Trabalho de Filosofia da Ciência. Idos de 2009.

Questão 1.

(a) Como proposta por Platão, a definição “tripartida” confere caráter de conhecimento a opiniões verdadeiras justificadas. Sobre o excerto de São Hipólito de Roma expondo o pensamento de Xenófanes de Colofão defendemos duas interpretações: (I) se a primeira frase do excerto for lida como uma pretensão do autor em tecer uma cosmogonia, ou seja, como um entendimento de Xenófanes que tudo o que existe foi formado pelo “ciclo” que a terra forma ao se misturar com o mar e depois se livrar da umidade, então, sabemos que a tese é falsa, e justificamos isso com os argumentos das hodiernas física, biologia e química. De acordo com essa interpretação, Xenófanes de Colofão não produziu conhecimento pois este têm uma opinião justificada pelos fatos empíricos, porém não verdadeira. (II) se lermos a primeira frase do excerto sem caráter cosmogonico e pensarmos em um fato empírico do tipo: uma praia que, durante a noite, com maré alta, molha uma ampla faixa de terra que, em maré baixa livrar-se-á da umidade, então podemos certificar Xenófanes como produtor de conhecimento, pois sua crença é verdadeira e justificada.

(b) De acordo com o arco do conhecimento, da denominação de David Oldroyd, Xenófanes partiu das observações específicas e chegou a uma explicação geral, o que caracteriza o estágio resolutivo ou intuitivo do conhecimento. O outro braço do arco do conhecimento compõe a etapa compositiva ou dedutiva do conhecimento, que parte das definições mais universais e simples para as mais específicas.

(c) No texto em questão, Xenófanes faz uma indução enumerativa, pois vários dados empíricos são coletados e por uma generalização chega-se a um conceito geral de como tudo o que existe é formado. (tomamos aqui a primeira, das duas interpretações do item (a), pois o professor comentou em sala que Xenófanes realmente teceu uma cosmogonia).

O termo abdução remete a um “insight” que parece relacionar as propriedades de causa-efeito de dois objetos. Ou seja, não é preciso encontrar um padrão em diversos objetos para se formar um conhecimento, pode-se, antes disso, analisar atentamente dois objetos e “intuir” algo sobre a relação entre eles.

Questão 2.

(a) A astronomia, como mostrado na primeira parte do texto de Geminus de Rodes, está contida na física. A astronomia está inteiramente voltada para a observação e quantificação do cosmos, não preocupada com sua essência, qualidade, força, etc. O que parece traçar a diferença entre físicos e astrônomos é o papel da observação: enquanto um físico pode observar seu ambiente para provar ou desqualificar uma teoria, o astrônomo primeiramente deve observar para somente em um segundo momento analisar as teorias do acervo cultural da época. As teorias científicas terão enfoques diferentes para os físicos e os astrônomos: os últimos buscarão as “melhores” teorias, as que tornam seus cálculos mais exatos. Para o físico, o caráter, digamos, “pragmático” de uma teoria científica é posto em segundo plano.

(b) Andreas Osiander faz o papel de um típico astrônomo tal qual fora definido no texto de Geminus de Rodes. A teoria, insiste Osiander, deve fornecer os “cálculos que concordem com as observações” e para isso não é necessário que essa seja verdadeira. Esta atitude seria desqualificada pelo físico do texto de Geminus de Rodes, que procura as essências e qualidades intrínsecas do ser. Interessante que o que é ainda uma tensão no texto de Rodes é elevado ao limite no final do texto de Osiander: a Astronomia não busca fornecer hipóteses, teorias, de qualquer tipo. Fica implícito que este é o papel das outras ciências, principalmente da física.

(c) A estrutura do silogismo, com seu termo maior, termo menor e médio, além dos quatro requisitos extra-lógicos se satisfeitos, formam o que Aristóteles entendia por explicação científica. Com certeza, o rigor expositivo do silogismo pôde e foi usado tanto pelos físicos como pelos astrônomos.

(d) Os motivos são multivocais: (I) empecilhos teóricos, como o paradigma aristotélico, que supunha a Terra no centro do universo. Na esteira da teoria aristotélica seria difícil compreender um simples movimento de uma pedra lançada verticalmente para cima que voltasse para o mesmo lugar, supondo o movimento da Terra. (Muitas vezes, o enclausuramento da comunidade científica da época ao paradigma herdado entrava o desenvolvimento científico.) (II) empecilhos técnicos, pela falta de instrumentos adequados a paralaxe estelar não podia ser detectada e isso dava força para o falseamento da teoria geocinética

(e)        Se a terra gira em torno do Sol, então há paralaxe.

Não há paralaxe.

A terra não gira em torno do Sol.

Questão 3.

(a)    A dietética prometia a cura através dos alimentos. Na Grécia, houve uma cisão interna que a dividiu em profissionais que defendiam um método mais empírico, natural e outros que buscavam pelo raciocínio “o conhecimento da natureza” que levaria à medicina ideal.

A farmacêutica buscava a cura através dos medicamentos. Os profissionais buscavam entender as causas das doenças, e só assim podiam aplicar o tratamento de maneira eficaz. Dependendo do excesso ou deficiência no corpo dos quatro elementos a maneira de tratar seria diferente.

(b)   Eu adotaria a dietética, pois acredito que se o corpo é nutrido com bons alimentos as doenças serão prevenidas, diminuindo o trabalho dos profissionais farmacêuticos e cirurgiões.

(c)    As três práticas médicas gregas estão consolidadas em domínios delimitados na medicina hodierna. A dietética gerou a nossa nutrição, a engenharia de alimentos e até o crescente mercado dos polêmicos transgênicos.

A farmacêutica tem importância central no funcionamento do mundo contemporâneo. Garantiu o afloramento da engenharia genética, da química molecular, do projeto genoma. Ainda pode nos dar a cura da AIDS e do câncer.

A cirurgia tornou-se uma prática quase sempre segura, eficaz. Em caso de câncer, por exemplo, pode ser considerada uma verdadeira medicação.

O que fica claro, porém, é a ambivalência da nossa medicina: de um lado garante melhor qualidade de vida e até uma sobrevida a milhões de pessoas, de outro, elitiza seus medicamentos e práticas, garantindo o acesso apenas a camarilhas sociais abastadas.

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