Charles Sanders Peirce – Uma Introdução

          Charles Sanders Peirce é considerado por muitos como a mente estadunidense mais criativa e profunda. Ao alcançar um olhar de sobrevoo para o corpus da obra peirceana compreendemos seu contínuo esforço de esquadrar senso comum com ciência, filosofia e religião, lógica e semiótica. Filho de um afamado matemático e astrônomo, Benjamin Peirce, que era professor em Harvard, Charles estabeleceu contato com a ciência desde a tenra idade, bacharelando-se em química, summa cum laude, em 1863. Os primeiros trabalhos, experimentos de fotometria e com pêndulos gravitacionais, já estabelecem a notoriedade do jovem cientista. Nomeado para várias sociedades científicas da época, rapidamente as reflexões de Peirce voltam-se para a metodologia da ciência e a lógica: «todo o trabalho de ciência, importante o suficiente para ser recordado por umas poucas gerações, fornece alguma ilustração do estado defeituoso da arte de raciocinar da época em que foi escrito; e cada passo importante na ciência tem sido uma lição de lógica»[1].

          Nos propomos adentrar alguns dos mais importantes artigos de Peirce para atingirmos uma visão panorâmica de sua obra, e, especificamente, compreendermos qual o estatuto da lógica e do método científico, com vistas de atingirmos o núcleo de sua teoria semiótica. Um dos problemas que uma leitura crítica de Peirce necessita enfrentar é o da diversa audiência intuída pelo autor para cada um de seus textos. Nesse sentido, encontraremos formulações de uma mesma teoria de diversas maneiras em cada período da sua produção, o que atesta a necessidade de uma abordagem cronológica.

            (I) Pragmatismo e Métodos de Inferência

          É através da base científica adquirida através da Química que Peirce fundamentará sua concepção do que é o pragmatismo. Nesse estado embrionário do que será conhecido como um dos mais importantes movimentos filosóficos estadunidenses, o pragmatismo, para Peirce, remete para a evidência empírica à qual os juízos e conceitos intelectuais relacionam-se com efeitos práticos, ações no mundo. Em outras palavras, o lema do pragmatismo aconselha: «considere, de maneira prática, os efeitos sensíveis das ideias.»[2] De fato, uma das principais questões que um trabalho sobre Peirce deve buscar vislumbrar com clareza, é a estrutura da relação mente-mundo intuída pelo filósofo. Num ensaio de 1877, chamado A fixação da crença,  Peirce faz a cisão que se tornou clássica entre o estado da dúvida e o da crença. Informada pelas noções e práticas experimentais, herdadas da ciência, Peirce pensou que a própria experiência empírica é fundadora do conhecimento, porém a mente contém a capacidade de tornar aquela experiência primeva num objeto passível de experimentação. Esse movimento objetifica a experiência, apazigua a dúvida e, no limite pode-se alcançar a calmaria de uma crença. Nas palavras de Peirce: «A dúvida é um estado de desconforto e insatisfação do qual lutamos para nos libertar e para passar ao estado de crença; enquanto este último é um estado calmo e satisfatório que não desejamos evitar ou mudar para uma crença em outra coisa qualquer.»[3] Esta pode se tornar sólida, o que gera o hábito, um “mapa” que desencadeia determinadas ações no mundo. Ações que constantemente devem passar pelo crivo da experimentação e criticismo, o que garantiria à humanidade seu verdadeiro lugar no controle e administração da natureza.

             A investigação tem por objetivo extinguir a dúvida. Também no artigo A fixação da crença, Peirce afirma haver quatro métodos pelos quais a dúvida pode ser substituída pela crença: o primeiro é o método da tenacidade, que busca blindar o conjunto de crenças individuais contra quaisquer outras possíveis crenças, sendo um estado dificilmente operalizável. Porque o segundo método se choca completamente contra o individualismo exacerbado do primeiro: o método da autoridade, constituída pelas convenções sociais, pelas crenças religiosas dominantes, etc. Porém, em muitos casos, substituir o estado de dúvida pela crença instituída por uma autoridade se revela como um dos principais meios para se livrar do estado de dúvida. O terceiro método é o apriorístico que pretende apaziguar as dúvidas ao encontrar crenças que sejam totalmente condizentes com a razão, o que necessita de uma mente mais preparada e treinada pela ciência. Para Peirce o terceiro método ainda é dependente demais do conjunto de paradigmas dominantes numa época, fazendo-se necessário um quarto método. O quarto  método é o científico que toma a realidade como tendo existência independente da mente humana e, por isso, torna-a passível de objetificação e investigação. Voltaremos nesse ponto mais à frente, argumentando em prol do empirismo realista de Peirce.

(II) O empirismo peculiar de Peirce

          Uma das mais profícuas maneiras de apresentar o tipo de empirismo operante na filosofia de Peirce, é, primeiramente, apresentarmos o que esse empirismo não é. Em primeiro lugar, o que aqui denotaremos como empirismo não é irmanado com as concepções filósoficas que partem de um conhecimento determinado do que é a verdade, conhecimento este que informa o aparato cognitivo do sujeito do conhecimento que se ajusta à realidade daquela verdade. Partir de uma pré-concepção de verdade e assumir que a mente é capaz de alcançá-la é o que convencionou-se denominar racionalismo. Em segundo lugar, o empirismo que estará em causa na filosofia de Peirce, não desconfia da possibilidade de comparar a verdade ou as verdades do mundo com que pode ser conhecido sobre essas verdades, em outras palavras, não recai num ceticismo clássico, que assume a dissimetria irreconciliável entre o plano dos objetos do mundo e a mente que procura compreendê-los, cenário que entrava o conhecimento.

          O empirismo de Peirce se diferencia também do positivismo, muito em voga em sua época, que partilhava muitas teses do empirismo clássico. Enquanto o positivismo postula que somente o que pode ser passível de observação imediata deve estar contido no escopo da ciência, o empirismo de Peirce fazia previsões de vários eventos não-observáveis, através de dedução por exemplo, ou, ainda com mais abrangência, através da abdução. Para o positivismo, um conceito como o de gravidade é totalmente irrelevante para o conhecimento científico, pois não há observação empírica de algo como a gravidade. Muito mais importante é a fórmula que descreve a distância percorrida por um objeto em um intervalo de tempo, proposta por Galileu.

          As posições de Peirce não recaem num materialismo, por um lado, que diz que a única realidade que há pode ser completamente acessada pelo conhecimento científico, nem, por outro lado, Peirce defende um tipo de idealismo solipsista no qual o que há são somente eventos mentais de um sujeito. Em vez disso, Peirce defende um certo realismo científico, que prevê a existência real dos objetos do mundo, porém, pensa que vários âmbitos da realidade não são objetos de ciência. Alguns comentadores afirmam encontrar em Peirce um Realismo de Senso Comum, ou seja, podemos experienciar o mundo das coisas externas independentes e reagir a esse mundo de uma forma quase instintual, habitual. Conquanto esse mundo real seja muito maior do que o conhecimento científico que o homem pode ter dele. O que vislumbramos aqui é uma certa noção da contingência humana em plena operação.  Argumentando sobre esse realismo científico, Peirce diz: «existem coisas reais, cujos caracteres são inteiramente independentes de nossas opiniões acerca delas; essas realidades afetam nossos sentidos segundo leis regulares e, embora nossas sensações sejam tão diferentes quanto o são nossas relações com os objetos, contudo, aproveitando das leis da percepção, podemos averiguar pelo raciocínio como as coisas realmente são, e qualquer homem, se possuir suficiente experiência e raciocinar o bastante sobre o assunto, será levado à conclusão verdadeira.»[4]

          O empirismo de Peirce, ou o que chamamos de realismo científico, busca compreender melhor, através da experimentação, da metodologia e no limite, através da lógica, como se dá a cognição ou melhor, como se dá a compreensão conceitual de uma determinada parcela do mundo. A verdade será o conhecimento adquirido através desses processos cognitivos, com validade circunscrita a um espaço e tempo. Por isso todas as definições de verdade serem derivadas diretamente da teoria do conhecimento. Aprimorar esse tipo de empirismo será um dos objetivos da filosofia peirceana. Para tal empirismo, não faz sentido admitir qualquer existência não atingida pela experiência humana. O que será então essa experiência humana? É exatamente nesse ponto que vemos plenamente operante a influência decisiva que Charles Darwin causou na mundividência de todos os fundadores do pragmatismo, incluindo Peirce. Com Darwin, Peirce pensa numa experiência naturalizada, ou seja, um tipo de experiênia na qual o antigo dualismo corpo e mente torna-se completamente obsoleto para dar conta da nova compreensão do mundo proposta pelo biólogo Inglês. Nesse sentido, reconhece-se o monismo e por conseguinte o holismo do entrelaçamento das instâncias mente e mundo, o que torna qualquer dicotomia artificial.

          A ciência parte do desconhecido para o conhecido, através de observações atentas das interações contínuas e constantes entre a mente e o mundo. A verdade ideal, para Peirce, só faz sentido no limite do conhecimento e, por isso, aponta para a investigação ilimitada. Daqui vemos brotar um dos conceitos centrais para toda a história da filosofia americana, que Rorty denominou de contingência. O empirismo vislumbrado por Peirce parte do reconhecimento da finitude e da contingência humana. Com isso, de um lado, rejeita-se para sempre a possibilidade da pesquisa recair num racionalismo fundacionista. Ao mesmo tempo que a experimentação, o método científico e a lógica preservam à pesquisa da possibilidade de recair num ceticismo sempre caótico.

          A diferença fundamental do empirismo de Peirce em relação ao empirismo clássico, deita raízes na consideração da temporalidade como uma das determinações da cognição, em outras palavras, a cognição deve ser vista sob um ponto de vista histórico. Relevando, mais uma vez, o progresso evolutivo antevisto por Darwin, Peirce pensava a inteligência humana como uma força em contínua evolução. O próprio desenvolvimento da ciência aponta para o progresso histórico da humanidade. A ciência proporciona um conjunto de premissas que podem ser incorporadas, por força do hábito, dotando o ser humano de capacidades de controle da natureza e satisfação de seus desejos de forma acentuada. Ademais, o desvelar de novas possibilidades de interação possíveis através da ciência, permite a criação de vários instrumentos e objetos que aumentam ainda mais a adaptação humana ao seu em torno. E, o que é mais impressionante, a ciência consegue se reatualizar conforme os novos tempos, devido a um estimulado auto-criticismo. Nesse ponto, Peirce propõe algo que se assemelha ao falibilismo de Karl Popper: cada época histórica deve submeter as premissas científicas que lhe foram legadas às mais variadas formas de provas e experimentos, para testar seus méritos pragmáticos. Enquanto forem úteis e funcionais devem ser relevadas pela comunidade científica. Quando não se adaptarem mais aos novos tempos devem ser descartadas em prol de outras.

          A lógica também é passível de transformações conforme novos tempos históricos criam novas demandas que nem sequer foram postas em causa em épocas anteriores. A lógica será o locus privilegiado onde podemos acompanhar a fundação de base da filosofia peirceana, pois a lógica é transversal a todos os meandros da ciência de um determinado tempo histórico. Porém, em vez de estar numa posição de independência em face aos outros domínios da ciência, a lógica necessita, também, recorrer e se conformar com a pesquisa empírica.

          Peirce fez parte de um seleto grupo de cientistas extraordinários que se voltaram para a filosofia tornando suas obras em pontos de inflexão na história da filosofia. Entre esses nomes excassos, no século XVII, podemos citar René Descartes e G. W. Leibniz. No século XVIII, o ápice da ciência é representado por Immanuel Kant. Peirce atingiu uma obra invulgar nos dois domínios do conhecimento, ciência e filosofia, dando provas que a distinção entre ambos é um prejuízo que enclausura o progresso do conhecimento humano como um todo. A filosofia deve acompanhar atentamente os últimos desenvolvimentos históricos da ciência e vice-versa.

(III) As três categorias do entendimento

          Peirce pensava que parcelas consideráveis da realidade que chegava à experiência não era passível de compreensão. A principal função das concepções é, de alguma forma, reduzir o variado escopo de impressões recebidas a uma unidade, como apontou-nos o filósofo em On a new list of categories. Com vistas a isso, e ávido por discriminar as diversas categorias que operam no entendimento humano, Peirce distinguiu entre três momentos da apreensão da realidade que serão onipresentes na subsequente teoria peirceana e que fizeram história na ciência contemporânea. Peirce os chamou de firstness, secondness e thirdness. Em português foram traduzidas de diversas formas, entre elas: primariedade, secundariedade e terciariedade, etc. Escolheremos aqui a seguinte tradução, respectivamente: mônade, díade e trìade, porque possibilita antever o caráter relacional ou não que cada uma das noções procura descrever. A preferência de Peirce em descrever coisas em termos de relações tricotômicas ficou conhecido entre os comentadores como triadismo. Peirce nomeia muitas outras trincas com vistas de descrever basicamente as formas de apreensão categorial, por exemplo, em On a new list of categories (1867): qualidade, relação e representação. Em What is a Sign (1894): sensação, reação e pensamento. Ainda encontramos: I) possibilidade, atualidade e necessidade, II) qualidade, fato e hábito, III) rema, proposição e argumento, etc. A categoria abarca um certo número de coisas com características semelhantes em detrimento às demais. Peirce, muito influenciado pela filosofia kantiana na primeira parte de sua produção, esbarrou-se necessariamente na questão categorial. A mônade, a díade e a tríade vêm para alicerçar logicamente as ulteriores pesquisas de Peirce. Ademais, Peirce pensava na trinca como a base do que nomeou faneroscopia. Esta seria a simples observação da aparição dos fenômenos. Peirce pensava que os próprios fenômenos recaiam sob uma das três classificações.

          Sobre a origem das categorias, em Peirce, devemos notar uma dupla gênese, tanto no âmbito de uma consciência quanto, por conseguinte, na realidade em si mesma. As categorias fazem menção, portanto, simultaneamente, ao «campo psicológico e lógico»[5], ou seja, nas categorias incluem-se tanto ideias quanto coisas. A mônade busca descrever uma sensação simples que chega até os sentidos de alguém de forma “solitária” e remete para a consciência que capta a si mesma como imersa num átimo de tempo. A mônade é uma qualidade não-relacionada com qualquer outra, que não remete para nenhuma outra categoria. Se fosse possível à mente humana experienciar não-relações, ou seja, singularidades totalmente independentes de outras categorias, então a mente humana estaria submersa na mônade. Num processo de auto-referência contínua, o objeto percebido como mônade remete somente para si mesmo. A díade é a categoria da reação e do embate. Quando há uma simultaneidade da experienciação de duas qualidades, então, necessariamente, estabelece-se uma colisão entre elas. Definir uma delas, é apontar para a relação desta com a outra. É evidente que cada uma dessas qualidades necessita se manter no tempo, para que a díade se estabeleça. Ao prestarmos atenção em uma delas estaremos considerando, também, a outra. A díade é a marca de eventos no mundo, dos fatos, que são relações dinâmicas entre os objetos.

          A tríade faz a mediação entre a categoria monádica e a experiência diádica. Após o estabelecimento de uma relação diádica, é possível compreender as instâncias envolvidas decompondo-as em mônades. A relação triádica permite reconhecermos as leis que regem a natureza, permite vislumbrar um tipo de relação diádica que é necessária, definitiva, nas quais as ações e reações ocorrem de maneira regular. Ademais, a compreensão do significado de uma tríade, permite o controle da natureza duma forma admirável. As relações triádicas remetem para o controle simbólico, onde a mente sai de si mesma para realizar determinadas tarefas no mundo, através da manipulação de signos. Os objetos do conhecimento existem em relações tríadicas, em Peirce,  pois o ato de conhecer é um ato de controle e de reconhecimento das regularidades intrínsecas à natureza. As mônades e as díades não participam efetivamente do conhecimento humano, elas atestam que há na natureza certas regiões em que a compreensão humana não pode desvendar. O tipo de empirismo de Peirce, que não considera como conhecimento o que chega diretamente pelos sentidos, ou seja, o que chega através da mônade, é bem diferente do empirismo clássico. Qualquer juízo sobre os dados dos sentidos necessitam da relação diádica e, além disso, necessitam  mediação da tríade.

          A maior revolução científica da época de Peirce foi a teoria de Charles Darwin sobre a evolução natural. Ao longo de suas análises, Peirce parece se posicionar claramente em defesa da evolução natural. Para Peirce os processos do pensamento devem ser avaliados por critérios que apontam para uma maior ou menor capacidade de adaptação a um determinado ambiente. Há uma completa naturalização do pensamento, e, por conseguinte, uma naturalização das atividades humanas com vistas a prosperar e se adaptar ao meio. Peirce interpretou que a ideia básica sub-reptícia à teoria da evolução era que coisas complexas poderiam adquirir novos hábitos e atingirem outros níveis de complexidade num certo ambiente. A capacidade de exercer controle sobre seus próprios hábitos é a principal característica da evolução dos seres vivos. «O organismo deve compreender como sua interação com os processos do ambiente podem modificar esses processos, e assim poderá compreender como seus hábitos de atividade podem fazê-lo alcançar seus próprios objetivos. O sistema nervoso do organismo lhe permitirá sentir o mundo de forma ativa. É por isso que pragmatistas, depois de assimilarem a teoria darwiniana da evolução, acreditam que a experiência sempre se refere à nossa interação com o mundo.»[6]

(IV) O pensamento regula o hábito

          No famoso artigo How to make our ideas clear (1878) Peirce procura elucidar suas teorias sobre o pensamento. Argumenta pela insuficiência dos critérios cartesianos de clareza e distinção para tornar as ideias científicas realmente claras. Aos critérios cartesianos deve-se acrescentar a consideração pelos efeitos que uma ideia produz no mundo. Ademais, Peirce argumenta que o pensamento sempre tem por objetivo estabelecer um novo hábito. A crença é a forma pela qual os hábitos são engendrados, e as crenças guiam certas atividades no mundo e, por isso, podem ser avaliadas quanto ao seu grau de pragmaticidade, ou seja, podem ser julgadas conforme suas utilidades na efetivação dos objetivos propostos. Nas palavras de Peirce: «A essência da crença é a criação de um hábito; diferentes crenças distinguem-se pelos diferentes modos de ação a que dão origem. Se as crenças não diferem quanto isso, se elas apaziguam a mesma dúvida produzindo a mesma regra de ação, não são meras diferenças na maneira de estar conscientes delas que as tornarão diferentes uma da outra, do mesmo modo que tocar uma nota com diferentes teclas não é o mesmo que tocar diferentes notas.»[7] A relação entre as crenças é, na maioria das vezes, mediada pela linguagem. Porém, não é somente através da linguagem que ficamos conhecendo as crenças de alguém. Porque a crença aciona diferentes modos de ação no mundo é possível antevê-las sem a necessidade da linguagem. Um dos objetivos da filosofia de Peirce é alcançar um controle linguístico do sistema de crenças que subjaz a vida humana. Compreender bem a linguagem é, antes de tudo, assumir a direta veiculação de seu âmbito com as ações que a todo momento executamos no mundo. Mas não só, Peirce apontará claramente que a semiótica abarca também o domínio extra-linguístico, e isso será fundamental para o posterior desenvolvimento de ciências como a biosemiótica, por exemplo, que toma como escopo de estudo os animais e seus comportamentos geradores de sinais passíveis de interpretação por outros animais.

          O método científico é um dos melhores instrumentos dos seres humanos para ajustarem suas próprias crenças e resolverem disputas entre pontos-de-vistas distintos. O primeiro passo para a resolução de uma contenda entre teses científicas é a exposição clara das teses litigantes. Dado que qualquer tese científica refere-se ao próprio mundo real, como já dissemos, devemos ter em consideração uma frase de Peirce em How to make our ideas clear (1878), que procura definir o objeto do conhecimento científico: «Considere quais são os efeitos com concebível alcance prático que podemos conceber como resultantes do objeto de nossa concepção. Desse modo, nossa concepção desses efeitos é toda a concepção que teremos do objeto»[8]. Novamente, é necessário deixar claro qual o conjunto de concepções – crenças – que temos sobre um determinado objeto para que seja possível qualquer discussão séria na ciência. Em segundo lugar deve-se observar as consequencias e os alcances práticos das nossas concepções. Em terceiro lugar, podemos ajustar nossas crenças conforme o resultado do segundo passo, corrigindo nossas concepções de mundo informadas pelo teste na experiência. Por detrás de todas essas análises está a tese empirista que diz que o pensamento brota da interação com o mundo real.

(V) Signos: instrumentos de manipulação do mundo

          Nesse ponto podemos compreender a noção de signo, em Peirce: signo é uma relação triádica que une a instância do sujeito do conhecimento que age no mundo com a instância de um objeto que responde às ações com consequencias observáveis para o sujeito. Nesse sentido, é na semiótica que Peirce procura circunscrever o problema clássico da representação. Signos são utensílios que podem ser usados para a alteração do mundo. O pensamento refere-se ao uso e controle dos signos. A semiótica é necessária para se entender os processos do pensamento, em Peirce. Sabe-se que a teoria semiótica de Peirce deriva da teoria dos signos de Duns Scotus e de John Poinsot. A própria manipulação dos signos é que se chama de semiose, relação que, por ser triádica, sempre envolve três âmbitos: signo ou representamen, objeto e o interpretante. Enquanto o signo ou o representamen remete para a forma de aparecimento de um determinado signo, suas características físicas, etc. o objeto é a unidade física das características anteriores, e o interpretante faz referência a um hábito coletivo de interpretação já instalado ou a alguma norma social interiorizada pelo sujeito que manipula o signo.

          A grande novidade da semiótica de Peirce, como nos diz Umberto Eco no Tratado de Semiótica Geral, é que a teoria dos signos tal como pensada por Peirce permite transcender o horizonte de uma intencionalidade produtora da significação, o que implica a tese que os signos podem ser gerados de forma natural, sem a atuação humana. Isso é observável num sistema meteorológico, por exemplo, que não contém um emissor humano, porém pode ser transcrito e previsto conforme a ciência humana. Em vez de circunscrever a semiótica a uma teoria dos atos comunicativos, que nada poderiam dizer de sintomas médicos, por exemplo, Peirce a mantém receptiva e aplicável a quase qualquer âmbito do real. A definição de signo que alcança Umberto Eco, ao analisar a obra peirceana é: «Alguma coisa que está no lugar de outra.»[9] Com isso, o interpretante sempre alcançará de um determinado signo apenas uma interpretação possível entre outras e, até mesmo pode não haver um interpretante humano para um certo signo.

          Nas cartas para Lady Welby encontramos, talvez com a maior sistematização possível, a classificação da ciência semiótica de acordo com o triadismo, tal como pensada por Peirce. Além de descrever em profundidade a mônade, a díade e a relação triádica, Peirce definirá signo, ali, como algo que se põe no meio entre um interpretante e um objeto. O signo media a relação entre o objeto e o interpretante. Peirce propõe-se então a classificar os signos conforme sua natureza material própria e suas relações com outros objetos e com os interpretantes. Em si mesmo, sem considerar relações ulteriores, Peirce chama uma qualidade efêmera de quali-signo, um objeto ou um acontecimento de sin-signo, ou o signo de natureza geral que é denominado legi-signo. Em relação aos objetos dinâmicos do mundo, Peirce nos diz que há três tipos de signos: o ícone, o índice e o símbolo. O ícone apresenta uma característica que é determinada pela própria natureza interna de um objeto dinâmico, por exemplo, uma estrela cadente que gera uma impressão visual. O índice ou indicador já faz menção a uma interação física que se mantém no tempo entre o objeto representado e o signo. O sintoma de uma doença, por exemplo, é um índice. O símbolo aponta para uma conexão normativa entre signo e objeto e conexões estabelecidas por convenções sociais. O símbolo faz referência a uma lei, uma causalidade evidente ou uma convenção social estabelecida entre objeto e signo, como, por exemplo, na sigla US$ para remeter ao dólar americano. «Com respeito a seu objeto imediato, um signo pode ser signo de uma qualidade, um existente ou de uma lei.»[10] Com relação ao interpretante, o signo pode ser classificado em: rema, um dicente ou um argumento, que correspondem ao termo, à proposição e ao argumento da retórica clássica.

          Para Peirce, no artigo Dedução, indução e hipótese (1878), são três as principais formas de operação do pensamento científico. Em primeiro lugar, o pensamento dedutivo, segundo o método proposto por Aristóteles, que deriva conclusões necessárias dos enunciados. Em segundo lugar, há o pensamento indutivo que parte da natureza para inferir uma série de regularidades. Em terceiro lugar, há o pensamento hipotético que busca apresentar uma hipótese para explicar o fenômeno observado. Alguns autores argumentam que o método hipotético, tal como apresentado por Peirce, que ficou conhecida como teoria da abdução é a sua «mais importante contribuição à lógica e à filosofia da ciência.»[11] A integração das três formas de argumentação no que Peirce chamou de método científico possibilitou a Peirce grandes possibilidades teóricas. Originalmente formas de argumentação, a dedução a indução e a hipótese tornam-se em fases da metodologia da ciência. O método científico inicia-se com a abdução ou hipótese que tenta abarcar, descrever e explicar algum tipo de fenômeno surpreendente. Em segundo lugar a dedução, que através de inferências necessárias colhe uma série de conclusões da hipótese adotada em caráter provisório. Essas conclusões necessitam ter verificação empírica, se a hipótese em causa é verdadeira. Em último lugar o método científico emprega a indução que testa por meio de experimentos as conclusões dedutivas obtidas através da hipótese adotada. Se não passarem ao crivo dos testes indutivos, então deve-se conjecturar outra hipótese para o fenômeno em causa, relevando as novas informações alcançadas através da experimentação. O que se pode ver com clareza no método científico de Peirce é o que ficou conhecido como “economia da pesquisa”. O cientista deve desenvolver uma série de procedimentos para maximizar a eficiência de sua pesquisa, diminuindo o fator tempo envolvido e aumentando o conjunto de hipóteses válidas. Em causa está toda a concepção de ciência de Peirce: um sistema eficiente que continuamente reduz o grau de indeterminação das crenças humanas.

          Tentamos esboçar algumas das teorias peirceanas com amplas ressonâncias da ciência, porém, um autor como Peirce deve ser contextualizado e lido cronologicamente. Entre 1867, quando Peirce postula a sua nova lista de categorias, passando pelos anos de 1877-1878, época que propõe sua máxima pragmática, até 1904-1911, nas cartas a Lady Welby, o pensamento de Peirce sofre mudanças consideráveis. É muito difícil qualquer sistematização dos conceitos peirceanos que são utilizados em diferentes períodos de sua produção e em diferentes contextos. Uma pesquisa sobre Peirce, nos dias de hoje, deve estar atenta às variações conceituais do corpus textual peirceano e talvez fixar determinadas compreensões num determinado contexto, como faz o autor de Charles S. Peirce’s Philosophy of Signs, Gérard Deledalle, por exemplo: «Os principais protocolos ou princípios peirceanos serão utilizados no presente livro como referências: Faneroscopia: o princípio da hierarquia das categorias; Epistemologia: primariedade da tríade sobre a díade, porém a necessidade da díade para a “instanciação” da tríade; Semiótica: três tipos de referências a signos: Símbolo triádico, índice diádico, e ícone monádico: não há signo simbólico sem índice e ícone; não há signo indexical sem ícone; o símbolo icônico refere-se a si mesmo.»[12]

(VI) Semiótica: mapa do pensar

          Voltemo-nos, mais uma vez, para a teoria semiótica de Peirce. A semiótica peirceana resulta de uma rejeição sistemática dos paradigmas filosóficos europeus em busca de novos paradigmas, adaptados à realidade americana. No supracitado artigo On a new list of categories (1867), Peirce, sob uma perspectiva kantiana busca enquadrar as categorias como instrumentos de “filtragem” da experiência. Porém, logo em seguida no próprio artigo, se pergunta pela passagem do ser à substância. Pergunta essa que foge do âmbito kantiano. Ao argumentar que uma estante encarna a cor preta, a negritude, então Peirce está pensando num mundo em que relações de correlação estão plenamente operantes, nesse caso, a negritude só pode ser atribuída a algo específico quando comparada e discriminada de outras cores. O que vemos, então, é que a noção clássica de representação joga um papel considerável, e isso, sem dúvida é um dos pilares da teoria semiótica peirceana. Continuamente crítico da tradição filosófica clássica, aquando da introdução dos diversos tipo de inferências, no artigo Dedução, indução e hipótese (1878), que discutimos acima, Peirce buscava distinguir-se da lógica silogística aristotélica, argumentando pela impossibilidade de redução de uma modalidade de inferência em outra, por exemplo, a redução de uma dedução a uma indução. Um passo muito tímido. De fato, Peirce permanece fiel seguidor da armação metafísica aristotélica. A qualidade nela mesma, por exemplo, a negritude, informa uma substância do mundo, a estante. Ao esbarrar-se com a tradição filosófica, Peirce estava erigindo um outro paradigma filosófico.

          Em 1885, Peirce havia atingido um novo tipo de discurso, que ele mesmo denominou como faneroscopia, que pretendia erradicar a categoria aristotélica de substância. Essa nova empreitada permanece como uma etapa imprescindível para adentrarmos com mais profundidade na semiótica de Peirce. Em 1903, na sexta conferência sobre o pragmatismo, Peirce pensa numa dialética entre a abdução a dedução e a indução que escapa da lógica analítica e sintética proposta por Kant. Nesse momento, em vez de pensar que a realidade poderia ser reduzida a categorias a priori do entendimento, como Kant, Peirce diz que a realidade é reduzida pelos modos de ser então chamados de Firstness, Secondness e Thirdness. Em vez de lidar com fenômenos que aparecem à uma consciência, o que implicava necessariamente a recorrência a uma psicologia, o faneron remete para o aparente, para o que é independente de uma intencionalidade que  percebe; o que recoloca a questão nos moldes da lógica.

          Alguns comentadores apontam para um certo nominalismo de Peirce, no período de sua produção que se estende de 1851 a 1867, em que somente individuais concretos eram reais, ou seja, somente subsistia a relação diádica. De 1867 em diante aponta para uma realidade de entes independentes das crenças humanas que se estabeleceriam como generalização de díades, o que caracteriza uma tríade. É apenas em 1890, que Peirce concede às mônadas a existência de fato, como tendências de generalizações futuras. Num artigo para o American Journal of Mathematics (1885) Peirce estabelece a distinção entre token (símbolo) e índex. Enquanto o primeiro remete para uma réplica de um legi-signo, uma generalidade essencial para a razão, o índice é da ordem da díade: «O índice não afirma nada: ele só diz “Aqui! Ele salta aos nossos olhos como ele é e forcosamente direciona o olhar para um objeto particular, e ali estaciona. Os pronomes demonstrativos e relativos são aproximadamente índices puros, porque eles denotam coisas sem descrevê-las; assim são as letras de um diagrama geométrico, e o números subscritos pelos quais são distinguidos, na álgebra, um valor de outro dizendo o que aqueles valores são.»[13] Porém, somente através dos índices e dos tokens não se alcança a natureza imagética do raciocínio humano, operalizado através de imagens, ícones: «Com esses dois tipos de signos somente qualquer proposição pode ser expressa; mas não se pode raciocinar sobre, porque o raciocínio consiste na observação que onde certas relações subsistem outras são encontradas, e isso requer a exibição de relações pensadas de dentro de um ícone.»[14] Esse artigo marca uma mudança significativa na lógica de Peirce. Há a implementação de um quantificador existencial, de acordo com a interpretação peirceana da haecceity emprestada de Duns Scotus e Ockham. Esta concepção denota as qualidades discretas e particulares que tornam uma coisa particular, é um principium individuationis. O princípio da individuação não é experienciado por uma sensação perceptiva, em vez disso, é indescritível, individual, que, por conseguinte, remete à Firstness.

          O princípio de individuação, a haecceity, engendra o princípio da existência. Ao dizer “Isso é vermelho” o quantificador existencial “isso” tem a função sui generis de particularizar, em vez de universalizar, um determinado âmbito do mundo. Com isso ele funda um mundo existente onde não há funções de generalizações. Cenário este que constitui considerável distância da lógica aristotélica. É claro que Peirce continuará falando em universalizações, no quantificador universal, nas relações triádicas, porém, de agora em diante, ela representará sempre a uma generalização indutiva de casos particulares, particularizados através do quantificador existencial herdado da lógica medieval.

          Estávamos em busca de caracterizar a semiótica, porém, vê-se que a semiótica não é uma teoria proposta por Peirce para aquilo que cotidianamente chamamos de signos, em vez disso, a semiótica é a própria definição do que é o pensar. Peirce era um químico, e esse “óculos” científico plasmou definitivamente sua maneira de ver o mundo. Em vez de se atrelar a um atomismo, Peirce vislumbrou as combinações elementares que podia ser, a todo momento, recombinadas para constituir o contínuo, a espacialidade, a temporalidade, a mente. Pensar é vislumbrar as infinitas potencialidade do que é primeiro, é reconhecer os fatos gerados pelas interações no segundo, e o terceiro é o locus de contínua mediação entre a mente e o mundo, guiada pela lógica experimental.

(VI) Conclusão: Semiótica como uma nova filosofia

         A semiótica de Peirce remodela e redefine toda uma nova área para a filosofia. Em vez de se postar ante formas a priori do espaço e do tempo, como apreendeu com Kant, Peirce imagina uma continuidade da experiência contida no espaço e no tempo. Em Peirce, as três categorias que mapeiam todo o pensamento são críticas às clássicas categorias kantianas. A interação entre as três categorias, ou o processo semiótico, se revela à compreensão, em última instância, sempre como um processo triádico na qual entrelaçam-se um representante o objeto e o interpretante. A semiótica revela-se, em Peirce, como a experiência, vivida ubiquamente por todos a todo momento, de engendrar qualquer tipo de inferência.

         Esta inferência é, basicamente, um método de pensar. O que nos faz ver a relação da semiótica com a área dominante da filosofia desde a modernidade: a epistemologia. A semiótica se dá através da aplicação dos métodos de inferências, respectivamente: a abdução, a indução e a dedução. A semiótica e os métodos de inferências que lhe são constituintes não podem ser apartados das experiências concretas e, por isso, podemos dizer que a semiótica de Peirce é, fundamentalmente, experimental. Nesse sentido, como processo epistemológico, a semiótica peirceana não cessa, não procura finalizar sua operação ao alcançar um objetivo específico, uma verdade redentora. O próprio processo semiótico engendra as inferências básicas que suportam todas as concepções de mundo de um indivíduo e, por conseguinte, suas ações no mundo que sempre necessitam atualização, num processo perpétuo de busca por mais conhecimento.

BIBLIOGRAFIA

BALSEMÃO Pires, Edmundo. Revista Filosófica de Coimbra, Coimbra, 1993.

ECO, Umberto. Tratado de Semiótica General (A Theory of Semiotics), Editorial Lumen, Barcelona,  Quinta Edição, 2000.

DELEDALLE, Gérard. Charles S. Peirce´s Philosophy of Signs, Indiana University Press, Bloomington, 2000.

PEIRCE, Charles Sanders. Selected Writings, 1958, Dover Publications Inc, New York.

_______________, Semiótica e Filosofia, 1975, Câmara Brasileira do Livro, São Paulo.

_______________, Ilustrações da Lógica da Ciência, 2008, Ideias e Letras, São Paulo.

_______________, Collected Papers of Charles Sanders Peirce, Electronic Edition.

SHOOK, John R. Os pioneiros do pragmatismo americano, 2002, DP&A Editora, Rio de Janeiro.


[1] C.S. PEIRCE apud Introdução à Ilustrações da Lógica da Ciência, p. 10.

[2] PEIRCE, C. S. Ilustrações da Lógica da Ciência, p. 14.

[3] Idem Ibidem, p. 12.

[4] Idem Ibidem, p. 14.

[5] E. BALSEMÃO, Revista Filosófica de Coimbra, 1993, p. 120.

[6] SHOOK, John R. Os pioneiros do pragmatismo americano, p. 52.

[7] C.S. PEIRCE, How to make our ideas clear, Selected Writings, p. 121.

[8] Idem Ibidem, p. 124.

[9] ECO, UMBERTO. Tratado de Semiótica General, p. 33.

[10] C.S. PEIRCE, Letters to Lady Welby, Selected Writings, p. 392.

[11]SHOOK, John R. Os pioneiros do pragmatismo americano, p. 63.

[12] DELEDALLE, Gérard. Charles S. Peirce´s Philosophy of Signs, p. ix.

[13] PEIRCE, C. S. Collected Papers of Charles Sanders Peirce, 3.361.

[14] Idem Ibidem, 3.363

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