A mitologia de um pipeiro

          Havia uma guerra generalizada no céu de onde eu vim. Os meses de julho e os finais de ano – meses em que a escola formal abria alas para a Universidade das ruas – agitavam seus ventos para o desfile da criançada olhando para cima. A vareta, a linha, o papel de seda, a rabiola, o cortante, eram os protagonistas desse filme épico sem fim de minha infância. Havia um ritual de iniciação para os moleques da rua: iniciávamos com o Maranhão, tanque de guerra estático no ar, voava com força, mas era sem graça, como um idoso avesso às travessuras. Depois, rápido aprendíamos a maravilha da física da capucheta. Sinceramente tenho dó das crianças de hoje que não sabem o que está por detrás dessa palavra mágica: Capucheta. A capucheta, a mais primitiva das pipas, o 14 Bis das ruas, já representava toda a vontade humana de elevar-se, de escalar o céu. Suas manobras e fintas rápidas, os duelos que, na maioria das vezes, testavam quem corria mais, eram a simulação ideal do que a perfeição do voo no céu, a pipa, exigiria de nós dali a alguns anos. A capucheta, portanto, era o kart da Fórmula 1 da pipa. E, aqui na área, no Tijuco, levar a sério esse treinamento era assunto de honra, que desaguava no mar da nobreza.

          Lembro como se fosse hoje do meu primeiro Maranhão. Foi feito pelo Carlo, pipeiro famoso da área, respeitado. Meus pais desembolsaram alguma grana com aquilo. Eu devia ter uns quatro anos, e foi a primeira vez que senti estar, de fato, vivo. Aquele Maranhão ainda hoje é um faról no meu céu, apontando para o início de tudo aquilo que eu poderia ser. Ele não desbicava, nem sequer se mexia, era corpulento, respeitoso, uma materialidade no céu do Sul, e me intrigava absurdamente que aquilo que voava, de alguma forma, estava conectado a mim, mesmo que por uma linha tênue, onde podia sentir as próprias batidas de meu coração juvenil. Era a vida que me ligava àquele Maranhão, cordão umbilical não rompido com o céu, possibilidade de pairar às alturas. Acima das contigências e das ruas do bairro, que era todo o mundo conhecido.

          Mal sabia que aquela conexão mística com o céu seria a coisa mais importante da minha juventude. Ainda não sabia desbicar, dar rasantes, balões, mas sentia a vibração do vento em meus dedos, e aquilo era simplesmente a maior sensação de todas. Hoje, mal posso intuir quantas noites, sonhando, eu continuava o voo ousado das minhas esperanças, dos meus amigos, da batalha natural que travávamos porque estávamos vivos e fortes.

          Foi somente aos poucos que pude entender que aquilo tudo, todos aqueles moleques reunidos num terreno, eram movidos pela mais humana das atividades: a disputa. As pipas eram os soldados da linha de frente, e nós, com 7-8 anos, éramos os generais, comandantes, estrategistas de um exército que voava e driblava, fintava, como um Romário das alturas. Nosso palco era o céu. E havia as fórmulas secretas do cortante de cada um, como receita de avó guardada com carinho: cola tenaz, maizena, pinheiro, madeira. E o prazer indescritível do primeiro ritual que tive acesso privilegiado, o esforço conjunto da molecada em transformar vidro em cacos, uma singela garrafa em espadas afiadas ávidas para serem lançadas como poeira através da exuberância plena do céu.

          As pipas elas eram deusas que espalhavam suas dádivas de cima, que despencavam aos montes, para alegria daquela geração de brasileirinhos. A beleza de uma pipa desgovernada caindo é uma coisa que me toma de assalto ainda hoje. E a matilha desengoçada de pequenos humanos correndo atrás para, quem sabe, ser o primeiro a gritar: Tá na mão! Que todos respeitavam como a um salmo bíblico.

          Aquela caixa geométrica de varetas de bambu verdinho ou amarelo, a gaiata pipa, podia ser de papel de seda colorida, preta, branca, de sacola de supermercado, de saco de lixo, podia ser de qualquer jeito, que nós éramos devotos de suas nuances, de suas curvas, nós peregrinos apaixonados: havia uma democracia do gosto e éramos tolerantes ao extremo. Era a nossa musa, que ditava todas as leis, com constituição e tudo.

          Com o passar das estações, interessei-me pelo esotérico, o discurso sussurado proferido pelos mestres pipeiros que tentava desvendar a todo custo. É que os que nascem no Tijuco, nesse nosso atoleiro, falam com os olhos. E esse texto encarnado é assunto para iniciados, para os malandros que apresentaram-se e ousaram ao sol do meio-dia.

          Eu observava a ladinagem dos meus mestres: estar mais longe que o oponente era uma vantagem tática e espiritual. Estar mais longe que o adversário, abraçar uma parcela maior e mais inóspita do mundo com os braços voadores da pipa, pintar outras paragens e bairros com a tinta única de cada um, ato embutido no movimento da pipa, mero espelho de longínquas mãos que – cirurgicamente – operam o milagre do pertencimento ao céu, ao Cosmos.

          Era necessário “dar mais linha”, estar mais longe das opressões e possibilidades do seu lugar de origem, em busca de uma liberdade que nem a mais longa linha era capaz de proporcionar. Essa foi uma das primeiras máximas do soltar pipa, aqui, nessa fatia minúscula do bolo dessa grande bagunça terrestre.

          Em se tratando do cortante, o pipeiro versado tentava deixar o mais fino possível, porém, havia situações no mundo da experiência, em que o cerol mais grosso, com toda sua violência, provava-se, em muito, superior. E esse é um fenômeno que escapa totalmente a minha compreensão do mundo do pipeiro, forjada pelos meus mestres tribais locais e testada pela experiência in loco.

          Mas havia um evento, dentre os muitos eventos possíveis quando falamos dos que ocorrem no céu, que podia acabar com a carreira de muitos pipeiros, como pude presenciar. Cortar e aparar. Revelo que, ainda hoje, é difícil tecer considerações sobre isso. Porquê muitas reputações foram mutiladas, muitas lendas perdidas, muitos heróis caíram diante de tal situação extrema. Cortar e aparar é saquear o castelo de outro pipeiro. É roubar suas pretensões de grandeza, é impedir-lhe o acesso ao horizonte ilimitado, é furtar-lhe os próprios meios em que sua vida foi – milimetricamente – embasada. Cortar e aparar é como se nós, contemporâneos, pudéssemos pilhar uma civilização antiga. Porque toda pipa é uma história de superação, da limitação da mão, da técnica, do ar. Toda pipa carrega em suas varetas, linha, papel ou plástico, a história da família que lhe criou.  Cortar e aparar é um assunto tabu entre os pipeiros, então, é melhor que muito pouco seja aqui dito, de um fato que engrandece, e muito, o vitorioso, mas que atira no limbo e nas sarjetas da vida o – coitado – do pipeiro derrotado.

          Voltemo-nos à rabiola. É fato conhecido que quanto maior o tamanho da rabiola de uma pipa, maior a presença, a honra, a grandeza e a astúcia que esta transmite. Uma rabiola de um quarteirão, na minha época, era um evento histórico digno de nota por uns quatro bairros, outorgando a seu pipeiro fama imemorial, com comemoração no calendário e tudo. A rabiola era dividida em duas partes fundamentais. O de perto, que era sucedido, sem dúvida, pelo de longe. Quanto mais de perto, mais estabilidade. Quanto mais de longe, mais beleza, carisma e credibilidade emitidas pelo movimento hipnotizador da rabiola num céu de verão, ou outonal.

          Havia divisão de trabalho que não era medieval entre os nossos. Era extemporânea. Futurista. Era a união perfeita entre o fordismo e o toyotismo. As crianças sempre intuem um sistema de trabalho muito à frente de seu tempo. Enquanto um batia o cortante, outro fazia a armação e outro encapava. Um fazia a rabiola com técnica milenar de tornar cada tira do saco de lixo num formato ziguezagueante de serpente. Em 20 minutos a alegria estava no céu, desafiando qualquer tipo de limitações humanas, que são terrenas.

          Naquela época, ser criança era coisa séria, meteorologia era a ciência mãe, e o conhecimento preciso dos ventos, verdadeiro dom. O vidro era o animal selvagem dominado, pronto para pregar a peça da vingança. Como cortava, o filho da mãe, armado como um desafio aos olhos, numa linha quase invisível.

          Havia um prazer inefável em manter-se num pedaço do céu. O fato de outra criança ocupar o mesmo espaço do céu, inevitavelmente, gerava conflito. Conflito não. Guerra. Era uma guerra com convenções tácitas, ditada pelo estilo e região de cada pipeiro, transmitida pelas gerações, pelo ar, como um DNA é transmitido pela célula.

          Eu tirei algumas máximas de vida daquele passado que continua voando por sobre minhas memórias, a primeira delas é: busque um lugar na imensidão do céu. Não é possível passar por essa vida enclausurado na Terra, enquanto houver uma fresta de céu. Em segundo lugar, aprendi que a disputa, com adversários em pé de igualdade, gera respeito, impondo à paz e fazendo nascer à fagulha da coragem. Em último lugar, o conhecimento que carrego da minha infância de pipeiro é que todo ser humano lutou e lutará para ser uma história, uma narrativa, na mitologia de alguém. Cabe aos mais sábios serem as comédias, porque de tragédias, infelizmente, o mundo está completamente saturado.

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