Resenha de A República de Platão (2008)

Livro II

           Após uma introdução do mote da justiça, no livro primeiro, e o rechaçar da definição dada por Trasímaco que a justiça é “aquilo que é vantajoso para o mais forte”, Sócrates prossegue, no livro segundo, uma análise do que vem a ser a justiça. Para isso, buscará a justiça em um espectro maior, o da cidade. O livro segundo já esboça os grandes temas da República, como os pontuaremos a seguir.

           Inicia-se o livro com Gláucon intervindo no diálogo e exigindo um discurso que estabeleça, definitivamente, que a justiça é melhor que a injustiça. A tese de Gláucon parte da premissa que o sofrer uma injustiça é um mal maior que o bem de cometê-la. Por isso, os homens buscam fixar leis e exatamente pelo fato destas serem coercitivas é que a justiça transparece. Com efeito, sob a vigilância atenta das leis o homem busca agir com justiça ou, o que é problemático, parece agir de modo justo.

           Ao citar o caso de Giges, Gláucon busca levar a cabo o argumento que nenhum homem é dotado de justiça, de fato, se aos homens fossem dadas oportunidades de injustiça, esses lhe seriam apraz. Ainda Gláucon, propõe uma comparação entre o homem plenamente justo com o plenamente injusto. Adianta que a maioria das pessoas exaltará como mais feliz o homem injusto, em contrapartida ao justo.

           Adimanto, não esperando Sócrates demonstrar hesitação no exame busca pontuar uma defesa a justiça, indo na contramão de seu irmão, Gláucon. Demonstra a Sócrates casos os quais a justiça é exaltada como algo bom para os homens, uma virtude.

           É tido como um problema o fato de os grandes poetas, Homero e Hesíodo, responsáveis pelas teogonias genealógicas terem escrito que é possível, mediante preces, que o homem injusto tenha suas injustiças redimidas. Adimanto clama a Sócrates que este defina a natureza da justiça e da injustiça pelo o que elas realmente são, ou seja, que deixe de fora do discurso a aparência de justiça ou a aparência de injustiça.

           Nesse ponto Sócrates propõe que se faça o exame do que vem a ser a justiça em um âmbito maior. Pela análise da cidade (polis), como reunião de indivíduos, pode-se analisar com mais clareza, em um momento seguinte, o que a justiça vem a ser no indivíduo isolado.

           Após o concorde dos interlocutores, Sócrates avalia que, primeiramente, a cidade nasce por uma falta de auto-suficiência dos homens. Como decorrência, tem início o projeto de busca da base e fundamento de uma cidade ideal, o próprio núcleo do livro é esboçado. Em conjunto os interlocutores pesquisam o que é necessário à vida de uma cidade.

           Após a enumeração de algumas características essenciais, aparece uma idéia que permeará toda a obra. Ao expor o trabalho dos cidadãos da cidade os interlocutores entendem como melhor, mais eficaz, que cada trabalhador apenas se ocupe com uma atividade. Como decorrência de um trabalho ter mais perfeição se feito por um artífice apenas, se comparado ao feito por vários, a cidade necessitará de numerosos habitantes que se multiplicam em uma relação diretamente proporcional aos ramos de trabalho.

           Em ordem exponencial crescem os habitantes e as necessidades destes. Platão chega a citar o trabalho assalariado como uma das formas de suprir a necessidade e a diversidade da produção. Ao crescer, a cidade já não produz apenas o necessário. As artes são agregadas à vida e com ela toda uma variedade de trabalhadores específicos.

           Com o inchaço da polis haverá muitos no mesmo território. A guerra por conquista, até ela, tornar-se-á necessária. Especialistas na arte da guerra terão que ser treinados. Estes, ao ver de Platão, desempenharão uma função social mais importante que muitos outros ramos de trabalho. Pela primeira vez surge a idéia de certa hierarquia dos cargos da cidade, o que de agora em diante será um pressuposto no decorrer da obra.

           A partir daí segue uma discussão sobre a natureza dos guerreiros. Além de serem virtuosos nas artes do corpo devem ser os mais brandos com os seus amigos e os mais impetuosos com os inimigos. Por isso, eles devem ser amantes da sabedoria, filósofos. A filosofia surge aqui como uma moderadora das paixões.

           Delineados os fundamentos, a questão básica torna-se: como será a educação de tais guerreiros? Ao propor que a tenra idade é fundamental para todo o por vir do homem, Platão nos dá uma linha pedagógica resgatada, por exemplo, em Rousseau e contraposta pela pedagogia cartesiana. (Em Rousseau a tenra idade tem importância vital para a vida adulta, no limite, quanto mais tempo essa demorar para passar, melhor. Em Descartes a infância é tida como uma fase de descontrole da razão, a qual prevalece as paixões, deve, portanto, passar o quanto possível) Os interlocutores chegam a conclusão que a  ginástica e a música serviriam bem ao intento educacional, tendo primazia cronológica a música.

           Os mitos, ao serem contados às crianças, sofreriam moderação por parte dos governantes, para não inculcar na juventude valores perniciosos. Além disso, o mito deve mostrar a natureza boa de deus e que ele não é a origem de nenhum mal. E como tudo que é de boa qualidade não sofre grandes transformações, do mesmo modo, os deuses, nunca se transformariam em outros seres.

           Como discussão final aparece a questão da mentira. Esta é odiada por todos, porém, há circunstâncias que a mentira pode ser usada como um remédio e só nesses casos ela é aceita, porém, os deuses nunca fariam uso dela. Interessante e problemático Platão habilitar a mentira em casos extraordinários, tema que parece ficar suspenso para posterior análise.

Livro III

           O início do livro retoma alguns temas principais do livro segundo, entre eles, a busca de diretrizes fundamentais para a educação do guerreiro o que implica, como visto do livro passado, a submissão completa da teologia à educação. Para manterem a coragem, por exemplo, os guerreiros não devem ouvir que o Hades é um lugar ruim. Cabe aos governantes censurarem este e outros mitos.

           Para servir ao intento educacional os governantes devem eliminar tudo que pode causar medo ou falta de coragem aos guardiões. Cabe a estes homens encarar qualquer tipo de fatalidade com brandura, sem excessos; a mentira apenas pode ser usada pelos governantes com o intuito de beneficiar a cidade e se for necessária aos cidadãos e aos inimigos.

           Os interlocutores seguem a análise do que deve servir à educação dos guerreiros e do que não deve. Como exemplo, os poemas de Homero são exaustivamente rechaçados, por contarem estórias fictícias dos deuses e te-los semelhantes a homens comuns. Ao fim da discussão sobre o que deve ser dito sobre os deuses, Sócrates afirma que apenas quando puder ser estabelecida a natureza da justiça e da injustiça é que poderá estipular-se o que deve ser dito dos homens.

           Ao fazer surgir o tema da imitação, Platão, pela primeira vez, delineia toda sua concepção estética, julgando a imitação algo baixo, portanto, algo que deva ser evitado ao máximo pelos homens de boa estirpe. No momento, a operação de rechaço da imitação não será levada ao limite, como sabemos, Platão desenvolve no livro dez. Porém, o que nos é adiantado é que os guerreiros, não devem ser imitadores.

           As harmonias musicais que incitarem paixões exacerbadas, como as chorosas, não devem subsistir na cidade perfeita, em vez dessas, são úteis as harmonias que maximizam os valores dos homens tanto na guerra como fora desta.

           Toda a discussão sobre harmonias, ritmos e elocução corrobora o pressuposto de que há uma certa harmonia e ritmo no homem bom e sábio, que são opostas as dos homens de má índole. Importante a ser notado é que Platão confere à música uma forte penetração nas almas e se aplicada na infância, pode agir como moderadora dos saberes e das artes. Em suma, a música amplia e confere as diretrizes da educação.

           Em outro plano de discussão, os interlocutores concordam que, em um homem, é muito belo se as vontades do corpo corresponder, perfeitamente, às vontades da alma. Isso seria digno de amor. O verdadeiro amor é definido com aliado a ordem e ao belo. Os homens, porém,  ao sentirem amor descomedido são levados, não raro, à perda da razão. (Parece aparecer, aqui, sutilmente, um primeiro esboço da metafísica platônica.)

           O cuidado do corpo, a ginástica, é imprescindível aos guerreiros, dada a relação entre o corpo e a alma. Porém, os cuidados com a alma são mais importantes, pois,  a boa alma é consoante ao bom corpo e não, necessariamente, o contrário. A comida deve, também, deve sofrer moderação, como as harmonias musicais,  pois a extravagância nos temperos leva à doença do corpo.

           Os médicos, assim como os juízes, deve existir na cidade, mas somente os bons. Estes necessitam de experiência pois não sentem as doenças ou as injustiças mas se ocupam com diversas destas em almas alheias.

           Ao propôr que aos deficientes deve-se deixar morrer, Platão habilita uma certa eugenia. Além disso, ao dizer que aos que tiverem alma mal-dotada deve-se matá-los, parece defender, para o bem das próprias almas ruins e da cidade, a pena de morte. Um filósofo do porte de Platão, ao habilitar a eugenia e a pena de morte, deve ter influenciado, indubitavelmente, todos as correntes políticas dos séculos subseqüentes.

           Após o importante parênteses no texto, os interlocutores chegam a conclusão que a música torna a alma branda e a ginástica torna-a impetuosa. A virtude do bom guerreiro se encontra em uma harmonia entre essas duas qualidades: a brandura e a impetuosidade.

           A seguir, discute-se o papel que exercerá os governantes da cidade e quem serão estes. Parece claro, que devem ser escolhidos entre os guardiães. Toda a educação deve, desde a infância, inculcar que o bom governante faz o que é melhor para a cidade. Sendo assim, aplicar-se-ia teste para selecionar os mais aptos, aqueles que nunca se esquecem ou mudam de idéia para com os assuntos da cidade.

           O mito fenício contado no final do livro é de extrema importância pois, mais uma vez, Platão esboça, porém agora com mais força, traços de sua metafísica, que serão desenvolvidos nos próximos livros. O mito é importante pois argumenta pela a idéia de uma divisão quase “natural” das classes na cidade ideal. Nos diz que os homens que foram feitos para governar são “constituídos” por ouro, os auxiliares destes por prata e os artesãos e agricultores por bronze e ferro. Interessante notar que, não raro, pode acontecer que alguém da classe de prata faça nascer alguém da classe de ouro, e assim por diante.

           Voltando, para concluir, aos deveres do guerreiro, Platão deixa claro que estes não devem ter riquezas e propriedades. A vida do guerreiro será comum, ou seja, em volta de todos os outros cidadãos. Os guerreiros precisam reconhecer que já possuem, em suas almas, ouro e prata e por isso não necessitam do humano, que leva necessariamente a discórdia e ao ódio.

Livro IV

           Percebe-se que, ao final do livro quarto, definido o que é a justiça e a injustiça, inicia-se uma segunda parte da República, que procurará fixar quais as condições para estabelecer a justiça na cidade perfeita.

           Adimanto, retomando a última discussão do livro terceiro, a qual se afirmava que os guardiões não devem ter riquezas, indaga Sócrates sobre como ele responderia se alguém o objetasse que os guardiões não são felizes, pois carecem de propriedades.

           Sócrates argumenta que muito provavelmente os guardiões, em uma cidade justa, seriam felizes, pois foi-se pensado, no ato fundador da cidade, em uma certa eqüidade na distribuição das felicidades entre as diferentes classes. Além disso, deve-se olhar para a cidade como um todo e requerer dos guardiões nada além de serem os melhores artífices do seu próprio ofício, o que não aconteceria se fossem corrompidos por riquezas e felicidades exacerbadas. O excesso de riqueza e de pobreza enfraquece as classes, o que faz surgir, evidentemente, um meio-termo, uma harmonização entre a riqueza e a pobreza é essencial à cidade justa.

           Esse equilíbrio é vital, pois manterá a cidade, por mais diversa que seja, coesa. O crescimento da cidade é bem-vindo, porém, se atrapalhar sua unidade não deve ser desejado. Os filhos podem manter a classe dos pais, ascender ou rebaixar, conforme sua aptidão natural. O que é importante é que assim como os homens devem ser únicos em suas tarefas, a cidade também deve ser una.

           Sócrates, mudando de horizonte no diálogo, diz que a instrução e a educação são primordiais e que os guardiões, eles mesmos, podem decidir o que não foi dito pelas leis. Neste ponto uma tese interessante (424a). Em curtas linhas Sócrates nos dá a entender que guardiões educados e instruídos casariam, gerariam filhos e teriam mulheres em comum entre eles. A passagem carece de aprofundamento, que será desenvolvida ao longo da República.

           O tema o qual, um homem bem educado e instruído descobria as leis fundamentais, permeia algumas discussões, que desembocam no que Sócrates chama de lei “primeira entre todas” (427b). A construção de templos, a prestação de cultos a divindades e heróis que necessitam, não de leis gerais, mas devem ser guiados em conformidade com os hábitos e costumes da tradição.

           Os interlocutores, nesse ponto, procuram definir o que é a sabedoria e a coragem. Na cidade perfeita, é fácil ver que a classe que detém estas qualidades: são os guardiões. A coragem, os interlocutores a entendem como uma manutenção das opiniões por parte dos guardiões, em qualquer tipo de condição adversa, como o medo, a dor, o desejo.

           Ao concluírem a definição de coragem, passam, então, a buscar o que vem a ser a temperança. Se esta for uma certa ordem, um domínio de si, Sócrates nos faz ver que este domínio ocorre pois há duas partes da alma e quando alguém é temperante a melhor dessas duas partes domina a pior. Projetando à cidade, esta será temperante se o que há de melhor comandar, ou seja, os guardiões. A cidade torna-se temperante se o melhor governar, assim sendo, há uma harmonia entre todas as classes.

           Identificadas a sabedoria, a coragem e a temperança, finalmente a busca pela justiça, tema central da República pode encontrar uma primeira definição, no âmbito da cidade. Se existe, na cidade, três classes, entre elas deve haver uma hierarquia rígida, correndo o risco de um sapateiro treinado e sábio na arte da sapataria comandar uma excursão militar, o qual não está preparado. Segue daí, que a justiça é “cada um cumprir a tarefa que é sua” (433b). A injustiça é, exatamente, a quebra de hierarquia das três classes.

           Transportando a análise e a definição de justiça para o indivíduo, em primeiro lugar, deve-se saber se este é como a cidade, composto por três partes. A tarefa a seguir, Sócrates alerta, é muito árdua e complexa, ela é dependente de uma análise acurada sobre o homem. Os interlocutores iniciam a análise pelo mecanismo do desejo. Existem, por exemplo, não raro, sedentos que não querem beber. Daí, Sócrates postula que existem dois elementos constituindo a alma: o racional e o irracional, este último que sente fome, sede, etc. A terceira parte da alma, aparece naturalmente, e é o ímpeto. Este é quase sempre aliado a razão, ao menos que sob a ação de uma educação má, o qual se alia a concupiscência (441a).

           O próximo passo, após estabelecido que também o indivíduo é composto por três partes, é tirar as conclusões necessárias. Se a cidade é sábia, por um certo motivo a cidade também o é. O mesmo se aplica à justiça. A coragem, a temperança e outras virtudes dependem da hierarquia estabelecida na alma a qual a razão deve ser a parte comandante. A injustiça seria uma exacerbação de uma das partes da alma que invade o espaço que não lhe cabe.

           Como discussão final, e de grande importância, Sócrates postula que o governo tem cinco formas, assim como a alma. Duas dessas formas de governo são adiantadas: o governo de um só, a monarquia, e o de alguns, a aristocracia.

Livro V

           Após todos os esforços de análise dos últimos livros, têm-se fixado o que é a justiça no homem através de uma aproximação metodológica que definiu a justiça na cidade.

           O livro quinto inicia com Adimanto cobrando de Sócrates explicações sobre a questão entre a comunidade entre amigos, das mulheres e dos filhos, tema abordado pontualmente no último livro.

           Após certa hesitação de Sócrates, o mesmo pergunta aos interlocutores se as fêmeas de, por exemplo, cães de caça, devem ou não seguir seus machos nas caçadas. O que todos concordam ser o certo. (Aqui se pode notar a não submissão da mulher perante o homem, o que pode remeter a longa tradição homérica, a qual as mulheres eram tidas como os maiores  símbolos de formosura)

           Fica claro, então, que a mesma educação fornecida aos homens deve servir às mulheres. E que, fornecendo a ginástica e a música às mulheres não se deve dar ouvidos se isso for tido como ridículo.

           As argumentações dos outros que defendem a natureza muito diferente do homem em relação da mulher e outras coisas mais não devem ser censuradas. Com essas podem-se abrir novas fronteira de análise.

           As naturezas da mulher e do homem só são diferentes, pois “é o feminino que dá à luz e é o masculino que fecunda” (454e). O que não é relevante para estabelecer diferença tal entre os sexos que impossibilite o desempenho na arte guardiã por parte das mulheres. A estas cabem todas as ocupações na administração da cidade, porém, apenas, serão mais fracas que os homens.

           A análise sobre se a comunidade das mulheres e filhos é válida deve-se focar sobre duas verves: como será essa útil à cidade e se será efetivamente realizável. Sócrates propõe que, em primeiro lugar, se faça a análise desta última. Interroga se os melhores machos devem coabitar com as melhores fêmeas. Os interlocutores concordam. Então, cabe aos governantes promoverem o relacionamento entre os virtuosos, e isso deve permanecer escondido da sociedade em geral. Sócrates chega a propor um sorteio que dará a vista de todos que os casamentos não são determinados pelos governantes.

           Os filhos dos virtuosos devem ser levados, por funcionários da cidade, a um lugar para terem os devidos cuidados. As mães poderão dar leite aos filhos, mas tomar-se-á um grande cuidado para que essas não reconheçam os seus próprios. Os dos não-virtuosos deverão ser escondidos e ignorados. (Novamente, como no livro terceiro, o filósofo habilita certa eugenia)

           A seguir, Sócrates define a idade ideal de procriação da mulher entre vinte e quarenta anos, e a do homem tem início quando este deixar “para trás o auge de seu vigor físico” até os cinqüenta e cinco anos. Se houver a geração de filhos fora dessas idades será este fruto de um terrível desregramento. Quaisquer filhos de pais não autorizados serão bastardos, ilegítimos.

           Não haverá distinção entre pais, filhos e irmãos. Os mais velhos chamarão os menores por filhos(as) e seus iguais por irmãos(ãs). Só será válido que irmãos coabitem se o sorteio indicar. O que a “lei da comunidade” propicia aos olhos de Sócrates é uma maior coesão da cidade, que ao tornar-se uma torna-se mais perfeita.

           Sócrates propõe uma revisão do que já há na cidade perfeita. Feito isso, é dito que há uma comunhão de dores e prazeres, e isso é o máximo bem para a cidade. Como decorrência da “lei da comunidade” haverá um desaparecimento dos processos e acusações mútuas além da violência, do ultraje.

           Os mais novos que terão educação guardiã, devem seguir os mais velhos nas campanhas militares, mas somente naquelas que for garantida a vitória. A esses jovens, a montaria será ensinada o mais rápido possível, para poderem assistir às guerras com a maior segurança possível.

           Os que fracassarem em campanha à frente de seus filhos serão ultrajados e os que triunfarem serão agradados de várias maneiras. Para estes deve-se habilitar o que diz Hesíodo que os mortos com boa honra e coragem se tornam dêmones que ajudarão os próximos guerreiros de boa estirpe.

           A cidade perfeita será necessariamente grega. Se houver divergências internas elas devem ser resolvidas com benevolência, tendo em vista a reconciliação. Neste ponto, Gláucon pede a Sócrates que cesse de enumerar qualidades da cidade perfeita e diga se ela é possível e como seria. Sócrates, invertendo a metodologia que procura na cidade as respostas do indivíduo diz que a justiça tal como foi definida independe de homens plenamente justos, o que se fixou foi o modelo de justiça, a justiça perfeita. O mesmo se aplica à cidade, o que é importante, em primeiro lugar, é a fixação do modela da cidade perfeita.

           Sócrates afirmará que em tal cidade perfeita, o filósofo deve ser rei, ou seja, a cidade só será totalmente boa se nas mãos dos governantes estiver o conhecimento fornecido pela filosofia. Talvez este seja o grande clímax do livro a República, a coroação do filósofo,  só ele pode ser apto a exercer eficazmente o poder político.

           Sócrates pretende mostrar a natureza do filósofo, que deve reinar. Os verdadeiros filósofos “gostam de contemplar a verdade” (475e), buscam as naturezas mesmas das coisas analisadas. Sócrates diferencia a ciência da opinião. A ciência é a contemplação da essência do ser e sendo assim é infalível. A opinião, ao contrário, não contempla nenhuma essência e é falível. Esta é mistura de ciência e ignorância. A oposição entre ciência e opinião conserva a jargão pré-socrático e equivale aquela ao ser e esta ao não-ser.

Livro VI

           No início do sexto livro, os interlocutores procuram discernir o que faz parte e o que não faz parte da natureza do filósofo. Esse tema deve ser discutido o mais rapidamente, pois Sócrates afirmou, para espanto de seus interlocutores, que o filósofo deve reinar na cidade perfeita. Procura-se, então, ter claramente quais são as atribuições da natureza filosófica.

           São enumeradas algumas qualidades dos filósofos como: uma boa memória, facilidade no aprendizado, temperança e justiça. Adimanto afirma que, muitas vezes, aqueles que amam a sabedoria tornaram-se perversos e, no limite, inúteis a cidade. Sócrates propõe responder a colocação de Adimanto com um exemplo. (Nota-se a invocação da figura do pintor em 488ª, imagem que Platão faz uso diversas vezes ao longo da obra e que, como sabemos, será tido com degradante, baixa, no livro décimo.)

           O exemplo nos diz de um navio, com seu comandante e sua tripulação. O desregramento é tamanho que a tripulação aprisiona o comandante e assume o controle. Porém, este é feito sem arte, sem conhecimento sobre o tempo, as estações, o céu, etc. O comandante ou os reais conhecedores da arte são tidos como imprestáveis.  Há uma analogia entre o exemplo do barco e os sábios, na cidade. Estes são ridicularizados pelos que não possuem conhecimento. (O exemplo do navio, talvez possa ser considerado um primeiro esboço do tema que será ampliado no “mito da caverna”, no próximo livro.)

           Mas, se os verdadeiros sábios são escachados e tidos como loucos cabe a pergunta: “Por que a maioria é de homens maus?” (490d). Sócrates nos fornece outro exemplo: se uma ótima semente ou animal nascer em local com carência de suprimentos, essa natureza se degenerará, assim como os bons homens, supridos com uma má educação.

           Digno de nota é o ataque de Sócrates à arte sofística. Esta é ruim  para a cidade pois passa a impressão a todos que só há pluralidades, ou seja, pregam a todo momento os diversos belos, nunca o belo ele mesmo. Não compreendem as essências dos entes e por isso atrapalham e escurecem a compreensão de seus concidadãos.

           A má educação da natureza virtuosa conduz à formação dos piores indivíduos, que ultrajam a cidade e principalmente a filosofia. Os verdadeiros filósofos são raros, o que faz de sua voz inaudível. Uma verdadeira revolução da educação dos filósofos faz-se necessária. Além dessa, cabe aos verdadeiros filósofos mudarem a opinião do vulgo, pois a população em geral com certeza é atenta ao verdadeiro, não tomará o certo pelo errado, o falso filósofo pelo verdadeiro filósofo. (Sócrates deixa claro aqui o intento plenamente educacional, que mudará as opiniões das classes trabalhadoras sobre o filósofo.)

           Sócrates infere que há uma qualidade dos filósofos-guardiões que deve estar acima e deve ter prioridade sobre todas as demais, até mesmo da justiça, da temperança, da coragem e da justiça. Deve os filósofos possuir claramente a idéia do bem. Sem esta, todas as outras são débeis.

           Gláucon requisita de Sócrates a definição do bem, tais quais foram definidas todas as outras qualidades do filósofo.  Sócrates hesita de falar diretamente do bem, preferindo, em um primeiro momento, falar de um “filho do bem” (506e).

           Sócrates diz a Gláucon que é necessário a luz para que os olhos sejam capazes da visão. O Sol é o fator de inteligibilidade das coisas, ilumina os objetos para que o olho possa olhá-las. (Nota-se a primazia da visão sobre todos os órgãos dos sentidos, característica da filosofia grega como um todo). O Sol, então, é um filho do bem, proporciona nitidez ao olhado, às idéias.

           O bem, além de dar inteligibilidade às coisas faz com que elas tenham existência. (Afirmação que necessita argumentação, a ser feita no próximo livro). O Sol reina sobre o mundo visível, a idéia do Bem reina sobre o mundo inteligível. Sócrates propõe uma diversificação que terá como critério a maior participação do ser na verdade, de modo decrescente: a inteligência, pensamento, crença e verossimilhança.

Livro VII

           Após ter apresentado a idéia do bem como criadora de todas as essências e muito além delas no livro sexto além de serem utilizados vários exemplos para mostrar a eficiência ou não da educação nos homens. O livro VII da República serviu como um belíssimo modelo da epistemologia e educação platônicas que diversos filósofos ao longo de dois milênios tiveram que se defrontar cada um a sua maneira.

           O exemplo versa sobre moradores de uma caverna que estão acorrentados e imóveis que vêem projetadas na parede a sua frente sombras de pessoas reais que passam entre os prisioneiros e uma fogueira ao longe. Por não poderem olhar para trás, por estarem acorrentados, tomam as sombras como tudo o que é real. Se for concedido a algum prisioneiro o rompimento das correntes e a saída da caverna, em um primeiro momento este homem se ofuscaria com a presença de luz excessiva, somente em um segundo momento poderia ver os objetos, agora não mais sob as limitações visuais de sua antiga caverna.

           Se, por compaixão a seus companheiros ele resolvesse regressar a caverna e, após novo ofuscamento, agora pela falta de luz, dizer aos outros que há um lugar com mais realidade, que há um outro mundo fora da caverna iluminado pelo próprio Sol, esses se pudessem o matariam dizendo que seus olhos foram lesados. Fica claro que pode ocorrer o ofuscamento dos olhos tanto quando de um ambiente de falta de luz se passe para um ambiente com luz excessiva como vice-versa.

           Toda a alma, então, é capaz de ver o ser por inteiro, de atingir a idéia do bem e isso se deve a uma correção do olhado. Se olharmos ou nos educamos certo conseguiremos o útil e o proveitoso, se não, o inútil e o nocivo. Como exemplo do útil e o proveitoso estão as “coisas verdadeiras” (519b) e como exemplos dos inúteis e nocivos estão os banquetes, os prazeres, a glutoneria, que “voltam para baixo o olhar da alma” (519b).

           Nota-se, ao longo da exposição do “mito da caverna” o uso ostensivo de termos que remetem à visão, fato que deixa evidente a primazia da visão sobre os outros sentidos para ascensão da alma.

           A missão dos fundadores da cidade perfeita é permitir a ascensão ao bem do maior número possível de cidadãos, porém, não permitir que estes voltem a ter os problemas dos homens.

           Ao discutirem quais atividades levam os guardiões-filósofos à ascensão da alma, além da música e da ginástica é acrescentada a ciência dos números e do cálculo que parece conduzir a inteligência na direção certa, por manipular apenas com idéias, fugindo do sensível. (É de se notar a imensa influência dos Pitagóricos da Jônia sobre Platão).

           O cálculo incita e conduz a alma para a ascensão às idéias. Vemos através das proporções algo como Uno e ao mesmo tempo com multiplicidade infinita (525a). Além do cálculo, uma derivada dele também se faz necessária: a geometria Também ela ajuda a levar os guardiões-filósofos a contemplar a essência, rechaçando o devir. A astronomia será o quarto aprendizado a ser fornecido. Sócrates considerou como terceira a geometria espacial em contraposição à segunda, a geometria plana.

           É notório que ao expor, por exemplo, o cálculo e a astronomia como disciplinas necessárias a formação dos filósofos-reis, Sócrates necessita rechaçar o senso comum envolvidos em cada um desses conhecimentos, e ele se dedica muito a fazê-lo. No caso da astronomia, não está envolvido apenas um olhar para o alto, que contempla o sensível. O sensível deve ser apenas o modelo para o aprendizado das formas. O estudo correto das harmonias musicais também pode levar a alma a um contato com o belo e o bem.

           A caminhada rumo a ascensão às idéias é chamada de dialética. Todos os outros métodos são do âmbito da doxa, da opinião. A uma pessoa, ela deve definir pela razão a idéia do bem, tendo perfeitamente distinta esta das outras.

           Os interlocutores relembram as características mais importantes dos que serão educados pelo método dialético. Ao propor o não uso da força na educação, isso tem um uso muito preciso, a saber, deixar saltar aos olhos as naturezas dos educados, para melhor ser feita a seleção dos virtuosos. Somente os que entenderem a unicidade do ser na multiplicidade dos estudos estarão, a partir dos vinte anos, preparados para a dialética. Aos trinta anos uma nova diferenciação escolherá os que se mantém aliados à verdade sem corrupções.

           Sócrates argumenta, ao final do livro sétimo, pela verdadeira dialética, que não enfraquece os valores como a justiça, o belo, etc. O trabalho educacional dos filósofos-reis termina aos cinqüenta anos destes, quando inevitavelmente assumem o poder político, se passaram com honras em todos os testes. Cabe ainda a observação final que aos dez anos as crianças serão retiradas da cidade e isoladas, pois isso garantiria uma educação mais rápida e eficiente.

Livro IX

           Fechado o grande parêntese no curso da República representado pelos livros V, VI e VII o último livro retoma a descrição das formas de governo: timocracia, oligarquia, democracia e tirania e busca definir o homem sob os diferentes governos. A análise de cada tipo de governo indica aos interlocutores em qual governo reina a justiça e em qual reina a total injustiça. O livro IX inicia com Sócrates afirmando que é necessária a análise sobre o homem que vive em uma tirania. Porém, Sócrates nota a falta da análise sobre os desejos e decide por esta anteriormente a aquela.

           Se o homem se mantém “sadio e temperante” (572a) seu sono não trará sonhos não-racionais, que correspondem a concupiscência, ao contrário, seu sono possibilitará a percepção das melhores e as piores possibilidades para a vida. Aliado a isso, se dorme sem irritações contra outrem, o homem incita a sabedoria e quando está dormindo, enfim, pode atingir a verdade. Há desejos terríveis que se manifestam nos sonhos se essas medidas não forem tomadas.

           Relembrando o homem democrático analisado no último livro, Sócrates, pede a seus interlocutores que imaginem a natureza de um filho de tal homem democrático, cercado por um grande desregramento, chamado pelos outros de liberdade, que acumula cada vez mais desejos, “prazeres desenfreados” (573a) até alcançar a total loucura, auge do desregramento. Tornando-se um tirano que espera ser capaz de tudo.

           Esse homem viverá e necessitará de todo tipo de exacerbações, seu desejo será insaciável. Se cessar suas riquezas roubará e usará da força. Seus pais poderiam ser vistos como seus inimigos. Os desejos horríveis que se manifestavam apenas em sonho no regime democrático podem acontecer de fato se Eros instalar sua tirania na pessoa. Se houver poucos tiranos na cidade, acontecerão alguns malfeitos, porém, se houverem muitos será instituído “o que tiver em sua alma o tirano maior e mais forte” (575c). É claro que seriam desleais e injustos em máximo grau. Seriam os mais infelizes dos homens, e assim caracteriza o governo tirânico, também, como o mais infeliz. Sócrates e seus interlocutores concordam que o governo mais feliz é o monárquico.

           A cidade tirânica será pobre e escrava assim como a alma de seu governante. Tal cidade terá medo assim como seu governante. Essa cidade, com certeza, será a mais infeliz entre as cidades. E o homem de natureza particular tirânica que chegar ao controle de uma cidade tornar-se-á o mais infeliz dos homens.

           Se a cidade e o homem têm três partes, também, ao ver de Sócrates, há três formas de prazer. A primeira consiste naquele que nasce quando o homem aprende, a segunda é conjunta com a impetuosidade e a terceira é a fonte dos apetites do corpo. Esta, quase sempre, necessita do lucro para saciar-se, a impetuosidade é amiga das honras e das glórias. Apenas a parte que aprende tem ciência, pode ser chamada de filósofa. Esses prazeres são distribuídos em conformidade com as classes de homens da cidade, o guerreiro que não será governante, por exemplo, não visa o lucro nem a filosofia, ele busca as honras e a glória. O prazer do filósofo abarca as outras duas formas de prazer, tornando-se o não importante.

           O homem que não conhece a verdade não pode valorar bem seus próprios prazeres. Participará mais do Ser, da ciência e da verdade, aquele que permanecer o máximo possível sempre igual. Ao seguir a parte filosófica “cada parte da alma realiza sobretudo o que lhe cabe e é justo” (586e), encontra o prazer que lhe é próprio e alcança mais verdades. Como dito anteriormente, o homem tirano é o que mais se afasta da verdade e o monarca é o que mais se aproxima.

           A título de exemplo, Sócrates pede a seus interlocutores que imaginem um monstro que seja uma junção de uma quimera, um leão e o homem, porém, externamente esse monstro aparenta ser um homem. Para quem afirma que é vantajoso ser injusto, Sócrates mostra-lhes a imagem do monstro imaginado, porém só é dado alimento para a quimera e o leão. O homem, sem comida, é deixado a mercê dos outros animais, como escravo. Se, porém, alguém afirma e elogia a justiça a imagem fornecida é a do homem no interior do monstro, com os outros animais, cuidando de seus filhotes, tornando-os seu aliado, etc. Então, quem louva a justiça é verdadeiro e saberá conter os impulsos da alma. Os atos injustos não são aceitáveis de maneira alguma. O livro chega ao fim com uma enumeração de situações que mostram o homem justo como sábio e temperante.

           É de se notar a frase do último parágrafo que diz: “mas não faz diferença alguma se ela [a cidade perfeita] existe em algum lugar ou não”(592b), o que nos faz pensar que o mais importante na República seja realmente a questão da justiça e apenas em segundo plano a questão da cidade perfeita.

Livro X

           O livro IX finda o tema principal do livro A República, o tema da justiça. O livro X apresenta duas partes: na primeira, desenvolve-se uma argumentação ad hoc e eloqüente que desqualifica a atividade do artista mimético. A segunda consiste no desenvolvimento do argumento que afirma a imortalidade da alma. Os dois blocos somente são possíveis, após a exposição, nos livros V, VI e VII da teoria metafísica das formas. Um breve rechaçar do artista mimético já havia aparecido no livro III, quando se falava da educação guerreira.

           Inicia-se o livro com Sócrates afirmando que de maneira alguma pode se admitir a poesia imitativa, ela é uma “violência contra a inteligência”(595b). Interessante é notar a hesitação de Sócrates ao rechaçar Homero. Como sabemos na paidéia grega da época, a tradição declamatória da poesia tinha grande importância.

           Sócrates analisa a imitação reapresentando a teoria metafísica discutida alguns livros atrás. Afirma que há várias camas e mesas, porém as idéias referentes a elas são apenas duas. Da mesma maneira de quem carrega um espelho cria uma realidade aparente, o pintor também o faz. No caso da cama, existem três: a feita por Deus, pelo moveleiro e pelo pintor. Este, ao imitar a aparência da cama, está a três graus de distância da essência da cama, assim também se dará com o poeta trágico.

           Uma análise sobre Homero é necessária para buscar a compreensão se a poesia homérica está em segundo ou terceiro grau em relação às essências das coisas ditas em seus poemas. Os poetas imitam a virtude, o que pode ser ainda mais grave que o pintor, que apenas imita, porém, não um tema tão importante quanto o da virtude.

           Com relação a todo objeto, há três artes: “a que visa ao uso, a que visa à fabricação e a que visa à imitação”(601b). Somente o usuário pode conhecer detalhes sobre o usado, esse terá a ciência sobre determinado objeto. O imitador, ao contrário, não terá ciência alguma sobre aquilo que pinta. O pintor é um enganador, charlatão. Como já dito, o título de imitador pode ser usado, sem problemas, para designar o poeta. Este descreve o homem em seus infortúnios, seus sofrimentos, despertando em seus leitores a parte irascível, irracional da alma, causando danos a toda a cidade.

           A poesia penetra todas as partes da alma tornando-as inferiores. Homero não deve ser o modelo de educador da Grécia. A poesia não é bem-vinda em uma cidade perfeita, o filósofo-rei deve mantê-la afastada, bani-la do ambiente citadino. Porém, em um lindo parágrafo, Sócrates assinala novamente a força da poesia na formação de todos os gregos. A argumentação de crítica à poesia deve ser repetida diversas vezes se necessário. A luta contra a tradição poética é muito grande.

           A discussão, neste ponto, translada-se bruscamente do rechaçar dos artistas imitativos, para a imortalidade da alma. Sócrates postula que talvez possa defender a imortalidade da alma. Argumenta que o mal costuma desestruturar os corpos até acabar com eles. Um corpo doente perece por um próprio mal, porém, a doença do corpo não pode atingir a alma. Nem esta pode perecer por doenças da própria alma, como a injustiça e outros vícios. Se algo próprio da alma não consegue destruí-la, algo estranho a ela não teria tenta força. Se a alma é imortal, são sempre as mesmas almas que existem e a natureza dela é muito bela. A alma tem amor pela sabedoria, ela é “da mesma estirpe que o divino, o imortal e o eterno” (611e).

           O livro X e, por conseguinte, A República, terminam com a bela exposição sobre o mito de Er. Er morreu em uma guerra, porém seu corpo foi encontrado depois de dez dias em perfeito estado de conservação. Levado à sua casa, prestes a ser enterrado, ressuscitou e contou sobre o que viu. Disse que sua alma caminhou com muitas outras e chegaram a um lugar maravilhoso, com duas aberturas. As almas que haviam praticado ações justas ascendiam para um lugar muito belo. As que praticaram injustiça descendiam e sofriam severas penas. A Er foi-lhe dito que registrasse tudo o que vira, para que posteriormente contasse aos homens.

           Er também viu a oportunidade dada por Láquesis às almas escolherem suas próximas vidas terrenas. Muito escolhiam glórias, tiranias, porém, logo percebiam o grande equívoco da escolha e se arrependiam. As almas ao adquirirem o dêmon escolhido, deviam tomar da água do rio Ameles, o que as fazia esquecer-se da sua escolha. Difícil acreditar que a versão bíblica do paraíso e do inferno, não tenha sido uma reinterpretação deste e de muitos outros mitos.

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Um comentário em “Resenha de A República de Platão (2008)

  1. Nesse post sobre a analise da Republica de Platão senti falta do primeiro livro. Ele foi publicado e o meu notebook que faz ele sumir ou realmente não tem?

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