Retórica em Platão

          Do plano geral da exposição: Inicio com algumas considerações gerais em torno do estabelecimento da retórica. Considero o paralelismo existente entre o estabelecimento da democracia e o advento da retórica. A seguir passo ao próprio pensamento de Platão, no que concerne à retórica, fazendo um recorte desse tema nos diálogos Górgias e Fedro. Concluo que a retórica, tal como foi pensada por Platão, independente da sua suposta ambiguidade, está umbilicalmente ligada ao horizonte da práxis, da ação virtuosa.

          Passo ao primeiro ponto: considerações gerais em torno do estabelecimento da retórica.

          A prática da retórica remonta ao círculo de Sócrates, nascido por volta de 470 a.C. A palavra (rhetorike) retórica é tida como um neologismo de Platão, pois aparece pela primeira vez na obra Górgias, por volta do ano de 385 a.C. No contexto grego era usada especificamente para denotar a arte do falar público em assembleias deliberativas e outros eventos formais nas pólis, principalmente Atenas. Em outras palavras, exercia-se a retórica com a finalidade de influenciar as ações das outras pessoas para aquilo que parecia o melhor para elas mesmas e suas famílias, seus grupos sociais e políticos. No âmbito da invenção da retórica, buscava-se descrever os mecanismos de um discurso efetivo e o como ensiná-los.

          Todavia, mesmo em tempos anteriores ao efetivo estabelecimento da retórica, no século quinto a.C, é inegável o poder quase mágico atribuído à palavra na Grécia, desde os tempos de Homero. Neste a palavra já era vista como um fármacon, remédio que podia salvar ou matar, devido ao seu poder quase absoluto.

          De fato, vê-se que o advento da retórica se confunde com o próprio nascimento da democracia, pois como vimos na última aula, é condição necessária para a argumentação o confronto, a diferença de pontos de vista que eram impossíveis de alcançarem voz na chamada Idade das Trevas grega. As reformas de Clístenes, que implantam a democracia no mundo Grego, datam de 510-507 a.C. A democracia instaura o conflito entre os homens, o que dá início à história grega propriamente dita, na visão marxista de Jean-Pierre Vernant, pois possibilita a luta de classes, que por conseguinte, torna necessário o discurso.

          A fundação da retórica, especificamente como âmbito de estudo do falar público, é atribuida aos sofistas que, ao pretenderem discursar bem sobre os mais diversos temas instauram, na Grécia, um cenário relativista e, no limite, cético em relação à verdade ou falsidade do conteúdo transmitido.

          Nesse ponto reside, a nosso ver, o quase desespero platônico em fundar a filosofia como uma tecné, uma arte, acima de todas as outras. A filosofia, aos olhos de Platão, sabemos, permite o acesso à realidade essencial das coisas. Seu estudo garantiria a verdade, a epistéme, ao contrário da dóxa, das meras opiniões que reinavam na prática política ateniense.

          Claro que o pensamento platônico é extremamente sensível à historicidade da Grécia que buscou analisar. Platão escreve o Górgias, sua crítica radical à retórica que se amenizará, de alguma forma, no Fedro, em pleno século de Péricles, como que prevendo o caos político que a democracia poderia e realmente iria engendrar.

          Podemos rastrear várias vertentes da crítica à democracia em Platão. Isso é importante, pois essa crítica é irmanada com a recusa da retórica no Górgias. Na República, Platão defende a tese que o especialista em determinada profissão é o que deve exercê-la e não outro. Nesse sentido, a democracia, o poder nas mãos do povo, surge aos olhos platônicos como um disparate. O povo não foi formado para a arte do governo. A imagem fornecida en passant na República é patente: não é possível navegar em alto mar consultando os passeiros e ignorando os conhecimentos de quem adquiriu a técnica da navegação. É de conhecimento de todos que na República, Platão dota somente à filosofia a possibilidade de formar bons governantes.

          Apesar das críticas platônicas à democracia, talvez caiba aqui uma questão para nós, separados por mais de dois milênios da Grécia de Platão, num momento que o conceito de democracia assume por mais das vezes o papel de verdadeira panaceia: Há algo intrinsicamente bom na democracia? Para respondê-la, teríamos que mensurar a capacidade da democracia em atingir o bem comum. Algo que não nos atreveremos a fazer aqui.

          Mas voltemos à retórica. Parece-nos que há em Platão interpretações díspares sobre o benefício ou prejuízo da retórica. Focaremo-nos, então, em dois diálogos platônicos onde o tema aparece, buscando detectar as possíveis oscilações interpretativas. Essa ambiguidade se tornou clássica na historiografia, sendo ressaltada por vários críticos, inclusive Manuel Alexandre Júnior, na ótima introdução à obra Retórica de Aristóteles, este que, aliás, seria um continuador da “boa” retórica do Fedro platônico.

          A primeira obra selecionada é o Górgias, que passo a tratar agora.

I. Górgias

          O diálogo Górgias apresenta-se como a crítica radical à retórica e aos sofistas que a exercem. Nesse sentido a retórica é, mesmo, uma atividade inútil ou até mesmo danosa ao corpus político. A questão sempre terá como pano de fundo a dualidade entre, de um lado a dóxa, a mera opinião e de outro a epistéme, a ciência, a verdade. Platão se pergunta pelas “finalidades e os princípios que devem fundamentar o discurso e o agir do homem”. Enfim, o fundamental é pensar como é possível formar um cidadão pleno, que articule suas ansias sempre dando mais voz à razão do que à emoção.

          Há três grandes momentos do texto facilmente reconhecíveis: no primeiro Sócrates interroga o grande sofista Górgias sobre a retórica, no segundo, Polo toma o lugar de interlocutor de Sócrates e no terceiro Sócrates entra num debate com o jovem Cálicles sobre a justiça. Ao longo do livro parece que o discurso apresenta um aumento sucessivo de tensão, iniciando formal e cortês com Górgias, se tornando mais ríspido com Polo e chegando a altas objeções morais da parte de Sócrates para com Cálicles.

          Diferentemente de um diálogo como o Protágoras, onde a questão da retórica também aparece, o Górgias é não-aporético, poderíamos dizer dogmático. Sócrates está rígido em suas posições, mesmo que não tenha sucesso na total persuasão de seus interlocutores.

          No início do texto, Górgias é enaltecido por praticar a mais bela de todas as artes, que poderia elaborar respostas a qualquer tipo de questão. Sócrates replica inquirindo sobre a natureza da retórica. Górgias explica que a retórica tem por objetivo a persuasão, principalmente nos tribunais, e a retórica visa à justiça.

          Sócrates então distingui entre o filósofo, que se orienta na busca da verdade, dos retóricos e sofistas que, manipulando à revelia os desejos do povo, vendem opiniões que necessariamente conduz à corrupção e ao caos. No Górgias a retórica aparece como uma empiria, destinada a “produzir um certo agrado e prazer”, (463c) por isso uma prática distinta da arte ou da técnica, que não pode conduzir a nenhum tipo de conhecimento, pois é uma atividade que parte de ignorantes para outros ignorantes.

          A conclusão platônica parece de decorrência lógica: se a opinião é falsa, o discurso que manipula opiniões alheias também o é. Porém, como sabemos, a distinção entre o aparente e o verdadeiro repousa não no plano discursivo em Platão, mas em sua própria ontologia. Ou seja, perguntar por o que é o bem ou a justiça, na filosofia platônica, não é a procura pelos conceitos de bem e justiça e sim pela essência da realidade concernente a essas ideias. Tem-se em vista o mundo das formas imutáveis, passível de acesso somente ao filósofo, em detrimento ao mundo aparente das opiniões. Esse paralelismo também se vê na distinção montada por Sócrates ao longo do diálogo entre prazer e o bem.

          Sócrates explica que a retórica, tal como é praticada em seu tempo, tem como objetivo a adulação, por isso está fundada no prazer. Contra-argumenta a opinião corrente que o retórico teria grande poder na pólis, contrapondo a vontade egoísta da deliberação pelo melhor.

          O filósofo, em contrapartida do retórico e do sofista, procede fazendo uso da razão. Esta é o motor da filosofia, por assim dizer. Desejando implantar esta díade, filosofia e razão, na práxis política, Platão está mesmo atestando a sua paternidade, ou seja, criando a filosofia e a razão ocidental.

          O que se pode acompanhar privilegiadamente nos diálogos platônicos é a gradual mudança da paidéia, da cultura heróica grega para a filosófica. A pólis exige outro tipo de homem que considera os mitos como alegorias, que faz uso da retórica para a boa expressão, que apresenta um domínio racional do mundo. Tudo isso passa a ser necessário ao cidadão pleno. (Jean Pierre Vernant)

          O segundo diálogo platônico que passo agora a me ocupar é o Fedro.

II. Fedro

          O Fedro é um diálogo platônico que se inicia com a questão do amor. É lido pelo personagem de Fedro um discurso de Lísias, tido por grande orador, que argumenta que a paixão é como um apetite que nasce da carência e acaba por ofuscar a luz da prudência e da razão. Sócrates, ao longo da leitura do discurso, “limita-se a prestar atenção às qualidades retóricas do discurso de Lísias”.

          Seguem-se dois discursos da personagem de Sócrates: o primeiro corrobora os argumentos de Lísias, que o amor esboça uma necessidade e que no amor sempre se procura obter propriedade da pessoa amada e num segundo discurso assume o diametralmente oposto, ou seja, a loucura do amor torna-se do âmbito do divino, das Musas, por isso superando a sabedoria e a razão humanas. Apresenta-se também o que a historiografia chamou de mito cocheiro, na qual Platão imagina a alma dotada de um condutor e dois cavalos, um que seria de boa estirpe e outro de má. O que está como plano de fundo também aqui, é a oposição entre opinião e ciência.

          Por fim, o diálogo volta-se para a questão da retórica. O horizonte de crítica ao retor é aqui mais ameno do que o apresentado no Górgias. Poderíamos mesmo afirmar que aqui é apresentada a boa retórica aos olhos platônicos. Pois bem, a questão fundamental que se põe é: O que é recitar e escrever bem ou mal? Fedro afirma que ouviu dizer que ao bom orador não é necessário o conhecimento verdadeiro do que é justiça e ou do que é belo, bastando tomar aquilo que parece justo ou belo para a maioria das pessoas. Mais uma vez Platão parece deixar implicita a conclusão de que a ignorância do povo permite a demagogia e a falsa retórica.

          Ademais Sócrates contrapõe a verdade do discurso com a beleza deste, algo que chamaríamos hoje de estilística. A verdade é acessada através da filosofia e da clareza das ideias, um apelo claro ao discurso apoiado na razão em contraposição a um discurso confuso ou que recorre aos sentimentos. A conclusão neste ponto é a mesma do Górgias: a arte retórica deve ser fundada na verdade, senão será apenas mera opinião.

          Aprofundando-se no reino do texto escrito, Sócrates apresenta uma tese que apela pela organicidade do texto, que tal como um corpo, deve manter a sua própria homeostase, sua harmonia interna. Bons textos defendem a si mesmos e são organicamente harmoniosos.

          Pois se percebe aqui como a interpretação da atividade retórica se altera na obra platônica através dos talvez 10 anos que separam a redação do Górgias da do Fedro. Sócrates mostra-nos duas técnicas de proceder do discurso, que depois serão nomeadas de dialética. Podemos anacronicamente distingui-los, para melhor entendimento, de método sintético e analítico. No primeiro faz-se um apanhado das questões envolvidas buscando um olhar do todo, um resumo que mostra o escopo da questão. O segundo, que chamamos de analítico, divide a idéia geral em suas partes constitutivas, analisando suas articulações. Essas técnicas não poderiam ser apresentadas no Górgias, no qual a retórica é de todo considerada inútil ou até ruim.

          Platão ainda fornece-nos uma enumeração das partes que necessariamente deve estar contidas num discurso, que são: preâmbulo, exposição, testemunho, provas, probabilidades, suplemento de prova, recapitulação ou peroração, alusão, elogio indireto, censura indireta. É interessante notarmos a aplicação destas ao longo dos diálogos platônicos. Os dois discursos socráticos destinados ao amor do Fedro são magníficos exemplos.

          Além disso, para se praticar a boa retórica, afirma Sócrates através da mão de Platão, deve-se investigar atentamente a natureza da alma e seguir à razão. Praticar o discurso, então, é submeter a própria alma ao escrutínio da razão. Nada mais de acordo com o oracular conhece-te a ti mesmo.

          É fato que existem muitas espécies de almas, da mesma forma, deverão ser muitos os discursos. O bom orador discrimina a cada tipologia humana um discurso que, aliado a uma perfeita estilística, alcança alto poder persuasivo.

          Podemos resumir a boa retórica, a retórica filosoficamente válida do Fedro em alguns pontos: um orador deve conhecer bem o objeto discutido, deve ter um bom entendimento de provas lógicas e deve compreender a psicologia humana para tornar adaptável cada tipo de argumento a cada audiência. Esse resumo é-nos apresentado no 277 b do Fedro.

          À guisa de conclusão, podemos notar que sub-reptício à teoria platônica sobre a retórica está o fato desta nunca se descolar da ação no mundo. Se o retor persuade bem, por conseguinte a ação virtuosa se dá. A partir de Platão esta questão perpassa a história da filosofia até nossos dias. É por esta via que Aristóteles continuará Platão, ao pensar a teoria totalmente vinculada às realidades práticas da ação humana. Dois mil anos depois, por exemplo, não é muito longe daí que reside a pretensão de Paul Ricouer e outros de fundamentar uma verdadeira gramática da ação.

BIBLIOGRAFIA

ARISTÓTELES, Retórica, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 2010.

PLATÃO, Górgias, Introdução e análise de Marcello Fernandes e Nazaré Barros, Lisboa Editora, 2002.

_______, Fedro, Guimarães Editores, Sexta Edição, Lisboa, 2000.

VERNANT, Jean-Pierre, As Origens do Pensamento Grego, Oitava Edição, Rio de Janeiro, 2002. (versão online)

KENNEDY, A. George, A New History of Classical Rhetoric, Princeton University Press, New Jersey, 1994. (versão online)

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