Sessão 32

 

Sempre espantei-me pois algo havia dado certo comigo desde o início. É claro que tal frase não existe em nenhuma língua. Existe uma frase como “algo deu errado,” mas não “algo deu certo,” mas o que posso fazer? Realmente deu certo desde a minha primeira respiração – até agora pelo menos, e espero que isso não mude. Isso já deve ter se acostumado à rotina.

            Fui amado por tantas pessoas sem nenhuma razão. As pessoas são respeitadas pelos seus talentos; fui amado apenas por ser eu mesmo. Não somente agora – por isso digo que desde o começo algo deve ter dado certo no próprio esquema das coisas. Caso contrário, como algo pode dar certo?

            Desde o início – e todos os momentos que vivi – continuou dando cada vez mais certo, mais correto. Só resta o espanto…

            Talvez eu possa dar um novo significado à palavra ‘deus’: quando algo dá certo sem nenhuma razão – você não o realizou, você nem o merece, e ele segue dando certo; quando tudo dá certo apesar de você.

            É claro que não sou uma pessoa certa, embora as coisas sigam dando certo para mim. Até hoje não posso acreditar que milhares de pessoas me amam ao redor do mundo sem nenhuma razão. Não realizei nada para reivindicar qualquer respeito, nem fora, nem dentro.  Sou uma não-entidade, apenas um zero.

            No dia em que deixei o serviço na universidade, a primeira coisa que fiz foi queimar todos os meus certificados e diplomas, e toda a bobagem que carreguei durante todo aquele tempo, habilmente empilhada. Desfrutei tanto queimá-los que toda a minha família reuniu-se em torno, pensando que finalmente eu havia ficado completamente louco. Eles sempre pensaram que eu era parcialmente louco. Vendo suas faces, comecei a rir ainda mais alto.

            Eles disseram, “Aconteceu.”

            Eu disse, “Sim, finalmente aconteceu.”

            Eles disseram, “O que você quer dizer com, ‘Aconteceu’?”

            Eu disse, “Toda a minha vida tentei queimar esses certificados, mas não pude porque eles sempre eram necessários. Agora não há necessidade: posso ser novamente tão sem instrução como quando nasci.”

            Eles disseram, “Você é um tolo, totalmente louco. Você queimou os certificados mais preciosos. Você jogou a medalha de ouro no poço; agora você queimou até o último vestígio que certa vez você foi o primeiro em toda a universidade.”

            Eu disse, “Agora ninguém pode falar dessa bobagem comigo.”

            Mesmo hoje não tenho nenhum talento. Não sou um músico como Hariprasad; não sou um homem como muitos ganhadores de Prêmio Nobel. Sou apenas um ninguém, entretanto, milhares de pessoas deram-me o seu amor sem nenhum desejo de retorno.

            Outro dia Gudia disse-me que quando eu estava nessa cadeira, Asheesh estava consertando a minha outra cadeira. Ela nunca o tinha visto chorando antes. Ele era só lágrimas, e ela perguntou, “O que está acontecendo?”

            Ele disse, “Nada está acontecendo. É que por cinco dias Osho não disse a ninguém que esta cadeira estava cheirando, e sou responsável porque a construí. Eu deveria ter checado. Eu deveria ter cheirado cada parte dela. Agora quem irá perdoar-me?”

            Asheesh não é um carpinteiro ordinário. Ele tem PhD em engenharia; ele é o mais qualificado que alguém pode ser. E não há nada de errado com a cadeira; se algo está errado, está errado comigo. Quando ouvi as suas lágrimas, lembrei-me quantas pessoas me amaram e choraram por mim, por nenhuma razão… e eu nem sou um homem tão bom.

            Se vocês dividirem os bons dos maus, certamente vou ficar com os maus. Serei o último a ficar com Mahatma Gandhi, Mao Tse-tung, Karl Marx, Madre Teresa, Martin Luther King, e a lista é infinita. Em relação aos maus, estou sozinho.

            Pelo menos não posso contar ninguém como mau: Adolf Hitler, Mussolini, Joseph Stalin. Certamente eles fizeram o que pensavam ser bom. Talvez não era, mas isso não é culpa deles. Eles eram retardados, mas não maus. Não posso contar ninguém como mau.

            Se eu tivesse que contar alguém, então me lembraria apenas das pessoas como Sócrates, Jesus, Mansoor, Sarmad – pessoas que foram crucificadas, punidas. Mas não, não posso contá-las também. Elas eram diferentes cada qual à sua maneira.

            As pessoas tentaram punir-me, mas nunca conseguiram. Pelo contrário, desde o Mestre Kantar até Morarji Desai elas foram todas para o ralo, lugar que realmente pertenciam desde o começo.

            Mas é estranho, posso simplesmente dizer que desde o começo andei realmente em um caminho de rosas. Eles dizem, “Não acredite nisso”… mas o que posso fazer? Eu caminhei, eu conheci. Eu vi e experienciei a bem-aventurança em todos os momentos da minha vida.

            O primeiro homem a chamar-me “o Abençoado” foi a última pessoa que mencionei ontem. É por isso que quero continuar falando dele está noite. Masta Baba… vou chamá-lo apenas de Masto, porque essa é a forma que ele gostaria que eu o chamasse. Sempre o chamei de Masto, embora relutantemente, e disse-lhe para lembrar-se disso. Ademais, Pagal Baba havia me dito, “Se ele quiser ser chamado de Masto por você, assim como eu o chamo, então não crie miséria para ele de qualquer forma. A partir do momento que eu morrer você tomará o meu lugar para ele.”

            E naquele dia Pagal Baba morreu, e tive que chamá-lo de Masto. Eu não tinha mais que doze anos de idade, e Masto tinha pelo menos trinta e cinco, ou talvez mais. É difícil para um garoto de doze anos de idade julgar exatamente, e trinta e cinco é a idade mais enganadora; a pessoa pode ter trinta ou quarenta, tudo depende da sua genética.

            Ora, isso é um caso complicado. Vi homens que têm todo o seu cabelo preto mesmo na idade de sessenta anos. Não é algo para se vangloriar; toda mulher o tem. Aqueles homens eram para ser mulheres, isso é tudo. Por um engano algo deu errado. É apenas uma questão de química.

            As mulheres não têm cabelos brancos tão cedo quanto os homens, elas têm uma química diferente – bioquímica para ser exato. E as mulheres raramente ficam calvas. Seria realmente belo encontrar uma mulher calva. Eu cruzei apenas com uma mulher em toda a minha vida que poderia ter ficado calva, e ela estava apenas no caminho. Talvez agora ela esteja calva, porque faz dez anos desde que a vi.

            Por que as mulheres ficam calvas? Nada especial – é apenas porque o corpo tem que colocar para fora as células mortas na forma de cabelo. A mulher não pode ter barba ou bigode; ela tem uma área limitada onde o cabelo pode crescer. É claro que nenhum homem pode deixar um cabelo tão grande quanto uma mulher porque a sua capacidade está dividida. Além disso, uma mulher é naturalmente feita para durar dez anos a mais do que um homem, em média.

            Mais uma coisa: no momento em que um homem atinge trinta e cinco anos ele alcançou o seu clímax sexual. De fato, estou dizendo isso apenas para não machucar os pobres homens. De fato, eles atingiram o clímax sexual na idade de dezoito anos; depois disso começam a declinar. Trinta e cinco pode ser chamado o início do fim. É aqui que um homem realiza que está acabado. Este é o momento em que um homem se torna espiritual, entre trinta e cinco e quarenta. Nessa idade todos os tipos de bobagens o impressionam. A razão real é que ele está perdendo a sua potência. Porque ele está perdendo potência, ele se torna preocupado com a onipotência de Deus.

            Que palavras eles encontraram, onipotência! Deve ter sido o homem mais impotente do mundo que cunhou pela primeira vez a palavra onipotência. Eles começam a tornarem-se membros da Sociedade Teosófica, Testemunhas de Jeová, e tudo o mais. Você pode dar qualquer nome que encontrará um seguidor, mas ele terá sempre entre trinta e cinco e quarenta, porque esse é o momento em que ele quer algum suporte, para dá-lo algum sentido de existência.

            Esse é o momento em que as pessoas começam a fazer todos os tipos de coisas como tocar guitarra, cítara, flauta, e, se são ricas, golfe. Se não são ricas, apenas sujeitos pobres, então começam a beber cerveja e jogar cartas. Milhares de pessoas ao redor do mundo estão jogando cartas a todo momento.

            Que tipo de mundo estamos vivendo? E elas acreditam em suas cartas – o rei, a rainha, e o coringa também. De fato, elas são as únicas rainhas e reis no mundo – exceto, é claro, a rainha da Inglaterra, que não é nem uma rainha real nem uma carta de um baralho; ela é pior.

            O que eu estava falando?

            “Você estava falando sobre Masto… sobre sempre chamá-lo de Masto.”

            Masto, bom.

            Ele era um rei – não um rei de um baralho, nem mesmo um rei da Inglaterra, mas um rei real. Vocês poderiam ver. Nada mais era preciso para prová-lo. É estranho que ele foi a primeira pessoa a chamar-me “o Abençoado,” Bhagwan.

            Quando ele o disse, perguntei-lhe, “Masto, você também ficou tão louco quanto Pagal Baba, ou ainda mais?”

            Ele disse, “A partir desse momento, lembre-se, não vou lhe chamar de outra coisa. Por favor,” ele disse, “deixe-me ser o primeiro, porque milhares vão chamá-lo de ‘o Abençoado.’ O pobre Masto deve ter a permissão de ser o primeiro. Deixe-me ter pelo menos esse prestígio.”

            Nós nos abraçamos e choramos juntos. Aquele foi o nosso último encontro; apenas um dia antes de eu ter tido a experiência. Foi em 22 de Março de 1953, que nos abraçamos sem saber que esse seria o nosso último encontro. Talvez ele sabia, mas eu não estava consciente disso. Ele me disse isso com lágrimas em seus belos olhos.

            Outro dia perguntei a Chetana, “Chetana, como minha face está parecendo?”

            Ela disse “O quê?”

            Eu disse, “Estou perguntando porque não comi nada exceto fruta por meses, exceto a poção de Devaraj por alguns dias. Eu não sei do que ela consiste; tudo que sei é que ela necessita de uma imensa força de vontade para comê-la. Você tem que mastigá-la por meia hora, mas é muito boa. Quando termino estou tão cansado, totalmente cansado, quase dormindo. É por isso que estou perguntando.”

            Ela disse, “Osho, você está me perguntando, posso dizer a verdade?”

            Eu disse, “Apenas a verdade.”

            Ela disse, “Quando olho para você não posso ver nada exceto seus olhos, então por favor não me pergunte. Não sei como você parecia antes, ou como você parece agora. Tudo o que sei são seus olhos.”

            Infelizmente não posso mostrar Masto para vocês. Todo o seu corpo era belo. Não era possível acreditar que ele não tinha vindo do mundo dos deuses. Na Índia existem muitas histórias belas, uma delas, do Rigveda, é a de Pururva e Uruvashi.

            Uruvashi é uma deusa que ficou enfastiada com todos os prazeres do paraíso. Amo a história porque ela é tão verdadeira. Se vocês tiverem todos os prazeres, por quanto tempo vocês poderão suportá-los? Necessariamente o tédio virá. A história deve ter sido escrita por alguém que sabia.

            Uruvashi ficou entediada com todos os prazeres, e os deuses e seus casos de amor. Finalmente, quando ela está nos braços do Deus principal, Indra, ela usa o momento, como toda mulher usa o momento, para pedir um colar, um relógio, um anel de diamante, ou qualquer coisa que vocês possam imaginar.

            Ashu, o que você está imaginando? Você sabe? Sim, você ri porque sei. Apenas diga-me, caso contrário vou dizê-lo. Devo dizê-lo? Não, não é distinto. E você está rindo tão alegremente – eu não gostaria de o destruir.

            Uruvashi pede a Indra, “Por favor, se você está tão feliz comigo, você me daria apenas um pequeno presente? Não muito, um presente muito pequeno.”

            Indra disse, “Qualquer coisa, peça-o, e lhe será satisfeito.”

            Ela disse, “Quero ir para a Terra e amar um homem ordinário.”

            Indra estava completamente embriagado. Vocês têm que entender que os deuses Indianos não são como o Deus Cristão – nem mesmo com os sacerdotes Cristãos, o que dizer do Deus Cristão. A Cristandade é uma religião ditatorial. A religião Hindu é mais democrática, e mais humana também.

            Indra está totalmente embriagado, e diz, “Ok, mas esta será a condição: no momento em que você disser a um homem que você é uma deusa, você terá que retornar ao paraíso imediatamente.”

            Uruvashi desceu à Terra e apaixonou-se por Pururva, que era arqueiro e um poeta também, e ela era tão bela que naturalmente Pururva quis casar-se com ela.

            Ela disse, “Por favor não fale de casamento. Nunca o mencione. A menos que você prometa nunca mais o mencionar não serei capaz de viver contigo.”

            E Pururva, como um poeta, obviamente entendeu a beleza de uma mulher como Uruvashi. Ele nunca conheceu nada comparável a ela, naturalmente; ela é uma deusa na Terra. Sob a influência dessa beleza intoxicante ele prometeu. Então Uruvashi disse, “Mais uma coisa. Você nunca pode me perguntar quem eu sou; caso contrário podemos esquecer isso tudo agora. É melhor nem começar.”

            Pururva disse, “Eu te amo. Não quero saber quem você é – não sou um investigador.”

            Feitas essas duas promessas, Uruvashi deitou-se com Pururva. Depois de alguns dias… Os Vedas são realmente humanos nisso; nenhuma outra escritura é tão humana. Todas as outras escrituras são muito bombásticas. Em outras palavras, apenas bobagem. Mas o Rigveda é simplesmente humano, com todas as limitações humanas, fragilidades, fraquezas e imperfeições. Assim como todas as luas de mel terminam, talvez um pouco mais rápido no Ocidente do que na Índia… essa durou seis meses.

            Na América uma semana é suficiente para o início e o fim da lua de mel – e quando a lua de mel termina, então o casamento começa. Jesus! E vocês dizem que depois da morte há o inferno para aqueles que pecaram… é depois da lua de mel! De fato é no casamento! Na Índia a lua de mel leva seis meses – um método de terminar as coisas com um carro de boi.

            Uma noite Uruvashi foi acordada por Pururva que estava olhando para ela. Isso não é algo muito conjugal, olhar para a própria esposa! O que ele estava fazendo olhando para ela enquanto ela dormia? Se fosse a esposa de outrem, tudo estaria bem, mas a sua própria esposa? Mas Uruvashi deveria ter, estava fadada a ter, uma beleza divina, algo do além. Pururva não pôde se conter.

            Ele a perguntou, “Por favor, diga-me quem é você.”

            Uruvashi disse, “Pururva, você quebrou a sua promessa. Vou dizer-te a verdade, mas agora não estarei mais contigo.” No momento em que ela contou que era uma deusa, entediada com o paraíso, que veio para a Terra para ter um pouco de experiência das pessoas reais porque os deuses eram tão falsos – naquele momento ela evaporou assim como um belo sonho. Pururva olhou várias vezes para a cama vazia; não havia ninguém ali.

            Essa é uma das belas histórias que sempre amei.

 

            Masto deve ter sido um deus nascido nesse mundo. Essa é a única forma de dizer quão belo ele era. E não era apenas a beleza do corpo, que certamente era belo. Não sou contra o corpo, sou totalmente a favor dele. Eu costumava tocar a sua face e ele dizia, “Por que você toca a minha face com os olhos fechados?”

            Eu disse, “Você é tão belo e não quero ver qualquer outra coisa que pode, talvez, perturbar-me, então mantenho os olhos fechados… então posso sonhar com você, tão belo quanto você é.”

            Vocês notaram as minhas palavras? – “então posso sonhar com você, tão belo quanto você é. Quero que você seja meu sonho.” Mas não era apenas o seu corpo que era belo, nem o seu cabelo – nunca vi um cabelo tão belo, particularmente na cabeça de um homem. Eu costumava tocar e brincar com o seu cabelo, e ele ria.

            Uma vez ele disse, “Isso é alguma coisa, Baba era louco, e agora ele deu-me um mestre que é ainda mais louco. Ele me disse que você o substituiria, então não posso lhe impedir de fazer algo. Mesmo se você cortar a minha cabeça, estarei pronto e disposto para isso.”

            Eu disse, “Não tenha medo, não vou cortar nem o seu cabelo. No que diz respeito à sua cabeça, Baba já fez o trabalho. Só ficou o cabelo.” Então nós dois rimos. Isso aconteceu muitas vezes, de muitas formas.

            Mas ele era belo, fisicamente e psicologicamente também. Sempre que eu precisava, sem pedir, para não me ofender, ele deixava dinheiro nos meus bolsos durante a noite. Vocês sabem que não tenho bolsos. Vocês conhecem a história de como perdi os meus bolsos? Foi com Masto. Ele costumava por dinheiro, ouro, qualquer coisa que podia, nos meus bolsos. Finalmente abandonei a própria ideia de ter bolsos; eles tentam às pessoas. Ou elas abrem os seus bolsos e tornam-se gatunas, ou, muito raramente, com um homem como eu, elas se tornam uma pessoa como Masto.

            Ele esperava até eu ir dormir. De vez em quando eu fingia, como se estivesse dormindo. Eu tinha até que roncar para convencê-lo – então eu o pegava em flagrante, a sua mão em meu bolso. Eu disse, “Masto! Essa é a maneira de um sábio?” E nós dois ríamos.

            Finalmente abandonei a ideia de ter bolsos. Sou a única pessoa no mundo que não precisa de bolsos de maneira alguma. De uma forma é bom, porque ninguém pode roubá-los. Também é bom porque não tenho que carregar qualquer peso. Uma outra pessoa sempre pode fazê-lo. Não preciso o fazer. Não precisei de bolsos por anos; outra pessoa sempre cuidou para mim.

            Na manhã de hoje Gudia estava dando-me o chá e permiti que o pires escorregasse da minha mão. Não posso dizer que o derrubei; isso seria demais, porque o pires era realmente caro. Ele era incrustrado com ouro. E ela não me perdoaria se eu dissesse que o derrubei, que permiti que ele escorregasse da minha mão. Então naturalmente ele caiu. Não era possível para ele voar; ele tinha que cair.

            Naquele momento entendi muitas coisas que sempre entendi, mas naquele momento todas elas culminaram em mim. A queda… o ser humano não pode voar – nem Adão nem Eva… naturalmente eles tinham que cair. Não foi a astúcia da serpente; a queda do ser humano foi apenas natural. Foi natural, muito natural para Adão e Eva caírem, porque não havia como eles voarem – nenhuma Lufthansa, Pan Am, nem mesmo Air Índia. E o pobre Adão era realmente pobre. Mas de uma certa forma foi bom que ele caiu; caso contrário ele estaria na mesma situação que Uruvashi.

            Ele teria desfrutado de todas as frutas do paraíso, sem nenhuma alegria é claro. Ele teria vivido com Eva sem amor. No paraíso ninguém ama muito. Posso dizê-lo sem nenhum medo de ser expulso porque não quero entrar no paraíso, então quem se importa? O paraíso é o último lugar que eu gostaria de entrar; até o inferno é preferível. Por quê? Somente por causa da boa companhia. O paraíso é horrível. A companhia de santos… meu Deus! Esses deuses devem ser imbecis, ou talvez sem mentes, somente robôs; caso contrário como eles mantêm a contínua alegria? Não quero fazer parte disso.

            Mas Masto parecia um deus que veio à Terra. Eu o amo – sem nenhuma razão é claro, porque o amor não pode ter qualquer razão. Eu ainda o amo. Não sei se ele está vivo ou não, porque no dia 22 de março de 1953 ele desapareceu. Ele apenas me disse que estava indo para os Himalaias.

            Ele disse, “A minha responsabilidade foi satisfeita em relação ao que prometi a Pagal Baba. Agora você é o que você potencialmente era. Agora não sou mais necessário.”

            Eu disse, “Não, Masto, ainda precisarei de você, por outras razões.”

            Ele disse, “Não. Você vai encontrar os caminhos para tudo o que precisar. Mas não posso esperar.”

            Desde então, de vez em quando costumo escutar – talvez de alguém que está vindo dos Himalaias, um sannyasin, um bhikkhu – que Masto estava em Kalimpong, ou que ele estava em Nainital, ou aqui ou ali, mas ele nunca voltou dos Himalaias. Pedi para todo mundo que estava indo aos Himalaias, “Se você cruzar com esse homem…” Mas era difícil, porque ele era muito relutante em ser fotografado.

            Certa vez o convenci a ser fotografado, mas o fotógrafo da minha vila era um gênio! O seu nome era Munnu Mian, um homem pobre, mas ele tinha uma câmera. Esta devia ser do modelo mais antigo do mundo. A sua câmera deveria ter sido preservada; ela valeria milhões de dólares agora. Do filme inteiro, talvez uma foto revelar-se-ia. Isso também não era certo. E quando você olhava para a foto você não acreditaria porque ela não se parecia com você. Ele era avant-garde! Realmente avant-garde. Ele fazia com fotografia o que apenas Picasso gostaria… ou, não sei, até Picasso poderia não gostar da foto de Munnu Mian.

            De alguma forma convenci Masto a ir até Munnu Mian. Munnu Mian estava muito feliz. Masto relutantemente sentou-se no estúdio da vila. Não posso realmente chamá-lo de estúdio; era apenas uma cadeira enferrujada sem braços. As pessoas raramente vinham para serem fotografadas, então não havia estúdio realmente.

            Vocês não podem saber como as vilas Indianas são. Vocês não podem nem imaginar. Ainda é a mesma coisa. Como um pano de fundo havia uma pintura, uma cortina grande pintada com uma cena de rua de Bombaim – grandes edifícios, carros, ônibus. E é claro que parecia que a foto havia sido tirada em Bombaim. O que vocês poderiam esperar por uma rúpia por três fotos? Mas Masto conseguiu… ou, para ser mais correto, a idiotia de Munnu Mian desfez tudo que eu tinha arranjado. Ele esqueceu de pôr o filme na câmera!

            Ainda posso ver toda a cena. Preparei Munnu Mian dizendo, “Seja muito exato, correto. Foi com muita dificuldade que consegui trazer esse homem, e se você tiver a sua foto será uma grande publicidade para o seu estúdio.”

            Ele foi convencido e disse, “Eu tentarei. Apenas me ensine duas palavras em Inglês. Ouvi dizer que nas cidades maiores, antes de clicarem o obturador eles dizem, ‘Por favor prepare-se.’” É claro que ele me disse em Hindi, mas ele queria dizê-lo em Inglês para impressionar esse homem muito respeitado.

            Então ele queria saber como dizer “Obrigado,” para ser utilizado no final. Então ele arranjou tudo, então ele disse, “Por favor prepare-se” – é claro que em Inglês. Mesmo Masto não acreditava que Munnu Mian sabia algo de Inglês. Então ele clicou a sua câmera – um clique barulhento é claro. Ainda posso ver a sua câmera. Posso certamente dizer que ela valeria um milhão de dólares no mínimo apenas por causa da sua antiguidade. Ela era imensa.

            Ele então disse, “Obrigado, Senhor.” E partimos.

            Ele veio correndo atrás de nós e disse com lágrimas em seus olhos, “Desculpem-me, por favor voltem. Esqueci de colocar o filme na câmera!”

            Isso era demais. Masto disse “Seu idiota! Saia daqui; caso contrário perderei a cabeça – e sou muito temperamental!”

            Eu sabia que ele não era nada temperamental, e eu disse para Munnu Mian, “Não se preocupe. Vou arranjar novamente.” Mas ele escapou, de fato correu. Eu disse, “Ouça, não corra…” mas ele não ouviu.

            Persuadi Masto a retornar, mas quando chegamos no estúdio este estava trancado. Munnu Mian estava com tanto medo que ao nos ver chegando trancou o estúdio e escapou.

            Então não temos nenhuma fotografia de Masto. Existem apenas três fotografias que eu sempre quis, apenas para mostrar para vocês. A primeira era a de Masto, uma beleza rara. A segunda é de um homem que vou falar depois, e a terceira de uma mulher que também falarei depois. Mas não tenho uma fotografia de nenhuma dessas pessoas.

            É uma coisa estranha: todas essas pessoas foram relutantes em terem suas fotografias tiradas, totalmente relutantes – talvez porque uma fotografia invariavelmente distorce a beleza, porque a beleza é um fenômeno vivo e uma fotografia é estática. Quando tiramos uma foto de uma flor, vocês acham que é a mesma flor que ainda está lá? Não, nesse ínterim ela cresceu. Ela não é mais a mesma, entretanto a foto sempre permanecerá a mesma. A foto nunca envelhece. Ela está morta desde o início. Como vocês o chamam? – natimorto? Isso está certo?

            “Sim, Osho.”

            Ok, uma foto é natimorta, morta, morta antes de tomar a primeira respiração, ela não respira.

            A única pessoa que amei e conheci como uma das mais belas, e que me permitia tirar fotos, foi a minha Nani. Ela me dava permissão, mas com a condição que o álbum ficasse sob a sua custódia.

            Eu disse, “Não há problema nisso – mas por quê? Você não confia em mim?”

            Ela disse, “Confio em você, mas não posso confiar nessas fotografias. Não é que você possa me prejudicar, mas quero que essas fotografias estejam sob meus cuidados. Quando eu morrer elas serão suas.”

            Ela permitiu que eu tirasse quantas fotos dela eu quisesse. Mas depois que ela morreu, quando abri o seu armário onde ela costumava manter todas essas fotografias, havia um álbum vazio. Ela não pôde escrever, então ela pediu para o meu pai escrever nele, “Por favor perdoe-me.” Ela o assinou com as digitais do seu polegar direito.

            As pessoas que eu queria que vocês se familiarizassem, pelo menos em sua forma, nunca me deixaram tirar suas fotografias. Apenas uma me permitia, mas parece que a minha Nani apenas permitia para não me machucar… e ela sempre destruía as imagens.

            O álbum estava vazio. Olhei minuciosamente, e ele nunca foi utilizado. Procurei pela casa inteira. Não havia nem uma única foto a ser encontrada. Eu amaria mostrar para vocês os olhos dela, apenas os olhos dela. Todo o seu corpo era belo, mas os seus olhos… é preciso um poeta para dizer algo sobre eles, ou um pintor – e não sou nem um, nem outro. Posso apenas dizer que eles refletiam algo do além.

  

Sessão 33

 

Ok. No outro dia contei para vocês sobre o desaparecimento de Masto. Acho que ele ainda está vivo. De fato, sei que está. No Oriente esse tem sido um dos métodos mais antigos – desaparecer nos Himalaias antes de morrer. Morrer naquela parte bela é mais rico do que viver em qualquer outro lugar; até mesmo morrer ali tem algo do eterno. Talvez seja a vibração dos santos cantando por milhares de anos. Os Vedas foram compostos ali, o Gita foi escrito ali, Buda nasceu e morreu ali, Lao Tsé em seus últimos dias desapareceu nos Himalaias. E Masto fez quase o mesmo.

            Ninguém sabe ainda se Lao Tsé morreu ou não. Como alguém pode ter certeza? Daí a lenda dele ser imortal. Ninguém é. Aquele que nasce deve morrer. Lao Tsé deve ter morrido, mas as pessoas nunca ficaram sabendo. Se uma pessoa quiser ter uma morte completamente privada ela deve ser capaz de tê-la, pelo menos.

            Masto cuidou de mim mais eficientemente do que Pagal Baba poderia ter algum dia feito. Primeiro, Baba era realmente um louco. Em segundo lugar ele vinha como um furacão apenas de vez em quando me visitar, então desaparecia. Essa não é a forma de cuidar. Certa vez eu até disse a ele, “Baba, você fala muito sobre como você está cuidando dessa criança, mas antes de você dizê-lo novamente eu devo ser ouvido.”

            Ele riu e disse, “Entendo, você não precisa dizer, mas o passarei para as mãos certas. Não sou realmente capaz de cuidar de você. Você pode entender que tenho noventa anos de idade? É a hora de eu deixar esse corpo. Estou por aqui apenas para encontrar a pessoa certa para você. No momento em que encontrá-la poderei relaxar na morte.”

            Eu nunca poderia saber que ele estava falando realmente sério, mas foi isso o que ele fez. Ele entregou a sua tarefa a Masto e morreu sorrindo. Esta foi a última coisa que ele fez.

            Zaratustra deve ter gargalhado quando nasceu… ninguém foi testemunha, mas ele deve ter gargalhado; toda a sua vida indica isso. Foi aquela gargalhada que fisgou a atenção de um dos homens mais inteligentes do Ocidente, Friedrich Nietzsche. Mas Pagal Baba realmente riu quando morreu, antes que pudéssemos perguntar por que. Não poderíamos ter feito a questão de qualquer maneira. Ele não era um filósofo e não teria respondido mesmo se tivesse sobrevivido. Mas que forma de morrer! E lembrem-se, não foi apenas um sorriso. Realmente quero dizer uma gargalhada.   

            Todo mundo ali olhou um para o outro pensando, “O que está acontecendo?” – até que ele riu tão alto que todo mundo pensou que até aquele momento ele era apenas moderadamente louco, mas agora ele havia chegado ao extremo. Todos partiram. Naturalmente ninguém ri quando nasce, apenas como parte da etiqueta; e ninguém ri na morte, de novo nada além de um maneirismo. Ambos são Britânicos.

            Baba sempre foi contra os costumes e as pessoas que acreditavam nos costumes. Era por isso que ele me amava, por isso ele amava Masto. E quando ele estava procurando um homem que poderia cuidar de mim, naturalmente ele não pôde encontrar um homem melhor que Masto.

            Masto provou-se melhor do que Baba poderia ter pensado. Ele fez tanto por mim que mesmo dizer isso dói. É algo tão privado que não deveria ser dito, tão privado que uma pessoa não deveria falar sobre nem quando está sozinha.

            Eu estava dizendo há pouco para Gudia, “Fale para o Devageet nunca deixar os seus livros de notas nessa Arca de Noé” – porque na última noite o diabo estava copiando os seus livros de notas. Vocês não vão acreditar. De fato, não pude acreditar quando ouvi a história pela primeira vez. Gudia disse que não havia luz na janela. Espantei-me e disse a mim mesmo, “Eles ficaram loucos ou o que? Digitando sem uma luz?”

            Gudia olhou na sala e disse, “Isso é realmente alguma coisa! A máquina está fazendo um barulho exatamente igual a uma máquina de escrever.”

            Não apenas isso: toda hora ela parava, como se o digitador estivesse olhando para as notas, então digitava novamente. Gudia perguntou a Asheesh, “O que pode ser?”

            Ele lhe disse, “Nada, apenas o filtro do ar condicionado juntou tanta poeira que ele faz esse barulho.” Mas exatamente como uma máquina de escrever…? Amo a história de qualquer forma, e lhe digo para manter as suas notas longe do diabo. Ele pode digitar até mesmo sem uma máquina de escrever, sem uma luz.

            O diabo é sempre um perfeccionista. Ele não pode ser de outra forma; é parte da sua função. Escrever sem uma máquina de escrever – no escuro? E sei que Devageet não deixaria os seus livros de anotações em qualquer lugar. Mas o diabo pode digitar até sem livros de anotações também. Ele pode ler a mente de vocês. Então não tragam suas mentes para dentro, pelo menos quando vocês estão trabalhando com as minhas palavras. Não tragam as suas mentes para dentro, caso contrário vocês abrem as portas para o diabo.

            Masto foi a melhor escolha que Baba poderia fazer. Não posso de nenhuma forma conceber um homem melhor. Ele não era apenas um meditador… claramente ele era; caso contrário não haveria comunhão possível entre eu e ele. E meditação simplesmente significa não ser uma mente, pelo menos durante o tempo que você está meditando.

            Mas isso não era tudo; ele era muitas outras coisas. Ele cantava lindamente, mas nunca cantou para o público. Nós dois costumávamos rir da frase, “o público.” Este consiste apenas das crianças mais retardadas. É uma maravilha como elas conseguem se reunir em um local em um tempo determinado. Não posso explicar. Masto disse que ele também não podia explicar. Isso apenas não pode ser explicado.

            Ele nunca cantou para o público, somente para pouquíssimas pessoas que o amavam, e elas tinham que prometer nunca falar sobre isso. A sua voz era realmente “a voz do seu mestre.” Talvez ele não estava cantando, mas apenas permitindo que a existência – esta é a única palavra adequada que posso utilizar – ele estava permitindo que a existência fluísse através dele. Ele não estava impedindo; esse era o seu mérito.

            Ele também era um talentoso tocador de cítara, mas novamente, nunca o vi tocando para uma multidão. Frequentemente eu era a único presente quando ele tocava, e ele pedia para que eu trancasse a porta, dizendo, “Por favor tranque a porta, e, qualquer coisa que acontecer, não a abra até que eu esteja morto.” E ele sabia que se eu quisesse abrir a porta eu teria que matá-lo primeiro, e então abri-la. Eu manteria a minha promessa. Mas a sua música era tão… Ele não foi conhecido pelo mundo: o mundo perdeu.

            Ele disse, “Essas coisas são tão íntimas que é prostituição tocar para um público.” Esta foi exatamente a sua palavra, ‘prostituição’. Ele era realmente um filósofo, um pensador, e muito lógico, não como eu. Com Pagal Baba eu tinha apenas uma coisa em comum: a loucura. Masto tinha muitas coisas em comum com ele. Pagal Baba estava interessado em muitas coisas. Eu certamente não poderia ser um representante de Pagal Baba, mas Masto era. Não posso ser representante de ninguém, não importa quem seja.

            Masto fez tanto para mim de todas as formas que não creio como Baba soube que ele seria a pessoa certa. E eu era uma criança e precisava de muita direção – e não era uma criança fácil também. A menos que estivesse convencido eu não me moveria um centímetro. De fato, eu me moveria um pouco para trás apenas para assegurar-me.

            Lembro-me de uma pequena anedota. Eu costumava usar essa anedota como uma piada. Muitas das minhas piadas são talvez pintadas aqui ou ali para fazê-las parecer piadas, mas muitas delas vêm da vida real. E a vida real é muito mais um livro de piadas do que qualquer livro de piadas poderia um dia ser. Como sei que essa piada vem da vida real? Porque não pode ser de outra forma, não há outro caminho. Lembro-me que eu costumava contar essa piada e esse é o modo como a lembro.

            Uma criança chega atrasada na escola, muito atrasada. Está chovendo. A professora olha com olhos inflexíveis que são dados apenas para os professores – e para as esposas. E se você se casar com uma mulher que é professora, então que Deus te ajude! Podemos apenas orar por você. Então essa mulher terá quatro olhos para olhar em todas as direções. Cuidado com as professoras! Nunca, nunca se case com uma professora. O que quer que aconteça, escape antes de tropeçar e cair. Caia em qualquer outro lugar, mas não em uma professora; caso contrário você terá realmente uma vida infernal. E se ela é Inglesa, então as coisas são triplicadas!

            O pequeno garoto, sempre com muito medo, completamente ensopado, chegou de alguma forma na escola. Mas uma professora é uma professora. Ela perguntou, “Por que você está atrasado?”

            Ele havia pensado que a prova seria suficiente. Estava chovendo tão forte… estava chovendo “canivetes”, e ele estava completamente molhado, pingando. E ainda assim ela estava perguntando, “Por que você está atrasado?”

            Ele inventou, assim como qualquer outra criança o faria, dizendo, “Senhorita, está tão escorregadio que conforme eu dava um passo para frente, escorregava dois passos para trás.”

            A mulher parecia ainda mais severa e disse, “Como isso é possível? Se você dá dois passos para frente e então escorrega de volta dois passos – você se traiu – então você nunca teria chegado na escola.”

            O pequeno garoto disse, “Senhorita, por favor entenda: Eu me virei para minha casa e comecei a correr para longe da escola, foi assim que parei aqui.”

            Digo que não é uma piada. Aquela professora é real, o garoto é real, a chuva é real. A conclusão da professora é real, e a conclusão do pequeno garoto não poderia ser mais real. Contei milhares de piadas e muitas delas vêm da vida real. Aquelas que não vêm da vida real, elas também vêm da vida real, mas da vida subterrânea, que também é real mas nunca na superfície – ela não é autorizada.

            Masto tinha um talento real em muitas dimensões. Ele era um músico, um dançarino, um cantor, etc. mas sempre muito acanhado com “aqueles olhos.” Ele costumava chamar as pessoas, “aqueles olhos feios.” Ele diria, “As pessoas não podem ver, mas apenas acreditar que veem. Não sou a favor delas.” Repetidas vezes ele me lembrava que eu não devia convidar nenhum amigo – embora eu não tivesse nenhum – quero dizer, nenhum conhecido.

            Mas uma vez quando o perguntei, “Um dia terei permissão para trazer alguém?” ele replicou, “Se você apenas quer ter a alegria de convidar alguém íntimo, então a sua Nani está autorizada. Para ela você nem precisa perguntar. É claro que se ela não quiser vir, então não posso fazer nada em relação a isso.” E foi isso o que aconteceu.

            Quando contei para a minha Nani, ela disse, “Fale para Masto vir a minha casa e tocar a sua cítara aqui.” E ele era um homem tão humilde que ele veio tocar a sua cítara para a mulher idosa, e ele estava muito feliz em tocar para ela, e eu estava tão feliz que ele veio e não recusou. Eu estava preocupado com sua recusa.

            E a minha avó, a minha Nani, a mulher idosa, de repente tornou-se nova outra vez. Eu vi o que só pode ser chamado de uma transfiguração! Conforme ela ficava cada vez mais afinada com a cítara, ela ficava cada vez mais jovem. Eu vi um milagre acontecendo. No momento em que Masto terminou de tocar a sua cítara, ela era uma mulher idosa novamente.

            Eu disse, “Isso não está certo, Nani. Pelo menos permita que o pobre Masto tenha um vislumbre do que a sua música pode fazer com uma pessoa como você.”

            Ela disse, “Não está em minhas mãos. Se isso acontece, acontece. Se não acontece, nada pode ser feito em relação a isso. Sei que Masto entenderá.”

            Masto disse, “Eu entendo.”

            Mas o que eu vi foi totalmente incrível. Eu piscava meus olhos várias vezes só para ver se era apenas um sonho, ou se eu estava realmente vendo a sua juventude voltando. Até hoje não posso acreditar que era apenas a minha imaginação. Talvez naquele dia… mas hoje não tenho imaginação alguma. Vejo as coisas como elas são.

            Masto permaneceu desconhecido ao mundo simplesmente porque ele nunca quis estar no meio da multidão. E no momento em que o seu dever para comigo, a sua promessa a Pagal Baba concluiu-se, ele desapareceu nos Himalaias.

            Os Himalaias… a própria palavra quer dizer “a casa do gelo.” Os cientistas dizem que se todo o gelo dos Himalaias derreter um dia, então o mundo seria realmente inundado. O mundo todo – não seria limitado a alguma parte – todos os oceanos elevar-se-iam em doze metros. Eles deram-lhe o nome certo, Himalaia. Him significa “gelo”; alaya significa “a casa.”

            Existem centenas de picos com gelo eterno que nunca derreteu… e o silêncio ao redor, a atmosfera imperturbável… não é apenas antigo; há um calor estranho, porque milhares de pessoas de imensa profundidade moveram-se para essas partes com um tremendo estado meditativo, com um amor imenso, orações e cânticos.

            Os Himalaias ainda são raros no mundo todo. Os Alpes são apenas crianças comparados com os Himalaias. A Suíça é bela, e ainda mais bela por causa de todas as conveniências disponíveis ali. Mas não posso esquecer as noites silenciosas nos Himalaias: as estrelas acima e ninguém em volta.

            Quero desaparecer ali, assim como Masto o fez. Posso entendê-lo e não seria uma surpresa se de repente um dia eu desaparecesse. Os Himalaias são muito maiores do que a Índia. Apenas uma parte dos Himalaias pertence a Índia; outra parte pertence ao Nepal, outra a Burma, outra ao Paquistão – milhares de quilômetros de pureza, somente pureza. Do outro lado está a Rússia, o Tibete, a Mongólia e a China; todos eles têm uma parte dos Himalaias.

            Não seria uma surpresa se algum dia eu desaparecesse apenas para deitar-me ao lado de uma bela rocha e não estar mais no corpo. Não é possível encontrar um lugar melhor para deixar o corpo – mas talvez eu não o faça, vocês me conhecem. Permanecerei imprevisível como sempre, até mesmo na minha morte.

            Talvez Masto queria ir antes, e estava realizando a última tarefa dada por seu guru, Pagal Baba. Ele fez tanto por mim, é difícil até listar. Ele me apresentou a pessoas que sempre que eu precisava de dinheiro eu só tinha que falar para elas e o dinheiro chegava. Perguntei para Masto, “Elas não perguntam por quê?”

            Ele disse, “Não se preocupe com isso. Eu já respondi todas as questões delas. Mas elas são pessoas covardes; elas podem lhe dar o seu dinheiro, mas não podem lhe dar os seus corações, então não peça isso.”

            Eu disse, “Nunca peço a ninguém o seu coração; não pode ser pedido. Ou alguém sente que aconteceu, ou não. Então não pedirei nada para essas pessoas, exceto dinheiro, e isso também apenas se for necessário.”

            E ele certamente me apresentou a muitas pessoas que sempre permaneceram anônimas; mas sempre que eu precisava de dinheiro, este chegava. Quando eu estava em Jabalpur, onde eu estava na universidade e permaneci por mais de nove anos, o dinheiro estava continuamente chegando. A pessoas se perguntavam, porque o meu salário não era muito grande. Elas não podiam acreditar como eu podia usar um carro tão belo, um bangalô belo, um vasto jardim, quilômetros de verde. E no dia em que alguém perguntou como um carro tão belo… naquele dia chegaram mais dois. Havia três carros então e nenhum lugar para mantê-los.

            O dinheiro estava sempre chegando. Masto fez todos os arranjos. Embora eu não tivesse nada, nenhum dinheiro, mas de alguma forma ele arranjava.

            Masto… é difícil dizer adeus para você, pela simples razão que não acredito que você já se foi. Você ainda existe. Posso não ser capaz de o ver novamente; isso não é muito importante. Eu o vi tanto, a sua própria fragrância tornou-se parte de mim. Mas em algum lugar nessa história terei que dar um ponto final no que diz respeito a você. É difícil e dói… perdoe-me por isso.

 

Sessão 34

 

Na manhã de hoje falei um adeus muito abrupto a Masto, e senti-o por todo o dia. Isso simplesmente não pode ser feito, pelo menos em relação a ele. Lembro-me de quando eu estava indo para a faculdade e deixava a minha Nani depois de tanto tempo juntos.

            Desde que meu avô morreu e a deixou, não houve ninguém em sua vida, exceto eu. Não foi fácil para ela. Também não foi fácil para mim. Exceto por ela, não havia nada que me mantinha naquela vila. Posso ver aquele dia: o amanhecer – era uma bela manhã de inverno e as pessoas da vila se reuniram.

            Até mesmo hoje, naquelas partes centrais da Índia, as coisas não são contemporâneas; elas estão pelo menos dois mil anos atrás. Ninguém tem muito o que fazer. Todo mundo parece ter tempo suficiente para vadiar. Eu realmente quero dizer que todo mundo é um preguiçoso. Simplesmente quero dizer o significado literal, não qualquer associação que nasce com a palavra. Então, todos os “vadios” estavam ali. Por favor escreva a palavra entre aspas para que ninguém entenda mal.

            Toda a minha família estava ali, uma grande multidão. Eles vieram porque tinham que vir; caso contrário eu não via sentido em ver suas faces, que eram então, e são agora, sem faces, apenas nomes. Mas meu pobre pai estava lá, minha mãe estava lá, meus irmãos e irmãs mais novas estavam lá, e todos estavam realmente chorando.

            Até meu pai estava chorando. Nunca o vi chorando, nunca antes e nunca depois. E eu não estava morrendo, apenas me separando algumas centenas de milhas. Mas era a própria ideia de separar-me por quatro anos pelo menos, para conseguir o grau de bacharel. Então se eu decidisse – e ninguém sabia – ficar mais dois anos para o grau de mestre? Então um mínimo de mais dois anos para um PhD?

            Era uma separação longa. Talvez naquela altura, quem sabe, muitos deles não estariam no mundo. Mas eu estava preocupado apenas com a minha Nani, porque a minha mãe e meu pai viveram muito tempo sem mim quando eu era pequeno. Agora eu podia viver sozinho, eu podia ajudar-me; eu não precisava de nenhuma outra ajuda.

            Mas pela minha Nani… ainda posso ver o sol da manhã, o sol quente, a multidão, meu pai, minha mãe. Toquei os pés da minha Nani e lhe disse, “Não se preocupe. Sempre que você chamar correrei imediatamente. E não pense que vou muito longe: é apenas cento e cinquenta quilômetros, apenas três horas de trem.”

            Naqueles dias o trem mais rápido não parava na pobre vila; caso contrário a jornada seria de apenas duas horas. Agora ele para lá – mas agora não importa se ele para ou não.

            Eu disse a ela, “Virei correndo. Cem a cento e cinquenta quilômetros não são nada.”

            Ela disse, “Eu sei e não estou preocupada.”

            Ela tentou manter-se a mais serena possível, mas pude ver o acúmulo de lágrimas em seus olhos. Foi nesse momento que me virei e parti para a estação. Não olhei para trás quando virei a esquina. Eu sabia que se eu olhasse para trás, ou ela explodiria no choro, e então eu nunca iria a universidade; ou se ela não explodisse no choro ela podia até mesmo morrer, apenas parar de respirar. Eu era demais para ela. A sua existência era em torno de mim: as minhas roupas, meus brinquedos, meu quarto, minha cama, meus lençóis, o dia inteiro…

            Eu costumava dizer-lhe, “Nani, você está louca. Vinte e quatro horas por dia você está comprometida em fazer as coisas para mim, que nunca fará nada por você em sua vida.”

            Ela disse, “Você já o fez.”

            Eu não sei o que fiz, e agora não há como perguntar para ela. Mas a forma que ela disse, “Você já o fez,” foi tão poderosa, com tanta energia, que quer você tenha entendido ou não, você ficaria comovido. Até mesmo hoje relembrando-o eu fico comovido.

            Posteriormente descobri que quando virei a esquina da rua, toda a vizinhança perguntou-se, “Que tipo de garoto é esse? Ele nem olhou…”

            E a minha Nani estava muito orgulhosa; ela disse a eles, “Sim, ele é o meu garoto. Eu sabia que ele não olharia para trás, e não apenas nessa esquina, ele nunca olhará para trás em sua vida. E também estou orgulhosa que ele entendeu a sua pobre Nani, sabendo que se tivesse olhado para trás eu explodiria em lágrimas, e ele nunca quis isso. Ele sabia perfeitamente bem, melhor do que eu, que se eu estivesse explodido em lágrimas ele não seria capaz de ir. Não por minha causa, mas por causa do seu amor por mim. Ele ficaria por toda a sua vida, apenas para que eu não tivesse que chorar.”

            Dizer um adeus abrupto a Masto é exatamente igual. Não, não o posso fazer. Terei que atingir um fim natural, sem uma parada final, escolhido arbitrariamente, porque a minha vida é tal que se eu seguir falando sobre ela, não haverá nem começo, nem fim. Na minha vida não haverá começo nem fim.

            A Bíblia pelo menos diz, “No começo…” Vocês terão que publicar isso sem um começo ou um fim. Será muito difícil publicar dessa forma. Mas Devageet pode entender, ele é um Judeu. O pergaminho de um Judeu pode quase ser sem começo e fim. É claro que parece haver um começo, mas apenas parece. É por isso que todas as histórias antigas começam com, “Era uma vez” – e então você pode começar algo. E em um certo momento tudo para, sem nem dizer, “O Fim.” A minha vida não pode ser uma autobiografia ordinária.

            Vasant Joshi está escrevendo uma biografia minha. A biografia deve ser muito superficial, tão superficial que não valerá a pena a ler de maneira alguma. Nenhuma biografia pode penetrar as profundezas, particularmente as camadas psicológicas de um homem – especialmente se o homem chegou ao ponto onde a mente não é mais relevante para a vacuidade escondida no centro de uma cebola. Você pode descascá-la camada por camada, é claro que com lágrimas em seus olhos, mas finalmente nada fica, e este é o centro da cebola; é a partir disso que ela surge. Nenhuma biografia pode penetrar nas profundezas, particularmente de um homem que conheceu a não-mente também. Digo “também” ponderando, porque a menos que você conheça a mente, você não pode conhecer a não-mente. Essa será a minha pequena contribuição ao mundo.

            O Ocidente foi fundo na busca pela mente, e descobriu camada por camada – o consciente, o inconsciente, o subconsciente, e assim por diante. O Oriente simplesmente colocou tudo de lado e pulou no lago… e o som sem som, a não-mente. Por isso o Ocidente e o Oriente permanecem opostos.

            De uma forma a oposição é entendível, e Rudyard Kipling estava certo ao dizer, “O Ocidente é Ocidental, e o Oriente Oriental, e nunca o par encontrar-se-á.” Ele está certo até um ponto. Ele realmente enfatiza um ponto que estou criando.

            O Ocidente só olhou para a mente, sem olhar para quem está olhando a mente. É muito estranho. Os supostos grandes cientistas estão todos tentando olhar para a mente, e ninguém se preocupa com quem está olhando para a mente.

            H. G. Wells não era um homem mau – um homem bom, bonzinho. De fato, ele é muito doce para meu paladar, muito açúcar branco. Mas ainda assim não devo considerar o meu paladar; vocês têm os seus próprios paladares, e nem todo mundo é diabético. Não sou apenas diabético, sou também contra o açúcar branco. Mesmo antes de eu ficar sabendo da diabetes, eu era contra o açúcar branco; chamo-o “veneno branco.” Então talvez eu seja um pouco preconceituoso contra o açúcar branco.

            Mas H. G. Wells, embora muito cheio de açúcar branco, não era apenas isso. De vez em quando ele surgia com um discernimento que era raro. Por exemplo, a sua ideia de máquina do tempo. Ele teve uma ideia que um dia seria descoberta uma máquina que pudesse voltar no tempo. Vocês entendem o significado disso? Significa que vocês poderiam voltar às suas infâncias, aos úteros de suas mães, ou talvez, se você é um Hindu, às suas vidas passadas – talvez como um elefante, uma formiga, etc. Era possível voltar e também ir para frente.

            A própria ideia é um grande vislumbre. Não sei se existirão máquinas como essa ou não, mas existiram pessoas que podiam se mover de volta no tempo tão facilmente como vocês podem se mover. Vocês têm alguma dificuldade em voltar ao dia de ontem? Da mesma maneira os mais ousados moveram-se para suas vidas passadas.

            Talvez essa palavra não seja permitida*, [NT. yesterlives, traduzido como vidas passadas.] mas não ligo. Para mim ‘vidas passadas’ parece perfeitamente correto. Quando algo parece correto para um homem errado como eu, então vocês podem ter certeza que está correto. Tem que estar correto.

            De repente parei totalmente com Masto, mas de certa forma isso me torturou por todo o dia. Vocês sabem que não posso ser torturado, vocês sabem que não posso ficar infeliz também, mas a ideia que terminei tão abruptamente novamente me faz lembrar de um incidente que diz respeito direto a Masto.

            Ele veio para levar-me à estação de Allahabad. No fundo nós nunca queríamos nos separar, particularmente naquele dia. A razão só ficou clara posteriormente, mas essa razão não tem nada a ver com isso. Vou apenas mencioná-la e lhes dar os detalhes depois. Masto veio para se despedir de mim, porque ele disse que talvez por dois ou três meses ele não seria capaz de me ver, então gostaria de ficar o máximo de tempo comigo.

            Masto disse, “Esperemos que o trem esteja atrasado.”

            Eu disse, “Que absurdo você está falando, Masto? Você realmente ficou louco? Os trens são Indianos, e você tem que realmente esperar que eles se atrasem?”

            O trem veio, é claro que seis horas atrasado, o que não é muito para um trem de passageiros Indiano – totalmente usual. Mas não conseguíamos nos separar. Nós falamos e falamos, e ficamos tão envolvidos na conversa que o trem foi perdido. Nós dois rimos. Estávamos felizes porque pelo menos podíamos ficar juntos por mais algumas horas antes que outro trem chegasse.

            Ouvindo a nossa conversa e risada, e a razão da risada, o chefe da estação disse, “Por que vocês estão gastando o seu tempo nessa plataforma? Vocês podem ir para a plataforma oposta.”

            Perguntei-lhe, “Por quê?”

            Ele disse, “Apenas os trens de mercadorias param aqui, então vocês podem falar, se abraçar e se divertir, e não é necessário se preocupar em pegar o trem. Vocês não o podem pegar nessa plataforma.”

            Eu disse a Masto que a ideia soava muito espiritual. O chefe da estação estava pensando que nós podíamos bater na cabeça dele, mas quando nós dois agradecemos-lhe e fomos para a outra plataforma, ele veio correndo atrás de nós dizendo, “Por favor não tomem a ideia seriamente. Eu estava apenas brincando. Acreditem em mim, apenas os trens de mercadorias param aqui. Vocês nunca pegarão um trem nessa plataforma.”

            Eu lhe disse, “Não quero pegar trem algum. Nem Masto quer que eu pegue qualquer trem – mas fazer o que?” O anfitrião do local que estávamos hospedados foi muito insistente que era hora de eu voltar para o hotel da universidade, dizendo que o meu tempo não deveria ser desperdiçado.

            E Masto também queria que eu conseguisse pelo menos o grau de mestre, de acordo com os desejos do meu falecido amigo Pagal Baba. Então eu tinha que ir. Vocês não acreditarão em mim, mas só permaneci na universidade porque havia prometido a Pagal Baba que conseguiria um grau de mestre. A universidade deu-me uma bolsa para estudos adicionais, mas eu disse não, porque eu tinha prometido apenas até esse ponto.

            Eles disseram, “Você está louco? Mesmo se você for direto para um trabalho você não conseguirá mais dinheiro do que essa bolsa te dará. E a bolsa pode ser estendida por dois ou muitos anos conforme a recomendação dos seus professores. Não desperdice a oportunidade.”

            Eu disse, “Baba deveria ter me pedido um PhD. O que posso fazer? Ele nunca me pediu, e ele morreu sem saber o que é um PhD.”

            O meu professor tentou muito me persuadir, mas eu disse a ele, “Simplesmente esqueça, porque eu só vim até aqui para realizar uma promessa feita a um louco.”

            Talvez se Pagal Baba tivesse conhecido o que era PhD ou D.Litt. então eu estaria em uma armadilha. Mas graças a Deus ele só conhecia o grau de mestre. Ele achava que essa era a palavra final. Não sei se ele realmente gostaria que eu continuasse com mais bolsas. Agora não há como saber. Uma coisa é certa: que se ele quisesse eu teria ido e gastado quantos anos fossem necessários. Mas não era uma satisfação do meu próprio ser, nem o fora o grau de mestre. De alguma maneira Pagal Baba assimilou a ideia que a menos que você tenha um grau de mestre, um grau de pós-graduação, você não seria capaz de conseguir um bom emprego.

            Eu disse, “Baba, você acha que um dia desejarei um emprego?”

            Ele riu e disse, “Eu sei que você não desejará, mas só por precaução. Sou apenas um homem velho, e penso em todas as piores coisas possíveis.” Vocês já ouviram o provérbio, “Deseje o melhor, mas espere o pior.” Ele adicionou algo a mais nele. Baba disse, “Prepare-se para o pior também. Não o encontre despreparado; caso contrário, como você encará-lo-á?

            Não é possível se despedir de Masto tão facilmente, então abandonarei a própria ideia. Sempre que ele surgir estar-se-á bem. Esta não será uma autobiografia ortodoxa, convencional. Não é uma autobiografia de maneira alguma, apenas fragmentos de uma vida refletida em milhares de espelhos.

            Uma vez fui hóspede de um lugar chamado Palácio dos Espelhos. Ele era feito apenas de espelhos. Ele era horrível – viver nele era tão difícil – mas talvez eu fui o único homem que o apreciou. O raja que era o seu dono ficou intrigado. Ele me disse, “Sempre que coloco convidados ali, depois de algumas poucas horas eles me dizem, ‘Por favor coloque-me em outro lugar, isso é demais.’ Ver tantas pessoas iguais a nós por toda a volta… e qualquer coisa que você faz, todas fazem. Se você ri, todas riem; se você chora, todas choram; se você abraça uma garota, todas abraçam… É tão horrível. Você se sente apenas como um reflexo e nada mais, e todos os reflexos parecem estar melhor que você!”

            Eu disse ao raja, “Não quero mudar nada. De fato, se você quiser vender este palácio estou pronto para comprá-lo e torná-lo um centro de meditação. Seria hilário. As pessoas apenas sentadas ali olhando para si mesmas de todas as direções – em todos os locais milhares de miniaturas de si mesmas.

            “Elas podem ficar loucas – o que não é uma calamidade de qualquer forma. Elas ficarão loucas mais cedo ou mais tarde em alguma outra vida; só vai demorar um pouco mais. Acredito em métodos cafés instantâneos. Mas se puderem relaxar com toda a multidão ao redor e não se preocuparem; se puderem aceitar isso e dizer, “Está tudo bem, obrigado por estar ao meu redor por tanto tempo,’ e ainda assim permanecerem centradas, elas tornar-se-ão iluminadas. De qualquer maneira elas serão beneficiadas.”

            A loucura é cair abaixo da mente. Há uma loucura que é cair acima da mente; esta loucura é a iluminação. Ela é anormal; por isso não está errado os pobres psicólogos pensarem que as pessoas como Jesus ou Buda são anormais. Mas eles devem ter um pouco mais de cuidado com suas palavras.

            Se usam a mesma palavra, ‘anormal’, para os internos de um hospício, com que cara eles usariam a mesma palavra para o Buda? Eles deveriam dizer “supranormal.” Budas e loucos certamente não são normais; sobre isso concordamos. Uns são abaixo do normal, outros são acima do normal. Ambos são anormais, concordamos, mas eles precisam de classificações diferentes. E a psicologia não tem lugar para o que chamo “a psicologia dos budas.”

            Masto certamente era um buda. Não posso simplesmente dizer, “Obrigado, até mais ver,” porque ele fez muito por mim. “Obrigado” é muito pequeno e muito inapropriado. Ninguém faz tanto por alguém.

            É por isso que não há palavra para isso – ninguém precisa dela. E não posso dizer, “Até mais ver,” porque nem ele existirá de novo nesse mundo, nem eu existirei de novo nesse mundo. O encontro é, na própria natureza das coisas, impossível. Então, a única forma é deixar que ele surja sempre. E dessa forma essas memórias terão o seu sabor próprio. Chegadas e partidas repentinas e abruptas.

            Então trago Masto de novo. Ele não era o mesmo tipo de homem que Pagal Baba. Pagal Baba era simplesmente um místico; Masto também era um filósofo. À noite nos deitávamos por horas nas margens do Ganges discutindo muitas coisas. Nós desfrutávamos estar juntos, dialogando ou em silêncio. Aquele mesmo Ganges onde os Upanishads foram cantados pela primeira vez, onde Buda proferiu seu primeiro sermão, onde Mahavira moveu-se e pregou… Não é possível pensar o misticismo Oriental sem os Himalaias e o Ganges. De fato, ambos contribuíram infinitamente.

            Eu lembro a beleza daquele silêncio… Nos sentávamos ali por horas. De vez em quando nós até dormíamos ali, na areia, porque Masto disse, “Está tão belo esta noite que seria um insulto ir para cama. As estrelas estão tão próximas.” Essa foi a sua palavra, ‘insulto’. Estou simplesmente citando-a.

            Eu disse, “Masto, você sabe que amo as estrelas e particularmente quando elas estão refletidas no rio. As estrelas são belas, mas a reflexão delas é um milagre. O que a água faz tão simplesmente só é possível comparar com os sonhos. Amo as estrelas, o rio, a reflexão das estrelas, e amo a sua companhia e seu calor. Então não há dúvidas em relação à permanência. Nunca me considere nem por um único momento quando você quiser fazer algo, porque até mesmo essa consideração me machucará. Ela mostrará que estou sendo um fardo para você.”

            Ele disse, “O quê? Eu não disse nada sobre você ser um fardo para mim.”

            Eu disse, “Você não disse, ninguém o fez. Eu estou apenas dizendo-o para o futuro. Lembre-se, se você considerar-me por algum razão, então me fale sobre ela, porque sinto-me muito ofendido por qualquer consideração.”

            Eu disse a ele aquele dia, e hoje vou falar para vocês também, que Gurdjieff teve uma ideia muito estranha. Não acho que nenhum mestre nunca a considerou. Não que ela não tenha batido nas portas deles, mas acho que ninguém tinha o tipo certo para recebê-la e responder a ela.

            Gurdjieff costumava dizer, “Por favor, nunca, nunca considere os outros. É um insulto.” Ele tinha essas palavras escritas sobre a sua porta. É uma declaração tremendamente significante.

            As pessoas forçam umas às outras a considerarem-se. Elas dizem, “Por favor me considere.” O que seria mais humilhante do que dizer para alguém, “Por favor me considere?” Na minha vida eu nunca disse isso para ninguém, nem uma única pessoa.

            Lembro-me de muitas situações onde exatamente essas palavras teriam me ajudado imensamente – mas elas são tão humilhantes. Não é o ego, lembrem-se. O egoísta está sempre pedindo por consideração; de fato, mais que isso, porque ele não é uma pessoa ordinária, ele tem que ser considerado primeiro. Uma pessoa realmente humilde não pode pedir por consideração – de fato, ela rejeitará qualquer consideração mesmo se esta lhe for dada.

            Eu estava na universidade, um pobre estudante. Cheguei na universidade de alguma maneira trabalhando em diferentes tipos de empregos. De novo, somente por coincidência, participei de um debate nacional interuniversidades. Um dos juízes, que agora é o chefe do departamento de filosofia na Universidade de Allahabad, S. S. Roy, apaixonou-se por mim. E o mesmo aconteceu comigo em relação a ele.

            Ele me deu noventa e nove pontos em cem – ele era um dos juízes no debate. Naturalmente ganhei. Era um debate muito importante porque o ganhador faria uma excursão de três meses pelo Oriente Médio como um convidado do governo. Ele deveria ser tratado quase como um embaixador. Era uma grande oportunidade.

            S. S. Roy deu-me noventa e nove em cem, e para todos os outros ele deu somente zero – apenas para ter certeza que eu ganharia. Perguntei-lhe depois, “Por que você foi tão parcial a meu favor?”

            Ele disse, “No momento em que olhei para os seus olhos tornei-me hipnotizado. A minha esposa também disse que estou hipnotizado por você; caso contrário, como eu poderia fazer isso? Se alguém olhar a sua folha a parcialidade será notória; noventa e nove em cem e simplesmente zero para quase uma dúzia de outros participantes!”

            Eu disse, “Não, não lhe perguntei por que você me deu noventa e nove por cento; essa é a questão da sua esposa. Talvez outros possam perguntar isso também. Eu vim para perguntar-lhe por que você não me deu cem por cento.”

            Por um momento ele me olhou chocado. Então começou a rir e disse, “Eu era um dos discípulos de Masta Baba. Ele estava certo quando me disse, ‘Uma vez que você ver esse homem você não precisará de mim.’ E Masta Baba me disse isso quase dois ou três anos antes de desaparecer. Agora posso honestamente dizer-lhe que não fui hipnotizado: é que seus olhos lembram-me dos olhos dele. Também vi Pagal Baba, e é estranho como os seus olhos são quase os mesmos. Como isso ocorre eu não sei.”

            Eu disse, “Não são os olhos, é a transparência que os tornam semelhantes. Estou feliz que você lembrou de Pagal Baba e Masta Baba pela razão que para mim é a maior recompensa no mundo – que em meus olhos você viu algo de semelhante. Agora não tenho nada para perguntar a você exceto: Por que não cem por cento?”         

            Ele disse, “Sou um pobre professor. Se eu te desse cem e zero para todos os outros onze participantes, iria parecer que eu não estava sendo justo. Sou justo, mas quem entenderia? Onde eu encontraria Masta Baba ou Pagal Baba para entendê-lo? Dei-lhe noventa e nove por cento apenas por causa da minha covardice.”

            Eu amava esse homem porque ele podia dizer muito simplesmente que era um covarde, embora já tivesse feito um ato destemido, então qual diferença um por cento teria? Noventa e nove para uma pessoa e zero por cento para as outras? – dá no mesmo. Ele poderia ter me dado cem por cento, ou até mais.

            Mas aquele debate, e sua lembrança de Pagal Baba e Masta Baba, foi a razão pela qual fiquei na universidade de Sagar. Ele estava ali naquele momento. Eu disse, “Se eu tiver que ser um pós-graduado, então que seja com você.”

            Era o desejo de Pagal Baba, e também de Masto Baba, que eu deveria estar preparado se por acaso precisasse. Nunca precisei de nada. Não apenas nunca precisei de nada, as coisas jorravam em mim constantemente por todos os lados. Por isso eu disse para vocês que algo deu certo comigo desde o início.

              SS. Roy foi um dos meus professores mais amados, pela simples razão que ele era capaz de pedir-me para que me levantasse na aula e lhe explicasse algo que ele não podia entender. E eu tinha que fazê-lo. Certa vez lhe disse, “Roy Sahib” – essa era a forma que eu costumava chamá-lo – “não parece certo que você me pergunte, seu estudante.”

            Ele disse, “Se Pagal Baba podia tocar os seus pés e se Masta Baba não apenas tocava os seus pés mas tinha que satisfazer toda demanda racional e irracional sua” – e fui irracional desde o começo, realmente irracional – “então por que eu não poderia perguntar? Sou apenas um homem pequeno.”

            Encontrei centenas de professores, como colegas e conhecidos, mas S. S. Roy permanece à parte. Ele era tão autêntico que vocês não poderiam encontrar mais autenticidade em qualquer professor. E ele tinha tanto amor pelo o que eu costumava falar para ele que frequentemente ele me citava em suas aulas – e não somente utilizava, ele fazia referência a mim. É claro que os outros estudantes ficavam enciumados. Até mesmo os outros professores do departamento de filosofia ficaram enciumados. Vocês ficarão surpresos em saber que até a sua esposa estava enciumada.

            Fiquei sabendo por acaso. Um dia fui a sua casa e ela me disse, “O quê! Você começou a vir aqui? Ele está louco por causa de você. Desde que você chegou no departamento dele a nossa vida amorosa foi destruída. Nosso amor foi arruinado.”

            Eu disse, “Nunca mais virei a essa casa novamente, mas lembre-se, isso não vai consertar as coisas. Um dia você terá que vir até mim.” E eu nunca fui à sua casa novamente.

            Depois de um ano a sua esposa teve que vir até mim, e ela disse, “Perdoe-me. Por favor venha; apenas você pode nos reconciliar.”

            Eu disse, “O meu trabalho de separar ou reconciliar casais não começou ainda. Você terá que esperar.”

            Ela chorou e, portanto, eu tive que ir. Eu não disse nada a S. S. Roy. Apenas sentei do seu lado segurando a sua mão e parti depois de uma hora, sem dizer uma única palavra. E isso deu certo; a alquimia funcionou. Há uma mágica no silêncio.

            Quanto tempo falta?

            “Três minutos, Osho.”

            Bom, porque o máximo é o meu princípio. Toda a trindade está disponível… podemos fazer milagres.

            O tempo acabou? Então acabou.

 

Sessão 35

 

Ok. Ouvi Ravi Shankar tocando a cítara. Ele tem tudo o que alguém pode imaginar: a personalidade de um cantor, a maestria de seu instrumento e o presente da inovação, o que é raro em músicos clássicos. Ele está imensamente interessado no novo. Ele tocou com Yehudi Menuhin; nenhum outro tocador de cítara Indiana estaria pronto para fazê-lo, porque tal coisa nunca aconteceu antes. Cítara com violino? Vocês estão loucos? Mas os inovadores são um pouco loucos; é por isso que eles são capazes de inovar.

            As supostas pessoas sãs vivem vidas ortodoxas do café da manhã até a cama. Entre a cama e o café da manhã, nada deve ser dito – não que eu tenha medo. Estou falando sobre “elas.” Elas vivem de acordo com as regras; elas seguem as linhas.

            Mas os inovadores têm que estar fora das regras. Às vezes alguém tem que insistir em não seguir às linhas, apenas para não as seguir – e isso compensa, acreditem em mim. Compensa porque isso sempre te leva a um território novo, talvez do seu próprio ser. O meio pode ser diferente, mas a pessoa dentro de você, tocando a cítara ou o violino ou a flauta, é a mesma: rotas diferentes levando ao mesmo ponto, linhas diferentes do círculo levando ao mesmo centro. Os inovadores necessariamente serão um pouco loucos, não convencionais… e Ravi Shankar tem sido não convencional.

            Primeiro: ele é um pândita, um brâmane, e ele casou-se com uma mulher Islâmica. Na Índia não se pode nem sonhar com isso – um brâmane casando-se com uma mulher Islâmica! Ravi Shankar o fez. Mas não foi apenas qualquer mulher Islâmica, ela é filha do seu mestre. Isso é ainda mais não convencional. Isso quer dizer que por anos ele esteve escondendo do seu mestre. É claro que o mestre imediatamente permitiu o casamento, no momento em que ficou sabendo. Ele não apenas permitiu, ele arranjou o casamento.

            Ele também era um revolucionário e com um alcance muito maior que Ravi Shankar. Allauddin Khan era o seu nome. Fui vê-lo com Masto. Masto costumava levar-me às pessoas raras. Allauddin Khan certamente foi uma das pessoas mais únicas que já vi. Ele era muito velho; ele morreu apenas depois de completar o século.

            Quando o encontrei ele estava olhando para o chão. Masto também não disse nada. Fiquei um pouco intrigado. Belisquei Masto, mas ele permaneceu como se eu não o tivesse beliscado. Belisquei-o ainda mais forte, mas ainda assim ele permaneceu como se nada tivesse ocorrido. Então eu realmente o belisquei, e ele disse, “Ai!”

            Então vi aqueles olhos de Allauddin Khan – embora ele fosse tão velho que vocês poderiam ler a história nas linhas de sua face. Ele viu a primeira revolução na Índia. Isso foi em 1857, e ele relembra dela, então ele deveria ter uma certa idade para relembrar. Ele viu todo um século passando, e tudo o que ele fez todo esse tempo foi praticar a cítara. Oito horas, dez horas, doze horas todo dia; esse é o caminho Indiano clássico. É uma disciplina e a menos que você a pratique, logo você perde o controle sobre ela. É tão sutil… Ela está ali apenas se você está em um certo estado de preparação; caso contrário ela se vai.

            Diz-se que um mestre falou certa vez, “Se não pratico por três dias, a multidão nota. Se não pratico por dois dias, o especialista nota. Se não pratico por um dia, os meus discípulos notam. No que diz respeito a mim, não posso parar nem um momento. Tenho que praticar e praticar; caso contrário imediatamente noto. Mesmo de manhã, depois de um bom sono, noto que algo está perdido.”

            A música clássica Indiana é uma disciplina difícil, mas se for autoimposta ela lhe dará uma liberdade imensa. É claro que se vocês quiserem nadar no oceano vocês devem praticar. E se quiserem voar no céu, então naturalmente é aparente que uma disciplina imensa é necessária. Mas não pode ser imposto por outrem. Qualquer coisa imposta torna-se feia. Foi assim que a palavra disciplina ficou feia – porque ela tornou-se associada com o pai, a mãe, o professor, e todos os tipos de pessoas que não entendem nada sobre disciplina. Elas não conhecem o gosto da disciplina.

            O mestre estava falando, “Se não pratico mesmo por algumas horas, ninguém nota, mas é claro que noto a diferença.” É preciso praticar continuamente, e quanto mais você pratica, mais você se torna prático na prática; ela fica mais fácil. Vagarosamente chega um momento em que a disciplina não é mais uma prática, mas satisfação.

            Estou falando sobre música clássica, não sobre a minha disciplina. A minha disciplina é satisfação desde o começo, ou desde o início da satisfação. Falarei disso depois…

            Ouvi Ravi Shankar muitas vezes. Ele tem o toque, o toque mágico, que raríssimas pessoas têm no mundo. Foi por acidente que ele veio a tocar cítara; qualquer coisa que ele tocasse tornar-se-ia seu instrumento. Não é o instrumento, é sempre o homem. Ele apaixonou-se pela vibração de Allauddin, e Allauddin era de uma altura muito maior – milhares de Ravi Shankars juntos, costurados juntos, não alcançariam à sua altura. Allauddin certamente foi um rebelde – e não apenas um inovador, mas uma fonte original da música. Ele trouxe muitas coisas à música.

            Hoje quase todos os grandes músicos na Índia são seus discípulos. Não é sem razão. Todos os tipos de músicos vêm apenas para tocar os pés de Baba: citaristas, dançarinos, flautistas, atores, etc. Essa é a maneira que ele é conhecido, apenas como “Baba,” por que quem usaria o seu nome, Allauddin?

            Quando o vi ele já tinha mais de noventa anos. Naturalmente ele era um Baba; este tornou-se simplesmente o seu nome. E ele estava ensinando todos os tipos de instrumentos para muitos tipos de músicos. Você podia trazer qualquer instrumento e você o veria tocando como se ele não tivesse feito mais nada na vida do que tocar aquele instrumento.

            Ele vivia muito próximo da universidade onde eu estava, uma jornada de poucas horas. Eu costumava visitá-lo de vez em quando, sempre que não havia festival. Faço essa ressalva porque sempre haviam festivais. Eu devia ser o único que o perguntava, “Baba, você pode dar-me as datas quando não ocorrem festivais aqui?”

            Ele olhou para mim e disse, “Então agora você veio para pegar até mesmo esses dias?” E com um sorriso ele me deu três datas. Em todo o ano apenas três dias seriam sem festivais. A razão era que todos os tipos de músicos estavam com ele – Hindus, Islâmicos, Cristãos – e todos os festivais ocorriam ali, e ele permitia todos. Ele era, em um sentido real, um patriarca, um santo padroeiro.

            Eu costumava visitá-lo naqueles três dias, quando ele estava sozinho e não havia uma multidão em torno de si. Eu disse a ele, “Não quero o perturbar. Você pode sentar-se silenciosamente. Se você quiser tocar a sua vina tudo bem, ou qualquer coisa. Se você quiser recitar o Alcorão, eu amaria. Vim até aqui apenas para ser parte do seu milieu.” Ele chorou como uma criança. Levei um tempo para secar as suas lágrimas e perguntei, “Eu te machuquei?”

            Ele disse, “Não, de maneira nenhuma. Isso tocou tão profundamente o meu coração que não pude achar nada exceto chorar. E sei que não devo chorar: sou velho e é inapropriado – mas alguém precisa ser apropriado em todos os momentos?”

            Eu disse, “Não, pelo menos não quando estou aqui.” Ele começou a rir, e as lágrimas em seus olhos, e o riso em sua face… ambos juntos foram uma alegria imensa.

            Masto trouxe-me a ele. Por quê? Vou dizer apenas algumas poucas coisas antes de respondê-lo…

            Ouvi Vilayat Khan, outro grande citarista – talvez um pouco maior que Ravi Shankar, mas não um inovador. Ele é totalmente clássico, mas ouvindo-o até eu amo música clássica. Ordinariamente não amo nada clássico, mas ele toca tão perfeitamente que é impossível. Você tem que amar, não está em suas mãos. Uma vez que a cítara está nas mãos dele, você não está em suas próprias mãos. Vilayat Khan é pura música clássica. Ele não permitirá nenhuma poluição; ele não permitirá nada popular. Quero dizer “pop,” porque no Ocidente, a menos que você diga pop ninguém entenderá o que é popular. É somente o velho “popular” cortado – cortado errado, sangrando.

            Ouvi Vilayat Khan, e eu gostaria de contar-vos uma história de um dos meus mais ricos discípulos. Era cerca de 1970, porque desde então nunca mais ouvi nada deles. Eles ainda estão por aí – perguntei sobre o bem-estar deles – mas sannyas tem tornado muita gente medrosa, particularmente os ricos.

            Essa família era uma das mais ricas da Índia. Fiquei maravilhado quando a esposa contou-me, “Você é o único homem que posso dizê-lo: por dez anos estive apaixonada por Vilayat Khan.”

            Eu disse, “O que está errado com isso? Vilayat Khan? – nada está errado.”

            Ela disse, “Você não entende. Não estou falando da sua cítara; estou falando dele.”

            Eu disse, “É claro. O que você faria com a cítara dele sem ele?”

            Ela bateu na sua cabeça com as mãos e disse, “Você não entende nada?”

            Eu disse, “Olhando para você, parece que não. Mas entendo que você ama Vilayat Khan. Está perfeitamente bem. Estou apenas dizendo que não há nada de errado nisso.”

            À primeira vista ela olhou para mim descrente, porque na Índia, se vocês disserem isso a um homem religioso – uma esposa Hindu apaixonando-se por um músico Islâmico, um cantor ou dançarino – vocês não terão sua bênção, isso é certo. Ele pode não amaldiçoar vocês, mas é quase certo que o fará; se ele puder perdoar, até isso seria muito moderno, ultramoderno.

            “E,” eu disse a ela, “não há nada errado nisso. Ame, ame qualquer um que você quiser amar. E o amor não conhece barreiras de casta e credo.”

            Ela olhou para mim como se eu fosse o apaixonado, e ela a santa que eu estava conversando. Eu disse, “Você está olhando para mim como se eu tivesse me apaixonado por ele. Isso também é verdade. Também amo a forma que ele toca – mas não o homem.” O homem é arrogante, o que é muito comum em artistas.

            Ravi Shankar é ainda mais arrogante, talvez porque ele seja um brâmane também. Isso é como ter duas doenças juntas: música clássica e ser um brâmane. E ele tem uma terceira dimensão da sua doença também, porque ele casou-se com a filha do grande Allauddin; ele é seu genro.

            Allauddin era tão respeitado que somente ser seu genro era prova suficiente que você era grande, um gênio. Mas infelizmente para eles eu já tinha ouvido Masto também. E no momento em que o ouvi eu disse, “Se o mundo conhecesse você ele esqueceria e também perdoaria todos esses Ravi Shankars e Vilayat Khans.”

            Masto disse, “O mundo nunca me conhecerá. Você será meu único ouvinte.”

            Vocês ficarão surpresos em saber que Masto tocava muitos instrumentos. Ele era um gênio realmente versátil, uma mente muito fértil, e ele podia fazer qualquer coisa bela do nada. Ele pintava tão sem sentido que mesmo Picasso não o faria, e tão belo que certamente Picasso não poderia fazer. Mas ele simplesmente destruía as suas pinturas dizendo, “Não quero deixar nenhuma pegada na areia do tempo.”

            Mas às vezes ele costumava tocar com Pagal Baba, então lhe perguntei, “E Baba?”

            Ele disse, “A minha cítara é reservada para você; nem mesmo Baba a ouviu. Alguma outra coisa está reservada para Baba, então por favor não me pergunte. Você pode não a ouvir.”

            Naturalmente eu queria saber o que era. Eu estava curioso, mas eu lhe disse, “Vou manter a minha curiosidade para mim mesmo. Não vou perguntar a ninguém – apesar de eu poder perguntar a Baba e ele não poder mentir para mim, mas não vou perguntar, prometo-lhe isso.”

            Ele riu e disse, “Nesse caso, quando Baba não estiver mais no mundo, então também tocarei aquele instrumento para você, porque somente então eu poderei tocá-lo para você ou para alguém, e não antes.”

            E no dia em que Pagal Baba faleceu, a primeira coisa que veio na minha mente foi, “Qual é aquele instrumento? Agora é a hora…” Condenei a mim mesmo, amaldiçoei a mim mesmo, mas isso importava? A única coisa que continuava aparecendo para mim várias vezes era, “Qual é o instrumento de Masto?”

            A curiosidade é algo muito profundo no ser humano. Não foi a serpente que persuadiu Eva; foi a curiosidade que a persuadiu, e também a Adão, e assim por diante… até agora. Acho que ela vai seguir persuadindo as pessoas para sempre. Elas perseguem à curiosidade. É um fenômeno estranho. É claro que não era algo importante. Eu tinha ouvido Masto tocando outros instrumentos; talvez ele fosse ainda mais proficiente neste, mas e daí? Um homem havia falecido e você está pensando no instrumento que Masto tocará para você agora… isso é humano.

            É bom que as pessoas não tenham janelas nos topos de suas cabeças; caso contrário todo mundo veria o que está acontecendo. Então haveria um problema real, porque o que elas fingem estar em suas faces é totalmente diferente; é apenas uma persona, uma máscara. O que elas são dentro? – uma corrente de mil coisas.

            Se tivéssemos janelas em nossas cabeças seria muito difícil viver. Mas considerei a ideia… ela ajudaria tremendamente as pessoas ficarem em silêncio, de modo que qualquer um poderia olhar em suas cabeças e ver que não há nada para ver. Os silenciosos poderiam sorrir olhando para os seus vizinhos e dizer, “Olhem, meninos, olhem. Olhem o quanto quiserem.” Mas a cabeça não tem janelas. Ela é completamente selada.

            Na morte de Baba eu pensava apenas no instrumento de Masto. Desculpem-me, mas decidi contar toda a verdade qualquer que ela seja. E prestem atenção, vou contá-la não importando quanto tempo leve. Devageet, Devaraj e Ashu – pode levar anos para que eu a conte e então pedirei que vocês finalizem o livro rapidamente, então não o empilhe.

            Não dependa de maneira alguma dos amanhãs. Faça hoje; somente então vocês serão capazes de fazê-lo. Sem saber vocês caíram em uma armadilha. E vocês pensam que eu caí em uma armadilha de rato? Esqueça-o. Eu peguei todos vocês três, e agora a armadilha vai tornar-se mais apertada a cada dia; não há escapatória.

            Sim, uma mulher – que entrará em algum lugar na história porque ela significa muito para mim – ela me disse algo similar. Ela é estranha de uma maneira; tudo o que ela me deu foi o primeiro: o primeiro relógio, a primeira máquina de escrever, o primeiro carro, o primeiro toca-fitas, a primeira câmera. Não consigo acreditar como ela conseguiu, mas tudo era o primeiro. Vou falar para vocês dela mais tarde. Lembrem-me quando o momento chegar.

            Ela me disse que a única coisa pesada em seu coração era que quando a mãe do seu marido morreu ela sentiu fome.

            Eu disse, “O que tem de errado em sentir fome?”

            Ela disse, “Você acha que é certo? A mãe do meu marido está morta, esticada na minha frente, e eu só senti fome, e pensava apenas em comida boa: paratha, bhajia, pulau, rasogulla. Eu nunca disse a ninguém,” ela me disse, “porque eu pensava que ninguém iria perdoar-me.”

            Eu disse, “Não há nada de errado nisso. O que você poderia fazer? Você não a matou. De qualquer forma, é preciso começar a comer mais cedo ou mais tarde – quanto antes melhor. E quando alguém está prestes a comer é preciso pensar naquilo que é do seu gosto.”

            Ela disse, “Você tem certeza?”

            Eu disse, “Quantas vezes terei que dizê-lo?”

            No momento em que ela me contou eu novamente lembrei como ela deve ter se sentido, porque lembrei de Baba morrendo e o primeiro pensamento que me veio. Os pensamentos são realmente pessoas estranhas…  pensei comigo mesmo, “Qual o instrumento que Masto toca?” É claro que no momento em que vi Masto eu disse, “Agora…”

            Ele disse, “Ok.”

            Nenhuma outra palavra passou entre nós. Ele entendeu, e pela primeira vez  tocou a vina para mim. Ele nunca a tinha tocado para mim antes. É um tipo de violão, mas mais complicada, e alcançando, claro, alturas que nem mesmo a cítara pode alcançar, e também as profundezas que as cítaras deixam apenas no meio do caminho.

            Eu disse, “A vina! Masto, você queria esconder essa experiência de mim?”

            Ele disse, “Não, não, nunca. Mas quando eu estava com Baba e não lhe conhecia ainda, prometi a ele que eu não tocaria esse instrumento para mais ninguém enquanto ele estivesse vivo. Agora para mim você é Pagal Baba; essa é a maneira que sempre pensarei em você. Agora posso tocar para você. Eu não estava escondendo nada de você, mas eu não lhe conhecia de forma alguma quando esta promessa foi feita. Agora ela terminou.”

            Por um momento eu não pude acreditar nos meus próprios ouvidos o quanto ele estava escondendo. Eu disse, “Masto, você sabe que isso não é uma coisa boa entre dois amigos.”

            Ele olhou para baixo e não disse nada. Foi a primeira vez na minha vida que o vi naquele humor.

            Eu lhe disse, “Não. Não é necessário ficar arrependido, nem é necessário sentir tristeza. O que aconteceu, aconteceu; não tem mais nada a ver conosco.”

            Ele disse, “Eu não estava arrependido, estava envergonhado. Sei que ficar arrependido é muito fácil de lavar, mas envergonhar-se… você pode lavá-la, mas de novo ela estará ali. Você pode lavá-la mais uma vez, ela ainda estará ali.”

            O sentimento de vergonha acontecesse apenas àqueles que são realmente grandes. Ele não ocorre às pessoas ordinárias; elas não sabem o que quer dizer estar envergonhado. De repente lembrei-me de uma coisa…

            Que horas são?

            “Dez e vinte dois, Osho.”

            Ok.

            Não me lembrei do tempo. Nunca me lembro do tempo, e vocês sabem disso. Às vezes isso se torna demais. Vocês estão com fome, prontos para correrem até Madalena… e eu ainda estou falando. Obviamente vocês não me podem parar. Somente eu posso parar-me. Não apenas isso, eu até digo a vocês pararem quando eu disser “Pare.” É apenas um velho hábito. Não, me lembrei de outra coisa, não do tempo.

            Masto estava ficando na casa da minha Nani. Essa era a minha casa de hóspedes. Na casa do meu pai não havia lugar nem para o anfitrião, o que dizer do hóspede. Ela era tão superpovoada – não acho que a Arca de Noé era mais superpovoada. Todos os tipos de criaturas estavam ali. Que mundo! Sim, era quase um mundo. Mas a casa da minha Nani era quase vazia: da forma que gosto das coisas, vazias.

            A palavra Inglesa ‘vazio’ não é a forma de exprimir o que quero dizer. A palavra é shunya – e por favor não pensem no Doutor Eichling, porque o seu nome, o nome que lhe dei é Shunyo. Mas o pobre Eichling parece ser Chinês ou algo assim. Que tipo de nome é esse: I-kling? Ele não pode ser Americano e quando cortou a sua barba ele parecia exatamente como um Chinês. Apenas por acaso me deparei com ele. Eu não podia nem o reconhecer.

            Eu disse, “O que aconteceu com você?”

            Gudia lembrou-me, dizendo, “É o Shunyo.”

            Eu disse, “Foi bom que você lembrou-me; caso contrário eu teria batido nele. Ele parece exatamente com um Chinês. Por que você cortou a barba?” Perguntei-lhe.

            Ele disse, “Porque vou praticar em Madras.”

            Eu disse, “Meu Deus! É necessário cortar a barba para praticar em Madras?”

            De fato, se vocês olharem para a história da medicina, todos os grandes doutores por alguma razão desconhecida têm barba. Talvez eles não tenham tempo para cortá-la, ou talvez eles não têm esposas, então quem liga? Eu perguntei-lhe, “Quem lhe deu a ideia que para ser um doutor na América você tem que cortar a sua barba? E de Shunyo você tornou-se Doutor Eichling de novo? Você é um gato ou algo do tipo? Eles dizem que um gato tem nove vidas, quantas vidas você tem, Senhor Eichling?”

            A casa da minha Nani era realmente shunyo. Ela era tão vazia, como um templo deve ser, e ela a mantinha tão limpa. Eu gosto de Gudia por muitas razões; uma delas é que ela mantém tudo muito limpo. Ela encontra falhas até em mim! E naturalmente, se ela encontra uma falha – no que diz respeito à limpeza – sempre concordo com ela. Ela tem a mesma sensibilidade da minha Nani. Talvez um homem não possa ter essa qualidade que uma mulher tem naturalmente. Ver uma mulher suja é muito terrível. Ver um homem sujo é ok, é possível tolerá-lo – afinal de contas, ele é apenas um homem. Mas uma mulher sem perceber mantém a si mesma e seus arredores limpos. E Gudia é Inglesa, Inglesa legítima. Existem apenas duas pessoas Inglesas legítimas, Gudia e Sagar… no mundo inteiro quero dizer.

            A minha Nani era tão preocupada com limpeza que, no que diz respeito a ela, Deus estava próximo da limpeza. O dia todo ela estava limpando… para quem? Apenas eu estava lá. Eu vinha à noite; de manhã eu saia. E o dia todo a pobre mulher mantinha-se ocupada com a limpeza.

            Uma vez lhe perguntei, “Você não cansa? E ninguém está lhe dizendo para fazer tudo isso.”

            Ela disse, “A limpeza ajudou-me muito. Tornou-se quase uma oração. Você é o meu convidado. Você não vive mais aqui, vive? – você é um convidado. Tenho que preparar a minha casa para o convidado.” Na Índia eles falam, “O convidado é deus…” Ela disse, “Você é meu deus.”

            Eu disse, “Nani, você está louca? Sou seu deus? Você nunca acreditou em nenhum deus.”

            Ela disse, “Eu só acredito no amor, e o encontrei. Agora você é o único convidado no meu templo de amor. Tenho que mantê-lo o mais limpo possível.”

            A casa dela tornou-se uma hospedaria, não apenas para mim, mas também para os meus convidados. Sempre que Masto vinha, ele costumava ficar na casa dela. E a minha Nani servia qualquer pessoa que eu trouxesse à sua casa como um convidado, como se a pessoa realmente significasse muito para ela.

            Eu lhe disse, “Você não precisa ficar tão preocupada.”

            Ela disse, “Eles são os seus convidados, então tenho que cuidar, cuidar mais do que eu cuidaria dos meus próprios convidados.”

            Eu nunca vi a minha Nani falando com Masto. De vez em quando eu via eles sentados juntos, mas nunca os vi conversando. Era estranho.

            Perguntei para Nani, “Por que você não fala com ele? Você não gosta dele?”

            Ela disse, “Eu gosto muito dele, mas não há nada a dizer. Não tenho nada a perguntar; ele também não tem nada a perguntar. Simplesmente acenamos com a cabeça e sentamo-nos silenciosamente. Com você eu falo. Tenho que perguntar muitas coisas, e você tem muitas coisas para me dizer. Com você falar é belo.”

            Entendi que eles se relacionavam de uma forma diferente. A forma que eu me relacionava com ela era diferente, e certamente não era uma via única. Desde aquele dia a fala tornou-se cada vez mais escassa entre nós, até que finalmente cessou. Então costumávamos sentar-nos por horas. A casa dela era realmente bela. Ela era do lado do rio, e no momento que digo “rio”, algo em meu coração imediatamente começa a cantar músicas.

            Nunca verei aquele rio novamente, mas não há necessidade, porque sempre que fecho os meus olhos eu posso vê-lo. Ouvi dizer que agora o lugar não tem mais a mesma beleza. Nas suas proximidades muitas casas surgiram, lojas abriram; tornou-se um mercado. Não, eu não gostaria de ir até lá. Mesmo se tivesse que ir eu fecharia os meus olhos apenas para ver o lugar belo que era – árvores altas e um pequeno templo… ainda posso ouvir o sino tocando.

            Há alguns dias atrás alguém me trouxe alguns sinos, alguns sinos estranhos, os tipos que não são conhecidos na maior parte do mundo. Eles são Tibetanos. Apesar de serem feitos na Califórnia, o design é Tibetano. Não apenas isso, apesar de terem sido feitos na Califórnia eles certamente foram melhorados. Os sinos Tibetanos são ordinariamente crus, mas esses são muito refinados e feitos de vidro. Permitam-me descrevê-los para vocês.

            Eles não são como quaisquer outros sinos que vocês podem conceber. Eles são como pratos, muitos pratos enfileirados para que quando o vento os mover eles batam um no outro, e o som realmente vale a pena ser ouvido. Eles são sinos belos. De vez em quando a Califórnia certamente faz algumas coisas belas; do contrário eles são todos Californíacos. Mas de vez em quando eles fazem alguma coisa realmente boa.

            Eu vi muitos tipos de sinos. Um lama Tibetano em Kalimpong mostrou-me um sino Tibetano que nunca esquecerei. Vale a pena mencioná-lo a vocês. Talvez vocês nunca verão tal coisa porque esses sinos são partes do Tibete que está desaparecendo. Em breve eles desaparecerão completamente. O sino que vi certamente era estranho.

            Eu só tinha visto sinos na Índia e sempre associei a palavra ‘sino’ com o sino Indiano. Ele é pendurado no teto e há um pequeno bastão dentro que vocês batem contra o lado do sino. Serve para acordar o deus que continuamente vai dormir. Posso entender sua beleza – que mesmo Deus deve ser acordado, o que dizer do ser humano. Mas esse sino Tibetano era totalmente diferente. Ele tinha que ser colocado no chão, não pendurado no teto.

            Eu disse, “É um sino? Não parece um.”

            O lama riu, “Espere e verá,” ele disse. “Não é apenas um sino mas um sino especial.”

            E ele pegou um pequeno bastão redondo de madeira da sua bolsa. Então começou a esfregar o bastão muitas vezes em torno do suposto sino, que parecia um vaso. Depois de circulá-lo algumas vezes ele bateu no sino em um ponto certo que estava marcado e, estranhamente, o sino repetiu todo o mantra Tibetano, Om Mani Padme Hum. Não pude acreditar quando o ouvi pela primeira vez. Ele repetia o mantra tão claramente.

            Ele disse, “Você encontrará esse tipo de sino em todo monastério Tibetano, porque nós não podemos repetir o mantra tão frequentemente como deveríamos, mas podemos pelo menos fazer o sino repetir o mantra.”

            Eu disse, “Ótimo, então esse não é um sino burro.”

            Ele disse, “De maneira alguma. E se você o bater no lugar errado você descobrirá que ele também grita. Ele repetirá o mantra quando você bater no lugar certo; caso contrário ele berra e grita, e faz todos os tipos de sons, mas nunca o mantra.”

            Eu estive em Ladakh, um país entre a Índia e o Tibete. Talvez agora Ladakh tornar-se-á o país religioso mais importante do mundo, como o Tibete o fora certa vez. O Tibete acabou, assassinado, massacrado. Em Ladakh eu vi os mesmos sinos, mas muito maiores, do tamanho de uma casa. Vocês podem entrar dentro deles, segurar o bastão suspenso e, então, batendo-o nos pontos certos vocês podem criar qualquer mantra que quiserem. É apenas uma questão de conhecer a linguagem do sino. É quase como um computador.

            O que eu estava falando, Devageet?

            “Você estava falando sobre como Nani nunca costumava falar com Masto, eles apenas sentavam-se silenciosamente…”

            Certo, então devemos nos sentar silenciosamente agora… então dez minutos para mim. Pelo amor de Deus – ele existindo ou não – relaxem apenas.

            Satyam Shivam Sundaram… Eu não sou, e vocês estão tentando alcançar-me. Todos podem ver. Vocês veem? Eu não sou. Continuem por apenas alguns minutos, somente dois minutos, porque estou esperando por algo, então estejam alertas. Sim… Bom…

            Não, Devageet. Você seria uma boa esposa, até eu riria, mas não devo.

            Pare.

           

 

           

 

Publicado por rafaelsc

"Ensinar não é encher um balde, é acender um fogo" Yeats "Creio porque é absurdo" Tertuliano "Seja uma luz para si próprio" Buda “Sentando-se quieto, sem fazer nada, a primavera vem e a grama cresce, por si só." Matsuo Bashō "O silêncio e a risada são a chave – silêncio dentro, risada fora" Osho

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