101 Histórias Zen, A Carne e os Ossos do Zen, Paul Reps e Nyogen Senzaki

Tradução de 101 Zen Stories, contido em A Carne e os Ossos do Zen (Zen Flesh, Zen Bones) compilado por Paul Reps e Nyogen Senzaki. Tradução do inglês para o português por Albecy Cavalari, revisão de Rafael Blanco.

 

Prefácio

 

Este livro inclui quatro livros:

            101 Histórias Zen foi publicado pela primeira vez em 1939 por Rider and Company, Londres, e David McKay Company, Filadélfia. Essas histórias recontam experiências reais de professores Zen chineses e japoneses por um período de mais de cinco séculos.

            O Portal sem-Portão foi primeiramente publicado em 1934 por John Murray, Los Angeles. É uma coleção de problemas chamados koan, que os professores Zen usam para guiar os seus estudantes rumo à liberação, registrados pela primeira vez por um mestre chinês no ano de 1228.

            10 Touros foi primeiramente publicado em 1935 por DeVorss and Company, Los Angeles, e, subsequentemente, por Ralph R. Phillips, Portland, Óregon. É uma tradução do chinês de um famoso comentário do século XII sobre os estágios de consciência que conduzem à iluminação, e é aqui ilustrado por um dos melhores artistas contemporâneos de xilogravura do Japão.

            Centralização, uma transcrição de antigos manuscritos do sânscrito, apareceu primeiramente na edição da primavera de 1955 da revista Gentry, Nova Iorque. O texto apresenta um ensinamento antigo, ainda vivo na Caxemira e em partes da Índia depois de quatro mil anos, que pode muito bem ser as raízes do Zen.

 

            Devo agradecer aos editores nomeados acima pela permissão de reunir o material aqui. E, acima de tudo, sou grato a Nyogen Senzaki, “monge nômade,” exemplar-amigo-colaborador, que tanto deleitou-se comigo na transcrição dos primeiros três livros, assim como aquele homem presciente da Caxemira, Lakshmanjoo, fez na quarta.

 

            

O primeiro patriarca Zen, Bodidarma, trouxe o Zen para a China, da Índia, no século VI. De acordo com a sua biografia registrada no ano 1004 pelo professor chinês Dogen, após nove anos na China, Bodidarma desejava voltar para casa e reuniu seus discípulos ao seu redor para testar as suas apercepções.

            Dofuku disse: “Na minha opinião, a verdade está além da afirmação ou negação, pois é assim a maneira como ela se move.”

            Bodidarma replicou: “Você tem a minha pele.”

            A monja Soji disse: “Ao meu ver é como a visão de Ananda da terra de Buda – vista uma vez e para sempre.”

            Bodidarma respondeu: “Você tem minha carne.”

            Doiku disse: “Os quatro elementos da luz, arejamento, fluidez e solidez são vazios [isto é, inclusivos], e os cinco agregados são não-coisas. Em minha opinião a não-coisa [isto é, espírito] é a realidade.”

            Bodidarma comentou: “Você tem meus ossos.”

            Finalmente, Eka curvou-se perante o mestre − e permaneceu em silêncio.

            Bodidarma disse: “Você tem minha medula.”

 

 

O velho Zen era tão fresco que passou a ser estimado e lembrado. Aqui estão fragmentos da sua pele, carne, ossos, mas não sua medula − nunca encontrada em palavras.

            O imediatismo do Zen levou muitos a acreditar que ele originou-se de fontes anteriores ao tempo de Buda, 500 a. C. O leitor pode julgar por si próprio, pois ele tem aqui, pela primeira vez em um livro, as experiências do Zen, os problemas da mente, os estágios da consciência e um ensinamento similar precedendo o Zen por séculos.

            O problema da nossa mente, que relaciona a percepção consciente com a pré-consciente, leva-nos profundamente para o viver cotidiano. Ousaremos abrir nossas portas para a fonte de nosso ser? Para que servem carne e ossos?

                                                                                                              Paul Reps

 

101 Histórias Zen

 

Transcritas por Nyogen Senzaki e Paul Reps

Essas histórias foram transcritas para o inglês de um livro chamado Shaseki-shu (Coleção de Pedra e Areia), escrito no fim do século XIII pelo professor Zen japonês Muju (o “não-residente”), e de anedotas de monges Zen retiradas de vários livros publicados no Japão em torno da virada do presente século.

            Para os orientais, mais interessados no ser do que com ocupações, o ser humano que autodescobre-se tem sido o mais digno de respeito. Tal ser humano propõe abrir a sua consciência assim como fez o Buda.

            Essas são histórias sobre tais autodescobertas.

            O que se segue é adaptado do prefácio para a primeira edição destas histórias em inglês.

 

 

O Zen pode ser chamado de arte interior e modelo do Oriente. Ele foi enraizado na China por Bodidarma, que veio da Índia no século VI, e foi carregado em direção ao oriente para dentro do Japão no século XII. O Zen tem sido descrito como: “Um ensinamento especial sem escrituras, além das palavras e das letras, apontando para a mente-essência do ser humano, olhando diretamente para a sua própria natureza, alcançando a iluminação.”

            O Zen era conhecido como Ch’an na China. Os mestres de Ch’an-Zen, ao invés de serem seguidores de Buda, almejavam ser seus amigos e colocavam-se no mesmo relacionamento de reação imediata com o universo, assim como o fez Buda e Jesus. O Zen não é uma seita, mas uma experiência.

            O hábito Zen de buscar a si próprio pela meditação para compreender a própria e verdadeira natureza, abandonando o formalismo, com insistência na autodisciplina e na simplicidade da vida, finalmente ganhou o apoio da nobreza e das classes dominantes no Japão e o profundo respeito de todos os níveis de pensamentos filosóficos no Oriente.

Os dramas Noh são histórias Zen. O espírito Zen passou a significar não apenas paz e entendimento, mas devoção à arte e ao trabalho, o rico desdobrar do contentamento, abrindo a porta para o discernimento, a expressão da beleza inata, o charme intangível da incompletude. O Zen carrega vários sentidos, nenhum deles inteiramente definível. Se são definidos, não são Zen.           

            Diz-se que se você tem o Zen na sua vida, você não tem medo, nem dúvida, nem apego desnecessário, nem emoção extrema. Nem atitudes tacanhas, nem ações egoístas perturbam-no. Você serve à humanidade humildemente, preenchendo sua presença nesse mundo com compaixão e observando a sua passagem como uma pétala caindo de uma flor. Sereno, você desfruta a vida em bem-aventurada tranquilidade. Assim é o espírito do Zen, cujas vestes são os milhares de templos na China e Japão, sacerdotes e monges, riqueza e prestígio, e frequentemente o próprio formalismo que ele próprio transcenderia.

            Estudar o Zen, o florescimento da própria natureza, não é uma tarefa fácil em nenhuma era ou civilização. Vários professores, verdadeiros e falsos, pretenderam ajudar os outros nesta realização. São dessas aventuras inumeráveis e reais no Zen que essas histórias desenvolveram-se. Que o leitor, por sua vez, realize-as em vívida experiência hoje.

 

1. Uma Xícara de Chá

 

Nan-in, um mestre japonês durante a era Meiji (1868-1912), recebeu um professor universitário que veio inquirir sobre o Zen.

            Nan-in serviu chá. Ele encheu a xícara do seu visitante, e então continuou vertendo.

            O professor assistiu o extravasamento, até não poder mais se conter. “Está cheia. Não vai entrar mais!”

            “Como essa xícara,” Nan-in disse, “você está cheio das suas próprias opiniões e especulações. Como posso lhe mostrar o Zen, a menos que você primeiro esvazie a sua xícara?” 

 

2. Encontrando um Diamante em uma Estrada Lamacenta

 

Gudo era o professor do imperador de seu tempo. Entretanto, ele costumava viajar sozinho como um andarilho mendicante. Certa vez, quando estava a caminho de Edo, o centro cultural e político do shogunato, ele aproximou-se de uma pequena vila chamada Takenaka. Era noite e uma forte chuva caía. Gudo estava completamente molhado. Suas sandálias de palha estavam em frangalhos. Em uma casa de fazenda próxima da vila ele notou quatro ou cinco pares de sandálias na janela e decidiu comprar algumas.

            A mulher que lhe ofereceu as sandálias, vendo o quão molhado ele estava, convidou-o para permanecer à noite em sua casa. Gudo aceitou, agradecendo-a. Ele entrou e recitou um sutra diante do santuário da família. Ele então foi apresentado à mãe da mulher e às suas crianças. Observando que a família inteira estava deprimida, Gudo perguntou o que estava errado.

            “Meu marido é um apostador e um beberrão,” a dona de casa lhe disse. “Quando acontece dele ganhar ele bebe e se torna abusivo. Quando perde, ele empresta dinheiro dos outros. Às vezes, quando fica completamente bêbado, ele não vem pra casa de modo algum. O que posso fazer?”

            “Vou ajudá-lo,” disse Gudo. “Aqui está algum dinheiro. Consiga-me um galão de um bom vinho e alguma coisa boa para comer. Então pode retirar-se. Vou meditar diante do santuário.”

            Quando o homem da casa retornou, próximo da meia-noite, bastante bêbado, ele berrou: “Ei, esposa, estou em casa. Você tem alguma coisa para eu comer?”

            “Tenho algo para você,” disse Gudo. “Aconteceu-me de ser pego na chuva, e sua esposa gentilmente pediu-me para permanecer aqui à noite. Em retribuição, comprei vinho e peixe, então você também pode comê-los.”

            O homem ficou encantado. Ele bebeu o vinho de uma vez e deitou-se no chão. Gudo sentou em meditação ao lado dele.

            De manhã, quando o marido acordou, ele havia esquecido sobre a noite passada. “Quem é você? De onde você veio?” ele perguntou Gudo, que ainda estava meditando.

             “Sou Gudo, de Kyoto, e estou indo para Edo,” replicou o mestre Zen.

            O homem ficou totalmente envergonhado. Ele pediu muitas desculpas ao professor do seu imperador.

            Gudo sorriu. “Tudo nessa vida é impermanente,” ele explicou. “A vida é muito breve. Se você continuar apostando e bebendo, você não terá tempo de sobra para realizar qualquer outra coisa e você também fará a sua família sofrer.”

            A percepção do marido despertou, como se de um sonho. “Você está certo,” ele declarou. “Nunca poderei retribuí-lo por esse maravilhoso ensinamento!” Permita-me despedir-me de você e carregar as suas coisas por um trecho.”

            “Se você deseja,” assentiu Gudo.

            Os dois partiram. Após terem caminhado por três milhas Gudo pediu-lhe que retornasse. “Só outras cinco milhas,” ele implorou a Gudo. Eles continuaram.

            “Você pode retornar agora,” sugeriu Gudo.

            “Depois de outras dez milhas,” o homem replicou.

            “Retorne agora,” disse Gudo, quando as dez milhas haviam passado.

            “Vou continuar a segui-lo por todo o resto da minha vida,” declarou o homem.

            Os professores modernos de Zen no Japão advêm da linhagem de um famoso mestre que era o sucessor de Gudo. O seu nome era Mu-nan, o homem que nunca voltou-se para trás.  

 

3. É Mesmo?

 

O mestre Zen Hakuin era louvado por seus vizinhos como alguém que vivia uma vida pura.

            Uma bela garota japonesa, cujos pais possuíam uma loja de alimentos, vivia perto dele. Subitamente, sem qualquer aviso, os pais dela descobriram que ela estava grávida.

            Isso deixou os pais dela zangados. Ela não confessava quem era o homem, mas, depois de muita amolação, finalmente ela deu o nome de Hakuin.

            Com muita raiva os pais foram até o mestre. “É mesmo?” foi tudo o que ele disse.

            Após a criança nascer ela foi trazida para Hakuin. A esta altura ele havia perdido a sua reputação, o que não o incomodava, mas ele cuidou muito bem da criança. Ele obteve leite dos seus vizinhos e tudo o mais que o pequenino necessitava.

            Um ano mais tarde, a jovem mãe não podia mais aguentar aquilo. Ela contou aos seus pais a verdade  que o verdadeiro pai da criança era um jovem que trabalhava no mercado de peixe.

            A mãe e o pai da garota imediatamente foram ver Hakuin para pedir seu perdão e desculpas por tudo e para pegar a criança de volta.

            Hakuin estava de acordo. Ao entregar a criança, tudo o que ele disse foi: “É mesmo?” 

 

4. Obediência

 

As palestras do mestre Bankei eram frequentadas não apenas por estudantes Zen, mas por pessoas de todas as classes e seitas. Ele nunca citava sutras, nem entregava-se às dissertações escolásticas. Em vez disso, suas palavras saíam diretamente do seu coração para os corações dos seus ouvintes.

            Suas grandes audiências irritaram um sacerdote da seita Nichiren, porque os seus adeptos haviam partido para ouvir sobre o Zen. O egocêntrico sacerdote Nichiren foi ao templo determinado a debater com Bankei.

            “Ei, professor Zen!” ele chamou. “Espere um minuto. Quem quer que o respeite obedecerá o que você diz, mas um homem como eu não lhe respeita. Você consegue fazer-me obedecê-lo?”

            “Venha até aqui ao meu lado e lhe mostrarei,” disse Bankei.

            Orgulhosamente, o sacerdote abriu seu caminho através da multidão até o professor.

            Bankei sorriu. “Venha até o meu lado esquerdo.”

            O sacerdote obedeceu.

            “Não,” disse Bankei, “nós podemos conversar melhor se você estiver do lado direito. Venha aqui.”

            “Veja,” observou Bankei, “você está me obedecendo, e acho que você é uma pessoa muito gentil. Agora sente-se e escute.” 

 

 

5. Se Você Ama, Ame Abertamente

 

Vinte monges e uma monja chamada Eshun estavam praticando meditação com um certo mestre Zen.

            Eshun era muito bonita,  embora sua cabeça fosse raspada e seu vestido simples. Vários monges secretamente apaixonaram-se por ela. Um deles escreveu-lhe uma carta de amor, insistindo por um encontro privado.

            Eshun não respondeu. No dia seguinte, o mestre deu uma palestra para o grupo, e quando esta havia acabado, Eshun levantou-se. Endereçando àquele que lhe havia escrito, ela disse: Se você realmente me ama tanto, venha e abrace-me agora.” 

 

 

6. Nenhuma Compaixão

 

Havia uma mulher idosa na China que sustentou um monge por mais de vinte anos. Ela construiu uma pequena choupana para ele e alimentou-o enquanto ele meditava. Finalmente, ela perguntou-se pelo progresso que ele havia feito em todo esse tempo.

            Para descobrir ela obteve ajuda de uma garota cheia de desejo. “Vá e abrace-o,” ela disse-lhe, “e então pergunte-lhe subitamente: ‘E agora?’”

            A garota chamou o monge e, sem mais delongas acariciou-o, perguntando-lhe o que faria a respeito disso.

            “Uma velha árvore cresce em um rochedo gelado no inverno,” respondeu o monge, um pouco poeticamente. “Em nenhum lugar há calor.”

            A garota retornou e relatou o que ele havia dito.

            “Pensar que alimentei aquele sujeito por vinte anos” exclamou a mulher idosa com raiva. “Ele não mostrou nenhuma consideração por sua necessidade, nenhuma disposição para explicar a sua condição. Ele não precisava ter respondido à paixão, mas pelo menos ele deveria ter evidenciado alguma compaixão.”

            Ela imediatamente foi até choupana do monge e incendiou-a.

 

7. Anúncio

 

Tanzan escreveu sessenta cartões postais no último dia da sua vida, e pediu a um assistente para postá-los. Então ele faleceu.

            Os cartões diziam:

                        

Estou partindo deste mundo.

                           Esse é meu último anúncio.

                                          Tanzan.

                                                     Julho 27, 1892. 

 

 

8. Grandes Ondas

 

Nos primeiros dias da era Meiji viveu um lutador famoso chamado O-nami, o ‘Grandes Ondas’.

            O-nami era imensamente forte e conhecia a arte do pugilismo. Em suas lutas privadas ele derrotou até seu professor, mas em público ele era tão acanhado que seus próprios alunos o arremessavam.

            O-nami sentiu que deveria ir até um mestre Zen para pedir ajuda. Hakuju, um professor nômade, estava ficando em um pequeno templo próximo dali, então O-nami foi vê-lo e contou-o sobre seu problema.

            “Grandes Ondas é o seu nome,” o professor aconselhou, “então fique nesse templo esta noite. Imagine que você é aquelas ondas. Você não é mais um lutador que está receoso. Você é aquelas ondas imensas, varrendo tudo diante de si, engolindo tudo no seu trajeto. Faça isso e você será o maior lutador da terra.”

            O professor retirou-se. O-nami sentou-se em meditação tentando imaginar-se como ondas. Ele pensou em muitas coisas diferentes. Então, gradualmente, ele sentia cada vez mais as ondas. Enquanto a noite avançava as ondas ficavam maiores e maiores. Elas varreram as flores em seus vasos.  Até mesmo o Buda no santuário foi inundado. Antes do amanhecer o templo não era nada além do fluxo e refluxo de um imenso mar.

            Pela manhã o professor encontrou O-nami meditando com um leve sorriso em sua face. Ele deu um tapinha nos ombros do lutador.  “Agora nada pode o perturbar,” ele disse. “Você é aquelas ondas. Você vai varrer tudo diante de si.”

            No mesmo dia, O-nami entrou nas competições de luta e venceu. Depois daquilo ninguém no Japão foi capaz de derrotá-lo.

 

 

9. A Lua Não Pode Ser Roubada

 

            Ryokan, um mestre Zen, viveu o estilo de vida mais simples em uma pequena cabana aos pés de uma montanha. Certa noite um ladrão visitou a cabana somente para descobrir que não havia nada nela para roubar.

            Ryokan retornou e apanhou-o. “Você deve ter vindo de longe para visitar-me,” ele disse ao ladrão, “e você não deve retornar de mãos vazias. Por favor tome minhas roupas como um presente.”

            O ladrão estava perplexo. Ele tomou as roupas e escapuliu.

            Ryokan sentou-se nu, observando a lua. “Pobre sujeito,” ele refletiu, “Eu gostaria de poder dar-lhe esta linda lua.”

 

 

10. O Último Poema de Hoshin

 

            O mestre Zen Hoshin viveu na China por muitos anos. Então ele retornou para a parte nordeste do Japão, onde ensinou seus discípulos. Quando estava ficando bem velho ele contou-os uma história que havia escutado na China. Essa é a história:

 

Um ano no vigésimo quinto dia de dezembro, Tokufu, que estava muito velho, disse aos seus discípulos: “Não vou estar vivo no próximo ano, então vocês, companheiros, devem tratar-me bem esse ano.”

 Os alunos pensaram que ele estava brincando, mas visto que ele era um professor de grande coração, cada um deles, por sua vez, ofereceu-lhe um banquete nos dias seguintes do ano que partia.

 Na véspera do ano novo Tokufu concluiu: “Vocês têm sido bons para mim. Devo deixá-los amanhã à tarde quando a neve tiver parado.”

 Os discípulos riram, pensando que ele estivesse envelhecendo e falando absurdos, visto que a noite estava clara e sem neve. Mas, à meia-noite, a neve começou a cair, e, no dia seguinte, eles não encontraram o seu professor ao redor. Eles foram para o salão de meditação. Ali ele havia feito a passagem.

            Hoshin, que relatou essa história, disse a seus discípulos: “Não é necessário a um mestre Zen predizer a sua passagem, mas, se ele realmente deseja assim fazer, ele pode.”

            “Você consegue?” alguém perguntou.

            “Sim,” respondeu Hoshin. “Mostrarei para vocês o que consigo fazer em sete dias a partir de agora.”

            Nenhum dos discípulos acreditou nele, e a maioria deles até esqueceu a conversa, quando, em seguida, Hoshin chamou-os em conjunto.

            “Sete dias atrás,” ele comentou, “Eu disse que ia deixá-los. É costumeiro escrever um poema de despedida, mas não sou nem poeta, nem calígrafo. Que um de vocês registre minhas últimas palavras.”

            Seus seguidores pensaram que ele estava brincando, mas um deles começou a escrever.

            “Você está pronto?” Hoshin perguntou.

            “Sim, senhor,” replicou o escritor.

            Então Hoshin ditou:

 

Vim da brilhância

E retorno à brilhância.

O que é isso?

 

O poema estava com uma linha a menos, das quatro costumeiras, então o discípulo disse: “Mestre, falta-nos uma linha.”

Hoshin, com o rugido de um leão conquistador gritou “Kaa!” e se foi. 

 

 

11. A História de Shunkai

 

A extraordinária Shunkai, cujo outro nome era Suzu, foi compelida a casar-se contra os seus desejos quando era bem jovem. Mais tarde, depois desse casamento ter acabado, ela frequentou a universidade, onde estudou filosofia.

            Ver Shunkai era apaixonar-se por ela. Ademais, onde quer que ela fosse, ela própria apaixonava-se pelos outros. O amor estava com ela na universidade, e mais tarde, quando a filosofia não a satisfazia e ela visitou um templo para aprender sobre o Zen, os estudantes Zen apaixonaram-se por ela. Toda a vida de Shunkai estava saturada com amor.

            Finalmente, em Kyoto, ela tornou-se uma verdadeira estudante do Zen. Os seus irmãos no sub-templo de Kennin louvavam sua sinceridade. Um deles provou ser um espírito simpático e auxiliou-a na mestria do Zen.

            O abade de Kennin, Mokurai, o Trovão Silencioso, era severo. Ele próprio mantinha os preceitos e esperava que seus sacerdotes também o fizessem. No Japão moderno, qualquer zelo que esses sacerdotes perderam pelo Budismo eles parecem ter ganho por esposas. Mokurai costumava pegar uma vassoura e afugentar as mulheres, quando ele as encontrava em qualquer um de seus templos, mas quanto mais esposas ele varria para fora, mais pareciam retornar.

            Neste templo em particular a esposa do sacerdote chefe ficou com ciúmes da beleza e seriedade de Shunkai. Ouvindo os estudantes louvarem seu Zen sério fez essa esposa se contorcer e irritar-se. Finalmente ela espalhou um rumor sobre Shunkai e o jovem rapaz que era seu amigo. Como consequência ele foi expulso e Shunkai foi removida do templo.

            “Eu posso ter cometido o equívoco do amor,” pensou Shunkai, “mas a esposa do sacerdote não deve permanecer no templo se meu amigo é tratado tão injustamente.”

            Shunkai, na mesma noite, com uma lata de querosene, ateou fogo no templo de quinhentos anos de idade, e incendiou-o. De manhã ela encontrava-se nas mãos da polícia.

            Um jovem advogado ficou interessado nela e esforçou-se para tornar a sua sentença mais branda. “Não me ajude,” ela lhe disse. “Posso decidir fazer mais alguma coisa que vai aprisionar-me de novo.”

            Enfim uma sentença de sete anos foi concluída e Shunkai foi solta da prisão, onde o carcereiro de sessenta anos também apaixonou-se por ela.

            Mas agora todos olhavam para ela como uma “detenta.” Ninguém associar-se-ia com ela. Mesmo as pessoas do Zen, que supostamente acreditavam na iluminação nesta vida e com esse corpo, evitavam-na. O Zen, Shunkai descobriu, era uma coisa, e os seguidores do Zen totalmente outra. Os seus parentes não queriam ter nada com ela. Ela ficou doente, pobre e fraca.

            Ela encontrou um sacerdote Shinshu, que a ensinou o nome do Buda do Amor, e nisto Shunkai encontrou algum conforto e paz mental. Ela faleceu quando ainda era extraordinariamente bela, com menos de trinta anos de idade.

            Ela escreveu sua própria história em uma tentativa fútil de amparar-se, e ela contou um pouco desta história para uma mulher escritora. Assim ela alcançou o povo japonês. Aqueles que rejeitavam Shunkai, aqueles que caluniavam-na e odiavam-na, agora leem sobre a vida dela com lágrimas de remorso. 

 

12. Chinês Feliz

 

Qualquer um que anda pelos bairros chineses da América observará estátuas de um sujeito corpulento carregando um saco de linho. Os mercadores chineses chamam-no de Chinês Feliz ou Buda Risonho.

            Este tal Hotei viveu durante a dinastia T’ang. Ele não tinha nenhum desejo de chamar-se de mestre Zen ou de reunir muitos discípulos em torno de si. Em vez disso ele andava pelas ruas com um grande saco dentro do qual ele colocava presentes de doces, frutas ou rosquinhas. Estes ele daria para as crianças que se reuniam ao seu redor brincando. Ele fundou um jardim de infância das ruas.

            Sempre que ele encontrava um devoto Zen ele estendia sua mão e dizia: “Dê-me um centavo.” E se alguém pedisse-lhe para retornar a um templo para ensinar os outros, novamente ele replicava: “Dê-me um centavo.”

            Certa vez, enquanto ele estava perto do seu trabalho de brincadeira outro mestre Zen apareceu e indagou: “Qual é o significado do Zen?” 

            Hotei imediatamente jogou sua sacola no chão em silenciosa resposta.

            “Então,” perguntou o outro, “qual é a realização do Zen?”

            De uma só vez o Chinês Feliz girou o saco sobre seu ombro e continuou no seu caminho. 

 

13. Um Buda

 

Em Tóquio, na era Meiji, viveram dois proeminentes professores com características opostas. Unsho, um instrutor em Shingon, mantinha os preceitos de Buda escrupulosamente. Ele nunca bebia intoxicantes, nem comia após às onze horas da manhã em ponto. O outro professor, Tanzan, um professor de filosofia na Universidade Imperial, nunca observava os preceitos. Quando sentia fome ele comia e quando sentia sono de dia ele dormia.

            Um dia Unsho visitou Tanzan, que bebia vinho naquele momento, embora supostamente nem mesmo uma gota de vinho deveria tocar a língua de um budista.

            “Oi, irmão,” Tanzan cumprimentou-o. “Você não vai beber?”

            “Eu nunca bebo!” exclamou Unsho solenemente.

            “Alguém que não bebe não é nem mesmo humano,” disse Tanzan.

            “Você me chama de inumano só porque não desfruto de líquidos intoxicantes!” exclamou Unsho, com irritação. “Então, se não sou humano, o que sou?”

            “Um Buda,” respondeu Tanzan. 

 

14. Estrada Lamacenta

 

Tanzan e Ekido viajavam juntos certa vez por uma estrada lamacenta. Uma pesada chuva caía.

            Aproximando-se uma curva eles encontraram uma garota encantadora, em um kimono de seda e cinturão, impossibilitada de cruzar a intersecção.

            “Venha, garota,” disse Tanzan imediatamente. Levantando-a em seus braços, ele carregou-a sobre a lama.

            Ekido não falou novamente até a noite, quando eles chegaram a um templo hospedagem. Então ele não conseguia mais conter a si próprio. “Nós monges não chegamos perto de mulheres,” ele falou a Tanzan, “especialmente das jovens e encantadoras. É perigoso. Por que você fez aquilo?”

            “Eu deixei a garota lá,” disse Tanzan. “Você ainda está carregando-a?” 

 

15. Shoun e Sua Mãe

 

Shoun tornou-se um professor de Soto Zen. Quando ele ainda era um estudante seu pai faleceu, deixando Shoun para cuidar de sua velha mãe.

            Sempre que Shoun ia para um salão de meditação ele levava sua mãe consigo. Como ela acompanhava-o, quando ele visitava os monastérios não podia viver com os monges. Então ele construía uma pequena casa e cuidava dela lá. Ele copiava sutras, versos budistas, e, desta maneira recebia algumas moedas para comer.

            Quando Shoun comprava peixe para sua mãe, o povo zombava dele, pois um monge não deveria comer peixe. Mas Shoun não se importava. Sua mãe, contudo, ficava magoada ao ver os outros rirem de seu filho. Finalmente ela contou a Shoun: “Acho que vou tornar-me uma monja. Posso ser vegetariana também.” Ela o fez, e eles estudaram juntos.

            Shoun tinha afeição por música e era um mestre da harpa, a qual sua mãe também tocava. Em noites de lua cheia eles costumavam tocar juntos.

            Uma noite uma jovem dama passou perto da casa deles e ouviu a música. Profundamente tocada, ela convidou Shoun para visitá-la e tocar na noite seguinte. Ele aceitou o convite. Alguns dias mais tarde ele encontrou a jovem dama na rua e agradeceu-a por sua hospitalidade. Os outros riram dele. Ele havia visitado a casa de uma mulher das ruas.

            Um dia, Shoun partiu para um templo distante para proferir uma palestra. Alguns meses depois ele retornou para casa e encontrou sua mãe morta. Os amigos não sabiam como encontrá-lo, então o funeral estava em andamento.

            Shoun aproximou-se e bateu no caixão com o seu cajado. “Mãe, seu filho retornou,” ele disse.

            “Estou contente em ver que você retornou, filho,” ele respondeu por sua mãe.

            “Sim, estou feliz também,” Shoun respondeu. Então ele anunciou para as pessoas ao seu redor: “A cerimônia de funeral está terminada. Vocês podem enterrar o corpo.”

            Quando Shoun estava velho ele sabia que seu fim estava se aproximando. Ele pediu aos seus discípulos para reunirem-se em torno dele de manhã, dizendo que ele faria a passagem ao meio dia. Queimando incenso diante da imagem de sua mãe e de seu velho professor, ele escreveu um poema:

 

            Por cinquenta e seis anos vivi o melhor que pude,

            Trilhando meu caminho neste mundo.

            Agora a chuva terminou, as nuvens estão clareando,

            O céu azul tem uma lua cheia.

 

            Seus discípulos reuniram-se em torno dele, recitando um sutra, e Shoun fez a passagem durante a invocação. 

 

16. Não Distante da Budidade

 

Um estudante universitário, enquanto visitava Gasan, perguntou-lhe: “Você já leu a Bíblia cristã?”

            “Não, leia-a para mim,” disse Gasan.

            O estudante abriu a Bíblia e leu de São Mateus (Mt 6:25-34.): “Por que andais ansiosos pelo que haveis de vestir? Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam, contudo vos digo que nem Salomão em toda sua glória se vestiu como um deles. […] Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo.”        

            Gasan disse: “Quem quer que proferiu essas palavras considero-o iluminado.”

            O estudante continuou lendo: “Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e encontrareis; batei, e abrir-se-vos-á. Porque, aquele que pede, recebe; e, o que busca, encontra; e, ao que bate, abrir-se-lhe-á.”(Mt 7:7-8) 

            Gasan comentou: “Isso é excelente. Quem quer que disse isso não está distante da Budidade.”

 

17. Mesquinho no Ensino

 

Um jovem médico em Tóquio chamado Kusuda encontrou um amigo da faculdade que estivera estudando o Zen. O jovem doutor perguntou-lhe o que é o Zen.

            “Não consigo dizer-lhe o que ele é,” o amigo respondeu, “mas uma coisa é certa. Se você entender o Zen, você não terá medo de morrer.”

            “Isso é ótimo,” disse Kusuda. “Vou tentar. Onde posso encontrar um professor?”

            “Vá ao mestre Nan-in,” o amigo disse-lhe.

            Então Kusuda foi visitar Nan-in. Ele carregava uma adaga de nove polegadas e meia para determinar se o próprio professor tinha ou não medo de morrer.

            Quando Nan-in viu Kusuda ele exclamou: “Olá, amigo. Como está você? Não temos visto um ao outro por um longo tempo!”

            Isso deixou Kusuda perplexo, que replicou: “Nós nunca nos encontramos antes.”

            “Está certo,” respondeu Nan-in. “Confundi-o com outro médico que está recebendo instrução aqui.”

            Com tal começo, Kusuda perdeu sua chance de testar o mestre, então relutantemente perguntou se poderia receber instrução Zen.

            Nan-in disse: “O Zen não é uma tarefa difícil. Se você é um médico, trate seus pacientes com gentileza. Isso é o Zen.”

            Kusuda visitou Nan-in três vezes. Toda vez Nan-in falava-lhe a mesma coisa. “Um médico não deve desperdiçar tempo por aqui. Vá para casa e tome conta dos seus pacientes.”

            Ainda não estava claro para Kusuda como tal ensinamento poderia remover o medo da morte. Então em sua quarta visita ele reclamou: “Meu amigo contou-me que quando alguém aprende Zen essa pessoa perde seu medo da morte. Toda vez que venho aqui, tudo o que você me diz é para eu cuidar dos meus pacientes. Disso eu sei. Se esse é o seu suposto Zen, não vou visitá-lo mais.”

            Nan-in sorriu e deu um tapinha no doutor. “Tenho sido muito estrito com você. Permita-me dar-lhe um koan.” Ele apresentou a Kusuda um Mu de Joshu para que ele pensasse, sendo este o primeiro problema iluminador da mente do livro chamado O Portal sem-Portão.

            Kusuda ponderou sobre esse problema Mu (Não-Coisa) por dois anos. Finalmente ele pensou que havia atingido a verdade da mente. Mas seu professor comentou: “Você ainda não alcançou.”

            Kusuda continuou em concentração por mais um ano e meio. Sua mente tornou-se plácida. Os problemas dissolveram-se. A Não-Coisa passou a ser a verdade. Ele serviu seus pacientes bem e, sem nem mesmo saber, estava livre da preocupação com a vida e a morte.

            Então, quando visitou Nan-in seu velho professor apenas sorriu.

 

 

18. Uma Parábola

 

Buda contou uma parábola em um sutra:

            Um homem viajando por um campo encontrou um tigre. Ele fugiu e o tigre atrás dele. Chegando a um precipício ele agarrou-se à raiz de uma vinha selvagem e ficou balançando-se para além da beirada. O tigre farejou-o de cima. Tremendo, o homem olhou para baixo onde outro tigre esperava-o para comê-lo. Somente a vinha sustentava-o.

            Dois ratos, um branco e um preto, pouco a pouco, começaram a roer a vinha. O homem viu um morango suculento próximo de si. Segurando a vinha com uma mão ele arrancou o morango com a outra. Quão doce era o seu sabor!

 

19. O Primeiro Princípio

 

Quando alguém vai ao templo Obaku, em Kyoto, vê entalhado sobre o portão as palavras O Primeiro Princípio.” As letras são excepcionalmente grandes, e aqueles que apreciam caligrafia sempre as admiraram como sendo uma obra-prima. Elas foram desenhadas por Kosen duzentos anos atrás.

            Quando o mestre as desenhou, ele as fez em papel a partir do qual os trabalhadores fizeram o grande entalhe na madeira. Enquanto Kosen esboçava as letras um aluno audacioso estava consigo, que havia feito vários galões de tinta para a caligrafia e que nunca deixava de criticar o trabalho de seu mestre.

            Isso não está bom, ele falou a Kosen após o primeiro esforço.

            Como está este?

            “Ruim. Pior que antes, pronunciou o aluno.

            Kosen pacientemente escreveu uma folha após outra, até que oitenta e quatro Primeiros Princípios acumularam-se, ainda sem a aprovação do aluno.

            Então, quando o jovem saiu por alguns momentos Kosen pensou: Agora é a minha chance de escapar de seu olho aguçado, e escreveu apressadamente, com a mente livre de distração: O Primeiro Princípio.”

            Uma obra-prima, pronunciou o aluno. 

 

20. Um Conselho de Mãe 

 

Jiun, um mestre Shingon, era um bem conhecido erudido do sânscrito da era Tokugawa. Quando era jovem, ele costumava proferir palestras para seus irmãos estudantes.

            Sua mãe ouviu sobre isso e escreveu-lhe uma carta:

            Filho, não acho que você tornou-se um devoto do Buda porque você desejava tornar-se um dicionário ambulante para os outros. Não há fim para a informação e o comentário, para a glória e a honra. Desejo que você pare com essa ocupação de palestrante. Encerre-se em um pequeno templo em uma parte remota da montanha. Dedique o seu tempo para a meditação e neste caminho atinja a verdadeira realização.”

 

21. O Som de Uma Mão

 

O mestre do templo de Kennin era Mokurai, o ‘Trovão Silencioso’. Ele tinha um pequeno protegido chamado Toyo, que tinha apenas doze anos de idade. Toyo via os discípulos mais velhos visitarem a sala do mestre toda manhã e noite para receberem instrução em sanzen, ou orientação pessoal, na qual lhes eram dados koans para deter a divagação mental.

            Toyo desejava fazer sanzen também.

            Espere um pouco, disse Mokurai. Você é muito jovem.”

            Mas a criança insistiu, então o professor finalmente consentiu.

            À noite o pequeno Toyo foi na hora exata até a entrada do quarto de sanzen de Mokurai. Ele tocou o gongo para anunciar a sua presença, curvou-se respeitosamente três vezes do lado de fora da porta, e foi sentar diante do mestre em respeitoso silêncio.

            Você pode ouvir o som de duas mãos quando elas batem palmas juntas, disse Mokurai. Agora mostre-me o som de uma mão.”

            Toyo fez uma reverência e foi para o seu quarto considerar esse problema. Da sua janela ele podia ouvir a música das gueixasAh, captei! ele proclamou.

            Na próxima noite, quando seu professor lhe pediu para ilustrar o som de uma mão, Toyo começou a tocar a música das gueixas.

            Não, não,” disse Mokurai. Nunca será isso. Esse não é o som de uma mão. Você não o descobriu de forma alguma.”

            Pensando que tal música poderia interromper, Toyo moveu sua morada para um lugar quieto. Ele meditou novamente. Qual poderia ser o som de uma mão? Aconteceu de ele escutar a água gotejando. Entendi,” imaginou Toyo.

            Quando ele apareceu diante de seu professor de novo, Toyo imitou a água gotejando.

            Que é isso? perguntou Mokurai. Esse é o som da água gotejando, mas não o som de uma mão. Tente novamente.”

            Em vão Toyo meditou para ouvir o som de uma mão. Ele ouviu o suspirar do vento. Mas o som foi rejeitado.

            Ele ouviu o grito de uma coruja. Isso também foi recusado.

            O som de uma mão não era os gafanhotos.

            Por mais de dez vezes Toyo visitou Mokurai com sons diferentes. Todos estavam errados. Por quase um ano ele ponderou qual poderia ser o som de uma mão.

            Finalmente o pequeno Toyo entrou na verdadeira meditação e transcendeu todos os sons. Eu não podia coletar mais,” ele explicou mais tarde, então atingi o som silencioso.” 

            Toyo havia realizado o som de uma mão. 

 

22. Meu Coração Queima Como Fogo 

 

Soyen Shaku, o primeiro professor Zen a vir para a América, disse: Meu coração queima como fogo, mas meus olhos são tão frios como cinzas.” Ele fez as seguintes regras, as quais ele praticou todos os dias de sua vida:

            De manhã antes de vestir-se, acenda incenso e medite.

            Recolha-se em um horário regular. Compartilhe da comida em intervalos regulares. Coma com moderação e nunca ao ponto da satisfação.

            Receba um convidado com a mesma atitude que você tem quando está sozinho. Quando sozinho, mantenha a mesma atitude que você tem quando está recebendo convidados.

            Observe o que você diz e pratique qualquer coisa que disser.

            Quando uma oportunidade chegar não a deixe passar, entretanto sempre pense duas vezes antes de agir.

            Não lamente o passado. Olhe para o futuro.

            Tenha a atitude destemida de um herói e o coração amoroso de uma criança.

            Ao recolher-se, durma como se você tivesse entrado em seu último sono. Ao despertar, deixe sua cama para trás de si instantaneamente, como se você tivesse jogado fora um par de calçados velhos. 

 

23. A Partida de Eshun

 

Quando Eshun, a monja Zen, havia passado dos sessenta e estava prestes a deixar esse mundo, ela pediu a alguns monges que empilhassem madeira no pátio.

            Sentando-se firmemente no centro da pira funerária, ela ateou fogo nas extremidades.

            Ó monja! gritou um mongeestá quente aí?

            Isso deve preocupar apenas uma pessoa estúpida como você,” respondeu Eshun.

            As chamas ergueram-se e ela fez a passagem.

 

24. Recitando Sutras

 

Um fazendeiro solicitou que um sacerdote Tendai recitasse sutras para sua esposa que havia morrido. Depois da recitação ter acabado o fazendeiro perguntou: Você acha que minha esposa ganhará méritos disto?

            Não apenas sua esposa, mas todos os seres sencientes beneficiar-se-ão da recitação de sutras,” respondeu o sacerdote.

            Se você diz que todos os seres sencientes beneficiar-se-ão,” disse o fazendeiro, minha esposa pode estar muito fraca e outros tirarão vantagem dela, recebendo o benefício que ela deveria ter.”

            O sacerdote explicou que era o desejo de um budista oferecer bênçãos e almejar mérito para todo ser vivente.

            Esse é um ótimo ensinamento,” concluiu o fazendeiro, mas por favor faça uma exceção. Tenho um vizinho que é rude e ruim para mim. Exclua apenas ele de todos esses seres sencientes.” 

 

25. Mais Três Dias

 

Suiwo, o discípulo de Hakuin, era um bom professor. Um aluno de uma ilha ao sul do Japão foi até ele durante um período de isolamento de verão.

            Suiwo deu-lhe o problema: “Escute o som de uma mão.”

            O aluno permaneceu por três anos, mas não conseguia passar esse teste. Uma noite ele foi até Suiwo chorando. “Devo retornar ao sul com vergonha e constrangimento,” ele disse, “pois não consigo solucionar meu problema.”

            “Espere mais uma semana e medite constantemente,” aconselhou Suiwo. Todavia, nenhuma iluminação ocorreu ao aluno. “Tente por mais uma semana,” disse Suiwo. O aluno obedeceu, mas em vão.

            “Mais uma semana.” Mas não adiantou. Em desespero o estudante implorou para ser liberado, mas Suiwo solicitou outra meditação de cinco dias. Esta não teve resultado. Então ele disse: “Medite por mais três dias, então, se você falhar em atingir a iluminação, seria melhor você se matar.”

            No segundo dia o aluno estava iluminado. 

 

26. Trocando Diálogo por Hospedagem

 

Qualquer monge nômade pode permanecer em um templo Zen desde que faça e vença uma argumentação sobre budismo com aqueles que lá vivem. Se for derrotado ele precisa seguir caminho.

            Em um templo na parte norte do Japão, dois irmãos monges estavam morando juntos. O mais velho era instruído, mas o mais jovem era estúpido e tinha apenas um olho.

            Um monge nômade veio e pediu hospedagem, devidamente desafiando-os para um debate sobre o sublime ensinamento. O irmão mais velho, naquele dia cansado de tanto estudar, disse ao mais novo que tomasse seu lugar. “Vá e solicite o diálogo em silêncio,” ele advertiu.

            Então o jovem monge e o estranho foram ao santuário e sentaram-se.

            Logo depois o viajante levantou-se, entrou, foi até o irmão mais velho e disse: “Seu irmão mais jovem é um sujeito maravilhoso. Ele derrotou-me.”

            “Relate o diálogo para mim,” disse o mais velho.

            “Bem,” explicou o viajante, “primeiro eu levantei um dedo, representando Buda, o iluminado. Então ele levantou dois dedos, significando Buda e seu ensinamento. Eu levantei três dedos, representando Buda, seu ensinamento, e seus seguidores, vivendo a vida harmoniosa. Então ele sacudiu seu punho cerrado em minha face, indicando que todos os três vêm de uma realização. Assim ele ganhou e então não tenho direito de permanecer aqui.” Com isso, o viajante partiu.

            “Onde está aquele sujeito?” perguntou o mais jovem, entrando correndo até seu irmão mais velho.

            “Compreendo que você venceu o debate.”

            “Venci nada. Vou bater nele.”

            “Conte-me o assunto do debate,” solicitou o mais velho.

            “Ah, no momento em que ele me viu ele levantou um dedo, insultando-me ao insinuar que tenho apenas um olho. Visto que ele era um estranho, pensei em ser respeitoso com ele, então levantei dois dedos, parabenizando-o por ele ter dois olhos. Então o miserável grosseiro levantou três dedos, sugerindo que entre nós só havia três olhos. Então fiquei louco e comecei a socar ele, mas ele correu, e isso acabou com tudo!”

 

27. A Voz da Felicidade

 

Depois de Bankei ter falecido, um homem cego, que vivia perto do templo do mestre contou a um amigo: “Como sou cego não consigo observar a face de uma pessoa, então preciso julgar o seu caráter pelo som da sua voz. Ordinariamente quando escuto alguém congratular outrem sobre sua felicidade ou sucesso, escuto também um tom secreto de inveja. Quando a condolência é expressa pelo infortúnio de outrem, escuto prazer e satisfação, como se o condolente estivesse realmente contente por ter sobrado algo para ganhar em seu próprio mundo.

            “Em toda minha experiência, contudo, a voz de Bankei foi sempre sincera. Sempre que ele expressava felicidade eu não escutava nada exceto felicidade, e sempre que ele expressava tristeza, tristeza era tudo que eu escutava.” 

 

28. Abra Sua Própria Casa do Tesouro

 

Daiju visitou o mestre Baso na China. Baso perguntou: “O que você busca?”

            “Iluminação,” respondeu Daiju.

            “Você tem sua própria casa do tesouro. Por que você procura do lado de fora?” Baso perguntou.

            Daiju perguntou: “Onde está minha casa do tesouro?”

            Baso respondeu: “O que você está pedindo é sua casa do tesouro.”

            Daiju estava iluminado! Depois daquilo ele sempre encorajava seus amigos: “Abra sua própria casa do tesouro e use esses tesouros.” 

 

29. Não Há Mais Água, Não Há Mais Lua.

 

Quando a monja Chiyono estudava o Zen sob Bukko, de Engaku, ela foi incapaz de atingir os frutos da meditação por um longo tempo.

            Finalmente, em uma noite enluarada, ela estava carregando água em um velho balde arrematado com bambu. O bambu quebrou e o fundo do balde caiu, e, naquele momento, Chiyono liberou-se!

            Em comemoração ela escreveu um poema:

 

            De uma maneira ou de outra eu tentei salvar o velho balde

            Visto que a tira de bambu estava enfraquecendo e prestes a quebrar

            Até que finalmente o fundo caiu.

            Não há mais água no balde!

            Não há mais lua na água! 

 

30. Cartão de Visita

 

Keichu, o grande professor Zen da era Meiji, era o líder de Tofuku, uma catedral em Kyoto. Um dia o governador de Kyoto chamou-o pela primeira vez.

            Seu assistente apresentou o cartão do governador onde lia-se: Kitagaki, Governador de Kyoto.

            “Não tenho nada a tratar com esse sujeito,” disse Keichu para seu assistente. “Diga-lhe para sair daqui.”

            O assistente carregou o cartão de volta com um pedido de desculpas. “Isso foi erro meu,” disse o governador, e com um lápis ele riscou as palavras Governador de Kyoto. “Pergunte ao seu professor novamente.”

            “Oh, é o Kitagaki?” exclamou o professor quando viu o cartão. “Quero ver esse sujeito.” 

 

31. Tudo é o Melhor 

 

Quando Banzan estava andando por um mercado ele ouviu, por acaso, a conversa entre um açougueiro e seu freguês:

            “Dê-me o melhor pedaço de carne que você tiver,” disse o freguês.

            “Tudo em minha loja é o melhor,” respondeu o açougueiro. “Você não pode encontrar aqui nenhum pedaço de carne que não seja o melhor.”

            Com estas palavras Banzan tornou-se iluminado. 

 

32. Polegada Tempo Pé Joia

Um lorde pediu a Takuan, um professor Zen, que sugerisse como ele poderia passar o tempo. Ele sentia que seus dias eram muito longos, atendendo em seu escritório, e sentando-se rigidamente para receber a homenagem dos outros.

            Takuan escreveu oito caracteres chineses e os deu ao homem:

            

            Não duas vezes esse dia

            Polegada tempo pé joia

 

            Esse dia não voltará novamente.

            Cada minuto vale mais que uma joia inestimável. 

 

33. A Mão de Mokusen

 

Mokusen Hiki estava vivendo em um templo na província de Tamba. Um de seus seguidores reclamou da mesquinhez de sua esposa.

            Mokusen visitou a esposa do seguidor e mostrou-lhe seu punho cerrado perante a face dela.

            “O que você quer dizer com isso?” perguntou a mulher, surpresa.

            “Suponha que meu punho fosse sempre assim. Como você o chamaria?”

            “Deformado,” respondeu a mulher.

            Então ele abriu sua mão estendida na face dela e perguntou: “Suponha que a minha mão fosse sempre assim. O que seria então?”

            “Outro tipo de deformidade,” disse a esposa.

            “Se você entende isso,” concluiu Mokusen, “você é uma boa esposa.”

Então ele partiu.

            Depois da sua visita essa esposa ajudou seu marido a distribuir bem como poupar. 

 

34. Um Sorriso em Toda a Sua Vida

 

Mokugen era conhecido por não sorrir nunca, até o seu último dia na terra. Quando chegou sua hora de fazer a passagem ele disse para seus fiéis: “Vocês têm estudado comigo por mais de dez anos. Mostrem-me suas verdadeiras interpretações do Zen. Quem quer que expresse isso mais claramente será meu sucessor e receberá meu manto e tigela.”

            Todos observaram a face severa de Mokugen, mas ninguém respondeu.

            Encho, um discípulo que esteve com seu professor por muito tempo, chegou perto da cama. Ele empurrou algumas polegadas para frente a xícara de medicamento. Essa foi sua resposta.

            A face do professor tornou-se ainda mais severa. “Isso é tudo que você entende?” ele perguntou.

            Encho pegou e moveu a xícara de volta novamente.

            Um belo sorriso irrompeu-se sobre a feição de Mokugen. “Seu velhaco,” ele disse a Encho. “Você trabalhou comigo por dez anos e ainda não havia visto todo meu corpo. Tome o manto e a tigela. Eles lhe pertencem.” 

 

35. Zen de Cada Minuto

 

Os estudantes Zen ficam com os seus mestres por pelo menos dez anos antes de ousarem ensinar os outros. Nan-in foi visitado por Tenno, que, tendo passado pelo seu aprendizado, tinha se tornado um professor. Aconteceu do dia estar chuvoso, então Tenno vestia tamancos de madeira e carregava um guarda-chuva. Após cumprimentá-lo Nan-in comentou: “Suponho que você deixou os seus tamancos de madeira no vestíbulo. Quero saber se o seu guarda-chuva está do lado direito ou do lado esquerdo dos tamancos.”

            Tenno, confuso, não tinha uma resposta imediata. Ele percebeu que era incapaz de carregar o seu Zen a cada minuto. Ele tornou-se aluno de Nan-in e estudou mais seis anos para realizar seu Zen de cada minuto. 

 

36. Chuva de Flores

 

Subhuti era discípulo de Buda. Ele era capaz de entender a potência da vacuidade, o ponto de vista de que nada existe exceto em seu relacionamento de subjetividade e objetividade.

            Um dia Subhuti, em uma disposição de sublime vacuidade, estava sentado sob uma árvore. Flores começaram a cair sobre ele.

            “Nós estamos louvando-o por seu discurso sobre a vacuidade,” os deuses sussurraram-lhe.

            “Mas eu não falei da vacuidade,” disse Subhuti.

            “Você não falou da vacuidade, nós não escutamos a vacuidade,” responderam os deuses. “Essa é a verdadeira vacuidade.” E flores caíram sobre Subhuti como chuva. 

 

37. Publicando os Sutras

 

Tetsugen, um devoto do Zen no Japão, decidiu publicar os sutras, os quais naquele tempo estavam disponíveis apenas em chinês. Os livros seriam impressos com blocos de madeira, em uma edição de sete mil cópias, um tremendo empreendimento

            Tetsugen começou a viajar e coletar doações para esse propósito. Uns poucos simpatizantes deram-no uma centena de peças de ouro, mas na maioria das vezes ele recebeu somente moedas pequenas. Ele agradecia a cada doador com igual gratidão. Após dez anos, Tetsugen tinha dinheiro suficiente para começar sua tarefa.

            Aconteceu que naquela ocasião o rio Uji transbordou. A fome veio depois. Tetsugen pegou os fundos que havia coletado para os livros e gastou-os para salvar os outros da inanição. Então ele começou novamente seu trabalho de coleta.

            Vários anos depois uma epidemia espalhou-se pelo país. Tetsugen novamente doou o que havia coletado, para ajudar o seu povo.

            Uma terceira vez ele começou a sua obra, e após vinte anos seu desejo foi cumprido. Os blocos de impressão que produziram a primeira edição dos sutras podem ser vistos hoje no monastério Obaku em Kyoto.

            Os japoneses contam às suas crianças que Tetsugen fez três séries de sutras, e que os dois primeiros conjuntos invisíveis superam até o último. 

 

38. O Trabalho de Gisho

 

Gisho foi ordenada monja quando tinha dez anos de idade. Ela recebeu treinamento assim como os pequenos meninos recebiam. Quando ela atingiu a idade de dezesseis anos ela viajou de um mestre Zen para outro, estudando com todos eles.

            Ela permaneceu três anos com Unzan, seis anos com Gukei, mas era incapaz de obter uma visão clara. Por fim ela foi até o mestre Inzan.

            Inzan não lhe mostrava nenhuma distinção por conta do seu sexo. Ele a repreendia como uma tempestade. Ele esbofeteava-a para despertar a sua natureza interior.

            Gisho permaneceu com Inzan por treze anos então ela encontrou aquilo que estava procurando!

            Em sua honra, Inzan escreveu um poema:

            

            Essa monja estudou por treze anos sob minha orientação.

            Ao anoitecer ela considerava os koans mais profundos,

            De manhã ela estava envolvida em outros koans.

            A monja chinesa Tetsuma sobrepujou tudo antes dela,

            E desde Mujaku ninguém foi tão genuíno como essa Gisho!

            Ainda existem muitos outros portões para ela atravessar

            Ela deve receber ainda mais golpes do meu punho de ferro.

 

Após Gisho iluminar-se ela foi à província de Banshu, fundou seu próprio templo Zen e ensinou duas centenas de outras monjas até falecer em um ano no mês de agosto. 

 

39. Dormindo Durante o Dia

 

O mestre Soyen Shaku fez a passagem deste mundo quando tinha sessenta e um anos de idade. Cumprindo o trabalho de sua vida, ele deixou um grande ensinamento, muito mais rico que a maioria dos mestres Zen. Seus alunos costumavam dormir de dia, durante o solstício de verão, e, enquanto relevava isso, ele próprio nunca desperdiçava um minuto.

            Quando ele tinha apenas doze anos de idade, ele já estudava as especulações filosóficas Tendai. Em um dia de verão o ar estava tão mormacento que o pequeno Soyen esticou suas pernas e dormiu enquanto o seu professor estava longe.

            Três horas se passaram quando, acordando de repente, ele escutou o seu mestre entrar, mas era tarde demais. Ali jazia ele, estatelado através da entrada.

            “Desculpe-me, desculpe-me,” seu professor sussurrou, passando cuidadosamente sobre o corpo de Soyen, como se este fosse de algum convidado distinto. Depois disso, Soyen nunca dormiu à tarde novamente. 

 

40. Na Terra dos Sonhos

 

“Nosso professor costumava tirar uma soneca toda tarde,” relatava um discípulo de Soyen Shaku. “Nós crianças perguntamos por que ele fazia isso, e ele disse-nos: ‘Vou para a terra dos sonhos encontrar os velhos sábios, assim como Confúcio fazia’. Quando Confúcio dormia ele sonhava com os antigos sábios e mais tarde contava a seus seguidores a respeito deles.

            “Estava extremamente quente um dia, então alguns de nós tiramos uma soneca. Nosso professor repreendeu-nos. ‘Nós fomos para a terra dos sonhos encontrar os antigos sábios, o mesmo que Confúcio fazia,’ explicamos. ‘Qual foi a mensagem dos sábios?’ quis saber nosso mestre. Um de nós respondeu: ‘Nós fomos para a terra dos sonhos e encontramos os sábios e perguntamo-lhes se nosso mestre ia lá toda tarde, mas eles disseram que nunca haviam visto nenhum sujeito assim’.” 

 

41. O Zen de Joshu

 

Joshu começou o estudo do Zen quando ele tinha sessenta anos de idade e continuou até os oitenta, quando realizou o Zen.

            Ele ensinou a partir da idade de oitenta anos, até quando tinha cento e vinte anos.

            Um estudante perguntou-lhe uma vez: ‘Se não tenho nada em minha mente, o que devo fazer?’

            Joshu respondeu: “Jogue-a fora.”

            “Mas se eu não tenho nada, como posso jogá-la fora?” continuou o questionador.

            “Bem,” disse Joshu, “então carregue-a para fora.” 

 

 

42. A Resposta do Morto

 

Quando Mamiya, que mais tarde veio a ser um reconhecido pregador, foi a um professor em busca de orientação pessoal, a ele foi pedido que explicasse o som de uma mão.

            Mamiya concentrou-se sobre o que poderia ser o som de uma mão. “Você não está trabalhando duro o suficiente,” seu professor lhe disse. “Você está muito apegado à comida, riqueza, coisas, e àquele som. Seria melhor se você morresse. Isso resolveria o problema.”

            A próxima vez que Mamiya apareceu diante de seu professor ele foi novamente perguntado o que tinha para mostrar com respeito ao som de uma mão. Mamiya imediatamente caiu como se estivesse morto.

            “Você está muito bem morto,” observou o professor. “Mas e sobre aquele som?”

            “Ainda não resolvi aquilo,” respondeu Mamiya, olhando para cima.

            “Mortos não falam,” disse o professor. “Saia!” 

 

43. O Zen na Vida de um Mendigo

            

Tosui era um reconhecido professor Zen de seu tempo. Ele viveu em vários templos e ensinou em várias províncias.

            O último templo que ele visitou acumulou tantos discípulos que Tosui disse-lhes que pararia com as palestras. Ele aconselhou-os a dispersarem-se e irem para aonde quer que desejassem. Depois daquilo ninguém conseguia encontrar nenhum vestígio dele.

            Três anos mais tarde um de seus discípulos descobriu-o vivendo com alguns mendigos sob uma ponte em Kyoto. Ele imediatamente implorou que Tosui o ensinasse.

            “Se você conseguir fazer como eu faço por apenas alguns dias eu lhe ensinarei,” respondeu Tosui.

            Assim o antigo discípulo vestiu-se como um mendigo e passou um dia com Tosui. No dia seguinte um dos mendigos morreu. Tosui e seu aluno removeram o corpo à meia noite, e enterraram-no em uma encosta da montanha. Depois disso eles retornaram para o abrigo deles debaixo da ponte.

            Tosui dormiu profundamente o restante da noite, mas o discípulo não conseguia dormir. Quando a manhã veio, Tosui disse: “Nós não temos que mendigar comida hoje. Nosso amigo morto deixou alguma ali.” Mas o discípulo era incapaz de dar uma só mordida naquilo.

            “Eu disse que você não poderia fazer como eu,” concluiu Tosui. “Saia daqui e não me incomode novamente.” 

 

44. O Ladrão que Tornou-se um Discípulo

 

Uma noite enquanto Shichiri Kojun estava recitando sutras um ladrão com uma espada afiada entrou, demandando seu dinheiro ou sua vida.

            Shichiri disse-lhe: “Não me perturbe. Você pode encontrar o dinheiro naquela gaveta.” Então retomou sua recitação.

            Logo em seguida ele parou e gritou: “Não pegue tudo. Preciso de um pouco para pagar os impostos amanhã.” 

            O invasor recolheu a maior parte do dinheiro e começou a partir. “Agradeça a pessoa quando você recebe um presente,” Shichiri acrescentou. O homem agradeceu-lhe e fugiu.

            Alguns dias depois, o sujeito foi capturado e confessou, dentre outras coisas, a infração contra Shichiri. Quando Shichiri foi chamado como testemunha ele disse: “Este homem não é ladrão, pelo menos até onde me diz respeito. Dei-lhe o dinheiro e ele agradeceu-me por isso.”

            Depois de ter completado seu tempo na prisão, o homem foi até Shichiri e tornou-se seu discípulo.       

 

45. Certo e Errado

 

Quando Bankei realizava suas semanas de reclusão em meditação, alunos de várias partes do Japão compareciam. Durante um desses encontros, um aluno foi pego roubando. O assunto foi reportado a Bankei, com a solicitação de que o culpado fosse expulso. Bankei ignorou o caso.

            Mais tarde o aluno foi pego em outro ato similar e, novamente, Bankei desconsiderou o caso. Isso irritou os outros alunos, que elaboraram uma petição pedindo pela saída do ladrão, declarando que de outra forma eles partiriam em grupo.

            Quando Bankei leu a petição ele convocou todos diante de si. “Vocês são irmãos sábios,” disse-lhes. “Vocês sabem o que é certo e o que é errado. Vocês podem ir para qualquer outro lugar estudar, se desejam, mas esse pobre irmão nem mesmo sabe o que é certo e errado. Quem ensiná-lo-á, se eu não o fizer? Mantê-lo-ei aqui, mesmo se todos vocês partirem.”

            Uma torrente de lágrimas purificou a face do irmão que havia roubado. Todo desejo de roubar havia desaparecido. 

 

46. Como a Grama e as Árvores Tornam-se Iluminadas

 

Durante o período Kamakura, Shinkan estudou Tendai por seis anos e então estudou Zen por sete anos; então ele foi à China e contemplou o Zen por mais treze anos.

            Quando retornou ao Japão muitos desejavam entrevistá-lo e perguntavam questões obscuras. Mas quando Shinkan recebia visitantes, o que era esporádico, ele raramente respondia às suas questões.

            Um dia um estudante da iluminação com cinquenta anos de idade disse para Shinkan: “Estudei a escola Tendai de pensamento desde que eu era um garoto pequeno, mas uma coisa nela eu não consigo entender. A escola Tendai afirma que mesmo a grama e as árvores tornar-se-ão iluminadas. Para mim isso parece muito estranho.”

            “Qual a utilidade de discutir como a grama e as árvores tornam-se iluminadas?” perguntou Shinkan. “A questão é como você próprio pode tornar-se iluminado. Você já considerou isso?”

            “Nunca pensei sobre isso deste modo, maravilhou-se o velho homem.”

            “Então vá para casa e pense sobre isso,” concluiu Shinkan. 

 

47. O Artista Pão-duro

 

Gessen era um monge artista. Antes de começar um desenho ou pintura ele sempre insistia em ser pago com antecedência e seus honorários eram altos. Ele era conhecido como o ‘artista pão-duro’.

            Uma gueixa certa vez fez-lhe uma encomenda de uma pintura. “Quanto você pode pagar?” indagou Gessen.

            “Qualquer valor que você cobrar,” respondeu a garota, “mas quero que você faça a obra na minha frente.”

            Então, em um certo dia, Gessen foi chamado pela gueixa. Ela estava organizando um banquete para o seu patrono.

            Gessen fez a pintura, com um excelente trabalho de pincel. Quando ela estava concluída, ele pediu o mais alto valor do seu tempo.

            Ele recebeu seu pagamento. Então a gueixa virou-se para o seu patrono, dizendo: “Tudo que esse artista quer é dinheiro. Suas pinturas são ótimas, mas sua mente é suja; o dinheiro fez ela se tornar lamacenta. Desenhada por tal mente imunda, sua obra não é adequada de exibição. Ela só é boa o suficiente para ser uma das minhas saias de baixo.

            Removendo sua saia, ela então pediu a Gessen que fizesse outra pintura no verso da sua saia de baixo.

            “Quanto você vai pagar?” perguntou Gessen.

            “Oh, qualquer montante,” respondeu a garota.

            Gessen pediu um preço extravagante, pintou uma figura da maneira requisitada e foi embora.

            Soube-se mais tarde que Gessen tinha essas razões para desejar dinheiro:

            Uma fome assoladora frequentemente visitava a sua província. Os ricos não ajudavam os pobres, então Gessen tinha um armazém secreto, desconhecido de todos, o qual ele mantinha cheio de grãos, preparado para essas emergências.

            Da sua vila até o Santuário Nacional a estrada estava em uma condição muito ruim, e vários viajantes sofriam enquanto atravessavam-na. Ele desejava construir uma estrada melhor.

            Seu professor havia falecido sem realizar seu desejo de construir um templo, e Gessen desejava completar esse templo para ele.

            Depois de Gessen ter realizado seus três desejos, ele jogou fora seus pincéis e materiais de artista e, recolhendo-se nas montanhas, nunca pintou de novo. 

 

48. Proporção Precisa

 

Sen no Rikyu, um mestre do chá, desejava pendurar um cesto de flores em uma coluna. Ele pediu a um carpinteiro ajudá-lo direcionando-o para posicionar o cesto um pouco acima ou abaixo, à direita ou à esquerda, até encontrar o local exato. “Esse é o lugar,” disse Sen no Rikyu, finalmente.

            O carpinteiro, para testar o mestre, marcou o lugar e então fingiu que havia esquecido. “Era esse o lugar, talvez?” o carpinteiro continuou perguntando, apontando para vários locais na coluna.

            Mas era tão preciso o senso de proporção do mestre do chá que só quando o carpinteiro atingiu o local exato novamente sua localização foi aprovada. 

 

49. O Buda do Nariz Preto

 

Uma freira que estava procurando pela iluminação fez uma estátua de Buda e cobriu-a com folhas de ouro. Onde quer que fosse ela carregava esse Buda dourado consigo.

            Os anos passaram-se e, ainda carregando o seu Buda consigo, a monja vivia em um pequeno templo, em um país onde haviam muitos Budas, cada um com seu próprio altar particular.

            A monja desejava queimar incenso diante do seu Buda dourado. Não gostando da ideia do perfume se dispersar para os outros, ela inventou um funil pelo qual a fumaça ascenderia apenas para a sua estátua. Isso empreteceu o nariz do Buda dourado, tornando-o especialmente feio. 

 

50. A Clara Realização de Ryonen

 

A monja budista conhecida como Ryonen nasceu em 1797. Ela era neta do famoso guerreiro japonês Shingen. Seu gênio poético e beleza sedutora eram tais que, aos dezessete anos ela estava servindo a imperatriz como uma das damas da corte. Mesmo em tal idade juvenil, a fama a aguardava.

            A estimada imperatriz morreu subitamente e os sonhos esperançosos de Ryonen desapareceram. Ela tornou-se agudamente ciente da impermanência da vida neste mundo. Foi então que ela desejou estudar o Zen.

            Seus parentes discordaram, contudo, e praticamente forçaram-na ao matrimônio. Com uma promessa de que ela poderia tornar-se uma monja após ter parido três crianças, Ryonen consentiu. Antes dos vinte e cinco anos ela tinha cumprido essa condição. Entã, seu marido e parentes não podiam mais dissuadi-la de seu desejo. Ela raspou sua cabeça, adotou o nome de Ryonen, que significa realizar claramente, e iniciou sua peregrinação.

            Ela chegou até a cidade de Edo e pediu a Tetsugyu para aceitá-la como uma discípula. Com um golpe de vista o mestre rejeitou-a, pois ela era muito bonita.

            Ryonen então foi até outro mestre, Hakuo. Hakuo recusou-a pela mesma razão, dizendo que sua beleza iria apenas criar transtorno.

            Ryonen obteve um ferro quente e colocou-o contra sua face. Em poucos segundos sua beleza havia sumido para sempre.

            Hakuo, então, aceitou-a como uma discípula.

            Comemorando esta ocasião, Ryonen escreveu um poema no verso de um pequeno espelho:

 

Ao serviço de minha Imperatriz queimei incenso para perfumar minhas roupas requintadas,

Agora como uma mendicante sem teto queimo minha face para entrar em um templo Zen.

 

            Quando Ryonen estava prestes a passar deste mundo ela escreveu outro poema:

 

Sessenta e seis vezes contemplaram esses olhos a cena mutável do outono.

Eu disse o suficiente a respeito da luz da lua,

Não peça mais.

Apenas escute a voz dos pinheiros e cedros quando nenhum vento os agita. 

 

51. Missô Azedo

 

O monge cozinheiro Dairyo, do monastério de Bankei, decidiu cuidar bem da saúde do seu velho professor e dar-lhe somente missô fresco – uma pasta de grãos de soja misturada com trigo e levedura que fermenta com frequência. Bankei, notando que estava sendo servido com um missô melhor do que o de seus alunos, perguntou: “Quem é o cozinheiro hoje?.”

            Dairyo foi enviado diante dele. Bankei ficou sabendo que, de acordo com sua idade e posição, deveria comer apenas missô fresco. Então ele disse ao cozinheiro: “Então você pensa que não devo comer em absoluto.” Com isso, ele entrou em seu quarto e trancou a porta.

            Dairyo, sentando-se do lado de fora da porta, pediu perdão ao seu professor. Bankei não respondia. Por sete dias, Dairyo sentou-se do lado de fora e Bankei do lado de dentro.

            Finalmente, em desespero, um discípulo gritou alto para Bankei: “Você pode estar certo, velho professor, mas esse jovem discípulo aqui tem que comer. Ele não pode continuar sem comida para sempre!”

            Com isso Bankei abriu a porta. Ele estava sorrindo. Ele disse a Dairyo: “Insisto em comer a mesma comida que o mais limitado de meus seguidores. Quando você tornar-se o professor não quero que esqueça isso.” 

 

52. Sua Luz Pode Extinguir-se

 

Um estudante de Tendai, uma escola filosófica do budismo, foi até a morada Zen de Gasan como um aluno. Quando ele estava partindo alguns anos mais tarde, Gasan advertiu-o: “Estudar a verdade especulativamente é útil como um caminho para coletar material de pregação. Mas lembre-se que, a menos que você medite constantemente, sua luz da verdade pode extinguir-se.” 

 

53. O Doador Deve ser Grato

 

Enquanto Seisetsu era o mestre de Engaku, em Kamakura, ele requeriu um alojamento maior, já que aquele no qual ele estava ensinando estava superlotado. Umezu Seibei, um mercador de Edo, decidiu doar quinhentas peças de ouro, chamadas ryo, para a construção de uma escola mais cômoda. Ele levou esse dinheiro até o professor.

            Seisetsu disse: “Tudo bem. Aceitarei-o.”

            Umezu deu a Seisetsu o saco de ouro, mas ele ficou insatisfeito com a atitude do professor. Uma pessoa poderia viver um ano inteiro com três ryo, e o mercador não foi nem mesmo agradecido pelos quinhentos.

            “Naquele saco estão quinhentos ryo,” insinuou Umezu.

            “Você me disse isso antes,” respondeu Seisetsu.

            “Mesmo eu sendo um rico mercador, quinhentos ryo é muito dinheiro,” disse Umezu.

            “Você quer que eu o agradeça por isso?” perguntou Seisetsu.

            “Você deveria,” respondeu Umezu.

            “Por que eu deveria?” perguntou Seisetsu. “O doador deve ser grato.” 

 

54. A Última Vontade e Testamento

 

Ikkyu, um famoso professor Zen da Era Ashikaga, era o filho do imperador. Quando era muito jovem sua mãe deixou o palácio e foi estudar Zen em um templo. Desta maneira o príncipe Ikkyu também tornou-se um estudante. Quando sua mãe faleceu, ela deixou com uma carta com ele. Nesta lia-se:

            

Para Ikkyu:

Terminei meu trabalho nessa vida e estou agora retornando para a Eternidade. Desejo que você se torne um bom estudante e que realize sua natureza búdica. Você saberá se estou no inferno e se estou sempre com você ou não.

 Se você se tornar um homem que entende que o Buda e seu seguidor Bodidarma são seus próprios servos, você pode deixar de estudar e trabalhar para a humanidade. O Buda pregou por quarenta e nove anos e, em todo esse tempo não achou necessário dizer uma palavra. Você deve saber porquê. Mas se você não sabe e ainda deseja, evite pensar infrutiferamente.

 

Sua Mãe,

                       Não nascida, não morta.

                                                                     Primeiro de Setembro.

 

P.S.: O ensinamento de Buda tinha o propósito principal de iluminar os outros. Se você é dependente de qualquer um de seus métodos, você não é nada além de um inseto ignorante. Existem 80.000 livros sobre Budismo e, se você deve ler todos eles e ainda assim não vê sua própria natureza, você não entenderá nem mesmo essa carta. Essa é a minha vontade e testamento. 

 

55. O Mestre de Chá e o Assassino

 

Taiko, um guerreiro que viveu no Japão antes da Era Tokugawa, estudou Cha-no-yu, a etiqueta do chá, com Sen no Rikyu, um professor dessa expressão estética da calmaria e do contentamento.

            Kato, o guerreiro assistente de Taiko, interpretou o entusiasmo do seu superior pela etiqueta do chá como negligência aos assuntos do estado, então decidiu matar Sen no Rikyu. Ele fingiu fazer uma visita social ao mestre e foi convidado para beber chá.

            O mestre, que era bem qualificado na sua arte, viu de imediato a intenção do guerreiro, então convidou Kato a deixar sua espada do lado de fora, antes de entrar na sala para a cerimônia, explicando que o Cha-no-yu representa a própria paz.

            Kato não deu ouvidos a isso. “Sou um guerreiro,” ele disse. “Sempre tenho minha espada comigo. Com Cha-no-yu ou sem Cha-no-yu, fico com a minha espada.”

            “Muito bem. Traga sua espada para dentro e tome um pouco de chá,” consentiu Sen no Rikyu.

            A chaleira estava fervendo sobre o fogo do carvão. Subitamente, Sen no Rikyu tombou-a. Um vapor sibilante ergueu-se, preenchendo a sala com fumaça e cinzas. O guerreiro assustado correu para o lado de fora.

            O mestre de chá desculpou-se. “O erro foi meu. Volte para dentro e tome um pouco de chá. Estou com a sua espada aqui coberta de cinzas, vou limpá-la e entregá-la para você.”

            Nesse apuro o guerreiro realizou que não poderia matar o mestre de chá, então desistiu da ideia. 

 

56. O Caminho Verdadeiro

 

Logo antes de Ninakawa falecer o mestre Zen Ikkyu visitou-o. “Devo conduzi-lo?” Ikkyu perguntou.

            Ninakawa respondeu: “Cheguei aqui sozinho e vou voltar sozinho. Que tipo de ajuda você poderia dar-me?”

            Ikkyu respondeu: “Se você pensa que realmente vem e vai, essa é a sua delusão. Deixe-me mostrar-lhe o caminho no qual não há vinda e nem ida.”

            Com suas palavras, Ikkyu havia revelado o caminho tão claramente que Ninakawa sorriu e fez a passagem. 

 

57. Os Portões do Paraíso

 

Um soldado chamado Nobushige foi até Hakuin e perguntou: “Existe realmente um paraíso e um inferno?”

            “Quem é você?” perguntou Hakuin.

            “Sou um samurai,” o guerreiro respondeu.

            “Você, um soldado!” exclamou Hakuin. “Que tipo de governante teria você como seu guarda? Sua face parece a de um mendigo.”

            Nobushige ficou tão bravo que começou a sacar sua espada, mas Hakuin continuou: “Então você tem uma espada! Sua arma provavelmente é muito cega para cortar a minha cabeça fora.”

            Enquanto Nobushige sacava sua espada Hakuin comentou: “Aqui abrem-se os portões do inferno!”

            Com essas palavras o samurai, percebendo a disciplina do mestre, embainhou sua espada e curvou-se.

            “Aqui abrem-se os portões do paraíso,” disse Hakuin.

 

58. Prendendo o Buda de Pedra

 

Um mercador que carregava cinquenta rolos de mercadorias de algodão em seus ombros, parou para descansar do calor do dia debaixo de um abrigo, onde existia um grande Buda de pedra em pé. Ali ele caiu no sono, e, quando acordou, suas mercadorias haviam desaparecido. Ele imediatamente notificou o caso para a polícia.

            Um juiz chamado O-oka abriu o tribunal para investigar. “Aquele Buda de pedra deve ter roubado as mercadorias,” concluiu o juiz. “Ele deveria cuidar do bem estar das pessoas, mas ele falhou em cumprir seu dever sagrado. Prendam-no.”

            A polícia prendeu o Buda de pedra e carregou-o até a corte. Uma multidão barulhenta seguiu a estátua, curiosa em saber que tipo de sentença o juiz estava prestes a impor.

            Quando O-oka apareceu no tribunal ele repreendeu o público tempestuoso. “Que direito vocês têm de aparecer diante da corte, rindo e brincando desta maneira? Vocês estão desprezando a corte e estão sujeitos a uma multa e aprisionamento.” 

            As pessoas apressaram-se em desculpar-se. “Eu deveria impor uma multa a vocês,” disse o juiz, “mas vou perdoar isso, desde que cada um de vocês traga um rolo de pano de algodão para a corte, dentro de três dias. Qualquer um que falhar nisso será preso.”

            Um dos rolos de pano que as pessoas trouxeram foi rapidamente reconhecido pelo mercador como seu, e, deste modo, o ladrão foi facilmente descoberto. O mercador recuperou suas mercadorias e os rolos de algodão foram devolvidos para as pessoas. 

 

59. Soldados da Humanidade

 

Certa vez uma divisão do exército japonês estava engajada em uma batalha simulada e alguns dos oficiais acharam necessário fazer seu quartel-general no templo de Gasan.

            Gasan disse ao seu cozinheiro: “Deixe que os oficiais tenham somente a mesma refeição simples que nós comemos.”

            Isso deixou os homens do exército zangados, pois eles estavam acostumados a um tratamento muito reverente. Um deles foi até Gasan e disse: “Quem você pensa que nós somos? Nós somos soldados, sacrificando nossas vidas pelo nosso país. Por que você não nos trata de acordo?

            Gasan respondeu severamente: “Quem você pensa que nós somos? Somos soldados da humanidade visando salvar todos os seres sencientes.” 

 

60. O Túnel

 

Zenkai, o filho de um samurai, viajou para Edo, e ali tornou-se o servidor de um alto oficial. Ele apaixonou-se pela esposa do oficial e foi descoberto. Em legítima defesa, ele matou o oficial. Então ele fugiu com a esposa.

            Ambos tornaram-se ladrões. Mas a mulher era tão gananciosa que Zenkai ficou enojado. Finalmente deixando-a ele viajou para longe, até a província de Buzen, onde tornou-se um mendigo errante.

            Para redimir-se de seu passado Zenkai resolveu realizar alguns atos bons ao longo de sua vida. Sabendo de uma estrada perigosa sobre um penhasco que havia causado a morte e ferimentos a muitas pessoas ele resolveu cavar um túnel através da montanha ali.

            Mendigando comida durante o dia, Zenkai trabalhava à noite cavando seu túnel. Quando trinta anos haviam se passado, o túnel tinha 695 metros de comprimento, 6 metros de altura e 9 metros de largura.

            Dois anos antes do trabalho ser completado, o filho do oficial que ele havia matado, que era um habilidoso espadachim, descobriu Zenkai, e veio para matá-lo por vingança.

            “Dar-te-ei vou a minha vida voluntariamente,” disse Zenkai. “Apenas permita-me acabar esse trabalho. No dia que ele for completado, então você pode me matar.”

            Assim o filho esperou pelo dia. Vários meses se passaram e Zenkai continuou cavando. O filho ficou cansado de não fazer nada e começou a ajudar com a escavação. Depois de ter ajudado por mais de um ano ele passou a admirar a força de vontade e o caráter de Zenkai.

            Finalmente o túnel foi completado e as pessoas podiam usá-lo e viajar em segurança.

            “Agora corte a minha cabeça fora,” disse Zenkai. “Meu trabalho está feito.”

            “Como posso cortar fora a cabeça do meu próprio professor?” perguntou o jovem homem, com lágrimas em seus olhos.

 

61. Gudo e o Imperador

 

O imperador Goyozei estava estudando o Zen com Gudo. Ele perguntou: “No Zen essa própria mente é Buda. Isso está correto?”

            Gudo respondeu: “Se eu disser sim, você pensará que entendeu sem entender. Se eu disser não, eu estaria contradizendo um fato que muitos entendem muito bem.”

            Noutro dia o imperador perguntou a Gudo: “Para onde o homem iluminado vai quando morre?”

            Gudo respondeu: “Eu não sei.”

            “Por que você não sabe?” perguntou o imperador.

            “Porque não morri ainda,” respondeu Gudo.

            O imperador hesitou em indagar mais sobre essas coisas que sua mente não podia apreender. Então Gudo bateu no chão com sua mão, como se para despertá-lo, e o imperador iluminou-se!

            O imperador respeitou o Zen e o velho Gudo mais do que nunca depois da sua iluminação e até permitiu que Gudo vestisse seu chapéu no palácio durante o inverno. Quando Gudo estava com mais de oitenta anos ele costumava cair no sono no meio de sua palestra e o imperador se retirava silenciosamente para outro quarto, então seu amado professor poderia desfrutar do descanso que seu envelhecido corpo exigia.

 

62. Nas Mãos do Destino

 

Um grande guerreiro japonês chamado Nobunaga decidiu atacar o inimigo, embora tivesse apenas um décimo do número de homens do exército inimigo. Ele sabia que venceria, mas seus soldados estavam em dúvida.

            No caminho ele parou em um santuário Shinto e disse aos seus homens: “Depois de visitar o santuário eu lançarei uma moeda. Se der cara, nós vencerem; se der coroa, nós perderemos. O destino têm-nos em sua mão.”

            Nobunaga entrou no santuário e ofereceu uma prece silenciosa. Ele veio à frente e lançou uma moeda. Deu cara. Seus soldados ficaram tão ávidos para lutar que eles venceram sua batalha facilmente.

            “Ninguém pode alterar a mão do destino,” seu assistente disse-lhe após a batalha.

            “Realmente não,” disse Nobunaga, mostrando uma moeda que fora duplicada, com caras estampadas de ambos os lados. 

 

63. Matando

 

Gasan instruiu seus seguidores um dia: “Aqueles que falam contra o matar e que desejam poupar as vidas de todos os seres conscientes estão certos. É bom proteger até os animais e os insetos. Mas e as pessoas que matam o tempo, as que estão destruindo as riquezas, e as que destroem a economia política? Nós não devemos as negligenciar. Além disso, e a que prega sem a iluminação? Ela está matando o budismo.” 

 

64. Kasan Suou

 

Kasan foi convidado a presidir no funeral de um lorde provincial.

            Ele nunca tinha encontrado lordes e nobres antes, então ele estava nervoso. Quando a cerimônia começou, Kasan suou.

            Em seguida, quando retornou, ele reuniu seus alunos. Kasan confessou que ainda não estava qualificado para ser um professor, pois não possuía a uniformidade de  comportamento no mundo da fama que ele possuía no templo recluso. Então Kasan renunciou, e tornou-se aluno de outro mestre. Oito anos mais tarde ele retornou para os seus antigos alunos iluminado. 

 

65. A Subjugação de um Fantasma

 

Uma jovem esposa ficou doente e estava prestes a morrer. “Eu te amo tanto,” ela disse a seu marido, “Não quero o deixar. Não tenha nenhuma outra mulher. Se você tiver retornarei como um fantasma e lhe causarei transtornos sem fim.”

            Logo a esposa faleceu. O marido respeitou seu último desejo pelos primeiros três meses, mas então ele encontrou outra mulher e apaixonou-se por ela. Eles noivaram.

            Imediatamente após o noivado um fantasma aparecia toda noite para o homem, culpando-o por não manter sua promessa. O fantasma era esperto também. Ele contou-lhe, exatamente, o que havia ocorrido entre ele próprio e sua nova amada. Sempre que ele dava à sua noiva um presente, o fantasma descrevê-lo-ia em detalhe. Ele até repetia as conversas, e isso também irritava o homem, que não conseguia dormir. Alguém o aconselhou a levar o seu problema até um mestre Zen que vivia perto da vila. Finalmente, em desespero, o pobre homem foi até ele pedindo ajuda.

            “Sua antiga esposa tornou-se um fantasma e sabe tudo o que você faz,” comentou o mestre. “O que quer que você faça ou diga, o que quer que você dá à sua amada, ele sabe. Ele deve ser um fantasma muito sábio. Realmente, você deveria admirar esse fantasma. A próxima vez que ele aparecer, barganhe com ele. Diga-lhe que ele sabe tanto, que você não consegue esconder nada dele, e que se ele lhe responder uma questão, você promete romper o seu noivado e permanecer solteiro.”

            “Qual é a questão que devo fazer a ele?” perguntou o homem.

            O mestre respondeu: “Pegue um punhado grande de grãos de soja e pergunte quantos grãos exatamente você segura em sua mão. Se ele não conseguir lhe dizer, você saberá que ele é somente um fragmento da sua imaginação, e não irá o incomodar mais.”

            Na noite seguinte, quando o fantasma apareceu, o homem o bajulou e disse-lhe que ele sabia tudo.

            “De fato,” respondeu o fantasma, “e sei que você foi ver aquele mestre Zen hoje.”

            “E já que você sabe tanto,” demandou o homem, “conte-me quantos grãos eu seguro nessa mão!”

            Não havia mais nenhum fantasma para responder a questão.

 

66. As Crianças de Sua Majestade

 

Yamaoka Tesshu era um tutor do imperador. Ele também era um mestre de esgrima e um profundo estudante do Zen.

            Seu lar era a morada dos vagabundos. Ele tinha apenas um conjunto de roupas, pois eles mantinham-no sempre pobre.

            O imperador, observando quão gastas estavam suas vestes, deu a Yamaoka algum dinheiro para comprar novas. A próxima vez que Yamaoka apareceu, ele vestia a mesma roupa velha.

            “O que aconteceu com as roupas novas, Yamaoka?” perguntou o imperador.

            “Providenciei roupas para as crianças de Sua Majestade,” explicou Yamaoka. 

 

67. O Que Você Está Fazendo? O Que Você Está Dizendo?

 

Nos tempos modernos diz-se uma grande quantidade de absurdos a respeito dos mestres e discípulos, e sobre a herança dos ensinamentos de um mestre pelos alunos favoritos, autorizando-os a passar a verdade para os seus seguidores. É claro que o Zen deveria ser transmitido dessa maneira, de coração para coração, e no passado isso era realmente feito. Silêncio e humildade reinavam, em vez de profissão e afirmação. Aquele que recebia tal ensinamento mantinha a questão oculta, até mesmo após vinte anos. Só depois que alguém descobria através de sua própria necessidade que um mestre verdadeiro estava disponível aprendia-se que o ensinamento havia sido transmitido, e mesmo assim a ocasião surgia muito naturalmente e o ensinamento fazia o seu próprio caminho. Em nenhuma circunstância o professor clamaria “Sou o sucessor de fulano de tal.” Esta afirmação provaria totalmente o contrário.

            O mestre Zen Mu-nan tinha apenas um sucessor. Seu nome era Shoju. Após Shoju ter completado seu estudo do Zen, Mu-nan chamou-o em seu quarto. “Estou ficando velho,” ele disse, “e até onde eu sei, Shoju, você é o único que continuará esse ensinamento. Aqui está um livro. Ele foi passado de mestre para mestre por sete gerações. Também adicionei muitos pontos, de acordo com o meu entendimento. O livro é muito valioso e estou dando-lhe para representar a sua sucessão.”

            “Se o livro é uma coisa tão importante, seria melhor você mantê-lo,” Shoju respondeu. “Eu recebi seu Zen sem escritos e estou satisfeito com ele como ele é.”

            “Eu sei disso,” disse Mu-nan. “Mesmo assim, esse trabalho tem sido levado de mestre para mestre por sete gerações, então você pode mantê-lo como um símbolo de ter recebido o ensinamento. Aqui.”

            Ocorreu dos dois estarem falando diante de uma fornalha. No momento em que Shoju sentiu o livro em suas mãos ele lançou-o nos carvões flamejantes. Ele não tinha cobiça por posses.

            Mu-nan, que nunca havia tido raiva antes gritou: “O que você está fazendo?”

            Shoju gritou de volta: “O que você está dizendo?”

 

68. Uma Nota de Zen

 

Após Kakua visitar o imperador ele desapareceu, e ninguém sabia o que havia acontecido com ele. Ele foi o primeiro japonês a estudar Zen na China, mas uma vez que ele não mostrou nada sobre isso, salvo uma nota, ele não é lembrado por ter trazido o Zen para o seu país.

            Kakua visitou a China e aceitou o verdadeiro ensinamento. Ele não viajou enquanto esteve lá. Meditando constantemente, ele viveu em uma parte remota de uma montanha. Sempre que as pessoas o encontravam e pediam para que pregasse, ele dizia umas poucas palavras e então movia-se para outra parte da montanha, onde não poderia ser encontrado facilmente.

            O imperador ouviu falar sobre Kakua quando este retornou para o Japão e pediu-lhe que pregasse o Zen para a sua edificação e de seus súditos.

            Kakua ficou diante do imperador em silêncio. Então ele fez aparecer uma flauta das dobras do seu manto e soprou uma nota curta. Curvando-se polidamente, ele desapareceu. 

 

69. Comendo a Culpa

 

Surgiram circunstâncias certo dia que atrasaram a preparação do jantar de Fugai, um mestre de Soto Zen, e seus seguidores. Na pressa o cozinheiro foi até o jardim com sua faca curvada e cortou fora os topos de vegetais verdes, picou eles juntos, e fez uma sopa, inconsciente que, em sua pressa, havia incluído uma parte de uma cobra nos vegetais.

            Os seguidores de Fugai pensaram nunca ter provado uma sopa tão boa. Porém, quando o próprio mestre encontrou a cabeça da cobra em sua tigela, ele convocou o cozinheiro. “O que é isso?” ele perguntou, levantando a cabeça da cobra.

            “Oh, obrigado, mestre,” respondeu o cozinheiro, pegando o pedaço e comendo-o rapidamente. 

 

70. A Coisa Mais Valiosa do Mundo

 

Um estudante perguntou para Sozan, um mestre Zen chinês: “Qual é a coisa mais valiosa do mundo?”

            O mestre respondeu: “A cabeça de um gato morto.”

            “Por que a cabeça de um gato morto é a coisa mais valiosa do mundo?” perguntou o estudante.

            Sozan respondeu: “Pois ninguém pode dizer o seu preço.” 

 

71. Aprendendo a Ser Silencioso

 

Os alunos da escola Tendai costumavam estudar meditação antes do Zen entrar no Japão. Quatro deles que eram amigos íntimos prometeram guardar sete dias de silêncio.

            No primeiro dia todos ficaram silenciosos. A meditação deles havia começado auspiciosamente, mas quando a noite chegou e as lamparinas de óleo estavam ficando fracas, um dos alunos não pôde evitar de exclamar para um servo: “Conserte essas lamparinas!”

            O segundo aluno ficou surpreso ao ouvir o primeiro falar. “Nós não deveríamos dizer uma palavra…,” ele comentou.

            “Vocês dois são estúpidos. Por que vocês falaram?” perguntou o terceiro.

            “Sou o único que não falou,” concluiu o quarto aluno. 

 

72. O Lorde Cabeça-dura

 

Dois professores de Zen, Daigu e Gudo, foram convidados para visitar um lorde. Ao chegarem, Gudo disse ao lorde: “Você é sábio por natureza e tem uma habilidade inata para aprender o Zen.”

            “Absurdo,” disse Daigu. “Por que você bajula esse cabeça-dura?” Ele pode ser um lorde, mas não sabe nada de Zen.”

            Então, em vez de construir um templo para Gudo, o lorde construiu-o para Daigu e estudou Zen com ele. 

 

73. Dez Sucessores

 

Os alunos do Zen fazem um voto de que, mesmo se forem mortos por seu professor, eles pretendem aprender o Zen. Usualmente eles cortam um dedo e selam sua decisão com sangue. Com o tempo o voto tornou-se uma mera formalidade e por essa razão o aluno que morreu pelas mãos de Ekido aparece como um mártir.

            Ekido tornou-se professor severo. Seus alunos temiam-no. Um deles, em serviço, batendo o gongo para dizer a hora do dia, perdeu a conta das batidas quando seu olho foi atraído por uma linda garota que passava pelo portão do templo.

            Naquele momento Ekido, que estava diretamente atrás dele, atingiu-o com um bastão, e ocorreu do impacto matá-lo.

            O guardião do aluno, ouvindo sobre o acidente, foi diretamente até Ekido. Sabendo que ele não era culpado, ele louvou o mestre por seu ensinamento severo. A atitude de Ekido era a mesma, como se o aluno ainda estivesse vivo.

            Depois disso acontecer ele foi capaz de produzir mais de dez sucessores iluminados sob sua orientação, um número muito incomum.

 

74. Verdadeira Melhora

 

Ryokan devotou sua vida ao estudo do Zen. Um dia ele ouviu que seu sobrinho, apesar das advertências dos parentes, estava gastando seu dinheiro com uma cortesã. Considerando que o sobrinho havia tomado o lugar de Ryokan na administração do patrimônio da família e as propriedades estavam em perigo de serem dilapidadas, os parentes pediram para que Ryokan fizesse algo a respeito disso.

            Ryokan teve que viajar por um longo caminho para visitar o sobrinho que não via há muitos anos. O sobrinho pareceu contente ao reencontrar seu tio e convidou-o para passar a noite.

            A noite toda Ryokan sentou-se em meditação. Ao partir pela manhã ele disse para o rapaz: “Devo estar ficando velho, minha mão treme tanto. Você pode ajudar-me a amarrar o cordão da minha sandália de palha?”

            O sobrinho ajudou-o prontamente. “Obrigado,” concluiu Ryokan, “veja, um homem torna-se mais velho e mais frágil a cada dia. Cuide-se bem.” Então Ryokan partiu, sem mencionar uma palavra sobre a cortesã ou sobre as reclamações dos parentes. Mas, a partir daquela manhã, os desperdícios do sobrinho acabaram.

 

75. Temperamento

 

Um estudante Zen foi até Bankei e reclamou: “Mestre, tenho um temperamento incontrolável. Como posso curá-lo?”

            “Você tem algo muito estranho,” respondeu Bankei. “Deixe-me ver o que você tem.”

            “Justamente agora eu não posso mostrá-lo a você,” respondeu o outro.

            “Quando você pode mostrá-lo para mim?” perguntou Bankei.

            “Ele surge inesperadamente,” respondeu o estudante.

            “Então,” concluiu Bankei, “isso não deve ser sua própria natureza verdadeira. Se fosse você poderia mostrá-la a mim a qualquer hora. Quando nasceu você não a tinha e seus pais não a deram para você. Reflita sobre isso.”

 

76. A Mente de Pedra

 

Hogen, um professor Zen chinês, vivia sozinho em um pequeno templo no interior. Um dia quatro monges viajantes apareceram e perguntaram se poderiam fazer uma fogueira em seu quintal para se aquecerem.

            Enquanto eles estavam construindo a fogueira, Hogen escutou-os discutindo sobre subjetividade e objetividade. Ele juntou-se a eles e disse: “Há ali uma grande pedra. Vocês consideram que ela está dentro ou fora das suas mentes?”

            Um dos monges respondeu: “Do ponto de vista budista, tudo é uma objetificação da mente, então eu diria que a pedra está dentro da minha mente.”

            “Sua cabeça deve estar muito pesada,” observou Hogen, “se você está carregando por aí uma pedra como aquela em sua mente.”

 

77. Sem Apego ao Pó

 

Zengetsu, um mestre chinês da dinastia T’ang, escreveu o seguinte conselho para seus alunos:

            Viver no mundo, e, contudo, não formar apegos à poeira do mundo é o caminho de um verdadeiro estudante Zen.

            Quando testemunhar a boa ação de outrem, encoraje-se a seguir o seu exemplo. Ao ouvir sobre a ação errônea de outrem, aconselhe-se a não a imitar.

            Mesmo sozinho em um quarto escuro, esteja como se estivesse encarando um convidado nobre. Expresse seus sentimentos, mas não se torne mais expressivo que sua verdadeira natureza.

            A pobreza é o seu tesouro. Nunca a troque por uma vida fácil.

            Uma pessoa pode parecer tola, embora não seja. Ela pode apenas estar guardando sua sabedoria cuidadosamente.

            As virtudes são o fruto da autodisciplina e não caem do céu por si mesmas, como a chuva ou a neve.

            A modéstia é a fundação de todas as virtudes. Deixe que seus vizinhos descubram-no, antes de fazer-se conhecido a eles.

            Um coração nobre nunca força a si mesmo para frente. Suas palavras são como joias raras, dificilmente exibidas e de grande valor.

            Para um estudante sincero, todo dia é um dia feliz. O tempo passa, mas ele nunca fica para trás. Nem a glória nem a vergonha podem movê-lo.

            Censure a si mesmo, nunca aos outros. Não discuta o certo e o errado.

            Algumas coisas, embora certas, foram consideradas erradas por gerações. Já que o valor da retidão pode ser reconhecido após séculos, não há necessidade de almejar uma apreciação imediata.

            Viva com um ideal e deixe os resultados para a grande lei do universo. Passe todos os dias em pacífica contemplação.

 

 

78. Prosperidade Verdadeira

 

Um homem rico pediu que Sengai escrevesse alguma coisa para a contínua prosperidade de sua família, para que ela fosse estimada de geração em geração.

            Sengai conseguiu uma grande folha de papel e escreveu: “Morre o pai, morre o filho, morre o neto.”

            O homem rico ficou bravo. “Pedi-lhe que escrevesse algo para a felicidade da minha família! Por que você faz uma piada tal como essa?”

            “Eu não tinha em mente nenhuma piada,” explicou Sengai. “Se antes de você mesmo morrer o seu filho vier a morrer, isso lhe afligiria grandemente. Se o seu neto vier a falecer antes do seu filho, ambos ficariam com o coração partido. Se sua família, geração após geração, falecer na ordem que apontei, será o curso natural da vida. Chamo isso de prosperidade verdadeira.”

 

79. Incensário

 

Uma mulher de Nagasaki chamada Kame era uma das poucas fabricantes de incensários no Japão. Tal incensário é uma obra de arte para ser usada apenas em uma sala de chá, ou diante de um santuário familiar.

            Kame, cujo pai antes dela havia sido um grande artista, gostava de beber. Ela também fumava e associava-se com homens a maior parte do tempo. Sempre que ela fazia um pouco de dinheiro, ela dava um banquete convidando artistas, poetas, carpinteiros, trabalhadores, homens de várias vocações e ocupações. Na companhia deles ela desenvolvia os seus projetos.

            Kame era excessivamente lenta ao criar, mas quando o seu trabalho estava terminado era sempre uma obra-prima. Seus incensários eram estimados nas casas em que as mulheres nunca bebiam, fumavam, ou associavam-se livremente com homens.

            O prefeito de Nagasaki certa vez solicitou a Kame que projetasse um incensário para ele. Ela atrasou o trabalho, até quase meio ano ter se passado. Naquele momento o prefeito, que havia sido promovido para um escritório em uma cidade distante, visitou-a. Ele insistiu que Kame começasse a trabalhar em seu incensário.

            Finalmente, recebendo a inspiração, Kame fez o incensário. Após completá-lo, ela colocou-o sobre uma mesa. Ela olhou-o por muito tempo e cuidadosamente. Ela fumou e bebeu diante dele, como se ele fosse sua própria companhia. O dia todo ela observou-o.

            Finalmente, pegando um martelo, Kame destruiu-o em pedaços. Ela viu que aquilo não era a criação perfeita que sua mente exigia.

 

80. O Milagre Real

 

Quando Bankei estava pregando no templo Ryumon, um sacerdote Shinshu, que acreditava na salvação pela repetição do nome do Buda do Amor, estava enciumado com seu grande público e quis debater com ele.

            Bankei estava no meio de uma fala quando o sacerdote apareceu, mas o sujeito fez tamanha confusão que Bankei parou seu discurso e perguntou sobre o barulho.

            “O fundador da nossa seita,” o sacerdote gabou-se, “tinha poderes tão miraculosos que ele segurava um pincel em sua mão em uma margem do rio, seu assistente segurava um papel na outra margem, e o professor escrevia o nome sagrado de Amida através do ar. Você consegue fazer uma coisa tão maravilhosa assim?

            Bankei respondeu suavemente: “Por um acaso a sua raposa pode realizar esse truque, mas essa não é a maneira do Zen. Meu milagre é que quando sinto fome eu como, e quando sinto sede eu bebo.”

 

81. Apenas Vá Dormir

 

Gasan estava sentado ao lado da cama de Tekisui, três dias antes do falecimento de seu professor. Tekisui já o havia escolhido como seu sucessor.

            Recentemente um templo havia queimado e Gasan estava ocupado reconstruindo a estrutura. Tekisui perguntou-o: “O que você vai fazer quando reconstruir o templo?”

            “Quando sua doença terminar, queremos que você fale lá,” disse Gasan.

            “Suponha que eu não viva até lá?”

            “Então conseguiremos outra pessoa,” respondeu Gasan.

            “Suponha que vocês não consigam encontrar ninguém?” continuou Tekisui.

            Gasan respondeu em voz alta: “Não pergunte tais questões tolas. Apenas vá dormir.”

 

82. Nada Existe

 

Yamaoka Tesshu, um jovem estudante do Zen, visitou um mestre após o outro. Ele chamou Dokuon de Shokoku.

            Desejando mostrar sua realização, ele disse: “A mente, o Buda e os seres sencientes, no final das contas, não existem. A verdadeira natureza dos fenômenos é a vacuidade. Não há realização, delusão, sábio, mediocridade. Não há doação e nada a ser recebido.”

            Dokuon, que estava fumando quietamente, não disse nada. Subitamente, ele golpeou Yamaoka com seu cachimbo de bambu. Isso deixou o jovem bastante irritado.

            “Se nada existe,” perguntou Dokuon, “de onde veio essa raiva?”

 

83. Sem Trabalho, Sem Comida

 

Hyakujo, o mestre Zen chinês, costumava trabalhar com seus alunos até mesmo na idade de oitenta anos, aparando os jardins, limpando os terrenos e podando as árvores.

            Os alunos sentiam pena de ver o velho professor trabalhando tão duro, mas sabiam que ele não escutaria o conselho deles de parar, então eles esconderam suas ferramentas.

            Naquele dia o mestre não comeu. No dia seguinte ele também não comeu, nem no próximo. “Ele pode estar bravo porque escondemos suas ferramentas,” os alunos presumiram. “Seria melhor devolvê-las.”

            No dia que eles devolveram-nas o professor trabalhou e comeu o mesmo que antes. À noite ele instruiu-os: “Sem trabalho, sem comida.”

 

84. Verdadeiros Amigos

 

Há muito tempo atrás na China, havia dois amigos, um que tocava harpa habilmente e um que escutava habilmente.

            Quando um tocava ou cantava sobre uma montanha, o outro diria: “Posso ver a montanha diante de nós.”

            Quando o outro tocava acerca da água, o ouvinte exclamaria: “Aqui está a correnteza!”

            Mas o ouvinte ficou doente e morreu. O primeiro amigo cortou as cordas da sua harpa e nunca mais tocou. Desde aquela época, cortar as cordas da harpa tem sido sempre um sinal de íntima amizade.

 

85. Hora de Morrer

 

Ikkyu, o mestre Zen, era muito esperto, até mesmo quando menino. Seu professor tinha uma xícara de chá preciosa, uma rara antiguidade. Ocorreu de Ikkyu quebrar essa xícara e ficar bastante perplexo. Escutando os passos do seu professor, ele segurou os pedaços da xícara atrás de si. Quando o mestre apareceu Ikkyu perguntou: “Por que as pessoas têm que morrer?”

            “Isso é natural,” explicou o velho homem. “Tudo tem que morrer e tudo vive apenas até a morte.”

            Ikkyu, mostrando a xícara despedaçada, adicionou: “Era a hora da sua xícara morrer.”

 

86. O Buda Vivo e o Fabricante de Banheiras

 

Os mestres Zen dão orientação pessoal em uma sala isolada. Ninguém entra enquanto professor e aluno estão juntos.

            Mokurai, o mestre Zen do templo Kennin, em Kyoto, costumava gostar de falar com mercadores e jornaleiros assim como seus alunos.

Um certo fabricante de banheiras era quase analfabeto. Ele fazia questões tolas para Mokurai, tomava chá, e então ia embora.

            Um dia, enquanto o fabricante de banheiras estava lá, Mokurai desejava dar orientação pessoal para um discípulo, então ele pediu para o fabricante de banheiras esperar em outra sala.

            “Entendo que você é um Buda vivo,” o homem protestou. “Até mesmo os Budas de pedra no templo nunca recusam as numerosas pessoas que chegam diante deles. Por que então eu devo ser excluído?” 

            Mokurai teve que sair para ver o seu discípulo.

 

87. Três Tipos de Discípulos

 

Um mestre Zen chamado Gettan viveu na parte tardia da Era Tokugawa. Ele costumava dizer: “Existem três tipos de discípulos: aqueles que transmitem o Zen para outros, aqueles que mantém os templos e santuários, e então existem os sacos de arroz e os cabides.”

            Gasan expressou a mesma ideia. Quando ele estava estudando sob Tekisui, seu professor era muito severo. Às vezes ele até mesmo lhe batia. Outros alunos não suportavam esse tipo de ensinamento e desistiam. Gasan permaneceu, dizendo: “Um discípulo ruim utiliza a influência do professor. Um discípulo razoável admira a bondade do professor. Um bom discípulo fica mais forte sob a disciplina do professor.”

 

88. Como Escrever um Poema Chinês

 

Foi perguntado a um poeta japonês bem conhecido como compor um poema chinês.

            “O poema chinês usual tem quatro linhas,” ele explicou. “A primeira linha contém a fase inicial; a segunda linha, a continuação daquela fase; a terceira linha de afasta deste assunto e começa um novo; e a quarta linha reuni as três primeiras. 

            Uma canção popular japonesa ilustra isso:

 

            Duas filhas de um mercador de seda vivem em Kyoto.

            A mais velha tem vinte anos, a mais nova, dezoito.

            Um soldado pode matar com sua espada,

            Mas essas garotas assassinam homens com seus olhos.”

 

89. Diálogo Zen

 

Os professores Zen treinam seus jovens alunos a expressarem-se. Dois templos Zen, cada um deles, tinham uma criança protegida. Uma das crianças, ao ir comprar vegetais toda manhã, encontrava a outra no caminho.

            “Onde você está indo?” perguntou uma.

            “Estou indo onde quer que meus pés me levem,” a outra respondeu.

            Essa resposta intrigou a primeira criança, que foi até seu professor buscar ajuda. “Amanhã cedo,” o professor disse-lhe, “quando você encontrar aquele pequeno sujeito, faça-lhe a mesma questão. Ele vai dar-te a mesma resposta, e então você lhe pergunta: ‘Suponha que você não tem pés, então para onde está indo?’ Isso vai dar um jeito nele.”

            As crianças encontraram-se novamente na manhã seguinte.

            “Onde você está indo?” perguntou a primeira criança.

            “Estou indo aonde quer que o vento sopre,” respondeu o outro.

            Isso novamente desconsertou o jovem, que levou sua derrota para seu professor.

            “Pergunte onde ele está indo se não há vento,” sugeriu o professor.

            No próximo dia as crianças encontraram-se uma terceira vez.

            “Onde você está indo?” perguntou a primeira criança.

            “Estou indo ao mercado comprar vegetais,” a outra respondeu.

 

90. A Última Batida

 

Tangen havia estudado com Sengai desde a infância. Quando estava com vinte anos, ele queria deixar seu professor e visitar outros para um estudo comparativo, mas Sengai não permitia. Toda vez que Tangen sugeria isso, Sengai dava-lhe uma batida na cabeça.

            Finalmente Tangen pediu a um irmão mais velho para que persuadisse Sengai a dar-lhe permissão. O irmão assim o fez e então reportou a Tangen: “Está acertado. Arranjei para você começar sua peregrinação de imediato.”

            Tangen foi até Sengai para agradecer-lhe por sua permissão. O mestre respondeu dando-lhe outra batida.

            Quando Tangen relatou isso para seu irmão mais velho este disse: “Qual é o problema? Sengai não tem o direito de dar a permissão e então mudar de ideia. Vou dizer-lhe isso.” E lá se foi ele ver o professor.

            “Não cancelei minha permissão,” disse Sengai. “Eu só desejava dar-lhe uma última batida na cabeça porque quando ele retornar estará iluminado e não serei capaz de o repreender novamente.”

 

91. O Gosto da Espada de Banzo

 

Matajuro Yagyu era o filho de um famoso espadachim. Seu pai, acreditando que o trabalho de seu filho era muito medíocre para antecipar a maestria, renegou-o.

            Então Matajuro foi até o Monte Futara e lá encontrou o famoso espadachim Banzo. Mas Banzo confirmou o julgamento do pai. “Você deseja aprender o manejo da espada sob minha orientação?” perguntou Banzo. “Você não cumpre os requisitos.”

            “Mas se eu trabalhar duro, quantos anos levará para tornar-me um mestre?” persistiu o jovem.

            “O resto da sua vida,” respondeu Banzo.

            “Não posso esperar tanto,” explicou Matajuro. “Estou disposto a passar por qualquer dificuldade se você ensinar-me. Se eu tornar-me seu servo devoto, quanto pode demorar?”

            “Oh, talvez dez anos,” Banzo concedeu.

            “Meu pai está ficando velho e logo devo tomar conta dele,” continuou Matajuro. “Se eu trabalhar muito mais intensamente, quanto tempo levaria?”

            “Oh, talvez trinta anos,” disse Banzo.

            “Por que isso?” perguntou Matajuro. “Primeiro você disse dez e agora trinta anos. Submeter-me-ei a qualquer dificuldade para dominar essa arte no tempo mais curto possível!”

            “Bem,” disse Banzo, “neste caso você vai ter que permanecer comigo por setenta anos. Um homem com tanta pressa em obter resultados como você raramente aprende rápido.”

            “Muito bem,” declarou o jovem, finalmente compreendendo que ele estava sendo repreendido pela impaciência, “Concordo.”

            Foi dito a Matajuro nunca falar de esgrima e nunca tocar em uma espada. Ele cozinhou para seu mestre, lavou os pratos, fez sua cama, limpou o quintal, cuidou do jardim, tudo sem uma palavra sobre o manejo de espadas.

            Três anos passaram-se. E Matajuro ainda labutava. Pensando sobre o seu futuro, ele estava triste. Ele nem mesmo havia começado a aprender a arte pela qual havia devotado sua vida.

            Mas um dia Banzo esgueirou-se por trás dele e deu-lhe um golpe incrível com uma espada de madeira.

            No dia seguinte, quando Matajuro estava cozinhando arroz, Banzo saltou de novo sobre ele inesperadamente.

            Depois daquilo, dia e noite, Matajuro tinha que defender-se de investidas inesperadas. Não se passava um momento, de qualquer dia, em que ele não tivesse que pensar no gosto da espada de Banzo.

            Ele aprendeu tão rapidamente que trouxe sorrisos para a face do seu mestre.

            Matajuro tornou-se o maior espadachim da sua terra.

 

92. Espalhador de Brasas Zen 

 

Hakuin costumava contar a seus alunos sobre uma velha mulher que tinha uma loja de chá, elogiando o seu entendimento do Zen. Os alunos recusavam-se a acreditar o que ele lhes contava e iam até a loja de chá para descobrirem por si mesmos.

            Sempre que a mulher os via chegando ela podia dizer de imediato se tinham vindo pelo chá, ou para investigar sua compreensão do Zen. No primeiro caso, ela servia-os graciosamente. No segundo, ela acenava aos alunos para irem para trás do seu biombo. No instante em que eles obedeciam ela os atingia com um espalhador de brasas.

            Nove entre dez deles não conseguiam escapar da sua pancada.

 

93. O Zen do Contador de Histórias

 

Encho era um famoso contador de histórias. Seus contos de amor atiçavam os corações de seus ouvintes. Quando ele narrava uma história de guerra era como se os próprios ouvintes estivessem no campo de batalha.

            Um dia Encho encontrou Yamaoka Tesshu, um leigo que quase tinha abarcado à maestria no Zen. “Entendo,” disse Yamaoka, “que você é o melhor contador de histórias da nossa terra, e que você faz as pessoas chorarem ou rirem quando quer. Conte-me minha história favorita do Menino Pêssego. Quando eu era uma criança pequena, costumava dormir do lado de minha mãe e ela frequentemente contava essa lenda. No meio da história eu caia no sono. Conte-a para mim, assim como minha mãe o faria.”

            Encho não ousou tentar recontar a história. Ele pediu tempo para estudar. Vários meses mais tarde ele foi até Yamaoka e disse: “Por favor, dê-me a oportunidade de contar-lhe a história.”

            “Algum outro dia,” respondeu Yamaoka.

            Encho ficou profundamente desapontado. Ele estudou mais e tentou novamente. Yamaoka rejeitou-o muitas vezes. Quando Encho começava a falar Yamaoka interrompia-o dizendo: “Você ainda não é como a minha mãe.”

            Levou cinco anos para Encho ser capaz de contar a lenda para Yamaoka da maneira como sua mãe havia contado-a para ele.

            Dessa forma Yamaoka transmitiu o Zen para Encho.

 

94. Excursão à Meia-noite

 

Vários alunos estavam estudando meditação sob o mestre Zen Sengai. Um deles costumava levantar-se à noite, escalar o muro do templo e ir até a cidade, para uma excursão de prazeres.

            Sengai, inspecionando os quartos de dormitório certa noite, deu por falta desse aluno e descobriu também um banquinho alto que ele havia usado para escalar o muro. Sengai removeu o banquinho e posicionou-se em seu lugar.

            Quando o andarilho retornou, sem saber que Sengai era o banco, pôs seus pés na cabeça do mestre e pulou no chão. Descobrindo o que tinha feito, ele ficou perplexo.

            Sengai disse: “É muito gelado no começo da manhã. Cuide-se para não pegar um resfriado.”

            O aluno nunca saiu à noite novamente.

 

95. Uma Carta Para um Moribundo

 

Bassui escreveu a seguinte carta para um de seus discípulos que estava prestes a morrer:

            “A essência da sua mente não é nascida, assim ela nunca morrerá. Ela não é uma existência, que é perecível. Ela não é um vazio, que é um mero nada. Ela não tem cor, nem forma. Ela não desfruta de nenhum prazer e não sofre nenhuma dor.

            “Sei que você está muito doente. Como um bom estudante Zen, você está encarando essa doença diretamente. Você pode não saber exatamente quem está sofrendo, mas questione-se: Qual é a essência dessa mente? Pense apenas nisso. Você não precisará de mais nada. Não cobice nada. O seu fim, que é infinito, é como um floco de neve dissolvendo-se no ar puro.”

 

96. Uma Gota de Água

 

Um mestre Zen chamado Gisan pediu a um jovem estudante para trazer-lhe um balde de água para esfriar sua banheira.

            O estudante trouxe a água e, após resfriar a banheira, jogou ao chão o pouco que havia sobrado.

            “Seu burro!” o mestre repreendeu-lhe. “Por que você não deu o resto da água para as plantas? Que direito você tem de desperdiçar até mesmo uma gota de água neste templo?”

            O jovem estudante realizou o Zen naquele instante. Ele mudou seu nome para Tekisui, que significa uma gota de água.

 

97. Ensinando o Principal

 

Em tempos remotos, no Japão, lanternas de bambu e papel eram usadas com velas em seu interior. Um cego, visitando um amigo certa noite, recebeu uma lanterna para carregar consigo até em casa.

            “Não preciso de uma lanterna,” ele disse. “Trevas ou luz, é tudo igual para mim.”

            “Sei que você não precisa de uma lanterna para encontrar o seu caminho,” seu amigo respondeu, “mas se você não tem uma, alguém pode topar com você. Então você deve levá-la.”

            O homem cego partiu com a lanterna e, antes de ter caminhado para longe, alguém topou diretamente com ele. “Olhe para onde você está indo!” ele exclamou para o estranho. “Você não pode ver essa lanterna?”

            “Sua vela apagou, irmão,” respondeu o estranho.

 

98. Desapego

 

Kitano Gempo, abade do templo Eihei, tinha noventa e dois anos de idade quando faleceu no ano de 1933. Ele empenhou toda sua vida a não ser apegado a nada.

            Como um monge mendicante, quando ele tinha vinte anos, aconteceu dele encontrar um viajante que fumava tabaco. Enquanto desciam juntos a estrada de uma montanha eles pararam sob uma árvore para descansar. O viajante ofereceu a Kitano um fumo, que ele aceitou, pois estava muito faminto na hora.

            “Quão agradável é esse fumo,” ele comentou. O outro deu-lhe um cachimbo e tabaco extras e eles partiram.

            Kitano sentiu: “Tais coisas agradáveis podem perturbar a meditação. Antes que isso vá muito longe, pararei agora.” Então ele jogou fora os apetrechos de fumar.

            Quando ele tinha vinte e três anos de idade estudou o I Ching, a mais profunda doutrina do universo. Era inverno naquela época e ele precisava de algumas roupas pesadas. Ele escreveu para seu professor, que vivia a uma centena de milhas de distância, contando-lhe de sua necessidade e deu a carta para um viajante entregá-la. Quase todo o inverno passou e nem a resposta, nem as roupas chegaram. Então Kitano recorreu à presciência do I Ching, que também ensina a arte da divinação, para determinar se a sua carta fora extraviada ou não. Ele descobriu que a carta extraviara. Mais tarde, uma carta de seu professor não fazia menção às roupas. 

            “Se executo tal trabalho determinante preciso com o I Ching posso negligenciar a minha meditação,” sentiu Kitano. Então ele abandonou este ensinamento maravilhoso e nunca recorreu aos seus poderes novamente.

            Quando tinha vinte e oito anos ele estudou caligrafia chinesa e poesia. Ele tornou-se tão habilidoso nessas artes que seu professor o elogiava. Kitano pensou: “Se eu não parar agora serei um poeta e não um professor Zen.” Então ele nunca escreveu outro poema.

 

99. O Vinagre de Tosui

 

Tosui foi o mestre Zen que deixou o formalismo dos templos para viver sob uma ponte com mendigos. Quando ele estava ficando muito velho, um amigo ajudou-o a ganhar a vida sem mendigar. Ele mostrou a Tosui como coletar arroz e manufaturar vinagre a partir dele e Tosui fez isso até falecer.

            Enquanto Tosui estava fazendo vinagre um dos mendigos deu-lhe uma imagem do Buda. Tosui pendurou-a na parede da sua cabana e pôs um letreiro ao lado dela. O letreiro lia-se:

            “Sr. Buda Amida: Este pequeno quarto é bem estreito. Posso deixá-lo permanecer de passagem. Mas não pense que estou lhe pedindo para ajudar-me a renascer no seu paraíso.”

 

100. O Templo Silencioso

 

Shoichi foi um professor de Zen de um olho só, reluzente de iluminação. Ele ensinava seus discípulos no templo Tofuku.

            Dia e noite todo o templo permanecia em silêncio. Não havia nenhum som.

            Até mesmo a recitação de sutras foi abolida pelo professor. Seus alunos não tinham nada para fazer, exceto meditar.

            Quando o mestre faleceu, uma antiga vizinha ouviu o ressoar dos sinos e a recitação de sutras. Então ela soube que Shoichi havia partido. 

 

101. O Zen do Buda

 

Buda disse: “Considero as posições de reis e governantes como partículas de pó. Observo os tesouros de ouro e joias como se fossem muitos tijolos e pedregulhos. Olho para os mais finos mantos de seda como se fossem trapos esfarrapados. Vejo as miríades de mundos do universo como pequenas sementes de fruta e o maior lago da Índia como uma gota de óleo no meu pé. Percebo os ensinamentos do mundo como sendo a ilusão de mágicos. Discirno a mais alta concepção de emancipação como um brocado dourado em um sonho e visualizo o caminho sagrado dos iluminados como flores aparecendo nos olhos de alguém. Vejo a meditação como um pilar de uma montanha, o Nirvana como um pesadelo do dia. Olho para o julgamento de certo e errado como a dança serpentina de um dragão, o surgimento e a queda das crenças apenas como traços deixados pelas quatro estações.”

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