Sessão 36

 

Eu estava pensando em uma história agora. Não sei quem a criou ou por que, e não concordo com suas conclusões também, mas ainda assim a amo. A história é simples. Vocês podem tê-la ouvido, mas talvez não a entenderam porque ela é muito simples. Todo mundo acha que entende a simplicidade. É um mundo estranho. As pessoas tentam entender a complexidade, entretanto elas ignoram-na pensando que não vale a pena dar atenção a ela. Talvez vocês não prestaram atenção à história, mas quando eu a contar, necessariamente ela voltará para vocês.

            As histórias são criaturas estranhas; elas nunca morrem. Elas nunca nascem também. Elas são tão antigas quanto os seres humanos; é por isso que as amo. Se uma verdade não está contida em uma história, esta não é uma história. Então ela pode ser filosofia, teosofia, antroposofia; e não importa quantas “sofias” existam, todas são disparates – escreva disparates, sem um hífen* [NT. nonsense] – puro disparate. Porque ordinariamente a palavra é escrita com um hífen dividindo o “não” de “sentido.” Não vejo nenhum sentido no hífen. Pelo menos remova-o das minhas palavras, exceto quando eu disser que o Zen é sem-sentido; então é claro que o hífen precisa estar ali. 

            Contei essa história pela primeira vez a Masto, que deveria tê-la ouvido antes, mas não da forma que eu distorço as coisas, ou as crio. 

            A história é – e estou contando-a a Masto – “Deus criou o mundo, Masto.”

            Masto disse, “Ótimo. Você sempre foi contra a filosofia e a religião; o que aconteceu? Esse é o primeiro enigma que todas as religiões começam com.”

            Eu disse, “Espere, antes de concluir. Não seja tolo de concluir antes de ter ouvido toda a história.”

            Masto disse, “Eu conheço a história.”

            Eu disse, “Você não pode a conhecer.”

            Ele olhou surpreso e disse, “Isso é alguma coisa. Posso repeti-la se você quiser que eu o faça.”

            Eu disse, “Você pode repeti-la, mas isso não significa que você a saiba. Repetição é conhecimento? Um papagaio repetindo os sutras de Buda é um buda, ou, pelo menos, um bodhisattva?”

            Ele olhou realmente pensativo. Esperei, mas então eu disse, “Antes que você comece a pensar, ouça à história. O que você sabe não pode ser o mesmo que eu sei, porque não somos o mesmo. Deus criou o mundo. Naturalmente, a questão surge, e os Vedas questionam exatamente: Por que ele criou o mundo? Os Vedas, nesse sentido, são excelentes. Eles disseram, ‘Talvez até mesmo ele não saiba o porquê’ – e por ‘ele’ eles queriam dizer Deus.”

            E posso ver a beleza disso. Talvez tudo surgiu da inocência, não do conhecimento. Talvez ele não estava criando; talvez ele estava apenas brincando, como uma criança faz casas na areia. As crianças sabem para quem as casas são feitas? Elas conhecem a formiga que virá à noite e sentir-se-á quente?

            Em Hindi, formigas são sempre “elas” – não sei porquê. Elas nunca são pensadas como machos. A verdade é que apenas uma formiga é fêmea, a rainha; todas as outras formigas são machos. É estranho, ou talvez não muito estranho, mas para esconder a verdade eles chamam a formiga de “ela.” Talvez porque a formiga é tão pequena, chamá-la de “ele” seria contra o ego masculino. Eles chamam o elefante de “ele.” Eles chamam o leão de “ele.” Se eles especificamente querem indicar a elefante fêmea eles chamam-na de um “ela-elefante”, ou uma leoa fêmea como um “ela-leão”, mas, caso contrário o termo de uso geral é masculino. Mas a pobre formiga… e infelizmente a escolhi para a história.

            Ele ou ela, quem quer que a formiga seja, filosofa – talvez a formiga não pode ser um “ela”; caso contrário de onde viria a filosofia? Eu nunca cruzei com uma mulher que filosofa. Conheci muitas mulheres professoras de filosofia, mas, estranhamente, mesmo essas professoras falam apenas de roupas e fotos. Se uma pessoa está presente então elas a elogiam; se está ausente, então elas a condenam. A filosofia é a última coisa que elas pensam. Como elas conseguem ser professoras não é estranho para mim, embora vocês poderiam pensar que seria. Não, elas podem ensinar porque isso não exige pensamento; na verdade, este é o requerimento mais básico. Se você pensa você não pode ensinar.

            Um dos meus professores era o homem mais estranho que cruzei no mundo universitário. Por anos nem mesmo um estudante inscreveu-se em sua aula, pela simples razão que ele sempre começava as suas aulas pontualmente, mas ninguém nunca sabia quando ele terminaria.

            No início ele diria, “Por favor não esperem o fim, porque nada no mundo termina. Se vocês quiserem sair, vocês podem, porque no mundo muitos saem, e o mundo ainda assim continua. Apenas não me perturbe. Não pergunte, ‘Posso sair, senhor?’ Ninguém pergunta isso, nem mesmo no momento da morte, então por que vocês perguntariam a um pobre professor de filosofia? Prezados, posso perguntar-lhes por que vocês vieram em primeiro lugar? Vocês podem sair no momento que quiserem, e falarei até quando eu sentir que as palavras estão vindo.”

            Quando cheguei na universidade todo mundo me disse, “Evite aquele homem, Doutor Dasgupta. Ele é apenas louco.”

            Eu disse, “Isso significa que tenho que encontrá-lo em primeiro lugar. Eu vim em busca de pessoas realmente loucas. Ele é realmente louco?”

            Eles disseram, “Realmente louco. Ele é absolutamente louco, e não estamos brincando.”

            Eu disse, “Me dá um grande êxtase saber que vocês não estão brincando. Posso fazer isso comigo mesmo. Sempre que preciso eu apenas conto para mim mesmo belas piadas e rio hilariantemente dizendo, ‘Ótimo! Nunca ouvi essa antes.’”

            Eles disseram, “Este sujeito parece ser ele próprio louco.”

            Eu disse, “Absolutamente certo. Agora me digam onde o Doutor Dasgupta mora.”

            Eu fui até a sua casa e bati na porta. Não havia nem mesmo um empregado. Ele vivia como um deus: sem esposa, sem empregado, sem crianças, totalmente sozinho. Ele me disse, “Você deve ter batido na porta errada. Você sabe que sou o Doutor Dasgupta?”

            Eu disse, “Eu sei. Você sabe quem eu sou?”

            Ele era um homem velho, e ele apenas olhou para mim através de seus óculos grossos e então disse, “Como eu poderia conhecê-lo?”

            Eu disse, “Eu vim para descobrir.”

            Ele disse, “Você quer dizer que não sabe também?”

            Eu disse, “Não.”

            Ele disse, “Meu Deus! Dois loucos em uma casa! E você é muito mais louco do que eu. Entre, senhor e sente-se.”

            Ele era realmente respeitoso. Sem fazer piada ele disse, “Nesta universidade ninguém apareceu para as minhas aulas por três anos. Na verdade eu mesmo parei de ir. Qual o sentido? Dou minhas aulas nessa sala, exatamente onde você está sentado.”

            Eu disse, “Isso é realmente belo, mas para quem?”

            Ele disse, “Esse é o ponto. De vez em quando eu também pergunto, ‘para quem?’”

            Eu disse, “Inscrever-me-ei para a sua aula, e mesmo assim você não precisa se preocupar em ir até a sala. É quase uma milha da sua casa. Eu posso vir aqui.”

            Ele disse, “Não, não, eu irei – isso é parte da minha obrigação. Apenas uma coisa, perdoe-me, mas embora eu possa começar a minha palestra na hora – se é às onze, posso começar às onze – não posso garantir que terminarei quando o sino bater quarenta minutos depois.”

            Eu disse, “Posso entender isso. Como o pobre homem que bate o sino a cada quarenta minutos pode entender o que você está fazendo? E não apenas o Sr., o que todos os professores em toda a universidade estão fazendo? Se eles param, então eles são estúpidos. O sino não sabe; o homem que bate o sino não sabe – então por que você deveria parar? Se você faz questão de não parar, então ouça, eu também farei questão, de homem para homem, de golpeá-lo tão forte se você parar, que você pode até não sobreviver.”

            Ele disse, “O quê? Você vai me bater?” Ele era um Bengali.

            Eu disse, “Eu disse apenas metaforicamente. Tocarei sua cabeça levemente, apenas para lembrá-lo que você não precisa se preocupar com o sino.”

            Ele disse, “Então está certo. Você não precisa ir para o hotel, você pode viver na minha casa. Ela é muito grande e sou sozinho.”

            Naquele dia pensei em Masto. Ele teria gostado daquela casa, e daquele homem com seus olhos contemplativos. Naquele dia também lembrei-me dessa história. Vou contá-la novamente para que vocês possam acompanhar: 

            Deus criou o mundo. Ele o terminou em seis dias. A última coisa que ele criou foi a mulher. Naturalmente a questão surge: Por quê? Por que ele criou a mulher por último? É claro, as feministas dirão, “Porque a mulher é a criação mais perfeita de Deus.” Obviamente ele a criou depois da sua experiência em criar o homem. O homem é um modelo um pouco mais antigo; naturalmente Deus refinou-o e tornou-o melhor. Mas os machistas terão outra versão. Eles dizem que Deus criou o homem como sua última criação, mas então o homem começou a fazer questões tais como, “Por que você criou o mundo?” e, “Por que você me criou?” E Deus ficou tão confuso que criou a mulher para confundir o homem. Desde então Deus não ouviu mais nada do homem.

            O homem chega em casa com o rabo entre as pernas, sai para comprar bananas e, vagarosamente, torna-se um banana: Sr. Banana, PhD, M. A., D. Litt., etc. Mas basicamente o Sr. Banana está totalmente podre. Por favor não o coma. Nem mesmo olhe dentro da pele; caso contrário você arrepender-se-á e imediatamente dirá, “Pare a roda!” – a roda dos nascimentos e mortes – por que quem quer ser um banana? Mas as bananas podem vestir-se bem, com belas roupas, talvez feitas em Paris. O Sr. Banana pode fazer qualquer coisa. Ele veste uma bela gravata, de modo que não possa nem respirar… os sapatos tão apertados que se você olhar para os pés do Sr. Banana você nunca olhará para sua face.

            Nunca gostei de sapatos, mas todo mundo insiste que devo usá-los. Eu digo, “Aconteça o que acontecer, não usarei sapatos.”

            O que uso chama-se chappals na Índia. Eles não são sapatos realmente, nem mesmo sandalhas; eles são a menor cobertura possível. E escolhi o chappal extremo – vocês não podem reduzi-lo mais. A pessoa que faz os meus chappals, Arpita, sabe que não há outra forma de os fazer mais perfeitamente. Apenas um pouco a menos e os meus pés estariam nus. É apenas o mínimo: apenas uma alça de alguma forma segurando os meus pés ao chappal. Vocês não o poderiam cortar mais. 

            Por que odeio sapatos? Pela simples razão que eles transformam-no em um banana. É claro que Sr. Banana, Doutor Banana, Professor Banana, todos os tipos de bananas; senhora banana, cavalheiro banana… vocês podem encontrar todas as variedades, mas elas sempre começam dos sapatos.

            Vocês já viram as damas Vitorianas com seus saltos altos? – tão altos que mesmos os equilibristas que andam em cordas bambas cairiam se tentassem andar neles. Por que eles foram escolhidos? Eles foram escolhidos por uma sociedade muito religiosa, por uma razão muito irreligiosa – pornográfica – porque quando os calcanhares estão altos, as nádegas destacam-se. 

            Agora ninguém se preocupa com o motivo; até mesmo as damas seguem fazendo-o, pensando serem refinadas. É muito vulgar. Elas estão simplesmente desfilando as suas nádegas de graça, e gostando. E com as roupas apertadas, obviamente elas parecem melhor do que quando estão nuas, porque a pele é, afinal, apenas pele. Se você tem trinta anos de idade, a pele tem trinta anos de idade. Ela viu trinta anos passarem-se, portanto ela não pode ser tão firme quanto um vestido recentemente comprado. E agora os fabricantes estão fazendo milagres: eles estão fazendo as mulheres parecerem tão tentadoras que o próprio Deus comeria a maçã!

            Vocês reconhecem o que estou dizendo? Vocês podem levar algum tempo. Nem mesmo Ashu riu. Vai levar algum tempo até assentar. Sim, uma cobra não seria necessária, apenas um vendedor de roupas. Apenas um vestido colado para a Sra. Eva, e o próprio Deus teria comido a maçã e seria expulso com a Sra. Eva – pelo menos por uma noite, quero dizer.

            Por que Deus criou a mulher depois do homem? O machista diz que o homem é a criação perfeita. Vocês devem ter visto os homens nas esculturas Gregas e Romanas, mas vocês raramente cruzam com um corpo feminino esculpido, apenas homens. Qual era o problema dessas pessoas? Elas não podiam ver nenhuma beleza na mulher?

            Elas eram machistas, tanto que louvavam a homossexualidade mais do que a heterossexualidade. Isso soa muito estranho, porque quase vinte e cinco séculos passaram-se desde Sócrates, mas o próprio Sócrates amava homens, não mulheres. Talvez a sua esposa Xântipe criou tantos problemas para ele que ele reagiu exageradamente e esqueceu totalmente das mulheres, e começou a amar homens. Talvez existiam outras razões.

            Se algum dia eu tiver que psicanalisar Sócrates, então eu poderei descobrir coisas que ninguém mais nem mesmo pensaria em descobrir. Mas os machistas dizem que Deus criou o homem, e, somente porque o homem estava sozinho e precisava de companhia, Deus criou Eva.

            Essa não é a história original. O nome original da mulher não era Eva, o seu nome era Lilith. Deus criou Lilith, mas Lilith criou, desde o primeiro momento, problema.

            Começou assim: A noite estava surgindo, o sol estava se pondo, e eles tinham apenas uma cama, esse era o problema. Eles não tinham tanta sorte como eu, que tenho Asheesh; caso contrário ele teria preparado – mesmo se tivesse sofrendo de enxaqueca – mesmo assim ele criaria uma cama perfeita. Mas Asheesh não estava lá. Na verdade nenhum outro ser humano estava lá…

            O meu relógio parou, e no outro dia eu estava falando sobre ele, e ele parou. Vocês sabem que os relógios são temperamentais. Ele parou exatamente naquele mesmo momento. E eu estava falando sobre outro relógio, um relógio metafórico, mas quem vai explicar para esse relógio que eu não estava falando dele? Durante a noite falei para ele muitas vezes, “Ouça, você não precisa parar. Eu não estava falando sobre você – você é um belo relógio…” mas ele não ouviu.

            O que eu estava falando?

            “Você estava falando sobre Eva não ter uma cama… ou Lilith não ter uma cama, Osho.”

            Sim. A briga começou até antes de ir para a cama. Lilith foi certamente a criadora do Movimento de Liberação das Mulheres, sabendo disso ou não. Ela lutou. Ela jogou Adão para fora da cama. Que grande mulher! Adão tentou muitas vezes jogá-la para fora, mas qual era o ponto? Mesmo quando ele conseguia, ela voltava, jogando ele para fora.

            Ela disse, “Apenas um pode dormir nessa cama. Ela não foi feita para duas pessoas.” Obviamente ela não foi feita para duas pessoas por Deus; não era uma cama de casal.

            Eles lutaram a noite toda e de manhã Adão disse a Deus “Eu era perfeitamente feliz…” embora ele não fosse, mas a infelicidade de toda a noite o ajudou a ver o seu passado como muito feliz. Ele disse, “Eu era tão feliz antes dessa mulher chegar.”

            E Lilith disse, “Eu também era feliz. Eu não quero existir.” Ela deve ter sido a criadora de muitas coisas. Talvez ela fora a primeira patriarca Zen real, porque ela disse, “Não quero existir. Uma noite é suficiente para uma vida, porque sei que será quase o mesmo toda noite, repetidas vezes. E mesmo se você me der uma cama de casal, qual diferença ela fará? Nós ainda assim brigarem, porque a questão é, ‘Quem é o mestre?’ Não posso permitir que esse bruto seja o meu mestre.”

            Deus disse, “Ok.” Naqueles dias – e aqueles eram os dias do começo de tudo;  na verdade era o primeiro dia depois da criação. Deve ter sido um Domingo, de acordo com os Cristãos. Deus deveria estar em um humor de domingo, porque ele disse, “Ok, fá-la-ei desaparecer.” Lilith desapareceu, e então Deus criou Eva da costela de Adão.

            Foi a primeira operação, Devaraj, por favor note. Deus foi o primeiro cirurgião, reconhecendo-o ou não a Sociedade Real, não importa. Ele fez um grande trabalho. Nenhum outro cirurgião foi capaz de fazer o mesmo desde então. De apenas uma costela ele criou a mulher. Mas é insultante, e odeio a história. Não é a forma que Deus deve comportar-se. Apenas uma costela…!

            E então há o resto da história. Toda noite Eva conta as costelas de Adão antes de ir dormir, para ter certeza que todas as outras costelas ainda estão lá e que não existe nenhuma outra mulher no mundo. Então ela pode dormir bem.

            Estranho… se existirem outras mulheres, por que ela não pode dormir bem? Mas não gosto desse final da história. Em primeiro lugar esse final é machista; em segundo lugar, muito herege; em terceiro lugar, muito sem imaginação e factual. As coisas devem ser apenas indicadas.

            Masto me perguntou, “Qual é a sua conclusão?”

            Então eu disse, “A minha conclusão é que Deus criou o homem primeiro porque ele não queria nenhuma interferência enquanto estava criando.” Isso é um ditado muito comum no Oriente. Ele não tem nada a ver comigo, mas o amo tanto que posso quase reivindicá-lo como meu. Se o amor puder fazer alguma coisa por si só, então ele é meu. Não sei quem o disse pela primeira vez, e não preciso saber também. 

            Eu também disse a Masto, “Desde então nada se foi ouvido de Deus. Você tem alguma notícia do pobre velho? Ele se aposentou? Ele esqueceu da sua criação? Ele não tem amor e compaixão por aqueles que criou?”

            Masto disse, “Você sempre cria essas questões estranhas dessas histórias absurdas, e então você as faz soarem sensatas. Pergunto-me se um dia você tornar-se-á um escritor de histórias.”

            Eu disse, “Nunca. Pessoas muito mais talentosas estão engajadas nesse trabalho. Sou necessário em algum outro lugar onde ninguém mais parecer estar interessado, porque estou pensando em estar interessado apenas em Deus.”

            Masto ficou chocado. Ele disse, “Em Deus? Eu pensava que você não acreditava nele.”

            Eu disse, “Não acredito, porque conheço, e conheço tão profundamente que mesmo se eu cortar a minha cabeça, ainda assim eu falarei, ‘eu conheço.’ Eu posso não ser…certa vez eu não era… Ele era e ele será.”

            Na verdade dizer “ele” não está certo. No Oriente nós dizemos “isto” [NT. it], e isso soa perfeito. ISSO escrito com letras maiúsculas dá um significado real às palavras de Buda, às declarações de Lao Tsé, às orações de Jesus. “Ele” é novamente orientado pelo masculino, e “ele” também não é “ela”.

            Ouvi dizer… vocês podem não ter ouvido ainda, porque isso pertence ao futuro. É uma história do futuro. O papa Polaco morre, e vai para o céu, é claro. Ele corre para ver Deus, muito rápido ele entra e sai ainda mais rápido – chorando. São Pedro, Paulo, Tomás e todos os outros santos reúnem-se e dizem, “Não chore, não lamente. Você é um bom homem e entendemos os seus sentimentos.”

            O papa gritou, “O que vocês entendem? Vocês sabiam, em primeiro lugar, que ele não é nem um homem branco, que ele é negro? E, em segundo lugar, ainda pior: ele nem é ele, ele é ela!”

            Deus não é nem ele nem ela – mas os Polacos são Polacos. Vocês podem fazê-los papas, mas isso não faz qualquer diferença. Deus criou o mundo, não de acordo com os pontos de vistas machistas ou feministas. As suas visões são totalmente opostas.

            Ele criou a mulher como o modelo perfeito, e certamente todo artista acredita que ela é o modelo perfeito. Se vocês verem pinturas delas, vocês também acreditarão que ela é o modelo perfeito. Mas por favor pare aí. Não toque uma mulher real. As pinturas tudo bem, as estátuas também, mas uma mulher real é tão imperfeita quanto ela deve ser.

            Não quero dizer nada depreciativo com isso. A imperfeição é a própria lei da vida. Apenas as coisas mortas são perfeitas. A vida é, necessariamente, imperfeita. As mulheres são imperfeitas, os homens são imperfeitos; e quando duas imperfeições se encontram, vocês podem imaginar qual será o resultado. 

            “Essas são as minhas conclusões,” eu disse a Masto, “que Deus criou o homem, e o homem começou a fazer questões filosóficas. Deus criou a mulher para manter o homem ocupado.” Desde então o homem tem comprado bananas e no momento em que chega em casa ele está tão cansado que embora a esposa queira discutir grandes coisas, ele só quer esconder-se atrás do The Times ou qualquer outro jornal. Ele é mantido continuamente na corrida pela mulher: “Faça isso, faça aquilo.”

            É estranho que o trabalho de professor seja dado às mulheres, apesar de elas não serem permitidas em muitos trabalhos. Talvez haja uma lógica nisso. É bom limitar os pobres garotos antes que seja muito tarde, e depois disso eles sempre tremerão perante a mulher, continuamente com medo. Desde então Deus tem desfrutado olhar para todo o disparate que está ocorrendo no mundo que criou em seis dias.

            Os Budas estão tentando lhes dar um vislumbre daquele mundo de relaxamento que existia antes do mundo e de todos os seus problemas começarem. Ao sair para fora da corrente você de repente começa a rir; com Deus ou sem Deus, é apenas uma história. Eu disse a Masto, “A menos que alguém dê um passo para fora da corrente mundana da vida…”

            Eu queria falar adeus a esse homem, mas é bom que não consigo. Muitas coisas ainda estão relacionadas a ele, e qualquer coisa pode refletir muitas outras coisas. A vida é sempre simples e complexa, ambas – simples como uma gota de orvalho, e também tão complexa como uma gota de orvalho, porque a gota de orvalho pode refletir o céu inteiro, e ela contém também todos os oceanos. E certamente ela não durará para sempre… talvez apenas alguns minutos, e então foi-se para sempre. Enfatizo o para sempre. Então não há como voltar, com todas aquelas estrelas e oceanos.

            Muito está envolvido com Masto…

            Sempre que eu queria chorar eu pedia para Masto tocar a sua vina. Era fácil, nenhuma explicação era necessária; ninguém perguntaria por que você está chorando. A vina simplesmente agita as suas profundezas. Mas foi a teimosia dele que me fez contar-lhes aquela história, porque ele costumava me dizer, “A menos que você me conte uma história não vou tocar.” Contei-lhe a história, e agora é a hora dele tocar… mas só eu posso ouvir. É melhor que ainda somente eu posso ouvir.

            Apenas dez minutos para mim ouvi-la. Estou desfrutando-a tanto quanto Adão deve tê-la desfrutado. 

            Quantos minutos nós estivemos nesse procedimento de carro de boi? Alguém pode entender?

            “Sempre, Osho.”

            Então apenas um minuto, e vocês podem parar.

            Isso é bom. Ninguém nunca deveria querer continuar qualquer coisa tão bela; é preciso ser capaz de terminá-la também. Sei que vocês podem continuar, mas não – o meu doutor me proíbe de comer demais qualquer coisa. Ele quer que eu reduza o meu peso, e se eu comer a dieta de vocês, então Jesus…!

            Vocês podem terminar agora.

 

Sessão 37

 

Ok. Estamos apenas no segundo dia da minha escola primária. Será assim. Todo dia muitas coisas se abrem. Não terminei nem o segundo dia ainda. Hoje farei o meu melhor para terminá-lo. 

            A vida é interconectada; vocês não podem cortá-la em pedaços nítidos. Ela não é uma peça de roupa. Vocês não a podem cortar de maneira alguma, porque no momento em que vocês a cortam de todas as suas conexões ela não será mais a mesma. Ela se torna algo morto, sem respiração. Quero que ela tome o seu curso próprio, não quero nem direcionar, porque não a direcionei em primeiro lugar. Ela tomou o seu curso próprio, sem ser guiada.

            Na verdade eu odiava os guias e ainda os odeio, porque eles os impedem de fluir com o que existe. Eles direcionam, o negócio deles é apressar vocês até o próximo ponto. O trabalho deles é fazer vocês sentirem que conheceram. Nem eles conheceram, nem vocês. O conhecimento só vem através da vida não guiada, não dirigida. Esta é a forma que vivi e ainda vivo.

            É um destino estranho. Desde a minha mais tenra infância eu soube que aquela não era a minha casa. Era a casa do meu Nana, e meu pai e mãe estavam longe. Eu esperava que talvez a minha casa seria a deles, mas não, era apenas uma grande casa de convidados, com meus pobres pai e mãe servindo os convidados continuamente, sem nenhuma razão – pelo menos para mim não parecia haver nenhuma.

            Novamente eu disse para mim mesmo, “Esta não é a casa que estou procurando. Agora, para onde ir? O meu avô está morto, então não posso voltar para aquela casa.” Era a casa dele e, sem ele, só a casa não fazia sentido. Se a minha Nani tivesse voltado haveria algum sentido, noventa e nove por cento pelo menos, mas ela recusou-se a ir.

            Ela disse, “Fui até lá por ele, e se ele não está lá então não há outra razão para retornar. É claro que se ele voltar eu estou pronta, mas se ele não voltar, se ele não puder manter a sua promessa, por que eu me preocuparia com a sua casa e propriedade? Elas nunca foram minhas. Sempre há alguém que pode cuidar dessas coisas. Não fui feita para isso. Não fui por causa delas em primeiro lugar, não vou retornar por causa delas.”

            Ela recusou tão totalmente que aprendi como recusar… e aprendi como amar. Depois de deixar aquela casa ficamos alguns dias com a família do meu pai. Certamente não era somente uma família, mas mais uma reunião de tribos, muitas famílias; talvez um tipo de mela, uma feira. Mas só ficamos poucos dias. Aquela também não era a minha casa. Fiquei ali apenas para vê-la, então me mudei. 

            Desde então, em quantas casas eu já vivi? É praticamente impossível para vocês imaginarem que em quase cinquenta anos de vida eu tenho apenas me mudado de casas, sem fazer nada além disso. É claro que a grama estava crescendo – eu estava me mudando de casa, sem fazer nada, e a grama estava crescendo. Mas todo o crédito vai para o “nada,” não para mim mudando-me de casa.

            Depois disso mudei-me para a casa da minha Nani, e então para a casa de um dos meus tios – a casa do marido da irmã do meu pai – onde fui para estudar depois da matrícula. Eles pensaram que seria apenas por alguns poucos dias, mas esses dias provaram-se mais longos do que eles pensaram. Nenhum hotel estava pronto para aceitar-me porque os meus registros eram tão belos! Os comentários dados por todos os meus professores e, particularmente pelo diretor, realmente valeriam a pena serem preservados. Todos me condenaram o quanto era possível em um certificado.

            Eu disse para eles frente à frente, “Isso não é um certificado de caráter, é um assassinato de caráter. Por favor escreva um PS. que, ‘Chamo esse documento um assassinato de caráter.’ A menos que você o escreva não vou pegá-lo.” Eles tinham que escrever.

            Eles me disseram, “Você não é apenas provocador mas perigoso também, porque agora você pode nos processar.”

            Eu disse, “Não tenha medo. Na minha vida muitos vão me processar nos tribunais; eu nunca processarei ninguém.”

            Eu não processei ninguém, embora eu pudesse fazê-lo muito facilmente, e centenas teriam sido punidos.

            Eu estava falando que nunca tive uma casa. Até mesmo esta casa não posso chamar de minha. Da primeira à última – talvez esta não seja a última, mas qualquer que seja a última, não a poderei chamar de minha casa. Apenas para esconder o fato eu a chamo de Casa Lao Tsé. Lao Tsé não tem nada a ver com ela.

            E conheço o homem. Sei que se ele me encontrasse – e um dia um encontro necessariamente deve ocorrer – a primeira coisa que ele vai perguntar será, “Por que você chamou a sua casa de ‘Casa Lao Tsé’?” Naturalmente, a curiosidade de uma criança – e ninguém pode ser mais inocente que Lao Tsé, nem Buda, nem Jesus, nem Maomé e certamente não Moisés. Um Judeu sendo inocente? Impossível!

            Um Judeu já nasce empresário, com um terno, apenas deixando a casa e indo fazer compras. Ele já vem pronto. Moisés? – certamente não. Mas Lao Tsé, ou se vocês quiserem alguém ainda mais inocente que Lao Tsé, então o seu discípulo, Chuang Tzu… Para ser um discípulo de Lao Tsé é necessário ser mais inocente do que Lao Tsé ele próprio. Não há outra forma.

            Confúcio foi simplesmente recusado. Em poucas palavras, Lao Tsé lhe disse, “Saia e suma para sempre – e lembre-se, não retorne a esse local novamente.” Não realmente com essas palavras, mas essa foi a própria essência do que Lao Tsé disse a Confúcio, o homem mais erudito daquela época. Confúcio não poderia ser aceito. Mas Chuang Tzu era até mais louco que Lao Tsé, o seu mestre. Quando Chuang Tzu veio, Lao Tsé disse, “Ótimo! Você está aqui para ser meu mestre? Você pode escolher: ou você pode ser meu mestre, ou eu posso ser o seu mestre.”

            Chuang Tzu replicou, “Esqueça isso tudo! Por que não podemos apenas ser?”

            E essa foi desse jeito que eles permaneceram. É claro que Chuang Tzu era um discípulo e muito respeitável em relação ao mestre; ninguém poderia competir com ele. Mas foi dessa forma que eles começaram – com ele dizendo, “Nós não podemos esquecer toda essa bobagem?” Adiciono a palavra ‘bobagem’ para deixar a sentença exatamente como ela deve ter sido. Mas isso não significa que ele não era respeitoso. Mesmo depois disso, Lao Tsé riu e disse, “Maravilha! Eu estava esperando por você.” E Chuang Tzu tocou os pés do mestre.

            Lao Tsé disse, “O quê!”

            Chuang Tzu disse, “Não traga nada entre nós. Se eu sentir que devo tocar os seus pés, então ninguém pode me impedir, nem você nem eu. Nós temos apenas que observá-lo acontecendo.”

            E eu tive que observar isso acontecendo, me mudando de uma casa para outra. Posso lembrar-me de centenas de casas, mas nenhuma que eu pudesse ter dito, “Esta é minha casa.” Eu estava esperando, talvez esta… isso aconteceu por toda a minha vida: “Talvez a próxima.”

            Ademais… vou contar-lhes um segredo. Ainda espero ter uma casa em algum lugar, talvez… “Talvez” é a casa. Toda a minha vida eu esperei em tantas casas que a casa real viesse. Ela sempre parecia estar virando a esquina. Mas a distância permaneceu a mesma: ela sempre permaneceu virando a esquina. Posso vê-la novamente…

            Sei que nenhuma casa será minha. Mas saber é uma coisa: de vez em quando, algo que só pode ser chamado de “ser” o recobre. Chamo isso de “onisciência”; e, nesses momentos, novamente estou procurando pela “a casa.” Eu disse que ela pode ser chamada apenas de “talvez”; quero dizer que esse é o nome da minha casa. Sempre acontecerá, mas nunca realmente acontece… sempre prestes a acontecer.

            Da casa da minha Nani mudei-me para a casa da irmã do meu pai. O marido, ou seja, o cunhado do meu pai, não queria muito. Naturalmente, como ele poderia querer? Eu concordava perfeitamente com ele. 

            Até mesmo se eu estivesse em seu lugar eu não iria querer também. Não apenas não querer, mas não querer com teimosia, por que quem aceitaria um encrenqueiro desnecessariamente? Eles não tinham filhos, então viviam realmente felizes – embora, na verdade, eles eram muito infelizes, sem saber quão “felizes” aqueles que tem filhos são. Mas não havia outra forma deles saberem também. 

            Eles tinham um belo bangalô, com mais quartos além do quarto do casal. Ele era grande o suficiente para comportar várias pessoas. Mas eles eram pessoas ricas, eles podiam arcar. Não era um problema para eles cederem a mim apenas um quarto pequeno, embora o marido estava, sem dizer uma palavra, relutante. Recusei a me mudar.

            Permaneci do lado de fora da casa deles com a minha pequena maleta e disse a irmã do meu pai que, “O seu marido está relutante em ter-me aqui, e a menos que ele esteja disposto seria melhor para mim viver na rua do que na casa dele. Não posso entrar a menos que eu seja convencido que ele estará feliz em ter-me. E não posso prometer que não serei um problema para vocês. É contra a minha natureza não estar em problemas. Não posso fazer nada.”

            O marido estava escondido atrás da cortina, ouvindo a tudo. Ele entendeu uma coisa pelo menos, que valeria a pena dar uma chance para o menino.

            Ele saiu e disse, “Vou te dar uma chance.”

            Eu disse, “É melhor você aprender desde o começo que eu estou te dando uma chance.”

            Ele disse, “O quê!”

            Eu disse, “O significado vai tornar-se mais claro lentamente. Ele entra em crânios grossos muito lentamente.”

            A esposa ficou chocada. Posteriormente ela me disse, “Você não deveria dizer tal coisa para o meu marido, porque ele pode te pôr para fora. Não posso o impedir; sou apenas uma esposa, e uma esposa sem filhos.”

            Ora, vocês não podem entender… Na Índia uma esposa sem filhos é considerada uma maldição. Ela própria pode não ser responsável – e sei perfeitamente bem que este sujeito era o responsável, porque os doutores me disseram que ele era impotente. Mas na Índia, se você é uma mulher sem filhos… Primeiro, apenas ser uma mulher na Índia, e então não ter filhos! Nada pior pode acontecer com qualquer um. Agora se uma mulher não tem filhos, o que ela pode fazer? Ela pode ir a um ginecologista… mas não na Índia! O marido prefere se casar com outra mulher.

            E a lei Indiana, feita obviamente por homens, permite que um marido se case com outra mulher se a primeira esposa permanece sem filhos. Estranho, se duas pessoas estão envolvidas na concepção de uma criança, então, naturalmente, duas pessoas estão envolvidas na não-concepção também. Na Índia, duas pessoas estão envolvidas na concepção, mas na não-concepção apenas uma – a mulher.

            Vivi naquela casa e, naturalmente, desde o começo, um conflito, uma corrente sutil surgiu entre eu e o marido, e ela continuou a crescer. Ela entrou em erupção de muitas formas. Primeiro, cada e toda coisa que ele dizia na minha presença eu imediatamente o contrariava, qualquer que fosse a coisa. O que ele dizia era imaterial. Não era uma questão de certo ou errado: era ele ou eu.

            Desde o começo a maneira que ele olhava para mim decidiu como eu deveria olhar para ele – como um inimigo. Ora, Dale Carnegie pode ter escrito Como Ganhar Amigos e Influenciar as Pessoas, mas não acho que ele sabe realmente. Ele não pode saber. A menos que você conheça a arte de criar inimigos, você não pode conhecer a arte de criar amigos. Nisso sou imensamente afortunado.

            Criei tantos inimigos que certamente devo ter feito alguns poucos amigos, pelo menos. Sem criar amigos não é possível criar inimigos; esta é a lei básica. Se você quer amigos, prepare-se para os inimigos também. É por isso que muitas pessoas, a maioria, decidem não ter nem amigos nem inimigos, mas apenas conhecidos. Supostamente essas são as pessoas com um senso comum; na verdade elas realmente têm um senso incomum. Mas não tenho isso, não importa a maneira que é chamado. Criei tantos amigos quanto inimigos; na verdade, na mesma proporção. Posso contar com ambos os lados. Ambos são confiáveis.

            O primeiro, é claro, foi o seu guru. No momento que ele entrou na casa eu disse à irmã do meu pai, “Este homem é o pior que já vi.”

            Ela disse, “Cale a boca. Fique quieto. Ele é o guru do meu marido.”

            Eu disse, “Que seja, mas me diga: estou certo ou não?”

            Ela disse, “Infelizmente você está, mas fique quieto.”

            Eu disse, “Não posso ficar quieto. Temos que confrontar-nos.”

            Ela disse, “Eu sabia que uma vez que esse homem chegasse haveria problemas.”

            Eu disse, “Ele não é responsável; eu sou o problema. No dia em que vocês me aceitaram, lembre-se, eu disse ao seu marido, ‘Lembre-se, você pode aceitar-me, mas você está aceitando um problema.’ Agora ele saberá o que eu queria dizer. Há coisas que só o tempo pode revelar; um dicionário é inútil.”

            No momento em que ele se sentou, pomposamente é claro, toquei a sua cabeça. Ora, aquele era o começo, apenas o começo. Os meus parentes todos se reuniram e disseram, “O que você está fazendo? Você sabe quem ele é?”

            Eu disse, “Eu fiz isso apenas para saber quem ele é. Eu estava tentando medi-lo, mas ele é muito superficial. Ele não chega nem em seus próprios pés, foi por isso que toquei a sua cabeça.”

            Mas ele estava enfurecido, pulando, chorando e gritando, “Isso é um insulto!”

            Eu disse, “Estou simplesmente citando o seu livro.” Ele havia publicado um livro há pouco tempo no qual ele dizia, “Quando alguém o insulta, fique em silêncio, não se desequilibre.”

            Ele então falou, “O que você disse sobre o meu livro?”

            Aquilo me ajudou um pouco, então falei, “Sente-se na sua cadeira, embora você não a mereça.”

            Ele disse, “De novo! Você está disposto a insultar-me?”

            Eu disse, “Não estou disposto a insultar ninguém. Estou apenas pensando na cadeira.”

            Ele era tão gordo que a pobre cadeira estava apenas mantendo-se. A pobre cadeira estava na verdade chorando e fazendo barulhos.

            Eu disse, “Estou apenas falando da cadeira. Não me preocupo com você, mas me preocupo com a cadeira porque depois terei que utilizá-la. Na verdade é a minha cadeira. Se você não se comportar, você terá que desocupá-la.” 

            Isso foi como colocar fogo em uma bomba. Ele pulou, gritando vulgaridades e disse, “Sempre soube que no momento em que esta criança entrou nessa casa ela não seria mais a mesma.”

            Eu disse, “Pelo menos isso é verdade. Sempre que houver a verdade sempre concordarei, mesmo com um inimigo. A casa não é mais a mesma, isso é verdade. Vai em frente, diga-nos por que ela não é mais a mesma.”

            Ele disse, “Porque você é ateu.”

            Na Índia a palavra para ateu é nastika, que é uma bela palavra. Ela não pode ser traduzida como “ateu,” embora esta seja a única tradução disponível. Nastika simplesmente significa “alguém que não acredita.” Ela não diz nada sobre o objeto da crença ou descrença. Ela é tremendamente significante, pelo menos para mim. Eu gostaria de ser chamado de nastika, “alguém que não acredita,” porque apenas os cegos acreditam. Aqueles que podem ver não precisam acreditar.

            A palavra Indiana para crente é astika; como “teísta” ela lhe dá exatamente o sentido de “o crente.” Na linguagem Indiana um teísta é chamado astika – aquele que acredita, o crente.

            Nunca fui um crente e ninguém que tem qualquer inteligência pode um dia ser um crente. A crença é para os imbecis, os retardados, os idiotas, etc – e é uma comitiva grande; na verdade a maioria. 

            Ele me chamou de nastika.

            Eu disse, “Mais uma vez concordo, porque isso descreve a minha atitude em relação à vida. Talvez ela sempre descreverá a minha atitude em relação à vida, porque acreditar é limitar. Acreditar é ser arrogante; acreditar é acreditar que você sabe.”

            Ser nastika simplesmente diz, “Eu não sei.” É exatamente a palavra ‘agnóstico’, “aquele que não acredita.” Ele não pode nem dizer que não acredita; na verdade o agnóstico simplesmente permanece com um ponto de interrogação. Um ser humano com um ponto de interrogação, esse é um agnóstico.

            Carregar a cruz de alguém não é muito difícil, particularmente se ela for feita de ouro e cravejada com diamantes, e estiver pendurada ao redor do seu pescoço. É tão fácil. Era difícil para Jesus. Não era um drama; era uma cruz real. E Jesus não era um Cristão – e os Judeus estavam realmente com raiva. Ordinariamente os Judeus são pessoas gentis e quando as pessoas gentis ficam com raiva então algo sórdido necessariamente deve ocorrer, porque todas as pessoas gentis reprimem sua sordidez. Quando esta explode, é uma explosão atômica! Os Judeus são sempre gentis; esta é a sua única falha.

            Se eles tivessem sido um pouco menos gentis, Jesus não precisaria ir para a cruz. Mas eles eram tão gentis, eles tinham que crucificá-lo. Eles estavam realmente crucificando a si próprios. O seu próprio filho, o seu próprio sangue – e não um filho ordinário, o seu melhor. Os Judeus não produziram, nem antes nem depois, qualquer um que se assemelhasse, ou nem mesmo se aproximasse de Jesus. Eles deveriam ter amado o homem, mas eles eram gentis, esse era o problema. Eles não o puderam perdoar.

            Estive com muitos santos, supostos é claro, poucos realmente sagrados, mas eu não os chamaria de santos. A palavra caiu na companhia errada e tornou-se sórdida. Eu não chamaria Pagal Baba de santo, nem Magga Baba, nem Masta Baba – apenas sábios. Sagrados certamente, mas não da forma ordinária que as pessoas pensam dos santos.

            O guru do meu tio, Hari Baba, era considerado um santo. Eu disse a ele, “Você não é nem um Baba, nem um Hari. Hari é o nome de Deus; por favor mude o seu nome para alguma coisa que se aplique a você. Baba também não lhe faz referência. Olhe no dicionário e encontre algo que faz algum sentido.” O conflito começou e continuou. Contarei para vocês dele depois.

            Dessa casa mudei-me para o hotel da universidade, então para uma pequena casa quando fui trabalhar. Mas a casa era pequena, e a família tão boa que eu me sentia continuamente envergonhado, porque eu podia até ouvir o que eles estavam dizendo na cama deles. Ora, não é certo, mas no meio da noite eu tinha que dizer, “Por favor desculpe-me, posso ouvi-los.” 

            Eles ficaram, é claro, muito chocados. De manhã eles disseram, “Você terá que deixar a casa.”

            Eu disse, “Eu sei. Olhem, já empacotei tudo.” Eu havia empacotado. Na verdade eu trouxe um veículo, e as minhas coisas já estavam sendo carregadas.

            Eles disseram, “Isso é estranho, nós ainda não dissemos nada para você.”

            Eu disse, “Vocês podem não ter me falado nada, mas eu ouvi tudo que você estava falando para sua esposa na cama. A parede é tão fina. Não é sua culpa. O que você pode fazer? Mas o que posso fazer também? Tentei muito não os ouvir.”

            E vocês sabem que até mesmo hoje eu tenho que dormir com protetores auriculares. Esses protetores começaram depois daquela noite. Já faz muito tempo – deve ter sido em 1958, ou talvez no final de 1957, algum momento em torno disso. Comecei a usar protetores auriculares apenas para não ouvir o que não era para mim. Aquilo tinha me custado uma casa, mas parti imediatamente.

            Estive continuamente partindo, sempre fazendo as malas para a nova casa. De uma forma foi bom; caso contrário eu não teria mais nada para fazer, apenas fazer as malas e então desfazê-las, então novamente fazer as malas e desfazê-las. Isso me deixa mais ocupado do que qualquer outro buda anterior, e mais inofensivo. Eles também estavam ocupados, mas a ocupação deles implicava os outros.

            A minha ocupação sempre foi, em um certo sentido, pessoal. Mesmo se milhares de pessoas estão comigo ainda assim é uma relação um a um entre você e eu. Não é uma organização, e nunca poderá ser. Certamente por questões gerenciais ela deve funcionar como uma organização, mas com relação aos meus sannyasins, cada um deles está relacionado comigo, e apenas comigo, não via outra pessoa.

            Sou um homem muito desocupado. Não posso dizer desempregado, por isso utilizei a palavra ‘desocupado’, porque alegro-me com ela. Não estou me candidatando a nenhum emprego. Terminei com toda essa história de emprego; estou apenas desfrutando. Mas para desfrutar um certo milieu é necessário. É isso o que estou criando.

            Toda a minha vida estive criando-o, gradualmente, passo a passo. Falei várias vezes sobre a nova comuna. É apenas para lembrar a mim mesmo, não vocês, para que eu não esqueça a nova comuna – porque no momento em que eu a esquecer, posso não acordar na manhã seguinte. 

            Gudia esperará… vocês correrão; sim, eu vi vocês chegando, quase correndo. Vocês esperarão, mas eu não virei porque terei perdido o único fio que estava me segurando.

            E isso sempre aconteceu. De Gadarwara eu mudei-me para Jabalpur. Em Jabalpur eu mudei de casa tantas vezes que todo mundo perguntava se era meu hobby, mudar de casas.

            Eu disse, “Sim, isso o ajuda a conhecer muitas pessoas em diferentes locais, e amo ser conhecido.”

            Eles disseram, “É um hobby estranho, e muito difícil também. Apenas vinte dias se passaram e você já está mudando novamente.”

            Em Bombaim também eu me mudava de um lugar para o outro. Isso continuou até eu acabar aqui. Ninguém sabe onde será o próximo lugar.

            Começou com a minha escola, e é apenas o meu segundo dia. A vida é tão multidimensional. Quando digo multidimensional pode parecer absurdo porque apenas multidimensional a encobre. Por que chamá-la de tão multidimensional? A vida é multi-multidimensional. 

            Vocês devem estar famintos, e os fantasmas famintos são pessoas perigosas. Apenas dois minutos para mim…

            Termine agora.

 

Sessão 38

 

Ok. Quero contar-lhes uma verdade simples, talvez esquecida por sua simplicidade; e nenhuma religião pode praticá-la porque no momento em que vocês se tornam parte de uma religião vocês não são mais simples, nem religiosos. Quero contar apenas uma coisa simples que aprendi do jeito difícil. Talvez vocês a estejam conseguindo bem barato, e o simples é geralmente confundido com o barato. Ela não é barata de maneira alguma; é a coisa mais cara possível porque é preciso pagar com a própria vida por essa simples verdade. É a renúncia, confiança.

            Naturalmente vocês entenderão errado a confiança. Quantas vezes eu lhes disse? Sim, eu devo ter lhes dito um milhão de vezes, mas vocês ouviram pelo menos uma? Há poucas noites a minha secretária estava chorando, eu perguntei por quê.

            Ela disse, “A razão pelas minhas lágrimas é que você confia muito em mim, e não sou digna disso. Isso é tão insuportável.”

            Eu disse, “Confio em você. Agora se você quiser novamente, você pode chorar. Se quiser rir, pode rir.”

            Ora, isso é certamente difícil para ela. Ela me entende, mas as suas lágrimas não eram contra mim, elas eram por mim. Eu lhe disse, “O que você pode fazer? No máximo você pode dizer-me para deixar essa casa. Qualquer um dessa casa que quiser vir comigo virá; caso contrário vou sozinho. Sozinho eu vim, sozinho terei que ir. Ninguém pode me acompanhar na jornada real. Enquanto isso você pode jogar todos os tipos de jogos para passar o tempo.”

            Ela olhou para mim. As suas lágrimas secaram, mas elas ainda estavam em suas bochechas. Por um momento eu soube o que havia em sua mente.

            Eu lhe disse, “Você está pensando que agora você pode enganar-me. Ok, você não encontrará uma oportunidade melhor.”

            Ela começou a chorar de novo e caindo aos meus pés disse, “Não, não, não quero te enganar. É por isso que eu estava chorando. Não quero te enganar.”

            Eu disse, “Então por que a ideia? Se você não quer, e eu não quero que você o faça também, então por que você está gastando o nosso tempo? Se você quiser me enganar, estou disponível. Na verdade eu deveria chorar por você porque desde o início eu não fui nada além de um problema. E ainda sou um problema, não para mim mesmo – eu mesmo não existo de maneira alguma, então a questão não surge. Mas aos outros que existem, e que existem muito… quanto mais eles existem, mais problemática é a vida deles. Mas você está com um homem que não existe, e, no que diz respeito a ele, ele não tem problemas. E se ele puder confiar em você a existência é suficiente para cuidar de você.

            Mas ninguém parece estar interessado na existência – há um interesse por tudo, exceto pela existência. 

            Isso traz Masto de volta. Esse sujeito Masto pode entrar em qualquer lugar – solicitado, não solicitado, convidado, não convidado. Ele era tão interessante que, convidado ou não, todo mundo levantaria para recebê-lo. Masto surge de novo. É apenas um velho hábito que é muito difícil de curar. 

            Agora o pobre Devageet simplesmente escreve as suas notas, e ele o faz perfeitamente. De vez em quando checo perguntando, “O que eu estava falando?” e ele me lembra exatamente o que eu estava dizendo. Ele faz o seu trabalho e, porque está tão cheio de amor por mim ele não resiste em suspirar e respirar como se algo que nunca acreditou que pudesse acontecer tivesse acabado de ocorrer – e ainda assim ele não pode acreditar. E a minha dificuldade é que penso que ele está dando risinhos! Ele não está dando risinhos, apenas o som da sua respiração excitada me faz sentir que ele está dando risinhos.

            Ele me escreveu sobre isso. Eu sei disso, mas sempre que ele o faz – também sou teimoso – imediatamente a palavra que vem até mim é risinho. Então novamente ele está dando risinhos. Isso também é um velho hábito de quando fui professor. E vocês podem entender: um professor é, sobretudo, um professor, e ele não pode permitir risinhos em sua aula. Não me importo com isso agora, o desfruto.

            Na minha aula haviam mais meninas do que meninos, então haviam muitos risinhos. E vocês me conhecem: meninos ou meninas, não importa; ainda compartilho as piadas. Mas se o risinho está fora de lugar, então a pessoa necessariamente terá problemas. Logo após a piada existe um momento que o permitirei, mas não fora de lugar. Se o risinho vier fora do lugar então pegarei a pessoa no flagrante. Tal risinho não foi por causa de qualquer piada, ele ocorreu apenas por causa que os meninos e as meninas estavam juntos – a velha história de Adão e Eva. “Saiam, vocês dois!” Foi isso que Deus falou. “Saiam do Jardim do Éden!”

            Ele deve ter sido o típico professor antigo. E essa serpente deve ter sido apenas um velho servo que serviu muitos Adões e Evas, ajudando-os de todas as maneiras possíveis, talvez enviando cartas um para o outro, etc. É melhor não mencionar as outras coisas. É claro que não há nenhuma dama aqui, nem cavalheiros também. Mas apenas no caso de alguém ser um cavalheiro fingindo não ser, ou uma dama fingindo não ser, então haveria uma dor desnecessária. Não quero causar dor a ninguém.

            Lembro-me da minha primeira palestra… Vê como as coisas acontecem nessa série? Foi no colegial. Todos os colégios do distrito enviaram um palestrante. Fui escolhido para ser o representante da minha escola, não porque eu era o melhor – não posso dizer isso – mas apenas porque eu era o mais encrenqueiro. Se eu não fosse escolhido haveriam problemas, isso com certeza. Então decidiram escolher-me, mas eles não sabiam que qualquer lugar onde estou os problemas começam de alguma forma.

            Comecei o discurso sem a praxe de dirigir-se para o “Senhor Presidente, Damas e Cavalheiros…” Olhei o presidente de cima para baixo e disse para mim mesmo, “Não, ele não se parece com um presidente.” Então olhei em torno e disse para mim mesmo, “Não, ninguém aqui parece ser nem uma dama, nem um cavalheiro, então, infelizmente, tenho que começar o meu discurso sem endereçar ninguém em particular. Posso apenas dizer, ‘A quem possa interessar.’”

            Posteriormente o meu diretor chamou-me, porque eu ainda assim havia ganho o prêmio, mesmo depois daquilo.

            Ele disse, “O que aconteceu com você? Você se comportou estranhamente. Nós lhe preparamos mas você nunca disse uma única palavra que lhe foi ensinada. Não apenas você esqueceu-se completamente da palestra preparada, você nem mesmo endereçou-a ao presidente ou às damas e aos cavalheiros.”

            Eu disse, “Eu olhei em torno e não havia nenhum cavalheiro. Conheço todos esses sujeitos muito bem, e ninguém é um cavalheiro. Em relação às damas, elas são ainda piores porque são esposas desses mesmos sujeitos. E o presidente… ele parece ter sido enviado por Deus para presidir todos os encontros dessa cidade. Estou cansado dele. Não posso chamá-lo de ‘Senhor Presidente’ quando, na verdade, eu gostaria de bater nele.”

            Naquele dia, quando o presidente chamou-me para o meu prêmio, eu disse, “Ok, mas lembre-se que você terá que descer aqui e apertar-me a mão.”

            Ele disse, “O quê! Apertar a sua mão! Nunca vou nem olhar para você. Você me insultou.”

            Eu disse, “Vou mostrar-te.”

            Desde aquele dia ele tornou-se meu inimigo. Conheço a arte de como fazer inimigos. O seu nome era Shrinath Bhatt, um proeminente político da cidade. É claro que ele era o líder do mais influente partido político Gandhiano. Aqueles eram os dias em que a Índia estava sob o Raj Britânico. Talvez, no que diz respeito à liberdade, a Índia ainda não é livre. Ela pode ter se libertado do Raj Britânico, mas não se libertou da burocracia que o Raj Britânico criou.

            Realmente sempre falei sobre confiança e nunca fui capaz de explicá-la. Talvez o erro não seja meu. Confiança: talvez não seja possível falar sobre ela, apenas indicá-la. Tentei muito falar alguma coisa definitiva, mas tudo fracassou. Ou ela se torna sua experiência, então vocês não precisam saber o que ela é; ou ela não se torna sua experiência, então vocês podem saber tudo sobre o título “confiança,” mas ainda assim vocês não sabem nada.

            Novamente eu estava tentando dizer para vocês – na verdade dando-me outra tentativa, talvez; e é sempre sedutor falar sobre todas as tentativas, mesmo aquelas que falharam. Apenas saber que elas foram feitas na direção certa é motivo de orgulho. É uma questão de direção.

            Sim, a confiança é muita coisa, mas primeiramente uma questão que aponta para si própria – uma mudança de direção.

            Nascemos olhando para fora. Olhar para dentro não é parte do organismo do corpo. O corpo funciona bem; se você quiser ir para algum lugar, ele pode te levar. Mas no momento em que você pergunta “Quem sou eu?” ele se deixa cair, simplesmente se joga ao chão, sem saber o que fazer agora, porque a direção relevante não é parte do suposto mundo.

            O mundo consiste de dez dimensões, ou dez direções, pelo contrário. Dimensão é uma palavra maior e não deve ser usada para direção. Essas dez direções são: duas, para cima e para baixo; as quatro que conhecemos como leste, oeste, norte e sul; as quatro que faltam são as bissetrizes. Quando vocês desenham a linha leste-oeste e a linha norte e sul, existem as bissetrizes entre o norte e o leste, e entre o leste e o sul, e assim por diante – as quatro bissetrizes.

            Eu não deveria ter usado a palavra dimensão. Ela é totalmente diferente, tão diferente quanto o espirro do Devageet. Ele tenta suprimi-lo, e um espirro é uma das coisas mais impossíveis de suprimir. Sugiro permiti-lo. O espirro vem de qualquer forma; por que sofrer? Na próxima vez quando você ouvir a batida, abra a porta e diga, “Madame, entre.” Talvez pode não ocorrer de maneira alguma. Os espirros são coisas estranhas. Se vocês quiserem espirrar então vocês terão que fazer todos os truques da yoga. Então, também, há apenas uma probabilidade. Mas tentem suprimir um espirro e ele virá com uma tremenda força. Vocês sabem que o espirro é uma mulher; e quando uma mulher toma posse de você é melhor espirrá-la para fora e escapar, em vez de suprimir.

            Direção e dimensão são tão diferentes quanto o espirro dele e o meu entendimento que ele está dando risinhos. Ele está tentando suprimir o espirro e eu só comecei a falar sobre o inefável, e naquele exato momento ele espirra. Isso é o que Carl Gustav Jung chama de sincronicidade. Não foi um bom exemplo – não foi exemplar, eu quis dizer, mas apenas um pequeno exemplo.

            É estranho, mas particularmente na Índia, sempre que se fala dessas coisas – e não acho que as pessoas falaram dessas coisas em qualquer outro lugar por milhares de anos – espirrar em um encontro com o mestre é proibido. Por quê? Não entendo como você pode proibir um espirro. Um espirro não tem medo dos seus policiais, nem das suas armas. Como você pode proibi-lo? – a menos que você faça cirurgia plástica no nariz, o que não seria bom porque um espirro simplesmente lhe informa que algo errado entrou. Ele não deve ser impedido de forma alguma.

            Então lhe digo, Devageet, você é meu discípulo, e os meus discípulos devem ser diferentes de todos os modos, até mesmo no espirro. Eles podem espirrar exatamente quando o mestre está falando de confiança; não há mal nenhum nisso. Mas, às vezes, quando você começa a reprimi-lo, naturalmente ele afeta a sua respiração. Ele afeta tudo em você, e então penso que você está dando risinhos. Então você fica muito chocado. Na verdade você deveria ficar feliz que “Meu mestre, mesmo se entende errado de vez em quando, sempre o interpreta como um risinho.”

            O riso – pode-se dizer que o riso é a minha crença, se ela for permitida. Quero dizer se a palavra ‘crença’ for permitida, não quero dizer de um riso alto permitido. Isso seria tranquilo para mim. Mas as pessoas são tão fanáticas sobre suas crenças, elas não riem. Pelo menos na igreja elas têm aquelas faces longas que vocês não podem acreditar que elas foram até ali para entender o homem cuja única mensagem, se reduzida a uma palavra seria, “Alegre-se!” Elas não são as pessoas que se alegram.

            Elas devem ter sido as pessoas que mataram o homem, e ainda estão apontando para o seu túmulo – quem sabe, ele pode sair! Elas devem ser as pessoas que ainda o estão crucificando, e ele já está morto por dois milênios. Agora não é necessário o crucificar, embora ele tenha sido suficientemente inteligente para não ter sido crucificado. Ele conseguiu escapar na hora. É claro que ele representou o papel da crucificação para as massas, e quando as massas foram para casa ele também foi para casa. Não quero dizer que ele foi para Deus. Por favor não entenda errado; ele realmente foi para sua casa.

            A caverna que ainda é mostrada para os Cristãos, onde o corpo de Jesus foi mantido, é tudo bobagem. Sim, ele ficou ali por algumas poucas horas, talvez uma noite no máximo, mas ele ainda estava vivo. Isso é provado pela própria Bíblia. Ela diz que um soldado perfurou Jesus com uma lança depois deles pensarem que ele estava morto, mas o sangue escorreu. O sangue nunca escorre de um homem morto. No momento em que um ser humano morre o seu sangue começa a desintegrar-se. Se a Bíblia dissesse que apenas água havia saído, então eu teria acreditado que eles estavam escrevendo a verdade, mas seria muito estúpido escrever que água saiu do seu corpo. Na verdade Jesus nunca morreu em Jerusalém; ele morreu em Pahalgam, que, pelo menos no que diz respeito ao significado da palavra, significa exatamente a mesma coisa que o nome da minha vila.

            Pahalgam é um dos locais mais belo do mundo. Foi ali que Jesus morreu, e ele morreu com a idade de cento e doze anos. Mas ele ficou tão farto da sua própria gente que simplesmente espalhou a história de que havia morrido na cruz.

            Obviamente ele foi crucificado – mas vocês têm que entender que a forma Judaica de crucificação não era Americana. Não era o simples sentar em uma cadeira, e com apenas o apertar de um botão você não existe mais – sem nem mesmo tempo para dizer, “Deus, perdoe essas pessoas que estão apertando o botão, elas não sabem o que fazem.” Elas sabem o que estão fazendo! Elas estão apertando o botão! E vocês não sabem o que elas estão fazendo!

            Jesus não teria nenhum tempo se ele tivesse sido crucificado de maneira científica. Não, os Judeus seguiam uma maneira muito grosseira. Naturalmente, às vezes, levava vinte quatro horas ou mais para a morte. Houve casos que as pessoas sobreviviam três dias na cruz – na cruz Judia, quero dizer – porque eles simplesmente pregavam as pessoas pelas suas mãos e pés.

            O sangue tem a capacidade de coagular; ele flui um pouco, então coagula. A pessoa fica, é claro, com uma dor imensa. Na verdade ela reza a Deus, “Por favor, que isso termine.” Talvez era isso o que Jesus estava falando quando disse, “Eles não sabem o que fazem. Por que me abandonaste?” Mas a dor deve ter sido demais, pois ele finalmente disse, “Seja feita a sua vontade.”

            Não acho que ele morreu na cruz. Não, eu não devo falar isso “Não acho…”, eu sei que ele não morreu na cruz. Ele disse, “Seja feita a sua vontade”; isso é liberdade. Ele poderia dizer qualquer coisa que quisesse. Na verdade o governador Romano Pôncio Pilatos apaixonou-se pelo homem. Quem não se apaixonaria? – é irresistível se você tiver olhos.

            Mas os próprios simpatizantes de Jesus estavam ocupados contando dinheiro; eles não tiveram tempo de olhar nos olhos desse homem que não tinha dinheiro algum. Pôncio Pilatos por um momento até pensou em libertar Jesus. Estava em suas mãos a ordem para a soltura de Jesus, mas ele estava com medo das massas. Pilatos disse, “É melhor eu me manter longe disso. Ele é Judeu, eles são Judeus – deixei-os decidir entre eles mesmos. Mas se não conseguirem decidir a favor dele, então encontrarei uma forma.”

            E ele encontrou uma forma, os políticos sempre encontram. Os caminhos deles são sempre tortuosos; eles nunca vão diretamente. Se quiserem ir até A, eles primeiramente vão até B; é assim que a política funciona. E ela realmente funciona. Apenas de vez em quando ela não funciona. Quero dizer, apenas quando existe um homem não-político, então ela não funciona. Também no caso de Jesus, Pôncio Pilatos gerenciou perfeitamente bem sem envolver-se. 

            Jesus foi crucificado na tarde de sexta; por isso “Boa Sexta.” Mundo estranho! Um homem tão bom é crucificado e vocês a chamam de “Boa Sexta.” Mas existe uma razão, porque os Judeus têm… acho, Devageet, você pode ajudar-me de novo – não com um espirro, é claro! Sábado é o dia religioso deles?

            “Sim, Osho.”

            Certo… porque no sábado nada é feito. Sábado é um dia sagrado para os Judeus; toda a ação tem que ser parada. Foi por isso que a sexta foi escolhida… e no final da tarde, para que no momento em que o sol se pusesse o corpo pudesse ser retirado da cruz, porque mantê-lo na cruz no sábado seria uma “ação.” É assim que a política funciona, não a religião. Durante aquela noite, um discípulo rico de Jesus removeu o corpo da caverna. Obviamente chegou o domingo, um dia sagrado para todos. Quando a segunda-feira chegou, Jesus já estava muito longe.

            Israel é um país pequeno; vocês podem cruzá-lo a pé em vinte e quatro horas muito facilmente. Jesus escapou, e não havia lugar melhor para ele do que os Himalaias. Pahalgam é apenas uma pequena vila, apenas algumas casas de campo. Ele deve tê-la escolhido por sua beleza. Jesus escolheu um lugar que eu próprio teria amado.

            Tentei continuamente por vinte anos entrar na Caxemira. Mas a Caxemira tem uma lei estranha: apenas as pessoas da Caxemira podem viver ali, nem mesmo os outros Indianos. Isso é estranho. Mas sei que noventa por cento da Caxemira é Islâmica, e eles têm medo que uma vez que os Indianos possam viver ali, então os Hindus brevemente tornar-se-iam a maioria, porque ela é parte da Índia. Então agora é um jogo de votos apenas para impedir os Hindus.

            Não sou um Hindu, mas os burocratas em todos os lugares são delinquentes. Eles realmente precisam estar em hospícios. Eles não permitiram que eu vivesse ali. Eu até me encontrei com o ministro-chefe da Caxemira, que era conhecido antes como primeiro-ministro da Caxemira.

            Foi realmente uma grande luta para rebaixá-lo de primeiro-ministro para ministro-chefe. E, naturalmente, em um país como poderia existir dois primeiros-ministros? Mas ele era um homem muito relutante, esse Sheikh Abdullah. Ele teve que ser preso por anos. Nesse ínterim toda a constituição da Caxemira mudou, mas aquela cláusula estranha permaneceu. Talvez todos os membros do comitê eram Islâmicos e nenhum deles queria que ninguém entrasse na Caxemira. Tentei muito, mas não havia como. Ninguém pode entrar no crânio espesso dos políticos.

            Eu disse ao sheikh, “Você está louco? Não sou Hindu; você não precisar ter medo de mim. E a minha gente vem de todo o mundo – eles não influenciarão a sua política de nenhuma maneira, a favor ou contra.”

            Ele disse, “É preciso ser prudente.”

            Eu disse, “Ok, seja prudente e me perca e à minha gente.”

            A pobre Caxemira poderia ter ganho muito, mas os políticos nascem surdos. Ele ouviu, ou pelo menos fingiu, mas não escutou. 

            Eu lhe disse, “Você sabe que o conheço há muitos anos, e eu amo a Caxemira.”

            Ele disse, “Eu o conheço, é por isso que tenho ainda mais medo. Você não é um político; você pertence a uma categoria totalmente diferente. Sempre desconfiamos de pessoas como você.” Ele usou essa palavra, desconfiar – e eu estava falando sobre confiança com vocês.

            Nesse momento não posso esquecer Masto. Foi ele que apresentou-me ao Sheikh Abdullah, há muito tempo atrás. Posteriormente, quando eu quis entrar na Caxemira, particularmente em Pahalgam, lembrei o sheikh dessa apresentação.

            O sheikh disse, “Lembro-me que aquele homem também era perigoso, e você é ainda mais. Na verdade é porque você me foi apresentado por Masta Baba que não posso permitir que você se torne um residente permanente desse vale.”

            Masto apresentou-me a muitas pessoas. Ele pensou que talvez eu precisaria delas; e certamente precisei delas – não para mim mesmo, mas para o meu trabalho. Mas com exceção de pouquíssimas pessoas, a maioria revelou-se muito covarde. Todas disseram, “Nós sabemos que você é iluminado…”

            Eu disse, “Pare exatamente aí. Essa palavra na sua boca torna-se imediatamente não-iluminada. Ou você faz o que eu digo, ou simplesmente diga não, mas não fale nenhum disparate para mim.”

            Elas foram muito educadas. Elas lembravam-se de Masta Baba, e algumas delas lembravam-se até de Pagal Baba, mas não estavam prontas para fazer qualquer coisa por mim. Estou falando da maioria. Sim, algumas foram úteis, talvez um por cento das centenas de pessoas que Masto me apresentou. Pobre Masto – o seu desejo era que eu nunca tivesse em qualquer dificuldade ou falta, e que eu pudesse sempre depender das pessoas que ele havia me apresentado.

            Eu lhe disse, “Masto, você está dando o seu melhor, e eu estou me saindo ainda melhor mantendo-me quieto quando você me apresenta para esses tolos. Se você não estivesse aqui eu teria causado um problema real. Aquele homem, por exemplo, nunca teria me esquecido. Controlo-me apenas por sua causa – embora eu não acredite em controle, mas o faço apenas por você.”

            Masto riu e disse, “Eu sei. Quando olho para você quando estou apresentando-o para um manda-chuva, rio por dentro pensando, ‘Meu Deus, quanto esforço você deve estar fazendo apenas para não bater nesse idiota.’”

            Sheikh Abdullah esforçou-se muito, e, entretanto, disse-me, “Eu teria permitido que você morasse na Caxemira, se você não me tivesse sido apresentado por Masta Baba.”

            Perguntei ao sheikh, “Por quê?… você parecia ser um admirador.”

            Ele disse, “Não admiramos ninguém, admiramos apenas nós mesmos. Mas porque ele tinha seguidores – particularmente entre as pessoas ricas da Caxemira – eu tive que admirá-lo. Eu costumava recebê-lo no aeroporto, e despedir-me dele, colocava todo o meu trabalho de lado e corria imediatamente atrás dele. Mas aquele homem era perigoso. E se ele me apresentou a você, então você não pode viver na Caxemira, pelo menos enquanto eu estiver no poder. Sim, você pode vir e ir, mas apenas como visitante.”

            Foi bom que Jesus entrou na Caxemira antes do Sheikh Abdullah. Ele fez bem em chegar dois mil anos antes. Ele realmente devia estar com medo do Sheikh Abdullah. O túmulo de Jesus ainda está lá, preservado pelos descendentes daqueles que o seguiram desde Israel. Claro que homens como eu não podem seguir sozinhos, vocês podem entender. Poucas pessoas devem tê-lo seguido até ali. Mesmo que ele fosse muito longe de Israel, elas devem ter ido com ele.

            Na verdade os Caxemires são a tribo perdida dos Hebreus, a qual os Judeus e os Cristãos tanto falam. Os Caxemires não são Hindus, nem têm origem Indiana. Eles são Judeus. Vocês podem ver ao olhar o nariz de Indira Gandhi; ela é da Caxemira.

            Ela está impondo o estado de emergência na Índia – não no nome, mas de fato. Centenas de líderes políticos estão atrás das grades. Eu tenho falado para ela desde o início que essas pessoas não deveriam estar nos parlamentos, ou assembleias, ou na legislatura.

            Existem idiotas de muitos tipos, mas os políticos são os piores, porque eles também têm poder. Os jornalistas são os segundos. Na verdade eles são até piores que os políticos, mas porque não têm poder nenhum eles só podem escrever – e quem liga para o que eles escrevem! Sem poder em suas mãos você pode ter a maior idiotia possível, ela não poderá fazer nada.

            Fui apresentado a Indira por Masto também, mas de uma forma indireta. Basicamente Masto era amigo do pai de Indira, Jawaharlal Nehru, o primeiro primeiro-ministro da Índia. Ele era um homem realmente belo, e raro também, porque estar na política e permanecer belo não é fácil.

            Quando Helen Keller o encontrou, porque ela era cega, surda e muda, ela teve que tocar a sua face. Ela deu a mensagem para alguém que podia interpretar a sua linguagem de sinais: “Tocando a face desse homem senti como se estivesse tocando uma estátua de mármore.”

            Muitas outras pessoas escreveram sobre Jawaharlal, mas não acho que qualquer coisa a mais deve ser dita. Essa mulher sem olhos, nem ouvidos e sem língua para falar, ainda assim conseguiu dar a declaração mais pungente, e de uma maneira muito simples.

            Esse era o meu sentimento também, quando fui apresentado por Masto. Eu tinha apenas vinte anos. Depois de apenas mais um ano Masto me deixaria, então ele estava com pressa para apresentar-me para todo mundo que conhecia. Ele apressou-me para irmos à casa do primeiro-ministro. Foi um belo encontro. Eu não esperava que ele fosse belo porque fiquei desapontado muitas vezes. Como eu poderia esperar que o primeiro-ministro não seria apenas um vil político? Ele não era.

            Foi apenas ao acaso que, no corredor conforme saíamos e ele estava vindo conosco para dizer adeus, Indira entrou. Naquele momento ela não era ninguém, apenas uma jovem garota. Ela me foi apresentada pelo seu pai. Masto estava presente, é claro, e foi através dele que nos conhecemos. Mas Indira pode não ter conhecido Masto, ou, quem sabe? – talvez sim. O encontro com Jawaharlal acabou sendo tão significante que ele alterou toda a minha atitude, não apenas em relação a ele, mas em relação à sua família também. 

            Ele falou comigo sobre liberdade, sobre a verdade. Eu não podia acreditar. Eu disse, “Você reconhece o fato que tenho apenas vinte anos de idade, que sou apenas um jovem?”

            Ele disse, “Não se preocupe com a sua idade, porque a minha experiência é que um asno, mesmo se muito velho, ainda permanece um asno. Um asno velho não se torna necessariamente um cavalo – nem mesmo uma mula, o que dizer de um cavalo. Então não se preocupe com a sua idade.” Ele continuou, “Podemos esquecer por um momento completamente quantos anos você tem e quantos anos eu tenho e discutiremos sem barreiras de idade, casta, credo ou posição.” Ele então falou a Masto, “Baba, você pode por favor fechar a porta para que ninguém entre. Não quero nem a minha própria secretária privada.”

            E nós falamos de coisas tão grandes! Fui eu quem ficou surpreso, porque ele me ouviu tão atento quanto vocês. E ele tinha uma face tão bela que apenas os Caxemires podem ter. Os Indianos são certamente um pouco escuros, e quanto mais vocês se movem para baixo rumo ao sul mais escuros eles se tornam, até que, finalmente, você chega em um ponto em que vocês veem, pela primeira vez em suas vidas, o que negro realmente quer dizer.

            Mas os Caxemiris são realmente belos. Jawaharlal certamente era belo, por duas razões. O meu próprio sentimento é que um ser humano branco parece meio superficial, porque a brancura não tem profundidade. É por isso que todas as garotas Californianas estão tentando ter as suas peles um pouco bronzeadas. Elas entendem que quando a pele está bronzeada ela começa a ter uma certa profundidade que a pele branca não pode ter. Mas o negro é muito bronzeado, queimado. Não há questão de profundidade, é a morte. Mas os Caxemiris estão exatamente no meio: eles são pessoas brancas, pessoas muito belas, bronzeadas desde seu nascimento e Judias.

            Eu vi o túmulo de Jesus na Caxemira, para onde ele escapou depois de sua suposta crucificação. Digo suposta porque ela foi arranjada muito bem. Todo o crédito vai para Pôncio Pilatos. E quando Jesus conseguiu escapar da caverna naturalmente toda a questão era, “Onde ir?” O único lugar fora de Israel onde ele podia ficar tranquilo era na Caxemira, porque esta era um pequeno Israel. E Jesus não é o único que está enterrado na Caxemira, Moisés também está enterrado lá. 

            Isso vai chocá-los ainda mais. Vi o seu túmulo também. Sou um coveiro. Moisés foi importunado, naturalmente, pelos outros Judeus que perguntavam, “Onde está a tribo perdida?”

            Uma tribo se perdeu depois da longa jornada de quarenta anos no deserto. Moisés geriu mal isso também: se ele tivesse ido para a esquerda em vez da direita, os Judeus seriam os reis do óleo agora. 

            Mas os Judeus são Judeus; vocês não podem predizer o que eles farão. Moisés viajou por quarenta anos, do Egito até Israel.

            Não sou nem Judeu, nem Cristão, e isso não é da minha conta. Mas ainda assim, apenas por curiosidade, pergunto-me por que ele escolheu Israel. Por que Moisés procurou por Israel? Na verdade ele deveria estar buscando um local belo, mas a velhice veio, e depois de uma jornada entediante, quarenta anos no deserto…

            Eu não conseguiria. Quarenta anos! Eu não poderia o fazer nem por quarenta horas. Eu não conseguiria. Em vez disso eu cometeria hara-kiri. Vocês conhecem hara-kiri? É a forma Japonesa de desaparecer; na linguagem ordinária, suicídio.

            Moisés viajou por quarenta anos e finalmente chegou em Israel e naquele local empoeirado e feio, Jerusalém. E, depois de tudo isso – Judeus são Judeus – eles o incomodaram para que ele viajasse de novo em busca da tribo perdida. Meu próprio sentimento é que ele foi apenas para livrar-se desses sujeitos. Mas onde procurar? O lugar mais belo nas cercanias era os Himalaias, e ele chegou no mesmo vale.

            É bom que Moisés e Jesus ambos morreram na Índia. A Índia não é Cristã, e certamente não é Judia. Mas o homem – ou as famílias para ser exato – que cuidam desses dois túmulos são Judias, e ambos os túmulos são feitos da maneira Judia. Os Hindus não fazem túmulos, como vocês sabem. Os Islâmicos fazem, mas de uma maneira diferente. Um túmulo Islâmico tem que apontar para Mecca. Esses são os únicos dois túmulos na Caxemira que não são feitos de acordo com as regras Islâmicas.

            Mas os nomes não são exatamente o que você poderia esperar. Em Árabe, Moisés é chamado de Mosha, e o nome em seu túmulo é Mosha. Jesus em Árabe é o mesmo que em Aramaico, Yeshu, do Hebreu Joshua; e é escrito da mesma maneira. Isso pode enganar vocês. Vocês podem pensar que Yeshu não é Jesus e que Mosha não é Moisés. Moisés é apenas uma interpretação Inglesa errônea do original, assim como Jesus também. 

            Joshua com certeza, vagarosamente, torna-se Yeshu. Joshua é demais; Yeshu funciona, e isso é exatamente como chamamos Jesus na Índia: Isu – pronunciado Eesu. Adicionamos algo à beleza do nome. “Jesus” é bom, mas vocês sabem o que foi gerado a partir dele. Quando alguém quer amaldiçoar uma pessoa ela diz “Jesus!” O som certamente tem algo de má sorte em si. Tentem amaldiçoar alguém dizendo “Joshua!” e vocês encontrarão dificuldade. A própria palavra impede. Ela é tão feminina, tão bela, e tão redonda que vocês não podem acertar ninguém com ela.

            Que horas são?

            “Onze e vinte, Osho.”

            Isso é bom, terminemos.

Publicado por rafaelsc

"Ensinar não é encher um balde, é acender um fogo" Yeats "Creio porque é absurdo" Tertuliano "Seja uma luz para si próprio" Buda “Sentando-se quieto, sem fazer nada, a primavera vem e a grama cresce, por si só." Matsuo Bashō "O silêncio e a risada são a chave – silêncio dentro, risada fora" Osho

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