Centralização – Vigyan Bhairav Tantra

Tradução de Centering, contido em A Carne e os Ossos do Zen (Zen Flesh, Zen Bones) compilado por Paul Reps e Nyogen Senzaki. Tradução do inglês para o português por Albecy Cavalari, revisão de Rafael Blanco.

O Zen não é nada novo, nem algo velho. Muito tempo antes de Buda nascer a busca já existia na Índia, como a presente obra revela.

Muito tempo depois do homem ter esquecido palavras tais como Zen e Buda, satori e koan, China, Japão e América – a busca continuará, o Zen ainda será visto nas flores e nas lâminas de grama sob o sol.

O que se segue é adaptado do prefácio da primeira versão em inglês desta antiga obra.

 

Vagando na beleza inefável da Caxemira, sobre Srinagar, encontro o eremitério de Lakshmanjoo. Ele dá vista para verdes campos de arroz, os jardins de Shalimar e Nishat Bagh e lagos ornados com flores de lótus. A água cai do topo de uma montanha.

Aqui Lakshmanjoo – alto, corpulento, reluzente – dá-me as boas-vindas. Ele compartilha comigo este antigo ensinamento do Vigyan Bhairava e Sochanda Tantra, ambos escritos há quase 4000 mil anos atrás, e do Malini Vijaya Tantra, provavelmente 1000 anos ainda mais velho. Trata-se de um ensinamento ancestral, copiado e recopiado incontáveis vezes, e a partir dele Lakshmanjoo fez os princípios de uma versão em inglês. Transcrevi-o mais onze vezes, até chegar à forma aqui apresentada. 

Shiva cantou-o primeiro para a sua consorte Devi em uma língua de amor que ainda teremos que aprender. Ele versa sobre a experiência imanente. Ele apresenta 112 métodos para abrir a porta invisível da consciência. Vejo que Lakshmanjoo dedica a sua vida a essa prática.

Alguns dos métodos podem parecer redundantes, contudo, todos são diferentes entre si. Alguns podem parecer simples, entretanto, qualquer um requer constante dedicação, até mesmo para testá-lo.

Máquinas, livros contábeis, dançarinos e atletas equilibram-se. Assim como a centralização ou o equilíbrio aumentam várias habilidades, a consciência também o faz. Como um experimento, tente permanecer igualmente em ambos os pés; então, imagine que você está alternando levemente o seu equilíbrio de um pé para o outro: assim como o equilíbrio, você também centraliza.

Se somos conscientes em parte, isso implica uma consciência mais abrangente. Você tem uma mão? Sim. Isso você sabe sem dúvida. Mas antes da questão ser colocada você tinha consciência da mão em si mesma?

Certamente seres inspiradores, conhecidos e desconhecidos pelo mundo, compartilharam uma descoberta comum extraordinária. O Tao de Lao Tsé, o Nirvana de Buda, o Jeová de Moisés, o Pai de Jesus, o Alá de Maomé – todos apontam para a experiência.

Não-coisidade, espírito – uma vez tocado, purifica toda a vida.     .

Devi diz:

            Ó Shiva, qual é a sua realidade?

            O que é esse universo cheio de maravilhas?

            O que constitui a semente?

            Quem centra a roda universal?

            O que é essa vida além das formas impregnando as formas?

            Como nós podemos entrar nela inteiramente, além de espaço e tempo, nomes e descrições?

            Permita que minhas dúvidas sejam elucidadas!

Shiva replica:

[Devi fez as questões acima expostas, embora já iluminada, para que outros seres pelo universo pudessem receber as instruções de Shiva. Agora segue a resposta de Shiva, concedendo os 112 métodos.]

  1. Radiante, essa experiência pode emergir entre duas respirações. Após o alento entrar (para baixo) e logo antes de voltar-se para cima (para fora) – a beneficência.
  2. Conforme a respiração rotaciona de baixo para cima, e, novamente, conforme a respiração se curva de cima para baixo – através dessas duas rotações, realize.
  3. Ou, sempre que a inspiração e a expiração se fundirem, nesse instante toque o centro sem-energia preenchido de energia.
  4. Ou, quando a respiração está toda para fora (em cima) e parada por si própria, ou toda para dentro (em baixo) e parada − em tal pausa universal, o eu menor desaparece. Isso é difícil somente para o impuro.
  5. Considere a sua essência como raios de luz ascendendo de centro em centro pelas vértebras, e então ascende a vivacidade em você.
  6. Ou nos espaços intermediários, sinta-o como um relâmpago.
  7. Devi, imagine as letras do sânscrito nesses focos cheios-de-mel da consciência, primeiro como letras, então mais sutilmente como sons, então como o sentimento mais sutil. Então, deixando-os de lado, seja livre.
  8. Com a atenção entre as sobrancelhas, permita que a mente exista antes do pensamento. Deixe a forma preencher-se com a essência do alento até o topo da cabeça, e ali derramar-se como luz.
  9. Ou imagine que os cinco círculos coloridos da cauda do pavão sejam os seus cinco sentidos no espaço ilimitado. Agora deixe a beleza deles fundir por dentro. Similarmente, em qualquer ponto no espaço ou em uma parede – até o ponto dissolver-se. Então o seu desejo por outro realiza-se.
  10. Olhos fechados, veja seu ser interior em detalhe. Deste modo veja a sua verdadeira natureza.
  11. Coloque toda a sua atenção no nervo, delicado como o fio de lótus, no centro da sua coluna vertebral. Em tal, seja transformado.
  12. Fechando as sete aberturas da cabeça com as suas mãos, um espaço entre os seus olhos se torna oniabarcante.
  13. Tocando os globos oculares como uma pena, a leveza entre eles se abre no coração e lá permeia o cosmos.
  14. Banhe-se no centro do som, como no som contínuo de uma cachoeira. Ou, ao colocar os dedos nos ouvidos, escute o som dos sons.
  15. Entoe um som, como a-u-m, lentamente. Conforme o som entra na plenitude, você também.
  16. No início e no refinamento gradual do som de qualquer letra, desperte.
  17. Enquanto escuta instrumentos de corda, escute o som central composto deles; assim a onipresença.
  18. Entoe um som audível, então menos e menos audível, conforme o sentimento se aprofunda nessa harmonia silenciosa.
  19. Imagine o espírito simultaneamente dentro e à sua volta, até que todo o universo espiritualize-se.
  20. Amável Devi, entre na presença etérea, permeando muito acima e abaixo da sua forma.
  21. Expresse as coisas da mente com inexprimível fineza acima, abaixo, e no seu coração.
  22. Considere qualquer área da sua forma presente como ilimitadamente espaçosa.
  23. Sinta sua substância, ossos, carne, sangue, saturados com a essência cósmica.
  24. Suponha que a sua forma passiva seja uma sala vazia com paredes de pele − vazia.
  25. Abençoada, enquanto os sentidos são absorvidos no coração, alcance o centro do lótus.
  26. Indiferente à mente, mantenha-se no meio − até.
  27. Quando na atividade mundana, mantenha-se atenta entre as duas respirações, e assim praticando, em poucos dias nasça de novo. [Lakshmanjoo diz que esse é o seu favorito.]
  28. Foque no fogo ascendendo através da sua forma, dos dedos dos pés para cima, até o corpo queimar-se em cinzas, mas não você.
  29. Medite sobre o mundo fictício queimando em cinzas e torne-se um ser sobre-humano.
  30. Sinta as sutis qualidades da criatividade permeando os seus seios e assumindo configurações delicadas.
  31. Com o alento imaterial no centro da testa, conforme ele atinge o coração no momento do sono, dirija os sonhos e a própria morte.
  32. Conforme, subjetivamente, as letras fluem em palavras e as palavras em sentenças, e conforme, objetivamente, os círculos desaguam nos mundos e os mundos em princípios, encontre-os, enfim, convergindo em nosso ser.
  33. Graciosa, brinque. O universo é uma concha vazia na qual sua mente brinca infinitamente.
  34. Olhe para uma tigela sem ver os lados ou o material. Em alguns instantes torne-se consciente.
  35. Resida em algum lugar infinitamente espaçoso, livre de árvores, colinas, habitações. Daí vem o fim das pressões da mente.
  36. Doce coração medite sobre o saber e o não saber, o existir e o não existir. Então deixe ambos de lado para que você possa ser.
  37. Olhe amavelmente para algum objeto. Não vá para outro objeto. Aqui, no meio deste objeto − a benção.
  38. Sinta o cosmos como uma presença translúcida sempre-viva.
  39. Com máxima devoção, centre-se nas duas junções da respiração e conheça o conhecedor.
  40. Considere a plenitude como sendo o seu próprio corpo de bem-aventurança.
  41. Enquanto é acariciada, doce princesa, adentre a carícia como a vida eterna.
  42. Obstrua as portas dos sentidos quando sentir o andar de uma formiga. Então.
  43. No início da união sexual, permaneça atenta ao fogo no começo, e, continuando assim, evite as brasas no final.
  44. Quando em tal abraço os seus sentidos forem sacudidos como folhas, entre neste sacudir.
  45. Mesmo relembrando a união, sem o abraço, a transformação.
  46. Ao ver alegremente um amigo há muito ausente, penetre essa alegria.
  47. Quando comendo ou bebendo, torne-se o gosto da comida ou bebida, e seja preenchida.
  48. Ó ser de olhos de lótus, doce ao toque, quando cantar, ver, saborear, esteja consciente de que você existe, e descubra o sempre vivo.
  49. Onde quer que a satisfação seja encontrada, em qualquer ato, torne isso presente.
  50. No momento de dormir, quando o sono ainda não chegou e a vigília externa desaparece, nesse ponto o ser é revelado. [Lakshmanjoo diz que esse é outro dos seus favoritos.]
  51. No verão, quando você vê o céu inteiro infinitamente claro, entre em tal claridade.
  52. Deite-se como morta. Tomada de raiva, permaneça assim. Ou olhe fixamente sem mover um cílio. Ou sugue algo e torne-se a sucção.
  53. Sem suporte para os pés ou mãos, sente-se apenas sobre as nádegas. Subitamente, o centramento.
  54. Em uma posição fácil, gradualmente penetre uma área entre as axilas em grande paz.
  55. Veja como se fosse a primeira vez uma bela pessoa ou um objeto ordinário.
  56. Com a boca levemente aberta, mantenha a mente concentrada no meio da língua. Ou, conforme a respiração entra silenciosamente, sinta o som ‘HH’.
  57. Quando sobre uma cama ou um assento, permita-se tornar-se sem peso, além da mente.
  58. Em um veículo em movimento, ao balançar ritmicamente, experiencie. Ou em um veículo parado, permitindo-se rodar em círculos invisíveis cada vez mais lentos.
  59. Simplesmente olhando para o céu azul além das nuvens, a serenidade.
  60. Shakti, veja todo o espaço como se já absorvido em sua própria cabeça, na brilhância.
  61. Acordando, dormindo, sonhando, conhece a si como luz.
  62. Na chuva durante uma noite negra entre nesta escuridão como a forma das formas.
  63. Quando uma noite chuvosa sem lua não está presente, feche os olhos e encontre a escuridão diante de você. Abrindo os olhos, veja a escuridão. Assim as falhas desaparecem para sempre.
  64. No momento em que você tiver o impulso para fazer algo, pare.
  65. Centre-se no som ‘a-u-m’ sem qualquer ‘a’ ou ‘m’.
  66. Silenciosamente entoe uma palavra terminada em ‘AH’. Então, no ‘HH’ sem esforço, a espontaneidade.
  67. Sinta a si mesmo como penetrando todas as direções, longe, perto.
  68. Perfure alguma parte da sua forma preenchida de néctar com um alfinete, e suavemente entre na perfuração.
  69. Sinta: Meu pensamento, ipseidade, órgãos internos − eu.
  70. As ilusões enganam. As cores circunscrevem. Mesmo os divisíveis são indivisíveis.
  71. Quando algum desejo chega, considere-o. Então, subitamente, abandone-o.
  72. Antes do desejo e antes do conhecimento, como posso dizer que eu sou? Considere. Dissolva-se na beleza.
  73. Com toda a sua consciência no próprio início do desejo, do conhecimento, conheça.
  74. Ó Shakti, toda percepção particular é limitada, desaparecendo na onipotência.
  75. Em verdade as formas são inseparáveis. Inseparáveis são o ser onipresente e a sua própria forma. Compreenda cada um como sendo feito dessa consciência.
  76. Em ânimos de extremo desejo, seja impassível.
  77. Esse assim chamado universo aparece como uma apresentação de malabarismo, de imagens. Para ser feliz olhe para ele assim.
  78. Ó Amada, não dê atenção nem ao prazer nem à dor, mas entre ambos.
  79. Descarte a ligação com corpo, compreendendo que eu estou em todo lugar. Aquele que está em todo lugar é jubiloso.
  80. Objetos e desejos existem em mim, como nos outros. Assim aceitando, permita que sejam transladados.
  81. A apreciação de objetos e sujeitos é a mesma tanto para um ser iluminado quanto para um não-iluminado. O primeiro tem uma grandeza: ele permanece no humor subjetivo, não perdido nas coisas.
  82. Sinta a consciência de cada pessoa como sua própria consciência. Então, deixando de lado o interesse pelo ego, torne-se todos os seres.
  83. Pensando em nada, o eu-limitado tornar-se-á ilimitado.
  84. Acredite-se onisciente, onipotente, penetrante.
  85. Assim como as ondas chegam com água e as chamas com fogo, também as ondas universais conosco.
  86. Perambule até ficar exausta, e então, caindo ao chão, nesta queda seja inteira.
  87. Suponha que você está sendo gradualmente privada de força ou de conhecimento. No instante da privação, transcenda.
  88. Ouça enquanto o maior ensinamento místico é transmitido: Olhos estáticos, sem piscar, imediatamente torne-se absolutamente livre.
  89. Pare os ouvidos com pressão e o reto pela contração, entre no som do som.
  90. À beira de um poço profundo olhe firmemente em suas profundezas até – o maravilhoso.
  91. Onde quer que sua mente esteja vagando, interna ou externamente, neste exato local, isso.
  92. Quando vividamente consciente através de algum sentido particular, mantenha-se na consciência.
  93. No começo do espirro, durante o susto, na ansiedade, sobre um abismo, fugindo da batalha, em extrema curiosidade, no começo da fome, ao final da fome, esteja ininterruptamente consciente.
  94. Permita que a atenção esteja em um lugar onde você está vendo algum acontecimento passado, e até mesmo a sua forma, tendo perdido suas características presentes, é transformada.
  95. Olhe para algum objeto, então lentamente retire a sua visão dele, então lentamente retire seu pensamento dele. Então.
  96. A devoção liberta.
  97. Sinta um objeto diante de ti. Sinta a ausência de todos os outros objetos exceto deste. Então, deixando de lado o sentimento do objeto e o sentimento da ausência, compreenda.
  98. A pureza dos outros ensinamentos é como impureza para nós. Em realidade não conheça nada como puro ou impuro.
  99. Essa consciência existe como todo ser, e nada mais existe.
  100. Seja a mesma e diferente tanto para um amigo quanto para um estranho, na honra e desonra.
  101. Quando surgir um ânimo contra alguém ou a favor de alguém, não o coloque na pessoa em questão, mas permaneça centrada.
  102. Suponha que você contempla algo além da percepção, além da apreensão, além do não-ser, você.
  103. Entre no espaço, sem suporte, eterno, imóvel.
  104. Onde quer que a sua atenção repouse, neste ponto exato, experiencie.
  105. Entre no som do seu nome e, através deste som, todos os sons.
  106. Estou existindo. Isso é meu. Isso é isso. Ó Amada, até aqui, conheça ilimitavelmente.
  107. Essa consciência é o espírito de orientação de cada um. Seja essa consciência.
  108. Aqui está uma esfera de mudança, mudança, mudança. Através da mudança, consuma a mudança.
  109. Como uma galinha cuida dos seus pintinhos, cuide dos saberes particulares, dos afazeres particulares, na realidade.
  110. Desde que, na verdade, a escravidão e a liberdade são relativas, essas palavras existem apenas para aqueles apavorados com o universo. Este universo é um reflexo de mentes. Assim como você vê muitos sóis na água a partir de um sol, da mesma forma veja a escravidão e a liberação.
  111. Cada coisa é percebida através do conhecer. O ego brilha no espaço através do conhecer. Perceba um ser como conhecedor e conhecido.
  112. Amada, neste momento permita que mente, conhecimento, respiração, forma, sejam incluídos.

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