Dhammapada: O Caminho do Buda, Vol 2. Cap 1, OSHO

O Dhammapada: O Caminho do Buda, Vol 2

Discursos proferidos de 01/07/79 a 10/07/79

 

O Dhammapada: O Caminho do Buda, Vol 2

Capítulo #1

Título do Capítulo: A sabedoria da inocência

1 de Julho de 1979 na Sala Buda

 

COMO PODE UMA MENTE TURBULENTA

ENTENDER O CAMINHO?

SE UM SER HUMANO ESTÁ PERTURBADO

ELE NUNCA SERÁ PREENCHIDO DE CONHECIMENTO.

 

UMA MENTE SERENA,

QUE NÃO BUSCA MAIS CONSIDERAR

O QUE É CERTO E O QUE É ERRADO,

UMA MENTE SEM JULGAMENTOS,

OBSERVA E ENTENDE.

 

SAIBA QUE O CORPO É UMA JARRA FRÁGIL,

E FAÇA DA SUA MENTE UM CASTELO.

EM TODA DIFICULDADE

DEIXE O ENTENDIMENTO LUTAR POR VOCÊ

PARA DEFENDER O QUE VOCÊ GANHOU.

 

POIS EM BREVE O CORPO SERÁ DESCARTADO.

ENTÃO COMO ELE SE SENTIRÁ?

COMO UM TRONCO DE MADEIRA INÚTIL, ELE CAIRÁ POR TERRA.

ENTÃO O QUE ELE SABERÁ?

O SEU PIOR INIMIGO NÃO PODE LHE FERIR

TANTO QUANTO OS SEUS PRÓPRIOS PENSAMENTOS, DESPROTEGIDOS.

 

MAS, UMA VEZ DOMINADOS,

NINGUÉM PODERÁ AJUDAR-LHE TANTO,

NEM MESMO SEU PAI OU SUA MÃE.

 

Uma vez perguntaram-me, “O que é a filosofia?” eu disse, “A filosofia é arte de perguntar as questões erradas.” O cego perguntando “O que é a luz?” – isso é filosofia. O surdo perguntando “O que é a música? O que é o som?” – isso é filosofia.

Se o cego pergunta, “Como posso recuperar os meus olhos?” isso não é mais filosofia, isso é religião. Se o surdo vai ao médico para ser tratado e poder ouvir, então ele está se movendo na direção da religião e não na direção da filosofia.

A filosofia é suposição, especulação; sem saber nada, alguém tenta inventar a verdade. E a verdade não pode ser inventada, e nada inventado pode ser verdadeiro. A verdade deve ser descoberta. Ela já está aqui… tudo que precisamos é de olhos abertos – olhos para vê-la, um coração para senti-la, um ser para estar presente para ela. A verdade está sempre presente, mas nós estamos ausentes e não fazemos a questão correta: Como estar presente? Como tornar-se uma presença?

Perguntamos pela verdade e este perguntar é um afastar-se dela, porque a pergunta implica que uma resposta de alguém seja possível. O perguntar implica que alguém pode te dizer o que a verdade é. Ninguém pode te dizer, ela não pode ser dita.

Lao Tsé diz: a verdade que pode ser dita não é mais verdade. Uma vez dita, ela se torna uma mentira. Por quê? Porque a pessoa que a conhece, não a conhece como uma informação; caso contrário seria muito fácil transferir a informação para outrem que estivesse pronto para recebê-la. A verdade é conhecida como uma experiência interior. É como o gosto na língua. Se um homem nunca experimentou o que é a doçura, você não pode explicar para ele – é impossível. Se um homem não vê cores, você não pode explicá-las para ele.

Existem coisas que só podem ser experienciadas e entendidas através da experiência. Deus é a experiência suprema, que é totalmente inexpressiva, intransferível. Não pode ser transmitida. No máximo, algumas alusões podem ser dadas; mas essas alusões também devem ser recebidas com um coração compreensivo, senão você vai perdê-las.

Se você interpretá-las com a sua mente você as perderá, pois o que a sua mente pode fazer em relação à interpretação? Ela pode trazer apenas o seu próprio passado. Ela pode trazer apenas o seu próprio caos. Ela pode trazer os seus conflitos, dúvidas, confusões. E ela vai impor tudo isso na verdade, na alusão que te foi dada e, imediatamente, tudo será distorcido. A sua mente não é capaz de ver, de sentir.

Religião simplesmente significa criar um espaço em sua mente que é capaz de ver, que é capaz de não-conflito, que é capaz de ser um sem qualquer separação, que é capaz de integridade, clareza, percepção. Uma mente que está cheia de pensamentos não pode perceber; esses pensamentos seguem interferindo. Esses pensamentos estão lá, camadas sobre camadas. No momento em que algo alcançar o seu núcleo mais interno, se algo algum dia alcançar, não é mais o mesmo que foi entregue por alguém que conhecia. Será um fenômeno totalmente diferente.

Buda frequentemente repetia cada dica três vezes. Alguém lhe perguntou, “Por que você repete uma coisa três vezes?”

Ele disse, “Mesmo três vezes não é suficiente. Quando digo pela primeira vez, você só ouve as palavras. Essas palavras são vazias, apenas um vácuo, conchas ocas, sem conteúdo. Você não pode ouvir o conteúdo a primeira vez. A segunda vez você ouve o conteúdo com as palavras, uma fragrância vem, mas você está tão atordoado, você está tão mistificado pela sua presença, que você não está em um estado de entendimento. Você ouve, mas você não entende. É por isso que tenho que repeti-las três vezes.”

Sigo repetindo pela simples razão que você está dormente – deve ser repetido, martelado. Talvez em algum momento, em algum momento auspicioso, você não estará em um sono tão profundo; você pode estar próximo, muito próximo de acordar, e algo pode entrar em você. Você pode ser capaz de ouvir. Sim, existem momentos que você está muito próximo do acordar – nem acordado, nem dormindo, justamente no meio, em algum lugar do meio.

Toda manhã, você sabe, há alguns momentos em que você não está mais dormindo, mas ainda não está acordado, não pode dizer que está acordado. Você pode ouvir, de maneira muito vaga, os sons dos pássaros, do padeiro, da esposa falando com a vizinha e as crianças se preparando para irem para a escola, o barulho do tráfego, um trem passando – mas de uma forma muito vaga, não totalmente, parcialmente. E você segue cochilando. Em um momento você ouve um barulho de um trem passando, no outro momento você aprofundou-se em seu sono.

Agora os pesquisadores do sono dizem que isso acontece continuamente em seu sono: se você dormir por oito horas, você não está no mesmo nível continuamente, o seu nível segue mudando, picos e vales. Toda a noite você sobe e desce. Às vezes você está dormindo tão profundamente que até mesmo os sonhos desaparecem – Patanjali o chamou de SUSHUPTI, o sono sem sonho – e às vezes você está cheio de sonhos. E, outras vezes, você está no limite de acordar. Se algo chocante acontecer, você acordará, repentinamente acordará.

Este é o esforço de todos os budas: esperando pelo momento certo quando você está muito próximo de acordar. Então um pequeno empurrão e seus olhos abrem e você pode ver.

Deus não pode ser explicado mas pode ser visto, pode ser experienciado – não pode ser explicado. Qualquer explicação sobre Deus o minimiza; logo, quanto mais padres, teólogos e professores, menos religião existe no mundo. Quanto mais papas e shankaracharyas, menos religião no mundo – porque essas pessoas seguem explicando e Deus não pode ser explicado. Elas encheram suas mentes com tantas explicações, agora essas explicações estão em conflito. Agora é quase impossível descobrir o que é isso, o que é aquilo. Você está em uma completa confusão. Os seres humanos nunca estiveram em tamanha confusão antes, porque a humanidade nunca esteve tão próxima antes. A Terra realmente tornou-se uma vila, uma vila global.

Nos tempos antigos os Budistas sabiam apenas o que Buda havia dito, e os Islâmicos sabiam apenas o que Maomé havia dito e os Cristãos sabiam apenas sobre Jesus. Agora nos tornamos herdeiros de toda a tradição da humanidade. Agora você conhece Jesus, Zaratustra, Patanjali, você conhece Buda, Mahavira, Lao Tsé e centenas de outras explicações, outras alusões – e elas foram todas misturadas em você. Agora é muito difícil retirar você dessa confusão. O único caminho possível é o de abandonar todo esse barulho, não em partes, mas in toto. A minha mensagem é isso.

E ao abandoná-lo, você não abandonará Jesus ou Maomé ou Buda; ao abandoná-lo você chegará mais perto deles. Ao abandoná-lo você simplesmente estará abandonando os sacerdotes, as tradições, as convenções e a exploração que continua a ocorrer em nome da tradição e da convenção. Ao se limpar de tudo isso, esquecendo a Bíblia, os Vedas e o Gita, você atingirá a claridade, a pureza. Sim, você precisa limpar toda a casa, você precisa de um desafogo total de coração. Apenas então, naquele silêncio, você será capaz de entender.

 

Buda diz:

COMO PODE UMA MENTE TURBULENTA

ENTENDER O CAMINHO?

 

Milhares se reuniam em torno de Buda, assim como vocês se reúnem em torno de mim – milhões de seguidores vieram até o Buda e eles fizeram todos os tipos de questões. E o Buda não estava interessado nas questões deles de maneira alguma; ele não tinha interesse em respondê-las. Ele estava de fato interessado, certamente, em mostrá-los o caminho, mas o problema era que as questões deles os inquietavam muito e as respostas que eles coletaram, eles estavam tão perturbados por todo o conhecimento que carregaram por todo o caminho, que era impossível, quase completamente impossível mostrá-los o caminho. Por isso o sutra: COMO PODE UMA MENTE TURBULENTA ENTENDER O CAMINHO?

Então, em vez de dar mais respostas para eles, mais explicações, mais conhecimento, Buda começou a retirar o conhecimento deles, suas respostas sem originalidade, suas concepções a priori, seus preconceitos. A Índia nunca pôde perdoar Buda por isso. Imediatamente após a sua morte a mente tradicional do país começou a desenraizar todas as plantas que ele havia plantado; todas as roseiras foram queimadas. Buda foi completamente jogado para fora desse país. O maior filho dessa terra não tinha refúgio aqui; o ensinamento teve que buscar refúgio em terras estrangeiras.

Isso não é acidental, isso sempre aconteceu. Jesus foi condenado pelos Judeus, crucificado pelos Judeus, e Jesus foi o maior Judeu que já viveu na Terra, a maior floração da consciência Judia, a expressão máxima, o crescendo, o Everest. Mas, por que os Judeus o renegaram? Eles deveriam se alegrar, eles deveriam dançar e celebrar, mas eles não podiam – eles não podiam perdoá-lo, porque a presença dele os fazia sentirem-se medíocres; este era o seu crime. Ele deveria ser punido por isso, por estar tão acima, por ser tão além, por ser tão superior, por ser tão gracioso, por trazer tal amor. Por causa da sua presença ele deveria ser punido, porque a sua presença estava fazendo com que as pessoas ficassem feias por comparação. Ele deveria ser removido para que a mente medíocre pudesse sentir-se confortável.

Jesus não foi morto pelos Judeus, ele foi morto pela mente medíocre. Aconteceu de ser a mente Judia medíocre no caso de Jesus. O mesmo aconteceu com Buda. Buda não foi perdoado pelos Hindus, e ele foi o maior de todos os Hindus. Ele foi o Hindu mais puro possível, a própria quintessência do Hinduísmo. O que os Upanishads estavam dizendo, ele realizou. Ele foi a realização dos mais profundos anseios dessa terra, mas ele foi desenraizado daqui, ele foi colocado para fora.

O Budismo desapareceu da Índia, nem mesmo um traço foi deixado para trás – totalmente lavado. Por quê? Ele era tremendamente respeitado no Tibete, na China, na Coréia, no Japão, na Tailândia, em Burma, no Sri Lanka. Toda a Ásia amava o homem, tão único o seu ensinamento, tão fértil as suas palavras. Mas a Índia simplesmente o esqueceu completamente – a mente Indiana medíocre. Ele não tinha nada que ver com o Indiano – novamente a mente medíocre. A mente medíocre nunca permite o gênio; a pessoa medíocre está feliz com outras pessoas medíocres. As pessoas estúpidas estão felizes com líderes estúpidos. Quanto mais estúpido o líder é, mais felizes as pessoas estão – porque ele se parece com elas.

Eu ouvi:

Um novo superintendente foi nomeado em um manicômio. O antigo estava passando o controle, ele estava se aposentando, e um pequeno banquete foi preparado para o antigo ser agradecido por todos os seus serviços, e para o novo ser recebido pelos internos. Todos os loucos se reuniram.

O superintendente antigo estava um pouco intrigado; ele nunca tinha sido visto tão feliz. Todos os loucos eram muito felizes, tão contentes, que ele não resistiu à tentação de perguntá-los – e ele teria que ir embora no mesmo dia, então ele tinha que perguntar imediatamente; senão permaneceria sempre uma curiosidade em sua mente e ele nunca saberia a resposta.

Ele perguntou aos loucos. “Por que vocês parecem tão felizes?”

Eles disseram, “Por causa do novo superintendente – ele se parece conosco! Você era um estrangeiro entre nós, você é saudável. Ele parece louco!”

E aquilo era verdade – o novo superintendente era quase louco. Mas os loucos estavam muito felizes. Agora chegou alguém que não iria fazê-los sentirem-se insanos.

 

Esta sempre foi a situação na Terra – esta Terra é um manicômio – e sempre que uma pessoa sã ocorre, nós nos comportamos mal com ela. Milhares de pessoas vieram até o Buda para perguntar, “Onde está Deus? O que é Deus?” E especialmente os brâmanes, os pânditas, os eruditos, que eram totalmente informados, bem informados sobre as escrituras, eles frequentemente vinham até ele e perguntavam, “Você acredita em Deus? Defina a sua crença, explique o seu conceito.”

E Buda insistia repetidas vezes: COMO PODE UMA MENTE TURBULENTA ENTENDER O CAMINHO? Ele costumava dizer, “Por favor não pergunte sobre Deus. A sua pergunta sobre Deus é como um cego que pergunta sobre a luz – ela não pode ser explicada. Eu sou um médico,” insistia. “Posso tratar os seus olhos, posso dar a sua visão de volta. E então você será capaz de ver por si mesmo, e a luz deve ser vista por você. A minha visão da luz não ajudará. Posso ver a luz, posso até mesmo descrevê-la, mas isso não lhe dará qualquer ideia do que ela é.”

De fato não há nenhuma maneira possível de explicar ao cego o que é a luz. A luz é uma experiência, algo existencial, inexplicável. E Deus é a luz última, a luz de todas as luzes, a luz por detrás de todas as luzes, a fonte de todas as luzes. Como Deus pode ser explicado a você se você é cego?

Por isso Buda nunca falou sobre Deus. E os pânditas e os brâmanes voltavam para seus lares espalhando rumores e dizendo que “Esse homem não responde à questão porque ele não sabe; caso contrário, por que não dizia apenas sim ou não? Fizemos uma questão muito simples, ‘Você acredita em Deus?’ Ele poderia dizer sim ou não – se soubesse, então a resposta seria simples. Mas ele fala de maneira indireta; nós perguntamos sobre Deus e ele fala em parábolas. Ele diz, ‘Como pode ser dito? Como pode ser explicado?’ O fato real é que ele não sabe. O fato real é que ele é um ateu disfarçado; ele está enganando as pessoas, corrompendo-as.”

Os Hindus inventaram uma estória muito sagaz sobre Buda. Eles dizem que Deus criou o mundo, e, ao mesmo tempo, criou o inferno e o paraíso – o inferno para aqueles que deveriam ser punidos e o paraíso para aqueles que deveriam ser recompensados por suas virtudes. Mas ocorreu que milhares de anos se passaram e ninguém entrou no inferno, porque ninguém cometeu um pecado. Obviamente o Diabo estava cansado de esperar e esperar – sem nenhum trabalho, sem nenhum negócio! Nem mesmo uma alma apareceu!

Tremendamente bravo, ele foi até Deus e disse, “Por que você fez esse inferno, para que? E por que você me colocou lá para comandá-lo? Nós estamos cansados, toda a minha equipe está cansada. Não aparece ninguém. Abrimos a loja e sentamo-nos todo o dia e nem mesmo um cliente! Mantemos as portas abertas – nem mesmo uma alma nunca entra. Qual é o ponto? Por favor nos liberte desse trabalho.”

Deus disse, “Por que você não veio antes? Eu me esqueci completamente disso. Vou fazer alguns arranjos. Em breve eu nascerei no mundo como Gautama o Buda, e corromperei as mentes das pessoas. Vou corrompê-las tanto que o inferno ficará lotado. Volte para o inferno e aguarde.”

E foi isso o que ocorreu. A estória diz que Deus veio ao mundo como Gautama o Buda, corrompeu a mente das pessoas, destruiu as suas crenças, desenraizou suas convenções, balançou a fé delas, criou dúvida em suas mentes, suspeitas. Desde então o inferno está tão povoado que o Diabo se volta sempre para Deus e diz, “Agora pare! Por favor pare! Estamos cansado, tantas pessoas! Estamos abertos vinte e quatro horas por dia, todos os dias; mesmo à noite as portas não podem ser fechadas. As pessoas simplesmente seguem chegando!”

Uma estória muito astuta. Você vê a esperteza delicada nela? Em um sentido Buda é reconhecido como avatara de Deus. Os Hindus são mais astutos em relação a isso do que os Judeus. Estes simplesmente negam que Jesus era Filho de Deus, eles rejeitam Jesus. Os Hindus são mais sofisticados nesse ponto, mais polidos, mais cultivados – é claro, uma civilização mais antiga. E quanto mais antiga uma civilização se torna, mais esperta ela se torna.

Veja a sagacidade: Buda é aceito como a décima encarnação de Deus, e, entretanto, Deus utiliza essa encarnação no mundo para corromper a mente das pessoas. Então, apesar de Buda ser Deus, cuidado, não o ouça! Você vê a estratégia, o truque? Eles não renegam a divindade de Buda – de fato, é quase impossível negar a divindade de Buda.

H. G. Wells disse que Gautama o Buda é um paradoxo: o homem mais sem Deus e, entretanto, o mais divino. Ele nunca falou sobre Deus, ele nunca disse para as pessoas acreditarem em Deus. Deus está simplesmente ausente de seus ensinamentos. Não é uma hipótese necessária, não é necessária. O mais sem Deus, entretanto o mais divino… ninguém parece ser tão divino quanto Buda, tão gracioso quanto Buda – apenas uma flor de lótus, a consciência mais pura concebível, tão fresca quanto as gotas de orvalho no sol do início da manhã.

Eles não puderam negar isso, eles tiveram que aceitar que ele era Deus. Mas eles não podiam aceitar o ensinamento dele porque seu ensinamento, se aceito, destruiria toda a religião estabelecida, todo o establishment. Ele retirou todas as crenças; de fato, ele tornou a crença algo muito importante, muito essencial, que o homem de crença não será capaz de conhecer nunca. Ele não quer dizer torne-se um descrente, porque a descrença é, novamente, a crença de uma maneira negativa. Não seja um crente nem um descrente.

A abordagem de Buda é a de um agnóstico. Ele não é nem um teísta nem um ateu – ele é um buscador. E ele quer que você se mantenha aberto à investigação. Siga sem preconceito, siga sem nenhuma ideia pré-fabricada – porque se você seguir com uma certa ideia, você projetará a sua ideia na realidade. E se você tem alguma ideia profundamente enraizada na sua mente, você verá aquela ideia ser realizada na realidade e isso será apenas uma alucinação, um sonho projetado por você. Você tem que seguir completamente vazio. Se você realmente quer saber a verdade você tem que estar absolutamente vazio, você não deve carregar qualquer ideia, qualquer ideologia; você deve seguir nu, desnudo, vazio. Você deve funcionar a partir do estado de não-conhecimento. O estado de não-conhecimento é o estado de maravilhamento.

Há um ditado antigo de Jesus, que não está registrado na Bíblia, mas que os Sufis preservaram. Os Sufis preservaram muitos ditados belos de Jesus. O ditado é tão tremendamente importante que surge a pergunta do porquê ele não estar registrado na Bíblia, mas se você ponderar sobre ele a razão torna-se clara.

O ditado é: Abençoado é aquele que se maravilha, pois seu é o reino de Deus. Abençoado aquele que se maravilha. Isso não está registrado na Bíblia. Por quê? – porque a Bíblia quer criar uma certa religião, uma certa seita; ela quer propagar uma certa ideologia. E o homem de maravilhamento tem que abandonar toda ideologia.

Abençoado é aquele que se maravilha, porque apenas no maravilhamento você pode ser como uma criança, inocente. E apenas nessa inocência você pode saber aquilo que é. COMO PODE UMA MENTE TURBULENTA ENTENDER O CAMINHO?

Então sempre que uma pessoa chegava perto de Buda e indagava – grandes questões sobre a vida e os mistérios da vida – Buda diria, “Espere, medite. Primeiro permita que sua mente perturbada se torne imperturbável. Deixe essa tempestade da sua mente passar. Deixe o silêncio vir, porque o silêncio lhe dará os olhos. Eu posso lhe mostrar o caminho para ser silencioso e então você não precisará da orientação de ninguém. Uma vez que você esteja em silêncio, você será capaz de ver o caminho e será capaz de atingir a meta.”

E as suas mentes estão realmente perturbadas. Mil e uma perturbações encontram-se ali. Primeiro, todos estão em um estado de esquizofrenia, mais ou menos; as diferenças são apenas de graus. Todos estão separados porque os exploradores, tanto religiosos quanto políticos, dependeram dessa estratégia: divida o homem, não permita que ele seja íntegro e ele permanecerá um escravo. Uma casa dividida contra si mesma será fraca. Então você foi ensinado a lutar contra o corpo; esta é a estratégia raiz da divisão, da sua divisão. “Lute contra o corpo, o corpo é seu inimigo. É o corpo que está te arrastando para o inferno. Lute, adaga em mãos! Lute dia e noite! Lute por vidas! Apenas então, um dia, você será capaz de ganhar do corpo. E, a menos que você seja vitorioso sobre o corpo, você não entrará no mundo de Deus.”

Por séculos esse disparate foi ensinado para as pessoas. E o resultado é que todo mundo está dividido, todo mundo está contra o seu corpo. E se você está contra o seu corpo, você terá dificuldades. Você lutará com o seu corpo, e você e seu corpo são uma energia. O corpo é a alma visível e a alma é o corpo invisível. O corpo e a alma não estão divididos em lugar algum, eles são partes um do outro, eles são partes do todo. Você tem que aceitar o corpo, amar o corpo, respeitar o corpo, ser grato ao corpo. Apenas então você alcançará um certo tipo de integridade, uma cristalização ocorrerá; de outra maneira você permanecerá perturbado. E o corpo não te deixará tão facilmente; mesmo por centenas de vidas a luta estará lá. Você não pode ganhar do corpo.

Não estou dizendo que o corpo não pode ser conquistado, entenda, mas que você não pode ganhar do corpo. Você não pode ganhar dele ao ser seu inimigo. Você pode conquistá-lo ao ser amigável, terno, respeitoso, ao confiar nele. Esta é exatamente a minha abordagem: o corpo é o templo, você é a deidade do templo. O templo lhe protege, lhe abriga ante a chuva, o vento, o calor. Ele está a seu serviço! Por que você deveria lutar? É tão estúpido quanto um motorista lutando contra o carro. Se o motorista lutar com seu carro, o que acontecerá? Ele destruirá o carro e destruirá a si mesmo ao lutar. O carro é um belo veículo, ele pode levar-lhe para as viagens mais distantes.

O corpo é o mais complexo mecanismo da existência. É simplesmente maravilhoso! – e abençoados são os que se maravilham. Comece o sentimento de maravilhamento com o seu próprio corpo, porque é o que está mais próximo de você. O mais próximo que a natureza se aproximou de você, o mais próximo que Deus chegou de você, é através do seu corpo. Em seu corpo estão as águas dos oceanos, em seu corpo está o fogo das estrelas e dos sóis, em seu corpo está o ar, seu corpo é feito de terra. Seu corpo representa toda a existência, todos os elementos. E que transformação! Que metamorfose! Olhe para a terra e então olhe para o seu corpo – que transformação, e você nunca se maravilhou com isso! O pó tornou-se divino – que mistério maior é possível? Que milagre maior você está esperando? E você vê o milagre acontecendo todo dia. Da lama nasce o lótus… e do pó nasce o seu belo corpo. Um mecanismo complexo funcionando tão suavemente – sem barulho. E é realmente complicado.

Os cientistas fizeram máquinas muito complicadas, mas nada pode ser comparado com o corpo. Mesmo o computador mais sofisticado é apenas um brinquedo comparado com o mecanismo interno do corpo. E lhe foi ensinado que você deve lutar contra ele. Isso cria uma separação, que lhe mantém perturbado, que lhe mantém em uma constante guerra civil.

E porque você luta consigo mesmo – o que é totalmente estúpido – a sua vida se torna cada vez menos inteligência e cada vez mais estupidez. E então você quer grandes transformações – você quer que a inveja acabe, quer que a raiva desapareça e você não quer ter ganância. É impossível! Com tais desentendimentos desde o início, como você pode criar o espaço onde as transformações acontecem, onde a raiva se torna compaixão, onde o ódio se torna amor, onde a ganância se torna compartilhar, onde o sexo se torna samadhi? Como você pode ter esperança, como pode esperar tais transformações gigantes, com um estado de mente perturbado?

O fundamental é abandonar a separação, tornar-se um. Seja um, e, então, todo o resto é possível; mesmo o impossível é possível. COMO PODE UMA MENTE TURBULENTA ENTENDER O CAMINHO?

O caminho é muito simples e direto. Mesmo uma criança pode entendê-lo. É tão simples quanto dois mais dois é igual a quatro, ou até mesmo mais simples. É tão simples quanto a música de um pássaro, tão simples quanto uma rosa – simples e bela, simples e tremendamente majestosa. Mas apenas uma mente não turbulenta pode entendê-lo, apenas uma mente não turbulenta tem a capacidade de vê-lo; caso contrário você viverá na ganância e na raiva, você viverá com inveja e possessividade, e você viverá no ódio. Você pode fingir, você pode tornar-se um santo na superfície, mas você permanecerá um pecador lá no fundo. E o maior pecado é dividir-se. O maior pecado não é cometido pelos outros, é sempre cometido contra si próprio. Este é um estado de suicídio, criando a divisão entre o corpo e si próprio. Condenando o corpo você pode tornar-se apenas um hipócrita, você pode viver apenas uma vida de pretensões.

 

No compartimento de primeira classe de um trem, duas damas belamente vestidas estão conversando sobre roupas enquanto um cavalheiro no canto finge estar dormindo. Quando uma dama diz que ela acha os valores dos tecidos impossíveis nos dias atuais, a outra sugere que ela deve seguir o seu exemplo e levar um namorado a tira colo: “Ele vai dar a você quinhentos por mês como um presentinho – o seu marido nunca faria isso.”

“Mas e se eu não conseguir um amigo com quinhentos dólares?”

“Então pegue dois com duzentos e cinquenta cada.”

O cavalheiro falou: “Ouça, senhoras, eu vou dormir agora. Acorde-me quando vocês abaixarem para vinte pratas.”

 

As pessoas estão fingindo de todas as formas. A pessoa que está fingindo ser santa pode ser apenas o oposto, e a pessoa que está fingindo estar acordada pode estar dormindo, e a pessoa que está fingindo dormir pode estar acordada…todos os tipos de pretensões, porque a sociedade cria o contexto onde lhe é permitido apenas uma vida totalmente condenada, a vida de um criminoso, ou a vida de um hipócrita, ou fingidor. A sociedade lhe dá apenas duas alternativas: ou ser honesto e ser um criminoso, ou ser desonesto e respeitável. Ela não lhe dá uma terceira alternativa. Por que você não permite uma terceira alternativa? – porque a terceira alternativa cria um Jesus, um Buda, um Krishna, e a presença deles faz as massas sentirem-se muito medíocres, muito insultadas, humilhadas.

Então por favor não decida ao olhar para a aparência das pessoas. As chances são maiores, quase noventa e nove por cento, que quaisquer coisas que elas pareçam na superfície elas não sejam lá no fundo. Você pode estar certo disso; digo quase completamente certo, porque você pode errar apenas em um por cento das vezes – o que não é muito. É raro você se deparar com um Buda, cuja aparência é a mesma da sua interioridade; caso contrário você encontrará pessoas que são uma coisa fora e outra dentro. Não seja enganado pelas aparências.

 

Uma atriz pega um vagabundo e o leva para seu apartamento porque ele tem sapatos muito grandes e disseram-na que os homens que têm um pé grande têm um pênis grande. Ela lhe deu um jantar com bife, muita pimenta e cerveja e então o levou para a cama.

Pela manhã o homem acordou sozinho e encontrou uma nota de dez dólares sobre a cômoda, com uma breve nota: “Compre um par de sapatos que seja do seu tamanho.”

 

Mas é dessa forma que todos nós decidimos… do lado de fora. De fato, porque não conhecemos nosso próprio interior, como poderemos olhar para o interior das outras pessoas? Não sabemos a arte de olhar para dentro. Primeiro você tem que praticar a arte consigo mesmo. Primeiro você tem que ir para sua própria interioridade, o seu mundo interior. Você tem que ir cada mais vez profundo na sua consciência, ao próprio centro dela. Uma vez que você penetrou o núcleo do seu ser, você será capaz de ver o núcleo interior de qualquer pessoa. Então ninguém pode lhe enganar, porque então você não vê a aparência – você vê a realidade.

COMO PODE UMA MENTE TURBULENTA ENTENDER O CAMINHO?

A mente turbulenta não pode entender nada. Não é um estado onde o entendimento é possível. Entendimento não significa conhecimento. Uma mente turbulenta pode tornar-se muito instruída – você pode ir às universidades e você pode ver os professores, muito instruídos – mas eles estão mais perturbados que você, em um conflito interior muito maior que o seu. O conhecimento deles não os ajuda de maneira alguma. O conhecimento nunca ajudou ninguém, ele é apenas um fardo. Ele lhe dá respeitabilidade, certamente. É uma grande viagem do ego e o ego sente-se muito inflado; mas quanto mais o ego é inflado, mais agitação interior você terá porque o ego é um fenômeno falso. E quando você se torna muito apegado ao falso, você começa a perder contato com o real. Quando você começa a criar raízes no falso, você se esquece de criar raízes no real.

O homem de conhecimento está tão inconsciente quanto você. O ignorante e o instruído não estão em botes diferentes; eles viajam juntos. A diferença entre eles é apenas de informação – o que não é uma diferença de forma alguma, não é uma diferença que faça alguma diferença. Posso saber algumas poucas coisas e outra pessoa pode ser uma Enciclopédia Britânica andante – isso não faz nenhuma diferença.

Um buda não é um homem de conhecimento, ele é um homem de entendimento – não é cheio de informação, mas cheio de discernimento. Cheio de visão, não cheio de pensamentos – uma clareza, uma clareza de espelho, e uma grande consciência.

Você se move como um sonâmbulo, um noctâmbulo. Você não sabe o que está fazendo, não sabe porque está fazendo; não sabe para onde está indo, não sabe porque está indo. A sua vida é acidental, e uma vida acidental é uma vida inconsciente – é como um robô.

 

Um homem em um teatro com sua esposa vai ao toalete no intervalo, mas erra a porta e entra no jardim. Como tudo está bem limpo para utilizar o chão, ele levanta uma planta de seu vaso e o utiliza, então recoloca a planta.

Ele volta e descobre que o próximo ato já começou. “O que aconteceu até agora neste ato?” ele pergunta a sua esposa em um sussurro.

“Você deveria saber,” ela diz friamente. “Você estava nele!”

 

O ser humano vive na inconsciência. Ele não está consciente, nem um pouco consciente. Você pode observar qualquer pessoa, você pode se observar, vagarosamente, e você verá tantos atos inconscientes acontecendo que é quase inacreditável como você viveu até agora. Vocês estão mentindo sem razão alguma! E quando você se pega em flagrante mentindo, você fica surpreso: por que você está mentindo em primeiro lugar? – porque não há nenhuma razão, você não ganhará nada com isso. Apenas um hábito, apenas uma rotina mecânica. Você fica triste por nenhuma razão.

Agora alguns pesquisadores dizem que você pode fazer um calendário de seus humores e penso que essas pesquisas são significantes – você realmente pode fazer um calendário de seus humores. Siga anotando por um mês: segunda-feira de manhã como você se sente e à tarde e à noite… pelo menos oito vezes por dia, siga anotando todos os dias exatamente na mesma hora como você se sente. E dentro de três ou quatro semanas você ficará surpreso que em toda segunda-feira ao mesmo horário você faz exatamente o mesmo.

Ora, isso não pode ser assim por causa de quaisquer circunstâncias externas, porque toda segunda-feira é diferente. É algo interno – apesar de você encontrar desculpas externas, porque ninguém quer se sentir responsável por sua própria miséria. É bom fazer alguém parecer responsável por sua miséria. E você pode encontrar desculpas, você pode inventá-las se elas não estão lá.

É aqui que as pessoas se tornam muito criativas. De fato toda a criatividade delas consiste em criar desculpas: “Por que estou triste?” e você pode encontrar mil e uma razões. A esposa disse aquilo e as crianças não estão se comportando bem, os vizinhos e o patrão no escritório, o tráfego e os preços subindo…e você pode encontrar mil e uma coisas: elas são sempre as mesmas. E você pode achar o mundo muito sombrio, escuro, e então você pode sentir-se confortável que não é sua responsabilidade que você está triste.

Mas é o mesmo mundo, e terça-feira de manhã você sente-se muito animado, muito alegre, radiante – novamente você encontra desculpas: “Essa é uma bela manhã, e o sol, os pássaros, as árvores, o céu e tudo está tão cheio de luz – que bela manhã!” Você pode encontrar desculpas para todos os tipos de humores, mas se você fizer um diário de quatro a oito semanas você ficará realmente chocado pois tudo o que acontece com você é quase completamente dependente de você. Você tem uma roda interna que segue-se movendo e o mesmo aro está passando pelo topo repetidas vezes.

Sim, há circunstâncias externas, mas elas não são causas; no máximo elas acionam. Um certo humor que deve ocorrer é acionado por uma certa circunstância. Se essa circunstância não estivesse ali, então algo diferente seria o gatilho – mas ele deve ser acionado.

As pessoas que viveram em isolamento tornaram-se conscientes desse fato. Buda costumava enviar os seus discípulos para o isolamento. Na nova comuna teremos cavernas subterrâneas para que eu possa enviar-lhes para um mês de isolamento – isolamento absoluto. Você desaparece do mundo, então não pode culpar qualquer circunstância externa porque não há nada fora… você e as paredes da caverna. E você ficará surpreso: um dia você é feliz, um dia você é infeliz, um dia você se sente muito ambicioso, um dia você sente raiva e não há ninguém que lhe insultou, lhe irritou. Um dia você verá que está contando mentiras para você mesmo porque não pode encontrar com ninguém.

“Posso pagar-lhe uma bebida?” ele perguntou, como forma de iniciar uma conversação.

“Não, obrigado,” ela disse. “Eu não bebo.”

“E um brunch comigo em meu quarto?”

“Não, não acho que isso seria adequado,” ela disse.

Não tendo sucesso com abordagens sutis, o jovem homem pressionou direto ao ponto: “Estou encantado pela sua beleza refrescante, mademoiselle, e lhe darei qualquer coisa que seu coração desejar se você passar a noite comigo.”

“Ó, não, não, monsieur, eu nunca faria algo como isso.”

“Diga-me,” disse o jovem homem, rindo, “você nunca faz nada minimamente impróprio?”

“Oui,” disse a garota francesa, “Conto mentiras.”

 

Observe quantas vezes no dia você conta mentiras – e sem razão alguma – e quantas vezes você fica com raiva, sem razão alguma, e então verá que você vive em um mundo interior, um mundo subjetivo próprio. O entendimento significa entendimento dessas coisas fundamentais do funcionamento da vida. E se você entende esses fundamentos, a transformação não é difícil. De fato, o próprio entendimento se torna a transformação.

COMO PODE UMA MENTE TURBULENTA ENTENDER O CAMINHO?

SE UM SER HUMANO ESTÁ PERTURBADO

ELE NUNCA SERÁ PREENCHIDO DE CONHECIMENTO.

 

A palavra ‘conhecimento’ não significa o que você quer dizer por conhecimento. Quando Buda utiliza a palavra ‘conhecimento’ ele quer dizer sabedoria, não informação; ele quer dizer vigilância, não conhecimento.

SE UM SER HUMANO ESTÁ PERTURBADO… está em conflito, em confusão, dividido, internamente desunido, se um ser humano é uma multidão interior… ELE NUNCA SERÁ PREENCHIDO DE sabedoria.

A sabedoria necessita de unidade, integração, uma cristalização da vigilância, da consciência, do observar dos seus atos, humores, pensamentos, emoções… da observação de tudo o que está acontecendo em seu mundo interior. Apenas ao observá-lo, um milagre começa a acontecer. Se você começa a ver que está contando mentiras sem razão nenhuma, esta própria consciência tornar-se-á um obstáculo. A próxima vez que você estiver no limite de contar uma mentira uma voz em seu interior dirá, “Observe, cuidado – você está se movendo para a armadilha novamente.” A próxima vez que você cair na tristeza, algo em seu interior o deixará alerta, algo irá te alarmar.

Este é o caminho para a transformação das suas energias – AES DHAMMO SANANTANO. AES MAGGO VISUDDHYA – este é o caminho da purificação, esta é a lei eterna da transformação.

 

UMA MENTE SERENA,

QUE NÃO BUSCA MAIS CONSIDERAR

O QUE É CERTO E O QUE É ERRADO,

UMA MENTE SEM JULGAMENTOS,

OBSERVA E ENTENDE.

 

Então o primeiro requerimento para um sannyasin é: UMA MENTE SERENA, QUE NÃO BUSCA MAIS CONSIDERAR O QUE É CERTO E O QUE É ERRADO…

Uma declaração tremendamente importante e revolucionária. Buda está dizendo: Não considere o que é certo e o que é errado, porque se você considerar o que é certo e o que é errado você estará dividido, você tornar-se-á um hipócrita. Você aspirará o certo e fará o errado. E no momento que você considera o que é certo e o que é errado, você se torna apegado, você se torna identificado. Você certamente se torna identificado com o certo.

Por exemplo, você vê de um lado da estrada uma nota de cem rúpias; ela pode ter caído do bolso de alguém. Agora surge a questão: Pegá-la ou não? Uma parte sua diz, “É perfeitamente certo pegá-la. Ninguém está olhando, ninguém nunca suspeitará. E você não está roubando – ela está apenas lá! Se você não pegá-la, alguém a pegará de qualquer forma. Então por que perdê-la? Está perfeitamente certo!”

Mas outra parte diz, “Isso é errado – esse dinheiro não lhe pertence, não é seu. De uma forma, de uma forma indireta, é um roubo. Você deve informar à polícia, ou, se não quiser se preocupar, então siga em frente, esqueça-a completamente. Nem mesmo olhe para trás. Isso é ganância e a ganância é um pecado!”

Ora, essas duas mentes estão lá. Uma diz, “Está logo ali, pegue-a,” a outra diz, “É errado, não a pegue.” Com qual mente você se identificará? Você certamente se identificará com a mente que diz que é imoral, porque isso satisfaz mais o ego. “Você é uma pessoa moral, você não é ordinária; todo mundo teria pego a nota de cem rúpias. Nesses momentos de dificuldade, as pessoas não pensam nessas sutilezas.” Você identificar-se-á com a mente moral, e você se desidentificará da mente que quer pegar a nota. No fundo você a condenará; você dirá, “Não é certo – é a minha parte pecadora, a parte mais baixa, a parte condenada.” Você se manterá distante dela. Você dirá, “Fui contra isso. Foi meu instinto, minha inconsciência, meu corpo, minha mente, que me persuadiram a fazer isso; por outro lado, eu sabia que era errado. Sou aquele que sabia que era errado.”

Você sempre se identifica com o certo, a atitude moralista, e você se desidentifica do ato imoral – entretanto o faz. Assim surge a hipocrisia.

Santo Agostinho disse em suas confissões: Deus, perdoe-me, pois continuo a fazer coisas que sei que não deveria fazer e, também, não faço coisas que sei que deveria fazer.

Este é o conflito, é assim que alguém torna-se perturbado. Por isso Buda lhe dá uma chave secreta. Esta é a chave que pode lhe tirar de toda a identificação: não se identifique com a mente moral – porque esta também é parte da mente. É o mesmo jogo: uma parte dizendo bem, outra parte dizendo mal – é a mesma mente criando um conflito em você. A mente é sempre dual. A mente vive nos opostos polares. Ela ama e odeia a mesma pessoa; ela quer fazer o ato e não quer fazer o ato. É conflito, a mente é conflito. Não se identifique com nenhuma.

Buda está dizendo: torne-se apenas uma vigilância. Veja que uma parte está falando isso, que a outra parte fala aquilo. “Não sou nenhuma – NETI, NETI, nem isso nem aquilo – sou apenas uma testemunha.” Apenas então há uma possibilidade do entendimento surgir.

UMA MENTE SERENA, QUE NÃO BUSCA MAIS CONSIDERAR O QUE É CERTO E O QUE É ERRADO, UMA MENTE SEM JULGAMENTOS, OBSERVA E ENTENDE.

Ir para além dos julgamentos do bem e do mal é o caminho da vigilância. E é através da vigilância que a transformação ocorre. Esta é a diferença entre moralidade e religião. A moralidade diz, “Escolha o certo e rejeite o errado. Escolha o bem e rejeite o mal.” A religião diz, “Simplesmente observe ambos. Não escolha de modo algum. Permaneça uma consciência que não escolhe.”

A religião é muito diferente da moralidade. A moralidade é muito ordinária, mundana, medíocre; a moralidade não lhe pode levar ao último, não é o modo do divino. A moralidade é apenas uma estratégia social. É por isso que uma coisa é certa em uma sociedade e a mesma coisa é errada em outra sociedade; pensa-se que uma coisa é boa na Índia e pensa-se mal da mesma coisa no Japão. Uma coisa é tida como boa hoje e pode tornar-se errada amanhã. A moralidade é um subproduto social, é uma estratégia de controle. É o policial dentro de si, o juiz dentro de si – é um truque da sociedade para hipnotizar você de acordo com certas concepções que a sociedade quer impor às pessoas. Então se você nasce em uma família vegetariana, então os não-vegetarianos são os maiores pecadores.

Um monge Jaina me disse uma vez que “Eu amo os seus livros, mas por que você menciona Jesus, Maomé, Ramakrishna com Mahavira? Você não deveria mencioná-los na mesma linha. Mahavira é Mahavira – como ele pode ser comparado e colocado da mesma maneira, na mesma categoria de Jesus, Maomé e Ramakrishna?

Eu disse, “Por que não?”

Ele disse, “Jesus bebia vinho, comia carne – que maior pecado alguém pode cometer?”

Maomé comia carne e casou-se com nove mulheres! É necessário renunciar às mulheres – e não somente a uma mas nove! Um número perfeito. De fato, não há mais números; nove é o último número, então novamente repetem-se os mesmos…

“Maomé casou-se com nove mulheres, comia carne – como você pode colocar Maomé com Mahavira? E como você pôde pôr Ramakrishna com Mahavira? Ele comia peixe.”

Alguém que nasce em Bengala deve comer peixe.

A única crítica dele aos meus livros é que coloquei essas pessoas juntas.

Agora pergunte a um Cristão… uma vez perguntei a um missionário Cristão, “O que você diria sobre esse monge Jaina? Ele disse isso… você tem alguma objeção?”

Ele disse, “Certamente! Como você pôde colocar Mahavira com Jesus? Jesus viveu pela humanidade, sacrificou-se a si mesmo pela humanidade – o que Mahavira fez? Mahavira é totalmente egoísta, ele pensa apenas na sua própria salvação. Ele não liga para mais ninguém! Ele nunca curou uma pessoa cega, nunca ressuscitou um morto. Ele apenas meditou por doze anos nas montanhas, nas florestas – o que é mais egoísta? E o mundo está sofrendo e as pessoas estão com muita dor, e ele não as consola. Qual luxo pode ser maior? Apenas meditar ao largo de um rio na floresta – que luxo! O que ele fez pela pobre humanidade? Jesus sacrificou-se a si próprio – ele viveu e morreu para os outros. Toda a sua vida não foi nada além de puro sacrifício. Como você pôde colocar Mahavira com Jesus?”

E ele também parece estar certo. Ora, como decidir? Buda nunca curou os doentes, os cegos, surdos, mudos – apenas meditou. Parece egoísta! Ele deveria ter aberto hospitais, ou pelo menos escolas; deveria ter distribuído remédios, deveria ter ido até as áreas de cheias e servido às pessoas… ele nunca fez nada parecido com isso. Que tipo de espiritualidade é essa? De acordo com os Cristãos, é egoísmo puro.

Ora, quem está certo? E quem decidirá? Vivemos de acordo com nossos próprios preconceitos.

O monge Jaina está errado e o missionário Cristão está errado, porque ambos estão julgando – e julgar é errado. Jesus é Jesus – ele vive da sua própria maneira. Buda é Buda – ele vive da sua própria maneira. Personalidades únicas, expressões únicas de Deus. Nenhum é uma cópia do outro e nenhum precisa ser uma cópia do outro. E é belo que o mundo tenha variedade. Se houvessem apenas Jesuses por todo lado eles pareceriam como os carros Ford saindo de uma linha de montagem – cada segundo um carro Ford saindo, o mesmo, exatamente iguais uns aos outros. É belo que Jesus é um, simplesmente um e irrepetível. E é bom que Buda seja único e irrepetível.

Uma pessoa realmente religiosa tem uma abordagem não-julgadora. O moralista não pode evitar os julgamentos, ele se torna um juiz. Ora, esse monge Jaina, uma pessoa ordinária, estúpida, está pronto para julgar Jesus, Ramakrishna, Maomé. Ele não sabe de nada, não entende nada, nunca meditou – ele não conhece a si próprio ainda. É por isso que ele veio até mim.

Ele veio até mim para entender o que é meditação e como meditar. A meditação ainda não ocorreu, mas o julgamento está ali – e ele está pronto para julgar até mesmo um homem como Jesus, sem ter nem mesmo vergonha do que está fazendo, sem timidez, com muita arrogância. E da mesma maneira com o missionário Cristão! Ele não sabe nada de meditação, do que Buda estava fazendo, do que Mahavira estava fazendo. Buda não sabe nada dos caminhos sutis os quais um Buda funciona. Apenas se tornar iluminado é o maior serviço possível para a humanidade – nada mais pode ser feito. Ele certamente não curou os olhos físicos, mas ele é o homem que curou milhões de olhos espirituais – e este é o serviço real! Ele fez milhões de pessoas ouvir, escutar, entender – ESTE é o serviço real.

Mas esse missionário Cristão, porque ele dirige uma escola primária e um hospital, pensa que é alguém que está autorizado a julgar. O moralista sempre julga, a pessoa religiosa nunca julga. Ela vive em uma consciência não-julgadora.

UMA MENTE SEM JULGAMENTOS, OBSERVA E ENTENDE. Ela simplesmente observa e entende. Se Buda encontrasse com Jesus, ele teria entendido; se Jesus encontrasse com Mahavira, ele teria entendido. Apenas observando, assistindo, e então existe entendimento.

 

SAIBA QUE O CORPO É UMA JARRA FRÁGIL,

E FAÇA DA SUA MENTE UM CASTELO.

 

Por ‘mente’ Buda quer dizer consciência. Por ‘mente’ Buda quer dizer Mente, com um M maiúsculo – não essa mente ordinária que você tem, mas a Mente que ocorre quando todos os pensamentos desapareceram, quando a mente está totalmente vazia de pensamentos. Faça um castelo da sua Mente porque esse corpo morrerá – não dependa dele.

 

EM TODA DIFICULDADE

DEIXE O ENTENDIMENTO LUTAR POR VOCÊ

PARA DEFENDER O QUE VOCÊ GANHOU.

 

E lembre-se continuamente, porque a batalha é longa e a jornada é árdua. Muitas vezes você cairá e se esquecerá, muitas vezes você começará a julgar. Muitas vezes você começará a tornar-se identificado com isso ou aquilo, muitas vezes o ego vai asseverar-se repetidas vezes. Sempre que o ego asseverar-se, sempre que a identificação ocorrer, sempre que o julgamento surgir, imediatamente lembre-se: observe, simplesmente observe, e então haverá entendimento.

E o entendimento é o segredo da transformação. Se você pode entender a raiva, imediatamente você será inundado pela compaixão. Se você pode entender o sexo, imediatamente você alcançará o samadhi. ‘Entendimento’ é a palavra mais importante para lembrar-se.

 

POIS EM BREVE O CORPO SERÁ DESCARTADO.

ENTÃO COMO ELE SE SENTIRÁ?

COMO UM TRONCO DE MADEIRA INÚTIL, ELE CAIRÁ POR TERRA.

ENTÃO O QUE ELE SABERÁ?

 

Não dependa do corpo e não permaneça confinado ao corpo. Utilize-o, respeite-o, ame-o, cuide-o, mas lembre-se: você terá que abandoná-lo um dia. O corpo é apenas uma gaiola, ela será deixada para trás e o pássaro irá embora. Antes disso ocorrer, cuide do pássaro também. Limpe sua consciência, porque ela irá com você. O seu entendimento irá com você, não o seu corpo.

Então não gaste muito tempo decorando-o com cosméticos, com vestes, com ornamentos – não gaste muito tempo com o corpo, porque o corpo pertence à Terra e a Terra irá reivindicá-lo de volta. Do pó ao pó. Você não pertence à Terra, você pertence a algo além, a algo de desconhecido. A sua casa está no desconhecido, aqui você é apenas um visitante. Aproveite a visita e utilize-a o máximo possível para crescer em entendimento e maturidade, para que você possa levar para casa a sua maturidade, o seu entendimento, a sua sabedoria.

 

O SEU PIOR INIMIGO NÃO PODE LHE FERIR

TANTO QUANTO OS SEUS PRÓPRIOS PENSAMENTOS, DESPROTEGIDOS.

 

Quando os pensamentos estão desprotegidos, desassistidos, a sua mente é seu maior inimigo.

 

MAS, UMA VEZ DOMINADOS,

NINGUÉM PODERÁ AJUDAR-LHE TANTO,

NEM MESMO SEU PAI OU SUA MÃE.

 

Porém, a mesma mente, se dominada – dominada pela vigilância, dominada pela meditação – transforma-se. Ela se torna a maior amiga. Ninguém pode ajudar-te mais.

A mente é uma escada: desguardada ela te leva para baixo, guardada ela te leva para cima. A mesma escada! A mente é uma porta: desguardada ela te leva para fora, guardada ela te leva para dentro. A mesma mente desguardada torna-se raiva, ódio, inveja; guardada ela se torna compaixão, amor, luz.

Esteja vigilante, acordado, alerta, seja sem julgamentos. Não seja um moralista: crie uma consciência religiosa. E por “consciência religiosa” quero dizer uma consciência que não escolhe. Deixe essa frase penetrar fundo em seu coração: consciência que não escolhe. Essa é a própria essência do ensinamento de Buda – AES DHAMMO SANANTANO.

Por hoje é só.

 

 

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