas, além disso, ele não é nada. Embora ele estivesse tentando fazer o seu melhor, é o pior livro que Ouspensky escreveu. Foi seu último livro.

Esta é a dificuldade com tudo o que é grande: se você tentar, você perderá. Ele vem sem esforço ou não vem de maneira alguma. Ele o visitou no Tertium Organum e Ouspensky não tinha nem consciência disso. As palavras no Tertium são tão poderosas que não é possível acreditar que o autor não é iluminado, que ele ainda está buscando por um mestre, que ele ainda está em busca da verdade.

Eu era um estudante pobre, trabalhando o dia inteiro como um jornalista – esse é o pior emprego que existe, mas era o que estava disponível para mim naquela época – e eu precisava tanto que tive que ingressar em uma faculdade noturna. Então todo o dia eu trabalhava como jornalista e à noite eu ia para a faculdade. De certo modo o meu nome pertence à noite. Rajneesh significa lua: rajni significa noite, eesh significa Deus – Deus da noite.

Então as pessoas costumavam rir e dizer: “Isso é estranho: você trabalha o dia todo, e vai estudar a noite. Você está tentando realizar o seu nome?”

Agora posso respondê-las, sim – escreva em letras maiúsculas – SIM, eu estava tentando realizá-lo por toda a minha vida. O que poderia ser mais belo do que ser uma lua cheia? Então, como um estudante pobre naqueles dias, eu costumava trabalhar o dia todo. Mas eu sou um homem louco, rico ou pobre não importa…

Nunca gostei de ler livros emprestados dos outros. De fato, eu não gosto nem de emprestar de uma biblioteca, porque um livro de biblioteca é como uma prostituta. Odeio ver as marcas, os sublinhados de outras pessoas. Eu sempre amo o fresco, a frescura nívea.

O Tertium Organum era um livro caro. Na Índia, naqueles dias, eu estava recebendo um salário de apenas setenta rúpias por mês, e, por coincidência, o livro custava exatamente setenta rúpias – mas eu o comprei. O vendedor de livros ficou admirado. Ele disse, “Mesmo o homem mais rico da nossa comunidade não pode comprá-lo. Por cinco anos mantive-o a venda, e ninguém o comprou. As pessoas vinham e olhavam para ele, então abandonavam a ideia de comprar. Como pode você, um estudante pobre, trabalhando o dia todo e estudando à noite, trabalhando quase vinte quatro horas por dia, como você pode adquiri-lo?”

Eu disse, “Este livro eu posso comprá-lo mesmo se tivesse que pagá-lo com a minha vida. Apenas ler a primeira linha é o suficiente. Eu tinha que tê-lo qualquer que fosse o preço.”

Aquela primeira sentença que li na introdução era, “Este é o terceiro cânon do pensamento, e existem apenas três. O primeiro foi o de Aristóteles; o segundo de Bacon, e o terceiro, o meu próprio.” Eu estava excitado pela ousadia de Ouspensky, que ele disse, “O terceiro existia antes do primeiro.” Foi esta sentença que colocou fogo em meu coração.

Eu dei ao vendedor de livros todo o meu salário de um mês. Você não pode entender, porque naquele mês eu tive que quase morrer de fome. Posso lembrar aquele belo mês: sem comida, sem roupas – nem mesmo abrigo; porque não consegui pagar o aluguel fui colocado para fora do meu pequeno quarto. Mas eu estava feliz com o Tertium Organum sob o céu. Eu li este livro sob uma lâmpada de poste – confesso – e eu vivi este livro. Este livro é tão belo, e ainda mais agora que eu sei que o homem não sabia de maneira alguma. Como ele conseguiu? Deve ter sido uma conspiração dos deuses, algo do além. Não posso mais resistir de usar o nome que os Sufis usam; eles o chamam khidr. Khidr é o poder que guia àqueles que necessitam de orientação.

Tertium Organum é o segundo livro.

Terceiro: Geet Govind – a canção de Deus. Este livro foi escrito por um poeta muito condenado pelos Indianos, porque no Geet Govind, a sua canção de Deus, ele fala muito de amor. Os Indianos são tão contra o amor que eles nunca apreciaram essa grande obra.

O Geet Govind é algo que deve ser cantado. Nada por ser dito dele. É uma canção de um Baul, a música de um louco. Se você dançá-lo e cantá-lo, você o entenderá, não há outra forma.

Não estou mencionando o nome do homem que o escreveu. Isso não é importante. X-Y-Z… não que eu não saiba o nome, mas não vou mencioná-lo pela simples razão que ele não pertence ao mundo dos budas. Entretanto ele fez um grande serviço.

Quarto: Agora seja paciente, porque tenho que completar a lista de dez. Eu não consigo contar mais do que isso. Por que dez? – porque tenho dez dedos. É assim que o número dez surgiu: dez dedos. O ser humano começou a contar em seus dedos então o dez tornou-se o número básico.

Quarto: Samayasar de Kundkunda. Eu nunca falei sobre ele. Decidi várias vezes mas sempre abandonei a ideia. Esse é um dos maiores livros que os Jainas produziram, mas é muito matemático; é por isso que sempre abandonei a ideia. Eu amo poesia. Se ele fosse poético eu teria falado dele. Eu falei até mesmo de poetas não-iluminados, mas não falei de lógicos e matemáticos iluminados. A matemática é muito seca. A lógica é um deserto.

Talvez ele esteja aqui entre os meus sannyasin… mas ele não pode estar. Kundkunda foi um mestre iluminado, ele não pode nascer novamente. O seu livro é belo, só posso dizer isso. Não falarei nada mais porque é matemático… A matemática também tem a sua beleza, o seu ritmo, é por isso que eu a aprecio. Ela tem a sua própria verdade, mas é muito limitada e excessivamente da mão direita.

Samayasar significa a essência. Se por acaso você cruzar com o Samayasar de Kundkunda, então, por favor, nunca o segure com a sua mão esquerda. Mantenha-o na mão direita. É um livro da mão direita, direita em todos os sentidos. É por isso que recusei falar sobre ele até agora. É certo que eu sinta um pouco de aversão a ele – claro que com lágrimas nos meus olhos, porque eu conheço a beleza do homem que o escreveu. Eu amo Kundkunda, e eu essencialmente odeio a sua expressão matemática.

Gudia, você pode ter um pouco mais de liberdade porque tenho que falar sobre mais quatro livros. Se quiser, você pode sair novamente.

Quinto: A Primeira e a Última Liberdade de Krishnamurti. Eu amo esse homem e odeio esse homem. Eu o amo porque ele fala a verdade, mas o odeio por sua intelectualidade. Ele é somente razão, racionalidade. Eu me pergunto, ele pode ser a reencarnação do maldito Grego Aristóteles. A sua lógica é o que odeio, o seu amor é o que respeito – mas seu livro é belo.

Este foi o seu primeiro livro depois da sua iluminação, e o último também. Embora muitos outros livros tenham aparecido, eles são apenas repetições pobres do mesmo. Ele não foi capaz de criar nada melhor do que A Primeira e a Última Liberdade.

É um fenômeno estranho: Khalil Gibran escreveu sua obra-prima O Profeta quando ele tinha apenas dezoito anos e lutou sua vida toda para criar algo melhor e não conseguiu. Ouspensky não pôde ir além do Tertium Organum mesmo ao encontrar Gurdjieff, viver e trabalhar com ele por muitos anos. E assim também é o caso com J. Krishnamurti: o seu livro A Primeira e a Última Liberdade é realmente o primeiro e o último.

Sexto. O sexto é um livro de outro Chinês. O Livro de Huang Po. É um livro pequeno, não é um tratado, apenas fragmentos. A verdade não pode ser expressa em um tratado, você não pode escrever um Ph.D. sobre ela. Um Ph.D. é um título que deve ser dado aos tolos. Huang Po escreve em fragmentos. Na superfície eles parecem desconectados, mas ele não são. Você tem que meditar e então você pode encontrar a conexão. É um dos livros mais meditativos já escritos.

Em Inglês O Livro de Huang Po foi traduzido da maneira Inglesa como Os Ensinamentos de Huang Po. Até mesmo o título está errado. As pessoas como Huang Po não ensinam. Não há ensinamentos nele. Você tem que meditar, estar em silêncio, para entendê-lo.

O sétimo é O Livro de Hui Hi. Novamente em Inglês é traduzido como Os Ensinamentos de Hui Hi. Esses pobres Ingleses, eles pensam que não há nada mais na vida além de ensinamentos. Esses Ingleses são todos professores. E esteja atento as Inglesas; caso contrário você vai acabar com uma professora!

Hui Hi e Huang Po são ambos mestres. Eles transmitem, não ensinam. Por isso eu o chamo de O Livro de Hui Hi, embora você não irá encontrá-lo em bibliotecas. Nas bibliotecas você encontrará Os Ensinamentos de Hui Hi.

Oitavo: o último – pelo menos por hoje, porque ninguém sabe sobre o amanhã. Outros demônios podem começar a bater nas minhas portas. Eu devo ter lido mais do que qualquer ser humano vivo na Terra, e lembre-se, não estou me gabando, mas apenas declarando um fato. Eu devo ter lido pelo menos cem mil livros, possivelmente mais, mas não menos que isso, porque depois disso eu parei de contar.  Então eu não sei sobre amanhã, mas sobre o oitavo de hoje… estou me sentindo um pouco culpado porque eu não falei para vocês o nome do autor de Geet Govind. Eu vou dizê-lo, mas primeiro deixe-me terminar o oitavo.

O oitavo livro que me impressionou imensamente é um estranho, obviamente: caso contrário ele não me impressionaria de maneira alguma. Você ficará chocado! Adivinhe qual pode ser o oitavo livro… eu sei que você não pode adivinhá-lo – ele não está em Sânscrito ou Chinês, Japonês ou Árabe. Você já ouviu falar sobre ele, você pode tê-lo em sua casa. É a Canção de Salomão do Velho Testamento. Este livro eu amo sinceramente. Odeio tudo o que Judeu exceto a Canção de Salomão.

A Canção de Salomão é muito mal-entendida por causa dos supostos psicólogos, particularmente os Freudianos – as fraudes. Eles têm interpretado a Canção de Salomão da pior maneira possível; eles a transformaram em uma música sexual. Ela não é. É sensual, isso é verdade, muito sensual, mas não sexual. Ela é tão viva, por isso é sensual. Ela está tão cheia de sumo, por isso ela é sensual… mas não sexual. O sexo pode ser uma parte dela, mas não desencaminhe à humanidade. Mesmo os Judeus ficaram com medo dela. Eles pensam que ela foi incluída no Velho Testamento por acidente. De fato, esta música é a única coisa que vale a pena conservar; todo o restante merece ser jogado no fogo.

A minha hora acabou? Tão ruim. Você diz “Sim,” mas o que posso fazer? – esta é a própria beleza. Obrigado a ambos.

Om Mani Padme Hum

Quão belo é parar nessa beleza. Não, não, não. Esse “Não” é o que os Indianos falam quando alcançam a iluminação. Então eles não querem nascer novamente. Eles dizem “Não, não, não…” Depois dessa bela experiência, para que continuar?

 

CAPÍTULO 4

1984 na Casa Lao Tsé, Rajneeshpuram, Oregon, USA

 

Certo. Prepare-se para suas notas.

O mundo perderia muito sem as pessoas como Devageet. Nós não saberíamos nada de Sócrates se Platão não escrevesse as suas notas, nem de Buda, nem Bodidarma. Jesus também é conhecido através das notas de seus discípulos. Diz-se que Mahavira nunca declarou uma única palavra. Eu sei o significado do porquê isso é dito. Não é que ele não declarou uma única palavra, mas que ele nunca comunicou ao mundo diretamente; foi sempre através das notas de seus discípulos.

Não há nenhum caso conhecido onde uma pessoa iluminada tenha escrito algo ela própria. Como você sabe, para mim uma pessoa iluminada não é a coisa última. Há ainda um estado transcendental que não é nem iluminado nem não-iluminado. Ora, nesse estado de consciência é apenas através da comunhão íntima – não estou usando a palavra comunicação de propósito, mas comunhão – um tipo de fusão, que o discípulo torna-se apenas a mão do mestre.

Então prepare-se para as suas notas, porque da última vez, apesar de relutantemente, eu ia mencionar o nome do poeta cantor de Geet Govind. De alguma maneira, no entanto, consegui não o mencionar. Eu fingi tê-lo esquecido, mas isso pesa sobre mim. O dia todo me senti um pouco preocupado em relação a Jaydeva – este é o nome do poeta cantor de Geet Govind.

Por que eu não estava disposto a mencionar o seu nome? Para o próprio bem dele. Ele não chegou nem perto da iluminação. Eu mencionei Mikhail Naimy, o criador de O Livro de Mirdad; eu mencionei Khalil Gibran e muitos outros: Nietzsche, Dostoievsky, Walt Whitman. Eles não são iluminados, mas estão no limite; um empurrão e eles entrarão no templo. Eles estão parados na porta, sem ter a ousadia necessária para bater… e a porta não está trancada. Eles podem empurrar e ela abrir-se-á. Ela já está aberta, ela só precisa de um empurrão, assim como eles precisam de um empurrão. Por isso mencionei o nome deles.

Mas Jaydeva não está nem perto do templo. É um milagre como Geet Govind desceu até ele. Mas ninguém conhece os mistérios de Deus – e lembre-se que não há Deus, é apenas uma expressão. Ninguém conhece os mistérios da existência, a sua abundância. Às vezes ela verte em uma terra estéril, às vezes ela não chove em um solo fértil. É simplesmente assim, nada pode ser feito em relação a isso.

Jaydeva é uma terra infértil. Geet Govind, essa poesia tremendamente bela, a canção de Deus, desceu sobre ele. Ele deve tê-la cantado, composto, sem saber o que estava fazendo. Não o vejo em nenhum lugar perto do templo, é por isso que eu estava relutante em dizer o seu nome. Pode torná-lo ainda mais egoísta. É por isso que falei “para o bem dele”, mas senti que a falha não é do pobre homem – qualquer coisa que ele é, ele é – mas ele deu à luz a uma criança bela, e, se mencionei a criança então permita-me mencionar o nome do pai; caso contrário as pessoas pensarão que a criança é bastarda. O pai pode ter sido, mas a criança não.

Sinto um grande alívio porque terminei com Jaydeva para sempre. Mas há uma fila na porta. Você não sabe o dilema que me encontro. Eu não pensei nisso antes, porque não sou um pensador e nunca penso antes de pular. Eu pulo, e então penso. Foi apenas en passant que mencionei dez belos livros. Eu não estava pensando que muitos outros começariam a me aborrecer.

Primeiro: Os Fragmentos de Heráclito. Eu amo este homem. Deixe-me mencioná-lo, apenas de passagem, como uma nota na margem, que eu amo tudo, mas não gosto de tudo. Eu gosto de poucos e não gosto de poucos, mas amo todos. Sobre isso não há questão. Eu amo Jaydeva da mesma forma que amo Heráclito, mas de Heráclito eu também gosto.

Há muito poucos que posso colocar na mesma categoria que Heráclito. De fato, mesmo dizer isso não é verdade; não há ninguém. Agora estou dizendo o que eu sempre quis dizer. Não há ninguém, repito, que pode ser colocado na mesma categoria que Heráclito. Ele está bem longe – perigosamente desperto, sem temer as consequências do que está falando.

Ele diz nesses Fragmentos – novamente as notas de um Devageet, um discípulo. Heráclito não escreveu. Deve haver algo, alguma razão para essas pessoas não escreverem, mas trataremos disso mais para frente. Heráclito diz nos Fragmentos: “Você não pode entrar no mesmo rio duas vezes.” E então ele diz: “Não, você não pode entrar no mesmo rio nem mesmo uma vez…” Isso é tremendamente belo, e verdadeiro também.

Tudo está mudando e mudando tão rápido que não é possível entrar no mesmo rio duas vezes; você não pode nem mesmo entrar no mesmo rio uma vez. O rio está constantemente fluindo; fluindo, fluindo, fluindo para o oceano, para o infinito, indo desaparecer no desconhecido.

Esse é o primeiro da minha lista esta noite: Heráclito.

Segundo: Os Versos Dourados de Pitágoras. Ele foi um dos homens mais mal-entendidos, obviamente. Se você conhece com certeza você será mal-entendido, isso é certo. Entender é tão perigoso, porque então você será mal-entendido. Pitágoras não foi entendido nem pelos seus próprios discípulos, nem mesmo por aqueles que escreveram os Versos Dourados. Eles escreveram-no mecanicamente… porque nem mesmo um único discípulo de Pitágoras alcançou a sua altura, nem mesmo um tornou-se iluminado. E os Gregos o ignoraram completamente. Eles ignoraram o seu melhor: Heráclito, Sócrates, Pitágoras, Plotino. Eles quiseram ignorar Sócrates também, mas isso já era demais. Então eles tiveram que envenená-lo, eles não podiam apenas ignorá-lo.

Mas Pitágoras é completamente ignorado, e ele tem a mesma chave que Gautama o Buda, Jesus, ou qualquer outro iluminado. Uma coisa a mais: nem Jesus, nem Buda, nem Lao Tsé fizeram tanto esforço para encontrar a chave quanto Pitágoras. Ele trabalhou muito. Pitágoras foi o buscador mais autêntico. Ele arriscou tudo. Ele viajou por todo o mundo conhecido naqueles dias; estudou com todos os tipos de mestres; entrou em todos os tipos de escolas de mistério e satisfez as suas condições. Ele é uma categoria própria.

Terceiro: Um homem que não é tão conhecido, nem mesmo pelos seus próprios conterrâneos. O seu nome é Saraha, e o livro é chamado A Canção de Saraha; este é o título em Tibetano. Ninguém sabe quem o escreveu. Uma coisa é certa, Saraha nunca o fez, ele apenas o cantou. Mas ele tem a fragrância de um homem que sabe, de um homem que atingiu. A música não é a composição de um poeta, mas a realização de um místico. São apenas algumas linhas, mas de tamanha grandeza e beleza que as estrelas podem sentir-se envergonhadas.

A Canção de Saraha não foi traduzido. Eu o ouvi de um lama Tibetano. Eu gostaria de ouvi-lo várias vezes, mas o lama fedia tanto que tive que dizer “Obrigado…” Lamas fedem porque eles nunca tomam banho. O lama fedia – e eu sou alérgico a cheiros – foi demais para mim até mesmo ouvir a música inteira! Eu estava preocupado que eu teria um ataque de asma.

Eu falei muito de Saraha; ele é a fonte original da escola do Tantra.

Quarto: Tilopa e as poucas notas da sua música deixadas pelos seus discípulos. Eu me pergunto, sem esses discípulos, nós teríamos perdido muito. Essas pessoas que estavam apenas escrevendo qualquer coisa dita pelo mestre, sem pensar se estava certo ou errado, apenas tentando pôr em palavras as mais corretas possíveis. E é uma tarefa difícil. Um mestre é um louco, ele pode dizer qualquer coisa, ele pode cantar qualquer coisa, ou ele pode permanecer em silêncio. Ele pode somente fazer alguns poucos gestos com suas mãos, e esses gestos devem ser entendidos. Foi isso o que fez continuamente Meher Baba por trinta anos. Ele permaneceu em silêncio, apenas fazendo gestos com suas mãos.

A minha numeração está incorreta, Devageet?

“Não, Osho.”

Que bom… é tão bom estar correto às vezes. Com os números sou realmente bom. É uma estranha coincidência que eu tenha perguntado no momento certo. Eu sempre fico confuso com os números. Eu não consigo contar, pela simples razão que eu estou encarando o imensurável, o incontável. A verdade que estou encarando não está em palavras, nem em números. A verdade transcende tudo e é tão maravilhosa que confunde. Tudo fica de ponta cabeça, bizarro. Então isso é um grande elogio, que você disse que eu estava certo. Mas agora por favor diga-me, qual era o número?

“Número cinco, Osho.”

Obrigado.

Quinto: O homem que mencionarei agora não é reconhecido como iluminado porque não havia ninguém para reconhecê-lo. Apenas uma pessoa iluminada pode reconhecer outra. O nome desse homem é D.T. Suzuki. Esse homem fez mais do que qualquer outro no mundo moderno para tornar a meditação e o Zen acessíveis. Suzuki trabalhou toda a sua vida para introduzir no Ocidente o núcleo mais íntimo do Zen.

‘Zen’ é apenas a pronúncia Japonesa da palavra Sânscrita dhyana – meditação. Buda nunca utilizou o Sânscrito; ele o odiava, pela simples razão que o Sânscrito tornou-se a linguagem dos sacerdotes e estes estão sempre a serviço do demônio. Buda utilizava uma linguagem muito simples, aquela utilizada pela sua gente no vale do Nepal. O nome dessa linguagem é Pali. Em Pali dhyana é pronunciada ch’ana. As pessoas simples, ordinárias, iletradas, não podem apreciar as sutilezas de qualquer linguagem. Elas a utilizam de acordo consigo mesmas. É como uma rocha rolando rio abaixo, ela se torna redonda. É por isso que todas as palavras utilizadas pelas pessoas começam a ter uma certa esfericidade, uma simplicidade particular. Dhyana é difícil para as pessoas ordinárias pronunciarem; elas a pronunciavam ch’ana. Quando alcançou a China, de ch’ana ela tornou-se ch’na, e quando viajou para o Japão tornou-se Zen. Você pode ver – acontece em todos os lugares – as pessoas sempre tornam as palavras simples.

O livro de D.T. Suzuki O Zen e a Cultura Japonesa é o meu quinto. Esse homem fez muito para a humanidade, a ponto de ninguém poder transcendê-lo. A sua obra é imensa. Todo o mundo está em débito com ele e essa dívida permanecerá. Suzuki deveria ser uma palavra familiar. Ela ainda não é… estou falando que deveria ser. Muito poucas pessoas estão conscientes, e é responsabilidade daquelas que estão conscientes espalhar a sua consciência para longe.

Sexto: Introduzirei um Francês para você. Você ficará surpreso. Por dentro você está perguntando, “Um Francês? E sendo listado pelo Osho juntamente com Pitágoras, Heráclito, Suzuki? Ele ficou realmente louco?”

Sim, eu nunca fui são, não nesses últimos vinte e cinco anos, ou um pouco mais. Antes disso eu também era são, mas graças a Deus – lembre-se novamente que é apenas uma expressão, porque Deus não existe, apenas a divindade. Eu não esqueço de mencioná-lo porque existe toda a possibilidade de mesmo os meus seguidores, os meus discípulos, começarem a adorar Deus – ou a mim como um Deus. Deus não existe, nunca existiu.

Nietzsche está errado quando diz, “Deus está morto!” – não porque Deus esteja morto, mas porque ele nunca esteve vivo, então como poderia estar morto? Para estar morto é preciso primeiramente satisfazer a condição de estar vivo. É aí que Sartre está errado: ele concorda com Nietzsche. Eu digo “Obrigado Deus!” – utilizo a palavra porque não há outra para utilizar em seu lugar. Mas é apenas uma palavra, sem conteúdo. “Obrigado Deus” simplesmente quer dizer que é bom, que é belo.

Estou me sentindo tão alegre que, Devageet, você tem que relembrar-me novamente qual era o sexto livro que eu estava falando.

“Um Francês, Osho.”

Certo. Eu ainda não mencionei o nome. O livro é Deixe Ir de Hubert Benoit. Ele deveria estar na estante de todo meditador. Ninguém escreveu tão cientificamente e, entretanto, tão poeticamente. É uma contradição, mas ele conseguiu. Deixe Ir de Hubert Benoit é o melhor que surgiu do mundo Ocidental moderno. É o melhor livro do século no que diz respeito ao Ocidente.

O sétimo: Ramakrishna, as suas Parábolas. Você sabe que eu não gosto muito de santos. Isso não significa que eu gosto deles um pouco – eu simplesmente não gosto deles de maneira alguma. De fato, para falar a verdade, eu os odeio. Santos são falsos, enganosos, da matéria que a mentira é feita. Mas Ramakrishna não pertence a eles – novamente, obrigado Deus! Pelo menos existem algumas poucas pessoas que são santificadas e, entretanto, não são santas.

As Parábolas de Ramakrishna são muito simples. Parábolas necessariamente são simples. Você se lembra das parábolas de Jesus? Da mesma maneira. Se uma parábola é difícil então ela não é mais útil. Uma parábola só é necessária se ela pode ser entendida por crianças de todas as idades. Sim, crianças de todas as idades. Existem crianças de dez anos e existem crianças de oito anos, e assim por diante… mas elas são todas crianças brincando na praia, coletando conchas. As Parábolas de Ramakrishna é meu sétimo livro.

Oitavo: As Fábulas de Ésopo. Ora, Ésopo não é realmente uma pessoa histórica; ele nunca existiu. Buda utilizou todas aquelas parábolas em seus sermões. Com a viagem de Alexandre para a Índia, aquelas parábolas foram trazidas para o Ocidente. É claro que muitas coisas mudaram, até mesmo o nome de Buda. Buda era chamado de o Bodisatva.

Buda disse que existem dois tipos de budas: um é o arhat, alguém que atingiu a sua budidade e então não se preocupa com ninguém mais; e o bodisatva, que atinge a budidade e então dá o seu melhor para ajudar os outros no caminho. ‘Bodisatva’ foi a palavra carregada por Alexandre como bodhisat, que então torno-se Josephus; então, de Josephus tornou-se Ésopo. Ésopo não é uma pessoa histórica, mas as parábolas são tremendamente significantes. Este é meu oitavo livro de hoje.

Nono: o Mula Madhyamika Karika de Nagarjuna. Eu não gosto muito de Nagarjuna; ele é um filósofo, e eu sou anti-filosófico. Mas o seu Mula Madhyamika Karika, os seus Karikas para abreviar… Mula Madhyamika Karika significa a essência do caminho do meio – o caminho do meio essencial. Em seus Karikas ele alcançou as profundezas da capacidade das palavras. Eu nunca falei sobre ele. Se você quer falar sobre o essencial, a melhor maneira é não falar de maneira alguma, apenas ficar em silêncio. Mas o livro é tremendamente belo.

Décimo: o último dessa noite é um livro estranho; ordinariamente ninguém pensaria que eu o incluiria. É a grande obra de Marpa, o místico Tibetano. Mesmo os seus seguidores não o leram; não é feito para ser lido, é um enigma. Você tem que meditar sobre ele. Você tem que apenas olhar para ele e então, de repente, o livro desaparece – os seus conteúdos desaparecem, e apenas a consciência permanece.

Marpa era um homem muito estranho. O seu mestre Milarepa costumava dizer, “Até mesmo eu me curvo para Marpa.” Nenhum mestre disse isso, mas Marpa era um ser humano tal…

Alguém certa vez disse a Marpa, “Você acredita em Milarepa? Se sim então pule nesse fogo!” Imediatamente ele pulou! As pessoas correram por todos os lados para extinguir o fogo sabendo que Marpa tinha pulado nele. Quando o fogo foi extinto eles o encontraram sentado ali na postura de buda rindo hilariantemente!

Eles perguntaram a Marpa, “Por que você está rindo?”

Ele disse, “Estou rindo porque a confiança é a única coisa que o fogo não pode destruir.”

Este é o homem cujas canções simples conto como o décimo – O Livro de Marpa.

A minha hora acabou? Posso ouvir vocês falando sim, embora eu saiba que a minha hora nem chegou ainda. Como ela pôde terminar? Eu vim antes do meu tempo, é por isso que sou mal-entendido.

Mas, em relação a vocês, vocês estão certos: a minha hora terminou. E isso é realmente belo. Não há expressão para isso. Isso é tão belo, é melhor terminá-lo agora.

 

CAPÍTULO 5

1984 na Casa Lao Tsé, Rajneeshpuram, Oregon, USA

 

Agora o trabalho começa.

“Athato brahman jigyasa – agora a investigação sobre o supremo…” é assim que Badrayana começa o seu grande livro, talvez o maior. O livro de Badrayana é o primeiro que vou falar sobre hoje. Ele começa seu grande livro Brahman Sutras com essa sentença: “Agora a investigação sobre o supremo.” É assim que todos os sutras no Oriente começam, sempre com “Agora… athato,” nunca de outra forma.

Badrayana é um daqueles que necessariamente serão mal-entendidos, pela simples razão que ele é muito sério. Um místico não deveria ser tão sério, essa não é uma boa qualidade. Mas ele era um brâmane vivendo há milhares de anos atrás, vivendo entre brâmanes, falando como brâmane, e os brâmanes são as pessoas mais sérias do mundo. Você sabia que a Índia não tem piadas? Não é estranho que um país tão grande não tenha piadas? Uma história tão grande sem piadas! Os brâmanes não podiam fazer piadas porque a piada parecia muito profana, e eles são pessoas sagradas.

Eu posso entender e perdoar Badrayana, mas não posso esquecer de mencionar que ele é um pouco sério demais. Eu hesitei em incluí-lo na minha lista de livros. A hesitação foi unicamente por causa da sua seriedade. Eu não hesitei sobre Mirdad; eu não hesitei nem um pouco até mesmo em relação ao Rubaiyat, de Omar Khayyam. Mas hesitei sobre Badrayana e seus Brahman Sutras, que no Oriente é considerado um dos maiores livros – e certamente o é.

Eu li muitos livros sérios, até mesmo o Tudo e Todo daquele santo velhaco George Gurdjieff, mas não há nada que compita com o Brahman Sutras de Badrayana em relação à seriedade. Ele é o máximo em sua seriedade também. Ai de mim, se ele pudesse ter gargalhado um pouco!

Os Cristãos acreditam que Jesus nunca riu. Eu refuto isso. Eu refuto absolutamente! É possível em relação a Badrayana; ele pode nunca ter rido. Ele é tão sério, totalmente sério. Você não pode criar um livro mais sério. Milhares de comentários foram escritos para explicar o que ele quer dizer. A verdade não necessita de comentário, mas quando você a coloca em uma veste séria, naturalmente os comentadores seguem-se, e os comentadores sempre servem ao demônio. Ainda assim é um grande livro; apesar da seriedade de Badrayana, ele é excelente. Badrayana alcança o mais alto, o supremo, com grande sagacidade, com grande eficiência, a eficiência de um cientista.

Na Índia uma pessoa é chamada de acharya, um mestre, apenas se escreveu um comentário sobre três coisas: primeiro, os cento e oito Upanishads; segundo, Shrimad Bhagavadgita, as canções celestiais de Krishna; terceiro, o mais importante de todos, os Brahman Sutras de Badrayana. Eu nunca falei sobre ele. Eu fui chamado de acharya por muitos anos, e as pessoas perguntavam-me se eu tinha escrito todos os comentários – o Gita, os Upanishads e os Brahman Sutras. Eu ria e dizia, “Eu só conto piadas, eu não escrevo nenhum comentário de maneira alguma. O fato de eu ser chamado de acharya é uma piada, não o tome seriamente.”

O Brahman Sutra. Brahma é conhecido e entendido como Deus, mas não é assim. Brahma não tem nada a ver com a ideia Cristã de Deus criando o mundo quatro mil e quinhentos anos antes de Jesus Cristo. Quando falo penso que se Badrayana tivesse ouvido, talvez até mesmo ele riria, talvez perdesse a sua seriedade. Brahman não quer dizer Deus; Brahma quer dizer divindade, o divino que permeia toda a existência…o todo, a santidade do todo.

Sutra significa simplesmente um rastro. Você não pode falar muito sobre Brahma; qualquer coisa que você diga sobre é apenas um rastro, uma pista. Mas uma pista pode tornar-se uma ponte, um rastro pode tornar-se uma ponte, e Badrayana fez uma ponte no interior dos seus sutras.

Eu amo o livro apesar da seriedade de Badrayana. Eu odeio tanto a seriedade que tive que dizer “apesar da seriedade de Badrayana.” Eu ainda o amo por criar um dos livros mais significantes do mundo. As ‘bíblias’ estão muito longes dos Sutras de Badrayana, elas não chegam nem perto deles.

Segundo: os Bkati Sutras de Narada. Narada é o oposto de Badrayana, e eu amo colocar os opostos juntos. Eu gostaria de colocar Narada e Badrayana no mesmo quarto e curtir qualquer coisa que acontecesse entre eles. Narada sempre carregava uma ektara, um instrumento musical com apenas uma corda – ek significa um, e tara significa corda. Narada sempre carregava a sua ektara, tocando-a, cantando e dançando. Badrayana não o toleraria de maneira alguma. Eu posso tolerar todos os tipos de pessoas. Badrayana poderia berrar e gritar com Narada. Narada não era o tipo de pessoa que teria ouvido Badrayana; ele continuaria a tocar, cantando ainda mais alto para irritar Badrayana. Eu desfrutaria vê-los ambos juntos no mesmo quarto. É por isso que o segundo livro que escolhi foi os Bhakti Sutras de Narada.

Os seus sutras começam com “athato bhakti jigyasa – agora a investigação sobre o amor…” Investigar o amor é a maior exploração, a maior investigação. Todo o resto fica pequeno, mesmo a energia atômica. Você pode ser um cientista até mesmo do calibre de Albert Einstein, mas você não conhece a investigação real a menos que você ame. E não apenas ame, mas ame com consciência… então isso se torna uma investigação do amor, a tarefa mais difícil do mundo.

Deixe-me repetir, é a tarefa mais difícil do mundo – o amor com consciência. As pessoas caem de amor; as pessoas tornam-se inconscientes no amor. O amor delas é apenas biológico, é gravitação. Elas são puxadas para baixo em direção à terra. Mas Narada está falando sobre um amor totalmente diferente: o amor como meditação, como consciência. Ou, em termos científicos, o amor como levitação, contra a gravidade. Deixe a gravitação para a sepultura; levite, erga-se! E quando alguém começa a elevar-se para o amor, voar em direção às estrelas, isso é athato bhakti jigyasa.

Por que vocês parecem todos tão preocupados? Eu amo os demônios – deixe-os trabalhar, deixe-os criar o máximo de barulho que puderem. Em relação a mim eles não podem me perturbar, e, em relação a você, você já está perturbado, o que mais eles podem fazer? Então tudo está perfeitamente bem, tudo é como deveria ser.

Eu amei o livro de Narada tremendamente. Eu falei sobre ele, mas não em Inglês, porque o Inglês não é a minha língua, e, além disso, é muito científica, matemática, moderna. Eu falei de Narada em Hindi, a minha língua materna, na qual posso cantar mais facilmente. Está mais próxima do meu coração.

Um dos meus professores costumava dizer, “Você não pode amar em uma língua estrangeira e você também não pode brigar.”

Quando se trata de uma briga uma pessoa quer falar a linguagem do coração. Quando se trata do amor é o mesmo, ainda mais porque é necessária uma maior profundidade.

Quando falo em Inglês necessariamente vou falá-lo erradamente, porque é um trabalho duplo. Eu ainda estou falando em Hindi e então traduzindo-o para o Inglês. É uma tarefa difícil. Falar diretamente em Inglês não aconteceu comigo, obrigado Deus! Lembre-se, Deus não existe; ele é apenas criado para que possamos agradecer a alguém. Espero que alguém traduza o que eu disse sobre Narada.

Eu falei de muitas coisas em Hindi as quais não falei em Inglês porque não era possível. E vice-versa também: Eu falei em Inglês de muitas coisas que não eram possíveis de falar em Hindi. O meu trabalho tem sido um pouco estranho. Quando todos os meus livros forem traduzidos do Hindi para o Inglês, e do Inglês para o Hindi, vocês ficarão ainda mais desnorteados, mais intrigados – e eu darei uma grande gargalhada. Se eu estiver no corpo ou não, não importa; Eu darei uma boa gargalhada, prometo, onde eu estiver! Necessariamente estarei em algum lugar do cosmos. Vendo-os intrigados, desnorteados, balançando as suas cabeças, não sendo capazes de acreditar, porque eu falei em ambas essas linguagens em dimensões diferentes… Eu apenas escolho falar em Inglês porque há uma dimensão que não pode ser expressa em Hindi.

O terceiro livro é os Yoga Sutras de Patanjali. Badrayana é muito sério. Narada é muito não-sério. Patanjali está justamente no meio, exatamente no meio: nem sério nem não-sério, o próprio espírito de um cientista. Eu falei dez volumes sobre Patanjali então não há necessidade de falar mais sobre ele. Depois de dez volumes seria difícil dizer qualquer coisa a mais, adicionar qualquer coisa a mais. Apenas uma coisa, que eu amo o homem.

Quarto: Kabir, As Canções de Kabir. Nada como isso existe no mundo. Kabir é incrivelmente belo. Um homem sem educação, nascido um tecelão – de quem ninguém sabe – sua mãe o abandonou nas margens do Ganges. Ele deve ter sido uma criança ilegal. Mas não é suficiente apenas ser legal; ele era certamente ilegal, mas nasceu do amor, e o amor é a lei real. Eu também falei muito de Kabir, então não há necessidade de adicionar qualquer coisa exceto repetir, “Kabir, eu te amo como nunca amei qualquer homem.”

A minha numeração ainda está correta?

“Sim, Osho.”

Isso é ótimo. Os demônios não podem me perturbar de maneira alguma!

Quinto: Agora eu trago uma mulher. Eu estive pensando repetidas vezes em trazer uma mulher, mas os homens estavam aglomerados na porta – muito descorteses! – e eles não deixavam as mulheres entrar. E a mulher que, de alguma maneira, conseguiu entrar… meu Deus, que mulher! Madame Blá-Blá-Blavatsky. É assim que sempre chamo Blavastky: Blá-Blá. Ela era ótima para escrever blá-blá – escrevendo tudo sobre nada, criando montanhas de montículos de terra. E eu sabia que ela seria a primeira mulher a entrar. Ela era uma mulher forte. Ela de alguma forma empurrou para longe todos os Patanjalis, Kabirs, Badrayanas, e entrou com sete volumes da A Doutrina Secreta. Este é o meu quinto livro. É quase uma enciclopédia, Enciclopédia Esotérica. Ninguém, penso, pode competir com Blavatsky no que diz respeito ao esoterismo – exceto eu é claro; eu posso escrever setecentos volumes. É por isso que evitei falar de A Doutrina Secreta: porque se eu falasse sobre os sete volumes de A Doutrina Secreta, então, Inshallah, com a vontade de Deus, eu produziria sete centenas de volumes, não menos que isso.

Foi-me relatado que já falei trezentos e trinta e seis livros. Meu Deus! Deus é piedoso – piedoso porque eu não tenho que os ler. Eu não li nenhum deles. Mas Blavatsky imediatamente faria algo a partir disso. É isso o que chamo esotericismo. Trezentos e trinta e seis livros: três-três-seis, isso significa três mais três igual a seis… sessenta e seis; seis mais seis é doze… um mais dois… novamente três! No momento em que você chega ao três então você não pode parar o esotérico; ele tem a chave. O esotérico abrirá portas que você nunca imaginou. O três é suficiente para abrir todas as portas, trancadas ou destrancadas.

Blavatsky, pobre mulher – tenho pena dela e a amo também, apesar da sua face, que não é amável, nem mesmo gostável, o que dizer de amor! A sua face só poderia ser usada para assustar as crianças quando estas fazem algo sórdido. Blavastky tinha realmente uma face muito feia – mas eu tenho pena dela: no mundo dos homens, feito pelos homens, dominado pelos homens, ela é a única mulher que se impôs, dominou, e começou a primeira religião já criada por uma mulher… a Teosofia. Ela competiu com Buda, Zaratustra, Maomé, e eu a agradeço por isso. Alguém deveria fazê-lo. O homem tem que ser colocado em seu lugar. Eu a agradeço por isso.

A Doutrina Secreta, embora cheio de bobagem esotérica, tem muitos diamantes belos também, e muitos lótus. Há muito lixo nele porque ela era uma coletora. Ela seguiu coletando todos os tipos de lixos de todos os locais possíveis, sem preocupar-se se eram úteis ou não. Ela era ótima em colocar todo aquele disparate inútil de uma forma sistemática. Uma mulher muito sistemática. Mas há poucos – é triste dizer apenas poucos – diamantes aqui e ali.

Como um todo o livro não tem muito valor. Eu o estou incluindo apenas para que algumas mulheres sejam incluídas na minha lista e eu não seja considerado um chauvinista masculino. Eu não sou. Eu posso ser um chauvinista feminino, mas não um chauvinista masculino de maneira alguma.

Sexto, As Canções de Meera. Depois de Blavatsky eu tenho que incluir Meera apenas para tornar as coisas belas novamente, apenas para equilibrar. Blavatsky é muito pesada e serão necessárias mais algumas mulheres para equilibrá-la. Eu farei isso. Em sexto estão as Canções de Meera; elas são as mais belas já cantadas por qualquer homem ou mulher. É impossível traduzi-las.

Meera diz: “main to prem divani – estou loucamente apaixonada, tão loucamente apaixonada que estou louca, louca, louca!” Talvez isso possa ser uma pequena dica de que tipos de músicas ela canta. Ela era uma princesa, uma rainha, mas renunciou ao palácio para ser uma pedinte nas ruas. Tocando a sua veena ela dançava no mercado, de vila em vila, cidade em cidade, cantando o seu coração, vertendo a si mesma totalmente. Eu falei de Meera em Hindi; algum dia algum louco pode traduzir o que eu disse.

Sétimo: Outra mulher. Estou apenas tentando equilibrar a pesada Blá-Blá Blavatsky. Ela era realmente pesada, literalmente pesada, deve ter pesado cento e trinta quilos! Cento e trinta quilos e uma mulher! Ela teria arremessado o seu suposto Muhammad Ali em um único momento. Ela esmagaria o suposto maior de todos os tempos sob os seus pés, não deixando nenhum traço para trás. Cento e trinta quilos – uma mulher real! Não é de surpreender que ela não pôde encontrar um amor, apenas seguidores. Naturalmente, obviamente, você não pode amar uma mulher dessas. Se ela forçar você, você pode apenas seguir. Para equilibrar Blavastky, o sétimo, As Canções de Sahajo.

Outra mulher, Sahajo. Até o nome é poético, ele significa ‘a própria essência da espontaneidade’. Eu falei de Sahajo, novamente em Hindi porque o Inglês não me permite ser tão poético. Eu não vejo muita poesia na língua Inglesa, e o que eu vejo em nome da poesia parece tão não-poético que me pergunto porque ninguém se rebela contra isso. Por que não existem pessoas que queiram recomeçar o Inglês, mas poeticamente? Ele está se tornando cada vez mais a linguagem do cientista, do técnico, ou, para colocar melhor, do tecnologista. É um infortúnio. Espero que algum dia o que eu disse sobre Sahajo seja conhecido no mundo todo.

Oitavo: outra mulher, porque ainda não equilibrei aquela campeã dos pesos-pesados Blá-Blá Blavatsky. A próxima mulher o fará. Ela é uma Sufi; o seu nome é Rabiya al-Adabiya. Al-Adabiya significa ‘da vila de Adabiya’. Rabiya é o seu nome, al-Adabiya é seu endereço. É assim que os Sufis a chamam: Rabiya al-Adabiya. A vila tornou-se a própria Mecca quando Rabiya ainda estava viva. Viajantes de todo o mundo, buscadores de todos os lugares, chegavam procurando a cabana de Rabiya. Ela era realmente uma mística feroz; com um martelo em sua mão ela podia quebrar o crânio de qualquer um. Ela realmente quebrou muitos crânios e retirou a essência escondida.

Certa vez Hassan foi até ela buscando, investigando. Em uma manhã, enquanto estava com ela, ele pediu o Alcorão para a sua oração matinal. Rabiya deu-lhe o seu próprio livro. Hassan ficou horrorizado; ele disse, “Isso é condenável. Quem fez isso?” Rabiya tinha corrigido o Alcorão! Ela tinha riscado muitas palavras em muitos locais. Ela até mesmo tinha cortado páginas inteiras. Hassan disse, “Isso não é permitido. O Alcorão não pode ser editado. Quem pode editar o profeta – o último mensageiro de Deus?” É por isso que os Islâmicos o chamam de o último mensageiro – porque não haverá mais profetas depois de Maomé, então quem poderia corrigir as suas palavras? Ele está correto e não é corrigível.

Rabiya riu e disse, “Eu não ligo para a tradição. Eu vi Deus face a face e alterei o livro de acordo com a minha experiência. Este é o meu livro,” ela falou; “você não pode levantar nenhuma objeção. É meu pertence. Você deve estar agradecido que permiti que você o utilizasse. Eu tenho que ser verdadeira com a minha experiência, não com a de alguém.”

Essa é Rabiya, a mulher incrível. Eu a incluo na minha lista. Ela é suficiente para colocar Madame Blavatsky em seu lugar. Novamente, as palavras de Rabiya não foram escritas por ela, mas são apenas notas de discípulos, assim como as de Devageet. Rabiya podia falar algo fora do contexto – ninguém poderia compreender o contexto; de repente ela dizia algo e aquilo era anotado. Assim são as anedotas que ela está relacionada e a anedota que a sua própria vida tornou-se. Eu amo isso.

Meera é bela, mas sem sal, apenas doce. Rabiya é muito salgada. Como você sabe eu sou diabético e não posso comer ou beber muito de Meera – Devaraj não o permitiria. Mas com Rabiya está tudo bem, posso comer qualquer quantidade de sal que eu quiser. De fato odeio açúcar e odeio ainda mais sacarina, o açúcar artificial criado especialmente para diabéticos – mas amo o sal.

Jesus disse aos seus discípulos: Vós sois o sal da Terra. Eu posso falar de Rabiya: Rabiya, você é o sal de todas as mulheres que existiram e existirão na Terra.

Nono: Nanak, o fundador do Siquismo, as suas canções. Ele perambulou em torno do mundo conhecido em seus dias com um único discípulo, Mardana. Mardana significa masculino – ‘o realmente bravo’. Para ser um seguidor é preciso ser bravo. Nanak costumava cantar enquanto Mardana tocava em sua cítara, e foi assim que eles perambularam em torno do mundo espalhando a fragrância do que é definitivo. As suas canções são tão belas, elas trazem lágrimas aos meus olhos. Somente por causa de suas canções uma nova linguagem foi criada. Porque ele não ouvia a nenhuma gramática, a quaisquer regras de linguagem, regulações, ele criou o Punjabi apenas através das suas canções. É uma linguagem tremendamente forte, assim como a lâmina afiada de uma espada.

Décimo. Eu sempre quis falar de Shankaracharya – o primeiro, não o presente – o Shankaracharya original, o Shankaracharya. Eu decidi falar sobre o seu famoso livro, Vivek Chudamani – A Joia Encristada da Consciência. No último momento… você sabe que sou um homem louco; no último momento decidi não falar dele. A razão era simples: o livro é mais lógica do que amor, e eu teria que sofrer daquela lógica. Não é um livro pequeno. É um livro grande e eu falaria sobre ele por oito meses continuamente. Seria uma longa jornada e era melhor cancelá-la, então decidi não falar dele. Mas ele tem que ser incluído entre os grandes livros que estou enumerando.

Vivek Chudamani, de Shankaracharya, tem diamantes aqui e ali, flores, estrelas. Mas o lixo brâmane no meio é muito grande e muito grosso, não posso tolerá-lo. Mas o livro é ótimo – você não pode renunciar a uma mina de diamantes apenas porque há muitas pedras e muita lama em volta.

Décimo primeiro e o último da série: O Alcorão de Hazrat Maomé. O Alcorão não é um livro para ser lido, mas um livro para ser cantado. Se você o ler você deixará escapar. Se você o cantar, se Deus quiser, você talvez poderá descobri-lo.

O Alcorão não foi escrito por um erudito ou um filósofo. Maomé era absolutamente iletrado, ele não podia nem mesmo assinar o seu próprio nome, mas ele foi possuído pelo espírito de Deus. Por causa da sua inocência ele foi escolhido e iniciou a música, e esta música é o Alcorão.

Eu não entendo o Árabe, mas entendo o Alcorão porque posso entender o ritmo e a beleza do ritmo, dos sons Árabes. Quem liga para o significado! Quando você vê uma flor você pergunta, “O que ela significa?” A flor é suficiente. Quando você vê uma chama, você pergunta, “O que ela significa?” Uma chama é suficiente. A sua beleza é o seu significado. A sua própria insignificância, se rítmica, é significante.

Assim é o Alcorão e sou grato que Deus me permitiu – e lembre-se, não há nenhum Deus, essa é apenas uma expressão. Ninguém está permitindo-me. Inshallah, graças a Deus tenho a permissão de terminar essa série com o Alcorão, o mais belo, o mais sem sentido, o mais significante embora o mais ilógico livro de toda a história da humanidade.

 

CAPÍTULO 6

1984 na Casa Lao Tsé, Rajneeshpuram, Oregon, USA

 

Agora o pós-escrito. Na última sessão, quando eu disse que era o fim dessa série de cinquenta livro que eu gostaria de incluir na minha lista, aquilo era arbitrário. Não quero dizer do fim, mas do número. Escolhi cinquenta porque pensei que seria um bom número. De alguma forma alguém tem que decidir, e todas as decisões são arbitrárias. Mas o homem propõe e Deus dispõe – Deus, que não existe.

Quando eu disse que era o fim da série, a multidão que estava me perturbando – Jaydeva do Geet Govind, Madame Blá-Blá Blavatsky da A Doutrina Secreta, e toda a companhia, muitos que dos quais eu conheço, mas nem mesmo quis reconhecer, o que dizer sobre incluí-los em minha lista. Ouvindo que era o fim, todos dispersaram.

Então, para minha total alegria, eu vi o significado do provérbio de Jesus: Abençoados são os humildes, pois deles é o reino de Deus. Ele também diz: Abençoados são aqueles que são os últimos, que não tentam empurrar – em suma, que não são agressivos, que apenas aguentam e esperam. Quando a multidão dispersou eu vi aqueles poucos abençoados; por isso o pós-escrito.

Até mesmo eu não pude acreditar que não incluí o Dhammapada de Buda. Gautama o Buda estava sentado ali silenciosamente em último da fila. Eu amo o homem e não amei ninguém mais. Falei sobre ele durante toda a minha vida. Mesmo falando dos outros eu falava dele. Tome nota disso, é uma confissão. Eu não posso falar de Jesus sem trazer Buda; Não posso falar de Maomé sem trazer Buda. Se menciono ele diretamente ou não essa é outra questão. É realmente impossível para mim falar sem trazer Buda. Ele é meu próprio sangue, meus ossos, minha própria medula. Ele é meu silêncio, minha música também. Quando eu o vi sentado ali eu lembrei. Não posso nem mesmo me desculpar, está além do desculpar-se.

Dhammapada literalmente quer dizer ‘o caminho da verdade’, ou ainda mais precisamente ‘as pegadas da verdade’. Você vê a contradição?

Chegando

e partindo

a ave aquática

não deixa nenhum traço para trás,

nem precisa de um guia.

A verdade é inefável. Não há pegadas. Os pássaros voando no céu não deixam nenhuma pegada…e os budas são pássaros do céu.

Mas os budas sempre falam por contradições, e é belo que, pelo menos, eles falam. Eles não podem falar sem contradizer a si próprios, eles não podem fazer nada. Falar da verdade é contradizer-se. Não falar é novamente contradizer, porque mesmo quando você não está tentando falar, você sabe que o seu silêncio não é nada exceto uma expressão, talvez sem palavras, mas igualmente uma expressão.

Buda deu o nome de Dhammapada ao seu maior livro, e existem contradições sobre contradições. Ele é tão cheio de contradições que, acredite, exceto eu ninguém pode vencê-lo. É claro que ele gostaria de ser vencido por mim, assim como um pai, de vez em quando, gosta de ser vencido pelo seu próprio filho. O filho sentado no peito do pai vitorioso, e o pai simplesmente o deixou ganhar. Todos os budas permitem serem vencidos por aqueles que os ama. Eu permito que meus discípulos me derrotem, que eles vão além de mim. Não pode haver alegria maior do que ver um discípulo transcender-me.

Buda começa com o próprio nome Dhammapada – é isso o que fará: ele falará sobre o inefável, declarará o não-declarável. Mas ele declarou o não-declarável de forma tão bela que o Dhammapada é como um Everest. Existem numerosas montanhas, mas nenhuma equipara-se ao Everest.

Eu vi Buda sentado. Eu vi outros também, os mais belos, os mais humildes – não como Blavastky martelando na porta gritando “Deixe-me entrar!” Eu vi Mahavira despido… porque a verdade é nua, mantendo-se em total silêncio. Os seus discípulos seguram o seu livro, não ele próprio.

Segundo: Jin Sutras – Os Sutras do Conquistador. Jin é uma palavra bela, ela quer dizer conquistador: aquele que conquistou a si próprio.

Eu falei desses sutras em muitos volumes, mas eles ainda permanecem não traduzidos para o Inglês. Uma coisa eu gostaria de falar: que eu incluo os Jin Sutras no pós-escrito.

Ninguém foi tão silencioso quanto Mahavira, nem tão despido. Apenas o silêncio pode ser despido. Lembre-se, eu não estou falando nu, estou falando despido. Ambas as palavras são totalmente diferentes. ‘Nu” é pornográfico; ‘despido’ é apenas totalmente aberto, vulnerável, descoberto. Uma criança não é nua, mas apenas despida. Mahavira despido é tão belo.

Diz-se que ele nunca falou os seus sutras para ninguém; apenas os mais íntimos, sentados ao seu lado, ouviram esses sutras dentro de si próprios. Eles simplesmente ouviram. É uma daquelas coisas milagrosas… Havia um círculo com onze discípulos íntimos ao redor de Mahavira, e quando todos eles simultaneamente ouviram a mesma palavra, então eles pensaram que a palavra valia a pena ser registrada, embora Mahavira não tivesse dito nada abertamente, mas de alguma maneira sutil, através de uma vibração.

Os Jin Sutras foram escritos de uma forma totalmente diferente de qualquer outro livro em todo o mundo. O mestre permaneceu em silêncio, e onze discípulos simultaneamente ouviram – enfatizo a palavra simultaneamente – a mesma palavra, então eles a registraram. É assim que o Jin Sutras nasceu. Que nascimento de um livro! Não é possível conceber um início mais belo, e ele certamente contém a luz mais elevada que um ser humano é capaz e toda a ciência do conquistar a si mesmo.

Terceiro… eu vi um homem que não pude reconhecer. “Estranho,” pensei. “Através de milhares de vidas eu fui um viajante em muitos caminhos, com muitas pessoas, em muitas escolas. Quem é esse homem? Ele é tão irreconhecível.” Ele não foi um mestre, é por isso que não pude reconhecê-lo, mas foi suficientemente humilde para ser incluído. Eu sempre amei o seu livro. Não posso encontrar nenhuma razão do porquê esqueci de incluí-lo na lista de cinquenta e um. O homem era um Grego, Kazantzakis, o autor de Zorba o Grego. Eu nem mesmo sei como o seu nome é pronunciado, mas Zorba o Grego é uma obra-prima. O homem que o produziu não é um Buda, nem um Mahavira, mas será capaz de transformar-se em um ou outro a qualquer momento. Ele está quase pronto, maduro, como se apenas estivesse esperando por sua estação.

Zorba é um dos meus amores. Eu amo pessoas estranhas. Zorba é um homem muito estranho – não é um homem real, apenas fictício, mas para mim ele tornou-se quase uma realidade porque representa Epicuro, Charvaka, e todos os materialistas do mundo. Ele não apenas os representa, mas os representa em sua melhor forma.

Em um lugar Zorba diz ao seu patrão, “Patrão, você tem tudo mas ainda assim você está perdendo a vida, porque você não tem um pouco de loucura. Se você puder arranjar um pouco de loucura você vai saber o que a vida é.”

Eu posso entendê-lo; não apenas ele, posso entender todos os Zorbas ao longo das eras, com as suas ‘poucas loucuras.’ Mas não acredito em pouco de nada. Eu sou louco como se pode ser, totalmente louco. Se você é apenas um pouco louco, é claro que você saberá apenas um pouco da vida, mas é melhor do que não saber nada.

Zorba, pobre Zorba, Zorba iletrado, um trabalhador… ele deve ter sido grande, fortemente construído e um pouco louco. Mas ele dá um grande conselho para seu mestre: “Seja um pouco louco,” ele disse. Eu digo que ser um pouco louco não funciona; seja totalmente louco! Mas você pode permitir a loucura total apenas na meditação, caso contrário você vai surtar. Você não será capaz de consumi-la; pelo contrário, ela consumirá você. Se você não sabe o que a meditação é, você será queimado. Por isso eu cunhei um nome: Zorba o Buda.

Zorba o Buda é a minha síntese. Eu amo Kazantzakis por criar uma grande obra de arte, mas também sinto pena dele porque ele ainda está na escuridão. Kazantzakis, você precisa de um patrão, um pouco de meditação; caso contrário você nunca saberá o que a vida é.

Quarto, eu vi um dos sujeitos mais belos. Eu falei sobre ele, mas não o mencionei na lista de cinquenta, a lista arbitrária. O nome do homem é Al-Hillaj Mansoor. Al-Hillaj não escreveu um livro, mas apenas algumas asserções, ou melhor, declarações. As pessoas como Al-Hillaj apenas declaram, não a partir de qualquer egoísmo – elas não têm nenhum ego, é por isso que declaram, “ana’l haq!”

Ana’l haq! é a sua declaração e significa “Eu sou Deus, e não existe outro Deus.” Os Islâmicos não puderam perdoá-lo; eles o mataram. Mas você pode matar um Al-Hillaj? É impossível! Mesmo enquanto eles estavam o matando ele estava rindo.

Alguém perguntou, “Por que você está rindo?”

Ele respondeu, “Porque vocês não estão me matando, vocês estão matando apenas o corpo, e eu falei várias vezes que eu não sou o meu corpo. Ana’l haq! Eu sou o próprio Deus.” Ora, esses seres humanos são o próprio sal da terra.

Al-Hillaj Mansoor não escreveu nenhum livro; apenas algumas das suas declarações foram coletadas pelos seus admiradores e amigos. Eu não vou nem falar seguidores, porque homens como Al-Hillaj nem aceitam seguidores, imitadores – eles apenas aceitam admiradores, amigos.

Sinto muito, esqueci dele completamente. Isso não é bom vindo de mim. Mas, Al-Hillaj, você deve entender a minha dificuldade. Eu li mais livros do que você deve ter ouvido falar. Eu li mais de cem mil livros. Ora, encontrar apenas cinquenta entre eles é realmente uma tarefa difícil. Eu escolhi apenas alguns poucos, e naturalmente tive que deixar muitos de lado, com lágrimas em meus olhos. Eu gostaria de escolhê-los também… mas eu te registrei no pós-escrito.

Quinto: Apenas poucas pessoas conhecem esse homem, pela simples razão que ele nunca escreveu e nunca falou. Mahakashyapa. Tudo o que se conhece sobre ele é essa anedota.

Um dia Buda foi fazer o seu discurso da manhã com uma flor de lótus em sua mão. Ele sentou-se silenciosamente olhando para a flor, sem dizer uma palavra. A assembleia de dez mil sannyasins estava desnorteada. O que ocorria não tinha precedentes. Em primeiro lugar Buda, que nunca trouxe nada, chegou com uma flor de lótus; em segundo lugar, ele costumava falar imediatamente, mas hoje os minutos e as horas passaram-se, e ele estava apenas olhando para a flor. Muitos devem ter pensado que ele tinha ficado louco. Apenas um homem não concordou. Ele riu. Este homem era Mahakashyapa.

Buda levantou os seus olhos, riu e chamou Mahakashyapa até ele, deu-lhe a flor, e falou para a assembleia que o sermão havia terminado, dizendo, “Dei-lhes o que vocês têm direito, e dei a Mahakashyapa o que ele merece, e com razão. Eu falei com vocês por anos com palavras, e vocês nunca entenderam. Hoje eu falei em silêncio, e o riso de Mahakashyapa mostrou que ele entendeu.” Dessa forma misteriosa o sucessor foi encontrado. Mahakashyapa tornou-se o sucessor de Buda. Uma maneira estranha…

Os discípulos de Mahakashyapa escreveram poucas coisas sobre ele que podem ser chamadas de seu livro. Mas ele realmente não as escreveu, nem os seus discípulos as assinaram. Elas são anônimas. Mas qualquer coisa que foi escrita é de imensa beleza. Poucos fragmentos, assim como peças da lua cheia: se você puder colocá-las juntas a lua cheia brilhará novamente. O segredo para colocá-las juntas é a meditação.

A tradição que seguiu Mahakashyapa é o Zen. Ele é o primeiro patriarca do Zen, de dhyana. Estranho… nem mesmo Buda, mas Mahakashyapa é o primeiro. Porque Buda falou por quarenta anos, Mahakashyapa nunca falou; o único barulho que ele fez foi o do riso. Se você puder chamá-lo de fala, essa é outra questão. Por um lado é uma fala – é dizer que toda a existência é uma piada. É dizer a Buda, “Que piada!”

No momento em que você entende que toda a existência é uma piada, você entendeu. Não há outro entendimento, nenhuma outra iluminação. Tudo o que resta é pseudo.

Você pode, Devageet, lembrar-me do número porque mesmo no registro póstumo, no pós-escrito, eu tenho que ir até dez. Qual é o número que você falou?

“Número seis, Osho.”

Bom. É tão belo que eu disse póstumo. Estou realmente morto, é por isso que permito que vocês me chamam de Abençoado. Se eu não estivesse morto chamar-me de abençoado não estaria certo.

A palavra póstumo veio até mim acidentalmente. Eu ia dizer pós-escrito, mas às vezes a verdade surge acidentalmente. Ela não é arranjada, ordenada, ela simplesmente irrompe como um vulcão. Eu não iria dizê-la, mas ela surgiu por si só. A verdade tem os seus próprios caminhos. Eu sou realmente um homem póstumo; eu morri faz tempo.

Sexto, eu vejo Hermann Hesse. Ele não foi um iluminado, nem um daqueles que foram além da iluminação. Ele era apenas um ser humano ordinário, mas em um voo poético ele escreveu um dos maiores livros do mundo, Siddhartha.

Siddhartha é realmente o nome de Gautama o Buda, dado a ele pelos seus pais. Ele ficou conhecido com Gautama o Buda. Gautama era o nome da sua família; Buda simplesmente quer dizer “o desperto”. Siddhartha era o nome real dado por seus pais depois de consultarem os astrólogos. É um belo nome. Siddhartha também significa ‘aquele que atingiu o significado’. Siddha significa ‘aquele que atingiu’; artha significa ‘o significado’. Combinados Siddhartha significa ‘aquele que alcançou o significado da vida’. Os astrólogos, os pais, as pessoas que deram a ele esse nome devem ter sido pessoas sábias – se não iluminadas, pelos menos sábias… pelo menos mundanamente sábias.

O Siddhartha de Herman Hesse repete a história de Buda de uma maneira diferente, mas na mesma dimensão, com o mesmo significado. É inacreditável que Hermann Hesse foi capaz de escrevê-lo e não pôde tornar-se um siddha ele próprio. Ele permaneceu um escritor pobre – sim, um ganhador de Prêmio Nobel, mas isso não importa muito. Você não pode dar um Prêmio Nobel para um buda; ele vai rir e jogá-lo fora. Mas o livro é imensamente belo e eu o incluo.

Sétimo: Não se sabe que mesmo no Judaísmo tradicional, ortodoxo, houve poucos mestres totalmente iluminados – até mesmo alguns que foram além da iluminação. Um deles é Baal Shem Tov. Eu não posso me perdoar por não o ter incluído, e não há ninguém que eu possa pedir perdão.

Baal Shem Tov. Tov era o nome da sua cidade. Seu nome simplesmente quer dizer ‘Baal Shem da cidade de Tov’; então o chamaremos apenas Baal Shem. Eu falei sobre ele porque quando falei sobre o Hassidismo não deixei nada essencial de fora. Eu falei do Tao, do Zen, do Sufismo, do Hassidismo. Não sou um homem de qualquer tradição então sou livre para mover-me em qualquer direção. Eu nem mesmo preciso de um mapa. Deixe-me lembrá-lo novamente:

Chegando

e partindo

a ave aquática

não deixa nenhum traço para trás,

nem precisa de um guia.

Baal Shem Tov não escreveu nenhum tratado – tratado é uma palavra suja no mundo do misticismo – mas ele contou muitas histórias belas, tão belas que eu gostaria de contar uma delas para vocês como um exemplo, para que vocês possam saborear a qualidade do homem.

Uma mulher veio até Baal Shem. A mulher não tinha filhos; ela queria um filho. Ela perturba Baal Shem dizendo continuamente, “Se você me abençoar tudo é possível. Abençoe-me por favor. Eu quero uma criança.”

Finalmente, cansado – sim, mesmo Baal Shem pode ficar cansado de uma mulher irritante – ele disse, “Você quer um menino ou uma menina?”

A mulher estava tremendamente feliz; ela disse, “Um menino, é claro.”

Baal Shem disse, “Então ouça essa história. A minha mãe também não tinha filhos, e ela perturbou e irritou o rabino da cidade continuamente para abençoá-la. Finalmente o rabino disse, ‘Primeiro traga-me um belo gorro.’ A minha mãe,” Baal Shem disse, “fez um belo gorro e foi ver o rabino.”

O gorro era tão belo que a mãe de Baal Shem disse, “Eu não quero nada em troca, apenas vê-lo com esse gorro é tão belo. Estou tremendamente satisfeita. Você não tem obrigação de fazer nada por mim, eu tenho obrigação de fazer por você. Obrigado, rabino.”

“E minha mãe foi embora. É assim que ela ficou grávida,” Baal Shem disse, “e eu nasci.”

A mulher disse, “Ótimo. Então amanhã eu vou vir com um belo gorro.”

No próximo dia ela retornou com um gorro muito belo. Baal Shem o aceitou e nem falou “obrigado”. A mulher esperou e esperou, então ela disse, “E a criança?”

Baal Shem disse, “Esqueça totalmente da criança! O gorro é tão belo, eu sou grato a você. Eu devo falar obrigado para você. Você lembra da história que contei? A mulher não pediu nada em troca, é por isso que ela concebeu uma criança, e uma criança como eu” – como Baal Shem.

“Mas você veio com o desejo de receber alguma coisa. Apenas por causa desse gorro você quer uma criança como Baal Shem? Esqueça totalmente isso,” ele disse, “e não volte mais – nunca.”

Há muitas coisas que podem ser ditas apenas através de histórias. Baal Shem disse o fundamental: Não peça e lhe será dado. Não peça – essa é a condição básica.

O Hassidismo que surgiu a partir das histórias de Baal Shem é a mais bela floração que já ocorreu. Os Judeus nunca fizeram nada comparável ao Hassidismo. O Hassidismo é uma corrente pequena, mas ainda está vivo, ainda flui.

Oitavo: Farid. Este é o homem que falei antes – mas não em Inglês, em Hindi. Farid, o místico Sufi, um contemporâneo de Kabir, Nanak e outros. Eu o amo. Em suas canções ele chama a si próprio de Farida. Ele sempre fala consigo mesmo, nunca com outrem. Ele sempre começa, “Farida, você está ouvindo? Farida, esteja acordado! Farida, faça isso, faça aquilo!” Em Hindi, quando você usa o nome Farid ele é respeitável. Quando você usa o nome Farida ele não é respeitável; só é possível chamar os servos dessa forma. Farid chama a si próprio Farida, é claro, porque ele próprio é o mestre; o corpo é o servo.

O grande rei Akbar costumava ir até Farid para ouvir as suas canções. Akbar recebeu certa vez um presente, um presente muito precioso, um par de tesouras douradas cravejadas de diamantes. Gudia iria amá-las – qualquer mulher as amaria. Akbar também as amou, amou-as tanto que pensou que elas seriam um bom presente para Farid. Ele foi até Farid e deu-lhe as preciosas tesouras. Farid olhou para elas, virou-as de um lado e de outro, então devolveu o presente para Akbar dizendo, “Isso não tem utilidade para mim. Se você quer me dar algo como um presente, traga uma agulha.”

Akbar ficou intrigado. Ele disse, “Por que uma agulha?”

Farid disse, “Porque a função das tesouras é cortar as coisas em fragmentos e a função da agulha é juntar os fragmentos. A minha função não é a das tesouras, é a da agulha. Eu reúno as coisas, eu sintetizo.”

Farid não concordaria com Sigmund Freud, nem com a psicanálise, porque a psicanálise é uma tesoura dourada, cortando tudo em fragmentos. Ele concordaria com Assagioli e a psicossíntese. Unir, combinar as coisas em uma unidade. Você vê as minhas lágrimas? Elas são por Farid… Farida… sim, por Farida. Não pode haver homenagem para ele. Ele entenderá as lágrimas, não as tesouras douradas. Ai de mim, se Akbar tivesse caído aos pés de Farid e chorado, esse seria o presente real para o mestre.

Farid não escreveu um livro, mas as suas canções foram escritas pela sua gente. As suas canções são tremendamente belas, mas você tem que as ouvir cantadas por um Punjabi. Ele vivia no Punjab, e suas canções estão em Punjabi, nem mesmo em Hindi. O Punjabi é muito diferente do Hindi. O Hindi é suave, a linguagem do empresário. O Punjabi é como uma espada, a linguagem de um soldado. É tão penetrante. Quando você ouve as canções de Farid cantadas em Punjabi o seu coração começa a estilhaçar.

Quando eu costumava viajar ao Punjabi, eu pedia para as pessoas, “Você pode cantar Farid para mim?” – e uma vez ou outra eu encontrava um cantor que estava pronto, que sabia como cantar Farida. E todos aqueles belos cantores… todos aqueles belos momentos… o Punjabi tem uma qualidade própria. Toda linguagem tem uma qualidade própria. Mas o Punjabi é certamente uma espada, você não pode afiar mais qualquer outra coisa.

Nono. Estou com pressa porque a minha hora pode estar quase terminando, ou já terminou, porque vi Gudia entrando. Que coisa triste que a hora siga a mesma lei quer seja sua ou minha. Ela não deveria ser cronológica, deveria ser relativa. A minha hora não deveria seguir a mesma lei, ela não deveria pertencer ao mundo Eisteiniano da relatividade. Ela deveria ser infinita. Mas sei que não poderia ser assim, por isso estou com pressa, e, vocês sabem, quando estou com pressa também estou relaxado.

Nono, outro poeta, outro cantor, outro dançarino, de uma qualidade totalmente diferente: Shiva, e seu livro Vigyan Bhairav Tantra. Eu falei sobre ele. É um livro muito pequeno, apenas cento e vinte sutras. Você pode facilmente escrevê-lo em uma página de um livro, ou, no máximo, em duas páginas. Eu falei sobre ele em cinco volumes, milhares de páginas – O Livro dos Segredos. Eu não posso dizer que exista qualquer outro livro tão condensado como o Vigyan Bhairav Tantra – o livro de Shiva. Cada sutra é um método por si só.

Devageet, por favor não interrompa. Deixe-me terminar o meu trabalho. Eles chamam o homem na cadeira de paciente; eles deveriam ensinar os doutores a serem pacientes. Ashu, você não é um doutor, então você não precisa se preocupar. Nenhuma mulher nunca se preocupa, ela faz os outros se preocuparem; essa é outra questão. Olhe, até Gudia está rindo, o que é raro para uma respeitável mulher Inglesa!

Bom. O riso é sempre bom. Eu o amo, mas tenho que continuar o meu trabalho quer você ria ou chore; não importa para esse homem nessa cadeira. Sou tão duro quanto uma rocha e tão suave quanto um lótus, mas sou os dois juntos. Permita-me dizer-lhes por uma questão de claridade: primeiro sou uma rocha; com isso vou quebrar o seu crânio. Eu não posso ser um lótus para você, mas o que vocês estão fazendo é muito belo.

Décimo, eu sempre tive a ideia de falar sobre Uma Swati e seu livro. Uma Swati é um místico, mas um místico muito seco – assim como os meus lábios nesse momento, sem qualquer umidade. Ele escreveu uma descrição muito seca mas verdadeira do supremo. O seu livro é chamado Tatva Sutra. Tatva significa ‘a realidade suprema’. Tat significa ‘aquilo’ – o supremo. ‘Este’ é o imediato, e ‘aqui’ é o supremo.

Devageet, pare de interromper. Eu sei que você sabe mais sobre o seu maquinário. Também sei mais sobre a sua consciência – e isso é o que importa.

O Tatva Sutra é belo e eu falaria dele, mas posterguei várias vezes. Ele é muito matemático, como o Samayasar de Kundkunda. É assim que todos os místicos Jainas são – secos, totalmente secos.

Laxmi realmente escolheu um local – o Kutch! Mahavira, Kundkunda, Uma Swati, todos esses indivíduos amariam viver no Kutch. Mas, para mim, que infortúnio! Eu sempre quis viver nos Himalaias, porém, pelo bem do meu povo, tive que abandonar a ideia de viver nos Himalaias.

Não aconteceu com Buda, Bodidarma, Basho; não aconteceu com Omar Khayyam, com Khalil Gibran, com Mikhail Naimy, mas aconteceu comigo. Eu sei que deve haver um segredo nisso. Só pode ser o de eu ter que tornar o Kutch tão belo quanto os Himalaias. Uma coisa é certa: que onde quer que eu esteja vou criar o local mais belo do mundo, não importando o desafio.

Décimo primeiro e o último para o pós-escrito… quero dizer por hoje. Ninguém sabe sobre o amanhã. O último é uma coisa tão bela que devo estar realmente são para esquecê-la. Note, não estou dizendo insano, estou dizendo são. Eu devia estar são por tê-la esquecido. Se eu estivesse insano o suficiente, então seria impossível esquecê-la. Então ela seria a primeiro a ser lembrada, não a última. É a Canção de Naropa.

Eu nunca falei sobre ela porque nunca pensei que algo poderia ser dito sobre ela, mas ela esteve em meu coração. Eu apenas a menciono para que aqueles que me amam comecem a buscar por ela… a poesia, a música, a dança de Naropa. É minha também.

Om Mani Padme Hum

A joia no lótus.

Obrigado a ambos, com toda a minha alegria.

 

CAPÍTULO 7

1984 na Casa Lao Tsé, Rajneeshpuram, Oregon, USA

 

Certo. Ouvi o seu caderno abrir-se. Agora é a minha hora e a minha hora não consiste de sessenta minutos. Ela pode ser tudo – sessenta, setenta, oitenta, noventa, cem… ou até mesmo além dos números. Se é a minha hora então, é claro, ela tem que ser consistente comigo, não vice-versa.

O pós-escrito continua.

O primeiro nome de hoje não é nem ouvido no Ocidente: Maluka. Ele é um dos místicos mais significantes da Índia. O seu nome completo é Malukdas, mas ele chama a si mesmo apenas Maluka, como se fosse uma criança – e ele realmente era uma criança, não ‘como se’.

Eu falei dele em Hindi, mas levará muito tempo para ele ser traduzido em outras linguagens pela simples razão que Maluka é muito estranho, muito misterioso. Você ficará surpreso que em um país como a Índia, que está cheio de comentadores, eruditos, pânditas, ninguém nem se preocupou em comentar Malukdas porque é muito difícil. Ele teve que esperar por mim. Eu sou o seu primeiro comentador, e, quem sabe, talvez o último também.

Somente um exemplo:

Ajgar karai na chakari panchhi karai na kam das maluka kahi gaye sab ke data ram.

Agora eu tentarei traduzi-lo. Não será exatamente igual, mas não sou responsável por isso. A pobre língua Inglesa não pode conter tamanha riqueza. Maluka disse: A cobra nunca sai para trabalhar em um emprego, nem um pássaro nunca trabalha. E, diz Maluka, não há necessidade, de fato, porque a existência provê para todos. Ele era um homem que Zorba teria gostado. Ele era um homem com um pouco de loucura e muita meditação.

Ele era tão profundo na meditação que disse:

Mala japon na kar jibhya japon na ram, sumiran mera hari karain main payay bisram.

Ele disse: Não canto o nome de Deus, nem uso um rosário para venerar. Eu não venero de maneira alguma – quem liga para essas coisas estúpidas! Ele continua: De fato, Deus lembra-se do meu nome, não há necessidade de lembrar-me dele… Você vê? Um pouco de loucura e muita meditação. Malukdas é um dos homens que posso dizer sem qualquer hesitação que foi além da iluminação. Ele tornou-se a figura da décima carta dos Dez Touros do Zen.

Segundo, o livro dos Sikhs: Guru Grantha Sahib. Ele não foi escrito por um único homem então não posso dizer quem foi o seu autor. É uma compilação de geração a geração. Ele foi compilado de todas as fontes, como nenhum outro livro no mundo. O Velho Testamento é apenas Judeu, O Novo Testamento é apenas Cristão, o Bhagavadgita é apenas Hindu, o Dhammapada é apenas Budista, os Jin Sutras apenas Jaina; mas Guru Grantha Sahib é o único livro do mundo retirado de todas as fontes possíveis. As suas fontes são Hindus, Islâmicas, Jainas, Budistas, Cristãs. Tamanha abertura, nenhum fanatismo.

O título Guru Grantha significa ‘o livro dos mestres’, ou ‘o livro do mestre’. Nele você encontrará Kabir, Nanak, Farid e um longa lista de místicos pertencentes a diferentes tradições, diferentes escolas, como se milhares de rios se encontrassem no oceano. Guru Grantha é como um oceano.

Eu traduzirei apenas uma sentença de Nanak. Ele é o fundador então, é claro, as suas palavras foram compiladas no Guru Grantha. Ele foi o primeiro mestre dos Sikhs; então seguiu uma linha de nove outros mestres. O Siquismo foi produzido por dez mestres. É uma religião rara porque todas as outras religiões foram criadas apenas por um único mestre.

Nanak diz: A verdade, a verdade suprema é inefável, então por favor me perdoe, eu não vou falar sobre ela, apenas cantá-la. Se você pode entender a linguagem da música, então, talvez uma corda em seu coração possa ser tocada. A transmissão da fonte luminosa está além das palavras.

O Guru Grantha Sahib… os Sikhs o chamam Sahib por que respeitam tanto o livro, quase como se estivesse vivo, como se fosse o próprio espírito do mestre. Mas um livro é um livro, e no momento em que o mestre parte o livro está morto, a palavra está morta. Então eles estão carregando um belo corpo, assim como todas as outras religiões estão fazendo. Lembre-se, a propósito, que a religião está viva apenas de vez em quando, está viva apenas na presença de um mestre. Quando o mestre não está mais vivo ela torna-se um credo e um credo é uma coisa feia.

O parlamento Holandês apontou uma comissão para investigar os ‘cultos e credos.’ Obviamente eu sou o primeiro da lista de investigação deles. Eu informei as minhas pessoas na Holanda para dizerem a comissão, “Nós não vamos cooperar com vocês porque, de fato, nós não somos nem um culto nem um credo; nós somos uma religião. Se vocês quiserem investigar cultos e credos, então existem vários: Cristãos, Judaicos, Hindus, Islâmicos e assim por diante ad infinitum.” De fato, eu ia dizer ad nauseam…

A comissão ficou muito preocupada. Eles escreveram uma carta para as pessoas laranjas da Holanda dizendo, “Por favor cooperem conosco.” Nossa gente novamente perguntou o que fazer. Eu falei para eles, “Eu já disse o que fazer. A menos que designem uma comissão para investigar o próprio espírito da religião, não cooperem.”

Veja o absurdo: o parlamento Holandês é dominado pelo Partido Democrático Cristão, e as pessoas que são apontadas para servirem à comissão são todos Democráticos Cristãos. Ora, eles são o credo, eles são o culto. A minha gente não é um culto. Ainda estou vivo e saudável! Uma religião existe apenas quando um mestre está respirando. A religião é criada a partir da sua respiração.

O Guru Grantha compilou os dizeres de dez mestres vivos, dez seres iluminados. Eu digo que nenhum outro livro pode ser comparado a ele. Ele é incomparável. Nanak diz, “Ek omkar satnam – apenas uma coisa é verdadeira, o nome do inexpressível.” No Oriente o chamamos omkar, om – apenas isso é verdade. O som sem som… o silêncio que permeia depois que o som acabou… ek omkar satnam.

Terceiro: O livro de Mabel Collins, Luz no Caminho. Qualquer um que queira viajar rumo às alturas tem que entender a Luz no Caminho. É um livro pequeno em relação à quantidade, apenas algumas poucas páginas, mas em relação à qualidade é um dos maiores, dos melhores. E, a maravilha das maravilhas, ele foi escrito na era moderna. Ninguém sabe quem o autor Mabel Collins foi. O autor nunca nem mesmo escreveu o nome Mabel Collins todo, mas apenas M.C. Foi apenas por sorte que descobri o nome completo através de alguns amigos de M.C.

Por que M.C.? Eu posso entender a razão. O escritor é apenas um veículo e, ainda mais particularmente no caso de Luz no Caminho. Talvez o Sufi Khidr – eu falei com vocês sobre este: o espírito que conduz as pessoas, guia as pessoas, ajuda as pessoas – estava por trás da obra de M.C. também.

M.C. foi um Teosofista. Ele ou ela – não sei se o autor é um homem ou uma mulher, não importa de qualquer forma – talvez gostasse ou não de ser guiado por Khidr, a ideia Sufi do guia supremo. Mas M.C. ficaria imensamente feliz se eu usar o nome Teosófico paralelo: eles o chamam de K.H. Qualquer nome serve. A maneira como vocês o chamam não importa… Mestre K.H. ou o místico Khijra, é o mesmo. Mas o livro é imensamente útil. Seja quem for que o tenha escrito, seja quem for que tenha guiado o escritor, isso é irrelevante; o próprio livro permanece como uma torre dourada.

Quarto: Estou perfeitamente bem, não fique preocupado apenas porque estou numerando corretamente. Uma vez ou outra isso acontece somente por acidente. A quarta é a mulher da Caxemira, Lalla. Os habitantes da Caxemira amam tanto Lalla que eles falam, por respeito a ela, que eles têm apenas duas palavras: uma é Allah e a outra é Lalla. Os moradores da Caxemira são noventa e nove por cento Islâmicos, então quando eles falam que conhecem apenas duas palavras, Allah e Lalla, isso é importante.

Lalla nunca escreveu um livro. Ela era analfabeta, mas muito corajosa… Ela permaneceu nua por toda a sua vida – e lembrem-se que isso foi há centenas de anos atrás no Oriente – e ela era uma bela mulher. Os habitantes da Caxemira são belos; na Índia, eles são as únicas pessoas realmente belas. Eles são a tribo perdida que Moisés estava procurando. Eles são basicamente, originalmente Judeus.

Quando Moisés estava conduzindo o seu povo a Israel… e alguém se pergunta o que aquele louco estava fazendo: por que Israel? Mas loucos são sobretudo loucos, não há explicação. Moisés estava procurando um local para a sua gente. Ele perambulou por quarenta anos no deserto, e então encontrou Israel. Nesse ínterim ele perdeu uma de suas tribos. Esta tribo alcançou a Caxemira.

Pelo menos às vezes é uma sorte estar perdido. Moisés não pôde encontrá-los. Você sabia que na sua busca pela tribo perdida Moisés finalmente alcançou a Caxemira… e ele morreu ali. O seu túmulo não está em Israel, ele está na Caxemira.

Estranho, Moisés morreu na Caxemira, Jesus morreu na Caxemira. Eu estive na Caxemira muitas vezes, e sei que ali está um lugar que se diz, “Ó, se eu pudesse morrer agora, aqui e agora…!” É tão belo que viver depois não valeria a pena.

As pessoas da Caxemira são belas – pobres, mas imensamente belas. Lalla foi uma mulher da Caxemira, analfabeta, mas ela podia cantar e dançar. Então algumas de suas músicas foram salvas. Ela, é claro, não pôde se salvar, mas suas canções puderam ser salvas. Eu as incluo no pós-escrito.

Quinto: Outro místico, Gorakh, um tântrico, tão versado, tão eficiente em todos os métodos do Tantra que todos na Índia que conhecem muitos trabalhos são conhecidos com gorakh-dhanda. Gorakh-dhandha significa ‘nos negócios de Gorakh’. As pessoas pensam que cada um deve ater-se a seu próprio negócio. Gorakh moveu-se em todas as direções, em todas as dimensões.

O nome completo de Gorakh era Gorakh-nath. Deve ter sido dado por seus discípulos, porque nath significa lorde. Gorakh deu todas as chaves possíveis para entrar-se nos mistérios interiores. Ele falou tudo o que podia ser falado. Ele é, de certo modo, um ponto final.

Mas o mundo continua, e eu também. O mundo não conhece nenhum ponto final, nem eu. Eu somente morrerei no meio de uma sentença; então as pessoas se perguntarão para sempre o que eu diria, como eu completaria a sentença. Eu respeito Gorakh-nath. Eu falei muito sobre ele. Um dia será traduzido, então não preciso gastar mais tempo com esse camarada.

Sexto: é muito raro que um homem, um único homem, produza duas obras-primas, mas este é o caso com Hubert Benoit. Eu não sei como os Franceses pronunciam o seu nome… e eles são tão esnobes em relação à sua pronúncia, e eu sou tão desleixado! Mas eu não ligo – o que importa se uma palavra aqui e ali é pronunciada errada? Toda a minha vida estive pronunciando erradamente.

Este homem Hubert Benoit – eu mencionei o seu primeiro livro, Deixe Ir. De fato este foi o seu segundo livro. Antes de escrever Deixe Ir ele escreveu outro livro chamado A Doutrina Suprema. Eu gostaria de incluí-lo também; caso contrário eu me sentirei realmente triste de não o ter mencionado. É um livro tremendamente belo, mas muito difícil de ser lido, e muito mais difícil de ser entendido. Mas Benoit dá o seu melhor para torná-lo o mais simples possível.

Sétimo. Um grande número esotérico, sete. Eu quero que ele seja atribuído a um camarada realmente esotérico, Shiva, o conceito Hindu de Bondade Suprema. Muitos livros carregam o nome de Shiva; muitos deles não são verdadeiros, apenas carregam o nome para tornarem-se respeitáveis. Mas o Shiva Sutra é um dos mais autênticos. Eu falei dele em Hindi; estou pensando em falar dele em Inglês também. Eu já até decidi a data, mas vocês me conhecem…

Este livro Shiva Sutra contém as técnicas de todas as meditações. Não pode haver outra técnica que não esteja incluída neste livro. O Shiva Sutra é a própria bíblia dos meditadores.

Ashu, eu sei porque eles estão rindo. Deixe-os rir. Eu sei que estou falando muito, muito devagar, é por isso que eles estão rindo. Mas eu estou desfrutando e eles estão desfrutando. Está tudo bem, Ashu… apenas raramente é possível encontrar uma mulher tão boa. Há muitas mulheres belas no mundo, mas mulheres boas, meu Deus, é muito difícil encontrá-las. Deixe os tolos rirem. Eu falarei tão lentamente quanto eu quiser.

Eu estava falando sobre o Shiva Sutra. Este livro é como nenhum outro, é único, incomparável.

Oitavo: A obra mais imensamente bela de um místico Indiano, Gaurang. A palavra gaurang ela própria significa ‘o branco’. Ele foi tão belo… Eu posso vê-lo em pé na minha frente, branco, ou melhor, branco como neve. Ele foi tão belo que todas as garotas da vila se apaixonaram por ele. Ele permaneceu solteiro. Não é possível casar-se com milhões de garotas. Apenas uma é demais; milhões, meu Deus! – isso mataria qualquer um! Agora você sabe o segredo do porquê sou solteiro.

Gaurang costumava dançar e cantar a sua mensagem. A sua mensagem não estava nas palavras, mas muito além – em uma canção. Gaurang não escreveu um livro; os que o amavam – e houve muitos, de fato, muitíssimos – coletaram as suas canções. Estas canções são uma das mais belas coleções; nunca cruzei com algo como elas antes ou depois. O que dizer sobre elas… apenas que as amo.

Nono: Novamente outro místico Indiano, você pode não ter ouvido sobre ele. Ele era chamado de Dadu, o que significa irmão. Ele era tão amável que as pessoas esqueceram o seu nome real e simplesmente lembram-se dele como Dadu, irmão. Existem milhares de canções que Dadu cantava, mas elas não foram escritas por ele, elas foram coletadas por outros, assim como um jardineiro coleta flores que caíram há muito tempo.

O que digo sobre Dadu é verdade em relação a todos os santos. Eles são avessos à escrita. Eles cantam, falam, dançam, indicam, mas não escrevem. Escrever algo é torná-lo muito limitado. Uma palavra é uma limitação; somente então ela pode ser uma palavra. Se é ilimitada ela será o céu, conterá todas as estrelas. Esta é a experiência do santo.

Até mesmo eu não escrevi nada… apenas algumas cartas para aqueles que são muito íntimos para mim, pensando, ou talvez acreditando, que eles entenderiam. Eu não sei se eles entenderam ou não. Então o meu livro Uma Xícara de Chá é o único livro que, pode-se dizer, foi escrito por mim. É uma compilação das minhas cartas. Do contrário eu não escrevi nada.

As canções de Dadu foram coletadas. Eu falei sobre ele. Ele alcança o auge da aspiração humana.

Décimo e último. O último de hoje é um dos homens mais estranhos que já andou sobre a Terra, Sarmad. Ele foi um Sufi e foi assassinado na mesquita por ordem de um rei Islâmico. Ele foi assassinado simplesmente por causa de um sutra Islâmico, uma de suas orações. A oração é “Allah la il allah – Allah, Deus, é o único Deus.” E isso não é suficiente para eles; eles querem algo a mais. Eles querem declarar ao mundo que Maomé é o único profeta de Deus: “Allah la il allah; mohammed bismillah. Deus é o único Deus, e Maomé é o único profeta de Deus.”

Os Sufis rejeitam a segunda parte, que Maomé é o único profeta de Deus. Esse foi o pecado de Sarmad. Obviamente ninguém pode ser o único profeta; ninguém absolutamente pode ser o único – nem Maomé, nem Jesus, nem Moisés, nem Buda. Sarmad foi morto, assassinado, esquartejado pelo rei Islâmico da Índia, em conspiração com os sacerdotes Islâmicos. Mas ele riu e disse, “Mesmo depois da minha morte eu direi a mesma coisa: Allah la il allah – Deus é o único Deus.”

A grande mesquita de Delhi, Jama Masjid, onde Sarmad foi morto, ainda subsiste, um monumento para esse grande homem. Ele foi assassinado de uma maneira muito desumana: apenas sua cabeça foi cortada. Sua cabeça rolou abaixo sobre os degraus da mesquita Jama. Milhares de pessoas reunidas ali ouviram a cabeça rolando degraus abaixo claramente gritando, “Allah la il allah – Deus é o único Deus…”

Eu não sei se a história é verdadeira ou não, mas deve ser. Ela tem que ser. Até mesmo a verdade deve se comprometer com um homem como Sarmad. Ele não escreveu nenhum livro, mas as suas declarações foram compiladas e a mais significante é: Deus é o único Deus, e não há profeta, não há ninguém entre você e Deus. Não há mediador, Deus está imediatamente disponível. Somente o que é necessário é um pouco de loucura e muita meditação.

Eu ia falar algo, mas não falarei… é inefável. Nunca foi dito antes, e eu não devo dizê-lo também.

Ainda é belo

como um pôr do sol…

os pássaros estão voltando para casa,

as primeiras estrelas estão surgindo,

as suas cores estão no céu.

Vocês podem ver

o sorriso na minha face?

 

CAPÍTULO 8

1984 na Casa Lao Tsé, Rajneeshpuram, Oregon, USA

Seja um Junnatha – um buscador. O PS. continua.

O primeiro livro é Vontade de Poder de Friedrich Nietzsche. Ele nunca o publicou em vida. Ele foi publicado postumamente, e, antes de ser publicado, muitos dos seus pretensos grandes homens já roubavam do manuscrito.

Alfred Adler foi um dos ‘maiores’ psicólogos. Ele é uma peça da trindade dos psicólogos: Freud, Jung e Adler. Ele é simplesmente um ladrão. Adler roubou toda a sua psicologia de Friedrich Nietzsche.

Adler diz: o instinto básico do ser humano é a ‘vontade de poder’. Ótimo! Quem ele estava tentando enganar? Entretanto, milhões de tolos foram enganados. Adler ainda é contado como um grande homem. Ele é somente um pigmeu, apenas a ser esquecido.

George Bernard Shaw roubou toda a sua filosofia básica de Nietzsche. Grande G.B.S. – ganhador do Prêmio Nobel, George Bernard Shaw. Qualquer coisa que ele diz está contida em apenas algumas sentenças da Vontade de Poder de Nietzsche.

Mesmo um suposto grande santo Indiano não fica para trás de Adler e Shaw. O seu nome é Sri Aurobindo. Ele é venerado por milhões de pessoas por todo o mundo como o maior sábio da era. Ele roubou a sua ideia de super-homem do manuscrito de Vontade de Poder. Sri Aurobindo era apenas um erudito medíocre, nada a gabar-se muito.

O livro de Nietzsche não foi publicado até muitos anos depois de sua morte. A sua irmã impediu. Ela era uma grande mulher de negócios. Ela estava vendendo outros livros que já tinham sido publicados, e esperando o momento certo quando Vontade de Poder poderia ser melhor vendido. Ela não estava preocupada com Nietzsche, sua filosofia, ou sua contribuição para a humanidade.

Por que o próprio Nietzsche não publicou o livro enquanto ainda estava vivo? Eu sei porque. Era demais até para ele. Ele não era um homem iluminado. Ele teve medo, medo do que aconteceria com ele se o publicasse. E o livro é dinamite pura! Ele sempre o manteve debaixo do seu travesseiro, mesmo enquanto dormia. Ela estava com medo que ele caísse em mãos erradas. Ele não era um homem corajoso como as pessoas usualmente pensam, ele era um covarde. Mas estranhos são os caminhos da existência: às vezes mesmo um covarde é inundado de estrelas, e foi isso o que aconteceu com Nietzsche.

Adolf Hitler roubou toda a sua filosofia de Nietzsche. Hitler era incapaz de fazer qualquer coisa certa; ele era um idiota, ele realmente deveria estar na Índia, não na Alemanha, e se tornado um discípulo de Muktananda. Eu posso sugerir um belo nome para ele: Swami Idiotananda! É muito difícil entender Nietzsche; ele era tão sutil, intenso e profundo. Está além do alcance de qualquer idiotananda.

Friedrich Nietzsche manteve o seu melhor livro para ser publicado apenas depois de sua morte. Eu já contei um dos seus livros, Assim Falou Zaratustra, mas até mesmo este empalidece perante Vontade de Poder. Não é um tratado filosófico, escrito sistematicamente, são apenas máximas, parágrafos. Você tem que encontrar a conexão. Ela não está escrita para que você a leia. Por isso, embora esteja publicado, o livro não é muito lido. Quem liga! Quem quer fazer qualquer esforço? – e Vontade de Poder precisa de um tremendo esforço para entendê-lo. É a própria essência da alma de Friedrich Nietzsche. E ele era um louco! Entendê-lo é transcendê-lo também.

Esse é o primeiro livro que eu gostaria de mencionar hoje.

Segundo: Novamente vou mencionar P.D. Ouspensky. Eu já mencionei dois livros seus: um, o Tertium Organum, que ele escreveu antes de encontrar o seu mestre, Gurdjieff. Tertium Organum é bem conhecido particularmente entre os matemáticos porque Ouspensky era um matemático quando o escreveu. O segundo livro, Em Busca do Miraculoso, ele escreveu depois de ter vivido com Gurdjieff por muitos anos. Mas há um terceiro livro dele que foi escrito nesse ínterim – depois de Tertium Organum e antes dele encontrar George Gurdjieff. Esse livro é muito pouco conhecido, e o seu nome é Um Novo Modelo do Universo. É um livro estranho, muito estranho.

Ouspensky buscou por um mestre por todo o mundo, particularmente na Índia, porque as pessoas, em sua tolice, pensam que os mestres são encontrados na Índia. Ouspensky buscou na Índia e procurou por anos. Até mesmo em Bombaim ele procurou por um mestre. Naqueles dias ele escreveu esse livro tremendamente belo, Um Novo Modelo do Universo. Essa é a visão de um poeta, porque ele não sabia o que estava falando. Mas o que ele fala chega muito, muito próximo da verdade… mas apenas próximo, lembre-se, e mesmo a largura de um cabelo é suficiente para manter-te longe. Ele permaneceu distante. Ele buscou e buscou…

Nesse livro ele descreve a sua busca. O livro termina estranhamente, em uma cafeteria de Moscou, onde ele encontra Gurdjieff. Gurdjieff foi certamente o mestre mais estranho que já viveu. Ele costumava escrever em cafeterias. Que lugar para escrever! Ele sentava-se em uma cafeteria – as pessoas comendo, falando, as crianças correndo de lá para cá, o barulho da rua, as buzinas dos carros, e Gurdjieff sentado ao lado da janela cercado por todo esse disparate, escrevendo seu livro Tudo e Todo.

Ouspensky viu esse homem e se apaixonou. Quem resistiria? É totalmente impossível ver um mestre e não se apaixonar, a menos que você esteja totalmente morto, feito de pedra, ou feito de material sintético – um ser humano pré-fabricado! No momento em que ele olhou para Gurdjieff… estranho: ele viu que aqueles eram os olhos que ele estava buscando por toda a Terra, nas ruas empoeiradas e sujas da Índia, e essa cafeteria era do lado da sua casa em Moscou! Às vezes você pode encontrar o que procura nas proximidades.

Um Novo Modelo do Universo é poético, mas chega muito próximo da minha visão; é por isso que o incluo.

Terceiro: Sanai e suas belas declarações. As pessoas como Sanai não argumentam, elas apenas declaram. Elas não precisam argumentar, a sua própria existência é a prova; nenhum outro argumento é necessário. Venha, olhe nos meus olhos e você saberá que não existe um argumento, apenas uma declaração. Uma declaração é sempre verdadeira. Um argumento pode ser arguto, mas raramente é verdadeiro.

Sanai é um dos meus casos de amor. Não posso, mesmo se quisesse, exagerá-lo. É impossível. Sanai é a própria essência do Sufismo.

Sufismo é uma palavra Inglesa para tasawuf. Tasawuf significa ‘puro amor’. ‘Sufismo’ vem de suf, significando lã, e um Sufi significa uma pessoa que usa uma túnica de lã. Sanai costumava usar um boné preto – uma túnica branca e um boné preto. Nenhuma lógica, nenhuma razão, apenas uma pessoa louca como eu. Mas o que você pode fazer, essas pessoas têm que ser aceitas como elas são. Ou você as ama ou as odeia. Amor ou ódio, elas não lhe dão alternativa. Você pode ser a favor ou contra elas, mas não pode ser indiferente a elas. Esse é o milagre dos místicos. Estando próximo a mim você sabe perfeitamente bem que aqueles que vêm até mim são amigos ou inimigos. Ninguém pode vir e ir sem tornar-se um amigo ou um inimigo. Olhe! Eu também posso compor poesia às vezes. Um louco é capaz de fazer tudo.

Sanai apenas declara sem argumentar sobre. Ele simplesmente diz é assim. Você não pode perguntar por que; ele dirá, “Cale a boca! Não há por que!”

Você não pergunta a uma rosa, “Por quê?”

Você não pergunta para a neve, “Por quê?

Você não pergunta para as estrelas, “Por quê?”

Então por que você pergunta para pessoas como Sanai?

Elas são do mundo das estrelas, das flores, da neve.

Elas não argumentam.

Eu amo Sanai. Eu não me esqueci dele; Eu não ia mencioná-lo somente porque eu queria mantê-lo apenas para mim, no meu coração. Mas em um pós-escrito você pode até mesmo verter o seu coração.

Era assim que meu pai costumava escrever-me cartas. A carta era muito curta – não havia muito para escrever – então ele escrevia um PS. Novamente eu me perguntava o que ele tinha deixado de fora da carta, e ele dizia algo realmente significante. Então o PS. não era o suficiente. Haveria outro PPS. “Meu Deus,” eu pensava, “o que ele esqueceu?” Novamente havia algo realmente belo que não poderia ser escrito na carta. Um PS. é um fenômeno mais íntimo, e um PPS. ainda mais.

O meu pai faleceu, mas lembro-me dele nesses momentos, quando de repente vejo-me comportando-me como ele. Quando vejo sua imagem, eu sei que quando eu próprio tiver setenta e cinco, se Deus quiser, então parecerei exatamente como ele. E é tão bom sentir que não o trairei, que vou representá-lo até mesmo no meu último suspiro.

Devaraj – não estou tomando por engano Devaraj por Devageet; eu quis dizer Devaraj – você deve lembrar-se disso. O meu corpo funciona exatamente como o do meu pai, até mesmo em suas doenças. Eu sou orgulhoso disso. O meu pai sofria de asma, então quando sofro de asma eu sei que esse corpo vem do meu pai, com todas as suas faltas, defeitos e erros. Ele era diabético, eu também sou. Ele amava falar, e eu não fiz mais nada na minha vida do que falar. De todas as formas fui seu filho.

Ele foi um ótimo pai – não porque ele foi meu pai, mas porque mesmo ele sendo um pai, ele tocou os pés do seu filho e tornou-se seu discípulo. Essa foi a sua grandeza. Nenhum pai fez isso antes, e não acho que acontecerá novamente nessa Terra podre. Parece impossível. O pai tornar-se discípulo do filho? O pai de Buda hesitou; o meu pai não hesitou nem por um momento.

Agora seria muito fácil para o pai de Buda tornar-se seu discípulo, porque Buda foi o que as supostas religião esperam, um santo. É muito difícil para um pai tornar-se discípulo de um homem como eu. Não sou um santo de acordo com nenhum critério aceito e estou feliz porque odeio ser categorizado. Eu virarei as costas para o próprio paraíso se eu ver os pretensos santos lá. Eu vi o suficiente deles na própria Terra. Eu não sou um santo. Eu sou um tipo totalmente diferente de homem – o que chamo de Zorba o Buda.

Entretanto, conhecendo a minha notoriedade, conhecendo perfeitamente bem toda a condenação lançada contra mim por todos os locais respeitáveis, ele tornou-se meu discípulo. Isso é coragem, imensa coragem. Até mesmo eu fiquei surpreso quando ele tocou os meus pés pela primeira vez. Eu chorei – no meu quarto é claro, para que ninguém pudesse ver. Eu ainda sinto essas lágrimas nos meus olhos. Quando ele pediu para ser iniciado eu não pude acreditar. Naquele momento fiquei apenas em silêncio. Eu não podia dizer sim ou não, fiquei somente em silêncio, chocado, surpreso. Sim, vocês têm a expressão correta em sua língua: ‘tomado pela surpresa’ – e tomado tão poderosamente.

Qual era o número? Não você Ashu; você vai além dos números. Permita-me demorar-me um pouco mais nos números.

“O próximo é o número quatro, Osho.”

O próximo é o número quatro – bom. Você é esperto. Você não disse terceiro, você disse, “O próximo é o número quatro.” Você sabe que não pode enganar-me. Você entende perfeitamente que se você dissesse terceiro então eu continuaria com o terceiro no próximo. Tudo bem, às vezes permito que meus discípulos tenham o seu próprio caminho.

Quarto: O quarto nome é Dionísio. Eu falei sobre suas declarações, que são apenas fragmentos anotados pelos seus discípulos, mas falei sobre ele apenas para que o mundo saiba que as pessoas como Dionísio não devem ser esquecidas. Elas são as pessoas reais.

As pessoas reais podem ser contadas em seus dedos. A pessoa real é aquela que encontrou o real, não apenas de fora como um objeto, mas como a sua própria subjetividade. Dionísio pertence ao grandioso mundo dos budas. Refiro-me novamente a suas poucas declarações – não posso chamá-las de livro; um livro precisa ser um pouco mais do que apenas fragmentos.

Quinto… cheguei no momento mais estranho dessa série. Existe um livro chamado Aos Pés do Mestre. O nome do autor fornecido é Jiddhu Krishnamurti, mas Krishnamurti diz que ele não lembra de o ter escrito. Ele foi escrito há muito, muito tempo, quando Krishnamurti tinha em torno de nove ou dez anos de idade. Como ele poderia lembrar-se de um evento tão longínquo? Mas é uma excelente obra.

Eu gostaria de divulgar pela primeira vez ao mundo que o autor real é: Annie Besant! Annie Besant escreveu o livro, não Krishnamurti. Então por que ela não assumiu que o trabalho era seu? Havia uma razão por trás disso. Ela queria que Krishnamurti fosse conhecido no mundo como um mestre. Era apenas a ambição de uma mãe. Ela criou Krishnamurti, e ela o amava assim como qualquer mãe ama o seu próprio filho. O único desejo seu na velhice era que Krishnamurti se tornasse um professor mundial, jagatguru. Ora, como Krishnamurti podia ser declarado um professor mundial se ele não tinha nada para dizer ao mundo? Nesse livro, Aos Pés do Mestre, ela tentou satisfazer a essa demanda.

Krishnamurti não é o autor do livro. Ele próprio disse que não lembra de o ter escrito. Ele é um homem sincero, verdadeiro e honesto, mas o livro continua sendo vendido em seu nome. Ele deveria impedir isso. Ele deveria deixar claro aos editores do livro que não é o seu autor. Se eles quisessem publicá-lo, então que o publicassem anonimamente. Mas ele não fez isso. É por isso que digo que ele ainda está na nona figura das dez cartas do Zen, os Dez Touros do Zen. Ele não pode negá-lo, ele simplesmente diz que não pode lembrar-se. Negue-o! Diga que a obra não é sua.

Mas o livro é belo. De fato, qualquer ir ficaria orgulhoso de tê-lo escrito. Aqueles que querem viajar o caminho e ficar em harmonia com um mestre devem estudar Aos Pés do Mestre. Eu digo estudar, não ler, porque alguém lê ficção, ou ficções espirituais como Lobsang Rampa e sua dúzia de livros, ou os livros de muitas pessoas fictícias. Há muitas dessas pessoas hoje em dia, porque há uma necessidade, um mercado. Qualquer um pode ser um mestre agora…

Baba Freejohn… eu gargalho. Que degradação! Mesmo Freejohn, que agora mudou não a si próprio, apenas seu nome. Ele não se chama mais baba. Ele costumava chamar-se baba porque ele era um discípulo de Baba Muktananda. Na Índia por amor um mestre é chamado de baba, então ele começou a chamar-se de baba. Mas então, realizando que era uma imitação, ele o abandonou. Ele agora chama a si próprio Dada Freejohn. É o mesmo; dada ou baba, é tudo um disparate. Mas essas pessoas estão por todo lado. Cuidado com elas. A menos que você seja totalmente límpido, há muita possibilidade de ficar preso na teia de alguém.

Sexto, outro místico Sufi, Junnaid, o mestre de Al-Hillaj Mansoor… Al-Hillaj tornou-se mundialmente famoso porque foi assassinado; por isso Junnaid recaiu à sombra. Mas as poucas sentenças, os fragmentos que sobreviveram de Junnaid são realmente excelentes. Caso contrário como ele produziria um discípulo como Al-Hillaj Mansoor? Apenas algumas poucas estórias, versos e declarações permanecem, todas fragmentárias. Esta é a maneira do místico: ele nem se preocupa em conectá-las em um todo. Ele não faz uma guirlanda de flores, mas apenas as amontoa. A escolha é sua.

Junnaid disse a Al-Hillaj Mansoor, “O que você descobriu, mantenha-o para você. Não grite ana’l haq! muito alto. Se você for dizê-lo, diga-o de uma forma que ninguém possa escutá-lo.”

Todo mundo foi injusto com Junnaid. Eles pensaram que ele estava com medo. Não é assim. É fácil conhecer a verdade, é fácil declará-la; é imensamente difícil mantê-la em seu coração sem ser declarada, sem ser pronunciada. Deixe que aqueles que querem venham até o poço do seu ser, ao seu silêncio.

O sétimo é um livro de um homem que Junnaid teria amado: Meher Baba. Ele ficou em silêncio por trinta anos. Ninguém fica em silêncio por tanto tempo. Mahavira ficou em silêncio por apenas doze anos, esse era o recorde. Meher Baba quebrou todos os recordes. Trinta anos de silêncio! Ele costumava fazer gestos com suas mãos, da mesma forma que eu faço quando falo, porque há algumas coisas que só podem ser ditas por gestos. Meher Baba abandonou as palavras, mas não pôde abandonar os gestos. Somos afortunados que ele não abandonou os gestos também. Os íntimos que viviam com ele começaram a anotar a partir dos seus gestos, e o livro que foi publicado depois de trinta anos de silêncio de Meher Baba tem um título estranho, como deveria ter. O título do livro é Deus Fala.

Meher Baba viveu em silêncio e morreu em silêncio. Ele nunca falou, mas o seu silêncio foi, por si só, a sua expressão, a sua canção. Então não é realmente estranho que o título do livro seja Deus Fala.

Há um livro Zen que diz: A flor não fala. Está errado, absolutamente errado. A flor fala também. É claro que não fala em Inglês ou Japonês ou Sânscrito; ela fala na linguagem das flores. Ela fala através do seu perfume. Eu sei bem porque sou alérgico a perfume. Eu posso ouvir uma flor falar a milhas de distância, então estou falando a partir da minha experiência. Não é uma metáfora. Eu digo novamente, uma flor também fala, mas a sua linguagem é a das flores. Deus Fala, não importa como soa, é verdade em relação a Meher Baba. Ele falou sem falar de maneira alguma.

Número por favor, Devageet?

“Número oito, Osho.”

Viajamos para longe; só um pouco mais de paciência.

O oitavo é um livro muito desconhecido. Ele não deveria ser desconhecido porque foi escrito por George Bernard Shaw. O livro chama-se Máximas para um Revolucionário. Todos os seus outros livros são bem conhecidos exceto Máximas para um Revolucionário. Apenas um homem insano como eu pode escolhê-lo. Eu esqueci todo o resto que ele escreveu – é tudo entulho, só lixo.

A propósito, um dos meus sannyasins aqui é chamado Bodhigarbha. Garbha significa grávido; o nome significa ‘grávido de um buda, pronto para nascer como um buda.’ Algumas pessoas o chamam de Bodhi Garbage – eu amo. É muito mais verdadeiro. Bodhi Garbage – sim, se você pode alcançar à budidade, bodhi, até mesmo o lixo tornar-se-á divino; caso contrário tudo já é lixo.

Eu amo o pequeno livro de George Bernard Shaw Máximas para um Revolucionário – esquecido por todos, não por mim. Eu escolho coisas estranhas, pessoas estranhas, locais estranhos. Máximas para um Revolucionário parece ter descido sobre George Bernard Shaw… pois, de outra maneira, ele era apenas um cético. Ele não foi nem mesmo um santo, nem iluminado, nem mesmo pensava sobre a iluminação. Ele pode nunca ter ouvido a palavra; ele pertencia a um mundo totalmente diferente.

A propósito, eu posso dizer-lhes que ele amava uma garota. Ele se apaixonou e queria casar-se com ela, mas a garota queria tornar-se iluminada. Ela queria buscar a verdade, então ela foi para a Índia. Aquela mulher não era ninguém mais que Annie Besant. Obrigado Deus que G.B.S. não pôde a persuadir a tornar-se sua esposa; caso contrário nós teríamos perdido uma mulher tremendamente poderosa. O seu discernimento, o seu amor, a sua sabedoria… sim, ela era uma bruxa. Eu realmente quero dizer que ela era uma bruxa. Não quero dizer prostituta, quero dizer bruxa. [NT. Trocadilho bitch/witch] ‘Bruxa’ é uma palavra realmente bela; ela quer dizer sábia.

Esse mundo é dos homens. Quando um homem se torna sábio ele é chamado de um buda, um cristo, um profeta; quando uma mulher se torna sábia ela é chamada de bruxa. Veja a injustiça disso. Mas o significado original da palavra é belo.

Máximas para um Revolucionário começa… a primeira máxima é: Não há regras de ouro, essa é a primeira regra. Ora, mesmo essa pequena declaração é tremendamente bela. Não há regras de ouro… Sim, não existe nenhuma; esta é a única regra de ouro. Para as restantes vocês terão que ler o livro. Lembre-se, sempre que digo estude quero dizer medite sobre. Sempre que eu disser leia, a meditação não é necessária. Apenas familiaridade com a linguagem será o suficiente.

Nono… estou certo, Devageet?

“Sim, Osho.”

Tão bom ouvir de vez em quando que estou certo. Eu não ouvi isso por pelo menos quarenta anos. Ninguém na minha família alguma vez disse isso. Eu estava sempre errado. E agradeço a Deus que eu estava errado, não ‘certo’ de acordo com eles, mas errado de acordo comigo mesmo. Nenhum dos meus professores alguma vez me disse que eu estava certo. Eu estava sempre errado.

Era uma rotina diária, quase uma prática usual, que eu era enviado ao diretor para ser punido. O capitão da sala me levava ao diretor, que então me perguntava o que eu tinha feito naquele dia. Mas aos poucos o diretor parou de perguntar. Eu ia até lá e ele me punia, dava um tapa na minha cara, e isso era tudo. Ele nem perguntava que mal eu tinha feito.

Uma vez ocorreu – e eu ainda dou risada do incidente – que o capitão da sala fez algo errado. O meu professor mandou o capitão da sala ao diretor comigo. Eu tive que levar o capitão da sala para o diretor para ele ser punido, mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa ele já tinha me punido! Eu ri e ele disse, “O que está acontecendo?”

Eu disse, “Hoje você deveria punir o outro sujeito. Eu vim com ele. Ele não me trouxe, eu o trouxe e você já esbofeteou a minha face!”

O diretor disse, “Desculpe-me.”

Eu disse, “Eu não acredito em palavras. Deixe-me esbofetear você!” – e eu realmente o esbofeteei.

Agora o velho homem está em seu túmulo. Eu sinto remorso por tê-lo esbofeteado, mas eu não o esbofeteei muito forte… muito sutilmente, assim como uma brisa passando através dos pinheiros.

É tão bom ouvir apenas uma vez que estou certo. Somente para ouvi-lo novamente… É o oitavo número? Agora você está em dificuldade. Não, eu sei que já é o nono. Certo.

Nono. A minha escolha para o nono é Hui Neng, o sucessor Chinês de Bodidarma. Os Ensinamentos de Hui Neng ainda é desconhecido, e ainda não foi traduzido fora do Japão.

Hui Neng é um dos pináculos, o próprio crescendo onde um homem pode elevar-se. Hui Neng não diz muito; ele só insinua, apenas algumas dicas. Mas elas são o suficiente. Como pegadas, se você as seguir você alcançará. O que ele diz não é essencialmente diferente de Buda ou Jesus, mas a maneira como ele diz é própria, autenticamente original. Ele diz da sua própria forma, e isso prova que ele não é um papagaio, não é um papa ou um sacerdote.

Hui Neng pode ser facilmente resumido, mas só pode ser realizado por aqueles que podem arriscar tudo. Ele pode ser resumido muito facilmente porque tudo o que ele diz é: Não pense; seja. Mas para realizar isso são necessárias muitas vidas, a menos que uma pessoa seja totalmente inteligente; então, neste exato momento, aqui e agora, pode tornar-se uma realidade para você. Já é uma realidade em mim, por que não poderia tornar-se uma realidade para você? Exceto você, ninguém o está impedindo.

Décimo e finalmente o último. Estou com medo – é por isso que fiquei um pouco hesitante, dizê-lo ou não o dizer – Mulla Nasruddin! Ele não é uma figura fictícia, ele foi um Sufi e seu túmulo ainda existe. Mas ele era um homem tal que não podia resistir em fazer piadas até mesmo do seu túmulo. Ele fez um testamento que seu túmulo não teria nada além de uma porta, trancada, e as chaves jogadas no oceano.

Ora, isso é estranho! As pessoas vão ver o seu túmulo: elas podem dar a volta na porta porque não há paredes, há apenas uma porta ali, sem nenhuma parede! – e a porta está trancada. O homem Mulla Nasruddin deve estar rindo em seu túmulo.

Eu não amei ninguém como amei Nasruddin. Ele é um dos homens que uniu a religião e o riso; caso contrário religião e riso sempre ficariam um de costas para o outro. Nasruddin os forçou a abandonar a sua velha inimizade e tornarem-se amigos, e quando a religião e o riso se encontram, quando a meditação sorri e o riso medita, o milagre acontece… o milagre dos milagres.

Apenas dois minutos para mim.

Eu sempre amo parar quando as coisas estão em seu clímax.

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