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Vislumbres de uma Infância Dourada, OSHO, 49 e 50

Sessão 49

Ok. Eu estava nesse momento tentando lembrar-me do homem. Posso ver a sua face, mas talvez eu nunca me preocupei com seu nome, então não me lembro dele. Contarei toda a história para vocês. 

A minha Nani, vendo que não era possível ensinar algo a mim e que enviar-me a escola estava apenas criando problemas, tentou convencer a minha família, meu pai e minha mãe, mas ninguém estava disposto a ouvi-la. Mas ela estava certa ao dizer, “Esse menino é um incômodo desnecessário para mil outros meninos.” – isso foi quando entrei no colegial – “e todo dia ele trama algo. É melhor ele ter um tutor privado. Deixem-no ‘visitar’ a escola, como ele o chama, de vez em quando, mas isso não o ajudará a aprender nada que valha a pena, porque ele sempre está criando problemas para os outros e para ele mesmo. Não sobra tempo.” 

         Ela tentou, o máximo que pôde, ensinar-me o básico, mas ninguém na minha família estava disposto a conseguir um tutor privado para mim. Naquela cidade, até hoje, não acho que ninguém teve um tutor privado. Para quê? Toda a família estava dizendo, “Então por que existem essas escolas aqui, se temos que ter um tutor privado?”

         Ela disse, “Mas esse garoto não deve ser contado com os outros – não é porque o amo, mas porque ele é um problema real. Eu vivo com ele, e vivi por tantos anos que sei que ele fará tudo o que for possível para criar problema. E nenhuma punição pode o impedir.”

         Mas meu pai e mãe, os irmãos e irmãs do meu pai – ou seja, toda a Arca de Noé, todas as criaturas – discordaram dela. Mas todos ficaram em choque quando concordei. 

         Eu disse, “Ela está certa. Nunca vou aprender nada nessas escolas de terceira categoria. Na verdade, no momento em que vejo aqueles professores quero ensiná-los uma lição que eles nunca esquecerão por toda vida. E os garotos, tantos garotos sentados silenciosamente… é artificial. Então faço alguma coisa e, imediatamente, a natureza assume o controle, e a educação é deixada totalmente para trás com toda a sua cultura. Ela está certa: se vocês querem que eu saiba pelo menos linguagem, matemática, algo de geografia ou história, então ouçam-na.”

         Eles ficaram mais chocados do que se eu tivesse explodido um fogo de artifício… porque isso era absolutamente esperado. As pessoas da minha família e os vizinhos, todo mundo esperava encrenca, tanto que eles começaram até mesmo a perguntar-me, “O que está debaixo da sua manga hoje?”

         Eu disse, “Não posso nem ter feriado? O que está debaixo das suas mangas? Vocês estão pagando por isso? Toda a cidade deveria pagar-me se vocês acham que tem algum valor. Posso produzir qualquer coisa possível no mundo.”

         Somente a minha Nani estava realmente interessada, e eu disse à minha família, “Eu devo saber o básico. Ouçam-na. Vou ter um tutor quer vocês queiram ou não. Tudo o que ela precisa é da minha concordância, e concordo totalmente com ela.”

         Ela disse, “Vocês estão ouvindo o que esperavam? Vocês não esperavam isso, mas essa é a qualidade própria dele – o inesperado. Então não fiquem chocados nem se sintam insultados. Se vocês se chocarem ou se sentirem insultados ele fará mais coisas similares. Apenas façam o que estou dizendo: arranjem um tutor privado para ele.”

         Meu pobre pai – pobre porque todo mundo riu dele – disse, “Quero concordar com você, mas eu estava com medo de todas as outras pessoas da família, até mesmo da sua filha, a minha esposa. Eu estava com medo que todos pulassem em mim. Você está certa, ele precisa de algum treinamento básico. E o problema real não é se ele precisa ou não; o problema real é, podemos encontrar um tutor disposto a ensiná-lo? Estamos dispostos a pagar; encontre um tutor para ele.”

         Ela tinha alguém em mente. Ela já havia me perguntado o que eu pensava do homem. Eu disse, “O homem parece bom, apenas um pouco dominado.”

         Ela disse, “Isso não é da sua conta. Por que uma criança ficaria preocupada com isso? Ele é um bom professor. Ele ganhou o certificado do governador de melhor professor da província. Você pode confiar nele.”

         Eu disse, “Ele confia na própria esposa; esta confia no servo dele; o seu servo é somente um tolo – e tenho que confiar nele? Uma grande corrente! Mas o homem é bom; apenas não me peça para confiar nele. Em vez disso, peça para que eu permaneça disponível a ele; isso é o suficiente para a instrução. Por que dependência? Ele não é o meu chefe; de fato, sou o chefe dele.”

         Ela disse, “Olhe, se você lhe disser isso ele vai partir imediatamente.”

         Eu disse, “Você não sabe nada sobre ele. Eu o conheço. Mesmo se eu realmente golpeá-lo na cabeça, ele não irá para lugar algum porque sei de quem é os seus ouvidos e suas mãos.”

         Na Índia os burros são pegos pelas suas orelhas. É claro que eles têm orelhas grandes; estas são as coisas mais fáceis para segurar e pegá-los. “Ele é um burro. Ele pode ser educado, mas conheço a sua esposa, e ela é uma mulher real. Ela tem muitos burros como ele sob seu domínio. Se ele criar qualquer problema vou cuidar dele, não se preocupe. E lembre-se, o pagamento mensal que você terá que fazê-lo eu o levarei para sua esposa.”

         Ela disse, “Conheço você! Agora compreendo toda a lógica disso.”

         Eu disse, “Então siga em frente.”

         Chamei o homem. Ele era realmente dominado – não mais ou menos, mas multidimensionalmente. Quando eu o trouxe até a minha Nani, primeiramente ele tentou escapar. Eu disse, “Ouça, se você tentar escapar de qualquer maneira, irei diretamente à sua esposa.”

         Ele disse, “O quê? Não! Por que a minha esposa?”

         Eu disse, “Então apenas fique quieto, e não importa o salário que a minha Nani lhe pagará – pois o envelope estará fechado – vou entregá-lo para sua esposa. O acordo já está feito. Não estou interessado na parte financeira, mas o envelope tem que chegar à sua esposa, não a você. Então antes de escapar, pense pelo menos duas vezes.”

         Ele estava tentando barganhar, esse valor ou aquele, mas naquele momento ele concordou imediatamente. Pisquei para a minha Nani e disse, “Olhe! Este é o tutor que você encontrou. Ele vai ensinar-me, ou terei que ensiná-lo? Quem ensinará quem? Você vai ensinar-me?”

         O homem disse, “O que isso significa, quem vai ensinar? Você vai ensinar-me?”

         Eu disse, “Por que não? Estou pagando a você; obviamente devo ensinar e você deve aprender. O dinheiro pode fazer tudo.”

         A minha Nani disse ao homem, “Não fique com medo, ele não é tão mau. Ele não criará nenhum problema para você se você prometer não o provocar de forma alguma. Uma vez provocado, então não posso fazer nada para o impedir, porque ele não recebe nenhum salário. Na verdade, tenho que o persuadir a aceitar algum dinheiro para doces, brinquedos e roupas, e ele é muito relutante sobre isso. Então lembre-se, não o provoque; caso contrário você estará em apuros.” E o tolo o fez, logo no primeiro dia. 

         Ele chegou cedo. Ele era um diretor aposentado, mas não acho que algum dia teve cabeça.* [NdT. Trocadilho de headmaster (diretor) com head (cabeça)] Mas é assim que as pessoas estão divididas em todo o mundo: em cabeças e mãos. Trabalhadores são chamados “mãos”, apenas mãos, como se não houvesse ninguém por trás das mãos. E os intelectuais, aqueles que se chamam de intelligentsia, são conhecidos como “cabeças” – não importando se eles têm alguma mão ou não. Vi tantos cabeças de departamentos que sempre me perguntei se esta era a lei: que qualquer um que não tivesse cabeça seria transformado na cabeça do departamento.

         Quando esse homem veio para começar, ele fez o que a minha avó o advertiu não fazer. O que ele fez posso entendê-lo agora. Naquele momento, é claro, não pude entender toda a sua psicologia, mas agora posso ver porque ele se comportou daquela maneira.

         Quanto mais eu conhecia a mim mesmo, mais entendia a “robotização” das pessoas. Elas funcionam como máquinas. Elas são malucas e fixas – às vezes malucas e às vezes fixas, mas ambas. Se a maluquice é necessária, elas serão malucas; se a fixidez é necessária, elas serão fixas. Vocês conhecem os malucos, mas quem são os fixos?

         Ora, isso será difícil, e levar-me-á a um desvio muito longo, e posso esquecer desse pobre homem que está na minha frente com as mãos postas. Então em algum outro círculo falaremos sobre os fixos. Mas primeiro esse homem…

         Ele veio até o meu quarto, na casa da minha Nani. Na verdade, toda a casa era minha, exceto o quarto dela, e a casa tinha muitos quartos. Não era uma casa grande, mas tinha pelo menos seis quartos, e minha avó precisava apenas de um; os outros cinco pertenciam a mim, naturalmente. Não havia mais ninguém ali.

Dividi esses quartos de acordo com os meus diferentes tipos de atividade. Um quarto era para aprender; eu costumava aprender todos os tipos de coisas naquele quarto, por exemplo, como capturar cobras, como ensiná-las a dançar conforme a música, o que não tem nada a ver com música de maneira alguma. Aprendi todos os tipos de truques mágicos. Aquele era o meu quarto. Até mesmo a minha avó não podia entrar nele, porque ele era um local sagrado de aprendizado, e ela sabia que tudo, exceto o sagrado, acontecia ali. Mas ninguém podia entrar. Coloquei uma nota na porta: NÃO ENTRAR SEM PERMISSÃO.

         Encontrei exatamente a mesma nota no escritório de Shambhu Babu. Eu lhe disse, “Estou levando-a embora.”

         Ele disse, “O quê?”

         Eu disse, “Nessa nota não há nada escrito dizendo que você tem que pagar por ela. Ela é de graça. Shambhu Babu, você entende?”

         Então ele caiu na gargalhada e disse, “Por anos essa nota está bem na frente dos meus olhos e ninguém apontou para mim que o preço não estava escrito na nota. Qualquer um poderia tê-la levado. E ela está somente pendurada em um prego; nada precisaria ser feito. Você pode simplesmente levá-la.”

         Eu disse, “Você é um amigo, mas nessas questões não traga a nossa amizade.”

         Aquela nota ficava na porta do meu quarto. Talvez ela ainda está pendurada lá. 

         Aquele homem, cujo nome não posso me lembrar nesse momento… tenho tentado todos os tipos de exercícios de memória enquanto falo com vocês. Ninguém pode ajudar também, então nós vamos apenas esquecer qual era o seu nome. O que importa não é o seu nome, mas o material que ele era feito – pura borracha. Vocês não poderiam encontrar outro homem como aquele. Mas ele veio de terno e gravata, e era um dia quente de verão! Desde o início ele mostrava a sua estupidez.

         Na Índia central durante o verão quente você começa a transpirar até mesmo antes do sol nascer. E ele veio vestido com meias, gravata, calça comprida – e vocês sabem que sempre tive aversão às calças compridas. Talvez justamente esse tipo de pessoa criou em mim um tipo de enjoo em relação às calças compridas. Ele ainda está na minha frente: posso descrevê-lo em cada mínimo detalhe.

         Ele tossiu quando entrou no quarto, arrumou sua gravata, tentou ficar ereto, e disse, “Ouça, menino, ouvi muitas histórias sobre você, então quero dizer para você desde o início que não sou um covarde.” Ele olhou para os lados para ver se ninguém estava ouvindo, para que ninguém pudesse contar a sua esposa, mas ele não sabia que eu era muito amigo da sua esposa. Ele olhava continuamente para todos os lados.

         Sempre achei que essa é a forma que todos os covardes se comportam. Generalizações não são verdades absolutas, incluindo essa, mas elas certamente contêm alguma verdade. Caso contrário, qual a necessidade de olhar para todos os lados quando só há uma criança sentada ali na sua frente? Entretanto ele olhava para todos os lugares exceto para mim: para a porta, janela, e ainda assim falava comigo. Foi tão hilário e tão lastimável que eu lhe disse, “Ouça também. Você está falando que não é um covarde. Você acredita em fantasmas?”

         Ele disse, “O quê?” – e ele olhou tudo em volta, até mesmo atrás da sua cadeira. Ele disse, “Fantasmas? De onde os fantasmas vieram? Estou me apresentando a você, e você apresentando fantasmas.”

         Eu disse, “Ainda não os estou apresentando. Hoje à noite o verei com um fantasma.”

         Ele disse, “Sério?” E ele parecia tão assustado, ele começou a transpirar. Era uma manhã quente de verão, e ele estava tão amarrado, mais amarrado do que estou agora.

         Eu lhe disse, “Inicie o ensinamento. Não perca tempo, porque tenho muitas coisas para fazer.”

         Ele olhou para mim absolutamente incapaz de acreditar naquilo que eu acabava de falar – que eu tinha muitas coisas para fazer. Mas ele não estava preocupado comigo, ou com as coisas que eu tinha ou não que fazer. Ele disse, “Sim, vou começar o ensinamento – mas e os fantasmas?”

         Eu disse, “Esqueça-os. Hoje à noite eu o apresentarei.”

Ele agora entendeu que eu falava sério. Ele começou a tremer tanto que eu não podia ouvir o que ele estava falando, eu só podia ver a sua calça tremendo. Depois de uma hora me ensinando bobagem, eu disse, “Senhor, algo está errado com sua calça.”

         Ele disse, “O que está errado? Então olhou para baixo e viu que a sua calça estava tremendo, e então ela começou a tremer ainda mais.

         Eu disse, “Sinto que tem algo dentro da calça. Não posso ver daqui, mas você deve saber. Mas por que você está tremendo? E não é apenas a sua calça, é você.”

         Ele partiu sem terminar a lição que havia começado dizendo, “Tenho outro compromisso. Terminarei a lição amanhã.”

         Eu disse, “Amanhã por favor venha com shorts porque assim podemos ter certeza se é a calça que treme ou você. Será um serviço a favor da verdade – porque agora é um mistério. Também me pergunto que tipo de calça é essa.”

         Ele tinha uma bela calça – pelo menos parecia dele, mas não sei se era dele ou não, porque aquela noite terminou tudo; ele nunca mais voltou. Foi assim que meu tutor privado, como ele era chamado, partiu. Eu havia dito a minha avó, “Você acha que alguém, não importando o salário que vocês estiverem aptos a pagar, será capaz de suportar-me?”

         Ela disse, “Não perturbe as coisas. De alguma forma consegui persuadir a sua família, e você concordou. De fato foi somente por sua causa que consegui.”

         “Não,” eu disse, “Não farei nada, mas se algo acontecer, o que posso fazer? E tenho que lhe dizer isso porque essa noite decidirá se você o pagará ou não.”

         Ela disse, “O quê? Ele morrerá ou algo do tipo? E tão cedo? Ele começou hoje de manhã, e trabalhou apenas uma hora.”

         Eu disse, “Ele me provocou.”

         Ela disse, “Eu avisei para ele não te provocar.”

         No pátio da antiga casa da minha avó havia uma grande árvore neem. Aquela casa ainda nos pertencia depois da morte da minha avó. Era uma árvore realmente enorme, antiga, tão grande que toda a casa era coberta por ela. Quando era a estação, quando as flores da neem se abriam, a fragrância estava em todos os lugares.

         Não sei se qualquer outra árvore parecida com a neem existe em algum outro lugar, porque ela precisa de um clima muito quente. As suas flores são muito cuidadosas – essa é a única palavra que posso encontrar, “cuidadosas” com suas fragrâncias. Não devo a chamar de fragrância porque é amarga. No momento em que vocês cheiram-na é revigorante e único, mas ela deixa um gosto amargo na boca. Isso deve ser assim, porque o chá de neem deve ser o chá mais amargo de todo o mundo. Mas se vocês começarem a gostar dele, será como café. Vocês têm que praticar um pouco; caso contrário não é algo que vocês possam gostar instantaneamente. 

         Embora café instantâneo esteja disponível no mercado vocês ainda assim têm que aprender o gosto. O mesmo é verdade sobre o álcool, e mil outras coisas. Vocês têm que absorver o sabor vagarosamente. Se vocês viveram em um bosque de neem, e conhecem a fragrância desde as suas primeiras respirações, então não é amargo para vocês, ou, mesmo se for amargo é doce também. 

         Na Índia pensam ser um dever religioso plantar o maior número possível de árvores neem. Muito estranho! – mas se vocês conhecerem a árvore neem, o seu frescor gélido, o seu poder de purificação, então vocês não rirão disso. A Índia é pobre e não pode custear muitos dispositivos purificadores, mas a árvore neem é uma coisa natural e cresce facilmente.

         Essa árvore neem ficava atrás da minha casa. Eu costumava chamar a casa da minha Nani de “minha” casa. A outra casa era para todo o mundo restante, todos os tipos de criaturas; eu não fazia parte dela. De vez em quando eu ia ver o meu pai e minha mãe, mas fugia o mais rápido humanamente possível. Quero dizer, assim que as formalidades acabavam eu ia embora. E eles sabiam que eu não queria ir na casa deles. Eles sabiam que eu a chamava “aquela casa.” Então a minha casa, com aquela grande árvore neem, era um lugar realmente belo, mas não sei quem criou o mundo, nem sei quem criou essa história sobre a árvore neem também. 

         A história era – e esta fez da árvore neem uma beleza real – a história contava que a árvore neem tinha o poder de prender os fantasmas. Como a árvore neem o fazia eu não sei, nem a minha iluminação pôde ajudar nisso. Na verdade, a primeira coisa que eu quis saber depois da iluminação foi como a árvore neem o fazia, mas nenhuma resposta veio. Talvez ela não faça nada. Na Índia qualquer história se torna uma verdade, e, logo, a verdade última.

Mas a história contava que se qualquer fantasma tomasse posse de alguém, a pessoa só precisava ir até a árvore neem, sentar-se debaixo dela, levar um prego consigo, quanto maior melhor; então dizer à árvore neem: “Estou pregando o meu fantasma.” Levar consigo um martelo também, ou usar qualquer pedra grande em volta, e bater o prego forte. Uma vez que o fantasma fosse pregado a pessoa estaria livre dele. Havia pelo menos mil pregos naquela árvore. Eu realmente sinto muito por ela, embora ela não exista mais.

         Todos os dias as pessoas vinham e uma pequena loja até abriu do outro lado da rua para vender pregos, porque havia uma demanda. O que é mais significante é que o fantasma quase sempre desaparecia. A conclusão natural é que o fantasma fora pregado à árvore. Ninguém nunca retirava um prego, porque senão o fantasma seria libertado, e, talvez, encontrando vocês por perto ele tomaria posse de vocês.

         A minha família estava muito preocupada comigo e aquela árvore. Eles disseram a minha Nani que, “É bom que ele durma contigo. Não temos nada contra isso. Ele come aí e isso também está perfeitamente ok. Ele raramente vem ver a família; isso também está ok – sabemos que ele é bem cuidado – mas, lembre-se daquela árvore e esse garoto. Se ele retirar um prego, ele terá muita miséria por toda a vida.”

         E a história continua, dizendo que uma vez que um fantasma seja liberado da árvore ninguém poderia pregá-lo novamente porque ele conhece o truque e não será enganado duas vezes.

         Então a minha Nani estava constantemente em alerta para que eu não fosse à árvore neem. Mas ela não sabia que eu estava removendo o máximo de pregos possíveis; caso contrário, quem iria abastecer o lojista do outro lado da rua? Eu tinha um grande negócio em movimento. No início até mesmo o lojista estava com muito medo. Ele me disse, “O quê! Você trouxe esses pregos da própria árvore?”

Eu disse, “Sim, e nenhum fantasma. Nós somos amigos, muito amigos.” Eu não queria o perturbar, porque uma vez que a minha avó soubesse então haveria problemas. Então eu lhe disse, “Os fantasmas me amam muito. Somos muito amigos.”

         Ele disse, “Isso é muito estranho. Nunca ouvi falar que os fantasmas gostam de crianças pequenas como você. Mas negócio é negócio…”

         Eu lhe fornecia prego pela metade do preço que ele conseguia no mercado. Era uma pechincha real. Ele pensava que se eu pudesse remover os pregos, e os fantasmas não ficavam bravos, então eles deveriam ser meus amigos, e ele pensava que era bom não contrariar o garoto. O próprio garoto é um encrenqueiro, e se os fantasmas estão o ajudando, então ninguém está seguro contra ele.

         Ele me dava dinheiro, eu lhe dava pregos. Eu disse a minha avó, “Para dizer-lhe a verdade, é tudo uma ilusão. Os fantasmas não existem. Tenho vendido pregos daquela árvore por quase um ano agora.”

         Ela não podia acreditar. Por um momento ela não podia respirar. Então ela disse, “Espere! Vendendo os pregos! Você não deveria nem chegar perto daquela árvore. Se a sua mãe e pai descobrirem eles levar-te-ão embora.”

         Eu disse, “Não se preocupe, sou amigo dos fantasmas.”

         Ela disse, “Me diga a verdade. O que está realmente acontecendo?” Ela era uma mulher simples em relação àquilo. Ela era totalmente inocente.

         Eu disse, “Tudo é verdade, e é isso o que está acontecendo. Mas não fique contra o pobre lojista, porque é uma questão de negócio. Todo o meu negócio acabará se ele fugir ou ficar com medo. Se você realmente quer proteger o meu pequeno negócio você pode apenas mencionar a ele, incidentalmente, alguma coisa como, ‘É estranho como esses fantasmas de alguma forma amam esse garoto. Nunca os vi serem tão amigáveis a nenhuma outra pessoa. Até mesmo eu não posso chegar perto da árvore.’ Fale para ele quando você estiver passando.” 

         Na Índia eles fazem uma pequena plataforma de tijolos em volta de uma árvore, apenas para as pessoas se sentarem. Essa árvore tinha uma plataforma grande. Era uma árvore grande: pelo menos cem pessoas podiam facilmente sentar-se debaixo dela na plataforma, e pelo menos mil pessoas poderiam se sentar na sombra da árvore inteira. Ela era enorme. 

         Eu disse para a minha Nani, “Não perturbe aquele pobre lojista. Ele é a minha única fonte de renda.”

         Ela disse, “Renda? Que renda? Que tipo de coisa está acontecendo? E não me contaram nada!”

         Eu disse, “Eu estive com medo que você ficaria preocupada, mas agora posso lhe assegurar que não existem fantasmas. Venha comigo e vou tirar um prego e lhe mostrar.”

         Ela disse, “Não. Acredito em você.” É assim que as pessoas acreditam.

         Eu disse, “Não, Nani, isso não está certo. Venha comigo. Tirarei um prego. Se algo de errado ocorrer, ocorrerá comigo, e vou tirar os pregos de qualquer maneira, você vindo ou não. Já tirei centenas de pregos.”

         Ela pensou por um momento e então disse, “Certo, irei. Eu gostaria de não ir, mas você lembraria de mim como uma covarde, e não posso aceitar essa associação na sua mente. Estou indo.”

         Ela foi. É claro que no início ela assistiu à distância. Era um pátio grande. A casa certa vez pertenceu a um pequeno estado. Havia estátuas realmente belas debaixo da árvore neem, e algumas na casa também. As portas eram velhas, mas lindamente entalhadas. Asheesh amaria aquelas portas. Elas faziam um barulho estrondoso – mas essa é outra questão. Algum arquiteto antigo deve ter planejado a casa. A razão de a termos conseguido muito barata era por causa dos fantasmas. Quem queria viver na casa com tantos fantasmas vivendo ali na árvore? Nós a compramos quase de graça, por muito pouco, um dinheiro apenas simbólico. O dono ficou feliz em livrar-se dela.

         O meu pai havia dito a minha Nani, “Você ficará sozinha lá com, no máximo, esse garoto que é mais problema do que qualquer fantasma. Com tantos fantasmas e esse garoto também, você estará em apuros. Mas sei que você ama o rio, a vista e o silêncio do lugar.”

         Era quase um templo. Ninguém vivia lá há anos, exceto os fantasmas. Eu disse a minha Nani, “Não se preocupe. Venha comigo mas, lembre-se, não incomode o pobre lojista. Ele vive disso, eu vivo disso; de fato, muitos garotos pobres na minha escola são ajudados por mim por causa desses fantasmas, então, por favor, não o perturbe.”

         Mas ainda assim ela ficou um pouco longe. Eu lhe disse, “Vem…” Foi isso o que eu estive fazendo desde então, dizendo às pessoas, “Vem, chegue um pouco mais perto. Não se preocupe, não tenha medo.”

         De algum modo ela veio e viu que tudo aquilo era invenção. Ela então perguntou, “Mas como isso ocorre? – porque vi milhares de pessoas, não apenas uma… Elas vêm de lugares distantes e seus fantasmas desaparecem. Quando elas chegam estão loucas; quando partem, depois de cravarem o prego na pobre árvore, elas estão perfeitamente sãs. Como isso funciona?”

         Eu disse, “Nesse momento não sei como funciona, mas vou descobrir. Estou no caminho para descobrir. Não posso deixar os fantasmas sozinhos.”

         Aquela árvore ficava entre a minha casa e o resto da vizinhança, dando para uma pequena rua. Durante a noite, é claro, ninguém passava por aquela rua. Era muito bom para mim; não havia nenhum incômodo à noite. Na verdade, um pouco antes do pôr do sol as pessoas começavam a correr de volta para suas casas antes de ficar escuro. Quem sabe, com tantos fantasmas…

         O pobre tutor vivia a apenas algumas casas atrás da casa da minha Nani. Ele tinha que passar por aquela rua; não havia outro caminho. Preparei tudo aquela noite. Era difícil porque durante o dia todo mundo passava pela rua, e na luz do dia era difícil persuadir os fantasmas a fazerem algo, mas à noite eu poderia providenciar.

         Enviei um garoto para a casa do tutor. O garoto teve que ir porque na minha vizinhança qualquer garoto que não estivesse pronto para seguir meu conselho, ou qualquer outra coisa, estaria em constante apuro, vinte e quatro horas por dia, entra dia, sai dia. Então qualquer coisa que eu dizia eles faziam, sabendo perfeitamente bem que aquilo era perigoso – porque eles também acreditavam nos fantasmas.

         Eu lhe disse, “Você vai até a casa do tutor e diz a ele que o pai dele” – que vivia na outra rua – “está gravemente doente, e talvez não sobreviva. E fale isso com muita seriedade.”

         Naturalmente, quando o seu pai está morrendo, quem pensa em fantasmas? O tutor imediatamente saiu correndo. E eu tinha feito todos os arranjos: Eu estava sentado na árvore. Era a minha árvore, ninguém poderia objetar. O tutor passou com sua lamparina de querosene – é claro que ele deve ter pensado em levar uma lamparina de querosene para os fantasmas não chegarem muito perto, ou, se chegassem, ele os veria e escaparia a tempo.

         Eu simplesmente pulei da árvore na cabeça do tutor! O que aconteceu em seguida foi simplesmente maravilhoso, maravilhoso! Algo que nunca esperei… (rindo alto) A sua calça caiu! Ele correu sem calça! Ainda posso vê-lo… (rugindo com a risada)

 

Sessão 50

É bom que eu não possa ver… mas sei o que está acontecendo. Mas o que vocês podem fazer? – vocês têm que seguir à sua única tecnologia, e com um homem como eu, naturalmente vocês estão em grande dificuldade. Estou atado e não posso os ajudar.

         Ashu, você pode fazer algo? Apenas um pouco de risada da sua parte o manterá quieto. É uma coisa muito estranha: paramos de rir quando outra pessoa começa. A razão é clara, não para os outros, mas para mim. A pessoa que estava rindo imediatamente pensa que ela está fazendo algo errado e, obviamente, fica séria.

         Então, quando você ver que o Devageet está saindo um pouco da estrada, ria, derrote-o. É uma questão de libertação feminina. E se você der um bom riso ele começará imediatamente a tomar suas notas. Você ainda nem começou e ele voltou a si.

         Ontem eu estava falando para vocês que pulei da árvore naquela noite, não para machucar o pobre professor, mas para ele saber que tipo de estudante ele tinha. Mas aquilo foi muito longe. Até mesmo eu fiquei surpreso quando o vi tão assustado. Ele era puro medo. O homem desapareceu.

         Por um momento até pensei em pôr um fim naquilo, dizendo, “Ele é um homem velho;  talvez possa morrer ou passar mal, talvez ficar louco, ou nunca mais retornar à sua casa,” porque ele não poderia alcançar a sua casa sem, novamente, passar por aquela árvore – não havia outro caminho. Mas era muito tarde. Ele saiu correndo deixando a sua calça para trás.

         Eu a guardei e fui até a minha avó, dizendo, “Essa é a calça, e você pensou que ele iria ensinar-me? Com esta calça?”

         Ela disse, “O que aconteceu?”

         Eu disse, “Tudo aconteceu. O homem correu pelado, e não sei como ele voltará para sua casa. E estou com pressa – contar-te-ei toda a história depois. Fique com a calça. Se ele vier aqui, dê a calça para ele.”

Mas, estranho, ele nunca mais voltou para nossa casa para recuperar a sua calça, que permaneceu ali. Eu até a preguei na árvore neem pois se ele quisesse pegá-la não haveria necessidade de me pedir. Mas pegar a sua calça da árvore neem significava liberar o fantasma que ele achava que tinha pulado nele.

         Milhares de pessoas devem ter visto aquela calça conforme passavam pela árvore neem. As pessoas vinham ali como um tipo de psicanálise, um efetivo – como você o chama, Devaraj? Plassbo?

         “Placebo, Osho.”

         Plassba?

         “Plas-see-bo.”

         Ok, mas vou continuar a chamá-lo “plassbo.” Vocês podem corrigi-lo em seu livro. “Plasseebo” está certo, mas toda a minha vida chamei-o “plassbo,” e é melhor agarrar-se ao que é seu, seja isso certo ou errado. Pelo menos é seu. Devaraj deve estar certo, e eu devo estar errado sobre isso, mas estou certo em ainda chamá-lo “plassbo” – não pelo nome, mas para dar a isso o sabor de como me comportei.

         Certo e errado nunca foram considerados por mim. O que eu gosto é certo – e não digo que aquilo é certo para todo mundo. Não sou um fanático; sou apenas um louco. No máximo… não posso reivindicar mais do que isso. 

         O que eu estava falando?

         “Você estava falando sobre as pessoas irem até a árvore como um tipo de placebo para a psicanálise, Osho.”

         O casamento é um placebo. Ele funciona, essa é a coisa estranha. Sendo verdade ou não, não importa. Sou sempre pelo resultado; os meios são imateriais. Sou um pragmatista. 

         Eu disse para a minha avó, “Não se preocupe. Vou pendurar essa calça na árvore neem, e você pode ter certeza dos seus efeitos.”

         Ela disse, “Conheço você e suas ideias estranhas. Agora toda a cidade saberá de quem é essa calça. Mesmo se o homem vier pela sua calça ele nunca poderá voltar aqui novamente.” Aquela calça era famosa porque ele a usava em ocasiões especiais.

         Mas o que aconteceu com o homem? Eu até procurei em todos os lugares da cidade, mas naturalmente ele não foi encontrado na cidade porque ele estava nu. Então pensei, “Melhor esperar. Talvez tarde da noite ele chegue. Ele pode ter ido ao outro lado do rio.” Aquele seria o lugar mais próximo onde uma pessoa não seria vista por ninguém.

         Mas o homem nunca retornou. Foi assim que meu tutor desapareceu. Ainda me pergunto o que aconteceu com ele sem sua calça. Não estou muito interessado nele, mas como ele conseguiu sem sua calça? E para onde ele foi? Naturalmente certas ideias vêm até mim. Talvez ele morreu de ataque cardíaco – mas ainda assim o corpo, sem a calça, seria encontrado. E mesmo se estivesse morto, qualquer pessoa que o visse riria. Porque a sua calça era tão famosa, ele era até chamado de “Senhor Calça.” 

Eu nem me lembro o seu nome. E ele tinha tantos pares de calças – uma estória da cidade dizia que ele tinha trezentas e sessenta e cinco calças, uma para cada dia do ano. Não acho que seja verdade, apenas fofoca. Mas o que aconteceu com ele?

         Perguntei para a sua família; eles me disseram, “Estamos esperando, mas ele não foi mais visto desde aquela noite.”

         Eu disse, “Estranho…” Para a minha Nani eu disse, “Certamente o seu desaparecimento às vezes faz até eu suspeitar que talvez os fantasmas existam… Porque eu estava apenas apresentando-o aos fantasmas. E é bom que a sua calça fique pendurada na árvore.”

Meu pai ficou tão bravo que eu podia fazer uma coisa tão maldosa. Eu nunca tinha visto ele tão bravo.

         Eu disse, “Mas eu não havia planejado dessa forma. Nem pensei que o homem simplesmente evaporaria. É demais até mesmo para mim. Eu só fiz uma coisa simples. Sentei-me na árvore com um tambor, bati no tambor para que ele notasse o que estava acontecendo e esquecesse de tudo no mundo – e então pulei no chão.”

         E era a minha prática usual. Fiz muitas pessoas correrem. De fato a minha avó costumava dizer, “Talvez essa rua seja a única rua da cidade onde ninguém anda à noite, exceto você.”

         Outro dia alguém estava me mostrando alguns adesivos de carro. Um deles era belo; ele dizia, “Acredite-me, esta estrada realmente pertence a mim.” Enquanto eu lia aquele adesivo lembrei-me da rua que passava perto da minha casa. Pelo menos durante a noite eu era o seu dono. Durante o dia ela era uma rua do governo, mas à noite ela era absolutamente minha. Até hoje não imagino que uma rua possa ser tão silenciosa quanto aquela rua costumava ser à noite.

         Mas meu pai ficou tão bravo que disse, “Não importa o que aconteça, vou cortar essa árvore neem, e vou terminar com todo esse seu negócio.”

         Eu disse, “Que negócio?” Eu estava com medo em relação aos pregos, porque aquela era a minha única renda. Ele não sabia daquilo pois disse, “Esse negócio maldoso que você está fazendo, fazendo as pessoas terem medo… E agora a família desse homem me persegue. Todo dia alguém vem e me pede para fazer alguma coisa. O que posso fazer?”

         Eu disse, “Posso pelo menos te dar a calça; isso foi tudo o que restou. E, em relação à árvore, afirmo-lhe que ninguém estará disposto a cortá-la.”

         Ele disse, “Você não tem que se preocupar com isso.”

         Eu disse, “Não estou preocupado. Só quero que você tenha ciência para que você não desperdice o seu tempo.”

         E depois de três dias ele me chamou para dizer, “Realmente você tinha razão. Você me disse que ninguém cortaria a árvore. É estranho: perguntei para todas as pessoas que seriam capazes de derrubar a árvore – não existem muitas pessoas nessa cidade, lenhadores – mas ninguém estava disposto a fazê-lo. Todos disseram, ‘Não. E os fantasmas?’”

         Eu lhe disse, “Eu já havia lhe dito, não sei de ninguém nessa cidade que até mesmo tocaria na árvore, a menos que eu decida derrubá-la eu mesmo. Mas se você quiser posso arranjar alguém, mas você terá que depender de mim.”

         Ele disse, “Não posso depender de você porque ninguém sabe o que você está planejando. Você pode me dizer que vai derrubar a árvore mas você pode fazer outra coisa. Não, não posso te pedir para fazer.”

         Aquela árvore permaneceu, não havia ninguém disposto a cortá-la. Eu costumava atormentar o meu pobre pai dizendo, “Dada, e a árvore? Ela ainda está de pé – vi-a hoje de manhã. Você ainda não encontrou um lenhador?”

         E ele olhava em volta para ver se alguém estava escutando, então me dizia, “Você não pode me deixar sozinho?”

         Eu disse, “Raramente o visito. Venho só de vez em quando para perguntar sobre a árvore. Você diz que não pode encontrar uma pessoa para derrubá-la. Sei que você está perguntando para as pessoas, e sei que elas estão recusando. Também as questionei.”

         Ele disse, “Por quê?”

         Eu disse, “Não, não para cortar a árvore, apenas para conscientizá-las sobre o que a árvore contém – os fantasmas. Não acho que ninguém concordará em derrubá-la a menos que você peça para eu fazê-lo.” E é claro que ele estava relutante com isso. Então eu disse, “Ok, a árvore permanecerá.”

         E aquela árvore permaneceu enquanto estive na cidade. Foi só depois que parti que meu pai conseguiu que um islâmico de outra vila cortasse a árvore. Mas uma coisa estranha aconteceu: a árvore foi derrubada – mas ela podia crescer novamente, então, para removê-la completamente ele fez um poço no lugar. Mas ele sofreu desnecessariamente porque a árvore e suas raízes estavam tão profundas que tornaram a água a mais amarga que vocês podem imaginar. Ninguém podia tomar a água daquele poço.

         Quando finalmente vim para casa eu disse a meu pai, “Você nunca me ouve. Você destruiu uma bela árvore e criou esse buraco feio, e agora qual é o seu uso? Você gastou dinheiro fazendo um poço e nem você pode beber a água.”

         Ele disse, “Talvez de vez em quando você está certo. Tenho consciência disso, mas nada pode ser feito agora.”

         Ele teve que cobrir aquele poço com rochas. O poço ainda está lá, coberto. Se vocês removerem algumas poucas rochas, apenas algumas lajotas, vocês encontrarão o poço. A água estará realmente amarga.

         Por que eu quis contar essa história? – porque o tutor, no primeiro dia, tentou me impressionar, que ele era um homem de grande coragem, destemido, dizendo que não acreditava em fantasmas. 

         Eu disse, “Sério? Você não acredita em fantasmas?”

         Ele disse, “É claro que não acredito.” Eu podia ver que ele já estava com medo enquanto dizia aquilo.

         Eu disse, “Acredite ou não, mas hoje vou te apresentá-los” Nunca pensei que a introdução faria o homem simplesmente desaparecer. O que aconteceu com ele? Sempre que eu ia para a cidade eu visitava sua casa para perguntar, “Ele já voltou para a casa?”

         Eles sempre disseram, “Por que você está tão interessado? Esquecemos toda a ideia da volta dele.”

         Eu disse, “Não posso esquecer porque o que vi foi tão belo, e eu estava apenas apresentando-o para alguém.”

         Eles disseram, “Para quem?”

         Eu disse, “Uma pessoa – e nem pude terminar a introdução. E,” contei a seu filho, “o que o seu pai fez não foi refinado: ele apenas correu para fora da sua calça.”

         A esposa, que estava cozinhando alguma coisa, riu e disse, “Eu sempre disse para ele segurar firme a sua calça, mas ele não ouvia. Agora a sua calça se foi e ele também.”     

         Eu disse, “Por que você dizia para ele segurar firme a sua calça?”

         Ela disse, “Você não entende. É simples. Todas as suas calças foram feitas quando ele era jovem, e elas estavam todas largas porque ele havia perdido peso. Então eu sempre tive medo que um dia ou outro ele criaria uma situação embaraçosa onde a sua calça simplesmente cairia.”

         Então me lembrei que ele sempre mantinha as suas mãos nos bolsos da calça. Mas, naturalmente, quando você encontra com fantasmas você não pode se lembrar de manter as suas mãos em seus bolsos e segurar firme a sua calça. Quem liga para a calça quando há tantos fantasmas pulando sobre si!

         Ele fez mais uma coisa antes de partir… Não sei para onde ele foi; nesse mundo existem muitas coisas que são irrespondíveis, e isso pode ser contado entre elas. Não sei porquê, mas antes de partir ele saiu com sua lamparina de querosene. Esta é outra questão sobre aquele tutor que permaneceu não respondida.

         Ele foi um grande homem de certa forma. Sempre me perguntei por que ele colocava a lamparina para fora; então, um dia cruzei com uma anedota e isso foi resolvido. Não quero dizer que o homem retornou, mas a segunda questão foi respondida.

         O seu menino pequeno não ia ao banheiro sem que sua mãe ficasse na porta, e, se era de noite, então, naturalmente, ela mantinha a lamparina ali. Eu estava visitando a casa e ouvi a mãe dizer ao filho, “Você mesmo não pode pegar a lamparina?”

         Ele disse, “Ok, pegarei a lamparina porque tenho que ir. Não posso mais esperar.”

         Eu disse, “Por que usar a lamparina de dia? Ouvi a história de Diógenes; ele é outro Diógenes? Por que a lamparina?”

         A mãe riu e disse, “Pergunte a ele.”

         Eu disse, “Por que você quer a lamparina durante o dia, Raju?”

         Ele disse, “Dia ou noite, não importa; os fantasmas estão em todos os lugares. Quando você tem uma lamparina é possível evitar o conflito com eles.”

         Naquele dia entendi porque o tutor colocou a lamparina para fora antes de fugir. Talvez ele pensou que se mantivesse a lamparina acesa, o fantasma o encontraria. Mas se ele colocasse a lamparina para fora – e isso é apenas a minha lógica – se ele colocasse a lamparina para fora, pelo menos os fantasmas não o veriam e ele poderia se esquivar e escapar.

         Mas ele fez um grande trabalho. Para dizer a verdade para vocês, parece que ele sempre quis escapar da sua esposa, e essa oportunidade foi a sua última. Ele a utilizou ao máximo. Este homem não chegaria à essa conclusão se não tivesse começado com sua coragem, dizendo, “Não tenho medo de fantasmas.”

         “Mas,” eu disse, “Não estou lhe perguntando.” E a sua calça estava tremendo quando ele disse a palavra ‘fantasma’.

         Eu disse, “Senhor, sua calça é muito estranha. Nunca vi nada tremer como isso. Ela parece tão viva.”

         Ele olhou para baixo, para sua calça – ainda posso vê-lo – e as pernas estavam completamente frenéticas.

         Com efeito, os dias da minha escola primária terminaram. É claro que milhares de coisas aconteceram que não podem ser contadas… não que elas sejam sem valor – mas apenas porque não há tempo. Então apenas alguns poucos exemplos servirão.

A escola primária foi apenas o início do ensino médio. Entrei no ensino médio, e a primeira coisa que lembro – vocês me conhecem, vejo coisas estranhas…

         A minha secretária coleciona todos os tipos de adesivos de carro. Um dizia: “Cuidado – breco para as alucinações.” Gostei. Realmente excelente!

         A primeira coisa que me lembro é desse homem que – feliz ou infelizmente, porque é difícil saber – não era são de maneira alguma. Ele também não era insano como eu; ele era genuinamente insano. Na vila ele era conhecido como Mestre Khakki. O significado de khakki é algo muito próximo de doido, louco. Ele foi meu primeiro professor no ensino médio. Talvez porque ele era genuinamente insano nós imediatamente nos tornamos amigos.

         Eu raramente era amigável em relação aos professores. Há algumas tribos como os políticos, jornalistas e professores que simplesmente não posso gostar, embora eu quisesse gostar deles também. Jesus disse, “Ame os seus inimigos.” Ok, mas ele nunca foi a nenhuma escola, então ele não conhece os professores, isso é certo; caso contrário ele teria dito, “Ame os seus inimigos, exceto os professores.”

         É claro que não haviam nem jornalistas, nem políticos, nenhuma pessoa cujo todo o trabalho é, de alguma forma, sugar o seu sangue. Jesus estava falando sobre inimigos – mas, e os amigos? Ele não diz nada sobre amar os seus amigos. Porque não acho que um inimigo pode lhe prejudicar muito; o dano real é feito pelo amigo.

         Simplesmente odeio jornalistas, e quando odeio não quero dizer qualquer outra coisa; nenhuma interpretação, simplesmente odeio! Odeio professores! Não quero professores no mundo… professores no sentido antigo. Talvez um tipo diferente de amigo mais velho terá que ser encontrado. 

         Mas esse homem que era conhecido como louco imediatamente tornou-se meu amigo. O seu nome completo era Rajaram, mas ele era conhecido como Raju-Khakki, “Raju, o louco.” Eu esperava que ele seria do jeito que ele era conhecido por ser.

         Quando vi o homem – vocês não acreditarão, mas naquele dia pela primeira vez entendi que não é bom ser realmente são em um mundo insano. Olhando para ele, apenas por um momento, era como se o tempo tivesse parado. Quanto tempo durou é difícil dizer, mas ele teve que escrever meu nome e endereço e registrar as coisas, então fez essas questões.

         Eu disse, “Não podemos ficar em silêncio?”

         Ele disse, “Eu amaria ficar em silêncio com você, mas vamos terminar esse trabalho sujo primeiro, então podemos nos sentar silenciosamente.”

         A forma que ele disse, “Vamos terminar esse trabalho sujo primeiro…” foi suficiente para me mostrar que ali estava um homem que pelo menos sabia o que é sujo: a burocracia, o infinito protocolo. Ele terminou rapidamente, fechou o registro e disse, “Ok, agora podemos nos sentar silenciosamente. Posso segurar sua mão?”

         Eu não estava esperando aquilo de um professor, então eu disse, “Ou o que as pessoas dizem está certo – que você é louco – ou, talvez, o que estou sentindo está certo: que você é o único professor são de toda a cidade.”

         Ele disse, “É melhor ser louco; isso lhe salva de muitos problemas.”

         Nós rimos e nos tornamos amigos. Por trinta anos continuamente, até ele morrer, eu costumava visitá-lo, apenas para sentarmo-nos. A sua esposa costumava dizer, “Pensei que meu marido era o único louco na cidade. Isso não é verdade; você é louco também. Pergunto-me,” ela disse, “porque você vem visitar esse louco?” E ele era louco de todas as maneiras.

         Por exemplo, vocês o viriam indo para a escola de cavalo. Isso não era uma coisa ruim naquele lugar, mas sentado ao contrário…! Eu amava aquilo nele. Sentar-se em um cavalo, não como todo o mundo se senta, mas olhando para trás, é uma experiência estranha.

         Foi só depois que lhe contei a história de Mulla Nasruddin, de como ele costumava andar em seu burro também virado ao contrário. Quando os seus estudantes costumavam ir à cidade, naturalmente eles se sentiam envergonhados, para dizer o mínimo. Finalmente um dos estudantes perguntou, “Mulla, todo mundo se senta em um burro, não há nada de errado nisso. Você se senta em um burro, mas ao contrário…! O burro está indo em uma direção, e você está olhando na direção oposta, então as pessoas riem e dizem, ‘Vejam aquele louco do Mulla!’ – e nós nos sentimos envergonhados porque somos seus estudantes.”

         Mulla disse, “Vou explicar para vocês. Não posso me sentar de costas para vocês, isso seria um insulto. Não posso insultar os meus próprios estudantes, então isso está fora de questão. Outras formas podem ser encontradas. Talvez vocês poderiam andar de costas na frente dos seus burros, mas isso seria muito difícil, e vocês se sentiriam ainda mais envergonhados. É claro que vocês estariam olhando para mim e não haveria desrespeito. Mas seria muito difícil para vocês andarem de costas, e vamos viajar bastante. Então, a única solução natural e também a mais fácil é que eu me sente olhando para trás no burro. O burro não faz objeção em não os ver. Ele pode ver onde estamos indo e alcançar o destino. Não quero ser desrespeitoso para com vocês, então a melhor maneira para mim é sentar-me ao contrário no burro.”

É estranho, mas Lao Tsé também costumava sentar-se ao contrário em seu búfalo, talvez pela mesma razão. Mas nada é conhecido em relação à sua resposta. Os chineses não respondem a essas questões, e eles também não as fazem. Eles são pessoas muito respeitosas, sempre se curvando umas para as outras.

         Eu estava determinado a fazer tudo o que não era permitido. Por exemplo, quando estava no colégio eu usava uma túnica sem botões e calça de pijama. Um dos meus professores, Indrabahadur Khare… lembro-me do seu nome embora ele tenha morrido há muito tempo, mas por causa dessa história que estou prestes a contar-lhes não posso o esquecer.

         Ele era o responsável por todas as celebrações do colégio. É claro que ele decidiu, por causa de todos os prêmios que eu estava trazendo para o colégio, que a minha foto deveria ser tirada com todas as medalhas, brasões e taças, então fomos ao estúdio. Mas um grande problema surgiu ali quando ele disse, “Abotoe os seus botões.”

         Eu disse, “Isso não é possível.”

         Ele disse, “O quê? Você não pode fechar os seus botões?”

         Eu disse, “Olhe, você pode ver, os botões são falsos. Não tenho qualquer buraco para os botões; eles não podem ser fechados. Não gosto de fechar botões, então instrui o meu alfaiate a não fazer nenhum buraco para botões em minhas roupas. Os botões estão aqui, você pode vê-los, então a foto mostrará os botões.”

         Ele ficou muito bravo porque ele era muito – como dizê-lo, preocupado? – preocupado com roupas e essas coisas, então ele disse, “Então a foto não poderá ser tirada.”

         Eu disse, “Ok, então vou embora.”

         Ele disse, “Eu não quis dizer aquilo” – porque ele estava com medo que eu causaria problema e, talvez, fosse até o diretor. Ele sabia perfeitamente bem que não havia nenhuma lei dizendo que os seus botões devem estar fechados quando está sendo fotografado.

         Eu o lembrei dizendo, “Tenha certeza que amanhã você estará em apuros. Não há nenhuma lei contra isso. Leia à noite toda, procure, faça a lição de casa, e amanhã me encare na sala do diretor. Prove para mim que uma fotografia não pode ser tirada sem os botões fechados.”

         Ele disse, “Você certamente é um estudante estranho. Sei que não serei capaz de provar, então por favor tire a foto. Vou sair, mas a sua fotografia tem que ser tirada.”

         Aquela fotografia ainda existe. Um dos meus irmãos, meu quarto irmão, Niklanka, tem colecionado tudo o que diz respeito a mim desde a sua infância. Todo mundo ria dele. Até mesmo eu lhe perguntei, “Niklanka, por que você se preocupa em colecionar tudo sobre mim?”

         Ele disse, “Não sei, mas de alguma forma há esse sentimento profundo em mim que algum dia essas coisas serão necessárias.”

         Eu disse, “Então vá em frente. Se você gosta disso, vá em frente, faça.” E é por causa de Niklanka que algumas poucas fotos da minha infância foram salvas. Ele coletou coisas que agora têm significância. 

         Ele sempre colecionou coisas. Mesmo se eu jogar algo fora em uma lixeira, ele vai procurar para ver se joguei algo que escrevi fora. Qualquer coisa que seja, ele coleta por causa da minha escrita. Toda a cidade o achava louco. As pessoas até me diziam, “Você é louco, e ele parece ser ainda mais louco!”

Mas ele me amou como ninguém na minha família me amava – embora todos me amassem, mas ninguém como ele. Ele pode ter a fotografia porque ele estava sempre coletando. Lembro-me de tê-la visto em sua coleção – com os botões abertos. E ainda posso ver a irritação na face de Indrabahadur. Ele era um homem muito particular em relação a tudo, mas eu também era um homem único. 

         Eu lhe disse, “Esqueça a fotografia. Será a minha foto ou a sua? Você pode tirar a sua foto com os seus botões fechados, mas nunca fecho os botões, como você viu. Se eu os fechar será falso. Tire a minha foto ou esqueça totalmente dela!”

         Foi bom, belo… mas seja vertical. Comigo o horizontal não é aplicável. Bom. Quando as coisas estão indo tão bem é melhor parar. E Devageet, é belo, mas suficiente. Devaraj, ajude-o. Ashu, faça o seu melhor. Eu amaria continuar, mas o tempo acabou. É preciso retirar-se em algum lugar.

         Pare.

Por rafaelsc

"Ensinar não é encher um balde, é acender um fogo" Yeats

"Creio porque é absurdo" Tertuliano

"Seja uma luz para si próprio" Buda

“Sentando-se quieto, sem fazer nada, a primavera vem e a grama cresce, por si só." Matsuo Bashō

"O silêncio e a risada são a chave – silêncio dentro, risada fora" Osho

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