Seu Alfredo a revirar as latas das emoções contidas numa esquina

Viver é uma mão a tecer
Um fio dourado num tear
Contínuo cometa a esquecer
Para cada vez mais lembrar
 
Seu Alfredo a esquadrinhar às arestas da multitude
Uma mina que jorra o tesouro úmido ancestral
A distribuir às máscaras à carente juventude
Apenas outro homem que só não quer ser igual
 
Ancião a nadar contra o Mogi-Guaçu
uma frágil vida inundada de azul
crente numa técnica desengonçada
uma pitada de sorte e mais nada
 
Um tom adocicado de caju
a percorrer olhos nus
Baile de máscara de versos
Samba renitente de Eros
 
Um toque e uma finta
a chama feroz
Um retoque na fita
desatando nós
 
A sombra velada
o excesso de luz
Uma voz entoada
Que desce e reluz

E Seu Alfredo a nadar contra as correntes, a ludibriar às correntes, a enferrujar as correntes, a ser as correntes, permanecendo seco ao enfrentar as correntes, a fundi-las, enxotá-las, recebê-las, as correntes abraçando Seu Alfredo, e ele a procriar com elas, os elos, anelos desencontrados, o elã sutil sustentado por dois sorrisos numa noite qualquer, um vagabundo qualquer, um destino qualquer, uma doida qualquer desencontrada, desencontrados, chocando-se, entusiasmando-se, sendo-se, sentindo-se, fagocitando-se, desatrelando-se só para conquistarem novamente a tripulação de corvetas alheias.

Havia um mano que ousou no Tijuco. Ousado, há um mano no Tijuco. No Tijuco há manos ousados. A ousadia deve ser condição de possibilidade profunda nos atoleiros. Haverá um mano ousado no Tijuco. Esse mar primordial à frente, convidando para um mergulho na Pangeia daquilo tudo que é. Um Tijuco ousa no Mano. E esse Aquífero Guarani de Superfície, a inundar a tudo, uma placenta a nutrir às proles todas.

E Seu Alfredo sentia, distinguia, media, ponderava, cheirava, experimentava, um mago Renascentista incrustado como um fóssil de uma concha primeva, incrustado na grande rocha dura e frágil do Século XXI, que não tarda em ceder as nossas cachoeiras, nossas pás escavadeiras, que vão esburacando, que vão perfurando o terreno tímido mas nosso, que nos cabe, essa fazenda agricultável do pomar de cada qual, onde os frutos não estão cansados, os frutos estão verdes-amarelos, estão cheios de tudo o que alimenta, nossos frutos são orgânicos por demais, armados até os dentes contra os agrotóxicos, esses frutos não vão deixar que a economia regrida, que sejamos rurais!, nós os subdesenvolvidos em números, mas avançadíssimos em alma, frágeis em equações, mas magos das letras, com tetos de vidros, que gostamos de estilhaçar, nós que erramos os pênaltis porque não acreditamos mais em penalidades máximas, nós que estamos na frente, porque ninguém ousa estar, nós que empunhamos um fuzil só para desmontá-lo, que implantamos governança no desgoverno, que somos jovens, apesar da idade, que manipulamos um tanque de guerra por segundo, que implode-se por dentro. Esse monte de sonhos desencontrados que fazemos questão de reatar. Esse desabrochar da consciência cósmica a consumir às limitações de outrora. Esse faz-de-conta que gostamos de contar para nossos filhos na beira da fogueira do devir. A continuação histórica que não basta. A injustiça deve bastar-se. Bastou-se. Auto-extinguiu-se. E nós os deuses Shiva a dançar e anunciar a reconstrução desse palácio, soterrado até aqui de risos.

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