Filosofia e História da Ciência Moderna

Seminário II

Questão I – Cassirer argumenta que na magia do Renascimento encontra-se uma relação de finalidade interior e geral. O Universo é pensado como organismo vivo dotado de membros específicos que tornam o todo cognoscível. Cada ente particular é um signo e uma representação em contato direto com o todo universal, há uma alma do mundo doadora de inteligibilidade a este. Nesse contexto, a palavra é fonte de ação natural que transcende as coisas e as governam. O lógos carrega dentro de si a semente de tudo, assim como qualquer outro ponto do todo tomado como referência. Tomamos essa frase de Agrippa:

“Se desejas atrair a virtude de uma parte do universo ou de alguma estrela, deves aplicar tudo o que está relacionado com essa estrela”

Na conceito de relação podemos entrever o poder do signo. A significação não é constituida sem pedra de toque ontológica. Ela é intrínseca às coisas. Significando já remete para a natureza física de algo.

O conceito de natureza tacitamente considerado aqui considera a causalidade como fundamental. Uma ação num ponto expande-se ao todo. Considerada como organismo, na natureza é introjetada pela primeira vez a imanencia e a autarquia das leis naturais.

Questão II – A) Pico della Mirandola concebe o homem como o centro da criação do mundo, ministro e intérprete da natureza, mais ainda, distinguindo-se de todos os animais, o homem delibera sobre qual será seu lugar no kósmos. Alguém poderá rastejar por terra ou fazer filosofia, o que o dignificará com o reto uso da razão e a morada celeste. Dotar o homem de potencialmente conter todas as sementes do universo talvez seja o limite máximo do humanismo. A crítica se extrema, no contexto da época, contra a astrologia, que imputava aos astros a determinação da vida humana.

B) Cassirer aponta que o conceito de evolução, no contexto do Renascimento, representa a união entre a história da natureza e a do espírito. Ou seja, evolução remete a protohistória das ainda não distinguidas Naturwissenschaft e Geistwissenschaft. Herdado da teoria neoplatônica, evolução entrelaça a idéia e o fenômeno. Há uma linha de continuidade entre o mundo das formas puras e a existência material das coisas pois postula-se uma mútua condicionalidade entre todas as partes do universo. Daí decorre um universo pensado dinamicamente como vivo, como tendo uma alma universal. Nesse organismo, é sem sentido pensar consciência e coisas como separáveis. A consciência não é deriva das coisas, ao contrário, faz parte delas desde o primeiro momento. No texto de Pico della Mirandola, Discurso sobre a Dignidade do Homem,  esta idéia aparece sub-reptícia em diversos momentos. A concórdia entre todos os sistemas filosóficos intuida por Pico, por exemplo, atesta um universo concebido com membros distintos que, porém, respondem ao mesmo complexo superior de vida.  Se o ser do universo é uno, qualquer positividade é manifestação deste ser, qualquer sistema filosófico autêntico atinge a verdade, como desvelamento do Ser da natureza.

Seminário III

I)                    Uma teoria psicológica do conhecimento desloca a dependência direta outrora vigente na relação homem/natureza para uma correspondência harmônica entre esse binômio. Com isso inverte a clássica intuição que o macrocósmos determina o microcósmos. O microcósmos encarnado no homem pode se substancializar, e mais decisivo, se contrapor a natureza. Na experiencia sensível o homem “ouve” as leis da natureza. Essas leis mostram seu funcionamento pleno no experimento científico preparado minuciosamente pelo homem.

II)                  A questão principal que guia a psicologia de Fracastoro é: Como que da grande massa de conteúdos sensíveis concretos que ocupam nosso eu pode surgir, destacar-se e cobrar própria substancialidade de ideia do geral, o conceito universal? Ou seja, procura-se demonstrar o nascimento do geral partindo do particular.

Fracastoro propõe conceitos de duas ordens: primárias, que versam diretamente sobre os objetos exteriores. E secundárias, as quais exprimem simplesmente os nossos predicados acerca dos objetos, ou seja, vemos aqui o entendimento voltando-se sobre si mesmo engendrando assim um lugar próprio à subjetividade.

III)                Telesio, deslocando a questão de Fracastoro para o âmbito da biologia, busca capturar a vida do todo que existe igual e simultaneamente em cada parte deste todo, porém de um ponto de vista individual. Nesse exercício de analisar qual seria a individualidade alheia é perdida a pedra de toque da própria individualidade que efetua a análise.  Nesse sentido, ao conhecer, ou seja, o indivíduo, ao pensar outras formas de alteridade, padece. Padece pois vive apenas de alteridade, renunciando a sua autenticidade inerente.

Seminário V

1)

Mariconda situa o leitor no âmbito das discussões que Galileu enfrentava com os jesuítas, importantes personagens contra-reformistas que rapidamente espalharam seus colégios por toda Europa. Desse debate, inevitavelmente coube, por parte de Galileu a defesa da autonomia da ciência, principalmente perante a religião. Em 1613 numa carta a um colaborador, Padre Benedetto Castelli, Galileu expõe visão de compatibilidade entre a astronomia e a cosmologia copernicas com as Sagradas Escrituras. É premente a necessidade de manter a nascente ciencia natural fora das questões acerca dos dogmas religiosos. Tal busca, empreendida por Galileu, parece circunscrever, na época, a adesão ao sistema copernicano, que vai diretamente contra o universo aristotélico-tomista tradicional. Com o rechaço do universo aristotélico até mesmo a hierarquia dos conhecimentos é atacada em sua base. Esta desorganização dos saberes, que a busca de autonomia da ciencia natural impõe, foi considerado heresia, na época.

Talvez o principal saber abalado pelas novas descobertas de Copérnico é aquela que aponta a posição central assumida pelo homem. Nesse sentido, a concepção geocêntrica está em relação direta com o antropocentrismo. A tese tradicional que vem de Aristóteles e Ptolomeu se apóia na percepção sensível do mundo, pois ao homem na Terra não é dado conhecer o movimento real do planeta por simples observação. Para abalar tal concepção é necessário um desenraizamento da certeza imediata do mundo sensível. A doutrina heliocêntrica é violenta e revolucionária pois ataca as pretensões há muito tempo engendradas de que o homem ocupa o centro do mundo e que toda a criação seria para o homem.

Ora, o heliocentrismo, ao propôr o movimento da Terra relega a aparência o que a sensibilidade retém de imediato, ou seja, que não há movimento algum na Terra. Se uma pseudo-verdade como esta é desbancada pelo heliocentrismo ao mesmo tempo aponta-se para o falibilismo da sensibilidade. Se num determinado momento, elevando estas teses ao limite, suspende-se a verdade de toda a sensibilidade, o que resta? Sem dúvida, um ser que suspende as verdades sensíveis. O sujeito. A radicalidade das novas teses são importantes até para o uso ostensivo da subjetividade como um local com autonomia perante o mundo exterior.

2)

Galileu buscava quantificar o mundo que até então era qualitatificado pelas categorias Aristotélicas. Para isso Galileu estabelece uma distinção entre “qualidades secundárias”: cores, odores, sabores, sons, que podem ser eliminados pois não participam do conceito de corpo físico, de “qualidades primárias”: forma, figura, número, contato e movimento. Estes necessários, pois participam do conceito de corpo físico. Galileu parece entender que estes últimos atributos são passíveis de quantificação, enquanto os de “qualidade secundária” não o são. Claro que hoje podemos pensar certa quantificação dos de “qualidade secundária”, por exemplo, um decibelímetro que quantifica o som em um determinado local. O que é importante é vermos um processo de matematização do mundo, empreendido por Galileu, que fixa os elementos primários como chaves ontológicas para a mecanização da natureza e do mundo. O espaço geométrico homogêneo vai, de alguma forma, “enxugar” o mundo qualitativo aristotélico. Isto significa atribuir à matemática papel central de relevância na nova ciência. Compreender o mundo é estabilizá-lo numa base matemática que vai garantir a dominação da natureza de uma forma surpreendente.

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