Sessão 43

 

Ok. Sempre me perguntei como Deus pôde fazer esse mundo em apenas seis dias. E esse mundo! Talvez seja por isso que ele chamou seu filho de Jesus! Que nome para se dar para seu próprio filho! Ele tinha que punir alguém pelo o que tinha feito, e não havia ninguém mais disponível. O Espírito Santo está sempre ausente; ele está sentado ali na sela do cavalo. É por isso que pedi para Chetana desocupá-la, porque cavalgar em um cavalo com alguém já sobre ele não é bom – quero dizer, não é bom para o cavalo, e não é bom para Chetana também. Em relação ao Espírito Santo, eu não ligo nem um pouco. Não me preocupo com o Espírito Santo ou qualquer outro tipo de espírito. Sou sempre pelos vivos.

            Um espírito é uma sombra de um morto, e mesmo se santo, qual o uso? E ele é feio também. Chetana, eu não estava preocupado com o Espírito Santo. Se você cavalgá-lo, está tudo bem no que diz respeito a mim. Cavalgue no Espírito Santo. Mas esta pobre cadeira não foi nem feita para uma única pessoa. Ela não foi feita para ser sentada. Ela foi feita apenas para meia pessoa, para que você não caia no sono. É por isso que ela foi feita assim.

            Nessa cadeira você não pode nem se sentar, o que dizer de dormir! E até mesmo essa cadeira não caberia nessa pequena Arca de Noé. Ela é tão pequena que mesmo Noé tem que ficar de fora, apenas para dar espaço para todas as criaturas.

            O que eu estava falando, Devageet?

            “O Espírito Santo está sempre ausente; ele está sentado agora na sela do cavalo.” (risos)

            Isso eu me lembro. Eu sabia que você não poderia tomar as notas. Concentre-se. Mas vou conseguir. Consegui a minha vida inteira sem notas.

            O que Jawaharlal me disse naquele último dia foi certamente estranho.

            Ele perguntou, “Você acha que é ok estar no mundo político?”

            Eu disse, “Não acho, eu sei que não é ok de maneira alguma. É uma maldição, um carma. Você deve ter feito algo errado em suas vidas passadas; caso contrário você não poderia ser o primeiro-ministro da Índia.”

            Ele disse, “Concordo.”

            Masto não acreditava que eu podia responder ao primeiro-ministro daquela forma, nem, além disso, que o primeiro-ministro concordaria. 

            Eu disse, “Isso conclui um longo debate entre eu e Masto, a meu favor. Masto, você concorda?”

            Ele disse, “Agora tenho que concordar.”

            Eu disse, “Nunca gostei de nada do tipo “tenho que”; é melhor discordar. Pelo menos nesse discordar haverá alguma vida. Não me dê este rato morto! Em primeiro lugar um rato – e, além do mais, morto! Você acha que sou uma águia, um urubu, ou o quê?”

            Até Jawaharlal, por sua vez, olhou para nós dois.

            Eu disse, “Você decidiu. Sou grato a você. Masto, por anos, esteve em um dilema. Ele não podia decidir se um homem bom deve ou não deve estar na política.”

            Falamos de muitas coisas. Não acho que naquela casa – refiro-me à casa do primeiro-ministro – nenhuma reunião durou tanto. Quando terminamos era nove e meia – três horas! Até mesmo Jawaharlal disse, “Esta deve ter sido a mais longa reunião da minha vida, e a mais frutífera.”

            Eu disse, “Que frutos essa reunião lhe trouxe?”

            Ele disse, “Somente a amizade de um homem que não pertence a esse mundo, e que nunca pertencerá a esse mundo. Vou estimá-la como uma memória sagrada.” E em seus belos olhos pude ver o primeiro encontro das lágrimas.

            Saí da casa correndo, apenas para não o envergonhar, mas ele me seguiu e disse, “Não há necessidade de se apressar tanto.” 

            Eu disse, “As lágrimas estavam vindo rápidas.” Ele riu e choramos juntos. Muito raramente ocorre, e apenas aos loucos ou àqueles muito inteligentes. Ele não era um louco, mas extraordinariamente inteligente. Nós – quero dizer, Masto e eu – falamos muitas vezes sobre aquele encontro, particularmente das lágrimas e do riso. Por quê? Naturalmente nós, como sempre, não concordávamos. Isso tornou-se algo rotineiro. Se eu concordasse, ele não acreditaria nisso. Seria um tremendo choque.

            Eu disse, “Ele chorou por si mesmo, e riu da liberdade que eu tinha.” Como é óbvio, a interpretação de Masto era, “Ele chorou por você, não por ele mesmo, porque viu que você poderia tornar-se uma força política importante, e ele riu da sua própria ideia.”

            Essa era a interpretação de Masto. Agora não há como decidir, mas felizmente Jawaharlal ele mesmo decidiu, acidentalmente. Masto me contou, então não há problema.

            Antes de Masto deixar-me para sempre desaparecendo nos Himalaias, e antes de eu morrer da forma que todos têm que morrer para serem ressuscitados, ele me disse, “Sabe, Jawaharlal tem relembrado de você repetidas vezes, e, particularmente em nosso último encontro ele disse: ‘Se você ver aquele garoto estranho, e se você se preocupa com ele de alguma forma, mantenha-o fora da política, porque perdi a minha vida com essas pessoas estúpidas. Não quero que aquele garoto implore votos de pessoas totalmente estúpidas, medíocres, as massas estúpidas. Não, se você puder fazer algo por ele, por favor proteja-o da política.’”

            Masto disse, “Isso decide o nosso debate a seu favor, e estou feliz porque embora eu tenha argumentado com e contra você, no fundo eu sempre concordei consigo.”

            Eu nunca vi Jawaharlal novamente, embora ele tenha vivido muitos anos. Mas, assim como ele queria – e eu já tinha o decidido antes; o seu conselho apenas tornou-se uma confirmação da minha própria decisão – nunca votei na minha vida e nunca fui membro de nenhum partido político, nunca sonhei com isso. Na verdade, por quase trinta anos eu não sonhei nada. Não posso. 

            Posso fazer um tipo de ensaio. A palavra parecerá estranha – um sonho ‘ensaiado’ – mas o drama real nunca ocorre, não pode ocorrer; ele precisa da inconsciência, e falta esse ingrediente. Vocês podem tornar-me inconsciente, mas mesmo assim vocês não me farão sonhar. E para tornar-me inconsciente não é necessária muita tecnologia; apenas um golpe na minha cabeça e ficarei inconsciente. Mas essa não é a inconsciência que estou falando.

            Você está inconsciente quando segue fazendo as coisas sem saber por quê – durante o dia, durante a noite – falta a consciência. Uma vez que a consciência ocorre, o sonho desaparece. Ambos não podem existir juntos. Não há coexistência possível entre essas duas coisas, e ninguém pode criá-la. Ou você sonha inconsciente; ou você está acordado, atento, fingindo sonhar – mas isso não é um sonho. Você sabe e todas as outras pessoas também sabem. 

            O que eu estava falando?

            “Por quase trinta anos você não sonhou. ‘Eu nunca vi Jawaharlal novamente, embora ele tenha vivido muitos anos.’”

            Bom.

            Não havia necessidade de o ver novamente, embora muitas pessoas tenham se aproximado de mim. De alguma forma elas ficaram sabendo de várias fontes, da casa de Jawaharlal, secretárias ou de outras pessoas, que eu o conhecia e que ele me amava. Naturalmente elas queriam que algo lhes fosse feito e perguntavam se eu poderia as recomendar para ele.

            Eu disse, “Vocês estão loucas? Eu não o conheço de maneira alguma.”

            Elas disseram, “Temos sólidas provas.”

            Eu disse, “Vocês podem ficar com as suas sólidas provas. Talvez em algum sonho nós nos encontramos, mas não na realidade.”

            Elas disseram, “Sempre achamos que você era um pouco louco; agora temos certeza.”

            Eu disse, “Espalhe isso, por favor, o mais longe e amplamente possível, e não sejam conservadores – apenas um pouco louco? Sejam generosos – sou absolutamente louco!”

            Elas partiam sem nem mesmo me agradecer. Eu tinha que agradecer-lhes com um muito obrigado, então eu disse, “Sou um louco. Pelo menos posso dar-lhes um bom muito obrigado.”

            Elas olhavam umas para as outras, “Olhe! Um bom muito obrigado? Ele é louco.”

            Eu amava ser conhecido como louco. Ainda amo. Não há nada mais belo do que a loucura que conheci. 

            Masto disse antes de partir, “Jawaharlal deu-me o nome desse homem, Ghanshyam Das Birla. Ele é o homem mais rico da Índia, e muito próximo da família de Jawaharlal. Em qualquer tipo de necessidade ele pode ser contatado. E quando ele estava me dando esse endereço Jawaharlal disse, ‘Aquele garoto me assombra. Prevejo que ele pode tornar-se…’” e Masto permaneceu em silêncio. 

            Eu disse, “O que aconteceu? Pelo menos complete a frase.”

            Masto disse, “Eu irei. Esse silêncio também é dele. Estou apenas o imitando. O que você me perguntou, eu perguntei a ele. Então Jawaharlal completou à sentença. E vou lhe contar,” Masto disse, “qual foi a conclusão. Jawaharlal disse, ‘Ele pode tornar-se um dia…’ e então veio o silêncio. Talvez ele estava pesando algo em seu interior, ou não tinha muita certeza do que dizer. Então ele disse, ‘um Mahatma Gandhi.’”

            Jawaharlal estava me dando o maior respeito que podia. Mahatma Gandhi foi o seu mestre, e também o homem que decidiu que Jawaharlal seria o primeiro primeiro-ministro da Índia. Naturalmente, quando Mahatma Gandhi foi assassinado a tiros, Jawaharlal chorou. Falando no rádio, chorando, ele disse, “A luz se foi. Não quero falar mais nada. Ele era a nossa luz; agora teremos que viver na escuridão.”

            Se ele disse isso para Masto com hesitação, então ou estava pensando se comparava esse garoto desconhecido com o mahatma mundialmente famoso, ou estava, talvez, ponderando entre o mahatma e alguns outros nomes… e acho que esta opção é mais provável, porque Masto lhe disse, “Se eu contar isso ao garoto ele imediatamente dirá, ‘Gandhi! Ele é a última pessoa no mundo que eu gostaria de parecer. Eu preferiria ir para o inferno do que ser Mahatma Gandhi.’ Então é melhor que você saiba como ele reagirá. Conheço-o muito profundamente. Ele não será capaz de tolerar essa comparação – e ele te ama; apenas por causa desse nome não destrua o seu amado.”

            Eu disse a Masto, “Isso é demais, Masto. Você não precisava dizer isso para ele. Ele é velho, e, no que diz respeito a mim, ele me comparou com o maior homem de acordo com a sua forma de pensar.”

            Masto disse, “Espere. Quando eu disse isso, Jawaharlal disse, ‘Suspeitei, por isso esperei, ponderando se dizia isso ou não. Então não lhe diga isso, altere. Talvez ele possa se tornar um Gautama o Buda!’”

            Rabindranath, o grande poeta Indiano, escreveu que Jawaharlal amava muito secretamente Gautama o Buda. Por que secretamente? Porque ele nunca gostou de nenhuma religião organizada, e ele não acreditava em Deus também, e Jawaharlal era o primeiro-ministro da Índia.

            Masto disse, “Eu então disse a Jawaharlal, ‘Desculpe-me. Você chegou muito próximo, mas para dizer-lhe a verdade ele não gostará de nenhuma comparação.’ E você sabe,” Masto então me perguntou, “o que Jawaharlal disse? Ele disse ‘Esse é o tipo de homem que eu amo e respeito. Mas proteja-o de todas as formas possíveis para que ele não seja capturado pela política, que me destruiu. Não quero que essa mesma calamidade aconteça de novo com ele.’”

            Masto desapareceu depois disso. Eu também desapareci, então não havia ninguém lá para reclamar. Mas a memória não é a consciência, e a memória pode funcionar mesmo sem consciência, de fato mais eficientemente. Afinal de contas, o que é um computador? Um sistema de memória. O ego morreu; aquilo que está por trás do ego é eterno. Aquilo que faz parte do cérebro é temporal e morrerá.

            Mesmo depois da morte estarei disponível para os meus discípulos tanto quanto, ou nem tanto, como estou agora. Tudo dependerá deles. É por isso que estou, vagarosamente, desaparecendo do mundo deles, para que esse mundo se torne cada vez mais deles.

            Posso ser apenas um por cento, e o amor deles, a confiança deles, a entrega deles é noventa e nove por cento. Mas quando eu me for ainda mais será necessário – cem por cento. Então estarei disponível, talvez mais, para aqueles que puderem pagar – escreva “aqueles que puderem pagar” em letras maiúsculas – porque o ser humano mais rico é aquele QUE PODE PAGAR uma entrega de cem por cento no amor e na confiança. 

            E eu tenho essa gente. Então não quero, mesmo depois da morte, desapontá-los de maneira alguma. Quero que elas sejam as pessoas mais realizadas da Terra. Estando eu aqui ou não, irei me alegrar.

 

Sessão 44

 

Perguntei-me ontem como Deus criou esse mundo em seis dias. Perguntei-me porque não fui nem capaz de ir além do segundo dia da minha escola primária. E que mundo ele criou! Talvez ele era um Judeu, porque apenas os Judeus propagaram à ideia.

Os Hindus não acreditam em um Deus; eles acreditam em muitos deuses. De fato, quando eles conceberam a ideia pela primeira vez, eles contavam o número de deuses exatamente de acordo com o número de Indianos – naquela época. Naquela época, também, os Indianos não tinham uma população pequena: trinta e três crores, isso significa trezentos e trinta milhões – ou não, mas lhes dá alguma ideia dos Hindus. Eles acreditavam que cada indivíduo único tinha que ter um deus próprio. Eles não eram ditatoriais, mas muito democráticos; de fato democráticos demais – os Hindus antigos.

Milhares de anos passaram-se desde que eles conceberam a ideia de um mundo divino paralelo, com tantas coisas quanto as que existem na Terra. E eles fizeram um bom trabalho. Até mesmo contar trezentos e trinta milhões de deuses… e vocês não conhecem os deuses Hindus! Eles são tudo o que um ser humano pode ser – muito espertos, políticos, exploradores de todas as formas. Mas de alguma forma, alguém pelo menos conseguiu fazer um censo. 

Os Hindus não são teístas no sentido Ocidental. Eles são pagãos, mas não pagãos como os Cristãos querem usar essa palavra. Pagão é uma palavra valiosa; os Cristãos, Judeus e os Islâmicos não deviam ter a permissão de a usar incorretamente. Essas três religiões são todas basicamente Judias. As fundações de quaisquer coisas que elas disseram foram estabelecidas muito antes de Jesus ter nascido e de se ouvir falar de Maomé. Elas são todas Judaicas.

É claro que o Deus que vocês ouviram falar é um Judeu; ele não pode ser de outra forma. É aqui que está o segredo. Se ele fosse um Hindu, ele próprio estaria separado em trezentas e trinta milhões de partes, o que dizer sobre criar o mundo. Mesmo se já houvesse um mundo, trezentos e trinta milhões de deuses seriam suficientes para destruí-lo. 

O ‘Deus” Hindu – nenhuma dessas palavras poderia ser utilizada porque existem apenas deuses no Hinduísmo, não um Deus – não é um criador. Ele próprio é parte do universo. Por ele quero dizer dos trezentos e trinta e três milhões de deuses. Tenho que usar a palavra ‘ele’, mas os Hindus sempre usaram ‘aquilo’. ‘Aquilo’ é um guarda-chuva grande; Vocês podem esconder nele quantos deuses vocês quiserem. Mesmo os indesejados podem ter um pouco de espaço nos fundos. É quase como uma tenda de circo – vasta, grande e capaz de conter todo o tipo de deus que pode ser imaginado.

O Deus Judeu realmente fez um bom trabalho. É claro que ele era um bom Judeu, e ele criou o mundo em apenas seis dias. Toda essa confusão é o que Albert Einstein, outro Judeu, chamou de “universo expansível.” Ele está expandindo a cada segundo, se tornando cada vez maior como o ventre de uma mulher grávida, e, é claro, mais rápido do que isso. Ele está expandindo na mesma velocidade da luz, e essa é a maior velocidade já concebida.

Talvez algum dia descubramos coisas mais velozes, mas nesse momento ela permanece a maior no que diz respeito à velocidade. O mundo está expandindo com a velocidade da luz, e ele sempre expandiu. Não há início nem fim, pelo menos na abordagem científica. 

Mas os Cristãos dizem que ele não apenas começou, mas que foi terminado no intervalo de seis dias. E é claro que os Judeus estão aí, e os Islâmicos estão aí, e eles são todos galhos do mesmo disparate. Talvez apenas um idiota criou a possibilidade para todas as três religiões. Não me pergunte seu nome; os idiotas, particularmente os perfeitos, não têm nomes, então ninguém conhece quem criou a ideia de criar o mundo em seis dias. No máximo só vale a pena rir dela. Mas ouçam um padre Cristão ou um rabino, e vejam à seriedade com que eles falam da gênese, o próprio início. 

Perguntei-me porque não pude nem terminar a minha história em seis dias. Estou apenas no segundo dia, e isso também porque deixei muito sem ser dito, pensando que essas coisas não eram importantes – mas quem sabe, elas podem ser. Mas se eu começar a dizer tudo sem escolher, então, e o pobre Devageet? Posso ver que ele terá tantos cadernos de anotações que ficará louco olhando para eles. Seria como se ele estivesse do lado do Empire State em Nova Iorque olhando para seus próprios cadernos de anotações pensando, “Agora quem vai lê-los?”

E então penso em Devaraj que tem que editá-lo. Se alguém o lê ou não, pelo menos vocês terão um leitor; este é Devaraj. Outro, Ashu; ela tem que digitá-lo. 

Na história da criação de Deus não há editor, nem datilógrafo. Ele apenas o criou em seis dias, e estava tão concluído que nada mais foi ouvido dele até agora. O que aconteceu com ele? Alguns pensam que ele foi para a Flórida, onde todas as pessoas aposentadas vão. Alguns pensam que ele está curtindo em Miami Beach… mas isso tudo é suposição.

Deus não existe de maneira alguma. É por isso que a experiência é possível; caso contrário ele interferiria* [NT- poked his nose in] – e um nariz Judeu serve para isso. Em vez de pensar em Deus é melhor esquecê-lo, e perdoá-lo também; está na hora. Pode soar um pouco estranho esquecer e perdoar Deus, mas só então você começa: a morte dele é o seu nascimento.

Apenas um louco, Friedrich Nietzsche, teve a ideia – mas quem ouve os loucos, particularmente quando eles estão falando a verdade. Então é ainda mais difícil ouvi-los. Ninguém nunca levou Nietzsche a sério, mas acho que sua declaração foi um dos maiores momentos da história da consciência: “Deus está morto!” Ele teve que declará-lo, não porque Deus morreu – ele nunca esteve aqui, nunca nasceu em primeiro lugar, como poderia estar morto? Antes de morrer você tem que sofrer pelo menos setenta anos da coisa chamada de vida. Deus nunca existiu. É bom, porque a existência é suficiente em si mesma. Nenhuma influência externa é necessária para criá-la. 

Mas não vou falar sobre ela. Vocês veem, cada momento abre tantos caminhos, e você tem que andar. Qualquer um dos caminhos que vocês escolherem vocês se arrependerão, porque quem sabe o que estava nos outros caminhos que vocês não escolheram.

É por isso que ninguém está feliz no mundo. Há centenas de pessoas bem-sucedidas, ricas, poderosas, mas vocês não encontram uma multidão de pessoas felizes, a menos que vocês encontrem a minha gente. A minha gente é de um tipo completamente diferente.

Ordinariamente todo mundo ficará frustrado mais cedo ou mais tarde. Quanto mais inteligente, mais cedo; quanto mais estúpido, mais tarde. E se completamente estúpido, então nunca. Então essa pessoa morrerá sentada no carrossel da Dinseylândia.

Como você pronuncia, Ashu?

“Disneylândia, Osho.”

Disnay? Disney. Disney. Bom. Nenhuma mulher pode esconder os seus sentimentos de mim. Um homem pode fazê-lo. Imediatamente tive consciência que eu disse algo errado. Mas você não precisa se preocupar com isso; sou um tipo errado de homem. Apenas raramente, por acidente, que eu direi algo certo; caso contrário, sou sempre sábio.

Agora vamos continuar a história. Isso foi um pequeno desvio, e isso será uma coleção de milhares de desvios, porque é isso o que a vida é…

Masto não estava presente para convencer Indira Gandhi a trabalhar para mim, mas ele deu o seu melhor com o primeiro primeiro-ministro da Índia. Talvez ele foi bem-sucedido, mas apenas em convencê-lo que aqui está um homem que não deveria de maneira alguma estar na vida política do país. Talvez Jawaharlal estava pensando nisso para o meu bem, ou para o bem do país, mas ele não era um homem esperto, então o segundo não pode ser o caso. Eu o vi então sei. Não apenas o vi, mas realmente senti uma profunda empatia, uma profunda harmonia e sincronicidade com ele.

Ele era velho. Ele viveu a sua vida e foi bem-sucedido, e estava frustrado. Isso era o suficiente para mim não querer ser bem-sucedido em nenhum sentido mundano, e posso dizer que mantive-me intacto em relação a qualquer sucesso. De uma forma estranha permaneci como se não estivesse no mundo de maneira alguma.

Kabir tem uma bela música que descreve o que estou tentando dizer de uma forma muito mais poética. Ele era um tecelão, então, é claro, a sua música é a de um tecelão, lembrem-se.

Ele diz, “Jhini jhini bini chadariya: eu preparei uma bela cobertura para a noite… Jhini jhini bini chadariya, ramnam ras bhini: mas não a usei. Nunca, de nenhuma maneira, a utilizei. Ela estará tão nova na minha morte como ela estava no meu nascimento.”

E vocês podem acreditar, ele cantou essa música e morreu. As pessoas estavam pensando que ele estava cantando a música para elas – ele estava cantando a música para a própria existência. Mas essas palavras eram de um homem pobre, e, no entanto, tão rico que até mesmo toda a vida não fora capaz de lhe fazer um simples arranhão. E ele deu de volta para a existência o que lhe havia sido dado no nascimento, exatamente como lhe foi dado.

Muitas vezes surpreendo-me em como o corpo tornou-se velho, mas, no que diz respeito a mim, não sinto nenhuma velhice ou processo de envelhecimento. Nem mesmo por um único momento eu senti diferente. Sou o mesmo, e, portanto, muitas coisas aconteceram, mas elas aconteceram apenas na periferia. Então posso dizer-lhes o que aconteceu, mas lembrem-se sempre, nada aconteceu comigo. Sou tão inocente e tão ignorante como eu era antes do meu nascimento.

As pessoas do Zen dizem, “A menos que você saiba como você era, qual era a sua face antes de nascer, você não poderá nos entender.”

Naturalmente você pensará, “Essas pessoas são loucas e elas estão tentando me enlouquecer também. Talvez elas estão tentando me convencer a olhar para o meu umbigo, ou fazer algo estúpido como isso.” E existem pessoas que estão fazendo coisas como essas, e com grande sucesso, e elas têm milhares de seguidores.

Estar comigo é não estar em nenhum caminho já trilhado. É, de uma maneira estranha, não estar em nenhum caminho de forma alguma… e então, de repente, você está em casa. Isso aconteceu comigo, mas em torno disso milhares de outras coisas também ocorreram. E quem sabe quem vai acionar o processo?

Olhem para Devageet. Agora algo foi acionado nele. Ninguém sabe, qualquer coisa pode iniciar um processo que pode levá-los a vocês mesmos. Não está longe, nem perto; está apenas onde você está. É por isso que, às vezes, os budas riram, vendo a total estupidez de todo o esforço; a estupidez de tudo o que eles estavam fazendo. Mas para vê-la eles tiveram que passar por muitas coisas.

Que horas são?

“Dez e sete, Osho.”

Dez e sete?

“Sim.”

Bom. 

Masto, em nosso último encontro, disse muitas coisas; talvez algumas dessas coisas podem ser úteis a alguém em algum lugar. Ele estava prestes a partir, então ele estava falando tudo o que ele queria me dizer. É claro que ele tinha que ser muito, muito breve. Ele usou máximas. Isso foi estranho, porque o homem era um prolífico orador – e usando máximas?

Ele disse, “Você não entende, estou com pressa. Apenas ouça, não discuta, porque se você começar a discutir não serei capaz de cumprir a minha promessa a Pagal Baba.”

É claro que quando ele falou “Pagal Baba,” ele sabia que aquele nome significava tanto para mim que eu nunca discutiria contra ele. Baba poderia dizer até que dois mais dois é igual a cinco, e eu ouviria, e não apenas ouviria, mas acreditaria, confiaria. “Dois mais dois é igual a quatro” não precisa de confiança; mas “dois mais dois é igual a cinco” certamente precisa de um amor que vai além da aritmética. Se Baba o falou, então deve ser assim.

Então ouvi. Essas foram as suas poucas palavras. Elas não foram muitas, mas profundamente significantes.

Ele disse, “Primeiro, nunca entre em qualquer organização.”

Eu disse, “Ok.” E eu nunca entrei em nenhuma organização. Mantive minha promessa. Não sou nem parte, quero dizer membro, da neo-sannyas. Não posso ser, por causa da promessa feita a alguém que amei. Posso apenas estar entre vocês. Mas, não importando o modo como me escondo, sou um estrangeiro, até mesmo entre vocês, apenas por causa de uma promessa que vou cumprir até o final. 

“Segundo,” ele disse, “você não deve falar contra o sistema.”

Eu disse, “Ouça Masto, isso é seu, e não de Pagal Baba, e tenho absoluta certeza disso.”

Ele riu e disse, “Sim, isso é meu. Eu estava tentando checar se você poderia separar o joio do trigo.”

Eu disse, “Masto, não precisa se preocupar com isso. Apenas diga o que você quer dizer, porque você disse que existe uma grande pressa. Não vejo a pressa, mas se você diz –também o amo – eu acredito. Diga-me somente o que é absolutamente necessário; caso contrário podemos sentarmo-nos por quanto tempo você quiser.”

Ele permaneceu em silêncio por um tempo, e então disse, “Ok, é melhor nós sentarmo-nos silenciosamente, porque você sabe o que Baba me disse; ele já deve ter lhe dito.”

Eu disse, “Conheci-o tão profundamente que não há necessidade de me dizer. Mesmo se ele voltasse eu diria, ‘Não se preocupe, apenas fique comigo.’ Então é bom que você decidiu, mas mantenha a sua promessa.”

Ele disse, “Que promessa?”

Eu disse, “É somente uma promessa simples: ficar em silêncio comigo pelo tempo que você quiser ficar aqui.”

Ele ficou ali por mais seis horas, e manteve a sua promessa. Nem uma única palavra foi trocada por nós, mas algo muito maior do que as palavras podem expressar. A única coisa que ele me disse quando partiu para a estação foi, “Posso agora dizer a última coisa? – porque posso não lhe ver novamente.” E ele sabia que partiria para sempre.

Eu disse, “Certamente.”

Ele disse, “Apenas isso, que se você precisar de qualquer ajuda minha você pode sempre informar a esse endereço. Se eu estiver vivo eles imediatamente irão me contatar.” E ele me deu um endereço que eu não acreditava que tivesse qualquer relação com Masto.

Eu disse, “Masto!”

            Ele disse, “Não peça, apenas informe esse homem.”

            “Mas,” eu disse, “esse homem é Morarji Desai. Não posso o informar, e você sabe disso.”

            Ele disse, “Eu sei, mas esse é o único homem que em breve estará no poder, e será capaz de alcançar-me em qualquer lugar dos Himalaias.”

            Eu disse, “Você acha que esse homem sucederá Jawaharlal?”

            Ele disse, “Não. Outro homem deve sucedê-lo, mas este homem não viverá muito, e então Indira sucederá, e, depois disso, Morarji. Estou lhe dando esse endereço porque esses serão os anos que você mais precisará de mim; caso contrário, se Jawaharlal estivesse ali, ou Indira estivesse…”

            E entre os dois, Jawaharlal e Indira, houve outro primeiro-ministro, um homem muito belo; muito baixo no que diz respeito ao corpo, mas muito grande: Lal Bahadur Shastri. Mas ele esteve no cargo apenas por alguns meses. Foi estranho, no momento em que ele se tornou primeiro-ministro ele me informou que queria me ver dizendo, “Venha me ver o mais rápido que você conseguir.”

            Fui até Delhi porque eu sabia que a mão de Masto deveria estar por trás dele. De fato, fui para encontrar a mão por trás. Eu amava tanto Masto que eu iria ao inferno – e Nova Delhi é um inferno. Mas fui porque o primeiro-ministro ligou, e era um bom momento para saber onde Masto estava, e se ele estava vivo ou não.

            Mas, infelizmente, a data que ele me deu… Ele deveria chegar em Nova Delhi de Tashkent, na Rússia Soviética, onde esteve em uma conferência de cúpula da Índia, Rússia e Paquistão, mas apenas o seu corpo chegou. Ele morreu em Tashkent. Viajei até Delhi para perguntar-lhe sobre Masto, e ele chegou, mas morto.

            Eu disse, “Isso é realmente uma piada, uma piada prática. Agora não posso perguntar.” E esse endereço de Morarji Desai que Masto me deu, ele sabia, e se Masto está vivo ele sabe que mesmo se houver uma necessidade eu não pediria a Morarji Desai. Não irei. Não que eu seja contra as suas políticas, a sua filosofia – que é superficial, sou contra a sua própria estrutura. Ele não é um homem que eu teria um diálogo, nem mesmo uma discussão. 

            Aconteceu algumas vezes, apenas pela configuração das circunstâncias, mas não fui o iniciador, e nunca lhe perguntei sobre Masto. Nunca perguntei, embora eu o tenha encontrado em sua casa, e houvesse absoluta privacidade, mas de alguma forma – como dizê-lo – o homem é repugnante; dá vontade de vomitar. E o sentimento é tão forte que embora ele tenha me dado uma hora, parti depois de dois minutos. Até mesmo ele ficou surpreso. Ele perguntou, “Por quê?”

            Eu disse, “Desculpe-me. Há alguma urgência e tenho que partir, e para sempre, porque não podemos nos ver novamente.”

            Ele ficou chocado, porque naquele momento ele estava muito próximo de tornar-se primeiro-ministro do país, muito próximo. Mas vocês me conhecem: particularmente se a própria presença de uma pessoa é repugnante, sou a última pessoa a ficar ali. Até mesmo o meu ficar por dois minutos foi apenas por cortesia, porque seria muito descortês entrar na sala, cheirar em volta um pouco, e então partir.

            Mas, na verdade, foi isso o que fiz. Dois minutos… apenas porque ele estava me esperando e ele era um homem velho, e certamente de importância política, o que não significa nada para mim, mas para ele significava muito. Era isso o que me repelia. Ele era muito político.

            Eu amava Jawaharlal porque ele nunca falava sobre política. Por três dias contínuos nos encontramos, sem uma única palavra sobre política, e, dentro de dois minutos, a primeira questão que Morarji Desai fez foi, “O que você acha dessa mulher, Indira Gandhi?” A forma que ele disse “essa mulher” foi tão feia. Ainda posso ouvir a sua voz… “essa mulher.” Não posso crer que um homem pode usar as palavras de uma forma tão feia.

Sessão 45

 

Ok. A história da morte de Mahatma Gandhi e a explosão em lágrimas de Jawaharlal no rádio chocou todo o mundo. Não foi um discurso preparado; ele estava apenas falando a partir do seu coração, e se as lágrimas vieram, o que ele pôde fazer? E se houve uma pausa, não é sua falta, mas sua grandeza. Nenhum político estúpido poderia fazer aquilo, mesmo se quisesse, porque os seus secretários têm até que escrever nos discursos preparados: “Agora, por favor, comece a chorar, chore e deixe uma pausa para que todos pensem que é real.”

            Jawaharlal não estava lendo; de fato os seus secretários estavam muito preocupados. Um dos seus secretários, posteriormente, depois de muitos anos, tornou-se um sannyasin. Ele confessou que, “Preparamos um discurso, mas, na verdade, ele o tacou exatamente em nossas faces e disse, ‘Tolos! Vocês acham que vou ler o discurso de vocês?’”

            Este homem, Jawaharlal, eu imediatamente reconheci como uma daquelas pessoas, sempre muito raras no mundo, que são tão sensíveis e estão em uma posição tal que são úteis, não apenas explorando e oprimindo, mas servindo.

            Eu disse a Masto, “Não sou um político e nunca serei, mas respeito Jawaharlal, não porque ele é o primeiro-ministro, mas porque ele ainda pôde me reconhecer, apesar de eu ser apenas uma potencialidade. Talvez poderia acontecer, ou não, quem sabe. Mas a ênfase dele para consigo, de me proteger dos políticos, mostra que ele sabe mais do que é aparente.”

            Esse incidente do desaparecimento de Masto, com isso como sua última declaração, abriu muitas portas. Entrarei aleatoriamente, esse é o meu jeito. 

            O primeiro foi Mahatma Gandhi. Ele acabara de ser mencionado por Jawaharlal, que queria comparar-me – e naturalmente – ao homem que ele mais respeitava. Mas ele hesitou, porque sabia um pouco de mim, apenas um pouco, mas o suficiente para tornar-me presente enquanto fazia a declaração. Por isso ele hesitou. Ele sentiu como se algo não fosse como deveria ser, mas não pôde encontrar imediatamente qualquer outro nome. Então ele finalmente deixou escapar, “Um dia ele pode ser outro Mahatma Gandhi.”

            Masto protestou em meu nome. Ele me conhecia muito melhor que Jawaharlal. Centenas de vezes nós havíamos discutido Mahatma Gandhi e sua filosofia, e sempre fui contra. Até mesmo Masto ficou intrigado por que eu era tão insistentemente contra um homem que eu havia visto apenas duas vezes, quando eu era uma criança. Vou contar-lhes a história do segundo encontro. Foi interrompido de repente… E então não é possível saber o que virá: eu nunca soube que isso apareceria.

            Posso ver o trem. Gandhi estava viajando e, é claro, ele viajava na terceira classe. Mas a sua “terceira classe” era muito melhor que qualquer primeira classe possível. Em um compartimento para sessenta pessoas havia apenas ele, sua secretária e sua esposa; acho que essas eram as únicas pessoas. Todo o compartimento estava reservado. E não era apenas um compartimento ordinário de primeira classe, porque nunca vi um compartimento daquele jeito novamente. Deveria ser um compartimento de primeira classe, e não apenas de primeira classe, mas de uma primeira classe especial. Apenas a placa havia se tornado “terceira classe” para que a filosofia de Mahatma Gandhi fosse salva.

            Eu tinha apenas dez anos. A minha mãe – de novo, quero dizer, a minha avó – havia me dado três rúpias. Ela disse, “A estação é muito longe e você pode não voltar para o almoço, e, com esses trens ninguém sabe: eles podem atrasar dez, doze horas, então tome essas três rúpias.” Na Índia daqueles dias, três rúpias era quase um tesouro. Era possível viver confortavelmente por três meses com elas.

            Ela fez uma túnica realmente bela para mim. Ela sabia que eu não gostava de calças longas; no máximo eu usava calças de pijamas e uma kurta. Uma kurta é uma túnica longa que sempre amei, e, vagarosamente, o pijama desapareceu, apenas a túnica permaneceu. Caso contrário não apenas a parte superior do corpo é dividida da parte inferior, mas até mesmo peças diferentes de roupas são feitas para cada parte. É claro que a parte superior do corpo deve ter algo melhor, e a parte inferior do corpo só precisa ser coberta, isso é tudo.

            Ela fez uma bela kurta para mim. Era verão e, naquelas partes da Índia central, o verão é realmente difícil porque o ar quente entrando pelas narinas dava à sensação que elas estavam pegando fogo. Na verdade, apenas no meio da noite as pessoas podiam descansar um pouco. É tão quente na Índia central que você está sempre pedindo água gelada, e se algum gelo está disponível então é um paraíso. O gelo é a coisa mais cara naquelas partes, naturalmente, porque no momento que ele chega da fábrica, a cem milhas de distância, ele quase derreteu-se por completo. É necessária a maior pressa possível.

            A minha Nani disse que eu deveria ir ver Mahatma Gandhi se eu quisesse e ela preparou uma túnica de uma musselina muito fina. Musselina é o tecido mais artístico e mais antigo, no que diz respeito ao vestuário. Ela encontrou a melhor musselina. Ela era tão fina que era quase transparente. Naquele momento as rúpias de ouro desapareceram e as rúpias de prata tomaram o seu lugar. Aquelas rúpias de prata eram muito pesadas para o pobre bolso de musselina. Por que estou dizendo isso? Porque algo que direi não seria possível de entender sem isso.

            O trem veio como era usual, treze horas atrasado. Quase todo mundo havia ido embora, exceto eu. Vocês me conhecem, sou teimoso. Até mesmo o chefe da estação disse, “Menino, você é alguma coisa. Todo mundo se foi mas você parece estar pronto para ficar toda a noite. Não há sinal do trem e você tem esperado desde o começo da manhã de hoje.”

            Para chegar à estação às quatro da manhã tive que sair da minha casa no meio da noite. Mas eu não havia ainda utilizado aquelas três rúpias porque todo mundo trouxe tantas coisas, e as pessoas eram todas tão generosas com um pequeno garoto que tinha vindo de tão longe. Elas me ofereciam frutas, doces, bolos e tudo o mais, então não havia como sentir fome. Quando o trem finalmente chegou, eu era a única pessoa ali – e que pessoa! Apenas um garoto de dez anos, de pé do lado do chefe da estação.

            Ele me apresentou a Mahatma Gandhi e disse, “Não pense que ele é apenas um garoto. Todo o dia eu o observei, e discuti muitas coisas com ele, porque não havia outro trabalho. E ele foi o único que permaneceu. Muitos vieram, mas partiram há muito tempo. Respeito-o porque sei que ele ficaria aqui até o último dia da existência; ele não partiria até que o trem chegasse. E se o trem não chegasse, não acho que ele partiria algum dia. Ele viveria aqui.”

            Mahatma Gandhi era um homem velho; ele me chamou para perto de si e olhou para mim. Mas em vez de olhar para mim, ele olhou para o meu bolso – e aquilo me afastou dele para sempre. E ele disse, “O que é aquilo?”

            Eu disse, “Três rúpias.”

            Ele disse, “Doe-as.” Ele costumava ter uma caixa com um buraco do lado. Quando vocês doavam, vocês colocavam as rúpias no buraco e elas desapareciam. É claro que ele tinha a chave, então elas apareciam novamente, mas para vocês elas desapareciam.

            Eu disse, “Se você tiver coragem você pode pegá-las. O bolso está aqui, as rúpias estão aqui, mas posso perguntar para qual propósito você está coletando essas rúpias?”

            Ele disse, “Para as pessoas pobres.”

            Eu disse, “Então está perfeitamente ok.” E eu joguei aquelas três rúpias na caixa. Mas ele que ficou surpreso, pois quando comecei a partir levei toda a caixa comigo.

            Ele disse, “Por Deus, o que você está fazendo? Isso é para os pobres!”

            Eu disse, “Eu já te ouvi, não é necessário repetir. Estou levando essa caixa para os pobres. Existem muitos na minha vila. Por favor dê-me a chave; caso contrário encontrarei um ladrão para abrir o cadeado. Ele é o único especialista nessa arte.

            Ele disse, “Isso é estranho…” Ele olhou para sua secretária. Sua secretária era estúpida, como as secretárias sempre o são; caso contrário por que elas seriam secretárias? Ele olhou para Kasturba, sua esposa, que disse, “Você encontrou alguém à sua altura. Você engana todo mundo, agora ele está levando toda a sua caixa. Bom! É bom porque estou cansada de ver aquela caixa sempre por aqui, como uma esposa!”

            Eu senti dó daquele homem e deixei a caixa, dizendo, “Não, parece que você é o homem mais pobre de todos. A sua secretária não tem nenhuma inteligência, nem a sua esposa parece ter qualquer amor por você. Não posso levar essa caixa – fique com ela. Mas lembre-se, eu vim para ver um mahatma, mas vi apenas um homem de negócios.”

            Esta era a sua casta. Na Índia, baniya, homem de negócios, é exatamente o que vocês querem dizer por Judeu. A Índia tem os seus próprios Judeus; eles não são Judeus, eles são baniyas. Para mim, naquela idade, Mahatma Gandhi pareceu ser apenas um homem de negócios. Falei contra ele milhares de vezes porque não concordo com nada em sua filosofia de vida. Mas no dia em que ele foi assassinado a tiros – eu tinha dezessete anos – o meu pai me pegou chorando.

            Ele disse, “Você chorando por Mahatma Gandhi? Você sempre argumentou contra ele.” Toda a minha família era Gandhiana, todos foram para a prisão por seguir a política de Gandhi. Eu era a única ovelha negra, e minha família era, é claro, toda branca pura. Naturalmente ele perguntou, “Por que você está chorando?”

            Eu disse, “Não estou apenas chorando, quero participar do funeral. Não me faça perder tempo porque tenho que pegar o trem, e esse será o último que chegará lá no horário.”

            Ele ficou ainda mais surpreso. Ele disse, “Não posso acreditar! Você ficou louco?”

            Eu disse, “Discutiremos isso depois. Não se preocupe, eu voltarei.”

            E vocês acreditam que quando cheguei em Delhi Masto estava na plataforma esperando por mim? Ele disse, “Pensei que não importava o quanto você está contra Gandhi, você ainda considera o homem. Esse era apenas o meu sentimento…” Ele então disse, “Podia ser ou não, mas dependi disso. E esse é o único trem que passa pela sua vila. Se você viesse, eu sabia que você deveria estar nesse trem; caso contrário você não viria. Então vim recebê-lo, e meu sentimento estava certo.”

            Eu lhe disse, “Se você tivesse falado antes sobre os meus sentimentos por Gandhi, eu não argumentaria com você, mas você estava sempre tentando me convencer, e então não é uma questão de sentimento, é um puro debate. Ou você ganha, ou o outro sujeito ganha. Se você tivesse mencionado pelo menos uma vez que era uma questão de sentimento, eu não tocaria nessa questão de maneira alguma, porque então não haveria nenhum debate.”

            Particularmente – apenas para que conste o registro – quero dizer para vocês que existiam muitas coisas sobre Mahatma Gandhi que eu amava e gostava, mas toda a sua filosofia de vida era totalmente desagradável para mim. Muitas coisas que eu apreciava permaneceram negligenciadas. Vamos fazer o registro correto.

            Eu amava a sua veracidade. Ele nunca mentiu; embora no próprio meio de todos os tipos de mentiras, ele permaneceu enraizado em sua verdade. Posso não concordar com a verdade dele, mas não posso dizer que ele não foi verdadeiro. Qualquer coisa que era verdade para ele, ele estava cheio dessa verdade.

            É uma questão totalmente diferente que eu ache que sua verdade não tenha valor algum, mas esse é um problema meu, não dele. Ele nunca mentiu. Respeito sua veracidade, embora ele não saiba nada da verdade – a qual estou continuamente forçando vocês a saltarem sobre.

            Ele era um homem que não poderia concordar comigo: “Salte antes de pensar.” Não, ele era um homem de negócios. Ele pensaria cem vezes antes de dar um único passo para fora da sua porta, o que dizer de um salto. Ele não podia entender a meditação, mas essa não era uma falha sua. Ele nunca cruzou com um único mestre que poderia ter lhe dito algo sobre a não-mente, e essas pessoas estavam vivas naquele tempo.

            Até mesmo Meher Baba uma vez escreveu uma carta para Gandhi. Não foi exatamente ele que escreveu; alguém deve ter escrito para ele, porque ele nunca falou, nunca escreveu, apenas fazia símbolos com suas mãos. Apenas algumas poucas pessoas eram capazes de entender o que Meher Baba queria dizer. Gandhi e seus seguidores riram de sua carta, porque Meher Baba disse, “Não perca seu tempo cantando ‘Hare Krishna, Hare Rama.’ Isso não ajudará de forma alguma. Se você realmente quer saber, então informe-me e irei chamá-lo.” 

            Todos eles riram; eles pensaram que era arrogância. É assim que as pessoas ordinárias pensam, e naturalmente parece arrogância. Mas não é, é apenas compaixão – na verdade, muita compaixão. Por que a compaixão era muita, ela parecia arrogância. Mas Gandhi recusou por telegrama dizendo, “Obrigado por sua oferta, mas seguirei o meu próprio caminho”… como se ele tivesse um caminho. Ele não tinha nenhum. 

            Mas existem poucas coisas sobre ele que respeito e amo – como o seu asseio. Ora, vocês dirão, “Respeito por coisas tão pequenas…?” Não, elas não são pequenas, particularmente na Índia, onde espera-se que os santos, os supostos santos, vivam em todos os tipos de sujeiras. Gandhi tentava estar limpo. Ele era o homem ignorante mais limpo do mundo. Amo o seu asseio.

            Também amo que ele respeitava todas as religiões. É claro que as minhas razões e as deles são diferentes. Mas pelo menos ele respeitava todas as religiões – é claro que pelas razões erradas, porque ele não sabia o que era a verdade, então como ele poderia julgar o que era certo, ou se alguma religião estava certa, ou se todas estavam, ou se alguma religião um dia poderia estar certa? Não havia como. Novamente, ele era um mercador, então por que irritar alguém? Por que perturbar alguém? 

            Todas as religiões estavam dizendo a mesma coisa, o Alcorão, o Talmude, a Bíblia, o Gita, e ele era suficientemente inteligente – lembrem-se do “suficientemente,” não se esqueçam disso – para encontrar similaridades nelas, o que não é uma coisa difícil para qualquer pessoa inteligente, esperta. Por isso que eu disse “suficientemente inteligente,” mas não verdadeiramente inteligente. A verdadeira inteligência é sempre rebelde, e ele não pôde se rebelar contra o convencional, o tradicional, o Hindu, ou o Cristão, ou o Budista.

            Vocês ficarão surpresos em saber que houve um momento em que Gandhi contemplou tornar-se Cristão, porque os Cristãos servem aos pobres mais do que qualquer outra religião. Mas ele logo tomou consciência que o serviço deles é apenas uma fachada para se esconder atrás. O negócio real é converter as pessoas. Por quê? – porque elas trazem poder. Quanto mais pessoas você tem, mais poder você tem. Se você puder converter o mundo inteiro ao Cristianismo, ou ao Judaísmo, ou ao Hinduísmo, então, é claro, essas pessoas terão mais poder do que quaisquer outras já tiveram. Alexandres desaparecerão em comparação. É uma luta por poder.

            No momento em que Gandhi viu isso – e digo novamente, ele era suficientemente inteligente para ver – ele mudou de ideia em relação a tornar-se Cristão. Na verdade, ser um Hindu é muito mais rentável na Índia do que ser um Cristão. Na Índia, os Cristãos são apenas um por cento, então qual o poder político que eles têm? Foi bom que ele permaneceu Hindu, quero dizer, foi bom para o seu título de mahatma. Mas ele era suficientemente esperto para lidar e até influenciar Cristãos como C. F. Andrews e Jainas, Budistas e Islâmicos, como o homem que tornou-se conhecido como o “o Gandhi da Fronteira.”

            Este homem, que ainda está vivo, pertence a uma tribo especial, os Pakhtoons, que vivem na província que faz fronteira com a Índia. Os Pakhtoons são pessoas belas e perigosas também. Eles são Islâmicos, e quando o líder deles tornou-se seguidor de Gandhi, naturalmente eles o seguiram. Os Islâmicos da Índia nunca perdoaram o “Gandhi da Fronteira” porque pensam que ele traiu o Islamismo.

            Não quero saber se ele cumpriu ou traiu; o que estou dizendo é que o próprio Gandhi pensou, em primeiro lugar, em tornar-se um Jaina. O seu primeiro guru era um Jaina, Shrimad Rajchandra, e os Hindus ainda se doem que ele tocou os pés de um Jaina.

            O segundo mestre de Gandhi – e os Hindus ficarão ainda mais ofendidos – foi Ruskin. Foi o grande livro de Ruskin, Até Este Último, que mudou a vida de Gandhi. Os livros podem fazer milagres. É um pequeno panfleto, e Gandhi estava em uma viagem quando um amigo o deu para ler no caminho porque ele havia gostado muito. Gandhi o guardou, não pensando em realmente o ler, mas quando teve um tempo suficiente pensou, “Por que não dou pelo menos uma olhada no livro?” E aquele livro o transformou. Aquele livro lhe deu toda a sua filosofia.

            Não sou contra a sua filosofia, mas o livro é ótimo. A sua filosofia não tem valor algum – mas Gandhi era um colecionador de lixo; ele encontraria lixo até mesmo em locais belos. Há um tipo de pessoa, vocês sabem, que mesmo se vocês a levarem a um belo jardim ela, de repente, encontra um lugar e lhe mostra algo que não deveria ser daquele modo. A sua abordagem é negativa. E então há um tipo de pessoa que coletará apenas os espinhos – os colecionadores de lixo; eles chamam-se colecionadores de arte.

            Se eu tivesse lido aquele livro como Gandhi o leu, eu não teria chego à mesma conclusão. Não é o livro que importa, é o ser humano que o lê, escolhe e coleta. A sua coleção será totalmente diferente, embora ele tenha visitado o mesmo lugar. Para mim, a coleção dele seria totalmente sem valor. Não sei, e ninguém sabe, o que ele pensaria da minha coleção. Até onde sei ele era um homem muito sincero. É por isso que não posso dizer se ele diria, do jeito que estou falando, “Tudo o que ele coletou é lixo.” Talvez ele poderia dizê-lo, ou talvez ele não poderia o dizer – é isso o que amo no homem. Ele pode apreciar até mesmo aquilo que lhe é alheio e tentou o seu melhor para permanecer aberto, para absorver.

            Ele não era um homem como Morarji Desai, que está completamente fechado. Às vezes me pergunto como ele respira, porque pelo menos o seu nariz tem que estar aberto. Mas Mahatma Gandhi não era o mesmo tipo de homem que Morarji Desai. Discordo dele, entretanto, sei que ele tinha algumas poucas qualidades que valiam milhões. 

            A sua simplicidade… ninguém poderia escrever tão simples e ninguém poderia fazer tanto esforço apenas para ser simples em sua escrita. Ele tentava por horas criar uma sentença mais simples, mais telegráfica. Ele a reduziria o máximo possível, e qualquer coisa que ele pensava ser verdadeira, ele tentava vivê-la sinceramente. O fato de ela não ser verdade era outra questão, mas sobre isso o que ele poderia fazer? Ele pensava que era verdade. Respeito-o por sua sinceridade, e que ele a viveu quaisquer que fossem as consequências. Ele perdeu a sua vida apenas por causa dessa sinceridade.

            Com Mahatma Gandhi a Índia perdeu todo o seu passado, porque ninguém nunca antes havia sido assassinado a tiros ou crucificado na Índia. Essa não era a maneira desse país. Não que a Índia fosse um país de pessoas muito tolerantes, mas apenas muito esnobes, elas pensavam que não valia a pena crucificar ninguém… elas são muito superiores.

            Com Mahatma Gandhi a Índia encerrou um capítulo, e também começou um capítulo. Eu chorei, não porque ele tinha sido morto – porque todo mundo tem que morrer, não há muita coisa nisso. E é melhor morrer da forma que ele morreu, em vez de morrer em uma cama de hospital – particularmente na Índia. Foi uma morte clara e bela daquela maneira. E não estou protegendo o assassino, Nathuram Godse. Ele é um assassino, e sobre ele não posso dizer, “Perdoe-o porque ele não sabe o que faz.” Ele sabia exatamente o que estava fazendo. Ele não pode ser perdoado. Não que eu esteja sendo duro com ele, apenas factual. 

            Tive que explicar tudo isso para o meu pai depois, depois que voltei. E eu levei vários dias, porque é realmente um relacionamento complicado entre eu e Mahatma Gandhi. Ordinariamente, ou você aprecia alguém ou não. Isso não é assim comigo – e não apenas com Mahatma Gandhi.

            Sou realmente um estranho. Sinto isso em todos os momentos. Posso gostar de uma certa coisa em uma pessoa, mas, ao mesmo tempo, pode haver algo do lado que odeio, e tenho que decidir, porque não posso cortar a pessoas em duas.

            Decidi ser contra Mahatma Gandhi, não porque não houvesse nele algo que eu poderia ter amado – havia muito, mas existia muito mais ali com implicações de longo alcance para todo o mundo. Tive que decidir ser contra um homem que eu poderia ter amado se – e este “se” é quase intransponível – se ele não tivesse sido contra o progresso, contra a prosperidade, contra a ciência, contra a tecnologia. Na verdade, ele era contra quase tudo que sou a favor: mais tecnologia e mais ciência, mais riqueza e afluência. 

            Não sou a favor da pobreza, ele era. Não sou a favor do primitivismo, ele era. De qualquer forma, sempre que vejo até mesmo um pequeno ingrediente de beleza eu o aprecio. E haviam poucas coisas naquele homem que valem a pena serem entendidas.

            Ele tinha uma imensa capacidade de sentir a pulsação de milhões de pessoas juntas. Nenhum doutor pode o fazer; mesmo sentir o pulso de uma pessoa é muito difícil, particularmente de uma pessoa como eu. Vocês podem tentar sentir o meu pulso; vocês perderão até o pulso, ou, senão o pulso, então pelo menos a carteira, [NT. pulse/purse] o que é ainda melhor!

            Gandhi tinha a capacidade de conhecer o pulso das pessoas. É claro, não estou interessado nessas pessoas, mas isso é outra coisa. Não estou interessado em milhares de coisas; isso não significa que aqueles que estão trabalhando genuinamente, inteligentemente alcançando alguma profundidade, não devem ser apreciados. Gandhi tinha essa capacidade, e a aprecio. Eu amaria encontrá-lo agora, porque quando eu era um garoto de dez anos de idade tudo o que ele pôde receber de mim foram aquelas três rúpias. Agora eu poderia dá-lo todo o paraíso – mas isso não acontecerá, pelo menos não nessa vida.

 

 

 

Publicado por rafaelsc

"Ensinar não é encher um balde, é acender um fogo" Yeats "Creio porque é absurdo" Tertuliano "Seja uma luz para si próprio" Buda “Sentando-se quieto, sem fazer nada, a primavera vem e a grama cresce, por si só." Matsuo Bashō "O silêncio e a risada são a chave – silêncio dentro, risada fora" Osho

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s