Categorias
Meditação Tradução

Vislumbres de uma Infância Dourada, OSHO, 46-48

Sessão 46

Ok. Posso começar com o segundo dia da minha escola primária. Quanto tempo isso pode esperar? Isso já esperou o bastante. O segundo dia foi realmente a minha entrada na escola, porque o Mestre Kantar havia sido colocado para fora e todo mundo estava feliz. Quase todas as crianças estavam dançando. Eu não podia acreditar, mas elas me disseram, “Você não conhece o Mestre Kantar. Se ele morrer nós vamos distribuir doces para toda a cidade, e queimar milhares de velas em nossas casas.” Fui recebido como se tivesse feito uma grande coisa.

            Na verdade, senti um pouco de pena do Mestre Kantar. Ele podia ser muito violento, mas, sobretudo, ele era um ser humano também, e com todas as fraquezas que um ser humano está inclinado a ter. Não era sua culpa o fato dele ter apenas um olho e uma face feia. E eu gostaria de dizer algo que eu nunca disse antes porque nunca pensei que alguém acreditaria nisso… mas não estou buscando crentes, acreditem nisso ou não.

            Até mesmo a sua crueldade não era sua culpa– enfatizo sua culpa – era natural para ele. Assim como ele tinha apenas um olho, ele tinha raiva, e uma raiva muito violenta. Ele não podia tolerar nada que lhe era contra. Até mesmo o silêncio das crianças era suficiente para provocá-lo.

            Ele olharia em volta e diria, “Por que tanto silêncio? O que está ocorrendo? Deve haver uma razão para vocês estarem tão silenciosos. Vou ensinar a uma lição a todos, para que vocês nunca mais façam isso comigo.”

            As crianças ficavam todas espantadas. Todas ficavam quietas para não o perturbar. Mas o que ele poderia fazer? – até mesmo aquilo o perturbava. Ele precisava de tratamento médico, e não apenas físico, mas psicológico também. Ele era, de todas as formas, doente. Sinto pena dele porque fui, aparentemente pelo menos, a causa da sua demissão.

            Mas todo mundo estava aproveitando a ocasião, até mesmo os professores. Não pude acreditar quando o diretor também me disse, “Obrigado, meu garoto. Você começou a sua vida escolar fazendo algo belo. Aquele homem era uma dor no pescoço.”* [NT. expressão idiomática a pain in the neck: um mala sem alça]

            Olhei para ele e disse, “Talvez eu devo remover o pescoço também.”

            Imediatamente ele ficou sério e disse, “Vá e faça o seu trabalho.”

            Eu disse, “Olhe, você está feliz, comemorando, porque um dos seus colegas foi expulso – e você chama a si mesmo de colega? Que tipo de amizade é essa? Você nunca lhe disse na cara como você se sente. Você não o poderia fazer; ele o teria esmagado.”

            O diretor era um homem pequeno, não mais que um metro e meio, ou talvez até menos. E aquele gigante de um metro e oitenta, pesando cento e oitenta quilos podia facilmente esmagá-lo sem nenhuma arma, apenas com seus dedos. “Na frente dele por que você sempre se comportava como um marido na frente da sua esposa?” Sim, essas foram as palavras exatas.

            Lembro-me de ter dito, “Você se comportou como um marido dominado. E lembre-se, posso por sorte ter sido a causa da demissão dele, mas eu não estava planejando nada contra ele. Eu tinha acabado de entrar na escola; não houve tempo para arranjar uma comissão de planejamento. E você planejou contra ele a sua vida toda. Ele deveria, pelo menos, ter sido enviado para outra escola” – havia quatro escolas naquela cidade.

            Mas o Mestre Kantar era um homem forte, e particularmente o prefeito estava sob os seus polegares. O prefeito daquela cidade estava pronto para ficar sob os polegares de qualquer um. Talvez ele gostava de polegares, não sei, mas logo toda a cidade compreendeu que esse estrume sagrado não ajudaria.

            Em uma cidade de vinte mil, não há estrada que mereça ser chamada de estrada, nem eletricidade, parque, nada. Logo as pessoas compreenderam que era por causa desse estrume sagrado. Ele teve que demitir-se, para que ao menos pelos próximos dois anos e meio o seu vice-prefeito assumisse.

            Shambhu Babu transformou quase toda a cara daquela cidade. Uma coisa devo dizer a vocês: através de mim ele soube que até mesmo uma criança pequena poderia não apenas remover um professor, mas criar uma situação tal que o prefeito da cidade tinha que demitir-se.

            Ele costumava dizer sorrindo, “Você me tornou prefeito.” Mas, posteriormente, houve momentos em que discordamos. Ele permaneceu prefeito por muitos anos. Uma vez que a cidade viu o seu trabalho durante aqueles dois anos e meio ele foi eleito unanimemente repetidas vezes. Ele quase fez milagres ao alterar aquela cidade.

            Ele fez as primeiras estradas pavimentadas de toda a província, e trouxe eletricidade para as nossas vinte mil pessoas. Aquilo era muito raro; nenhuma outra cidade daquele tamanho tinha eletricidade. Ele plantou árvores ao longo das estradas para dar um pouco de beleza a uma cidade feia. Ele fez muito. Estou preparando vocês para os momentos em que eu não concordava com as suas políticas. Então eu era seu oponente.

            Vocês não acreditam como uma criança de talvez doze anos pode ser um oponente. Eu tinha minhas estratégias. Eu podia persuadir as pessoas muito facilmente – apenas porque eu era uma criança, e que interesse eu poderia ter na política? E certamente eu não tinha interesse algum.

            Por exemplo, Shambhu Babu impôs a taxa octroi. Posso entender aquilo: sem dinheiro como ele poderia gerir todos os seus projetos de embelezamentos, e estradas, e eletricidade? Naturalmente ele precisava de dinheiro. Alguma forma de taxação era necessária.

            Eu não era contra a taxação, eu era contra a taxa octroi, porque ela recai sobre a cabeça dos mais pobres. O rico fica mais rico e o pobre mais pobre. Não sou contra o rico ficar mais rico, mas sou certamente contra o pobre ficar mais pobre. Vocês não acreditarão, e até ele mesmo ficou surpreso quando eu disse, “Irei de casa em casa dizer para as pessoas não votarem em Shambhu Babu de novo. Se a octroi permanecer então Shambhu Babu terá que ir. Ou se Shambhu Babu quiser ficar, então a octroi tem que ir. Não vamos permitir Shambhu Babu e a octroi simultaneamente.”

            Não apenas fui de casa em casa, falei até mesmo no primeiro encontro público. As pessoas apreciavam ver somente um garoto pequeno falando tão logicamente. Até mesmo Shambhu Babu estava sentado nas proximidades, em uma loja. Ainda posso vê-lo sentado lá. Aquele era o seu lugar; ele costumava sentar-se lá o dia todo. Era um lugar estranho para ele sentar-se, mas a loja era em um lugar muito conhecido, exatamente no centro da cidade. Era por isso que todos os encontros tinham que ser lá, e ele poderia fingir que estava apenas sentado na loja do seu amigo e que não tinha nada a ver com o encontro.

            Quando ele me ouviu – e vocês me conhecem, eu sempre fui o mesmo. Apontei para Shambhu Babu sentado naquela pequena loja e disse, “Olhem! Ele está sentado ali. Ele veio para ouvir o que eu vou dizer. Mas, Shambhu Babu, lembre-se: amizade é uma coisa, mas não vou apoiar a sua taxa octroi. Opor-me-ei a ela mesmo se eu tiver que perder à sua amizade. Então saberei que ela não valia muito. Se ainda pudermos permanecer amigos, embora não concordemos em alguns pontos, ou mesmo se houver um conflito público, apenas então a nossa amizade terá alguma significância.”

            Ele era um homem realmente bom. Ele saiu da loja, bateu nas minhas costas e disse, “Os seus argumentos valem a pena serem considerados. E, no que diz respeito à nossa amizade, esse conflito não tem nada a ver com ela.” Ele nunca o mencionou novamente. Eu pensava que algum dia ela o traria novamente e diria para mim, “Você estava me batendo muito forte e aquilo foi errado.” Mas ele nunca nem mesmo o mencionou. A coisa mais maravilhosa é que ele retirou a taxa.

            Perguntei-lhe, “Por quê? Eu posso me opor a ela, mas não sou nem um eleitor ainda. Foi o público que votou em você.”

            Ele disse, “Esse não é o ponto. Se até você pode se opor a ela, então deve ter algo errado com o que eu estava fazendo. Estou retirando-a. Não tenho medo do público, mas quando uma pessoa como você discorda… embora você seja muito jovem, eu o respeito. E seu argumento está certo, que não importa qual taxação alguém aplicar, ela terá que ser finalmente paga pelos pobres, porque os ricos são suficientemente espertos para alterá-la.”

            A taxa octroi é a taxação de qualquer mercadoria que entra na cidade. Ora, quando essas mercadorias forem vendidas elas terão que ser vendidas por um preço mais alto. Vocês não podem impedir que a taxação que o dono da loja pagou seja tirada do bolso do pobre agricultor. É claro que o dono da loja não a chamará de taxação; ela tornar-se-á apenas parte do preço.

            Shambhu Babu disse, “Entendo o ponto e retirei a taxa.” Enquanto ele foi prefeito a taxação nunca mais foi habilitada, nem mesmo discutida. Mas ele nunca se sentiu ofendido; pelo contrário, ele ficou ainda mais respeitoso em relação a mim. Me senti incomodado que eu tive que me opor a alguém que, posso dizê-lo, foi a única pessoa naquela cidade que eu amava.

            Até o meu pai ficou surpreso e disse, “Você faz algumas coisas estranhas. Ouvi você falando em público. Eu sabia que você faria algo como isso, mas não tão cedo. Você estava falando tão convincentemente, e contra o seu próprio amigo. Todo mundo estava chocado que você estava falando contra Shambhu Babu.”

            Toda a cidade sabia que eu não tinha outros amigos além desse velho homem, Shambhu Babu – ele devia ter em torno de cinquenta anos. Agora seria o momento para sermos amigos – mas aquela discrepância de idade não estava em nossas mãos, então nem a notamos. E ele também não tinha nenhum outro amigo. Ele não poderia se dar ao luxo de perder-me, nem eu poderia me dar ao luxo de o perder. O meu pai disse, “Não acredito que você falou contra ele.”

            Eu disse, “Eu nunca disse uma única palavra contra ele. Eu estava falando contra a taxação que ele estava tentando aplicar. A minha amizade certamente não inclui isso; a octroi está excluída. E eu disse a Shambhu Babu antes, para que ele tomasse conhecimento, que se algo me fosse desagradável eu lutaria contra, até mesmo contra ele. Foi por isso que ele estava presente naquela loja, somente para ouvir o que eu tinha para dizer contra a taxa. Mas eu não disse uma única palavra contra Shambhu Babu.”

            O segundo dia na escola foi como se eu tivesse feito algo grandioso. Eu não podia acreditar que as pessoas tinham sido tão oprimidas pelo Mestre Kantar. Não é que elas estavam celebrando por mim; mesmo naquele momento eu podia ver a distinção claramente. Hoje também, posso lembrar-me perfeitamente que elas estavam celebrando porque o Mestre Kantar não estava mais em suas costas.

            Elas não tinham nada a ver comigo, embora atuassem como se estivessem celebrando por mim. Mas eu havia ido para a escola no dia anterior e ninguém havia me dito nem mesmo “Olá.” Contudo, agora, toda a escola estava reunida no Portão do Elefante para me receber. Eu havia me tornado quase um herói logo no meu segundo dia.

            Mas eu lhes disse diversas vezes, “Por favor, dispersem. Se vocês querem celebrar, vão até o Mestre Kantar. Dancem na frente da casa dele, celebrem lá. Ou vão até Shambhu Babu, que é a causa real da sua demissão. Não sou ninguém. Não tenho nenhuma expectativa, mas acontecem coisas na vida que vocês nunca esperaram, nem mereceram. Essa é uma dessas coisas, então, por favor, esqueçam-na.”

            Mas aquilo nunca foi esquecido em toda a minha vida acadêmica. Nunca fui aceito como apenas mais uma criança. É claro que eu não me preocupava com a escola de maneira alguma. Noventa por cento do tempo eu estava ausente. Eu aparecia apenas uma vez ou outra por uma razão própria, mas não para frequentar a escola.

            Eu estava aprendendo muitas coisas, mas não na escola. Eu estava aprendendo coisas estranhas. Os meus interesses eram um pouco incomuns, para dizer o mínimo. Por exemplo, eu estava aprendendo como pegar cobras. Naqueles dias muitas pessoas chegavam na vila com belas cobras, e as cobras dançavam em suas flautas. Aquilo realmente me impressionava.

            Todas aquelas pessoas quase desapareceram, pela simples razão que elas eram todas Islâmicas. Ou elas foram para o Paquistão ou foram mortas pelos Hindus, ou talvez mudaram de profissão porque era uma declaração pública nítida que elas eram Islâmicas. Nenhum Hindu praticava aquela arte.

            Eu seguiria qualquer encantador de cobras o dia todo perguntando para ele, “Somente me conte o segredo de como você pega as cobras.” E bem devagar eles entenderam que eu não era uma daquelas pessoas que se podia impedir de fazer qualquer coisa. Eles disseram entre si, “Se não contarmos para ele, ele tentará sozinho.”

            Quando eu disse para um encantador de cobras, “Ou você me conta ou vou tentar sozinho; se eu morrer você será o responsável” – ele me conhecia porque por dias eu estava incomodando-o e perturbando-o – ele disse, “Espere, vou ensiná-lo.”

            Ele me levou para fora da cidade e começou a ensinar-me como pegar cobras; como ensiná-las a dançar quando você toca a flauta. Foi ele que me disse pela primeira vez que as cobras não têm ouvidos, que elas não podem ouvir – e quase todo mundo acredita que elas são influenciadas pela flauta do encantador de cobras.

            Ele me disse, “A verdade é que elas não podem ouvir de maneira alguma.”

            Então lhe perguntei, “Mas como elas começam a balançar quando você toca a sua flauta?”

            Ele disse, “Não é nada além de treino. Quando toco a minha flauta, você notou que começo a balançar a minha cabeça? Esse é o segredo. Balanço a minha cabeça e a cobra começa a balançar, e a menos que ela balance ela permanecerá com fome. Então, o quanto antes ela começar a balançar, melhor. A fome é o segredo, não a música.”

            Aprendi com esses encantadores de cobras como pegá-las. Em primeiro lugar, noventa e sete por cento das cobras são inofensivas, não-venenosas; vocês podem pegá-las sem nenhum problema. É claro que elas morderão, mas porque elas não são venenosas será apenas uma mordida, vocês não morrerão. Noventa e sete por cento não têm glândulas de veneno. E os três por cento que têm as glândulas de veneno têm um hábito estranho: elas mordem apenas o suficiente para abrir lugar para o veneno e então elas rolam. A glândula de veneno está de cabeça para baixo em suas gargantas, então, primeiramente, elas fazem o ferimento, então rolam e vertem o veneno. Vocês podem pegá-las ou antes delas fazerem o ferimento… e a melhor maneira é apertar a boca delas realmente forte.

            Eu não sabia que era necessário apertar a boca, mas isso tem que ser a primeira coisa. Se vocês errarem e deixá-las fazer o ferimento, não se preocupem: segurem forte e não as deixem rolar. O ferimento vai curar e vocês não morrerão. Eu estava aprendendo, e esse é apenas um exemplo.

            Infelizmente todos aqueles encantadores de cobras tiveram que deixar a Índia. Havia mágicos fazendo todos os tipos de coisas inacreditáveis, e eu estava certamente mais interessado nos mágicos do que em meu pobre professor e sua geografia ou história. Eu seguia esses mágicos como um servo. Eu não os deixaria a menos que eles me ensinassem algum pequeno truque.

            Eu estava continuamente espantado que o que parecia tão inacreditável não era nada além de um truque. Mas a menos que vocês conheçam o truque vocês terão que aceitar a grandeza do fenômeno. Uma vez que vocês conhecem o truque – é como um balão perdendo o seu ar: ele se torna cada vez menor, apenas um balão furado. Logo vocês terão apenas um pedaço de borracha em suas mãos e nada mais. Aquele grande balão era simplesmente ar quente.

            Eu estava aprendendo ao meu modo coisas que realmente iriam me ajudar. É por isso que posso dizer que Satya Sai Baba e as pessoas como ele são apenas mágicos de rua – e nem mesmo dos bons, apenas ordinários. Mas esses mágicos desapareceram das ruas da Índia porque eles também eram Islâmicos.

            Na Índia vocês têm que entender uma coisa, que as pessoas por milhares de anos seguiram uma certa estrutura. A profissão de alguém quase sempre é dada pelos pais; é uma herança, você não pode alterá-la. É difícil para um Ocidental entender; por isso tantos problemas surgem no entendimento, na comunicação com um Oriental.

            Eu estava aprendendo, mas não na escola, e nunca me arrependi disso. Aprendi com todos os tipos de pessoas estranhas. Vocês não podem encontrá-las em escolas como professoras; isso não é possível. Eu estava com os monges Jainas, com os sadhus Hindus, com os bhikkhus Budistas, e todos os tipos de pessoas que alguém não se deve associar.

            No momento em que eu tomava consciência de que eu não deveria me associar com alguém, isso era o suficiente para associar-me com aquela pessoa, porque ela devia ser uma forasteira. Porque ela era uma forasteira, daí a proibição – e amo os forasteiros.

            Odeio os locais* [NT. the insiders]. Eles prejudicaram tanto que é preciso encerrar o jogo. Os forasteiros sempre os achei meio loucos, mas belos – loucos entretanto inteligentes. Não a inteligência de um Mahatma Gandhi – ele era um insider perfeito – nem a inteligência dos supostos intelectuais: Jean-Paul Sartre, Bertrand Russell, Karl Marx, Hugh Bach… a lista é infinita.

            O primeiro intelectual foi a serpente que começou tudo isso; caso contrário não haveria problema. Ela foi a primeira intelectual. Não a chamo de diabo, chamo vocês de diabos – esse grupo. Vocês podem não entender o significado que dou à palavra. Para mim “o diabo” sempre significa “divino.” Ela vem da raiz Sânscrita deva, significando “divino.” Então nomeei a turma de vocês de “os diabos.”

            Mas a serpente era uma intelectual, e ela aplicou o truque que todos os intelectuais aplicam. Ela persuadiu à mulher a comprar algo enquanto o seu marido estava no escritório, ou talvez em outro lugar, porque os escritórios vieram depois – ele devia estar pescando, caçando, ou vocês podem imaginar o que o marido estava fazendo. Pelo menos ele não estava pulando a cerca, isso é certo, porque não havia ninguém para pular a cerca. Tudo isso viria depois.

            A serpente argumentou que, “Deus falou para você não comer a fruta da árvore da vida…” e não era nada além de uma macieira. Às vezes penso que ninguém pecou mais que eu, porque devo ter comido mais maçãs do que qualquer pessoa no mundo. E as maçãs são tão inocentes que pergunto-me porque a maçã foi a escolhida – que coisa errada a maçã fez a Deus? Não consigo entender.

            Mas uma coisa posso dizer: o ser humano chamado “serpente” deve ter sido um grande intelectual, tão grande que ele provou que comer maçãs é um pecado.

            Mas a inteligência para mim nunca é da mente…

Sessão 47

Eu estava falando sobre a minha escola primária. Eu raramente ia e era um alívio tal para todo mundo que eu realmente queria presenteá-los o máximo possível. Por que eu não poderia dar cem por cento de alívio? Pela simples razão que eu as amava também – quero dizer, as pessoas: os professores, os empregados, os jardineiros. De vez em quando eu queria visitá-las, particularmente quando eu queria mostrá-las alguma coisa. Um garoto pequeno, ansioso para mostrar o que ele tinha para aqueles que amava… mas essas coisas eram, às vezes, perigosas. Até hoje não posso resistir à risada.

            Lembro-me de um dia muito vividamente. Aquele dia esteve sempre esperando por esse momento. Talvez o momento chegou e ele tem que ser contado e compartilhado. É uma série de eventos.

            Eu havia acabado de aprender como pegar cobras. As cobras são pobres criaturas, inocentes também, e belas, muito vivas. Vocês não podem acreditar no que estou dizendo, a menos que tenham visto duas cobras se amando. Vocês podem se perguntar como as cobras fazem amor. Elas não o fazem – é apenas o ser humano que faz tudo – elas o realizam. E quando estão apaixonadas elas são flamas puras. E a razão porque falo isso é surpreendente, pois elas não têm ossos, entretanto elas ainda assim levantam-se para beijar uma a outra! Levantam-se sobre o quê? Elas também não têm pernas, elas simplesmente se levantam sobre suas caudas. Se vocês verem duas cobras ficando de pé sobre suas caudas e se beijando, vocês nunca mais se preocuparão com qualquer outro filme de Hollywood novamente.

            Eu tinha acabado de aprender como pegar uma cobra e como fazer a distinção entre uma cobra venenosa e uma não-venenosa. Algumas são tão absolutamente sem veneno que vocês podem talvez chamá-las de um outro tipo de peixe, porque muitas delas vivem na água. As cobras d’água são as mais inocentes, até mais que os peixes. Os peixes são espertos, mas cobras d’água não são. Testei com as minhas mãos todos os tipos de cobras, então quando falo não estou contando a história de outrem, é a minha história.

            Eu havia acabado de pegar uma cobra. Ora, esse era o dia de ir para a escola. Vocês dirão, “Estranho…?” Caso contrário eu estava tão ocupado, não havia tempo para perder com questões estúpidas, respostas, mapas tolos. Até mesmo naquele momento eu podia ver que os mapas são todos disparates, porque na terra eu não vejo linhas em lugar algum, nem no distrito nem na municipalidade. Então todas as nações são apenas cocô de vaca, e nem mesmo sagrada – cocô de vaca ímpio. Se qualquer coisa como isso existir está na política – ímpio e cocô de vaca, ambos juntos. Foi a política que criou os mapas.

            Eu não era o tipo de pessoa que gastaria meu tempo ali. Eu estava explorando a geografia real: indo para as montanhas, desaparecendo por dias. Apenas a minha Nani sabia quando eu voltaria. E por dias ninguém ouviria de mim, nem eu seria visto, porque eu não estava lá. E todo mundo, eu acho, exceto a minha Nani, ficava feliz. Vocês saberão o porquê… e eles estavam certos, sobre isso eu não tenho dúvidas.

            Peguei uma cobra, meu primeiro sucesso. Naturalmente eu queria ir para a escola imediatamente. E eu não ligava em usar uniforme, e ninguém esperava que eu o usasse; nunca o usei, nem na minha escola primária. Eu disse, “Eu vim para aprender, não para ser destruído. Se eu puder aprender algo, bom, mas não vou permitir que vocês me destruam, e o uniforme – escolhido por vocês que não sabem nada sobre beleza e forma – não posso o aceitar. Vou criar um grande problema se vocês tentarem impô-lo sobre mim.”

            Eles disseram, “Mantenha-o pronto apenas no caso de o inspetor vir; caso contrário estaremos em apuros. Não queremos lhe incomodar porque não queremos nos incomodar. É uma questão custosa,” o meu professor disse, “criar incômodo para você. Sabemos o que aconteceu com o Mestre Kantar; pode acontecer com qualquer um. Mas, por favor, mantenha o uniforme somente por nossa causa.”

            E vocês ficarão surpresos que o meu uniforme foi fornecido pela nossa escola. Não sei quem contribuiu com seu custo, nem ligo. Eu o mantive, sabendo perfeitamente bem que era quase uma impossibilidade matemática que a minha visita e a visita do inspetor à escola pudessem cair na mesma data. Não era possível, foi isso o que pensei, mas mantive o uniforme. Ele era belo: eles fizeram o seu melhor e não estavam insistindo que eu deveria ir com ele vestido.

            Sempre fui um forasteiro. Até mesmo agora entre a minha própria gente não estou vestindo o uniforme. Simplesmente não posso. Não posso nem estar no uniforme que escolhi para vocês. Por quê? A questão era a mesma naquele dia. Hoje, novamente, a questão é a mesma. Eu apenas não posso conformar. Vocês podem achá-lo um capricho; não é um capricho de maneira alguma, é muito existencial. Mas chegaremos nisso; caso contrário o que eu estava falando para vocês será perdido. Eu nunca voltarei a isso novamente.

            Eu havia pego a minha primeira cobra. Eu estava muito feliz, e a cobra era muito bonita: apenas tocá-la era tocar em algo realmente vivo. Não era como tocar a sua esposa, o seu marido, o seu filho, ou mesmo o seu genro, que vocês tocam e os abençoam, e vocês não têm nenhum sentimento – vocês vão e assistem TV, particularmente se estão na América, ou, se estão na Inglaterra, vocês vão para a partida de críquete ou futebol. As pessoas são loucas de diferentes formas, mas igualmente loucas.

            Aquela cobra era uma cobra real, não uma cobra de plástico que vocês podem comprar em qualquer loja. É claro, a cobra de plástico pode ser perfeitamente igual, mas ela não respira; este é o único problema dela, caso contrário ela é perfeita. Deus não a teria melhorado. Falta somente uma coisa – a respiração – e por que reclamar só de uma coisa? Mas esta coisa é tudo. Eu havia acabado de pegar uma cobra real, tão bela e esperta que eu tive que colocar toda a minha inteligência para capturá-la… porque eu não queria a matar de maneira alguma.

            O homem que estava me ensinando era um mágico de rua ordinário; na Índia os chamamos de madari. Eles fazem todos os tipos de truques sem cobrar nada. Mas eles fazem tão bem que no final eles abrem o seu lenço no chão e dizem, “Agora algo para o meu estômago.” E as pessoas podem ser pobres, mas quando elas veem algo realizado tão lindamente elas sempre dão.

            Então esse homem era um madari ordinário, um mágico de rua. Essa é a tradução mais próxima que consigo encontrar, porque acho que não existe nada parecido com os madaris no Ocidente. Em primeiro lugar, eles não permitem que uma multidão se reúna na rua; o carro de polícia vai chegar imediatamente dizendo que vocês estão bloqueando o tráfego.

            Na Índia não é possível bloquear o tráfego; não existem leis de trânsito! Vocês podem andar no meio da estrada, vocês podem seguir o meio dourado – literalmente. Vocês podem seguir da maneira Americana, vocês podem ir para a extrema direita, ou para a extrema esquerda. A extrema direita é a forma Americana, a extrema esquerda é a forma Russa: vocês podem escolher – ou vocês podem escolher qualquer posição entre os dois extremos. Toda a estrada é de vocês; vocês podem fazer as suas casas ali. Vocês ficarão surpresos em saber que na Índia vocês podem fazer qualquer coisa imaginável, ou inimaginável, na rua. Incluo até o inimaginável, porque nunca se sabe.

            Os madaris estavam certamente travando o trânsito, mas quem opor-se-ia? Até mesmo os policiais eram admiradores, batendo palmas nos truques que os madaris estavam fazendo. Eu vi todo o tipo de pessoa reunida ali bloqueando toda a rua. Não, os madaris não poderiam viver no Ocidente no mesmo sentido – e eles eram realmente belos; simples, ordinários, mas “sabiam de algo,” como eles diziam.

            O homem que estava me ensinando me disse, “Lembre-se, essa é uma cobra perigosa. Essas cobras não devem ser pegas.”

            Eu disse, “Você está livre. Essas são as únicas cobras que vou pegar.” Eu nunca tinha vista uma cobra tão bela, tão colorida, tão viva em cada fibra do seu ser. Naturalmente eu não podia resistir – eu era apenas um garoto pequeno – eu corri até a escola. Eu quis evitar contar o que aconteceu ali, mas vou contar apenas porque posso vê-lo novamente.

            Toda a escola, o máximo de gente possível, reuniu-se na minha sala, outro grupo estava do lado de fora da varanda olhando através das janelas e das portas. Outras pessoas estavam ainda mais longe, caso a cobra escapasse ou algo desse errado – e aquele garoto, desde o seu primeiro dia, provou ser um encrenqueiro. Mas a minha classe, apenas trinta ou quarenta garotos, estavam todos com medo, de pé e gritando e realmente diverti-me com aquilo.

            O que vocês apreciarão e não acreditarão é que o professor ficou de pé em sua cadeira! Até hoje posso vê-lo encima da cadeira dizendo, “Saia! Saia! Deixe-nos em paz! Saia!”

            Eu disse, “Primeiro você desce.”

            Ele ficou quieto, porque descer era perigoso com uma cobra tão grande. A cobra devia ter um metro e oitenta, dois metros, e eu a arrastava em uma sacola, para que eu pudesse, de repente, expô-la para todo mundo. E quando a expus houve caos! Ainda posso ver o professor pulando em sua cadeira. Eu não podia acreditar em meus olhos. Eu disse, “Isso é maravilhoso.”

            Ele disse, “O que é maravilhoso?”

            Eu disse, “Você pulando e ficando de pé na cadeira. Você vai quebrá-la!”

            No princípio as crianças não ficaram com medo, mas quando elas o viram com tanto medo – vejam como as crianças estão sendo impressionadas pelas pessoas estúpidas e erradas. Quando me viram vindo com uma cobra, elas eram pura felicidade, “Aleluia!” Mas quando viram o professor encima de sua cadeira… por um momento houve um completo silêncio, apenas o professor estava pulando e gritando, “Ajuda!”

            Eu disse, “Não vejo o porquê. A cobra está em minhas mãos. Eu estou em perigo, você não está. Você está de pé em sua cadeira. Você está muito longe para a pobre cobra te alcançar. Eu gostaria que ela te alcançasse, e tivesse uma pequena conversa com você.”

            Ainda posso ver aquele homem e sua face. Ele me encontrou apenas uma outra vez depois daquela experiência. Naquele momento eu havia renunciado ao meu professorado e me tornado um mendigo… embora eu nunca tenha mendigado. Mas a verdade é que sou um mendigo, mas um tipo especial de mendigo que não mendiga.

            Vocês terão que arranjar uma palavra para isso. Não acho que exista uma palavra em qualquer língua que possa explicar a minha situação, simplesmente porque nunca estive aqui antes – dessa forma, nesse estilo. Nem ninguém mais esteve dessa forma, com esse estilo: não tendo nada e vivendo como se tivesse todo o universo.

            Lembro-me que ele disse, “Não posso esquecer quando você trouxe aquela cobra na minha aula. Ela ainda aparece nos meus sonhos, e não posso acreditar que aquele tipo de menino tornou-se um buda. Impossível!”

            Eu disse, “Você está certo. ‘Aquele tipo de menino’ morreu, e o que existe depois da morte daquele menino você pode chamar buda, ou pode escolher outra coisa, ou pode escolher não o chamar de nada. Eu simplesmente não existo da forma que você me conheceu. Eu gostaria, mas o que posso fazer? Eu morri.”

            Ele disse, “Viu? Estou falando sério e você está fazendo uma piada da situação.”

            “Estou fazendo o meu melhor, mas” eu lhe disse, “não é apenas você que se lembra. Sempre que tenho um dia ruim ou o tempo não está bom, ou alguma coisa – o chá não está suficientemente quente, a comida está parecendo veneno – então lembro-me de você pulando na sua cadeira e chamando por ajuda, e aquilo me anima novamente. Embora eu esteja morto, ainda assim ajuda. Sou tremendamente grato a você.”

            Eu costumava ir à escola apenas por esses momentos. Houve apenas poucas… “ocasiões” eu devo chamá-las. Era necessário para a felicidade de todos que eu não estivesse presente regularmente todos os dias. Vocês ficarão surpresos que o peão, o homem cuja função era… Como vocês o chamam? Peão? – ou vocês não têm nenhuma palavra para isso: p-e-ã-o, peão? Mas nós na Índia o chamamos de peão. Qualquer que seja a palavra, peão é o empregado de nível mais baixo.

            Devaraj, qual é a palavra?

            “Zelador?”

            Não, essa é uma coisa diferente, mas chega próximo disso. Pensei que ‘peon’ deveria ser uma palavra Inglesa; não é de origem Hindi. Posso não a estar pronunciando corretamente. Vamos descobrir, mas se escreve p-e-ã-o.

            O peão era a única pessoa que estava infeliz quando eu não estava ali… porque todas as outras pessoas estavam felizes com aquilo. Ele me amava. Eu nunca vi um homem mais velho que ele: ele tinha noventa ou, talvez, mais. Talvez ele completou o século. Na verdade, ele devia ter até mais, porque ele tentava reduzir ao máximo a sua idade para continuar um pouco mais em serviço… e continuou.

            Na Índia você não sabe a sua data de nascimento, particularmente, se você nasceu há cem anos atrás, não acho que exista qualquer certificado ou registro – impossível. Mas eu nunca vi um homem mais velho que ele e, entretanto, cheio de sumo, realmente suculento.

            Ele era o único homem em toda aquela escola que eu tinha algum respeito – mas ele tinha o cargo mais baixo de todos, ninguém nem olhava para ele. De vez em quando eu costumava visitar a escola, apenas por causa dele, mas eu só ia onde ele ficava.

            Ele ficava em um dos cantos do Portão do Elefante. O seu trabalho era abrir e fechar o portão, e ele tinha que bater um sino pendurado na frente da sua cabine a cada quarenta minutos, deixando o posto apenas por dez minutos duas vezes ao dia para o chá e uma hora para o almoço. Esse era seu único trabalho; caso contrário ele era um homem completamente livre.

            Eu ia até a sua cabine e ele fechava a porta para que ninguém nos perturbasse, e para que eu não pudesse escapar facilmente. Então ele diria, “Agora me diga tudo desde que nos encontramos da última vez.” E ele era um velho homem adorável. A sua face tinha tantas linhas que tentei até contá-las, é claro que sem lhe dizer. Eu fingia estar ouvindo-o enquanto contava quantas linhas existiam na sua testa – e tudo era testa porque todo o seu cabelo havia caído – e quantas linhas haviam em suas bochechas. Na verdade, toda a sua face, de qualquer maneira que vocês a dividissem, não era nada além de linhas. Mas, por trás daquelas linhas, existia um homem de amor infinito e entendimento.

            Se eu não visitasse a escola por muitos dias, então era certeza que se aproximava o dia em que, se eu não fosse, então ele viria procurar-me. Aquilo significava que o meu pai saberia de tudo: que eu nunca ia à escola, que a presença me era dada só para que eu me mantivesse fora. Aquilo era um acordo. Eu disse, “Ok, me manterei fora, mas e a minha presença… por que quem vai responder ao meu pai?”

            Eles disseram, “Não se preocupe com sua presença. Dar-lhe-emos cem por cento de presença, até mesmo nos feriados, então não se preocupe de maneira alguma.”

            Então eu estava sempre consciente que antes de ele visitar a minha casa era melhor eu ir até a sua cabine, e, de alguma forma – de novo tenho que usar a palavra ‘sincronicidade’ – ele sabia quando eu estava vindo. Eu sabia que se eu não fosse naquele dia ele viria investigar o que havia acontecido comigo – e isso tornou-se quase matematicamente preciso.

            Eu iniciava o dia com o sentimento, “Ouça” – não estou falando para vocês, estou apenas falando como eu costumava levantar-me – “Ouça, se você não for hoje, Mannulal” – esse era seu nome – “virá visitar à noite. Antes disso acontecer, de algum jeito, apareça na frente dele, pelo menos.”

            E exceto uma vez eu sempre segui a minha voz interior – quero dizer com relação a Mannulal. Apenas uma vez… e eu estava ficando um pouco cansado de tudo aquilo. Era um tipo de tortura: eu tinha que ir, eu ia por medo; caso contrário ele contaria para os meus pais e faria estragos. Eu disse, “Não. Hoje não irei. Não importa o que aconteça, não irei.”

            E quem eu vejo? – ninguém mais que Mannulal, o velho, vindo. Talvez ele tinha mais de cem e apenas fingia que não. Para mim ele sempre pareceu, e eu ainda insisto que ele tinha mais de cem – talvez cento e dez, ou até mesmo cento e vinte. Ele parecia tão ancião que vocês não acreditariam. Eu nunca tinha visto algo tão antigo. Eu tinha visitado museus, todos os tipos de coleções de objetos antigos, mas eu nunca tinha cruzado com qualquer coisa mais pré-histórica que Mannulal.

            Ele estava vindo! Eu corri para fora a tempo de impedi-lo de entrar na casa. Ele me disse, “Eu tinha que vir e encontrá-lo, porque você estava tentando não ir me ver. E você sabe que sou um homem velho. Posso morrer amanhã, quem sabe. Eu somente queria te ver. Estou feliz que você está saudável e mais vivo do que nunca.” Dizendo isso, ele me abençoou, virou as costas, e foi embora. Posso ver as suas costas, com o estranho uniforme que o peão tinha que usar.

            Agora isso será muito difícil para eu descrever. Primeiro a cor: ele era cáqui – acho que vocês chamam de cáqui, estou certo? Segundo: na altura dos seus joelhos havia uma cinta ao redor da sua perna, também cáqui, mas era uma coisa separada. Era apenas para fazer o homem parecer mais vivo, alerta, ou melhor dizer “em alerta.” Na verdade ela era tão justa, o que mais você poderia fazer além de ficar alerta?

            É estranho, mas as suas vestes podem mudar até o seu comportamento. Por exemplo, usando uma túnica muito apertada, ou um vestido muito apertado, ou meias apertadas como os adolescentes estão usando – tão apertadas que nos perguntamos como eles entram nelas… Eu não conseguiria entrar nelas, isso é certo. E mesmo se eles nasceram para elas desde o início, então como eles as tirarão? Mas essas são questões filosóficas. Eles não estão preocupados. Eles apenas cantam músicas pop e comem pipoca – o que mais fazer no mundo? Mas as vestes podem certamente alterar o seu comportamento.

            Os soldados não podem ter uniformes largos; caso contrário eles não podem ser lutadores. Quando vocês usam algo apertado, tão apertado que você quer sair dele, então naturalmente vocês querem lutar com todo mundo. Vocês estão simplesmente irritados. Não é objetivo – direcionado a alguém em particular – é simplesmente um sentimento subjetivo. Vocês simplesmente querem sair dele. O que fazer? – entrar em uma boa luta. Certamente uma luta faz as pessoas sentirem-se um pouco relaxadas. Então, naturalmente, as vestes apertadas ficam um pouco mais largas.

            É por isso que todo amante, antes de fazer amor, primeiro tem que passar através do ritual da guerra de travesseiros, uma discussão e, enfim, falar coisas desagradáveis para o outro. Então obviamente é uma comédia: tudo nela termina bem. Ai de mim, as pessoas não podem começar amando desde o início? Mas não, o aperto delas as impede. Elas não conseguem relaxar.

            Apenas três minutos para mim… Havia muito a ser dito, mas tenho outra coisa para fazer. Vocês podem ver a lágrima… por favor remova-a. Mas foi tão belo, obrigado.

            Isso é ótimo (ri) Você continua, Ashu, você está indo bem. Você segue o seu caminho, ele segue o dele. Os caminhos diferem e não acho que eles se encontrarão em algum lugar.

            Terminou? Bom! (rindo)

Sessão 48

Eu estava falando sobre as minhas visitas à escola. Sim, chamo-as visitas porque certamente não era presença. Eu só estava lá para fazer alguma travessura. De uma forma estranha sempre amei estar envolvido em um ato provocador. Talvez era o início de como eu seria por toda a minha vida.

            Nunca levei nada a sério. Não posso, nem mesmo agora. Até mesmo na minha própria morte irei dar uma boa risada, se ela for permitida. Mas na Índia, nos últimos vinte e cinco anos, tive que fazer o papel de um homem sério. Tem sido o meu papel mais difícil e o há mais tempo projetado. Mas o representei de tal maneira que, embora eu tenha permanecido sério, nunca permiti que ninguém a minha volta permanecesse sério. Isso me manteve acima da água; caso contrário essas pessoas sérias são mais venenosas que cobras.

            Vocês podem pegar as cobras, mas as pessoas sérias lhes pegam. Vocês têm que correr delas o mais rápido possível. Mas tenho sorte que nenhuma pessoa séria nem mesmo tentará se aproximar de mim. Eu rapidamente tornei-me suficientemente notável, e tudo começou quando eu nem pensava onde eu iria pousar.

            Sempre que eles me viam vindo, todo mundo era alertado, como se eu fosse criar algum perigo. Pelo menos para eles aquilo parecia perigoso. Para mim era apenas diversão – e esta palavra sumariza toda a minha vida.

            Por exemplo, outro incidente da minha escola primária. Eu devia estar na última classe, a quarta. Eles nunca me reprovavam, pela simples razão que nenhum professor me queria em sua classe novamente. Naturalmente, a única forma de se livrar de mim era passar-me para outra pessoa. Pelo menos por todo um ano permita-a ter o problema também. Era assim que eles me chamavam, “o problema.” Da minha parte eu não podia ver o problema que eu criava para todos.

            Vou dar-lhes um exemplo. A estação era três quilômetros da minha cidade e a separava de uma pequena vila chamada Cheechli, a nove quilômetros de distância.

            A propósito, Cheechli foi o lugar de nascimento de Maharishi Mahesh Yogi. Ele nunca o mencionou, e existem razões para que ele não mencione onde nasceu – porque ele pertencia à classe dos sudras na Índia. Só mencionar que você vem de uma certa vila, certa casta ou profissão – e os Indianos são muito rudes sobre isso. Eles podem pará-los na rua e perguntá-los, “Qual a sua casta?” Ninguém pensa que isso é uma interferência.

            Maharishi Mahesh Yogi nasceu do outro lado da estação, mas porque ele é um sudra, ele não pôde nem mencionar a vila – porque é uma vila somente de sudras, a casta mais baixa na hierarquia Indiana – nem ele podia usar o seu sobrenome. Isso também imediatamente revelaria quem ele é.

            Seu nome inteiro é Mahesh Kumar Shrivastava, mas “Shrivastava” colocaria um basta em todas as suas pretensões, pelo menos na Índia, e isso afetaria outros também. Ele não é um sannyasin iniciado em nenhuma das ordens antigas, porque, de novo, só existem dez ordens sannyasins na Índia. Tenho tentado destruí-las; é por isso que todas estão com raiva de mim.

            Essas ordens são novamente castas, mas de sannyasins. Maharishi Mahesh Yogi não pode ser um sannyasin porque nenhum sudra pode ser iniciado. É por isso que ele não escreve “Swami” antes do seu nome. Ele não pode; ninguém lhe deu esse nome. Ele não escreve antes do seu nome, como os sannyasins Hindus o fazem, Bharti, Saraswati, Giri, etc; eles têm os seus dez nomes.

            Ele criou o seu próprio nome – “Yogi.” Não significa nada. Qualquer pessoa tentando ficar sobre a sua própria cabeça, e caindo, é claro, repetidas vezes, pode chamar-se de yogi; não há restrição nisso.

            Um sudra pode ser um yogi, e o nome Maharishi é algo para substituir “Swami,” porque na Índia as coisas são tais que se faltar o nome “Swami,” então as pessoas suspeitarão que algo está errado. Vocês têm que pôr alguma outra coisa apenas para cobrir a falha.

            Ele inventou “Maharishi.” Ele não é nem mesmo um rishi. Rishi significa “vidente,” e maharishi significa “grande vidente.” Ele não pode nem ver para além do seu nariz. Tudo o que ele pode fazer quando vocês fazem questões relevantes é dar risinhos. De fato, vou chamá-lo “Swami Risananda”; isso adequar-se-á perfeitamente a ele. Aquele riso não é algo respeitável, realmente é uma estratégia para evitar questões. Ele não pode responder a nenhuma questão.

            Encontrei-me com ele aleatoriamente, e em um local estranho – Pahalgam. Ele estava liderando um campo de meditação lá, e eu também. Naturalmente a minha gente estava encontrando-se com a gente dele. Primeiro tentaram trazê-lo para o meu campo, mas ele deu tantas desculpas que não tinha tempo, que até gostaria, mas que não seria possível.

            Mas ele disse, “Uma coisa pode ser feita: vocês o trazem aqui para que o meu tempo e o meu trabalho agendado não sejam perturbados. Ele pode falar comigo a partir do meu palco.” E eles concordaram.

            Quando eles me contaram eu disse, “Isso foi estúpido da parte de vocês. Agora estarei em uma confusão desnecessária. Estarei defronte a sua gente. Não tenho que me preocupar com as questões; o único problema é que não será certo para o convidado golpear o seu anfitrião, especialmente na frente da sua gente. E uma vez que eu o ver não posso me conter em relação a golpeá-lo. Qualquer decisão que eu fizer de não o golpear desmoronará.”

            Mas eles disseram, “Nós prometemos.”

            Eu disse, “Ok. Não estou preocupado e estou pronto para ir.” Não era muito longe, apenas uma caminhada de dois minutos. Só tinha que entrar no carro e então sair, essa era a distância. Então eu disse, “Ok, eu irei.”

            Fui até lá, e, como eu havia esperado, ele não estava. Mas não ligo para nada. Iniciei o campo – e era o seu campo! Ele não estava lá; ele estava tentando evitar-me o máximo possível. Alguém devia ter falado para ele… Porque ele estava ficando no hotel do lado, ele devia estar ouvindo o que eu estava falando do seu quarto. Comecei a golpeá-lo fortemente, porque quando vi que ele não estava lá, eu podia golpeá-lo o tanto que eu quisesse e desfrutar do fato. Talvez o golpeei muito forte e ele não podia se manter distante. Ele veio dando risinhos.

            Eu disse, “Pare de dar risinhos! Isso fica bem em uma televisão Americana; não ficará bem aqui comigo!” E seu sorriso desapareceu. Eu nunca tinha visto tanta raiva. Era como se aquele risinho fosse uma cortina, e escondido por detrás desta estava tudo o que não deveria estar ali.

            Naturalmente era demais para ele, e ele disse, “Tenho outras coisas para fazer, por favor, desculpe-me.”

            Eu disse “Não há necessidade. No que diz respeito a mim você nunca veio aqui. Você veio pelas razões erradas, e eu não participo disso de maneira alguma. Mas lembre-se, eu tenho muito tempo.”

            Então eu realmente o golpeei, porque sabia que ele havia voltado para seu quarto de hotel. Eu podia até ver a sua face olhando pela janela. Eu até falei para os seus discípulos: “Olhem! Esse homem diz que tem muito trabalho para fazer. Esse é o seu trabalho? – olhar alguém trabalhando da sua janela? Ele deveria pelo menos se esconder, assim como ele se esconde atrás do seu risinho.”

            Maharishi Mahesh Yogi é o mais sagaz dos supostos gurus espirituais. Mas a sagacidade triunfa. Se você falha, isso significa apenas que você cruzou com alguém mais sagaz. Mas a sagacidade ainda assim triunfa.

            Ele nunca menciona a sua vila, mas lembrei porque vou contar um incidente para vocês. Este incidente tem a ver com sua vila, e a minha história sempre está indo para todas as direções.

            Cheechli era um estado pequeno; não era parte do Raj Britânico. Era um estado muito pequeno, mas o rei, ao final das contas, era um rei, mesmo ele podendo arcar apenas com um elefante. Era assim que eles costumavam medir quanto reinado alguém tinha – pelo número de elefantes.

            Ora, falei para vocês do Portão do Elefante que ficava na frente da escola. Um dia, sem nenhuma razão, me aproximei do maharaja de Cheechli e pedi, “Eu gostaria de ter o seu elefante por apenas uma hora.”

            Ele disse, “O quê? O que você vai fazer com meu elefante?”

            Eu disse, “Não quero o seu elefante, só quero fazer com que o portão se sinta bem. Você tem que ver aquele portão: talvez até você estudou lá!”

            Ele disse, “Sim. Na minha época era somente escola primária. Agora existem quatro graus.”

            Eu disse, “Quero fazer aquele portão se sentir bem, pelo menos uma vez. Ele é chamado de Portão do Elefante mas nem mesmo um macaco passa por ele.”

            Ele disse, “Você é um menino estranho, mas gosto da ideia.”

            A sua secretária disse, “O que você quer dizer, gostou da ideia? Ele está louco!”

            Eu disse, “Vocês dois estão certos, mas louco ou não, vim para pedir o seu elefante apenas por uma hora. Quero montar nele e ir até a escola.”

            Ele gostou tanto da ideia que disse, “Você monta no elefante, e vou segui-los com meu velho Ford.”

            Ele tinha um Ford muito antigo, talvez um modelo T – acho que o modelo T é o mais antigo de todos. Ele queria ir apenas para ver o que aconteceria.

            É claro que quando passei pela cidade no elefante todo mundo se espantava, e as pessoas se reuniam dizendo, “O que é isso? E como esse garoto conseguiu o elefante?”

            Quando cheguei na escola havia uma grande multidão. Até o elefante achou difícil entrar por causa de todas as pessoas. E as crianças estavam pulando – vocês sabem onde – no telhado da escola! Elas estavam gritando, “Ele chegou! Sabíamos que ele viria com algum truque, e esse é grande!”

            O diretor teve que dizer para o peão soar o sino sinalizando que a escola estava fechada; caso contrário a multidão destruiria o jardim, ou até mesmo o telhado poderia ceder com tantas crianças sobre ele. Até os meus próprios professores estavam no telhado! E a coisa estranha é que até eu, estupidamente, queria estar no telhado para ver o que estava ocorrendo.

            A escola foi fechada. O elefante entrou, e tornei o portão relevante. Pelo menos ele poderia agora dizer aos outros portões: “Certa vez um menino passou por mim em um elefante, e havia uma multidão para ver aquilo acontecendo…” É claro que o portão falará “… para me ver, o portão.”

            O raja também veio. Quando ele viu a multidão ele não podia acreditar. Ele me perguntou, “Como você conseguiu reunir tantas pessoas tão rapidamente?”

            Eu disse, “Não fiz nada. Apenas a minha entrada na escola foi suficiente. Não pense que foi o seu elefante; se você acha isso, amanhã você vai no elefante, e eu não verei nenhuma alma aqui.”

            Ele disse, “Não quero parecer um tolo. As pessoas vindo ou não, eu iria parecer um tolo se estivesse sentado em um elefante na frente de uma escola primária sem nenhuma razão. Você pelo menos faz parte da escola. Eu sei sobre você – ouvi muitas histórias. Ora, quando você pedirá o meu Ford?”

            Eu disse, “Só espere.”

            Eu nunca fui, embora ele tivesse me convidado, e teria sido uma grande ocasião, porque em toda a cidade não havia outro carro. Mas esse carro era muito… o que dizer sobre ele? A cada 15 metros vocês tinham que sair e empurrá-lo; é por essa razão que nunca fui.

            Eu lhe disse, “Que tipo de carro é esse?”

            Ele disse, “Sou um homem pobre, um rei de um estado pequeno. Tenho que ter um carro, e este é o único que posso arcar.”

            Ele era completamente imprestável. Ainda me pergunto como ele conseguia se mover mesmo por alguns metros. Toda a cidade costumava desfrutar e dar risada quando o raja vinha naquele carro – e, é claro, todo mundo tinha que empurrar!

            Eu lhe disse, “Não. Agora não estou na posição de pegar o seu carro, mas algum dia, talvez.” Eu disse aquilo apenas para não machucar os seus sentimentos. Mas ainda lembro-me do carro: ele ainda deve estar naquela casa.

            Na Índia as pessoas têm carros tão antigos… Como vocês os chamam? – vintage? O governo da Índia teve que fazer uma lei dizendo que nenhum carro vintage poderia deixar a Índia. Não é preciso fazer nenhuma lei; os carros não podem ir sozinhos. Mas os Americanos estão prontos para comprá-los a qualquer preço. Na Índia vocês podem encontrar até mesmo o primeiro modelo de carro de todos os tempos. Na verdade, em Bombaim e Calcutá vocês ainda podem ver carros tão antigos que vocês não acreditarão que ainda estão no século XX.

            Certa vez, a propósito, o raja e eu acidentalmente nos encontramos em um trem, e sua primeira questão para mim foi, “Por que você não foi?”

            Não pude me lembrar imediatamente o que ele queria dizer com “não foi”… então eu disse, “eu não me lembro porque eu tinha que ir.”

            Ele disse, “Sim, deveria ter sido há quarenta anos atrás. Você prometeu vir e levar o meu carro até a escola.” Então lembrei-me! Ele estava certo.

            Eu disse, “Maravilhoso!”…porque ele devia ter cerca de noventa e cinco anos e ele ainda tinha uma memória tão boa. Depois de quarenta anos, “Por que você não veio?” Eu disse, “Você é um milagre.”

            Acho que se nos encontrarmos no além-mundo a primeira questão que ele vai fazer-me será a mesma: “Por que você não foi?” – pois prometi novamente dizendo, “Ok, esqueci-me. Desculpe-me. Eu irei.”

            Ele disse, “Quando?”

            Eu disse, “Você quer que eu lhe dê uma data? Por causa daquele carro? Depois de quarenta anos! Há quarenta anos ele já era um carro apenas no nome. O que poderia ter acontecido com ele depois de quarenta anos?”

            Ele disse, “Ele está perfeitamente em ordem.”

            Eu disse, “Ótimo! Por que você não diz que ele está como novo, como se estivesse saído do estacionamento? Mas irei; vou amar dar uma volta naquele carro.” Mas, infelizmente, no momento em que cheguei lá o raja havia morrido… ou felizmente, porque vi o carro! Quarenta anos atrás ele andava pelo menos alguns metros; agora, mesmo se o raja estivesse vivo, o carro estava morto.

            O seu velho servo disse, “Você veio um pouco tarde. O raja está morto.”

            Eu disse, “Obrigado Deus! Caso contrário aquele tolo me faria sentar nesse carro, e é impossível ele se mover.”

            Ele disse, “Isso é verdade. Nunca o vi em movimento, mas estive a seu serviço há apenas quinze anos, e o carro não andou nesse período. Ele só ficou ali na entrada para mostrar que o maharaja tinha um carro.”

            Eu disse, “A volta teria sido muito boa, e muito rápida também. Você entraria por uma porta e sairia pela outra, nenhum tempo perdido.”

            Mas aquelas visitas à escola são lembradas até hoje pelos poucos professores ainda vivos. E ninguém entre eles acreditou que eu poderia ser o melhor aluno de toda a universidade, porque todos eles sabiam como eu havia passado pelas suas aulas. Foi tudo por causa do favor deles, ou medo, ou qualquer coisa. Eles simplesmente não podiam acreditar como eu pude ser o melhor aluno de toda a universidade. Quando cheguei em casa, todos os jornais reportaram-no com a minha fotografia dizendo, “Este estudante ganhou a medalha de ouro.” Os meus professores ficaram chocados. Todos eles olhavam para mim como se eu fosse de outro planeta.

            Eu disse a eles, “Por que vocês estão me olhando assim?”

            Eles disseram, “Não acreditamos nem mesmo agora, vendo você. Você deve ter feito algum truque.”

            Eu disse, “De uma forma vocês estão certos; certamente foi um truque.” E eles sabiam, porque tudo o que sempre fiz com eles foi fazer truques.

            Uma vez chegou um homem na vila com um cavalo. Vocês devem ter ouvido falar sobre um cavalo muito famoso na Alemanha; acho que seu nome é Hans.

            Devageet, como vocês o pronunciam? Hands? H-a-n-s.

            “Hunts, Osho.”

            Ok, “Hands.”

            Hans tornou-se mundialmente famoso naquele momento, tanto que grandes matemáticos, cientistas, todos os tipos de pensadores e filósofos foram ver esse cavalo. E o que era todo esse rebuliço? Eu sei, mas só fiquei sabendo desse “caso Hans” somente muito tardiamente, porque na minha vila havia um homem com um cavalo que fazia o mesmo truque. Eu o perturbei tanto que finalmente ele cedeu e concordou em me dizer como fazê-lo.

            O seu cavalo… mas primeiro permitam-me contar algo para vocês desse cavalo famoso na Alemanha, para que vocês entendam como mesmo os grandes cientistas podem ser enganados por um cavalo. Esse cavalo, Hans, era capaz de resolver qualquer problema matemático pequeno. Vocês poderiam perguntá-lo quanto era dois mais quatro, e ele bateria seis vezes com sua pata direita.

            O que o cavalo estava fazendo era realmente algo, embora o problema fosse muito pequeno: Quanto é dois mais quatro? – mas o cavalo resolvia sem nenhum erro. Vagarosamente ele começou a resolver problemas maiores, envolvendo números maiores. Ninguém era capaz de descobrir qual era o segredo. Até mesmo os biólogos começaram a dizer que talvez os cavalos tinham inteligência assim como o ser humano, e tudo o que eles precisavam era treino.

            Eu também havia visto esse tipo de cavalo na minha vila. Ele não era mundialmente famoso. O cavalo era a única fonte de renda do homem. Ele mover-se-ia com seu cavalo de vila em vila, e as pessoas faziam-no questões. Às vezes o cavalo dizia sim, às vezes o cavalo diria não, apenas movendo sua cabeça – não como os Japoneses, mas como qualquer outra pessoa no mundo. Apenas os Japoneses são estranhos.

            Quando dou sannyas para um Japonês, isso é um problema. Eles movem as suas cabeças da maneira oposta que todas as outras pessoas.  Quando eles balançam a cabeça para cima e para baixo eles querem dizer não, e vice-versa. Embora eu saiba disso, repetidas vezes fico tão envolvido falando com eles que quando eles dizem sim penso que eles estão dizendo não.

            Por um momento fiquei chocado; então Nartan, que traduzia para mim, disse, “Eles estão fazendo novamente. E eles não aprendem, nem você. E estou em dificuldade. Sei que vai acontecer. Eu até bato neles, belisco-os para relembrá-los. Eles até me dizem que vão lembrar, e, entretanto, quando você os questiona…”

            O hábito se torna uma parte muito grande da sua estrutura. Por que só ocorre com os Japoneses? Talvez eles faziam parte de um tipo diferente de macaco; essa pode ser a única explicação. No início haviam dois macacos, e um deles era Japonês.

            Eu estava pedindo para esse homem do cavalo me dizer o truque. O seu cavalo também podia fazer o que o famoso Hans conhecidamente fazia. Mas o homem era pobre; Eu sabia que era o seu único sustento – mas finalmente o homem teve que ceder. Eu prometi para ele dizendo, “Nunca contarei para ninguém o seu segredo, mas há apenas um pequeno favor que você tem que fazer por mim: me emprestar o seu cavalo por uma hora para que eu possa levá-lo para a escola. Isso é tudo. Então manter-me-ei completamente mudo.”

            Ele disse, “Tudo bem.”

            Ele queria se livrar de mim de alguma forma, então ele me contou o truque. Era muito simples: ele treinou o cavalo para que quando ele movesse a cabeça para um lado o cavalo também movesse a cabeça para a mesmo lado. E é claro que todo mundo estaria olhando para o cavalo, e ninguém estaria olhando para o dono no canto. E ele movia sua cabeça tão levemente que mesmo se estivessem olhando vocês não poderiam notar – mas o cavalo percebia. Quando o dono não movia a cabeça, o cavalo fora treinado para mover a sua cabeça de um lado a outro. Da mesma forma em relação às patadas.

            O cavalo não sabia nenhum número, o que dizer de aritmética. Quando perguntado, “Quanto é dois mais dois?” ele batia as patas quatro vezes, então parava. Todo o truque estava quando o dono fechava seus olhos, o cavalo parava de bater – enquanto os olhos estivessem abertos o cavalo continuava batendo.

            E esse mesmo truque foi descoberto com o famoso Hans. Mas aquele era um homem pobre, vivendo em uma vila pobre, enquanto Hans era um cavalo realmente famoso, e Alemão. Quando os Alemães fazem algo, eles o fazem cuidadosamente. E um matemático Alemão pesquisou por três anos para descobrir esses segredos que estou contando para vocês.

            Depois que ele mostrou-me os truques, levei o cavalo para a escola. É claro que houve uma grande festividade entre as crianças, mas o diretor me disse, “Como você consegue encontrar essas coisas estranhas? Eu vivi nessa vila por toda a minha vida, entretanto, nunca ouvi falar desse cavalo.”

            Eu disse, “É preciso um certo discernimento, e é preciso estar continuamente procurando. É por isso que não posso vir para a escola todos os dias.”

            Ele disse, “Isso é muito bom. Não venha. Investigar é bom para todos. Porque quando você vem isso significa que o dia inteiro foi perturbado. Você necessariamente fará algo perturbador. Eu nunca o vi sentado fazendo o seu trabalho como todas as outras crianças o fazem.”

            Eu disse, “O trabalho não vale a pena ser feito. O fato de todo mundo o estar fazendo é uma prova suficiente que ele não vale a pena ser feito. Nessa escola todo mundo está fazendo esse trabalho. Na Índia existem sete milhões de vilas, e em toda vila, todo mundo está fazendo o mesmo trabalho. Não vale a pena ser feito. Tento encontrar algo que ninguém mais faz, e o trago para você de graça. Sempre que chego é quase um carnaval, e, entretanto, você está me olhando tão tristemente. Estou perfeitamente bem.”

            Ele disse, “Não estou triste com você; estou triste por mim mesmo – que eu tenho que ser diretor dessa escola.”

            Ele não era um homem ruim. Ele foi meu professor nos últimos dias da escola primária. Era a quarta série. Eu nunca trouxe nenhum grande problema para ele, mas pequenos eu não podia evitar; eles entravam no meu caminho por si sós. Mas apenas ao olhar para os seus olhos tristes eu disse, “Ok, então agora não vou trazer mais nada que o perturbe; isso significa que não virei mais. Só virei para pegar o meu certificado no final. Se você puder dá-lo ao peão, pegarei com ele, e não entrarei mais nessa escola.”

            E não entrei para pegar o meu certificado. Mandei o peão pegá-lo. Ele disse ao diretor, “O garoto disse, “Por que eu devo entrar para pegar o meu certificado quando nunca fui apreciado pelas minhas visitas? Você pode trazê-lo e me entregar no Portão do Elefante.’”

            Eu amava aquele peão. Ele tinha uma alma tão bela. Ele morreu em 1960. Por acaso eu estava na vila, mas para mim parecia que eu estava ali por ele, para que pudesse vê-lo morrer. E este foi o meu interesse profundo desde minha infância: a morte é um mistério gigantesco, muito mais profundo do que a vida pode ser.

            Não estou dizendo que vocês devem cometer suicídio, mas lembrem-se que a morte não é o inimigo, e nem o fim também. Não é um filme que termina com “O fim.” Não há fim. Nascimento e morte, ambos são eventos no córrego da vida, apenas ondas. E certamente a morte é mais rica que o nascimento, porque o nascimento é vazio. A morte é a experiência mais importante na vida de uma pessoa. Isso depende de como você torna a sua morte significante. Depende do quanto você viveu, não em termos de tempo, mas em termos de profundidade.

            Voltei à escola primária depois de alguns anos. Eu não podia acreditar que tudo havia desaparecido exceto o Portão do Elefante. Todas as árvores – e haviam muitas árvores – tinham sido cortadas. E haviam tantas árvores floríferas belas, mas nenhuma delas estava lá.

            Eu fui apenas por causa daquele velho homem, o peão, que havia acabado de morrer. Ele vivia do lado do portão, adjacente à escola. Mas seria melhor se eu não tivesse ido, porque na minha memória era belo, e eu o teria relembrado daquela maneira, mas agora é difícil. Parece como uma foto apagada, com todas as cores desbotadas – talvez até as linhas estão desaparecendo – apenas uma foto antiga, somente a moldura está intacta.

            Apenas um homem veio visitar-me em Puna que fora meu professor naquela escola. Naquela época ele foi muito amável comigo, mas eu nunca pensei que ele viria a Puna para ver-me. É uma viagem longa e custosa para um homem pobre.

            Perguntei-lhe, “O que o levou a vir?”

            Ele disse, “Eu só queria ver o que eu sempre sonhei lá no fundo – que você não é o que aparenta ser. Você é outra pessoa.”

            Eu disse, “Estranho você nunca ter me contado antes.”

            Ele disse, “Eu achava estranho dizer a alguém que ela é outra pessoa do que aquilo que aparenta ser, então guardei para mim – e agora estou velho e eu gostaria de ver se havia ocorrido, ou eu era apenas um tolo pensando nisso.”

            No momento em que partiu ele era um sannyasin. Ele disse, “Agora não há porque não me tornar um sannyasin. Eu o vi e vi a sua gente. Sou velho e não vou viver muito, mas até mesmo alguns dias como um sannyasin e sentirei que a minha vida não foi em vão.”

            Apenas dez minutos para mim…

            É belo, mas não mais. Eu sei que há tempo, mas tenho outra coisa para fazer.

Por rafaelsc

"Ensinar não é encher um balde, é acender um fogo" Yeats

"Creio porque é absurdo" Tertuliano

"Seja uma luz para si próprio" Buda

“Sentando-se quieto, sem fazer nada, a primavera vem e a grama cresce, por si só." Matsuo Bashō

"O silêncio e a risada são a chave – silêncio dentro, risada fora" Osho

Replique

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s