A metáfora em Paul Ricouer

Pretendemos realizar um recorte temático da obra de Paul Ricouer, A Metáfora Viva, que mostre o desenvolvimento da questão da metáfora, de Aristóteles passando pela Tropologia e, finalmente, buscaremos elucidar o entendimento contemporâneo sobre o tema, aos olhos de Paul Ricouer. Com isso, atingiremos um dos «eixos de sua filosofia».[1] Acompanharemos o percurso do autor que inicia sua análise num nível retórico, atravessa o nível semântico e finaliza alcançando um nível hermenêutico. Para isso se dar, a metáfora como uso desviante da palavra deve ceder lugar ao enunciado como predicação impertinente que compõe o discurso e este a obra propriamente dita. É evidente que não abrangeremos todos os pontos da obra supracitada de Ricouer, procuramos, em vez disso, ressaltar os pontos que consideramos fundamentais para sua teoria sobre a metáfora.

1. A metáfora em Aristóteles

          O principal desenvolvimento que a teoria da metáfora recebe na obra aristotélica encontra-se na Retórica e na Poética. Irmanada da eloquência pública, técnica da persuasão política e do bem dizer, o projeto da Retórica de Aristóteles sofreu, ao longo da história, um estreitamento tal, que se pode falar da morte da retórica, no século XIX. Isso se processou, pois a taxionomia das figuras desviantes, o que chamaremos aqui de tropos, acabou por suprimir as outras vertentes da retórica, tal como fora intuída por Aristóteles, nomeadamente seu vínculo com a filosofia. Uma das vertentes de interpretação que não se pode perder de vista ao tratar da retórica é o da sua associação com a não-verdade, o aparente, que àquele que a domina seria possível “forjar” a persuasão pública pelo duvidoso e errôneo, em vez do certo e verdadeiro. A retórica, desde suas primeiras estruturações e principalmente em Aristóteles atinge a plena compreensão de seus limites, o verossímil, distinta tanto da dóxa quanto da epistéme, portanto, demarcando-se da sofística e da filosofia, porém aproximando-se mais desta. «No ponto de encontro da perigosa potência da eloqüência e da lógica do verossímil, situa-se uma retórica que a filosofia mantém sob vigilância.»[2]

          No interior do corpus aristotélico a retórica não se confunde, também, com a poética. Distinta da eloquência, esta se ocupa da produção de poemas, principalmente trágicos, com vistas à purificação, a catarse. Na sua estrutura de tropos, de transferência de sentido entre palavras, a metáfora figura em ambos os domínios, o da retórica e o da poética. Enquanto a retórica está incumbida de uma prova argumentativa a poética busca a mímesis. «A tríade poíesismímesiskátharsis descreve de maneira exclusiva o mundo da poesia, sem confusão possível com a tríade retórica – prova – persuasão.»[3]

          Aristóteles define metáfora, na Poética, como: «A metáfora é a transferência para uma coisa do nome de outra, ou do gênero para a espécie, ou da espécie para o gênero, ou da espécie de uma para o gênero de outra, ou por analogia»[4]. A metáfora também aparece na obra de Aristóteles como sinônimo de léxis. Aristóteles, quanto trata de léxis, assume que a elocução é sua expressão e que são partes da elocução: “letra, sílaba, conjunção, nome, verbo, flexão, flexão e locução[5]”. Daí o comum entre estas partes da elocução e a metáfora: o nome. Voltemo-nos para algumas características da metáfora, segundo Aristóteles. Em primeiro lugar, a metáfora ocorre no nome. Essa definição fará história, pela atribuição à unidade do nome o sentido da metáfora e não ao discurso. Em segundo lugar, a metáfora «é definida em termos de movimento: a epiphorá de uma palavra é descrita como uma sorte de deslocamento de… para… »[6]. Em Aristóteles pode-se chamar metáfora a qualquer transposição de uma palavra pela outra. Além disso, essa transposição de um nome por outro, requer que este outro nome seja um estranho. A metáfora é um desvio do nome corrente por outro, raro, criado, estranho. Porém, este estranho é sempre emprestado de outro contexto semântico, o que não assegura que houvesse uma palavra corriqueira que preenchesse esta lacuna.

          Fundamental para que o desvio de sentido possa ocorrer, e, por conseguinte a metáfora, é que já haja um conjunto de regras lógicas onde brotará o novo prisma semântico. A metáfora só pode nascer onde relações de proporcionalidade e de analogia estejam plenamente operantes: subordinação, coordenação, proporcionalidade, etc. De fato, a metáfora viola esta disposição lógica, por isso falarmos da metáfora como uma impertinência, no caso de Aristóteles, ainda de uma impertinência nominal.  A metáfora envolve, no mínimo, uma díade de idéias que são aproximadas ou afastadas, por exemplo, um gênero a uma espécie, uma espécie e uma espécie, etc. Porém, como nos alertará Ricouer, a metáfora não se sustenta se pensada unicamente como um desvio nominal. Para aproximar ou distanciar duas ideias necessita-se de um enunciado, não se dá no âmbito do nome. A metáfora transgride um certo horizonte lógico, porém, somente para instituir outro. Veremos a frente que é exatamente esse sentido de instituição do novo que Ricouer verá como traço fundamental da metáfora, e da literatura em geral, que fornecerá novos modos de entendermos a realidade, pela re-descrição desta.

          E se todo o horizonte da cultura e da literatura tivesse como fundamento uma metáfora? E se qualquer tipo de nova ordem instituída pela metáfora sobrepusesse uma antiga ordem também regida pelo domínio metafórico? Sem dúvida. Questões intrigantes que dissolvem o sentido de oposição entre uso corriqueiro de uma palavra e seu uso desviante. Citamos uma longa frase de Aristóteles que parece argumentar nesse sentido: «Grande importância tem pois o uso conveniente de cada uma das mencionadas espécies de nomes, de nomes duplos e de palavras estrangeiradas; maior, todavia, é a do emprego das metáforas, porque tal não se aprende nos demais, e revela portanto o engenho natural do poeta; com efeito, bem saber descobrir as metáforas significa bem se aperceber das semelhanças»[7]

          Na Retórica, Aristóteles assemelha toda comparação com a metáfora, sendo que a esta última faltaria o termo de comparação. As duas relações só ocorrem quando duas ideias são aproximadas, anulando as pretensões de a transferência ser um fato de denominação, em vez de um fato de discurso, porém a metáfora o faz com economia de termos, e, por isso, com mais elegância. Daí reconhecermos com mais força a tarefa que torna mais perceptível as semelhanças que a metáfora realiza. «Perceber, contemplar, ver o semelhante, tal é, no poeta é claro, mas também no filósofo, o lance de gênio da metáfora que reunirá a poética à ontologia.»[8]

          Uma das características mais importantes para o estudo da metáfora é o seu caráter de fazer ver, ou, pôr sob os olhos uma figura. Esse traço da metáfora também já aparece em Aristóteles. Daí que Paul Ricouer argumentará que a linguagem e, especificamente, a metáfora permite desprender-se da concepção da imagem como um apêndice e sombra da percepção. Em vez de a percepção fornecer os esquemas da imaginação, é a linguagem, através dos non-senses introduzidos pela metáfora, que assumirá esse papel. As imagens são faladas anteriormente a serem, de fato, vistas.

          Voltemo-nos novamente a questão da léxis, em Aristóteles. Vimos que o nome é um dos componentes da léxis fundamentais para a teoria aristotélica da metáfora como desvio no uso dos nomes. Busquemos agora remontar os elementos constitutivos da léxis. Ricouer nos aponta que o elemento fundamental que faz todos os outros girar em torno é o enredo, o mythos. Este age como cópia das ações humanas no mundo, como imitação do agir, mímesis.  O mythos estabelece uma ordem das ações, um caminho entrelaçado, que a léxis torna visível, na qual a metáfora é uma parte constitutiva. Ricouer já vê em Aristóteles a necessidade da mímesis fazer referência ao mundo, porém, ao mesmo tempo aponta para outro mundo, institui um “novo mundo”.

          Entretanto, dizer que a metáfora e, por sua vez, a imaginação remetem para um mundo outro, pode levar à conclusão da falta de referencial dessa linguagem. Ricouer sublinha esse problema, porém afirma que há uma referencia de segundo grau, que será mais primordial. Em outras palavras, remodelando nosso campo semântico e nos desenraizando de nossas práticas linguísticas habituais, a metáfora do discurso poético desloca-nos para a pura facticidade ontológica de nossa pertença ao mundo. A ficção aponta em duas direções então: para algures, e para a própria realidade redescrita. O modelo científico, pensa Ricouer, seria paralelo às ficções do discurso poético, no seu caráter heurístico de abrir novas interpretações do mundo. Ricouer afirma existir um paradoxo na ficção, que, ao mesmo tempo em que anula a percepção do mundo condiciona um aumento da nossa visão das coisas. Decorre daí que o discurso simbólico ou ficcional tem sempre pretensões de refazer a realidade.

          Essa interpretação de Ricouer, como vimos, parte de uma leitura atenta de Aristóteles. Cabe aqui, ainda, uma distinção da noção de mímesis operada por Aristóteles em relação à concepção platônica de mímesis. A imitação da natureza em Platão aponta para a imitação de modelos eternos, os quais os seres humanos só alcançam uma cópia imperfeita, decaída. Aristóteles realiza uma torção conceitual em relação à mímesis. «A realidade continua a ser uma referência, sem jamais tornar-se uma determinação.»[9] A mímesis se torna poiésis em Aristóteles, e a atividade da imitação sempre faz referência à natureza, physis. Nessa relação entre o âmbito da atividade humana e da natureza, um autor como Derrida vê: «o gesto constitutivo da metafísica e do humanismo»[10]

2. A tropologia

          Ricouer já havia constatado uma limitação do campo originário da Retórica, tal como esta disciplina fora pensada entre os gregos, que originalmente continha uma teoria da argumentação, uma teoria da composição e uma classificação das figuras. Ricouer vê na Retórica moderna apenas a última parte do projeto inicial grego, ou seja, o que concerne à classificação das figuras. A metáfora toma o cerne das discussões na Retórica moderna, tornando-se a figura por excelência. De alguma forma se mantém os tópicos aristotélicos sobre a questão da metáfora: há nomes próprios e usos desviantes de nomes, esse desvio se dá por um uso estilístico calculado ou por falta do termo próprio, a lacuna lexical é preenchida por empréstimo de outro termo, a transposição por outro termo se dá por semelhança e é sempre possível parafrasear o desvio, restituindo-lhe o sentido próprio.

          Entretanto, aceitar esse conjunto de propriedades da metáfora leva os retóricos modernos a duas conclusões que traem o horizonte aristotélico: o uso do termo desviante não traz nenhuma informação nova e, por conseguinte, só detém um caráter estilístico de ornamento, rebuscamento e barbarismo. Temos que ter em consideração que Ricouer pensa uma linha de continuidade entre a retórica até a semântica e desta até a hermenêutica.

          Ricouer analisa a obra de Pierre Fontanier, Les Figures du discours, de 1830, afirmando que ali a primazia da palavra sobre a frase e o discurso é totalmente assegurada. Fontanier atribui à díade ideia-palavra o núcleo da significação: «O pensamento compõe-se de ideias, e a expressão do pensamento pela palavra compõe-se de palavras.»[11] Tudo o que se sedimenta em palavras passa pela crivo das ideias. Fontanier distingue entre ideias de objeto e ideias de relação: ao primeiro grupo indica o substantivo, o adjetivo, o artigo. Ao segundo grupo destaca o verbo, a preposição, o advérbio e a conjunção. O que nos interessa aqui é relevar o primado, atribuído por Fontanier, da palavra sobre a frase para a definição do significado.  «O sentido é, relativamente a uma palavra, o que esta palavra nos faz entender, pensar e sentir por sua significação; e sua significação é o que ela significa, isto é, aquilo de que ela é signo, de que ela faz signo»[12]

          Ricouer atribui à teoria dos tropos um atrelamento com a palavra, em vez da proposição, que é fundamental. Encontra na obra de Fontanier o conceito de figura, que parece agregar no seu escopo semântico referências não apenas ao domínio de uma palavra, mas também para o de várias palavras e até uma proposição. A noção de figura carrega em si o desvio que não se limita a ser um desvio apenas entre o reino das palavras.  Outra característica da figura é o seu uso livre, que não seja forçado pela língua. Com essa teoria das figuras, Fontanier parece tentar fugir da teoria dos tropos que atribui o primado das palavras sobre as proposições, exatamente o ponto que Ricouer tem interesse.

          Fontanier define metáfora como: «apresentar uma idéia sob o signo de outra idéia mais evidente ou mais conhecida»[13] porém permanece enclausurado na primazia da palavra como núcleo da significação, em vez de creditar essa força à predicação.

3. A semântica e a semiótica da metáfora

          Vimos que a interpretação que considera a metáfora como uso desviante de uma palavra não dá conta de todo o escopo interpretativo aberto por Aristóteles sobre a questão. Ricouer pensa que tanto o filósofo grego quanto a tropologia extravasaram o domínio da palavra rumo ao da frase, ao delimitar o que é a metáfora. Ricouer propõe, então, o enunciado metafórico como contendo o núcleo semântico produtor da metáfora. Temos que ter em vista que o deslocamento de base realizado por Ricouer, da palavra para o enunciado, não anula os trabalhos de Aristóteles e da tropologia sobre a questão, somente os suplementa.

          É necessária para o debate que se segue a distinção entre a semiótica das palavras e a semântica da frase. Ricouer propõe analisar as distinções entre o semiótico e o semântico na obra de Émile Benveniste, e vincular com a corrente denominada linguistic analysis. Da distinção entre semiótico e semântico vão se separar dois tipos de linguísticas: a que vai do signo à frase e a que trata da língua e do discurso. Acompanharemos Ricouer na análise de características do discurso que decorrem da distinção entre semiótica e semântica.

          Em primeiro lugar: «todo discurso se produz como um acontecimento, mas se deixa compreender como sentido.»[14] O discurso tem o caráter de um acontecimento, porém este o que lhe marca sua peculiaridade é ser passível de repetição. O segundo par dialético proposto por Ricouer se dá entre função identificante e função predicativa. A questão foi tratada exaustivamente por P.F. Strawson. Todo discurso pode ser reduzido aos seus sujeitos, por isso, permite a identificação singular. A identificação dos sujeitos aponta, por conseguinte, o que concerne ao predicado. Daí identificarmos uma dissimetria na linguagem, ao mesmo tempo em que identifica sujeitos que existem de fato, ou são personagens da literatura, predica algo sobre esses sujeitos, universalizando-os. À semiótica cabe o papel universalizante, a semântica a particularização.

          «Um terceiro par de traços concerne à estrutura dos atos de fala.»[15]Em cada discurso pode-se identificar uma parte locucional e uma ilocucional, no mínimo. Essa teoria, que remete a J.L. Austin, permite identificar vários níveis do discurso, conforme a força ilocucionária que transforma uma fala numa ordem, ou numa promessa, etc. «Um quarto par – o do sentido e da referência»[16] remete apenas ao âmbito da frase. Somente na frase pode distinguir-se aquilo que é dito daquilo sobre o que se fala. Na frase há referência para algo que sai do âmbito da linguagem, há referência ao extra-linguístico. Aqui também vemos agir a distinção entre semiótica e semântica. Enquanto aquela só diz sobre as relações lingüísticas, esta extrapola o reino da linguagem, alcançando seus referentes.

          «Quinto par: referência à realidade e referência ao locutor»[17]. Qualquer referência que alcance o mundo extralinguístico faz ver, em contrapartida um sujeito locucionário. Qualquer discurso, ao referenciar, faz uma auto-referência.  Em último lugar «a distinção do semiótico e do semântico implica uma repartição nova do paradigmático e do sintagmático»[18]. As relações paradigmáticas estão em relação com o horizonte semiótico do discurso, enquanto o sintagma tem a ver com o semântico. O enunciado metafórico é um sintagma, e deve ser tratado no âmbito das relações semânticas.

          A metáfora cria uma rede de interações e faz emergir uma nova significação que é passível de repetição ao longo do tempo. Nesse sentido a metáfora, como já ressaltamos, é um acontecimento semântico, uma instituição que atribui sentido, num determinado contexto. Se os usos públicos do novo escopo semântico for adotado por uma comunidade linguística ele pode se sedimentar e tornar uma parcela da linguagem corrente. Por isso a distinção de Ricouer entre metáforas já sedimentadas na língua, e a metáfora viva que cria acontecimento e sentido e ainda não se transformou em linguagem usual. Partiremos agora, que estamos dotados de uma interpretação semântica da metáfora, para a questão de como esse sentido instituído faz referência ao mundo. Ricouer vê esse passo como fundamental para alcançar uma explicação de nível hermenêutico sobre a metáfora.

4. Metáfora e referência

          Ricouer anuncia que a questão da referência pode se dar tanto sobre a esfera da semântica quanto na da hermenêutica. Naquela se mantém relacionada aos elementos que concernem à estrutura da frase. Enquanto que no horizonte hermenêutico faz-se referência a algo de extralinguístico.  Enquanto a diferença entre os termos da frase concerne ao caráter semiótico, a referência a um mundo é da ordem da semântica, como já vimos. «O sentido é o que diz a proposição, a referência ou denotação é sobre o que o sentido é dito.»[19] Para que possa ocorre a identificação de algo é necessário alguma entidade que é. É necessária a existência de algo para que o enunciado ou o nome possa fazer referência, possa instituir um determinado estado de coisas. Ao sair do âmbito da palavra e da frase, para ingressar no domínio dos textos, as concepções semiótica e semânticas já não dão conta da análise, enclausurada nos limites da frase. É daí a necessidade do uso de uma hermenêutica.

          Na acepção que Ricouer propõe, texto assume o papel de um discurso que toma a forma da obra. A obra não se resume a mera junção de frases e discursos. A obra é singular na sua forma final, quer seja um poema ou uma prosa. Além disso, segue alguns tipos de normas que o plasmam em poemas ou romances, indicam o gênero literário onde opera o texto. «Tal é a coisa à qual se dirige o trabalho de interpretação: é o texto como obra, disposição, pertencimento a gêneros, efetuação de um estilo singular, são as categorias próprias à produção do discurso como obra.»[20] Porém, o que é então a hermenêutica a que fala Ricouer? Enquanto a estrutura interna da obra revela seu sentido, seu campo semântico ocorre, ao mesmo tempo, uma referência a um mundo que cada obra na sua singularidade institui. Inquirir sobre a transição do significado de uma obra para o seu mundo, isto é a hermenêutica.

          Precisamos nos deter nesse ponto, e nos perguntar pelo que geralmente se diz quando denominamos certas obras por literárias. Ricouer pensa que há uma suspensão da denotação literal, que cede espaço para a conotação. Somente quando ocorre suspensão da referência “científica” é que pode haver obra literária. Porém, quando a suspensão ocorre, a obra é capaz de instituir um mundo. A metáfora seria o locus privilegiado para o vislumbre das relações de suspensão da referência e instituição de um mundo que a obra opera.  Já estamos distante da concepção retórica que considerava que a metáfora não trazia consigo nada de novo para o discurso. O terreno em que se move a metáfora é o da ambigüidade. «A supremacia da função poética sobre a função referencial não oblitera a referência (a denotação), mas a torna ambígua. A uma mensagem de duplo sentido correspondem um emissário duplicado, um destinatário duplicado e, além disso, uma referência duplicada – isso é nitidamente ressaltado, em numerosos povos, pelos preâmbulos dos contos de fadas; assim, por exemplo, o exórdio habitual dos contadores maiorquinos: «Aixo era y no era (isso era e não era)»».[21]

          Ricouer afirma existir um paradoxo na ficção, que, ao mesmo tempo em que anula a percepção do mundo condiciona um aumento da nossa visão das coisas. Decorre daí que o discurso simbólico ou ficcional tem sempre pretensões de refazer a realidade. Porém, Ricouer aponta que a referência de segundo grau revela com mais profundidade o horizonte de imersão do homem na natureza. Em outras palavras, remodelando nosso campo semântico e nos desenraizando de nossas práticas linguísticas habituais, a metáfora do discurso poético desloca-nos para a pura facticidade ontológica de nossa pertença ao mundo. A ficção aponta em duas direções então: para algures, e para a própria realidade redescrita.

          A obra literária e o poema engendram uma estrutura plenamente coerente com suas próprias premissas. A partir disso, esse texto informado ganha existência material, tal qual uma escultura. Suas relações internas constituem sua singularidade e sua possibilidade de permanência no tempo.

          Ricouer compara a operação da metáfora a uma transposição de reinos inteiros. Ou seja, fazer uma incursão além-mar em território estrangeiro, porém, guiado pelo aparato conceitual do reino de origem. A teoria das etiquetas também fornece a mesma ideia. A metáfora seria a aplicação de etiquetas já antigas em objetos outros, novos. Além disso, quando a metáfora apropriadamente faz ver uma nova configuração semântica, outro modo de ser das coisas se torna manifesto.

          Ricouer também explora a relação entre modelo científico na ciência e a metáfora para a linguagem poética. O modelo científico é um instrumento heurístico que permite uma reinterpretação do mundo, assim como a metáfora. Ao descrever teoricamente um modelo sem pretensões de construí-lo, o cientista revela novas conexões entre as coisas. Essa comparação da metáfora com o modelo científico dá a ver que, assim como o modelo, a metáfora implica uma relação complexa entre enunciados, pode-se falar então, em rede metafórica. Outro aspecto na qual a comparação com o modelo científico lança luz é a conexão entre a função descritiva e o caráter heurístico, tanto do modelo quanto da metáfora. Aqui recordamos Aristóteles, que pensava mímesis sempre atrelada a noção de mythos. A transposição que devemos operar aqui é pensar a mímesis menos como cópia e mais como redescrição do mundo.

          Em busca de responder como opera a verdade metafórica, que contém em si uma intenção realista, Ricouer mostra-nos três tensões: a primeira lembra-nos que a metáfora sempre é uma relação de duas ideias, um tema principal e um secundário; a segunda, distingui entre interpretação literal e a impertinência metafórica; a terceira remete para a identidade e diferença, portanto, para a semelhança. A realidade descrita na verdade metafórica, sempre é ambígua, confusa, porém sempre também há contaminação da filosofia da natureza na filosofia do espírito, ou seja, o símbolo instituído pela metáfora está firmado na verdade da natureza, faz ver uma relação de simpatia que estava até então velada.

          Por não nos ser dada a resposta unívoca que calcula completamente o real, devemos aceitar a verdade imposta pela metáfora. Não temos acesso à verdade literal, por isso aceitamos o baile de máscaras metafórico. Em vez de tematizar diretamente sobre o “ser”, a verdade metafórica desloca a questão para um “ser como”.

5. Conclusão

          Buscamos refazer o caminho percorrido por Paul Ricouer em A Metáfora Viva. Achamos tal projeto valioso para entendermos com amplitude a maior possível os mecanismos da metáfora. Perscrutaremos, nesse último capítulo, pelo embasamento filosófico das premissas que regeram as teorias da metáfora vistas até aqui. Pois quando colocamos o problema da referência a um mundo, temos que investigar que mundo é esse, trabalho tradicionalmente levado a cabo pela ontologia.  Antes disso, cabe aqui uma enumeração das características da metáfora, conforme a análise de Ricouer, a título de revisão.

          Em primeiro lugar, o pressuposto fundamental em que se move a teoria da metáfora, tal como proposta por Ricouer, é que a análise deve se deter ao nível da frase e não ao nível do nome ou da palavra. Em segundo lugar, a metáfora é uma relação entre duas ideias que estão sobre uma “tensão” determinada. Em terceiro lugar, a metáfora pressupõe o uso literal de certos termos, para que sobre esses possam ocorrer desvios semânticos. Em quarto lugar, a metáfora dá a ver uma nova relação entre ideias e coisas do mundo. Em quinto lugar, a metáfora, assim como o modelo científico, apresenta-se não isoladamente, mas de forma complexa, formando uma rede metafórica com coerência interna. Em último lugar, a metáfora suspende uma visão de mundo para instituir outra de modo mais fundamental.

          Os últimos capítulos buscaram elucidar brevemente cada uma dessas dimensões que a metáfora assume. Sem nos manter completamente atrelados às conclusões de Ricouer em A Metáfora Viva, procuramos desenvolver os horizontes que julgamos os mais interessantes. A metáfora morta seria aquela que já participa da linguagem corriqueira, que já se sedimentou na tradição, em contraposição à novidade insólita da metáfora viva. Ricouer recorre a Jacques Derrida, que pensa que se pudermos rever os modos de como as metáforas morreram, poderemos entender algo da natureza essencialmente metafórica da cultura, que exatamente quando “mata” a metáfora, institui o conceito filosófico. Quando isso ocorre, teríamos acesso às certidões de nascimento de conceitos chaves da metafísica: teoria, ideia, logos, etc. No crepúsculo da metáfora ocorre o nascimento do conceito filosófico. A história da metafísica pretende incansavelmente dissimular seu início metafórico.

          Derrida argumenta em prol de uma metaforicidade universal da cultura, e dos próprios conceitos da filosofia. Dizer algo sobre a operação da metáfora só é possível através de um discurso metafórico, o que desemboca numa aporia. O conceito filosófico tem a pretensão de camuflar sua origem metafórica.

          Ricouer se pergunta, no último capítulo, pela apreensão da imagem, através da percepção, que, ao mesmo tempo em que desvela relações de semelhanças, porém aponta para uma unidade que se mantém a mesma. A percepção não fornece a fixidez do conceito. A imaginação opera em um nível de discurso e a intelecção opera em outro nível. O especulativo da intelecção cerceia os limites da metáfora. Ricouer pensa que esse jogo entre imaginação e intelecção, entre os âmbitos imagéticos que aponta semelhanças e o intelectual, que busca fundar o mesmo, estão em plena tensão contínua, que anuncia o próprio vir-a-ser infindável da cultura em seu processo de metáforas vivas que se sedimentam em metáforas mortas.

          A linguagem tem o poder de se auto-designar e, no mesmo movimento, designar o seu outro, ou seja, designar o mundo. Por ter esse tipo de conhecimento de causa, a «linguagem se sabe no ser»[22]. O discurso poético é aquele que realiza a epokhé da referência corriqueira, para abrir possibilidade para uma referência de outro nível. Esse outro mundo aberto é mais primordial porque nascemos imersos nas suas predicações desviantes e, ao mesmo tempo, tentamos instituir, enxertar nosso próprio campo semântico. A ambigüidade que a suspensão da referência, num primeiro momento, e uma referência de segunda ordem institui, garante tanto que o caráter de semelhança da metáfora se mantenha quanto o caráter especulativo. Esse paradoxo do ser como da metáfora, ao mesmo tempo em que se vincula ao ser, faz referência, também, ao não ser. Com isso mostra-se a intersecção do discurso poético e metafórico com a ontologia, a qual não se tratará de todas as implicações no presente trabalho. «O que se dá assim a pensar por verdade “tensional” da poesia é a dialética mais originária e mais dissimulada: a que reina entre a experiência de pertencimento em seu conjunto e o poder de distanciamento que abre o espaço do pensamento especulativo»[23]

BIBLIOGRAFIA

ABEL, Olivier. e PORÉE, Jérome. Vocabulário de P. Ricouer, Minerva Coimbra, 2010, Coimbra, Portugal.

ARISTÓTELES. Poétique, Trad. fr. Hardy. Paris, Éd. des Belles Lettres, 1932, 1969.

DERRIDA, Jacques. “La mythologie blanche”, in Rhétorique et philosophie, Poétique, 5, Paris, Éd. du Seuil, 1971.

FONTANIER, Pierre. Les Figures du discours, Paris, Flammarion, 1968.

JAKOBSON, Roman. Essais de linguistique générale. Chap. II. Paris, Éd. De Minuit, 1963.

RICOUER, Paul. A Metáfora Viva, Edições Loyola, 2005, São Paulo, Brasil.


[1] Vocabulário de P. Ricouer, p. 56.
[2] A Metáfora Viva, p. 22.
[3] Ibid, p. 24.
[4] Poética, 1457 b 6-9 apud A Metáfora Viva, p. 64.
[5] Poética, 1456 b 20-21 apud A Metáfora Viva, p. 25
[6] A Metáfora Viva, p. 29
[7] Ibid, p. 41.
[8] Ibid, p. 49.
[9] Ibid, p. 73.
[10] DERRIDA, p. 24. apud A Metáfora Viva, p. 72.
[11] Ibid, p. 83.
[12] Ibid, p. 86.
[13]FONTANIER, p. 99. apud Ibid, p. 97.
[14] A Metáfora Viva, p. 113.
[15] Ibid, p. 115.
[16] Ibid, p. 119.
[17] Ibid, p. 121.
[18] Ibid, p. 122.
[19] Ibid, p. 333.
[20] Ibid, p. 337.
[21]JAKOBSON apud Ibid, p. 343.
[22] A Metáfora Viva, p. 467.
[23] Ibid, p. 482.
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