Nas crateras da mineração de Seu Alfredo revelam-se mundos oníricos

          Com mais ou menos quinze anos, Seu Alfredo, ao percorrer os túneis esburacados da montanha desmoronada de si mesmo, descobriu um lugar festivo, de fauna e flora completamente peculiares.  Sempre que a dureza da materialidade das coisas, ou a inconstância contida no olhar cansado de alguém lhe constrangia, Seu Alfredo voltava-se sorrateiro para esse Jardim do Éden, sempre a esperá-lo com uma indiferença que lhe agradava muitíssimo. Ali o tempo se dava ao luxo de migrar, batendo suas asas para longe, os botões de rosas permaneciam botões, e o instrumento que gera a harmonia da vida não desafinava.

          Naquele tapete de grama etéreo, os humanos de carne e osso eram personagens coadjuvantes. A tristeza de uma mãe fazia tanto sentido quanto o gorjeio de um rouxinol. O discurso político agitava tanto as massas quanto um pingo de gota de chuva a escorrer por um rosto seco. Ao ouvir aqueles seres estranhos, habitantes do complexo ecossistema a dar forma ao escritor que era, Seu Alfredo lembrava: “Uma maritimidade entorpece os mortais, desesperados por evoluções. Aqui não há evolução nem extinção.”

          Seu Alfredo, ao voltar de uma grande viagem por entre suas falésias e planaltos, escreveu: “A saudade é uma palavra do nosso idioma. Esse idioma que tem uma certidão de nascimento geográfica, que tem um país invocado por detrás de seu radical. Ó Portugal que outrora fora de Salazar, outrora Ruralista, outrora conformado. Ó pai, o Sr. não virá em resgate aos teus filhinhos? Estamos a perder os rumos das naus, a quebrar os azulejos, a estragar os azeites. Seus filhos continuam a desonrar à memória da família, pai.  Cadê o meu Portugal imaginário, imerso no Século XXI, onde o inverno é marrom, os sotaques são caprichos do destino, o fado a embalar tudo que eu era. Entretanto, o nosso fado tem-se extraviado, pa. Cadê aquela Universidade a badalar os sinos da minha juventude, aquela anciã que nutria tanto? O Brasil sem Portugal é como um círculo desigual.”

          Ludibriando com letras à passagem inexorável de uma tarde, Seu Alfredo, um poço transbordante no Aquífero Guarani, um brasileiro nato, um ser do mato, soprava às correntes frias e quentes a alcançar o continente. Gozando da maravilhosa possibilidade da solidão, do silêncio e da disciplina, Seu Alfredo era uma locomotiva que não corre, porém forte assobia. Locomotiva receptora de passageiros afoitos, entregando seus destinos a cada um e partindo num amanhecer qualquer.

          Era assim que Seu Alfredo Diviaggi viajava, de Lisboa ao Largo da Batata, enfrentando constantes encruzilhadas, erigindo o próprio alcance da jornada. Brincando de dizer o não-dito, consorte do momento, Seu Alfredo, um gavião desgarrado das alturas, embutido numa alma luso-brasileira-inglesa-americana-espanhola-italiana-indígena. Uma retroescavadeira incansável a perfurar um terreno diminuto na absoluta casualidade de tudo. E o aleatório a envolvê-lo, o randômico a seduzi-lo, o acaso amante selvagem. E a imprevisibilidade de saltos altos, cafetina de batom vermelho escuro a carregar Seu Alfredo alcoolizado do que é fortuito.

          E entrava naquela fase da vida onde o momento é uma fagulha desencontrada de ontem hoje e amanhã, uma cápsula contendo o eterno, um horizonte inigualável com uma miríade de tons de amarelo. Seu Alfredo a vibrar como um ponto telúrico de energia atômica incontida, capaz de trazer consigo um terremoto calamitoso.

          E, esquecendo-se que era escritor por alguns minutos, Seu Alfredo rolava pela grama encharcada, apenas em busca de um sentimento novo, fagocitose de sensação de um ser senciente. E permanecia debaixo de uma cachoeira, tumulto de som e imagem, que possibilita à calmaria através do excesso.

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