Sessão 39

 

Devageet, penso que você está sendo afetado por algo. Você tem que ser desafetado, certo? 

“Certo.”… 

Caso contrário, quem vai escrever as notas? O escritor deve ser, pelo menos, o escritor.

            Ok. Essas lágrimas são para você, é por isso que elas estão do lado correto. Ashu perdeu. Uma pequenina está vindo no olho esquerdo para ela também. Não posso ser muito duro. Infelizmente só tenho dois olhos, e aqui está Devaraj, para quem eu chorarei com os dois olhos juntos. Ele é um daqueles poucos que estive esperando, e não em vão. Este não é o meu método. Quando espero, algo tem que acontecer. Se não acontecer, isso apenas quer dizer que eu não estava realmente esperando, nada mais. Agora, de volta à história.

            Eu nunca quis encontrar o Pândita Jawaharlal Nehru, o pai de Indira Gandhi, por duas razões. Eu tinha dito a Masto, mas ele não ouvia. Ele era o homem certo para mim. Pagal Baba realmente escolheu o homem certo para o homem errado. Eu nunca fui certo aos olhos de ninguém, mas Masto era. Com exceção de mim, ninguém sabia que ele estava rindo como uma criança. Mas isso era um assunto privado, e existiram muitas coisas privadas que tenho que tornar públicas agora.

            Discutimos por dias se eu deveria ir ver o primeiro primeiro-ministro da Índia. Eu estava relutante como sempre. No momento em que você me pede para ir a qualquer lugar, mesmo à casa de Deus, eu direi, “Vamos pensar nisso,” ou “Podemos convidá-lo para um chá.”

            Discutimos sem chegar a um fim, mas ele não entendeu apenas os argumentos, mas também quem estava argumentando, e ele estava mais preocupado com isso. 

            Ele disse, “Você pode dizer qualquer coisa que quiser, mas,” como ele sempre dizia quando não podia me convencer com os argumentos racionais, “Pagal Baba me disse para fazer isso, então agora é com você.”

            Eu disse, “Se você diz que Pagal Baba lhe falou isso, então que assim seja. Se ele estivesse vivo eu não o deixaria em paz tão facilmente, mas ele não existe mais, e ninguém argumenta com um homem morto, particularmente um homem amado.”

            Ele costumava rir e dizer, “O que aconteceu com seu argumento?”

            Eu disse, “Ora, cale a sua boca. No momento em que você traz de volta Pagal Baba, um homem morto para fora da sua tumba, apenas para ganhar um argumento… e você também não ganhou; eu simplesmente abandonei. Faça aquilo que você está argumentou comigo nesses últimos três dias.”

            Mas aqueles argumentos eram extremamente belos, muitos delicados, sutis e vastos – mas esse não é o ponto, pelo menos não por hoje. Talvez em algum outro círculo…

            A coisa que Masto estava insistindo era que eu deveria ver o primeiro-ministro porque ninguém nunca sabe, talvez algum dia eu precisasse de sua ajuda. “E”, adicionei, “talvez…” (ruído do ar condicionado) 

            Este é o demônio que eu estava falando para vocês, que digita as notas do pobre Devageet à noite. Olhem, agora ele está digitando diretamente. Até mesmo Ashu está rindo porque ela não sabe o que fazer. Talvez ninguém saiba.

            (o ruído para) Ótimo! Tive que parar de falar, é por isso que ele parou. Se eu falar novamente, a menos que algo seja feito, ele vai começar de novo. (ruído outra vez) Isso é demais! Digitar à noite, no escuro, tudo bem…

            O que eu estava dizendo?

            “Que Masto insistiu que você deveria encontrar-se com o primeiro-ministro, porque ninguém nunca sabe, você poderia precisar da sua ajuda um dia.”

            Eu disse a Masto, “Por favor faça uma pequena adição nisso, que talvez algum dia o primeiro-ministro precise da minha ajuda. Estou disposto a ir, porque se Baba lhe disse, então não é um problema tão grande quanto ter que desapontar o pobre e velho Baba. Ok. Mas Masto, você também tem a coragem de fazer a adição?”

            Embora um pouco hesitantemente, ele levantou-se por completo e disse, “Sim, um dia, não apenas talvez, mas certamente, ele ou alguma outra pessoa que ocupará aquela cadeira necessitará da sua ajuda. Agora venha comigo.”

            Eu tinha apenas vinte anos naquele momento, e perguntei a Masto, “Você falou a minha idade para Jawaharlal? Ele é velho e o primeiro-ministro de umas das maiores democracias do mundo, e, é claro, ele deve ter milhares de coisas em sua mente. Ele tem tempo para um garoto como eu? Quero dizer, um garoto que não é nem convencional – quero dizer, de um convento.”

            Eu era realmente não-convencional. Primeiro, eu costumava usar sandálias de madeiras, que eram um incômodo em todos os lugares. Na verdade, elas eram uma boa declaração que eu estava chegando, chegando mais perto; quanto mais alto o barulho, mais perto eu estava.

            Meu diretor costumava dizer, “Faça qualquer coisa que você quiser fazer. Vá e coma a maçã de novo” – ele era um Cristão, é por isso que ele falava isso, “ou, se você quiser, coma a cobra também! Mas pelo amor de Deus, não use essas sandálias de madeira!”

            Eu lhe disse, “Mostre-me o seu livro de regras, aquele que você me mostra toda vez que faço algo errado. Há alguma menção à sandálias de madeira nele?”

            Ele disse, “Meu Deus! Quem imaginaria que um estudante apareceria usando uma sandália de madeira? É claro que ela não existe no meu livro.”

            Eu disse, “Então você terá que investigar no Ministério da Educação, mas até que eles passem uma emenda contra o uso de sandálias de madeira na escola e fazer com que todo o mundo ria da tolice disso, não vou mudar. Sou uma pessoa muito obediente às leis.”

            O diretor disse, “Eu sei que você é muito obediente, pelo menos nessa questão você é. É bom que você não insista que eu use esses monstros de madeira também.”

            Eu disse, “Não. Sou um homem muito democrático também; nunca forço nada a ninguém. Você pode vir nu, e eu nem perguntarei, ‘Senhor, onde estão suas calças?’”

            Ele disse, “O quê!”

            Eu disse, “Estou apenas falando ‘suponha,’ da forma que você faz quando chega na classe e diz, ‘Suponha, apenas suponha…’ Não estou dizendo para você realmente vir nu… você não tem coragem para fazê-lo.”

            (ruído novamente) Somente Asheesh pode ajudar, porque talvez o demônio entenda o Italiano, e nenhuma outra língua. Isso é bom. O que eu estava falando?

            “Você estava falando para o diretor que ele não teria coragem de vir sem suas calças.”

            Sim. Eu lhe disse, “É apenas uma suposição, apenas da forma que você diz à classe ‘Suponha…’ Nós nunca perguntamos se é real ou não, então não me pergunte. Suponha que você vem sem suas calças. Agora faço algumas adições: sem uma camisa, ou mesmo sem as suas roupas íntimas…”

            Ele disse, “Você! Simplesmente suma daqui!”

            Eu disse, “Não posso, a menos que você me diga que posso usar as minhas sandálias de madeira. A madeira é natural, e sou um homem não-violento, então não posso usar couro. Então ou tenho que segui-lo, e usar couro como você – embora você se denomine brâmane, mas com esses sapatos, com que cara você se denomina brâmane? – ou terei que usar as sandálias de madeira.”

            Ele disse, “Faça qualquer coisa que você quiser. Apenas vá embora o mais longe possível, o mais rápido possível, porque posso fazer algo que posso arrepender-me por toda a minha vida.”

            Perguntei-lhe, “Você acha que pode matar-me por causa das minhas sandálias de madeira?”

            Ele disse, “Sem mais questões, não me provoque. Mas devo contar-lhe que quando ouço o som” – porque todos os andares da escola eram pavimentados com pedras – “Posso ouvi-lo de qualquer lugar do prédio. Na verdade é impossível não o ouvir porque você está continuamente se movendo – não sei porquê – e esse som me tira do sério.”

            Eu disse, “Isso é problema seu. Usarei as sandálias.” E as usei até deixar a universidade. Por toda a minha vida, do colégio até a universidade, usei sandálias de madeira. Qualquer um poderia falar de mim para vocês, porque eu era a única pessoa com sandálias de madeira. Todo mundo costumava falar, “Vocês podem ouvi-lo a quilômetros de distância.”

            Eu amava aquelas sandálias de madeira. No que diz respeito a mim eu as amava porque eu costumava fazer longas caminhadas, de manhã e à noite, e com uma sandália de madeira… Não acho que nenhum de vocês tem a experiência de uma sandália de madeira, mas ela soa como se alguém está andando atrás de você, e, embora você saiba que é apenas a sua sandália fazendo o barulho, quem sabe – talvez… Por que arriscar-se? Apenas dê uma olhada. Dá vontade de olhar para trás para ver quem está seguindo. Levei anos para treinar-me em não fazer tal coisa estúpida, e ainda mais tempo para nem pensar em fazer tal coisa estúpida.

            Eu disse a Masto, “Sempre fui relutante, mesmo com as coisas que ninguém mais concordaria facilmente.”

            Mas dizer sim veio para mim bem tardiamente. Eu seguia dizendo não, não, até que todos os nãos tornaram-se SIM – mas eu não o estava esperando. 

            Agora isso tornou-se uma distração. Na verdade tudo nessa série será uma distração de algum tipo, mas tentarei voltar várias vezes ao mesmo ponto de onde fomos distraídos. 

            Concordei. Masto e eu fomos até a casa do primeiro-ministro. Eu não sabia quantas pessoas respeitavam Masto, mas eu não sabia muito do mundo de qualquer forma. Perguntei-lhe no caminho até lá, “Você marcou horário?”

            Ele riu e não disse nada. Pensei comigo mesmo, “Se ele não está preocupado, por que eu estaria? Não é da minha conta; estou apenas indo com ele.”

            Mas ele não precisava marcar horário, isso tornou-se claro conforme entramos pelo portão. O policial caiu aos seus pés dizendo, “Masta Baba, você não vem há meses, e amamos vê-lo. De vez em quando o primeiro-ministro precisa da sua bênção.”

            Masto riu mas não disse nada. Entramos. A secretária tocou os seus pés e disse, “Você deveria ter ligado e nós enviaríamos o carro do primeiro-ministro. E quem é esse garoto?”

            Masto disse, “Trouxe esse garoto para ser apresentado apenas para Jawaharlal e para ninguém mais. E por favor lembre-se, nada sobre ele deve ser mencionado de forma alguma.”

            Apesar de ele ter tomado todo o cuidado, ainda assim o meu princípio funcionou. Disse a vocês que no momento em que vocês criam um amigo, imediatamente vocês criam um inimigo. Se você não quer um inimigo então esqueça os amigos. Esta é a maneira do monge, Budista ou Cristão: esquecer tudo sobre relacionamento, amizade e tudo, para que você não crie inimigos. Mas apenas não criar inimigos não é o propósito da vida.

            Vocês ficarão surpresos tanto quanto fiquei – mas não naquele dia, apenas depois de muitos anos… Naquele dia não era possível para mim reconhecer o homem sentado no escritório da secretária esperando por sua hora marcada. Eu não havia ouvido falar dele ainda, mas ele parecia muito arrogante. Pensei que ele deveria ser alguém poderoso. Perguntei a Masto, “Quem é esse homem?”

            Masto disse, “Esqueça tudo sobre ele; ele não tem valor algum. Ele é Morarji Desai.”

            Eu disse, “Ele não tem valor algum?”

            Masto disse, “Quero dizer, nenhum valor real. Ele é apenas um embuste. É claro que ele é ministro de gabinete – e olhe para ele: ele está com muita raiva porque é a sua vez de estar com o primeiro-ministro.”

            Mas Masto era conhecido, e o primeiro-ministro o chamou primeiro e disse para Morarji Desai esperar. Isso foi um insulto, sem intenção da parte de Jawaharlal, mas Morarji talvez não o esqueceu até hoje. Ele pode não lembrar do jovem garoto, mas ele deve ser capaz de lembrar-se de Masto. Masto era muito impressionante de todas as maneiras.

            Nós entramos e não foi por apenas cinco minutos; aquilo levou exatamente uma hora e trinta minutos. E Morarji Desai teve que esperar. Agora, isso foi demais para ele. Era a sua entrevista com hora marcada, e outras pessoas, um sannyasin com um jovem, entraram antes dele… e então ele teve que esperar por noventa minutos!

            E pela primeira vez na minha vida fiquei surpreso, porque eu não estava lá para encontrar um poeta, mas um político. Encontrei um poeta.

            Jawaharlal não era um político. Infelizmente ele não conseguiu trazer os seus sonhos para a realidade. Mas não importa se alguém diz “infelizmente” ou “arrá,” um poeta é sempre um fracasso. Mesmo em sua poesia ele é um fracasso. Ser um fracasso é seu destino, porque ele anseia às estrelas. Ele não pode se satisfazer com o pequeno, o finito. Ele quer ter todo o céu em suas mãos. 

            Fiquei completamente surpreso. Até mesmo Jawaharlal pôde vê-lo, e disse, “O que aconteceu? O garoto parece que tomou um choque.”

            Masto, sem nem olhar para mim disse, “Eu conheço esse garoto. É por isso que o trouxe a você. Na verdade, se estivesse em meu poder, levaria você a ele.”

            Agora era a vez de Jawaharlal ficar surpreso. Mas ele era um homem de tremenda cultura; ele olhou-me novamente para poder medir o significado das palavras de Masto. Por um momento olhamo-nos nos olhos um do outro e ambos rimos. E seu riso não era o de um homem velho; ainda era o riso de uma criança. Ele era imensamente belo, e falo sério, porque vi milhares de seres humanos, mas posso falar sem hesitação que ele foi o ser humano mais belo entre todos, e não apenas de corpo.

            É estranho: falamos de poesia, e Morarji estava esperando do lado de fora. Falamos de meditação, e Morarji estava esperando do lado de fora. Ainda posso ver a cena – ele devia estar furioso. Na verdade, aquele dia decidiu e selou nossa inimizade. Não do meu lado, é claro; não tenho nada contra ele. Todas as suas preocupações são estúpidas, não vale a pena ser contra. Sim, de vez em quando ele é bom para rir. Foi isso o que fiz com o seu nome, e sua terapia de urina – beber da sua própria urina. Ele está na América pregando isso. Ninguém pergunta se ele bebe a sua própria urina ou a de outrem, porque quando uma pessoa bebe urina ela já está fora dos seus sentidos, então ela pode beber qualquer coisa – o que dizer da urina de outra pessoa. E ele está ensinando lá, dando sermão.

            Naquele dia ele tornou-se um inimigo para mim, mas da minha parte pelo menos foi inintencionalmente. Foi apenas porque ele teve que esperar por uma hora e meia. Ele deve ter descoberto quem eu era pela secretária, talvez perguntando, “Quem é aquele garoto? E por que ele está sendo apresentado ao primeiro-ministro? Qual é o propósito disso? E por que Masta Baba está interessado nele?”

            É claro, sentado ali por uma hora e meia você tem que falar sobre algo. Posso entendê-lo, mas para ele foi a coisa mais difícil de engolir – mesmo para ele, que pode engolir até mesmo a sua própria urina. Essa é uma grande façanha, mas uma coisa maior de engolir foi quando ele viu Jawaharlal sair até a varanda, apenas para dizer adeus para esse garoto de vinte anos de idade.

            Naquele momento ele viu que não era com Masta Baba que o primeiro-ministro estava falando, mas com esse estranho e desconhecido garoto de sandálias de madeira, fazendo um barulho por toda a varanda – era uma bela varanda de mármore. E eu tinha cabelos longos e uma túnica estranha que eu mesmo havia feito, porque os meus sannyasins que agora fazem as minhas roupas ainda não estavam lá. Ninguém estava lá…

            Eu havia feito uma túnica muito simples, com apenas dois buracos para as mãos saírem sempre que elas fossem necessárias, e elas podiam ir para qualquer lugar que você quisesse. Eu mesmo a havia feito. Não havia nada de habilidoso nela; tudo o que era necessário era costurar uma peça de tecido dos dois lados e cortar um pequeno buraco para o pescoço.

            Masto gostou dela, então ele pediu para alguém fazer uma para ele também.

            Eu lhe disse, “Você deveria ter pedido a mim.”

            Ele disse, “Não, isso seria demais. Eu não seria capaz de a usar, porque eu a preservaria.”

            Saímos da casa que ficou famosa posteriormente como “Trimurti”. Ela é agora um museu para a memória de Jawaharlal. Jawaharlal era realmente grande, no sentido que ele não precisaria sair para dar adeus a um garoto, e então ficar ali, fechar a porta do carro e esperar até que o carro fosse embora.

            E tudo isso foi visto por esse pobre sujeito, Morarji Desai. Ele é um personagem, mas aquele personagem tornou-se meu inimigo por toda a minha vida. Embora ele não tenha me prejudicado de forma alguma, devo dizer que ele deu o seu melhor.

            Que horas são?

            “Oito e vinte e um, Osho.”

            Dez minutos para mim, então terei que ir trabalhar. O meu ofício começa depois disso.

 

Sessão 40

 

Estou de pé – estranho, porque supostamente eu devia estar relaxando – quero dizer na minha memória, estou de pé com Masto. É claro que não há ninguém que eu prefira estar. Depois de Masto, com qualquer outra pessoa seria pobre, necessariamente.

            Aquele home era realmente rico em cada célula de seu ser, e em toda a fibra da sua vasta rede de relacionamentos que ele vagarosamente me fez ter consciência. Ele nunca me introduziu a todos; isso não era possível. Eu estava com pressa de fazer o que chamo de não-fazer. Ele estava com pressa de fazer o que ele chamava de sua responsabilidade para comigo, assim como ele havia prometido a Pagal Baba. Estávamos ambos apressados, então, por mais que ele quisesse, ele não podia tornar todos os seus relacionamentos disponíveis a mim. Haviam outras razões também. 

            Ele era um sannyasin tradicional – pelo menos na superfície, mas eu o conhecia profundamente. Ele não era tradicional, mas apenas fingia ser porque as massas queriam àquela falsa aparência. E apenas hoje posso entender o quanto ele deve ter sofrido. Eu nunca sofri como ele porque simplesmente recusei fingir. 

            Vocês não podem acreditar, mas milhares de pessoas esperavam de mim algo de suas próprias imaginações. Eu não tenho nada a ver com elas. Os Hindus, entre os meus milhões de seguidores – estou falando dos dias anteriores ao início do meu trabalho – eles acreditavam que eu era Kalki. Kalki é o avatara Hindu, o último.

            Terei que explicá-lo um pouco, porque isso ajudará vocês entenderem muitas coisas. Na Índia os antigos Hindus acreditavam em apenas dez encarnações de Deus. Naturalmente – aqueles eram os dias em que as pessoas costumavam contar com os seus dedos – dez era o máximo. Vocês não poderiam ir além de dez; vocês teriam que começar novamente do um. É por isso que os Hindus acreditavam que cada ciclo da existência tinha dez avataras. A palavra ‘avatara’ simplesmente que dizer “descendente do divino.” Dez, porque depois do décimo, um ciclo, ou círculo, termina. Outro imediatamente começa, mas então há novamente um primeiro avatara, e a história continua até o décimo. 

            Vocês serão capazes de entender-me facilmente se já viram os pobres agricultores Indianos contando. Eles contam em seus dedos até o décimo; então eles começam a contar de novo do um, dois… Dez deve ter sido o último primitivo. É estranho que, no que diz respeito às linguagens, o dez ainda o é. Além do dez não há nada; o onze é uma repetição. Onze é simplesmente colocar o um atrás do um, casando-os, colocando-os em problema, isso é tudo. Depois do dez todos os seus números são apenas repetições.

            Por que os números até dez são tão originais? – porque em todos os lugares os seres humanos contaram em seus dedos.

            Devo mencionar, a propósito, antes de eu continuar – somente uma pequena distração antes de eu liquidar – as suas palavras em Inglês para um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove e dez são todas emprestadas do Sânscrito.

            Os matemáticos devem muito ao Sânscrito, porque sem esses números não haveria Albert Einstein, também não haveria a bomba atômica; nenhum Principia Mathematica de Bertrand Russell e Whitehead. Esses números são os tijolos básicos.

            E as fundações foram estabelecidas nos vales dos Himalaias e em nenhum outro lugar. Talvez eles encontraram a imensurável beleza e tentaram mensurá-la. Talvez existisse outra razão, mas uma coisa é certa: que a palavra Sânscrita tri tornou-se three em Inglês. Ela viajou a jornada longa, árida de uma palavra. A palavra Sânscrita sasth tornou-se o six em Inglês; o Sânscrito asth tornou-se o eight, e assim por diante.

            O que eu estava falando?

            “Você estava falando sobre os Hindus pensarem que você era a décima encarnação do avatara Kalki.”

            Sim. Você está indo bem.

            Kalki é a décima e última encarnação Hindu de Deus. Depois dele o mundo acaba – e, é claro, começa novamente, assim como você demole uma casa feita de cartas, então começa de novo. Talvez antes de começar você embaralha mais uma vez as cartas, apenas para criar um pouco de entusiasmo em si mesmo; caso contrário, o que muda para as cartas? Mas ao embaralhar mais uma vez você se sente bem.

            Exatamente assim Deus reembaralha e começa a pensar, “Talvez dessa vez vou fazer um pouco melhor.” Mas todas as vezes, não importa o que ele faça, saem pessoas como Richard Nixon, Adolf Hitler, Morarji Desai… Quero dizer que Deus falha a todo momento.

            Sim, de vez em quando ele não falha – mas talvez o crédito deve ir para o ser humano, porque ele dá certo em um mundo onde tudo fracassa. Certamente o crédito não pode ser dado a Deus. O mundo é prova suficiente que Deus não tem crédito algum.

            Os Hindus continuam a usar o dez como o último desde antes do tempo do Rigveda –cerca de dez mil anos atrás. Mas os Jainas, que são muito mais matemáticos e lógicos e também mais antigos que os Hindus, nunca acreditaram na santidade do dez. Eles tinham a sua própria ideia. É claro que eles também a obtiveram em alguma fonte. Se você não a pode derivar de seus próprios dedos, alguém deve ter feito de outro modo, de alguma outra fonte. 

            O que os Jainas fizeram nunca foi discutido claramente, e não posso o sustentar de acordo com qualquer escritura porque estou mencionando-o talvez pela primeira vez. Estou adicionando o “talvez,” em caso de alguém o ter feito antes e eu não o souber. Mas conheço quase todas as escrituras que valem a pena serem mencionadas. Simplesmente ignorei as outras. Mas ainda assim, eu posso ter ignorado alguém na multidão que não deveria ter sido ignorado; por isso usei a palavra ‘talvez’, caso contrário estou certo que ninguém disse isso antes. Então vamos dizê-lo agora.

            Os Jainas acreditam em vinte e quatro mestres, tirthankaras como eles os chamam. Tirthankara é uma palavra bela; ela significa “aquele que faz um lugar para o seu barco de onde este pode levá-lo para a outra margem.” Esse é o significado de tirth, e tirthankara significa “aquele que faz um lugar tal que muitas, muitas pessoas possam ir para a outra margem, a margem mais distante.” Mas eles acreditam em vinte e quatro. A criação deles também é um círculo, mas um maior, naturalmente. Os Hindus têm um círculo pequeno de dez; os Jainas têm um círculo maior de vinte e quatro. O raio é maior.

            Até mesmo os Hindus, sem saberem o que eles estavam fazendo, impressionaram-se com o número vinte e quatro, porque os Jainas diriam, “Vocês têm apenas dez? – nós temos vinte e quatro.” Assim como a psicologia da criança: “Quão grande é o seu pai? Apenas um metro e meio? O meu pai tem um metro e oitenta. Ninguém é maior que o meu pai” – e esse “deus” não é nada além de um tipo de pai. 

            Jesus estava exatamente certo; ele costumava chama-lo Abba, que só pode ser traduzido por “pai”, não “deus.” Vocês podem entendê-lo: abba é apenas uma palavra de amor e respeito; pai não é.

            No momento em que vocês dizem “pai”, algo sério imediatamente acontece com vocês, e até mesmo com a pessoa que vocês estão chamando de pai, porque ela terá que ser um pai. Talvez seja por isso que os Cristãos chamam os seus sacerdotes de padres; pai não se encaixaria, e abba faria as crianças rirem – ninguém iria tomá-los seriamente. 

            Os Hindus vieram de fora da Índia. Eles não eram originais do país; eles são estrangeiros, sem passaportes. E por séculos eles foram chegando da Ásia central, de onde todas as raças Europeia também vieram: os Franceses, os Ingleses, os Alemães, os Russos, os Escandinavos, os Lituanos… e assim por diante. Todos os “os” vieram da Mongólia, que hoje é quase um deserto. Ninguém se preocupa com a Mongólia. Ninguém nem pensa que a Mongólia é um país. Parte da Mongólia pertence a China, a maioria pertence a Rússia, e eles estão continuamente lutando uma guerra fria sobre onde traçar a linha, porque a Mongólia é apenas um deserto.

            Mas todas essas pessoas, particularmente os Arianos, vieram da Mongólia. Eles chegaram na Índia porque a Mongólia de repente começou a tornar-se um deserto, e eles estavam com uma população crescente assim como a Índia. Eles tiveram que se mover para todas as direções. Isso foi bom. Foi assim que surgiu todos esses países.

            Mas antes dos Arianos alcançarem a Índia, esta já era um país muito culto. A Índia não era como a Europa. Quando os Arianos chegaram na Alemanha, ou na Inglaterra, eles não tinham ninguém para combater lá; eles encontraram uma terra bela sem ninguém para temer. Mas na Índia a história foi diferente. As pessoas que viviam na Índia antes dos Arianos entrarem devem ter sido realmente civilizadas. Digo realmente, não apenas vivendo em cidades.

            Duas cidades daqueles dias foram escavadas: Mohenjodaro no Paquistão, que foi certa vez parte da Índia e Harappa. Essas cidades mostram coisas estranhas: elas tinham ruas largas, com dezoito metros de largura; edifícios de três andares; banheiros – sim, suítes. Até mesmo hoje, milhões de pessoas na Índia não sabem que isso existe. De fato, se vocês contarem a elas, elas rirão e acharão que vocês estão um pouco insanos – ter um banheiro ligado ao seu quarto? Vocês estão loucos?

            O mais recente design certamente parecerá um pouco louco, até mesmo para vocês, porque o último design da Escandinávia é um banheiro com um quarto incluso. Toda a coisa toma um significado diferente. É basicamente um banheiro, e o quarto fica apenas no canto, nem mesmo separado. O banheiro é mais básico; ele tem uma pequena piscina, e tudo o que você precisa, e também uma cama… mas o banheiro não está acoplado ao quarto, a cama está dentro do banheiro.

            Talvez essa possa ser a forma futura das coisas, mas se vocês contarem para milhões de Indianos…! Eu era o único em toda a vila – a vila do meu avô onde vivi por tanto tempo – que tinha um quarto suíte, e as pessoas faziam piadas sobre isso. Elas costumavam perguntar-me, “Você realmente tem um banheiro conjugado ao seu quarto?” E elas o falariam em um sussurro.

            Eu diria, “Não há necessidade de o esconder. Sim – e daí?”

            Elas diziam, “Não podemos acreditar, porque ninguém por aqui já ouviu falar de um banheiro conjugado ao quarto. Isso deve ser coisa da sua avó. Esta mulher é perigosa. Ela deve ter trazido essa ideia. Uma ideia como essa não nos pertence, é claro; a ideia veio de algum lugar distante. Ouvimos histórias do seu lugar de nascimento que não contaríamos para uma criança. Não podemos as contar para você.”

            Eu disse a eles, “Vocês não precisam se preocupar. Vocês podem contar-me, porque ela própria me conta.”

            Eles diriam, “Veja, falamos para você! Ela é uma mulher estranha de Khajuraho. Aquele lugar não pode produzir pessoas certas.”

            Talvez algo da minha Nani criou em mim o que eles chamam de “errado,” e eu chamo de “certo.”

            Os Hindus não são, como eles reivindicam, a religião mais antiga do mundo. Os Jainas o são, mas estes são uma muito pequena minoria, e muito covarde. Mas eles pensaram na ideia de vinte e quatro. Por que vinte e quatro? Perguntei-me. Discuti-o com Masto, com a minha mãe, e com minha suposta sogra, de quem vou falar em algum momento posterior. Ninguém a chamava de minha sogra na minha frente, porque eu e ela éramos perigosos. Depois da minha Nani, ela certamente foi a mulher mais ousada que já conheci. É claro que não posso lhe dar o primeiro lugar.

            Era uma piada que ela era chamada de minha sogra, mas se vocês olharem para as palavras, mãe pela lei [NT. mother-in-law: sogra]… ela era quase uma mãe para mim, senão pela natureza, então pela lei. Não que eu fosse casado com a sua filha, embora sua filha estivesse apaixonada por mim. Falarei disso em algum outro círculo, porque é um círculo muito vicioso, e não quero o começar agora.

            Que horas são?

            “Dez e trinta, Osho.”

            Isso é ótimo. Apenas dez minutos para mim. Tem sido belo.

(Osho começa a rir. Ele tenta explicar sobre o que Ele está rindo… mas Ele está rindo muito.)

 

Sessão 41

 

Ok. Não pude nem começar a falar para vocês o que eu queria falar. Talvez não era para ser, porque tentei várias vezes trazer-me ao ponto, mas em vão, e então tudo correu bem. Mas não foi uma sessão frutífera, embora nada tenha sido dito, e nada tenha sido ouvido também. Houve muito riso, mas senti-me emprisionado.

            Vocês devem ter se perguntado por que eu ri. É bom que não haja nenhum espelho na minha frente. Vocês devem arranjar um espelho; pelo menos isso tornará esse lugar o que ele deveria ser. Mas foi realmente bom. Estou aliviado. Fazia anos, talvez, que eu não ria. Algo em mim deve ter esperado por aquela manhã, mas não estou fazendo qualquer esforço naquela direção, pelo menos não hoje – talvez algum dia.

            Às vezes esses círculos sobrepõem-se um ao outro, e eles assim o farão repetidas vezes. Faço o meu melhor para manter as direções claras, mas esses círculos, eles simplesmente seguem tentando envolver tudo o que podem. Eles são pessoas loucas, ou, quem sabe – talvez eles sejam budas tentando novamente ter um vislumbre do mundo antigo, para ver como as coisas estão indo agora. Mas esse não é o meu propósito. Não pude atingir onde eu estava tentando ir, e ri em vez de continuar apesar do riso.

            Ora, essas são apenas introduções, mas tornei-me consciente de uma coisa essa manhã – não que eu não estava consciente dela antes, mas eu não estava consciente que ela deveria ser dita. Mas agora ela deve ser dita.

            Em 21 de Março de 1953, uma coisa estranha ocorreu. Muitas coisas estranhas aconteceram, mas estou falando apenas de uma coisa. As outras virão em seu próprio tempo. É de fato um pouco adiantado na minha história contá-la para vocês, mas fui lembrado nessa manhã dessa coisa particular. Depois daquela noite eu perdi todo o sentido do tempo. Por mais que eu tente, eu não consigo – como todo mundo consegue pelo menos aproximadamente – lembrar que horas são.

            Não apenas isso, pela manhã, toda manhã eu quero dizer, tenho que olhar para fora da janela para ver se foi o meu sono da tarde ou o sono da noite, porque durmo duas vezes ao dia. E toda tarde também, quando acordo, a primeira coisa que faço é olhar para o meu relógio. De vez em quando o relógio me prega uma peça; ele para de funcionar. Ele está mostrando apenas seis horas, então ele deve ter parado pela manhã. É por isso que tenho três relógios, apenas para checá-los e ver se algum deles está me pregando uma peça.

            E um dos outros relógios é mais perigoso, é melhor nem o mencionar. Quero dá-lo para alguém de presente, mas não encontrei a pessoa certa para quem eu gostaria de dar esse relógio, porque será realmente uma punição, não um presente. Ele é eletrônico, o relógio volta para as 12 horas e fica piscando: 12… 12… 12… simplesmente para mostrar que a eletricidade acabou.

            Às vezes quero jogá-lo fora, mas alguém me deu de presente, e não jogo as coisas fora facilmente. É desrespeitoso. Então estou esperando pela pessoa certa.

            Tenho não apenas um, mas dois desses relógios, um em cada quarto. Às vezes eles me enganam quando vou dormir o meu sono da tarde. Usualmente vou às onze e meia exatamente, ou no máximo ao meio-dia, mas muito raramente. Uma vez ou outra olhei através de um buraco no meu cobertor, e o relógio estava mostrando doze, e eu disse a mim mesmo, “Isso significa que acabei de vir para a cama.” E fui dormir novamente.

            Depois de uma ou duas horas eu olhei novamente. “Doze,” eu disse a mim mesmo. “Estranho… hoje o tempo parece ter finalmente parado. Melhor ir dormir em vez de encontrar todas as outras pessoas dormindo.” Então fui dormir de novo.

            Agora instruí Gudia para acordar-me às duas e quinze, se eu não estiver acordado.

            Ela me perguntou, “Por quê?”

            Eu disse, “Porque se ninguém me acordar posso seguir dormindo para sempre.”

            Toda manhã tenho que decidir se é manhã ou entardecer, porque não sei – não tenho essa noção. Ela foi perdida naquela data que falei para vocês.

            Na manhã de hoje, quando perguntei a você, “Que horas são?” você disse, “Dez e meia.” Pensei, “Jesus! Isso é demais. A minha pobre secretária já deve ter esperado uma hora e meia, e ainda nem comecei a minha história.” Então eu disse, apenas para terminá-la, “Dê-me dez minutos.” A razão real é que eu estava pensando que era noite.

            E Devaraj também sabe; agora ele pode entendê-lo exatamente. Certa manhã, quando ele me acompanhava até o meu banheiro, perguntei-lhe, “A minha secretária está esperando?” Ele olhou-me confuso. Tive que fechar a porta, apenas para que ele se recompusesse. Se eu continuasse ali na entrada, esperando – e vocês conhecem Devaraj: ninguém pode ser tão amoroso para mim. Ele não pôde me dizer que não era de noite. Se eu estava perguntando pela minha secretária, então deveria haver alguma razão; e, é claro, ela não estava lá e não era a hora dela vir, então o que ele deveria dizer?

            Ele não disse nada. Ele simplesmente manteve silêncio. Eu ri. A questão deve tê-lo constrangido, mas estou dizendo a verdade para vocês, somente porque o tempo é sempre um problema para mim. De alguma forma vou levando, usando de estratégias estranhas. Apenas olhem para essa estratégia: algum buda falou assim?

            Eu estava dizendo a vocês que o Jainismo é a religião mais antiga. Não é um valor para mim, lembrem-se, é um desvalor. Mas um fato é um fato; valor ou desvalor, essa é a nossa atitude. O Jainismo é raramente conhecido no Ocidente, e não apenas no Ocidente, mas também até no Oriente, exceto algumas poucas partes da Índia. A razão é que os monges Jainas ficam nus. Eles não podem se mover em comunidades que não são Jainas. Eles seriam apedrejados, mortos, até mesmo no século vinte.

            O governo Britânico, que permaneceu na Índia até 1947, tinha uma lei especial para os monges Jainas, que antes deles entrarem em uma cidade os seus seguidores tinham que pedir permissão. Sem uma permissão eles não podiam entrar. E mesmo com uma permissão eles não podiam entrar em cidades grandes como Bombaim, Nova Delhi ou Calcutá. Os seus seguidores deveriam ficar em volta deles para que ninguém pudesse ver que eles estavam nus. 

            Estou usando “eles” porque um monge Jaina não tem permissão de viajar sozinho. Ele tem que viajar com um pequeno grupo de monges, pelo menos cinco; este é o limite mínimo. O limite é estipulado para que um possa espionar o outro. É uma religião muito desconfiada, como vocês dizem – naturalmente desconfiada, porque tudo o que ela prescreve para ser feito é não-natural.

            É inverno e uma pessoa está tremendo, ela gostaria de sentar-se ao lado de um fogo – mas um monge Jaina não pode se sentar ao lado de um fogo, porque o fogo é violência. O fogo mata, porque as árvores são necessárias para mantê-lo, então elas são todas mortas. Os ecologistas talvez possam concordar. E quando você está fazendo um fogo, muitas criaturas pequenas, vivas, mas invisíveis aos olhos nus, são queimadas. E às vezes até mesmo a madeira carrega formigas dentro, e outros tipos de insetos que fizeram as suas casas nela.

            Então, em resumo, o monge Jaina não pode chegar perto de um fogo. É claro que ele não pode usar um cobertor – ele é feito de algodão; isso é novamente uma violência. É claro que alguma outra coisa pode ser encontrada, mas porque ele não pode possuir nada… A não-possessividade é muito fundamental, e os Jainas são extremistas. Eles levaram a lógica do não-possuir ao seu próprio extremo.

            É realmente uma visão ver um monge Jaina: é possível ver o que a lógica pode fazer com um homem. Ele é feio, porque está subnutrido: apenas ossos, quase morto; apenas sua barriga é grande, embora todo o seu corpo seja encolhido. Isso é estranho, mas vocês podem entender. Acontece sempre que há fome e as pessoas estão esfomeadas. Vocês devem ter visto fotos de crianças com barrigas grandes – e todos os seus órgãos, mãos e pés, são somente ossos cobertos por pele, e isso também não é muito belo… pele quase morta. O mesmo acontece com um monge Jaina.

            Por quê? Posso entender porque conheço ambos. As barrigas das crianças famintas e as dos monges Jainas imediatamente se tornam do meu interesse. Por quê? – porque ambos tem o mesmo tipo de barriga, e também os seus corpos são similares. As suas faces são muito similares. Perdoem-me por dizê-lo, mas as suas faces são sem face; eles não dizem nada, não mostram nada. Eles não são apenas páginas em branco, mas páginas que esperaram e esperaram por algo ser escrito nelas, para torná-las significantes… mas ficaram doentes porque ninguém nunca veio. 

            Eles se tornaram tão amargos contra o mundo que viraram as costas – viraram as costas, porque estou usando uma página como um símbolo – eles viraram as costas e fecharam-se contra qualquer possibilidade futura. A criança faminta deve ser ajudada; o monge Jaina tem que ser ainda mais ajudado, porque ele pensa que o que ele está fazendo está certo.

            Mas uma religião antiga necessariamente será muito estúpida. Esta própria estupidez é prova da sua antiguidade. O Rigveda menciona o primeiro mestre Jaina, Rishabhdeva. Ele é considerado o fundador da religião. Não posso dizer com certeza porque não quero culpar ninguém, particularmente Rishabhdeva, que nunca conheci – e não acho que nunca vou encontrá-lo também. 

            Se ele foi realmente o fundador desse culto estúpido, então eu sou a última pessoa que ele gostaria de encontrar. Mas esse não é o ponto; o ponto é que os Jainas têm um calendário diferente. Eles contam os seus dias não pelo sol, mas pela lua, naturalmente, porque o ano deles é dividido em vinte e quatro partes, por isso eles têm vinte e quatro tirthankaras. Toda a criação para eles é o círculo na imagem de um ano, mas orientado pela lua, assim como existem pessoas orientadas pelo sol. É tudo arbitrário. Na verdade tudo é estúpido nesse momento, de acordo comigo.

            Apenas olhe para o calendário Inglês e veja a estupidez, então vocês me entenderão. É fácil rir dos Jainas porque vocês não conhecem nada sobre eles. Eles devem ser idiotas. Mas o que dizer do calendário Inglês? Como um mês tem trinta dias, outro mês trinta e um, um mês vinte e nove dias, outro mês vinte e oito? O que é toda essa bobagem? E o ano tem trezentos e sessenta e cinto dias, não porque vocês fizeram um calendário de acordo com o sol – não é por causa do sol.

            Trezentos e sessenta e cinco dias é apenas o tempo que leva para a Terra completar a sua jornada em torno do sol. Como vocês dividem isso depende de vocês – mas trezentos e sessenta e cinco…? Trezentos e sessenta e cinco criou problemas, porque não é exatamente trezentos e sessenta e cinco; fica para trás uma pequena parte que se torna um dia a cada quatro anos. Isso significa que trezentos e sessenta e cinco dias e um quarto deve ser o ano todo. Um ano muito estranho!

            O que vocês podem fazer em relação a isso? É preciso lidar com isso, então dividiu-se os diferentes meses em diferentes números de dias, e fevereiro tem que ter um dia a mais a cada quatro anos. Um calendário estranho! Acho que nenhum computador permitiria esse tipo de bobagem. 

            Existem tolos orientados pela lua, assim como existem tolos orientados pelo sol. Eles realmente são lunáticos porque acreditam na lua. Então, é claro, o ano é dividido em doze partes, e cada mês tem duas divisões. E esses tolos são sempre grandes filósofos; eles seguem criando hipóteses estranhas. Essa foi a hipótese deles na tradição Jaina de tolos. Quero dizer, todas as tradições são tolas, essa é apenas uma tradição de tolos.

            Os Jainas acreditam que existam vinte e quatro tirthankaras, e que em cada ciclo existirá sempre vinte e quatro tirthankaras. Ora, os Hindus sentiram-se diminuídos. As pessoas começaram a perguntar, “Vocês têm apenas dez, não vinte e quatro?”

            Naturalmente os sacerdotes Hindus começaram a falar de vinte e quatro avataras. É uma tolice emprestada. Em primeiro lugar tolice; em segundo lugar, emprestada. Essa é a pior coisa que pode acontecer com qualquer um. E isso aconteceu com um grande país de milhões de pessoas.

            Esta doença foi tão infecciosa que quando Buda morreu os Budistas sentiram-se naturalmente muito enganados, ou melhor – rebaixados, diminuídos, humilhados. ”Por que ele não nos contou sobre a figura vinte e quatro? Os Jainas a têm, os Hindus a têm… e nós temos apenas um único buda.” Então eles criaram vinte e quatro budas que precederam Gautama o Buda.

            Ora, vocês podem ver quão longe vai esse disparate. Sim, ele pode continuar… É isso o que quero dizer, mas tenho que terminar a sentença. Lembrem-se, isso não quer dizer que estou colocando um ponto final no disparate; este não tem fim.

            Se você é estúpido, você é infinitamente estúpido, assim como eles dizem que Deus é sábio. Eu não conheço nada de Deus e sua sabedoria, mas conheço à sua tolice. É isso o que estou fazendo aqui: apenas ajudando vocês a abandonarem a estupidez que vocês estão carregando agora. Primeiro os Jainas a carregaram, os Hindus emprestaram-na, então os Budistas emprestaram-na, então o número vinte e quatro tornou-se uma absoluta necessidade.

            Eu vi um homem, Swami Satyabhakta. Ele é uma daquelas raras pessoas que me pergunto por que a existência tolera. Ele pensava ser o vigésimo quinto tirthankara. Mahavira era o vigésimo quarto. É claro que os Jainas não puderam perdoar Satyabhakta e o expulsaram.

            Eu lhe disse, “Satyabhakta, se você quer ser um tirthankara, por que você não pode ser o primeiro? Por que ficar em uma longa fila tentando por toda a sua vida, com muito sacrifício, ser o vigésimo quinto, o último? Olhe para trás: não há ninguém ali.”

            Ele fez um grande esforço, e trabalhou muito duro escrevendo centenas de livros – e ele era muito erudito. Isso também prova que ele é um tolo – mas não um tolo ordinário, um tolo extraordinário.

            Eu lhe disse, “Por que você não cria a sua própria religião, se você conhece a verdade?”

            Ele disse, “Esse é o problema, não estou certo.”

            Eu disse, “Então pelo menos não incomode os outros. Primeiro tenha certeza. Espere, deixe-me chamar a sua esposa.”

            Ele disse, “Não, não!”

            Eu disse, “Espere. Estou chamando à sua esposa. Você não pode me deter.”

            Mas eu não precisei chamar; ela já estava vindo. De fato eu a vi vindo, por isso que eu disse, “Não me detenha.” Ninguém poderia detê-la; ela já estava vindo. Não falo a palavra ‘vir’ como vocês Ocidentais a falam. Ela estava realmente vindo, e ela veio com uma grande força.

            Quero dizer que ela realmente entrou com uma grande força, e ela me perguntou, “Por que você está perdendo tempo com esse tolo? Desperdicei toda a minha vida, e não apenas perdi tudo, mas até mesmo minha religião. Apenas porque ele foi expulso, naturalmente fui expulsa também. Uma pessoa só nasce Jaina apenas depois de milhões de vidas, e esse tolo não apenas caiu, ele me degradou. É bom que ele seja impotente e que não temos filhos; caso contrário eles seriam expulsos também.”

            Fui o único a rir, e eu lhes disse, “Riam. Isso é maravilhoso. Você é impotente. Não estou dizendo isso, a sua esposa está. Não sei quanto ela sabe sobre urologia, mas se ela está dizendo, e você está ouvindo sem nem mesmo levantar os seus olhos, isso é prova suficiente que ela é uma urologista. Você é impotente, ótimo! Você não é nem capaz de transformar a sua esposa em sua discípula, e, entretanto, você está tentando provar que é o vigésimo quinto tirthankara! Isso é realmente engraçado, Satyabhakta.”

            Ele nunca me perdoou, somente porque o encontrei no momento exato. Satyabhakta ainda é um inimigo, embora eu simpatize com ele. Pelo menos ele pode dizer que tem um inimigo. Em relação aos amigos, ele não tem nenhum – e o crédito vai para a sua esposa.

            Da mesma forma Morarji Desai tornou-se meu inimigo. Não tenho nada contra ele, mas apenas porque ele teve que esperar noventa minutos por causa de um garoto sem importância política nenhuma, naturalmente ele ficou imensamente ofendido. Quando ele viu o primeiro-ministro abrindo a porta do carro para o garoto… Ainda posso ver a cena – como descrevê-la? Havia alguma coisa muito nojenta, escorregadia, em relação ao homem. Vocês não poderiam agarrá-lo. Ele sempre escorregava, e todas as vezes que escorregava ele se tornava mais e mais sujo. Havia algo nojento e escorregadio em seus olhos, lembro-me. Eu o vi depois, em três outras ocasiões. Algum outro círculo pode cobri-las.

            Muito bom. Depois de tal experiência apenas o “não” pode ser bom, porque não há nada como o não. 

            Muito bom. 

            Devageet, pare. Tenho outras coisas para fazer. Gudia abriu a porta para lembrar-me. 

 

 

Sessão 42

 

Ok. O que eu estava falando para vocês? Não posso me lembrar, recordem-me.

“Nós estávamos falando sobre como Morarji Desai e Satyabhakta tornaram-se seus inimigos, e a última coisa que você disse foi que Morarji Desai tinha algo em seus olhos que era nojento e escorregadio, que você se lembra.”

            Bom. É melhor não se lembrar disso. Talvez foi por isso que eu não me recordava; caso contrário minha memória não é má, pelo menos ninguém me disse isso. Mesmo aqueles que não concordaram comigo disseram que minha memória é impossível de acreditar. Quando eu estava viajando pelo país, eu lembrava milhares de nomes das pessoas, suas faces; e não apenas isso, mas quando as encontrava novamente eu imediatamente lembrava onde nós nos encontramos pela última vez, o que eu tinha falado para elas, o que elas tinham falado para mim – podia ser dez ou quinze anos antes. Naturalmente a pessoa ficava surpresa. É bom que a minha memória falhe exatamente onde ela deveria falhar, em Morarji Desai.

            Vocês não acreditam que mesmo Deus faz caricaturas. Ouvi dizer que ele fez criaturas, mas caricaturas? Especialmente feitas para cartunistas? Morarji é uma caricatura ambulante. Mas não ri dele; Eu estava tão empolgado com o estanho encontro entre um garoto e o primeiro-ministro, e a forma que eles conversaram juntos. Ainda não posso acreditar que um primeiro-ministro pode falar daquela forma. Ele era quase apenas um ouvinte, apenas fazendo questões para que a conversação continuasse. Parecia que ele queria que ela continuasse para sempre, porque muitas vezes a porta se abriu e sua secretária pessoal olhou para dentro. Mas Jawaharlal era realmente um bom homem. Ele virou a sua cadeira de costas para a porta; a secretária pessoal podia ver apenas as suas costas.

            Somente depois entendi, quando Masto contou-me, que essa foi a primeira vez que ele tinha visto Jawaharlal colocar a sua cadeira dessa forma. Ele disse que a secretária pessoal abria a porta para anunciar que o tempo do visitante havia terminado, e que outro visitante estava pronto para entrar.

            Mas Jawaharlal não estava preocupado com nada do mundo. Parecia que tudo o que ele queria saber sobre era vipassana. Eu estava um pouco hesitante para dizer-lhe o que vipassana é por causa da situação. Terei que contar-lhes o significado da palavra ‘vipassana’. Significa “olhar para trás.” Passan significa “olhando”; vipassana significa “olhar para trás.”

            O que estou fazendo nesse momento é vipassana.

            Eu estava chutando Masto com a minha perna, mas ele estava sentado como um iogue. Ele estava com medo que eu faria algo como aquilo, então ele estava preparado, preparado para qualquer coisa que pudesse ocorrer. E realmente o chutei forte.

            Ele disse, “Aargh!”

            Jawaharlal disse, “O que está acontecendo?”

            Masto disse, “Nada.”

            Eu disse, “Ele está mentindo.”

            Masto disse, “Isso é demais. Você me bate, e você me bate tão forte que esqueço que tenho que me manter quieto e não me tornar uma bola de futebol nas suas mãos, e agora você está dizendo a Jawaharlal que estou mentindo.”

            Eu disse, “Agora ele não está mentindo mas te dizendo como você pode esquecer, porque vipassana significa não esquecer.” E eu disse a Masto, “Estou explicando vipassana a Jawaharlal, então te bati forte. Por favor desculpe-me, e não tome como certo que essa será a última vez.”

            Jawaharlal realmente gargalhou… ele gargalhou tanto que as lágrimas surgiram em seus olhos. Essa é sempre a qualidade de um poeta real, não um ordinário. Vocês podem comprar os poetas ordinários: talvez no Ocidente eles custem um pouco mais, caso contrário eles custam uma bagatela. Ele não era um poeta desse tipo – um poeta de bagatela. Ele era realmente uma daquelas raras almas que Buda chamou de bodhisattvas. Chamá-lo-ei de bodhisattva.

            Eu estava, e ainda estou, pasmo em como ele pôde tornar-se primeiro-ministro. Mas o primeiro primeiro-ministro da Índia era de uma qualidade totalmente diferente de qualquer outro primeiro-ministro que se seguiria. Ele não foi eleito pela multidão; ele não foi, na verdade, um candidato eleito. Ele foi escolhido por Mahatma Gandhi.

            Gandhi, quaisquer que sejam as suas falhas, pelo menos fez uma coisa que até mesmo eu posso apreciar. Essa foi a única coisa; caso contrário sou absolutamente contra Mahatma Gandhi. Mas o porquê de ele ter que escolher Jawaharlal é outra história, talvez esta não deve fazer parte do meu círculo. O que importa para mim é que pelo menos ele deve ter sido sensível a uma pessoa poética. Ele certamente foi um asceta; entretanto, mesmo com toda a sua bobagem, ele ainda assim foi suficientemente sensível para escolher Jawaharlal.

            Foi assim que um poeta se tornou o primeiro-ministro; caso contrário não há possibilidade de um poeta tornar-se um primeiro-ministro – a menos que um primeiro-ministro enlouqueça, e se torne um poeta, mas essa não será a mesma coisa.

            Falamos de poesia. Pensei que ele ia falar de política. Até mesmo Masto, que o conhecia há anos, ficou impressionado que ele estava falando sobre poesia e o significado da experiência poética. Ele olhava para mim como se eu soubesse a resposta.

            Eu disse, “Masto, você deveria saber mais. Você conhece Jawaharlal há anos. Eu não o conhecia de maneira alguma até agora. Ainda estamos no processo de apresentarmo-nos um ao outro. Então não olhe com um olho questionador, embora eu entenda a sua questão: “O que aconteceu com o político? Ele ficou louco? Não, eu lhe digo, e para ele também, que ele não é um político – talvez por acidente, mas não por sua natureza intrínseca.”

            E Jawaharlal assentiu e disse, “Pelo menos uma pessoa na minha vida disse-o exatamente, pois não fui capaz de formulá-lo claramente. Era vago… mas agora sei o que aconteceu. É um acidente.”

            “E,” adicionei, “um acidente fatal.” E nós rimos. Mas eu disse, “O acidente foi fatal, mas o seu poeta está ileso, e não ligo para mais nada. Você ainda pode ver as estrelas como uma criança as vê.”

            Ele disse, “Novamente!… Porque amo as estrelas – mas como você ficou sabendo disso?”

            Eu disse, “Não tenho nada a ver com isso. Eu sei o que é ser poeta, então posso descrevê-lo para você em todos os detalhes. Então, por favor, a partir desse momento, não fique admirado. Relaxe.” E ele certamente relaxou. Caso contrário, um político relaxar é impossível.

            Na Índia a mitologia diz que quando uma pessoa ordinária morre, apenas um demônio vem para levá-la, mas quando um político morre, uma multidão de demônios tem que vir, porque ele não vai relaxar nem mesmo na morte. Ele não permite. Ele nunca permitiu que nada acontecesse por si só. Ele não conhece o significado dessas palavras, ‘deixar acontecer’.

            Mas esse homem Jawaharlal imediatamente relaxou. Ele disse, “Contigo posso relaxar. E Masto nunca foi uma fonte de tensão para mim, então ele também pode relaxar – não o estou impedindo – a menos que ser um swami, um sannyasin, um monge, o impeça.”

            Todos nós rimos. E esse não foi o último encontro, foi apenas o primeiro. Masto e eu pensávamos que seria o último, mas quando estávamos partindo Jawaharlal disse, “Vocês podem vir novamente amanhã no mesmo horário? Manterei esse sujeito,” ele disse, apontando para Morarji Desai, “longe daqui. Até mesmo a sua presença cheira mal, e vocês sabem o que. Peço desculpas, mas tenho que mantê-lo no gabinete porque ele tem uma certa importância política. E o que importa se ele toma a sua própria urina? Não é da minha conta.” Nós rimos novamente e partimos. 

            Naquela noite ele nos lembrou de novo pelo telefone, dizendo, “Não se esqueçam. Cancelei todos os meus outros compromissos e estarei esperando por ambos.”

            Nós não tínhamos nenhum tipo de trabalho. Masto veio apenas para apresentar-me ao primeiro-ministro, e isso foi feito. Masto disse, “Se o primeiro-ministro quer isso, temos que ficar. Não podemos dizer não, isso não seria de ajuda para o seu futuro.”

            Eu disse, “Não se preocupe com o meu futuro. Ajudará Jawaharlal ou não?”

            Masto disse, “Você é impossível.” E ele estava certo, mas fiquei sabendo muito tarde, quando já era difícil de mudar.

            Tornei-me tão acostumado em ser o que sou que mesmo nas pequenas coisas é difícil para mim mudar. Gudia sabe; ela tenta ensinar-me de todas as formas possíveis a não derramar água por todo o banheiro. Mas alguém pode me ensinar alguma coisa? Não posso parar. Não que eu queira torturar as meninas, ou que elas tenham que ser torturadas duas vezes ao dia – porque tomo dois banhos, então naturalmente elas têm que limpar duas vezes.

            É claro que Gudia pensa que posso tomar um banho de uma maneira que elas não precisassem remover a água de todos os lados. Mas finalmente ela abandonou a ideia de ensinar-me. É impossível para mim mudar. Quando tomo banho aprecio tanto que esqueço e derramo água em todos os lugares. E sem derramá-la eu teria que permanecer controlado até mesmo em meu banheiro. 

            Agora olhem para Gudia: ela está gostando da ideia porque ela sabe exatamente o que estou falando. Quando tomo um banho eu realmente tomo um banho, e derramo água não apenas no chão, mas até nas paredes, e se você tem que limpar, então claramente isso é um problema para você. Mas se você limpa com amor, como os meus limpadores o fazem, então é melhor que psicanálise, e muito melhor que a meditação transcendental. Não posso mudar nada agora.

            Ora, o que Masto estava falando aconteceu. O que era futuro agora é passado. Mas sou o mesmo, e permaneci o mesmo. Na verdade, para mim parece que a morte não ocorre no momento em que você para de respirar, mas quando você para de ser você mesmo. Nunca por razão alguma eu permiti alguma concessão. 

            Nós fomos no dia seguinte e Jawaharlal havia convidado o seu genro, o marido de Indira Gandhi. Perguntei-me porque ele não havia convidado a sua filha. Posteriormente Masto me disse, “Indira cuida de Jawaharlal. A sua esposa morreu jovem, e ele teve apenas uma criança, a sua filha Indira, e ela tem sido tanto uma filha quanto um filho para ele.”

            Na Índia, quando a filha se casa ela tem que ir para a casa do seu marido. Ela se torna parte de outra família. Indira nunca foi. Ela simplesmente recusou-se. Ela disse, “A minha mãe está morta, e não posso deixar o meu pai sozinho.”

            Isso criou o início do fim do seu casamento. Eles permaneceram marido e mulher, mas Indira nunca fez parte da família Feroze Gandhi. Até mesmo os seus dois filhos, Sanjay e Rajiv, naturalmente ficaram, por causa da sua mãe, na família dela.

            Masto me disse, “Jawaharlal não pode os convidar juntos; eles começariam a brigar aqui e ali.”

            Eu disse, “Isso é estranho. Até mesmo por uma hora eles não podem esquecer que são marido e mulher?”

            Masto disse, “É impossível esquecer, nem por um único momento. Ser marido e mulher significa uma declaração de guerra.” Embora as pessoas o chamem de amor, é realmente uma guerra fria. É melhor ter uma guerra quente, particularmente em um inverno frio, do que uma guerra fria vinte e quatro horas por dia. Ela começa até mesmo a congelar o seu ser. 

            Ficamos novamente surpresos quando ele nos convidou para o terceiro dia. Estávamos pensando em partir, e ele não disse nada no segundo dia. Na manhã do terceiro dia Jawaharlal telefonou. Ele tinha um número privado que não estava listado no diretório. Apenas poucas pessoas, aquelas que eram muito próximas, podiam ligar para ele naquele número.

            Perguntei a Masto, “Ele próprio ligou; ele não podia simplesmente pedir para sua secretária nos ligar?”

            Masto disse, “Não, esse é seu número privado; nem mesmo a secretária sabe que ele está nos convidando. A secretária ficará sabendo apenas quando chegarmos no portão.”

            E naquele terceiro dia Jawaharlal apresentou-me a Indira Gandhi. Ele simplesmente disse a ela, “Não pergunte quem ele é, porque exatamente agora ele não é ninguém, mas algum dia ele poderá ser realmente alguém.”

            Eu sabia que ele estava errado. Ainda sou um ninguém, e permanecerei ninguém até o final. Ser um ninguém é tremendamente extasiante; realmente há espaço. Devo ser uma das pessoas mais espaçosas do mundo. De qualquer forma, tente ser ninguém. É muito fora – apenas muito fora.

            Mas ninguém quer ser um ninguém, um nada, e naturalmente era por isso que Jawaharlal estava dizendo para Indira, “Agora ele não é ninguém, mas posso prever que um dia ele certamente será alguém.”

            Jawaharlal, você já está morto, mas sinto muito dizer que não pude realizar a sua previsão. Ela falhou, felizmente.

            E aquilo iniciou a minha amizade com Indira. Ela já tem um alto posto, e em breve tornar-se-á presidente do partido governista da Índia, e então ministra do gabinete de Jawaharlal, e, finalmente, primeira-ministra. Indira é a única mulher que consegue lidar com esses idiotas, os políticos, e ela lida bem. 

            Como ela lida não consigo dizer. Talvez ela aprendeu todas as suas falhas enquanto ela era uma ninguém, apenas uma cuidadora do velho Jawaharlal. Mas ela conhecia as falhas deles tão bem que eles tinham medo dela, tremiam. Nem mesmo Jawaharlal pôde retirar esse perfeito idiota, Morarji Desai, do seu gabinete.

            Falei isso para Indira em um encontro posterior. Isso pode vir em algum momento, ou não, então é melhor que eu o mencione agora. Esses círculos não são confiáveis. Disse-lhe em nosso último encontro – isso foi alguns anos após a morte de Jawaharlal; deve ter sido em algum momento em torno de 1968. Ela me disse, “O que você está falando está absolutamente certo, e eu gostaria de fazê-lo, mas o que fazer com pessoas como Morarji? Elas estão no meu gabinete, e são maioria. Embora pertençam ao meu partido, elas não seriam capazes de entender se eu tentar implementar qualquer coisa que você está dizendo. Concordo, mas sinto-me impotente.”

            Eu disse, “Por que você não expulsa esse sujeito? Quem está lhe impedindo? E se você não puder expulsá-lo, então se demita, porque não combina com uma pessoa do seu calibre trabalhar com esses tolos. Corrija-os – isso é, coloque o lado certo para cima, porque eles estão fazendo shirshasana, pousados sobre suas cabeças. Ou você os corrige ou se demita, mas faça algo.”

            Sempre gostei de Indira Gandhi. Ainda gosto dela, embora ela não tenha feito nada para ajudar o meu trabalho – mas essa é outra questão. Gostei dela a partir do momento em que ela me disse, ou melhor, sussurrou no meu ouvido, embora não houvesse ninguém para ouvir, mas quem sabe – políticos são pessoas cuidadosas. Ela sussurrou, “Farei alguma coisa ou outra.”

            Não pude entender naquele momento o que ela significava com – “alguma coisa ou outra.” Mas depois de sete dias li no jornal que Morarji Desai havia sido subitamente expulso. Eu estava longe, talvez a mil milhas.

            Ele havia acabado de retornar de uma excursão do seu distrito eleitoral para visitar o primeiro-ministro, e essa foi a sua boas-vindas – uma boas-vindas estranha, ou devo dizer um “boas-idas” Posso criar uma palavra, ‘boa-ida’? Então eles estavam dando uma bela boa-ida. Isso seria exatamente o que as pessoas fazem – quem dá as boas-vindas?

            Mas não fiquei surpreso. Na verdade todos os dias eu estava olhando nos jornais para ver o que está acontecendo, porque tive que descobrir o que ela queria dizer com “alguma coisa ou outra.” Mas ela fez algo. Ela fez a coisa certa. Esse homem tem sido o mais obstrutivo, obscurantista, ortodoxo, etc, e qualquer coisa errada que vocês puderem pensar.

            Que horas são, Devageet?

            “Dez e vinte e quatro, Osho.”

            Dez minutos para mim. Isso é bom mas pode ser melhorado. A menos que vocês alcancem às suas perfeições hoje eu serei um capataz duro. Busque a perfeição. Não procure à continuação; perfeição é a palavra. Embora ela não seja ouvida, ainda assim a perfeição é a palavra, ouvida ou não. 

            Sim, a menos que eu saiba que vocês chegaram em suas capacidades últimas não pararei – então sejam rápidos!

            Bom.

            No momento em que eu digo bom, você fica com medo. Imediatamente vejo o seu medo e o seu tremor. É por isso que, de vez em quando, tenho que me dirigir a Ashu, dizendo, “Não se preocupe com o medo de Devageet. Apenas seja uma mulher simples, sem conhecimento, e vá às alturas. Deixe o pobre Devageet correr atrás.” Ele tentará bravamente. Posso vê-lo correndo para alcançar-lhe, é por isso que riu. Quem pode ficar atrás de seu próprio assistente?

            Não se preocupe: hoje às doze horas o mundo parará de qualquer forma. Então Ashu, seja rápida! Antes que o mundo termine pelo menos permita que eu almoce.

            Bom. Pare.

 

 

Publicado por rafaelsc

"Ensinar não é encher um balde, é acender um fogo" Yeats "Creio porque é absurdo" Tertuliano "Seja uma luz para si próprio" Buda “Sentando-se quieto, sem fazer nada, a primavera vem e a grama cresce, por si só." Matsuo Bashō "O silêncio e a risada são a chave – silêncio dentro, risada fora" Osho

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