Lembranças da minha Luma

luma-2014

Era de um focinho grande o amor encarnado. Mais de um metro e noventa de doçura, com pitadas de pimenta, para enfeitar. Como eu amei minha mestre das sombras. Por mais de anos viveu sem ver, e, ao contrário de toda ladainha que deu aos olhos a primazia no conhecimento, ela conheceu muito. Havia tantas coisas que a diferenciavam como única: o seu cheiro inesquecível, sua patinha sempre disposta a lançar-se, seu latido uivado que ecoa na história. Como falar de ti hoje, um dia depois que deixaste essa vida que enubla a todos, sem descer caudalosas lágrimas? Tua poltrona na sala, na qual encaixavas milimetricamente,  é um tótem, o centro energético de tudo que nos faz vivos. Da tua personalidade fêmea, muito eu sentia do arquetípico literário, da sapiência monástica à personalidade avessa aos incômodos de Falstaff. Lembro de tantos dos nossos momentos: de quando eu te trouxe no colo há 11 anos, dos passeios que você empacava como um burro. Lembro de tanto, não esqueço de quase nada. Não esqueço dos seus chorinhos quando entravam outros cachorros aqui em casa, que você entrava em frenesi ao procurá-los. Não esqueço do tanto que você fazia questão de mostrar amor incondicional pelos seus ao uivar como uma profeta anunciando as boas-novas, quando algum conhecido chegava. Da sua edícula, que você dormia encostada na Magda, na nossa Mainha. Do seu quartinho do meio, do colchão que toda noite buscava construir seu ninho. Das suas peles que sobravam e impediam que enxergasse, sua bolinha no olho, que durou anos até que nós tirássemos. Do veneno contra pulgas que o fael e a mãe preparava para passar em você, do seu medo bobo por um bom banho. Quantas saudades você vai deixar minha Luminha. Da natureza de mulher tinha a análise precisa de cada toque, para só então julgar se um carinho ou desaforo estava em curso. Rosnava intimidadoramente quando ameaçavam seu sossego, seu conforto! Nossa telepatia era assustadora, eu cuidava de você, pois você, com sua calma e perseverança, sempre cuidou de mim. Nessa noite que tu partiste, saudades são lágrimas, e eu só posso esperar que o tempo cumpra o que me prometeu num sonho de criança: a cura.

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