Jakob von Uexküll e Merleau-Ponty: uma aproximação

          Buscaremos realizar um recorte conceitual da obra de Jakob von Uexküll (1864-1944), biólogo da Estônia que escreveu em Alemão, principalmente de sua noção de Umwelt (em más traduções: mundo circundante, meio-ambiente), para compreendermos como esse conceito será apropriado e utilizado pelo filósofo francês Maurice Merleau-Ponty (1908-1961).

          Uexküll nos convida para uma experiência de pensamento em que adentramos o mundo perceptivo de, por exemplo, abelhas, cães, etc. O biólogo nos conduz a um repensar de como vemos a realidade do mundo, não somente de acordo com as capacidades de percepção do ser humano, mas, também e sobretudo, as dos animais. Com isso, Uexküll pretende compreender a “bolha” ambiental que cada animal cria e lida a todo momento; o mundo natural passará a ser pensado como a justaposição dessas bolhas ambientais de cada animal. Uexküll não interpreta o animal como um autômato mecânico, sem alma, totalmente responsivo a uma série de leis físicas. Em vez disso, o animal é um complexo sistema de percepções e ações sobre uma determinada área do mundo. Percepções e ações intrínsecas aos organismos, porém que continuamente se alteram. A esses dois modos fundamentais de um animal ora perceber e ora responder à percepção do mundo, que estão intimamente ligados, Uexküll chamará de Umwelt.

          Os estudos de Uexküll sobre o comportamento de vários animais foram pioneiros. Porém, em vez de se limitar aos contornos de uma etologia, o que por si só seria um trabalho de extrema complexidade, Uexküll atinge, também, o horizonte de uma ontologia. Se aceitarmos seu convite de levar a sério a experiência subjetiva de cada animal no mundo, teremos ao final uma redescrição completa da realidade.

          Analisar o comportamento de um animal é, então, a chave de acesso à sua bolha, seu Umwelt. Ao alcançarmos tal visão, podemos recolocar uma pergunta fundamental: qual o papel do corpo no processo da vida? É claro que o corpo faz parte do que Uexküll denomina Umwelt. Entretanto, permanece oculto como esse corpo interage com o meio, processo que altera a ambos. O grande valor científico da obra de Uexküll reside exatamente em suscitar questões como esta, ao invés de propriamente respondê-las.

          Merleau-Ponty foi um dos filósofos que teve a obra de Uexküll em grande relevo. Buscaremos, então, esboçar a bio-filosofia gerada a partir do entrelaçamento conceitual, empreendida com maestria por Merleau-Ponty, entre etologia e filosofia. Seguiremos a seguinte ordem de exposição: (I) Adentraremos brevemente na biologia teórica de Uexküll, com vistas de acompanhar sua rejeição da natureza como um sistema teleológico e mecânico, que o levará à compreensão da vida em conformidade com um plano, como uma grande sinfonia. Um dos fundadores do que ficou conhecido como biosemiótica, Uexküll pensa a natureza basicamente como relações significantes e possibilidades de significações.

          Em seguida,  analisaremos (II) os estudos de Merleau-Ponty em como se dão as relações entre consciência e mundo natural. Em conformidade com a grande sinfonia vital intuída por Uexküll, Merleau-Ponty, ao sublinhar que o comportamento não é, fundamentalmente, relação de causas e efeitos, considerará o animal como um todo, sempre maior que a soma de suas partes constitutivas. O animal será parte da melodia da natureza e isso é visto através da estrutura do comportamento. O comportamento e a “descoberta” de uma carne que está contida em todos os corpos e também no mundo, apontará para uma intersubjetividade de Umwelts. O organismo que se mostra através do comportamento intrinsecamente conectado com o mundo é o ponto de partida da etologia de Merleau-Ponty. Projeto este que sofrerá uma alteração de referencial aquando se aprofundarem teses com pretensões ontológicas: o mundo, ou melhor, a natureza, será o ponto de partida na qual se encontrarão corpos intimamente ligados.

          E finalmente, (III) buscaremos traçar algumas das características do conceito nuclear de carne, introduzido por Merleau-Ponty na obra O Visível e o Invisível. A carne, como veremos, apontará tanto para o foro íntimo do corpo próprio quanto para o corpo do mundo.

I – Jakob von Uexküll: Ciência da Vida

          A obra de Jakob von Uexküll, desde sua primeira publicação, em 1909, Umwelt und Innenwelt der Tiere (O meio-ambiente e o mundo interno dos animais), até sua morte, em 1944, é permeada pela observação e busca de discernimento dos mundos fenomenais, ou universos subjetivos dos animais. Através da observação precisa das relações organismo-mundo, Uexküll pôde contrariar a interpretação mecanicista da biologia de sua época, que basicamente pensava o animal como um sistema maquínico que se dava num processo de inputs/outputs.

          Uexküll recebe com desconfiança a teoria da evolução das espécies de Charles Darwin. Com várias referências à música em sua obra, Uexküll pensou numa organização harmônica do mundo, num plano (Planmässigkeit). Cada organismo seria um tom que ecoa sobre o ambiente e os outros organismos. Daí Uexküll intuir que a geração e a comunicação de signos, no mundo animal, ocorre numa base puramente instintiva.

          A tensão existente na biologia, que opunha uma visão teleológica, herdeira de Aristóteles, a uma com teor mecanicista, herdeira de Newton e Descartes, é o grande impasse teórico que chega até o então jovem estudante de biologia, Jakob von Uexküll. De fato, o debate entre uma teleologia por um lado, e o mecanicismo de outro, vai opor Karl Ernst von Baer e Charles Darwin, respectivamente. Baer estudou as formas embrionárias e viu que as diferenciações ocorriam conforme a um determinado plano. Por outro lado, Darwin, com a noção de seleção natural, se alinha entre os mecanicistas, porque a vida seria uma acidental continuidade de algumas espécies em detrimento a outras. Cenário este em que não se pode vislumbrar qualquer plano pré-configurado.

          Ao longo de sua obra, Uexküll dá cada vez mais importância ao processo de significação. Este processo, porém, faz referência a um plano que a vida parece obedecer. Leitor atento de Kant, Uexküll espalha os a priori da razão humana para todo o reino animal. Em Kant é vedado o acesso a uma realidade subjacente às percepções subjetivas, a coisa-em-si permanece incognoscível. Uexküll levará esse insight fundamental para o estudo das relações animal e meio-ambiente. O que está em causa é que só há acesso ao mundo através da percepção.

          Em seu criticismo contra as tendências mecanicistas da biologia de sua época, Uexküll cunhou o conceito de arquitetura centrífuga do organismo. Enquanto qualquer máquina necessita de uma força externa que atue internamente num tipo de arquitetura centrípeta, os organismos agem de dentro para fora, num tipo de arquitetura centrífuga. A morfologia de cada organismo é o centro de comando que auto-regula a vida, o que não impede que agentes externos interfiram no processo. «A força de dentro […] é contrabalançada pelos fatores ambientais»[1]

          Essa teoria de arquitetura centrífuga revela que Uexküll recusa-se a aceitar que os seres vivos respondem a sistemas de leis físicas e mecânicas de forma passiva. Os seres vivos são dotados de poder de engendrarem suas próprias leis e determinações, por regras autônomas. Em vez de um mundo de leis físicas naturais eternas, Uexküll faz-nos ver que o sujeito, humano e animal, é, de fato, o legislador do seu mundo. Para além das leis da física que regulam o mundo “lá fora” deve-se relevar as leis subjetivas de cada organismo que seguem um plano. E é precisamente a junção desses dois domínios que Uexküll denomina de Umwelt.

          Ao analisar o passado da ciência moderna, Uexküll constata no mínimo três paradigmas bem definidos: o primeiro o de Kepler, que intuiu uma harmonia cósmica. Em segundo lugar, Newton, que legou suas leis que tornam o universo um sistema mecânico. Em terceiro lugar, Darwin, que propôs a seleção natural que, aos olhos de Uexküll é um mecanismo aleatório, acidental, de um mundo onde não há planos. Sobre o darwinismo, Uexküll  esboça uma crítica dupla: a teoria de Darwin atribui um papel fundamental à casualidade, à aleatoriedade da vida e, em segundo lugar, se mantém extremamente materialista ao atribuir somente aos genes herdados as características da espécie futura. Ou seja, as teorias de Darwin são, ao mesmo tempo: «a liberdade caótica e o materialismo determinista»[2], o que soa como um disparate a Uexküll.

          Uexküll pensa em regras e planos que os organismos de alguma forma obedecem, porém não num sentido teleológico. Para o biólogo, a teleologia fazia sentido num horizonte teórico em que se buscava atingir a coisa-em-si por trás das contingências individuais de cada organismo. De fato, a noção de Umwelt busca dar conta, num sentido holístico, das relações entre o organismo e o mundo. Como veremos, em Merleau-Ponty há vários conceitos irmanados ao Umwelt de Uexküll: estrutura do comportamento, carne, etc.

          Um exemplo que Uexküll nos fornece para intuirmos a complexidade dos Umwelts é o de uma simples flor. Suas funções na natureza dependem do tipo de animal que interage diretamente com ela. Para um ser humano a flor pode ser um adorno. Para um inseto, fonte de água e néctar, e assim por diante. Cada organismo configura um novo mundo, uma nova bolha que delimita suas possibilidades no mundo. Essa bolha impede o olhar direto do cientista humano sobre o animal, daí a necessidade de se observar o comportamento do animal dentro da bolha.

          Sobre a comparação com a bolha de sabão: «O espaço peculiar a cada animal, em qualquer lugar que ele possa estar, pode ser comparado a uma bolha de sabão que envolve completamente a criatura numa distância maior ou menor. Essa bolha de sabão estendida, constitui o limite do que é finito para o animal, e, por isso, é o limite do seu mundo; o que há para além da bolha está escondido no infinito»[3]. O que está dentro dos limites da bolha é passível de significação sobre, o que está fora é insignificante, permanece velado.

          Um exemplo do esquema que o Umwelt configura, que encontramos em Uexküll, é o de suas observações de um carrapato (Ixodus rhitinis) que se posiciona numa vegetação e simplesmente espera pelo momento em que percebe a presença do ácido butírico, contido no suor dos mamíferos, momento em que salta em busca de se alimentar e finalmente se reproduzir. A “espera” pelo fator significante, (a presença do ácido butírico) que dispara sua ação, pode durar até 18 anos. Nesse intervalo, cego e surdo, o carrapato não considera significante quase nenhum fator ambiental que o rodeia. Vemos aqui, surpreendentemente, que a rede que interliga os Umwelts não envolve propriamente indivíduos e sim relações de significações elementares. O carrapato não percebe o mamífero por inteiro, percebe a substância química.

          Ao lado do conceito de Umwelt, também vemos em Uexküll a comparação da vida com a harmonia musical. A célula teria um tom que possibilita a comunicação intracelular através de ritmos e melodias. Assim também os órgãos que uniformizam as melodias celulares. O organismo seria uma permanente sinfonia de melodias de órgãos e ritmos celulares. O próximo estágio seria a de uma harmonia entre dois ou mais organismos, como pode-se ver, por exemplo, numa colmeia. Em último lugar, a composição musical da natureza, dotada de uma harmonia interna. Vemos, nesse ponto, a fundamentação do que havíamos chamado de plano da natureza, em Uexküll.

          Dessa teoria emerge um modelo intersubjetivo da natureza. Perguntar pelo mundo biológico é considerar as complexas relações entre os Umwelts dos animais. Ainda mais, em Uexküll, um sujeito que percebe e age no mundo necessita de um “dueto”, de outro ser vivo que o complemente. Por isso o interesse em significação ser fundamental nas obras tardias de Uexküll, o que o coloca como o principal arquiteto do que é hoje conhecido como biosemiótica.

          A biologia assume então a função de descrever como o significado é gerado através de interações entre diversos animais. Nesse ponto cabe a observação: Uexküll conheceu pessoalmente Ernst Cassirer, que pode ter exercido considerável influência sobre a questão dos signos. Os organismos são sistemas interpretantes e geradores de signos e a natureza revela a intrincada rede de relações que daí surgem. No exemplo que demos do carrapato, o mamífero aparece como um signo, que é interpretado, resultando de uma ação específica. Os tons de ambos os animais se complementam, gerando significação num dueto. Podemos vislumbrar a ontologia que se cria como pano de fundo a todas essas análises.

          Um exemplo interessantíssimo para concluir nossa aproximação a Uexküll. Num livro tardio chamado Bedeutungslehre (Teoria do Significado), Uexküll toma em consideração uma aranha que está fazendo sua teia. De alguma forma, diz Uexküll, a aranha prevê o voo de algo, e, como se voasse ela também, constrói seu aparato de caça. Captando de alguma forma a melodia do voo, a aranha antecipa-o. A aranha adaptou-se, instintivamente, a um signo presente em seu Umwelt e, por isso, é bem-sucedida na previsão do voo. A estrutura do corpo da aranha é capaz de predizer a aparição de um significante. Há algum tipo de intencionalidade em ação no animal? Sem dúvida, no mínimo ao nível do movimento do corpo. Nesse cenário, as substâncias inorgânicas também são relevadas na constituição de cada Umwelt, não somente materialmente falando, mas, também, como forças: a temperatura, barulhos, etc.

II. Merleau-Ponty e o Umwelt

          Merleau-Ponty redescreve e alarga o que classicamente era conhecido como corpo, que se torna uma estrutura sinergética onde estão entrelaçados a presença encarnada de uma subjetividade, por um lado, e o mundo que a circunda, de outro. O corpo, um sistema contínuo de equivalências organismo/mundo, revela, através de seu movimento, as relações entre uma consciência e o mundo a qual ela está imersa. Observar o comportamento dessa consciência que é corpo é a chave para iluminar o Umwelt da existência humana. Um dos insights fundamentais que permeará toda a obra de Merleau-Ponty é que o corpo vivo se expressa através do comportamento. Seus escritos contribuem para desvelar um novo âmbito do conhecimento, que podemos chamar de onto-etologia.

          Antes de pensar numa mudança radical de Merleau-Ponty entre sua primeira obra, A Estrutura do Comportamento, e a última, O Visível e o Invisível, pensemos numa evolução gradual de seu pensamento, na qual os conceitos fundamentais da “juventude” serão a base que possibilita os conceitos de “maturidade”, como os de: carne, ser bruto, nova ontologia, etc. Serão também fundamentais para o nosso objetivo aqui os seguintes textos: O Conceito de Natureza, O Conceito de Natureza: Animalidade, o Corpo Humano, e a Passagem à Cultura e O Conceito de Natureza: Natureza e Logos: O Corpo Humano, notas para os cursos oferecidos por Merleau-Ponty no Collège de France, ao longo da década de 1950.

          Em vez de se comprometer com uma das várias teorias que buscavam descrever as relações entre organismo e natureza, Merleau-Ponty escolhe uma terceira via, qual seja, partir de uma análise neutra do comportamento. A observação do comportamento poderá revelar os nexos entre organismo e natureza. O que será fundamental, já n´A Estrutura do Comportamento, é a intuição e observação que considera o corpo e o ambiente que o envolve como interdependentes e não como partes extra partes. Assimilando o vocabulário da Gestalt, Merleau-Ponty aponta para a estrutura dos corpos, que é sempre maior que a soma de suas partes. Há algo único na estrutura do corpo como um todo que não é passível de redução aos seus órgãos, ou células, etc.

          O comportamento é o locus onde se vêem o entrelaçamento entre o físico e o mental, mecanicismo e vitalismo, empirismo e idealismo. O comportamento faz menção ao corpo como uma unidade, uma totalidade dotada de movimento. Em vez de buscar uma definição única de comportamento, Merleau-Ponty fornece-nos várias: comportamento como estrutura, como forma, como significação, etc. Em suma, o comportamento mostra que o ser vivo está intrinsecamente ligado ao ambiente que o cerca. Daí os paralelismos entre a noção de comportamento de Merleau-Ponty e a de Umwelt em Uexküll serem inevitáveis.

          Uexküll é citado n´A Estrutura do Comportamento, porém, através de um estudioso holandês chamado Buytendijk que Merleau-Ponty conhecia. A primeira ocorrência explícita do nome de Uexküll aparece no segundo curso sobre a natureza de Merleau-Ponty.  A frase de Uexküll que Merleau-Ponty cita n´A Estrutura do Comportamento: «todo organismo é uma melodia que canta a si mesma»[4] é importante porque dá conta da unidade do organismo e, também, da ressonância dessa melodia através do ambiente. Numa música, cada nota participa da melodia e está conectada internamente com todas as outras notas. Cada nota que compõe uma melodia, ou cada órgão do corpo, ressoa a própria unidade desse corpo.

          O que distancia Merleau-Ponty de Uexküll é que, em vez de buscar uma descrição teórica das intrincadas relações entre organismo e mundo, Merleau-Ponty se pergunta como nós, seres humanos, percebemos essas relações através de nosso comportamento. Comportamento que tem na motricidade seu fundamento, lugar privilegiado onde se mostram intrínsecos corpo e mundo. As estruturas que identificamos no comportamento: formas, melodias, etc, são, no limite, constructos humanos. Em vez de estarem ontologicamente no mundo, nossas percepções fundam esses conceitos.

          O conceito de estrutura, que aparece na primeira obra de Merleau-Ponty, terá ressonância em sua obra de maturidade. Num primeiro momento, como mencionamos, o foco da análise se centra na consciência do percipiente. Na obra de maturidade, veremos um deslocamento no sentido da natureza, em busca de uma ontologia lato sensu.  N´O Visível e Invisível lemos: «Resultados da Fenomenologia da Percepção: Necessidade de trazê-los à explicitação ontológica»[5] e ainda: «Necessidade de um retorno à ontologia. O questionamento ontológico e suas ramificações: a questão do sujeito-objeto, a questão da intersubjetividade, a questão da Natureza»[6]

          O Visível e o Invisível será a busca de uma nova ontologia. O conceito de carne, que engloba o material e o imaterial, corpo e mente, permite um aprofundamento nas relações entre organismo e meio. Tratar o organismo totalmente em conjunto com as coisas do mundo, é isso o que estará em causa em O Visível e o Invisível e já era prefigurado nas obras anteriores. Merleau-Ponty não pretende, nessa tarefa, assumir o mundo como um único ser vivo, onde os organismos individuais não teriam papéis relevantes. Em vez disso, Merleau-Ponty aponta para os quiasmas que permitem a diferenciação entre cada ser vivo, o visível que pontua o invisível e vice-versa.

          No segundo curso sobre O Conceito de Natureza, Animalidade, O Corpo Humanoe a Passagem à Cultura, de 1957-1958, Merleau-Ponty se aproxima mais da biologia de sua época e nomeadamente de Uexküll. Merleau-Ponty fará novamente uso da categoria comportamento, porém já com certa distância das teorias com enfoque behavioristas que influenciaram A Estrutura do Comportamento. Notamos, nesse ponto, a influência decisiva de Uexküll. Merleau-Ponty dirá que Uexküll antecipa sua noção de comportamento precisamente através do conceito de Umwelt. O Umwelt é delineado através do movimento do organismo, o movimento é o lugar da imbricação entre organismo e mundo.

          Porém, como se produz um Umwelt? Parece haver uma reciprocidade de tal produção: o organismo produz o meio e este produz o organismo. Merleau-Ponty recorre à noção de melodia para explicar a criação do Umwelt como que de forma quase involuntária, novamente: «todo organismo é uma melodia que canta a si mesma»[7]. Esse Umwelt melódico ressoará no conceito de carne que aparece em O Visível e o Invisível.

          Aprofundando suas análises da percepção para as condições de possibilidade da própria percepção, vemos surgir a última obra de Merleau-Ponty. Em vez de se situar no âmbito da consciência que percebe, Merleau-Ponty partirá, aqui, da Natureza, para demonstrar a unidade entre percipiente e percebido. Há uma introdução de uma miríade de novos conceitos tanto para indicar divergência: quiasma, invisibilidade, e um vocabulário para indicar unidade: carne, sensível, adesão, camadas, etc. Esse novo vocabulário busca dar conta, mais uma vez, da reciprocidade do animal e do ambiente que o cerca, animal que ora produz o meio, ora é produzido por este.

          Em vez de partir do corpo e buscar a compreensão de como este percebe o mundo, o Merleau-Ponty d´O Visível e o Invisível, se pergunta pela constituição do mundo que contém vários corpos. O ser como corpo permite o acesso ao mundo, através da carne que corpo e mundo compartilham. O ser vivo se vê como “um” com seu Umwelt. Ao mesmo tempo que vê o mundo, percebe a si mesmo imerso nesse mundo através de seu corpo.

          Finalmente, o conceito de Umwelt de Uexküll fornece a Merleau-Ponty uma noção nova para superar a dicotomia sujeito e objeto. Simplesmente porque o Umwelt é: «Umwelt (isto é, o mundo + meu corpo)»[8]. As teorias do biólogo se mostraram úteis para a filosofia de Merleau-Ponty, que parte de uma fenomenologia irmanada da etologia para alcançar uma ontologia no sentido rigoroso.

III. A noção de carne em Merleau-Ponty

          O reconhecimento que o próprio ato de perceber e o que é percebido estarem, de alguma forma, entrelaçados, é uma tese que acompanha o desenvolvimento da obra de Merleau-Ponty. Nas obras de juventude toda percepção podia se reduzir a uma atividade motora, a um movimento. Não somente. Merleau-Ponty já havia vislumbrado que toda percepção é um auto-movimento. Analisemos, então, brevemente, algumas das características conceituais do conceito de carne, sem pretensões de esgotar a via aberta por Merleau-Ponty.

          O conceito de carne foi introduzido por Merleau-Ponty na obra O Visível e o Invisível. Dado o caráter incompleto da obra, a noção é disputada entre os comentadores. De fato, o conceito foi e é usado por fenomenólogos, pelos chamados pós-estruturalistas, pelas feministas e por ecólogos, de forma a buscar um termo que denote a conjunção da subjetividade e o mundo, da mesma forma que mantém a alteridade entre as duas instâncias. Outros comentadores apontam para a limitação do conceito de carne, por fazer referência ao Cristianismo e ao mistério da encarnação.

            A carne é «o ponto de relação entre uma consciência encarnada e o mundo, e Merleau-Ponty a caracteriza como um quiasma dotada de reversibilidade, ou seja, sempre uma coincidência entre o que é visto e o visível, o que toca e é tocado, um sujeito e os outros sujeitos»[9]. A carne, nesse sentido, aponta para uma certa circularidade, porém, Merleau-Ponty a divide entre carne do mundo e carne do corpo. A carne do mundo pode ser acessada pela carne do corpo e vice-versa. Daí o corpo próprio estar sempre em contato absoluto com o corpo do mundo, porque ambos compartilham da mesma carne. Aqui pode-se relacionar esse tipo de imanência entre subjetividade/mundo de Merleau-Ponty, com o próprio sistema de Espinosa.

            Entretanto, Merleau-Ponty não queria denotar uma plena união da carne individual e da carne do mundo, onde não mais coubesse qualquer determinação para a subjetividade. No limite, a carne do corpo, que é uma individualidade, é Narcísica. Além disso, na noção de carne, há um invisível que nubla o olhar, uma transcendência na própria imanência. Essa invisibilidade é como um outro dentro do si mesmo, no qual esse si mesmo não poderá nunca acessar, ou ver. O outro é ausente, porém, essa ausência é sentida no próprio corpo. A alteridade invisível marca a presença imemorial de algo que me escapa: há um invisível que pontua o meu campo de visibilidade. Aqui Merleau-Ponty, mais uma vez, se mantém fiel ao seu mestre Husserl, que intuía em Ideias II e na Quinta Meditação Cartesiana uma intersubjetividade fundamental.

            O corpo próprio não pode ver a si mesmo vendo, isso interrompe de alguma forma seu olhar, dá mostras a uma invisibilidade fundamental. «A invisibilidade da carne é como a alma do outro a qual eu não posso nunca ver, a qual eu não posso nunca agarrar, e, mais importante, que eu não posso nunca conhecer.»[10] O conceito de carne, então, com seu lado Narcísico, salvaguarda a autenticidade da subjetividade contida no corpo próprio, ao mesmo tempo, que aponta para o totalmente outro, a alteridade do corpo do mundo.

            A noção de quiasma, advinda da retórica, é usada por Merleau-Ponty exatamente para denotar não somente a unidade, nem somente a divisibilidade ou a alteridade, porém, antes, é utilizada para pensar algo que é unido na divergência. «O conceito de quiasma recolhe a verdade fenomenológica da distinção entre o sentido de ser da interioridade e o sentido de ser da exterioridade, totalmente contra em considerá-los como separados ou separáveis»[11]. A carne tem uma estrutura “quiasmática” a qual transita entre o foro íntimo do corpo próprio e a ”alteridade” que nunca é totalmente separada, do corpo do mundo.

            Parece claro, pelo que expomos até aqui, que a carne do mundo não é idêntica à carne do corpo. «A carne do mundo é sensível mas não é senciente.»[12] E vai ser através da carne do mundo que será possível compreender a carne do corpo próprio. Observamos a revolução copernicana empreendida por Merleau-Ponty, nesse ponto, em relação à suas obras anteriores. Em vez de partir da carne do corpo próprio, da consciência encarnada, Merleau-Ponty partirá, n´O Visível e Invisível, da carne do mundo.

            Ademais, o conceito de carne deveria inaugurar, pensava Merleau-Ponty, um meio entre os objetos e os sujeitos. Esse conceito, totalmente novo na história da filosofia, deveria preencher uma lacuna bem determinada. Daí o caráter de “coisa geral”, de “elemento”, que alguns comentadores atribuem à carne. O corpo próprio tem o seu reverso no corpo do mundo e vice-versa, e é exatamente essa complexa relação que o conceito de carne busca apreender. Em vez de ser apenas um senciente em geral, o corpo próprio adquire, porque é atravessado pelo corpo do mundo, o caráter de Sensível em geral.

            Merleau-Ponty vislumbrou que: enquanto os outros são “carne da minha carne” as coisas se tornam extensões do meu corpo. Uma tese com uma abrangência considerável e com ressonâncias místicas evidentes. Merleau-Ponty pensa numa reciprocidade entre o mundo interior de cada corpo e o corpo do mundo.

            Exploremos a hipótese da reciprocidade entre corpo próprio e corpo do mundo, que é, de fato, o cerne da discussão em torno do conceito de carne. Para que remete essa reciprocidade? Ao mesmo tempo, para os que estão intrinsecamente unidos, porém que, de fato, não aparecem juntos. Quando estamos na instância do corpo próprio o corpo do mundo é subsumido e, inversamente, quando estamos olhando para o corpo do mundo não há vestígios do corpo próprio. Porém tacitamente sabemos que ambos são intrínsecos. Por isso os comentadores dizerem que a filosofia de Merleau-Ponty, nesse ponto, aponta para uma certa negativa, ou seja, quando se ilumina um determinado âmbito promove-se, temporariamente, a obliteração de outro.

BIBLIOGRAFIA

MERLEAU-PONTY, Maurice. Le visible et l’invisible. Paris: Gallimard, 1963.

_______________________, La Structure du Comportement. Paris: Presses Universitaires de France,1943.

_______________________, La Nature: Notes Cours du Collège de France, ét. Dominique Séglard.

Paris: Seuil, 1995.

BUCHANAN, Brett. Onto-Ethologies – The Animal Environments of Uexküll, Heidegger, Merleau-Ponty and Deleuze, Suny Press, 2008.

UEXKÜLL, J. von. Streifzüge durch die Umwelten von Tieren und Menschen. Geibungsyoin Verlag, 1934.

_____________ Bedeutungslehre. Leibzig: Verlag von J. A. Barth, 1940. (“The theory

of meaning,” Semiotica 42, 1 (1982))

EVANS, Fred and LAWLOR Leonard. Editors – Chiasms, Merleau-Ponty’s Notion of Flesh, 2000, State University of New York Press, New York.

DUPOND, Pascal. Le vocabulaire de Merleau-Ponty, 2001, Ellipses Édition Marketing, Paris.

 


[1] Onto-Ethologies, The Animal Environments of Uexküll, Heidegger, Merleau-Ponty and Deleuze, p.14.

[2] Idem Ibidem, p. 19.

[3] Streifzüge durch die Umwelten von Tieren und Menschen, p. 5.

[4] La Structure du Comportement, p. 172.

[5] Le Visible et l’Invisible, p. 237.

[6] Idem Ibidem, p. 219.

[7] La Structure du Comportement, p. 172.

[8] La Nature: Notes Cours du Collège de France, p. 278.

[9] Chiasms: Merleu-Ponty’s Notion of Flesh, p. 42.

[10] Chiasms: Merleu-Ponty’s Notion of Flesh, p. 11.

[11] Le vocabulaire de Merleau-Ponty, p. 7.

[12] Visible et Invisible p. 304 apud Chiasms: Merleu-Ponty’s Notion of Flesh, p. 34.

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