Mês passado lancei uma tradução do Inglês de Uma Música para o Rei de Saraha. Como nossa mente tem a tendência de concluir qualquer atividade iniciada, nos próximos dias lançarei as traduções da mais conhecida obra de Saraha, a Canção do Povo, juntamente com a sua Canção da Rainha. Se você tem interesse em Budismo, Yoga e Meditação, acompanhe-me nessa empreitada.
Realizo essas traduções em primeiro lugar para conseguir estudá-las e, quem sabe, praticá-las. Ademais, esforço-me para que sejam corretas para um leitor comum, abrindo uma via na assimilação de uma obra tão singular e bela. No post de hoje, gostaria de fazer uma pequena introdução a Saraha e suas canções espontâneas de iluminação, as dohas. Para uma visão geral do corpus da obra de Saraha, recomendamos fortemente o livro: Saraha, Poet of Blissful Awareness de Roger R. Jackson.
Saraha: O Grande Mahasiddha e as Canções do Mahamudra
Saraha, cujo nome significa “aquele que atirou uma flecha” ou “aquele que está no ponto culminante da flecha”, é uma das figuras mais reverenciadas e enigmáticas na história do budismo tântrico indiano. Considerado um dos oitenta e quatro Mahasiddhas, mestres ascetas que alcançaram a perfeição espiritual através de práticas tântricas, Saraha é amplamente reconhecido como um dos fundadores da tradição Mahamudra, que é especialmente influente no Tibete. Sua vida e ensinamentos estão envoltos em lendas, mas a essência de sua mensagem transcende o tempo: a busca pela verdade última reside na experiência direta da natureza da mente, não em rituais externos ou intelectualismo árido.
Dados Biográficos e o Encontro com a Dakini Flecheira
A vida de Saraha, como a de muitos Mahasiddhas, é uma mistura de história e hagiografia, transmitida oralmente e através de textos como o Chaurasi Siddha Pravritti de Abhayadatta Sri. Acredita-se que Saraha nasceu em Roli, na região de Odisha (ou Vidarbha, dependendo da fonte), Índia, em uma família brâmane, durante o século VIII ou IX. Ele foi educado nas escrituras védicas e no budismo, mostrando grande intelecto e erudição desde cedo. Tornou-se um monge budista no famoso monastério de Nalanda, onde se destacou por seu conhecimento em filosofia e lógica.
O ponto de virada em sua vida, e talvez o evento mais significativo em sua biografia, foi seu encontro com uma dakini flecheira. Enquanto meditava ou estudava, Saraha observou uma jovem mulher de casta inferior (uma “sudra”) que fabricava flechas. A lenda conta que ele a viu realizando seu trabalho com uma concentração e uma mente tão absorvidas que ele se sentiu profundamente impactado. Ela não estava apenas fabricando flechas, mas estava completamente imersa no processo, com uma mente livre de distrações e julgamentos. Essa observação foi um insight para Saraha: a sabedoria e a iluminação não estavam confinadas aos textos sagrados ou aos monastérios, mas podiam ser encontradas na vida cotidiana, na prática dedicada e na mente focada de qualquer pessoa, independentemente de sua casta ou status social.
Impressionado com sua presença e sabedoria inata, Saraha abandonou seus hábitos monásticos e a tomou como sua consorte e guru. Ela, uma dakini em forma humana, ensinou-lhe a verdadeira natureza da realidade através da simplicidade da vida diária e da prática direta. Esse encontro simboliza a quebra com as convenções sociais e religiosas, a superação do dualismo e a realização de que a verdade última está além dos conceitos e formalidades. Ele se tornou um iogue errante, vivendo de forma não convencional e expressando seus ensinamentos através de canções espontâneas, conhecidas como Dohas.
Mahamudra: A Grande Marca ou Grande Selo
O Mahamudra (literalmente “Grande Selo” ou “Grande Marca”) é a culminação de todos os ensinamentos e práticas budistas, representando a natureza última da realidade. É um sistema de meditação e realização que visa levar o praticante à compreensão direta e experiencial da mente e dos fenômenos. Não é uma filosofia ou uma doutrina a ser intelectualmente compreendida, mas sim uma experiência direta da vacuidade, da luminosidade e da inseparabilidade do samsara (existência cíclica) e do nirvana (liberação).
Os princípios do Mahamudra incluem:
- Olhar para a Natureza da Mente: O cerne da prática Mahamudra é a introspecção e a observação da própria mente. Ao invés de buscar a iluminação fora, o praticante é instruído a olhar para dentro, para a fonte dos pensamentos e emoções, e reconhecer sua natureza intrínseca.
- Vacuidade (Shunyata): A compreensão de que todos os fenômenos, incluindo a própria mente, são desprovidos de existência inerente, independente e permanente. Eles surgem em dependência de causas e condições e são, em sua essência, vazios de substância.
- Luminosidade (Prakriti-prabhasvara): Apesar de serem vazios de existência inerente, os fenômenos e a mente não são um nada absoluto. A mente é inerentemente clara, luminosa e consciente, com a capacidade de conhecer e experimentar.
- Inseparabilidade de Samsara e Nirvana: No Mahamudra, samsara e nirvana não são duas entidades separadas. A iluminação é alcançada ao se reconhecer a natureza pura da mente, mesmo enquanto ela está envolvida na experiência do samsara. As aflições emocionais, quando reconhecidas em sua natureza vazia, transformam-se em sabedoria.
- Não-Dualidade: A superação das distinções conceituais entre sujeito e objeto, existência e não-existência, puro e impuro. A mente iluminada percebe a unidade subjacente a todas as coisas.
A Importância do Mahamudra para o Tibete
O Mahamudra desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento do budismo tibetano, particularmente dentro da escola Kagyu, onde é o principal sistema de prática meditativa. Marpa Lotsawa, um dos grandes tradutores do Tibete, viajou para a Índia e recebeu os ensinamentos do Mahamudra diretamente de seu guru, Naropa, que por sua vez os recebeu através de linhagens que remontam a Saraha. Através de Marpa e seu discípulo Milarepa, o Mahamudra floresceu no Tibete e tornou-se a prática central para a realização da budidade.
Sua importância para o Tibete reside em vários aspectos:
- Caminho Direto para a Iluminação: O Mahamudra oferece um caminho direto e profundo para a iluminação, focado na experiência direta da natureza da mente, em contraste com abordagens mais graduais ou baseadas no estudo intelectual.
- Ênfase na Meditação: O Mahamudra enfatiza a importância crucial da meditação e da prática experiencial ao invés do mero estudo intelectual. Isso ressoou profundamente com a mentalidade tibetana e moldou suas tradições de retiro e prática intensiva.
- Base para Outras Práticas: Embora seja um caminho completo por si só, o Mahamudra também serve como a base ou a culminação de outras práticas tântricas avançadas, integrando-as em uma visão unificada.
- Legado de Mestres Iluminados: A linhagem Mahamudra produziu uma sucessão ininterrupta de grandes mestres e iogues realizados no Tibete, como Gampopa, o 1º Karmapa, e muitos outros, que demonstraram a eficácia desses ensinamentos através de suas vidas e realizações.
- Relevância Contínua: Até hoje, o Mahamudra continua sendo uma das práticas mais importantes e influentes no budismo tibetano, ensinada e praticada por milhares de pessoas em todo o mundo.
As Canções Doha de Saraha: Expressões Espontâneas da Realidade Última
As “Canções Doha” (Dohakosa) de Saraha são poemas espontâneos que expressam sua realização da natureza do Mahamudra. Elas não são tratados filosóficos formais, mas sim canções que brotam de sua experiência direta e buscam guiar outros à mesma compreensão. Caracterizadas por sua simplicidade, profundidade e natureza paradoxal, as Dohas criticam a superficialidade dos rituais religiosos, o intelectualismo vazio e as noções conceituais, apontando para a sabedoria inata que reside dentro de cada um.
1. A Canção do Povo (ou Canção para o Povo, Dohākoṣa)
Contexto: Endereçada ao povo comum — iogues, buscadores e praticantes. É a mais conhecida das três.
Conceitos principais:
- Não-dualidade: Saraha insiste que a realidade última está além das distinções dualistas como puro/impuro, bom/mau, sagrado/profano. A mente natural é não-dual.
- Espontaneidade e natureza da mente: Ele fala da mente como naturalmente pura, luminosa e autorreflexiva. A realização surge não por esforço forçado, mas pelo reconhecimento direto da mente tal como ela é.
- Crítica ao ritualismo e dogmatismo: Há uma crítica sutil (ou às vezes direta) aos rituais mecânicos e ao estudo livresco que negligenciam a experiência direta. O verdadeiro despertar não está nos textos ou nas formas externas.
- Uso de metáforas cotidianas: Saraha usa imagens simples (flechas, ferreiros, mulheres do campo) para ilustrar verdades profundas, tornando o ensinamento acessível ao público comum.
Exemplo famoso:
“A verdade última não está nos sutras, nem nos livros,
Como poderia a letra morta conter o não-nascido?”
2. A Canção da Rainha
Contexto: Dirigida à sua consorte (frequentemente identificada com uma mulher de casta baixa, como uma fabricante de flechas), esta canção é um diálogo íntimo e simbólico. É mais esotérica e orientada ao Tantra.
Conceitos principais:
- Sabedoria feminina (Prajña): A Rainha representa a sabedoria, o aspecto feminino da realização. O diálogo com ela é simbólico do casamento entre método (upaya) e sabedoria (prajña).
- Unidade entre samsara e nirvana: A canção mostra que a realização está no mundo, na experiência comum, quando vista com sabedoria — não há necessidade de renúncia externa, apenas reconhecimento interno.
- Transcendência dos extremos: Saraha denuncia os extremos de ascetismo ou indulgência. O caminho do meio é o da experiência direta e da lucidez relaxada.
- Integração da vida comum ao caminho espiritual: O simbolismo do relacionamento com a Rainha aponta para a espiritualidade encarnada, não separada da vida cotidiana.
Exemplo simbólico:
“Ela não leu sutras, nem praticou austeridades,
Mas conhece a flecha que perfura a ilusão.”
3. A Canção do Rei
Contexto: Composta para o rei (possivelmente de Bengala ou de outro reino regional), é mais filosófica e direta, trazendo conselhos sobre governo e sobre o sentido último da vida.
Conceitos principais:
- Impermanência e futilidade do poder: Saraha lembra ao rei que o poder mundano é transitório. A verdadeira soberania é a liberdade interior.
- Renúncia interna, não externa: O rei não precisa abandonar o trono, mas deve abandonar o apego e perceber a vacuidade da existência condicionada.
- Realeza espiritual: O verdadeiro rei é aquele que governa a si mesmo, com sabedoria e compaixão, reconhecendo a mente como luminosa e livre por natureza.
- Prática no mundo: O ensinamento aqui é para aqueles que vivem no mundo — mostrando que a iluminação não está fora da sociedade, mas na transformação da visão.
Exemplo de tom:
“Ó rei, mesmo envolto em ouro e poder,
Se não conheces tua mente, és apenas um servo do tempo.”
Síntese dos três ensinamentos:
| Canção | Público | Ênfase principal | Tema central |
| Povo | Praticantes comuns | Experiência direta da mente | Não-dualidade, crítica ao dogma |
| Rainha | Consorte tântrica | União de sabedoria e método/meios hábeis | Tantra, sabedoria feminina |
| Rei | Líder mundano | Vacuidade do poder e sabedoria interna | Governo iluminado, impermanência |




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