Sessão 28

 

Ok. O barulho que vocês estão fazendo é suficiente para fazer qualquer um dizer ok. Obrigado. Agora posso realmente dizer ok. Eu estava ouvindo novamente agora, não a Hariprasad Chaurasia, mas outro flautista. Na Índia a flauta tem duas dimensões: uma, a sulista; a outra, nortista. Hariprasad Chaurasia foi um flautista nortista; eu estava ouvindo o oposto polar, o sulista.

            Este homem também me foi apresentado por Pagal Baba. Quando me apresentou ele disse ao instrumentista, “Você pode não entender por que estou lhe apresentando a esse garoto; pelo menos agora você não entenderá, mas talvez um dia, se Deus quiser, você poderá entender.”

            Este homem toca a mesma flauta, mas de uma forma totalmente diferente. A flauta sulista é muito mais penetrante, perfurante para ser exato. Ela entra e incita algo em sua própria medula. A flauta nortista é tremendamente bela, mas um pouco murcha – assim como a Índia do norte é murcha.

            O homem olhou para mim, intrigado. Ele pensou por um momento, então disse, “Baba, se você está me apresentando a ele deve haver alguma coisa. Não posso entender; esta é a minha mediocridade, e sou imensamente grato por você ser tão amável comigo e não me apresentar somente o presente, mas até mesmo o futuro.”

            Ouvi-o apenas algumas vezes porque nunca nos conectamos diretamente – a conexão permaneceu via Pagal Baba. O flautista costumava visitá-lo. Se por um acaso eu estivesse lá, então é claro que ele dizia olá para mim. Baba sempre ria e dizia, “Toque os pés dele, seu tolo! ‘Olá’ não é a forma de cumprimentar esse garoto.”

            Ele o fazia relutantemente, e eu podia ver a sua relutância, por isso não estou mencionando o seu nome. Ele ainda está vivo e pode sentir-se ofendido, porque não era por amor que ele tocava os meus pés, mas porque Pagal Baba o ordenava. Ele tinha que tocar os meus pés.

            Eu ri e disse, “Baba, posso golpear esse homem?”

            Ele disse, “É claro.”

            E vocês podem imaginá-lo – conforme ele tocava os meus pés eu dei um tapa em seu rosto!

            Isso me faz lembrar de uma carta que Devageet me escreveu. Sabia que ele iria chorar. Eu sabia. Como eu sabia mesmo antes dele escrevê-la? Mesmo se ele não a tivesse escrito eu saberia. Eu conheço a minha gente. Eu sei quem me ama, quer elas falem ou não. E o que realmente me tocou foram as suas palavras: “Você pode me golpear o quanto quiser, isso não dói; o que dói é quando não estou dando risinhos você diz, ‘Devageet, não tente me enganar…’ Isso dói. É a aparente injustiça disso que dói.” Essas foram as palavras que ele usou. Gudia, acho que essas foram as palavras – ‘aparente injustiça’. Estou certo, Gudia?

            “Sim, Osho.”

            Ok, porque Gudia teve que ler a carta para mim.

            Não leio nada há anos porque os doutores falaram que se eu ler tenho que usar óculos, e odeio óculos. Não consigo pensar em mim mesmo usando óculos. Eu preferiria fechar os meus olhos. Não quero criar nenhuma barreira, mesmo a do vidro transparente, entre eu e aquilo que me cerca. Então tenho que depender de alguém para ler para mim.

            As palavras ‘aparente injustiça’ mostram exatamente o seu coração. Ele sabe que é apenas aparente, mas certamente parece injusto quando você não está dando risinho e, de repente, eu digo, “Devageet, não dê risinhos!” Naturalmente ele está chocado – e o pobre Devageet está apenas tomando as suas notas.

            De novo lembro-me de Pagal Baba, porque eu estava falando dele essa manhã e continuarei. Ele costumava falar sentenças aparentemente sem sentido para as pessoas – e não apenas isso, às vezes ele realmente as golpeava! Não como eu, literalmente, realmente. Eu não bato realmente, não porque não quero, mas apenas porque sou totalmente preguiçoso. Tentei uma vez ou outra; então a minha mão doeu. Eu não sei se a pessoa aprendeu algo ou não, mas a minha mão disse, “Por favor não tente esse truque novamente.”

            Mas Pagal Baba costumava bater sem nenhuma razão. Alguém podia estar sentado do seu lado e ele daria um bom tapa na pessoa. A pessoa não havia feito nada, ela não tinha nem falado alguma coisa. Às vezes as pessoas objetavam que era injusto, e diziam a Pagal Baba, “Baba, por que você me bateu?”

            Ele ria e dizia, “Você sabe que sou um pagal, um louco.” Essa explicação era suficiente no que dizia respeito a ele. Essa explicação não funcionaria para mim… tão louco que mesmo os mais inteligentes não podem decifrar que tipo de loucura é. Pagal Baba era um louco simples; sou um louco multidimensional.

            Então, se às vezes você sente que é aparentemente injusto, então lembre-se da palavra ‘aparente’. Eu não posso fazer nada injusto, particularmente para aqueles que me amam. Como o amor pode ser injusto? Mas “aparentemente’… talvez tenha que ser muitas vezes. Ninguém nunca sabe os caminhos das pessoas como eu. Posso estar golpeando Ashu e realmente mirando em Devaraj. É um fenômeno muito complicado. Ele não pode ser computadorizado.

            É tão complicado que não acho que nenhum computador tornar-se-á um mestre. O computador tornar-se-á tudo – um engenheiro, um doutor, um dentista, tudo o que é possível – e ser mais eficiente do que qualquer ser humano pode ser. Mas existem apenas duas coisas que um computador não pode fazer: a primeira é, ele não pode estar vivo. Ele pode murmurar com barulhos mecânicos, mas não pode estar vivo. Ele não pode conhecer o que a vida é.

            A segunda é um corolário da primeira: ele não pode tornar-se um mestre. Conhecer a vida é ser um mestre. Apenas estar vivo é uma coisa; todo mundo está. Mas voltar-se para si próprio, para conhecer o seu próprio ser, ver o vidente, ou conhecer o conhecedor – é isso o que quero dizer por voltar-se para si próprio – então a pessoa torna-se um mestre. Um computador não pode voltar-se para si próprio; isso não é possível.

Devageet, a sua carta era bela – e você chorou. Sinto-me feliz por isso. Qualquer coisa autêntica é útil de alguma forma, e nada pode ser tão autêntico como as lágrimas. Sim, existem carpideiras profissionais, mas elas têm que usar truques.

            Na Índia acontece quando alguém morre – talvez uma pessoa velha rejeitada e que todo mundo está feliz, mas ninguém pode mostrar a sua felicidade. Então as carpideiras são chamadas, particularmente nas cidades grandes como Bombai, Calcutá, Madras e Nova Delhi. Elas têm até a sua própria associação. Você só tem que ligar para elas, dizer quantas carpideira você quer, e elas vão – e elas realmente choram. Elas podem derrotar qualquer choro real porque elas são pessoas tecnicamente treinadas, e muito eficientes, e sabem todos os truques. Elas usam certos remédios, colocando-os debaixo de seus olhos, e isso é suficiente para as lágrimas começarem a fluir. E é um fenômeno muito estranho: quando as lágrimas começam a fluir a pessoa de repente se sente triste.

            Na psicologia há um longo argumento, ainda sem decisão: “O que vem primeiro… um ser humano corre por causa do medo, ou sente medo por que corre?” E há concorrentes de ambos os lados. “O medo cria a corrida,” é uma posição, “a corrida cria o medo,” a outra. Mas, de fato, é o mesmo ponto; ambos estão juntos.

            Se você está triste, as lágrimas vêm. Se as lágrimas vêm, por qualquer razão, até mesmo lágrimas químicas, vamos chamá-las de lágrimas artificiais – então também, apenas por causa da herança instintiva, você se sentirá triste. Eu vi essas carpideiras realmente chorando profundamente e você não pode dizer que elas estão dissimulando; até elas mesmas podem ser enganadas.

            Lágrimas de amor é a experiência mais preciosa. Você chora, eu fico feliz… porque você poderia ficar bravo, mas não está. Você poderia estar aborrecido, irritado, mas não está. Você chora, isso é como deve ser. Mas lembre-se, eu vou continuar fazendo o mesmo repetidas vezes: tenho que fazer o meu trabalho.

            Como dentista você sabe perfeitamente o quanto dói, mas ainda assim você tem que fazê-lo. Não que você queira que doa, mas você tem anestesia, você tem certos gases; você pode tornar uma parte local quase insensível ou pode tornar a pessoa toda inconsciente.

            Mas eu não tenho nada; tenho que fazer toda a minha cirurgia sem qualquer anestesia. Apenas abrir o estômago ou cérebro de alguém, sem tornar a pessoa inconsciente, o que aconteceria? A dor seria muito grande; ela mataria a pessoa, ou pelo menos a deixaria louca. Ela pularia da mesa, talvez deixando o seu esqueleto para trás e correria para casa o mais rápido possível; ou ela poderia matar o doutor. Mas o meu trabalho é assim. Não há possibilidade de fazer o meu trabalho de outra maneira.

            Ele tem que ser “aparentemente injusto.” Mas você mencionou a palavra ‘aparente’; isso é suficiente para satisfazer-me pois, embora machuque, você entende o meu amor. Permitam-me repetir muitas vezes, para que vocês não se esqueçam: Vou fazê-lo muitas vezes mais!

            Você devia estar realmente com medo, porque você escreveu um P.S. e um P.P.S. também, dizendo que, “Nunca nem sonhei que estaria tão próximo de você, ou que este trabalho seria dado a mim. Amo tomar notas.” E o P.P.S., “Por favor não pare este trabalho nunca.”

            Ele deve ter ficado com medo que eu pudesse parar, pensando que isso o machuca. Machuca Ashu também, embora ela não tenha escrito uma carta – ainda. Mas um dia ela escreverá, eu prevejo, talvez amanhã.

            Simplesmente sigo golpeando desse lado e daquele. Porque vocês dois estão um em cada lado, naturalmente vocês recebem a maioria dos golpes. Este tem sido o meu caminho: aqueles que estão mais próximos de mim foram mais golpeados. Mas eles cresceram também; eles tornaram-se mais integrados com cada golpe que absorveram. Ou fugiram ou tiveram que crescer. Cresça ou morra. Se você crescer – é isso o que quero dizer com integração, ou cristalização – somente então você vive. Se não – lembrem-se da morte de cão – morra; a morte ocorre a todo momento.

            A carta era bela em muitos sentidos. Gudia, devolva a carta para ele depois para que ela possa tornar-se uma nota de rodapé em suas notas, ou uma parte dos muitos apêndices que se seguirão.

            Novamente Pagal Baba… é isso o que chamo mover-se em círculos. Ele me apresentou a muitos outros músicos, não apenas àqueles flautistas. Ele era o músico dos músicos. Ordinariamente as massas não tinham ideia; apenas os grandes músicos sabiam que ele podia fazer música com qualquer coisa. Eu o vi tocar com qualquer coisa possível – somente uma rocha, e ele começaria batendo-a em seu kamandala. Um kamandala é um pote que os sannyasins Hindus carregam para água, alimentos, etc. Ele batia no seu kamandala com qualquer coisa, mas ele tinha um sentido de música que até mesmo a sua kamandala tornar-se-ia uma cítara.

            No mercado ele compraria uma flauta de brinquedo para crianças – você poderia comprar uma dúzia por apenas uma rúpia – e começaria a tocar. Daquela flauta crua sairia notas tais que mesmo um músico olharia para tudo com os olhos bem abertos, chocado, pensando, “Isso é possível?”

            Tenho que dizer a vocês o nome do flautista sulista que mencionei no começo; caso contrário isso permanecerá em meu peito, e quero desabafar completamente antes de partir, para que eu possa partir assim como vim – com nada, nem mesmo uma memória. Esse é todo o propósito dessas memórias. O nome do flautista era Sachdeva, um dos mais conhecidos flautista do sul da Índia. Mencionei três flautistas, todos apresentados a mim por Pagal Baba. Um homem, Hariprasad Chaurasia, do norte da Índia onde eles tocam um tipo diferente de música para flauta; outro de Bengala, Pannalal Ghosh – ele também toca um tipo diferente de flauta, muito masculina, muito alta e poderosa. A flauta de Sachdeva é quase silenciosa, feminina, o oposto de Pannalal Ghosh. Sinto-me bem que mencionei o seu nome – agora depende dele o que ele fará com isso.

            Devageet diz em sua carta, “Osho, confio em você…” Eu sei – não há dúvidas sobre isso – caso contrário por que eu lhe bateria tanto? E lembre-se, uma vez que confio em alguém nunca desconfio dessa pessoa. Não importa o que essa pessoa faz a mim – a minha confiança permanece, não importando o que a pessoa fez.

            A confiança é sempre incondicional. Conheço o amor de vocês, e confio em todos; caso contrário esse trabalho não seria dado a vocês. Mas lembrem-se, isso não significa que mudarei de maneira alguma. Com carta ou sem carta, com P.S. ou sem P.P.S; permanecerei o mesmo. Às vezes subitamente falarei, “Devageet, por que você está dando risinhos?” Agora você está dando risinhos e não o estou golpeando. Às vezes farei você chorar. Esse é o meu trabalho.

            Vocês conhecem o meu trabalho, eu conheço o meu trabalho – e é muito mais difícil. Não é apenas perfurar, é perfurar sem anestesia, nem mesmo um analgésico. Não é apenas perfurar o dente, é perfurar o seu próprio ser. Isso dói, realmente dói. Desculpem-me, mas nunca me peçam para mudar minhas estratégias. E na sua carta você não pediu isso. Estou dizendo apenas para o benefício dos outros presentes.

            Ashu, amanhã esperarei pela sua carta. Vamos ver o que acontece. Então Devageet vai realmente dar risinhos!

            Amado Mestre,

            Estou sentado aqui na Arca de Noé chorando e me perguntando o que fazer.

            Quando Você está aqui, e estou vazio de tudo exceto das Suas palavras e presença derramando-se através de mim; é a maior satisfação que conheci.

            Então você golpeia – do nada! Você diz que estou dando risinhos… quando, por exemplo, esta manhã suprimi um espirro. Em outros dias alguns suspiros escapam dos meus lábios… O que fazer? Suspiro quando Você está perto… novamente Você me diz que estou dando risinhos. Quando você me acusa de enganá-Lo ao fingir estar tomando as Suas notas, isso é demais.

            Amo escrever essas notas mais do que qualquer coisa na minha vida. Escrevê-las é um prazer, um presente acima de qualquer possibilidade que a minha mente pode conceber.

            Você tem me chamado de tolo – e isso está obviamente certo – talvez nunca mais do que agora. Mas sou inteiramente o Seu tolo. Eu nunca Lhe enganei, traí, nunca dei risinhos ou sussurrei para enganá-Lo, e sempre Lhe dei o máximo… E a dor do golpe não é da pancada, mas da sua aparente injustiça.

            Amado Mestre, sou o Seu tolo e nunca mais que isso nesse momento.

            Amo Você,

            Devageet

            Amado Mestre, P.S. Obrigado por me destruir, parece que isso me permite amá-Lo ainda mais profundamente.

            Devageet

            P.P.S. Por favor, continue o bom trabalho… para sempre.

 

 

Sessão 29

 

Toda a noite o vento seguiu soprando nas árvores. O som era tão belo que toquei Pannalal Ghosh, um dos flautistas que Pagal Baba apresentou a mim. Agora eu também estava tocando a sua música, mas ele tem um modo próprio. A sua introdução é muito longa, então antes de Gudia chamar-me ainda era apenas a introdução; quero dizer que ele ainda não tinha começado a tocar a sua flauta. A cítara e a tabla estavam preparando o terreno para ele tocar a sua flauta. Na noite de ontem ouvi a sua música novamente depois de, talvez, dois anos.

            É possível falar sobre Pagal Baba apenas de uma maneira indireta; esta era a qualidade do homem. Ele estava sempre em colchetes, muito invisível. Ele apresentou-me a muitos músicos, e sempre lhe perguntei o porquê. Ele disse, “Um dia você será um músico.”

            Eu disse, “Pagal Baba, às vezes parece que as pessoas estão certas: você está louco. Não serei um músico.”

            Ele riu e disse, “Eu sei disso. Ainda assim eu digo que você será um músico.”

            Ora, o que fazer em relação a isso? Não me tornei um músico, mas de um certo modo ele estava certo. Não toquei nenhum instrumento musical, mas toquei milhares de corações. Criei uma música muito mais profunda que qualquer instrumento pode criar – não-instrumental, não-técnica.

            Eu gosto desses três flautistas – pelo menos da música deles – mas nem todos eles gostam de mim. Hariprasad sempre me amou. Ele nunca se preocupou que eu era uma criança e ele era mais velho, um músico mundialmente famoso. Ele não apenas me amava, ele me respeitava. Um vez lhe perguntei, “Hari Baba, por que você me respeita?”

            Ele replicou, “Se Baba lhe respeita, então não há questão. Eu confio em Pagal Baba e se ele toca os seus pés, e você é apenas uma criança, eu sei que ele sabe algo que sou incapaz de saber agora. Mas isso não importa. Ele sabe; isso é suficiente para mim.” Ele era um devoto.

            O músico que ouvi ontem à noite e estava tentando novamente ouvir antes de entrar, Pannalal Ghosh, nem gostava nem desgostava de mim. Ele não era um homem de fortes gostos ou desgostos – um homem muito plano, sem colinas, sem vales, apenas uma longa planície. Mas ele tocava a sua flauta da sua forma como ninguém mais o fez antes, ou poderá fazer de novo. Com a sua flauta ele rugia como um leão.

            Uma vez lhe perguntei, “Na sua vida você é como uma ovelha, um Bengali babu.” Ele era de Bengala, e, na Índia, os Bengalis são as pessoas mais pacíficas, então qualquer um que é covarde é chamado de Bengali Babu. Eu lhe disse, “Você é um Bengali Babu autêntico. O que acontece quando você toca a flauta? Você se torna um leão.”

            Ele disse, “Algo certamente ocorre. Não sou mais eu mesmo; caso contrário eu seria o mesmo Bengali Babu, apenas o mesmo homem covarde que sou. Mas algo ocorre, fico possuído.”

            Estas foram as exatas palavras que ele usou. “Sou tomado por isso, não sei o quê. Talvez você saiba; caso contrário por que Pagal Baba tem tanto respeito por você? Eu nunca vi ele tocar os pés de ninguém, exceto os seus. Todos os grandes músicos vem até ele apenas por sua bênção, e para tocar os seus pés.”

            Pagal Baba me apresentou a muitas pessoas, não apenas flautistas. Talvez em algum círculo da minha história eles aparecerão. Mas o que Pannalal Ghosh disse foi muito significante. Ele disse, “Torno-me possuído. Uma vez que começo a tocar, não existo mais; outra coisa existe. Não é Pannalal Ghosh.” Estou citando às suas palavras. Então ele disse, “É por isso que é necessária uma longa introdução antes de eu tocar. Sou condenado em todos os lugares por causa da minha longa introdução… porque os flautistas não são conhecidos por terem introduções tão grandes.”

            Ele era o Bernard Shaw do mundo da flauta. Com George Bernard Shaw… o seu livro poderia ter apenas noventa páginas, mas a introdução teria trezentas páginas. Pannalal Ghosh disse, “As pessoas não podem entender, mas posso dizer-lhe que tenho que esperar para tornar-me possuído; por isso a longa introdução. Não posso começar a tocar até que ela chegue.”

            Essas são as palavras de um artista autêntico, mas apenas o artista autêntico, não o tipo jornalístico, o artista de terceira classe. É melhor não chamar este tipo de artista de maneira alguma. Ele escreve sobre música, mas não sabe nada da experiência; ele escreve sobre poesia sem nunca ter composto um único poema; ele escreve sobre política e nunca esteve no calor da discussão. O mundo político é unha e dente. Sentado em seu escritório o tipo jornalístico pode conseguir escrever tudo. De fato, é a mesma pessoa utilizando nomes diferentes que uma semana escreve sobre música, na outra sobre poesia, e ainda na outra semana sobre política.

            Fui jornalista uma vez, por pura necessidade; caso contrário não o teria sofrido. Eu não tinha dinheiro e meu pai queria que eu fosse para a faculdade de ciência. Eu não estava interessado em ciência, nem naquela época, nem hoje. E ele era tão pobre que eu podia entender que ele estaria arriscando muito. Ninguém na minha família tinha sido bem-educado. Um dos meus tios, o irmão do meu pai, foi enviado à universidade pelo meu pai, mas teve que ser chamado de volta pois não havia dinheiro para mantê-lo lá.

            O meu pai estava pronto para enviar-me à universidade. Naturalmente era um sacrifício para ele, e ele queria que fosse algo parecido com um negócio. Teria que ser um investimento.

            Eu lhe disse, “Ouça, é a minha educação ou seu investimento? Você está pensando em tornar-me um engenheiro ou um doutor. Naturalmente vou ganhar mais, mas o que estou planejando é nunca ganhar nada, mas seguir aprendendo e nunca começar a ganhar.” Eu então lhe disse, “Permanecerei um hobo.”

            Ele disse, “O quê! Um hobo?”

            Eu disse, “Em palavras respeitáveis – um sannyasin.”

            Ele ainda estava chocado, “Um sannyasin! Então por que você quer ir à universidade?”

            Eu disse, “Eu odeio esses professores, mas naturalmente, primeiro tenho que conhecer a profissão deles para que toda a minha vida eu possa condená-los perfeitamente.”

            Ele disse, “Isso é estranho, ir à universidade apenas para condená-la. Tenho que emprestar dinheiro para você, penhorar minha casa para você, arriscar o meu negócio para você – e você está indo apenas para condenar aqueles professores? Por que você não pode os condenar sem ir à universidade?”

            Eu fugi de casa, deixando apenas uma nota para o meu pai dizendo, “Posso entender os seus sentimentos, e posso entender a sua economia. Nós pertencemos a mundos diferentes, e não há ponte, pelo menos não agora. Não acho que você pode me entender, ou que eu possa entendê-lo, e não há necessidade também. Obrigado pelo gesto de querer apoiar-me, mas seria um investimento, e não quero me tornar seu sócio. Estou partindo sem o ver. Talvez o encontrarei apenas quando eu tiver arranjado as minhas próprias finanças.” Foi por isso que fui trabalhar como jornalista.

            Era a pior coisa que alguém poderia ser forçado a fazer, e sim, fui forçado a fazê-lo porque não existia nenhum outro trabalho. E o jornalismo na Índia é de terceira classe. Não é apenas de terceira classe, é o pior do mundo. Eu o fiz, mas não o podia fazer muito bem. Não posso fazer nada muito bem, então isso não é, de maneira alguma, uma queixa contra mim mesmo, apenas uma aceitação que não posso fazer nada, o que dizer de fazê-lo muito bem.

            E o trabalho acabou muito cedo porque eu estava adormecido, com as pernas na mesa, exatamente do jeito em que estou agora, quando o dono, o editor-chefe entrou. Ele me viu, me sacudiu, eu abri os meus olhos e olhei para ele e disse, “Isso não é elegante. Eu estava dormindo e você perturbou o meu sonho. Eu daria uma fortuna para que aquele sonho continuasse novamente. Estou pronto para pagar; agora diga-me como continuá-lo.”

            Ele disse, “Por que eu me importaria com seu sonho? Não quero saber dele. Mas esse é o meu tempo e você está sendo pago por ele. Tenho todo o direito de acordar-te.”

            Eu disse, “Ok, então tenho o direito de ir embora.” E fui embora. Não que ele estava errado, mas não era o meu lugar. Eu entrei no local errado. Os jornalistas são as piores pessoas, e os conheço: vivi com eles por três anos. Foi o inferno.

            O que eu estava falando? Estou somente tentando inspecioná-lo.

            “Você estava falando sobre como você teve que entrar no jornalismo porque o seu pai não tinha dinheiro para ajudá-lo.”

            Antes disso?

            “Quando você é um artista autêntico você fica possuído.”

            Certo.

            “Não o tipo jornalístico.”

            Continue tomando notas. Você tornou-se um bom escritor.

            Meu pai ficava impressionado sempre que Pagal Baba tocava os meus pés. Ele próprio tocaria os pés de Pagal Baba. Era realmente hilário. E apenas para fechar o círculo eu tocaria os pés do meu pai. Pagal Baba começava a rir tão alto que todo mundo ficava em silêncio, como se algo realmente grande estivesse ocorrendo – e meu pai ficava envergonhado.

            Pagal tentou muitas vezes convencer-me que no futuro eu deveria ser um músico. Eu disse, “Não,” e quando digo não, eu realmente quero dizer não.

            Desde a minha infância o meu não tem sido muito claro, e raramente uso o sim. Esta palavra sim é tão preciosa, que ela deve ser usada apenas na presença do divino, seja ele o amor ou a beleza, ou nesse momento… a florada laranja na gulmohar, tão espessa como se toda a árvore estivesse em chamas. Quando qualquer coisa lhes fizer lembrar do sagrado, então vocês podem usar a palavra sim – ela está cheia de oração. O não simplesmente quer dizer que estou me desligando da atividade proposta. E fui uma pessoa que diz não; era muito difícil receber um sim de mim.

            Vendo Pagal Baba, um homem que todos sabiam ser iluminado, reconheci que ele era único. Eu não sabia nada sobre a iluminação. Eu estava exatamente na mesma posição que estou agora, de novo totalmente ignorante. Mas a sua presença era luminosa. Você poderia reconhecê-lo entre milhares.

            Ele foi o primeiro homem a levar-me a um Kumbha Mela. Este acontece a cada doze anos em Prayag, e é a maior assembleia do mundo. Para os Hindus o Kumbha Mela é um dos sonhos estimados de suas vidas. Um Hindu pensa que se você não foi a um Kumbha Mela pelo menos uma vez, você perdeu a sua vida. É isso o que um Hindu pensa. A contagem mínima é de dez milhões de pessoas, a máxima é de trinta milhões de pessoas.

            É o mesmo com os Islâmicos. A menos que você seja um haji, a menos que você tenha ido a Haj, a Meca, você não atingiu. Haj significa “jornada a Meca,” onde Maomé viveu e morreu. Por todo o mundo é o sonho mais precioso de todos os Islâmicos; eles têm que ir pelo menos uma vez a Meca. Os Hindus têm que ir a Prayag. Esses locais são seus Israels. As religiões podem parecer muito diferentes na superfície, mas se vocês arranharem um pouco verão a mesma bobagem; Hindus, Judeus, Islâmicos, Cristãos, não importa.

            Mas o Kumbha Mela tem um caráter único. Apenas uma reunião de trinta milhões de pessoas já é, por si só, uma experiência rara. Todos os monges Hindus vão, e eles não são uma pequena minoria. Eles são quinhentos mil, e eles são pessoas muito coloridas. Vocês não imaginam quantas seitas únicas. Vocês não acreditam que essas pessoas existem, e todas elas encontram-se ali.

            Pagal Baba levou-me ao primeiro Kumbha Mela da minha vida. Participei mais uma vez, mas essa experiência com Pagal Baba no Kumbha Mela foi imensamente educadora, porque ele me levou a todos os grandes, e os supostos grandes santos e, na frente deles, e com milhares de pessoas em volta ele me perguntava, “Esse homem é um santo real?”

            Eu diria, “Não.”

            Mas Pagal Baba era tão teimoso quanto eu sou, ele não desanimou. Ele prosseguiu, levando-me a todo o tipo de santo possível, até que eu falasse para um homem, “Sim.”

            Pagal Baba riu e disse, “Eu sabia que você reconheceria o verdadeiro. E este homem” – ele apontou para o homem que eu tinha dito sim – “ele é um realizado desconhecido de todos.”

            O homem estava sentado sob uma árvore pipal, sem nenhum seguidor. Talvez ele era o homem mais solitário naquela grande multidão de trinta milhões de pessoas. Baba primeiro tocou os meus pés, então os pés dele.

            O homem disse, “Mas onde você encontrou essa criança? Eu nunca achei que uma criança seria capaz de reconhecer-me. Eu escondi-me tão perfeitamente. Você pode reconhecer-me, isso está ok, mas como essa criança pôde reconhecer-me?”

            Baba disse, “Este é o enigma. É por isso que toco os pés desta criança. Toque os seus pés agora.” E quem desobedeceria àquele homem de noventa anos? Ele era tão majestoso. O homem imediatamente tocou os meus pés.

            Era assim que Pagal Baba costumava apresentar-me a todos os tipos de pessoas. Nesse círculo estou falando sobretudo de músicos, porque eles eram o seu caso de amor. Ele queria que eu me tornasse um músico, mas não pude satisfazer o seu desejo porque para mim a música, no máximo, pode ser apenas um entretenimento. Eu lhe disse exatamente com essas mesmas palavras, “Pagal Baba, a música é um tipo muito inferior de meditação. Não estou interessado nela.”

            Ele disse, “Eu sei que é. Eu queria ouvi-lo de você. Mas a música é um bom degrau para subir; não é necessário apegar-se a ele, ou permanecer nele. Um degrau é um degrau para algo.”

            Foi assim que utilizei a música em todas as minhas meditações, como um degrau para algo – que é realmente “a música” – o silêncio. Nanak diz, “Ek omkar sat nam: há apenas um nome de Deus, ou da verdade, este nome é o som silencioso de aum.” Talvez a meditação surgiu da música, ou talvez a música seja a mãe da meditação. Mas a música por si só não é meditação. Ela pode apenas indicar, ou ser uma alusão…

O lago antigo

o sapo pula dentro

o som silencioso… 

            Isso foi traduzido de muitas formas. Esta é uma: ‘o som silencioso’. Um ‘plop’ é ainda melhor. Mas a palavra em Hindi é ainda mais significante. Quando um sapo salta em um lago ele faz um som – você pode chamá-lo de “plop,” mas em Hindi a palavra é exatamente como soa: chhapak. Seja um sapo, salte em um lago, e você conhecerá chhapak.

            Será difícil escrevê-la em Inglês. É melhor eu lhe dizer; caso contrário você inevitavelmente escreverá algo errado. Chhapak deve ser escrito c-h-h-a-p-a-k. Em Inglês não há nenhuma letra para ‘chh’ então você tem que escrevê-la dessa forma.

            O alfabeto Inglês tem apenas vinte e seis letras. Vocês ficarão surpresos que o Hindi ou o Sânscrito têm o dobro desse número: cinquenta e duas letras. Muitas vezes é difícil traduzir, ou mesmo romanizar as palavras. ‘Chh’ não existe em Inglês de maneira alguma, mas sem o ‘chh’ não existirá o sapo, e não existirá nenhum chhapak, e milhares de outras coisas serão perdidas.

            Ek omkar sat nam, o nome real da verdade, é o som silencioso. Para escrevê-lo em Sânscrito tivemos que criar um símbolo não-alfabético; o aum. Ele não faz parte do alfabeto Sânscrito – ABC, XYZ. Aum é apenas um som, e um som muito significante. Ele consiste de a-u-m, e essas são as três notas musicais básicas. Toda a música depende desses três sons. Se as três se tornam uma, o silêncio existe. Se elas divergem o som existe. Se elas convergem, o silêncio existe. Aum é um silêncio.

            Vocês devem ter visto o sino em todo templo Hindu, mas vocês podem não ter visto um realmente artístico. Para isso vocês terão que olhar para a seção Tibetana de algum museu. O sino Tibetano é o mais belo. É um sino estranho, como um copo feito de muitos metais, e ele tem um cabo de madeira. Vocês seguram o cabo em suas mãos, e circulam várias vezes dentro do copo. Isso é feito por um certo número de vezes, por exemplo dezessete; então você bate dentro do sino em um ponto certo que está marcado. Esse é o início e o fim.

            A partir daí você segue circularmente de novo, e então você bate no fim. E é estranho, o sino repete todo o mantra Tibetano! Quando alguém o ouve pela primeira vez não acredita que o sino está repetindo o mantra Tibetano exatamente. Mas o sino foi feito para esse propósito.

            Um lama Tibetano me mostrou um sino desse tipo. Era maravilhoso ouvir todo o mantra sendo repetido pelo sino. Vocês conhecem o mantra, contei-lhe para vocês. O mantra não é significante, é sem sentido, mas é musical, muito musical; é dessa forma que o sino pode criá-lo. Se fosse cheio de significado seria muito difícil um sino fazer o trabalho. Um sino é apenas um sino burro.

            Om Mani Padme Hum – o sino o repete tão claramente que vocês suspeitam que, talvez, o Espírito Santo está escondido em algum lugar. Mas não há ninguém, nenhum Espírito Santo, nada – apenas o sino. Vocês têm que circulá-lo com o cabo; então em um certo momento bater, e o sino ressoa com o mantra.

            Em todos os templos da Índia ou Tibete, China ou Burma o sino é significativo no sentido que ele relembra-nos que se podemos ficar tão silenciosos quanto o sino vagarosamente se torna depois que o batemos: primeiramente ele é todo som, então vagarosamente o som morre – então o silêncio entra. As pessoas ouvem apenas o som: então elas não ouviram o sino. Vocês devem ouvir a outra parte também. Quando o som está morrendo, desaparecendo, o som do silêncio está aparecendo, surgindo. Quando o som desaparece completamente, há um completo silêncio, e isso é meditação.

            Eu não me tornaria um músico. Pagal Baba o sabia, mas ele estava apaixonado pela música, e queria que pelo menos eu conhecesse os melhores músicos; talvez eu pudesse ser atraído. Ele me apresentou a muitos músicos, era até difícil lembrar o nome de todos. Mas alguns nomes são muito famosos e conhecidos no mundo inteiro, por exemplo esses três.

            Pannalal Ghosh é conhecido com o maior flautista que já viveu, e certamente isso não está errado, mas ele não é a minha escolha. Ele ruge como um leão, mas o homem é apenas um rato, e é isso o que não gosto. Um rato rugindo como um leão – isso é hipocrisia. Mas ainda assim devo dizer que ele lida bem com isso. É um caso difícil, mas ele lida com isso quase perfeitamente. Eu digo “quase” porque ele não pode enganar os meus olhos. Eu falei para ele, e ele disse, “Eu sei disso.” Ele não é a minha escolha.

            O segundo homem é do sul da Índia. Nunca gostei dele desde o início. É claro que amo a sua flauta; talvez ninguém tenha a sua profundidade. Mas, de homem para homem, olho no olho, não podemos nos suportar. Não gosto nem do homem, nem do seu nome. Mas a sua flauta é a melhor que surgiu em séculos. Ainda assim ele não é a minha escolha, por causa do homem. Se não gosto do homem, por mais belo que ele toque, não posso escolhê-lo para ser o primeiro.

            A minha escolha é Hariprasad. Ele é muito humilde, nem como um rato, nem como um leão. Ele é exatamente o que significa a palavra majjhim, o meio, o “meio dourado.” Ele trouxe o equilíbrio que não existe tanto em Pannalal Ghosh quanto no homem Indiano do Sul, cujo nome não vou falar novamente. Mas Hariprasad trouxe um equilíbrio, um imenso equilíbrio, assim como um equilibrista andando em uma corda.

            Vou referir-me a Pagal Baba muitas vezes, pela simples razão que ele apresentou muitas pessoas para mim. Sempre que eu as mencionar, Pagal Baba será mencionado também. Através dele um mundo abriu-se. Ele foi muito mais valioso para mim do que qualquer universidade, porque ele me apresentou a tudo o que era melhor em todos os campos possíveis.

            Ele costumava vir à minha vila assim como um redemoinho e se apoderava de mim. Os meus pais não podiam falar não para ele; nem mesmo a minha Nani podia dizer não para ele. De fato, no momento em que eu mencionava Pagal Baba então eles falavam, “Então está tudo bem,” porque eles sabiam que se negassem, Pagal Baba viria e criaria um incômodo para a casa. Ele podia quebrar coisas, ele podia bater nas pessoas, e ele era tão respeitado que ninguém o impediria de causar qualquer dano. Então era melhor para todo mundo dizer, “Sim… se Pagal Baba quer te levar com ele, você pode ir. E nós sabemos,” eles falavam, “que com Pagal Baba você estará seguro.”

            Os meus outros parentes na vila costumavam dizer a meu pai, “Você não está fazendo a coisa certa deixando o seu garoto ir com aquele homem insano.”

            O meu pai replicava, “O meu garoto é tal que estou mais preocupado com o velho homem insano do que com ele. Você não precisa se preocupar.”

            Viajei a muitos lugares com Pagal Baba. Ele não me levou apenas a grandes artistas e músicos, mas também a grandes lugares. Foi com ele que vi o Taj Mahal pela primeira vez, e as cavernas de Ellora e Ajantas. Ele foi o homem com quem vi pela primeira vez os Himalaias. Devo muito a ele, e eu nunca nem mesmo o agradeci. Eu não podia porque ele costumava tocar os meus pés. Se alguma vez eu falei algo a ele em agradecimento, ele imediatamente colocava as suas mãos nos seus lábios e dizia, “Fique quieto. Nunca mencione o seu agradecimento. Sou grato a você, não você a mim.”

            Uma noite quando estávamos sozinhos eu lhe perguntei, “Por que você é tão grato a mim? Eu não fiz nada para você e você me fez muitas coisas, entretanto você nem me permite dizer obrigado.”

            Ele disse, “Um dia você entenderá, mas agora vá dormir e não mencione isso novamente, nunca, nunca. Quando o momento chegar você saberá.” No momento em que eu soube era muito tarde, ele não existia mais. Eu descobri, mas muito tarde.

            Se ele estivesse vivo talvez seria muito difícil para ele compreender o que descobri, que certa vez, em uma vida passada, ele me envenenara. Embora eu tenha sobrevivido, ele estava agora apenas tentando compensar; ele estava tentando apagá-lo. Ele estava fazendo tudo em seu poder para ser bom para mim – e ele sempre foi bom para mim, mais do que eu merecia – mas agora sei porquê: ele estava tentando trazer equilíbrio.

            No Oriente eles chamam de karma, a “teoria da ação.” Qualquer coisa que você faz, lembre-se, você terá que trazer equilíbrio novamente para as coisas perturbadas pela sua ação. Agora eu sei porque ele era tão bom para uma criança. Ele estava tentando, e foi bem-sucedido, trazer equilíbrio. Uma vez que suas ações são totalmente equilibradas vocês podem desaparecer. Somente então vocês podem parar a roda. De fato, a roda para por si só, vocês nem precisam a parar.

 

Sessão 30

 

Eu estava falando sobre Pagal Baba e os três flautistas que ele me apresentou. Ainda é uma bela memória, a forma que ele me apresentava às pessoas – particularmente para aqueles que eram acostumados a serem recebidos, respeitados e honrados. A primeira coisa que ele dizia para eles era, “Toque os pés desse garoto.”

                Lembro-me quão diferente as pessoas reagiam, e quanto nós dois ríamos depois. Pannalal Ghosh foi-me apresentado em sua própria casa em Calcutá. Pagal Baba era seu convidado, eu era convidado de Pagal Baba. Pannalal Ghosh era realmente famoso e quando Baba lhe disse, “Toque os pés desse garoto primeiro, então posso permiti-lo tocar os meus pés,” ele hesitou por um momento, então tocou os meus pés sem realmente tocar.

            Vocês podem tocar uma coisa sem realmente tocar. Vocês fazem isso a todo momento – apertando as mãos das pessoas sem ter nenhuma sensação, nenhuma afeição, nenhuma receptividade, nenhuma alegria para compartilhar. Por que vocês têm apertado as mãos? É um exercício desnecessário. E o que suas mãos fizeram de errado? – por que apertá-las?

            E vocês sabem, há uma seita Cristã chamada Shakers; eles balançam o seu corpo todo. Eles estão apertando as mãos de Deus. É claro, quando você aperta as mãos de Deus todo o corpo tem que balançar. E vocês conhecem os Quakers; eles vão um passo mais longe: eles não somente balançam, eles tremem! Essas são as origens reais dos seus nomes. Os Quakers rolam, pulam e fazem todos os tipos de coisas que vocês podem ver em um manicômio. Não sou contra o que eles fazem, estou simplesmente descrevendo-os. Da mesma forma, Pannalal Ghosh tocou os meus pés.

            Eu disse para Baba, “Ele não os tocou.”

            Baba disse, “Eu sei. Pannalal, toque-os novamente.”

            Isso foi demais para o homem famoso, em sua própria casa, e com muitas pessoas presentes. De fato, todas as pessoas eminentes de Calcutá estavam ali. O filho do primeiro-ministro estava ali, o ministro-chefe estava ali, e assim por diante. “Toque-os novamente?” Mas isso mostra a qualidade do homem. Ele novamente tocou os meus pés. Dessa vez foi ainda mais morto do que a primeira vez.

            Eu ri. Baba rugiu. Eu disse, “Ele precisa de treinamento.”

            Baba disse, “Isso é verdade. Ele nascerá muitas vezes para treinar. Nessa vida ele perdeu o trem. Eu estava dando-lhe uma última oportunidade, mas ele a deixou escapar também.”

            E vocês ficarão surpresos, depois de somente sete dias Pannalal Ghosh não estava mais nesse mundo. Talvez Baba estava certo; a última oportunidade foi dada e Pannalal Ghosh a deixou escapar. Ele não era um homem mau, lembrem-se. Note: eu não disse que ele era um homem bom, eu apenas disse que ele não era um homem mau. Ele era apenas ordinário. Para ser bom ou mau é necessário algo de extraordinário.

            Ele verteu todo o seu talento, inteligência e sua alma em sua flauta, e ele ficou estéril como um deserto. A sua flauta era bela, mas era melhor não ter conhecido o homem. Agora, quando ouço a sua flauta em uma gravação, tento descartá-lo. Eu digo a ele, “Pannalal Ghosh, por favor não entre; deixe-me ouvir a flauta.”

            Mas Baba queria apresentá-lo a mim, e não eu a ele. Não era por mim, porque eu não tinha nome nenhum. Eu não havia feito nada, certo ou errado, e eu nunca faria algo.

            Até mesmo agora, posso dizer a mesma coisa: eu não fiz nada certo ou errado. Sou alguém que não faz nada, e permaneci persistentemente assim, somente alguém que não faz nada. Mas Pannalal Ghosh era um grande músico. Dizê-lo para tocar os meus pés na frente de tantas pessoas era muito humilhante. Era um bom exercício para ele – mas duas vezes foi demais. Mas ele era um Bengali Babu real.

            Este termo, Bengali Babu, foi inventado pelos Britânicos porque a sua primeira capital na Índia foi Calcutá, não Nova Delhi, e obviamente os seus primeiros servos eram Bengalis. Todos os Bengalis comem peixes. Eles fedem a peixe. Chetana entenderá, ela é filha de um pescador. Felizmente ela pode entender exatamente. Ela também tem o nariz porque quando sinto algum cheiro e ninguém mais pode senti-lo, tenho que depender dela. Eu então pergunto-lhe, e ela certamente pode senti-lo.

            Todos os Bengalis comem peixe, e, é claro, todos eles cheiram a peixe. Toda casa Bengali tem um lago. Isso não acontece em nenhum outro lugar da Índia; é especial em Bengala. É um belo país. Toda casa tem, de acordo com sua capacidade, um lago pequeno ou grande para criar o seu próprio peixe.

            Vocês ficarão surpresos em saber que a palavra Inglesa ‘bungalow’ é o nome para uma casa Bengali. Bengala é a transformação Inglesa de bangla, e os Britânicos chamavam a casa Bengali “bungalow.” Cada bungalow – isto é, uma casa Bengali – tem um lago onde há uma criação do próprio alimento. Todo o lugar fede a peixe. Falar com um Bengali, particularmente para um homem como eu, é muito difícil. Mesmo quando visito Bengala nunca costumo falar com os Bengalis por causa do cheiro, apenas com os não-Bengalis que estão vivendo ali. É realmente infestado pelo cheiro de peixe.

            Pannalal Ghosh morreu apenas sete dias depois que o vi, e Baba lhe disse, “Esta é a sua última oportunidade.” Não acho que ele entendeu – ele parecia um pouco estúpido. Desculpem-me por esta expressão, mas o que posso fazer se alguém parece estúpido? Se eu falo ou não, ele ainda parecerá estúpido. Mas em relação ao tocar de sua flauta, ele era um gênio. Talvez seja por isso que ele tenha se tornado estúpido de todas as outras maneiras – sugado pela flauta, um instrumento perigoso. Mas pelo menos ele tocou os meus pés, mas sem realmente tocá-los. Então Baba disse-lhe, “Toque os pés dele novamente e realmente toque-os.”

            Pannalal Ghosh disse, “Toquei-os duas vezes. Como é possível realmente tocar?”

            E vocês podem acreditar o que Baba fez? Ele tocou os meus pés para mostrá-lo como fazer – com lágrimas em seus olhos – e Baba tinha noventa anos!

            Baba nunca permitiu que eu me sentasse com outras pessoas. Eu tinha que sentar em seu travesseiro, acima e atrás dele. Vocês sabem que na Índia um travesseiro redondo particular é usado apenas pelas pessoas muito ricas ou pelas muito respeitáveis. Baba costumava carregar pouquíssimas coisas, mas seu travesseiro estava sempre consigo. Ele me disse, “Você sabe, eu não preciso dele, mas dormir no travesseiro de outra pessoa é tão sujo. Eu devo pelo menos ter o meu travesseiro privado, mesmo que eu não tenha mais nada. Então carrego este travesseiro para todos os lugares que vou.”

            Quando eu costumava viajar… Chetana entenderá – porque um travesseiro não é suficiente para mim, eu uso três travesseiros, dois para os lados e um para a minha cabeça. Isso significa uma mala de viagem muito grande apenas para os travesseiros, então outra mala de viagem grande apenas para os cobertores, porque não consigo dormir com os cobertores de outras pessoas; eles cheiram. E a forma que durmo é tão infantil, vocês realmente ririam; eu simplesmente desapareço debaixo do cobertor, com a cabeça e tudo. Então se ele está cheirando eu não posso respirar, e não posso manter a cabeça para fora, porque então o meu sono é perturbado.

            Posso dormir apenas se me cobrir totalmente e esquecer o mundo todo. Isso não é possível se existe algum cheiro. Então tenho que carregar o meu próprio cobertor, e uma mala para as minhas roupas. Então carreguei três malas grandes continuamente por vinte e cinco anos.

            Baba era afortunado; ele costumava carregar seu travesseiro circular debaixo do seu braço. Era a sua única posse. Ele me disse, “Carrego-o especialmente para você porque quando você vem junto comigo, onde vou falar para você sentar? Eu me sentarei em uma plataforma mais alta que qualquer um, mas você tem que sentar-se um pouco mais alto que eu.”

            Eu disse, “Você está louco, Pagal Baba.”

            Ele disse, “Você sabe, e todo mundo sabe, que sou louco. Isso precisa ser mencionado? Mas esta é minha decisão, que você tem que sentar-se mais alto que eu.”

            Aquele travesseiro era para mim. Eu tinha que sentar-me nele, relutantemente é claro, envergonhado, às vezes até irritado, porque ele me fazia parecer muito desajeitado. Mas ele não era um homem que se preocupava com qualquer coisa. Ele simplesmente me daria um tapinha na cabeça ou nas costas e diria, “Anime-se, meu filho. Não fique tão bravo apenas porque te fiz sentar no travesseiro. Anime-se.”

            Este homem, Pannalal Ghosh, eu nem gosto nem desgosto dele. Eu era quase indiferente a ele. Ele não tinha sal, por assim dizer, ele era sem sabor. Mas a sua flauta… ele fez a flauta Indiana de bambu ser notada no mundo, e elevou-a a um dos maiores instrumentos da música. Por causa dele, a flauta mais bela, a Japonesa, desapareceu completamente. Ninguém liga para a flauta Árabe. Mas a flauta Indiana deve imensamente a esse muito insosso Bengali Babu, esse servo do governo que cheirava a peixe.

            Vocês ficarão realmente surpresos que a palavra babu tornou-se um nome de grande respeito na Índia. Quando você quer respeitar qualquer pessoa, você a chama de Babu. Mas Babu simplesmente significa “aquele que fede” – ba significa “com” e bu significa “fedor.” A palavra foi criada pelos Ingleses para os Bengalis. Vagarosamente ela espalhou-se por toda a Índia. Naturalmente eles foram os primeiros servos dos Ingleses, e eles alcançaram os mais altos cargos. Então a palavra ‘babu’, que não podia ser de maneira alguma respeitável, tornou-se respeitável. É um destino estranho, mas as palavras têm destinos estranhos. Agora ninguém pensa que ela deveria ser considerada uma palavra feia; ela é agora considerada muito bela.

            Pannalal Ghosh era realmente um babu, quero dizer, ele fedia a peixe, então eu tinha que prender o meu nariz.

            Ele perguntou, “Baba, por que esse garoto seu, cujos pés eu tenho que tocar repetidas vezes, está segurando a respiração?”

            Baba disse, “Ele está tentando fazer algum exercício de yoga. Não tem nada a ver com você ou seu cheiro de peixe.” Ele foi um homem belo, esse Pagal Baba.

            O segundo músico, cujo nome tenho evitado até mesmo mencionar – embora eu tenha mencionado uma vez e tenho que mencionar novamente apenas para finalizar este capítulo – era Sachdeva. A sua forma de tocar flauta é totalmente diferente de Pannalal Ghosh, embora eles usem o mesmo tipo de flauta. Vocês podem lhes dar a mesma flauta e vocês ficariam admirados com a diferença na música. O que sai da flauta é o que importa, não a flauta ela mesma.

            Sachdeva tinha um toque mágico, ao passo que Pannalal Ghosh era tecnicamente perfeito, mas não um mago. Sachdeva também era tecnicamente perfeito e detinha as artes da música e da mágica juntas. Apenas ouvir a sua flauta era ser transportado para outro mundo. Mas nunca gostei do homem. Não no mesmo sentido que Pannalal Ghosh, que era indiferença; Sachdeva eu odiava. Era pura e simples aversão, tão total que não posso ver qualquer possibilidade de nos tornarmos até mesmo conhecidos. E Baba o sabia, Sachdeva o sabia, mas ainda assim ele tinha que tocar os meus pés.

            Eu disse a Baba, “Não posso permitir que ele toque os meus pés novamente. A primeira vez eu não estava consciente da feiura da sua vibração; agora a conheço.”

            E a sua vibração não era apenas feia, ela era nauseante, e a sua face também. Uma pessoa se sentia mal. Eu estava evitando falar sobre ela simplesmente para não lembrar. Por quê? Porque terei que vê-la de novo para descrevê-la para vocês. Mas decidi desabafar totalmente, então que assim seja. Ele era realmente mais feio do que sua fotografia do passaporte.

            Eu costumava pensar que uma foto de passaporte era a coisa mais feia possível; ninguém pode ser tão feio. Sachdeva era. E que belo nome: Sachdeva, Deus da Verdade – e, entretanto, ele era tão feio. Meu Deus! Jesus!

            Mas quando ele começava a tocar a sua flauta de bambu toda a sua feiura simplesmente desaparecia. Ele lhe levava para outro mundo. A sua música é muito penetrante, afiada como o fio de uma espada. Ela corta completamente, e tão habilidosamente que você nem sabe que a cirurgia aconteceu.

            Mas o homem era simplesmente feio. Eu não me incomodo com a feiura física. O que eu faria com o seu físico? Mas psicologicamente ele também era feio. Quando ele tocou os meus pés pela primeira vez, muito relutantemente, senti como se um réptil havia rastejado sobre eles, o tipo de sentimento como se uma cobra tivesse rastejado sobre os seus pés. E eu não podia nem pular e matar a cobra – ele não era uma cobra, ele era um homem.

            Eu olhei para Baba e disse, “O que devo fazer com a cobra?”

            Baba disse, “Eu sabia que você a reconheceria. Por favor seja paciente. Primeiro ouça a sua flauta, então vamos pensar sobre ele ser uma cobra.” Ele prosseguiu, “Eu estava com medo que você ficaria consciente disso. Eu sabia que ele não seria capaz de enganar você, mas falaremos disso depois. Primeiro, ouça a sua flauta.”

            Então ouvi, e ele certamente era um mago, alcançando você tão profundamente, assim como um cuco chamando de um morro distante. Esta frase pode ser entendida apenas em um contexto Indiano.

            Na Índia, o cuco não é o que vocês fizeram dele. Ser cuco no Ocidente é estar em um manicômio. No Oriente, o nome cuco é dado apenas aos maiores cantores e poetas. Sachdeva era chamado “o cuco do mundo da flauta.” E qualquer cuco teria inveja, porque a flauta do homem era muito mais bela – falo da sua música, não se esqueçam.

            Pannalal Ghosh movia-se de uma maneira muito plana, muito seguro do seu solo, cada passo dado com cuidado, preparado pela longa prática. Vocês não poderiam encontrar um único erro. Vocês não poderiam encontrar um único erro em Sachdeva também, mas ele não se move em um solo plano. Ele é um pássaro das colinas, voando alto e baixo; um pássaro selvagem, ainda não domesticado, mas tão perfeito. Pannalal Ghosh parece estar muito longe, algo da cabeça – realmente um técnico. Mas Sachdeva é um gênio, um artista real. Inovadores são muito raros, e ele é um. Particularmente em uma área pequena como a da flauta, ele inovou tanto que, por gerações, ninguém o vencerá, ninguém quebrará o seu recorde.

            Vocês também podem ver que embora eu nunca tenha gostado do homem sou bem justo no que diz respeito à sua flauta. E o que o homem tem a ver com sua flauta? Nem ele gostava de mim, nem eu dele. Eu desgostava tanto dele que quando ele veio ver Baba novamente, e inevitavelmente Baba disse-lhe para tocar os meus pés, eu sentei na postura do lótus, cobrindo os meus pés com a minha túnica.

            Baba disse, “Onde você praticou a postura do lótus? Hoje você está se comportando como um grande yogi.” Ele então perguntou, “Onde você aprendeu yoga?”

            Eu disse, “Tive que aprendê-la para todas essas criaturas rastejantes, cobras e répteis, etc. Por exemplo, esse homem… amo a sua flauta, mas sua flauta é uma coisa totalmente diferente de todo o seu ser. Não quero ser tocado por ele, e sabia que você iria dizer o que acabou de dizer. Por favor, diga-me para tocar os pés dele; isso seria muito mais fácil.”

            Agora posso explicar a vocês algo sem o qual o que eu disse não seria entendido. Quando você toca os pés de alguém, você está vertendo a si próprio, a sua energia, em seus pés. É uma oferta de qualquer coisa que você é. A menos que vocês sejam realmente dignos seria melhor vocês evitarem fazê-lo. Eu poderia ter tocado os pés dele sem nenhum problema. Eu poderia ter vertido qualquer coisa que eu tinha em seus pés. Vocês podem jogar uma flor em uma rocha, mas não joguem uma rocha em uma flor.

            Baba disse, “Entendo, mas ele também tem que ser mudado.”

            Baba não disse para ele tocar os meus pés novamente. As poucas vezes que nos encontramos de novo Sachdeva nem olhou para mim, nem eu para ele. Eu estava com medo de Baba; Sachdeva estava com medo de mim. Sempre que ele chegava eu começava a empurrar Baba para relembrá-lo a não pedir para Sachdeva tocar os meus pés. Baba diria, “Eu sei, eu sei.”

            Eu disse, “Eu sei, eu sei,” não ajuda. A menos que ele saia vou seguir lembrando você. Ou ele toca a sua flauta ou fale para ele ir, porque não é apenas feio a forma que ele toca os pés, mas sua face, sua própria presença, é algo como um câncer espiritual.”

            Então tornou-se um acordo que se Sachdeva quisesse falar com Baba, eu estaria livre para ir para algum lugar, fazer alguma coisa, apenas uma desculpa para não estar presente. Ou ele tocaria a sua flauta. Então ele podia trazer as estrelas à terra; então ele podia transformar rochas em sermões. Ele era um mago, mas apenas quando estava tocando. Eu gostava da sua flauta, mas não do homem.

            O terceiro homem, Hariprasad, é belo das duas maneiras. O seu ser é tão belo quanto a sua música. Ele não é tão famoso quanto Pannalal Ghosh, e talvez nunca será, porque não se preocupa. Ele não tocará a sua flauta às ordens… ele nunca foi atrás dos políticos. A sua flauta tem o seu próprio aroma. O aroma da sua flauta só pode ser chamado de equilíbrio, equilíbrio absoluto, como se você tivesse andando em uma correnteza muito forte.

            O exemplo que estou dando-lhes é de Lao Tsé. Vocês estão cruzando uma correnteza muito forte, selvagem, e naturalmente vocês têm que ficar muito alerta; caso contrário vocês serão levados pela correnteza. Lao Tsé também diz que vocês têm que andar muito rápido porque a correnteza está muito fria, abaixo de zero, talvez ainda mais fria. Rápido, e, entretanto, equilibrado – isso descreve o que Hariprasad Chaurasia faz com a sua flauta. De repente ele começa, e de repente termina; ninguém esperava que ele começaria tão de repente.

            Pannalal Ghosh leva meia hora no prefácio, no prólogo. Na Índia esta é a forma da música clássica. O tocador de tabla ajustará a sua tabla. Ele baterá com seu pequeno martelo aqui e ali, afinando-a, buscando o tom certo. O citarista apertará ou soltará as suas cordas repetidas vezes, para ver se todas as cordas entram em sincronicidade ou não. Isso continua por quase meia hora – mas os Indianos são pessoas muito pacientes. Isso é chamado de preparação. Por que eles não podem fazer isso antes das pessoas chegarem? Ou detrás das cortinas, como fazem em todos os dramas? Mas estranhamente, o músico clássico Indiano tem que preparar-se e aos seus instrumentos na frente da sua audiência. Por quê?

            Deve haver alguma razão. O meu sentimento é que a música clássica é tão profunda, particularmente no Oriente, que se vocês não estão nem mesmos preparados para ficarem pacientes por meia hora, vocês não são dignos de estarem presente de maneira alguma.

            Lembro-me de uma história muito famosa: Gurdjieff costumava chamar os seus discípulos em horas muito estranhas. Os seus encontros não eram como meus encontros, onde o horário é fixo. Vocês têm de estar aqui antes de eu chegar e se eu estiver cinco minutos atrasados, lembrem-se que a culpa nunca é minha.

            Os meus motoristas costumam trazer-me um pouco atrasado para que as pessoas que ainda estão chegando possam sentar-se, porque uma vez que chego não gosto que as pessoas se mexam de um lado para outro, entrando e saindo. Quero que tudo pare completamente. Apenas nessa interrupção total posso começar o meu trabalho, ou qualquer coisa que vou dizer. Uma leve perturbação é suficiente para que eu mude o que iria dizer. Eu falarei algo de qualquer forma, mas não será a mesma coisa, e eu nunca mais posso dizer a mesma coisa novamente.

            Vocês conhecem o meu método; o método de Gurdjieff era o oposto. Os telefones de seus discípulos começavam a tocar. Ele podia convocar um encontro em qualquer lugar, talvez a cinquenta quilômetros de distância, e dizia a eles apressarem-se para chegarem a tempo, de fato antes da hora, sem nenhuma preparação, vocês precisariam pelo menos de um veículo. Vocês teriam que cancelar outros compromissos. Vocês fazem todas essas coisas e correm para o local combinado, apenas para encontrar um aviso ali dizendo que o encontro foi cancelado por hoje!

            No próximo dia novamente os telefones começavam a tocar. Se no primeiro dia cem pessoas apareceram das duzentas que receberam os telefonemas, então no segundo dia, apenas cinquenta aparecem. Novamente elas encontram um bilhete na porta: “Encontro adiado” – nem mesmo um “Desculpe.” Não há ninguém ali para pedir desculpas, apenas um quadro. E isso continuaria, e no quarto dia, ou no sétimo ele apareceria. Por ele quero dizer Gurdjieff.

            Das duzentas pessoas originais, agora apenas quatro apareceram. Ele olharia para elas e então falaria, “Agora posso dizer o que eu gostaria de dizer, e todos os sujeitos que eu nunca quis que estivessem aqui abandonaram por si sós. É realmente ótimo; permaneceram apenas os que são dignos de ouvirem-me.”

            O método de Gurdjieff era diferente. Esse também é um método, mas apenas um método; existem muitos. Sempre respeito e amo qualquer coisa que traz resultados. Acredito na definição de Buda que “A verdade é aquilo que funciona.” Ora, essa é uma definição estranha porque às vezes uma mentira pode funcionar, e sei que muitas vezes a verdade não funciona de maneira alguma; a mentira funciona.

            Mas concordo com Buda. É claro que ele não concordaria comigo, mas sou mais generoso que o próprio Gautama o Buda. Se algo funciona, traz os resultados certos, o que importa se era uma mentira no começo, ou uma verdade? O que importa é o fim, o resultado final. Posso não usar o método de Gurdjieff, porque nunca uso o método de ninguém, embora as pessoas pensem que o faço. Sim, eu finjo. Uso apenas o que funciona; de quem é não importa de maneira alguma. A verdade não é nem minha nem sua.

            Esse terceiro homem, eu o amo. Desde a primeira vez que nos vimos, reconhecemo-nos. Ele foi o único dos três flautistas que tocou os meus pés antes de Baba o mandar tocá-los. Quando isso ocorreu Baba disse, “Isso é alguma coisa! Hariprasad, como você pôde tocar os pés de uma criança?”

            Hariprasad disse, “Existe alguma lei proibindo-o? É um crime tocar os pés de uma criança? Eu gostei, eu amei, por isso toquei os pés dele. E não é da sua conta, Baba.”

            Baba estava realmente feliz. Ele sempre ficava feliz com essas pessoas. Se Pannalal Ghosh era uma ovelha, Hariprasad é um leão. Ele é um homem belo e raro. O terceiro sujeito – Sachdeva; não gosto nem de dizer o seu nome – não me prejudicou, mesmo assim, só o nome já me faz ver a sua cara feia. E vocês conhecem o meu respeito pela beleza. Posso perdoar qualquer coisa, mas não a feiura. E quando a feiura não é apenas do corpo, mas da alma também, então é demais. Ele era completamente feio.

            Hariprasad é a minha escolha no que diz respeito aos flautistas. A sua flauta tem a beleza dos dois outros e, entretanto, não é como a de Pannalal Ghosh – muito alta e bombástica – nem tão afiada que corta e machuca. É suave como uma brisa, uma brisa fresca em uma noite de verão. Ela é como a lua; a luz está lá, mas não quente, fria. Vocês podem sentir o seu frescor.

            Hariprasad deve ser considerado o maior flautista que já nasceu, mas ele não é muito famoso. Ele não poderia ser, ele é muito humilde. Para ser famoso você tem que ser agressivo. Para ser famoso você tem que lutar no mundo ambicioso. Ele não lutou, e ele é o último homem que lutaria para ser reconhecido.

            Mas Hariprasad foi reconhecido por homens como Pagal Baba. Pagal Baba também reconheceu alguns outros que descreverei depois, porque eles também entraram na minha vida através dele.

            É uma coisa estranha: Hariprasad me era completamente desconhecido até Pagal Baba apresentá-lo a mim, e então ele tornou-se tão interessado que costumava ir até Pagal Baba apenas para visitar-me. Um dia Pagal Baba disse-lhe de brincadeira, “Agora você não vem por mim. Você sabe, eu sei, e a pessoa porque você vem sabe.”

            Eu ri, Hariprasad riu e disse, “Baba você está certo.”

            Eu disse, “Eu sabia que Baba iria mencionar isso mais cedo ou mais tarde.” E essa era a beleza do homem. Ele trouxe muitas pessoas a mim, mas impedia-me até mesmo de agradecê-lo. Ele disse apenas uma coisa a mim: “Fiz apenas o meu dever. Eu peço apenas um favor: quando eu morrer você pode acender o fogo no meu funeral?”

            Na Índia isso tem uma grande importância. Se um homem não tem um filho ele sofre por toda a sua vida, pois quem acenderá o fogo em seu funeral? É chamado “dar o fogo.”

            Quando ele me pediu eu disse, “Baba, eu tenho o meu próprio pai, ele ficará bravo – e não conheço a sua família; talvez você tenha um filho…”

            Ele disse, “Não se preocupe com nada, nem com seu pai, nem com a minha família. Esta é a minha decisão.”

            Eu nunca o tinha visto naquele tipo de humor. Eu soube então que seu fim estava muito próximo. Ele não era capaz de gastar tempo nem mesmo discutindo a questão.

            Eu disse, “Ok, sem argumentos. Dar-te-ei o fogo. Não importa se o meu pai objetar ou se sua família objetar. Eu não conheço a sua família.”

            Por acaso Pagal Baba morreu na minha própria vila. Mas talvez ele arranjou isso – penso que ele o arranjou. E quando comecei o seu funeral dando-lhe o fogo, o meu pai disse, “O que você está fazendo? Isso pode ser feito apenas pelo filho mais velho.”

            Eu disse, “Dada, deixe-me fazê-lo. Eu prometi para ele. E, em relação a você, eu não serei capaz de fazê-lo; o meu irmão mais novo o fará. De fato, ele é seu filho mais velho, não eu. Eu não tenho uso na família, e nunca terei. De fato, sempre provarei ser um incômodo para a família. O meu irmão mais novo, o segundo depois de mim, lhe dará o fogo, e ele cuidará da família.”

            Sou muito grato ao meu irmão, Vijay. Ele não pôde ir à universidade somente por minha causa, porque eu não tinha rendimentos, e alguém tinha que prover para a família. Os meus outros irmãos também foram para a universidade também, e suas despesas também tinham que ser pagas, então Vijay ficou em casa. Ele realmente sacrificou. Vale uma fortuna ter um irmão tão belo. Ele sacrificou tudo. Eu não queria me casar, embora minha família tenha sido insistente.

            Vijay me disse, “Bhaiyya” – bhaiyya significa irmão – “se eles estão te torturando muito, estou pronto para casar-me. Apenas prometa-me uma coisa: você escolherá a garota.” Seria um casamento arranjado, como todos os casamentos o são na Índia.

            Eu disse, “Posso fazer isso.” Mas o sacrifício dele tocou-me, e ajudou-me tremendamente. Uma vez que ele estava casado eu fui esquecido completamente, porque tenho outros irmãos e irmãs. Uma vez que ele estava casado, então haviam outros para seres casados. Eu não estava pronto para fazer qualquer negócio.

            Vijay disse, “Não se preocupe, estou pronto para fazer qualquer tipo de trabalho.” E desde muito jovem ele envolveu-se em muitas coisas mundanas. Sinto muito por ele imensamente. A minha gratidão por ele é grande.

            Eu disse a meu pai, “Pagal Baba me pediu e prometi para ele, então tenho que dar o fogo. No que diz respeito a sua morte, não se preocupe, o meu irmão mais novo estará lá. Também estarei presente, mas não como seu filho.”

            Eu não sei porque eu disse isso, e o que ele pode ter pensado, mas isso provou-se verdadeiro. Eu estava presente quando ele morreu. De fato, eu o chamei para morar comigo, apenas para eu não ter que ir à vila onde ele morava. Eu nunca quis voltar para lá depois da morte da minha avó. Esta era outra promessa. Tenho que cumprir tantas promessas, mas até agora fui bem-sucedido em cumprir a maioria delas. Existem algumas poucas promessas que permanecem para serem cumpridas.

            Eu disse ao meu pai, e eu estava presente em seu funeral, mas não lhe dei o fogo. E certamente eu não estava presente como seu filho. Quando ele morreu ele era meu discípulo, um sannyasin, e eu era seu mestre.

      Que horas são?

            “Oito e trinta e cinco, Osho.”

            Cinco minutos para mim. Quando o tempo acabar, acabou. Eu também tenho que rir de vez em quando. Um único momento no clímax é suficiente.

            Pare.

 

Sessão 31

 

Pagal Baba estava um pouco preocupado em seus últimos dias. Eu podia ver, embora ele não tenha dito nada, nem outra pessoa o tivesse mencionado. Talvez mais ninguém tinha sequer consciência que ele estava preocupado. Certamente não era por causa da sua doença, idade avançada ou sua morte vindoura; essas coisas eram absolutamente imateriais para o homem.

            Uma noite, quando estávamos sozinhos lhe perguntei. De fato, tive que acordá-lo no meio da noite, porque era muito difícil encontrar um momento quando nenhuma outra pessoa estava com ele.

            Ele me disse, “Deve ser algo de grande importância; caso contrário você não teria me acordado. O que se passa?”

            Eu disse, “Essa é a questão. Estive te observando – sinto uma pequena sombra de preocupação em torno de você. Ela nunca esteve aqui antes. A sua aura sempre foi tão clara, assim como um sol brilhante, mas agora vejo uma pequena sombra. Não pode ser a morte.”

            Ele riu e disse, “Sim, a sombra está aqui, e não é a morte, isso também é verdade. A minha preocupação é, estou esperando por um homem para entregar a ele a minha responsabilidade por você. Estou preocupado porque ele ainda não apareceu. Se eu morrer será impossível você ser capaz de encontrá-lo.”

            Eu disse, “Se eu realmente precisar de alguém, eu o encontrarei. Mas não preciso de ninguém. Relaxe antes que a morte venha. Não quero ser a causa dessa sombra. Você deve morrer tão brilhantemente radiante como viveu.”

            Ele disse, “Não é possível… mas sei que o homem virá – estou desnecessariamente preocupado. Ele é um homem de palavra; ele prometeu alcançar-me antes de eu morrer.”

            Eu lhe perguntei, “Como ele sabe quando você morrerá?”

            Ele riu e disse, “É por isso que quero apresentar você a ele. Você é muito jovem e eu gostaria que alguém como eu estivesse ao seu redor.” Ele disse, “De fato, esta é uma convenção antiga, que se uma criança um dia tornar-se-á iluminada, então pelo menos três pessoas iluminadas devem reconhecê-la em tenra idade.”

            Eu disse, “Baba, isso é tudo bobagem. Ninguém pode impedir-me de acordar.”

            Ele disse, “Eu sei, mas sou um homem velho, convencional, então por favor, particularmente no momento da minha morte, não diga nada contra a convenção.”

            Eu disse, “Ok, por você eu ficarei absolutamente em silêncio. Não vou dizer nada, porque qualquer coisa que eu disser será, de alguma forma, contra a convenção, a tradição.”

            Ele disse, “Não estou dizendo que você deve ficar em silêncio, mas apenas sinta o que estou sentindo. Sou um homem velho. Não tenho ninguém no mundo que me importo, exceto você. Não sei por que, ou como, você tornou-se tão próximo de mim. Quero alguém no meu lugar para que você não sinta a minha falta.”

            Eu disse, “Baba, ninguém pode te substituir, mas te prometo que vou tentar muito não sentir a sua falta.”

            Mas o homem chegou na manhã seguinte.

            O primeiro homem iluminado que me reconheceu foi Magga Baba. O segundo foi Pagal Baba, e o terceiro era mais estranho do que eu poderia ter imaginado. Até mesmo Pagal Baba não era tão louco. O homem chamava-se Masta Baba.

            Baba é uma palavra respeitosa: ela simplesmente significa “o avô.” Mas qualquer um que é reconhecido pelas pessoas como iluminado também é chamado Baba, porque ele é realmente o homem mais velho na comunidade. Ele pode não o ser de fato; ele pode ser apenas um jovem, mas ele tem que ser chamado de Baba, o avô.

            Masta Baba era esplêndido, e do jeito que eu gosto que um ser humano seja. Ele era exatamente como se feito para mim. Nos tornamos amigos até mesmo antes de Pagal Baba nos apresentar.

            Eu estava fora da casa. Não sei porque eu estava ali; pelo menos agora não me recordo o propósito, foi há tanto tempo. Talvez eu estava esperando também, porque Pagal Baba disse que o homem manteria a sua palavra; ele viria. E eu estava certamente curioso como qualquer criança. Eu era uma criança, e permaneci uma criança apesar de tudo. Talvez eu estava esperando, ou fingindo fazer alguma outra coisa mas de fato estava esperando pelo homem, e olhando para a estrada – e ali estava ele! Eu não esperava que ele chegaria daquela maneira! Ele chegou correndo!

            Ele não era muito velho, não mais que trinta e cinco, exatamente no pico de sua juventude. Ele era um homem alto, muito magro, com um belo cabelo longo e uma bela barba.

            Eu lhe perguntei, “Você é Masta Baba?”

            Ele ficou um pouco surpreso e disse, “Como você sabe o meu nome?”

            Eu disse, “Não há nada misterioso nisso. Pagal Baba está esperando por você; naturalmente ele mencionou o seu nome. Mas você é realmente o homem que eu mesmo escolheria. Você é tão louco quanto Pagal Baba deve ter sido quando ele era jovem. Talvez você seja apenas o jovem Pagal Baba voltando de novo.”

            Ele disse, “Você parece ser mais louco que eu. Onde está Pagal Baba de qualquer forma?”

            Eu lhe mostrei o caminho, e entrei atrás dele. Ele tocou os pés de Pagal Baba, que então disse, “Este é o meu último dia, e Masto” – essa era a forma que ele costumava chamá-lo – “Eu estava esperando por você, e fiquei um pouco preocupado.”

            Masto replicou, “Por quê? A morte não é nada para você.”

            Baba replicou, “É claro que a morte não é nada para mim, mas olhe para trás. Esse garoto significa muito para mim; talvez ele será capaz de fazer o que eu queria fazer e não pude. Toque os pés dele. Eu estive esperando para que pudesse apresentar-te a ele.”

            Masta Baba olhou nos meus olhos… e ele era o único homem real entre os muitos que Pagal Baba me apresentou e disse para tocar os meus pés.

            Tornou-se quase um cliché. Todo mundo sabia que se você fosse até Pagal Baba você teria que tocar os pés daquele garoto que era um incômodo de todas as formas possíveis. E você tem que tocar os pés dele – que absurdo! Mas Pagal Baba é louco. Esse homem, Masto, era certamente diferente. Com lágrimas em seus olhos e mãos postas ele disse, “A partir desse momento você será meu Pagal Baba. Ele está deixando o seu corpo, mas continuará vivendo como você.”

            Eu não sei quanto tempo passou, porque ele não soltava os meus pés. Ele estava chorando. O seu belo cabelo estava espalhado por todo o chão. Muitas vezes eu lhe disse, “Masta Baba, isso é suficiente.”

            Ele disse, “A menos que você me chame de Masto, não vou deixar os seus pés.”

            Ora, ‘Masto’ é um termo usado apenas por um homem mais velho para uma criança. Como eu poderia chamá-lo Masto? Mas não havia outra forma. Eu tive que. Até mesmo Pagal Baba disse, “Não espere, chame-o de Masto, para que eu possa morrer sem nenhuma sombra em torno de mim.”

            Naturalmente, em tal situação, tive que chamá-lo de Masto. No momento que usei o nome, Masto disse, “Diga-o três vezes.”

            No Oriente, isso também é uma convenção. A menos que você diga uma coisa três vezes ela não significa muito. Então três vezes eu disse, “Masto, Masto, Masto. Agora você deixará os meus pés, por favor?” E eu ri, Pagal Baba riu, Masto riu – e aquele riso de todos os três nos uniu em algo que é inquebrável.

            Naquele mesmo dia Pagal Baba morreu. Mas Masto não ficou, embora eu tivesse lhe dito que a morte estava muito próxima.

            Ele disse, “Para mim agora você é o único. Sempre que precisar, virei até você. Ele iria morrer de qualquer forma; de fato, para dizer-lhe a verdade, ele deveria ter morrido há três dias. Ele permaneceu apenas por você, para que ele pudesse me apresentar a você. E não foi apenas por você, foi por mim também.”

            Eu perguntei para Pagal Baba antes dele morrer, “Por que você está tão feliz depois que Masta Baba chegou?”

            Ele disse, “Apenas uma mente convencional, perdoe-me.”

            Ele era um velho tão agradável. Pedir perdão, na idade de noventa anos, para um garoto, e com tanto amor…

            Eu disse, “Não estou lhe perguntando porque você o esperou. A questão não é sobre você ou ele. Ele é um belo homem, e que vale a pena esperar. Estou perguntando porque você se preocupou tanto.”

            Ele disse, “Novamente permita-me não argumentar nesse momento. Não é que sou contra o argumento, como você sabe. Particularmente amo a forma que você argumenta, e a estranha reviravolta que você dá aos argumentos, mas essa não é a hora. Realmente não há tempo. Estou vivendo em um tempo emprestado. Posso dizer-te apenas uma coisa: estou feliz que ele veio, e feliz que vocês dois tornaram-se amigos carinhosos, como eu gostaria. Talvez um dia você verá a verdade dessa ideia velha, tradicional.”

            A ideia é que a menos que três pessoas iluminadas reconheçam uma criança como um futuro buda, é quase impossível ela tornar-se um. Pagal Baba, você estava certo. Agora posso vê-lo, não é apenas uma convenção. Reconhecer alguém como iluminado é ajudá-lo imensuravelmente. Particularmente se um homem como Pagal Baba reconhecer você e tocar os seus pés – ou um homem como Masto.

            Eu continuei chamando-o de Masto porque Pagal Baba disse, “Nunca o chame de Masta Baba de novo; ele ficará ofendido. Eu costumo chamá-lo de Masto, e a partir de agora você terá que fazer o mesmo.” E era realmente um espetáculo! – uma criança chamando-o, ele que era respeitado por centenas de pessoas, “Masto.” E não apenas isso, ele faria imediatamente qualquer coisa que eu lhe dissesse.

            Certa vez, somente como um exemplo – Ele estava fazendo uma palestra. Eu levantei-me e disse, “Masto, pare imediatamente!” Ele estava no meio de uma sentença. Ele nem a completou; ele parou. As pessoas insistiram para que ele terminasse o que estava dizendo. Ele nem respondia. Ele apontou para mim. Tive que ir ao microfone dizer para as pessoas voltarem para suas casas, e Masto foi tomado sob minha custódia.

            Ele riu hilariamente, e tocou os meus pés. E a sua forma de tocar os meus pés… Milhares de pessoas devem ter tocado os meus pés, mas ele tinha um modo próprio, único. Ele tocava os meus pés quase – como dizê-lo – como se ele estivesse confrontando o próprio Deus. E ele sempre chorava, e seu longo cabelo… eu tinha trabalho para ajudá-lo a sentar-se novamente.

            Eu diria, “Masto, chega! Já é suficiente.” Mas quem estava ali para ouvir? Ele estava chorando, cantando, ou entoando um mantra. Eu tinha que esperar até ele terminar. Às vezes eu ficava sentado por até meia hora, apenas para dizê-lo, “É o suficiente.” Mas eu só podia dizê-lo quando ele terminava. Afinal, também tenho modos. Eu não poderia dizer, “Pare!” ou “Deixe meus pés!” quando eles estavam em suas mãos.

            De fato, eu nunca quis que ele os deixasse, mas tenho outras coisas para fazer, e ele também. É um mundo prático, e embora eu seja muito não-prático, em relação às outras pessoas não sou; Sou sempre pragmático e prático. Quando eu tinha um único momento para interromper, eu diria, “Masto, pare. Chega. Você está chorando demais, e seu cabelo – terei que lavá-lo. Ele está se sujando na lama.”

            Vocês conhecem o pó Indiano; ele é onipresente, está em todos os lugares, particularmente em uma vila. Tudo é empoeirado. Até mesmo as faces das pessoas parecem empoeiradas. O que elas podem fazer? Quantas vezes elas podem lavar? Mesmo aqui, em uma sala com ar-condicionado sem poeira, apenas por um velho hábito, sempre que vou ao banheiro – apenas para contar-lhes um segredo, não contem para ninguém – lavo a minha face sem nenhuma razão, muitas vezes por dia… apenas um velho hábito Indiano.

            Era tão empoeirado que eu costumava correr para o banheiro várias vezes. A minha mãe costumava dizer-me, “Parece que devemos fazer um banheiro no seu quarto, para que você não tenha que correr pela casa tantas vezes. O que você faz?”

            Eu disse, “Eu apenas lavo o meu rosto – há tanta poeira.” Eu disse a Masto, “Terei que lavar o seu cabelo.” E eu costumava lavar o seu cabelo. Ele era tão bonito, e eu sempre amei qualquer coisa bonita. Este homem Masto, o homem que Pagal Baba estava tão preocupado, foi o terceiro homem iluminado. Ele queria que três homens iluminados tocassem os pés de um pequeno garoto não-iluminado, e ele conseguiu.

            Os loucos têm os seus próprios caminhos. Ele conseguiu perfeitamente. Ele até mesmo persuadiu os iluminados a tocarem os pés de um garoto que certamente não era iluminado.

            Eu perguntei-lhe, “Você não acha que isso é um pouco violento?”

            Ele disse, “De maneira alguma. O presente tem que ser oferecido ao futuro. E se uma pessoa iluminada não pode ver o futuro, ela não é iluminada. Não é somente uma ideia de um homem louco,” ele disse, “mas uma das mais antigas e respeitadas ideias.”

            Buda, até mesmo quando ele tinha vinte e quatro horas de idade, foi visitado por um homem iluminado, que chorou e tocou os pés da criança. O pai de Gautama o Buda não podia acreditar no que estava acontecendo, porque o homem era muito famoso; até mesmo o pai de Buda costumava ir até ele. Ele ficou louco ou algo do tipo? Tocar os pés de uma criança de vinte e quatro horas?

            O pai de Buda perguntou, “Posso perguntar, senhor, por que você está tocando os pés dessa pequena criança?”

            O homem iluminado disse, “Estou tocando os seus pés porque posso ver o que é possível. Agora ela é um botão, mas ela tornar-se-á um lótus.” E o pai de Buda – Shuddhodana era seu nome – perguntou, “Então por que você está chorando? Fique feliz porque ela tornar-se-á um lótus.” O velho homem disse, “Estou chorando porque não estarei presente nesse momento.”

            Sim, até mesmo os budas choram em momentos particulares – particularmente em um momento como esse. Ver uma criança que vai tornar-se um buda e saber que a própria morte acontecerá antes disso é certamente difícil. É quase como uma noite escura: você pode ver, os pássaros começaram a cantar, o sol levantar-se-á logo; já existe até uma luz no horizonte – e você tem que morrer sem ver outra manhã.

            Certamente, o velho homem que chorou e tocou os pés de Buda estava certo. Eu sei pela minha própria experiência. Essas três pessoas foram as mais importantes que já encontrei, e não acho que vou encontrar alguém que será mais importante que essas três. Eu encontrei outras pessoas iluminadas também, depois da minha iluminação, mas essa é outra história.

            Encontrei meus próprios discípulos depois deles tornarem-se iluminados; esta também é uma história diferente. Mas ser reconhecido quando eu era apenas uma criança pequena, e todo mundo estava contra mim, foi um destino estranho. A minha família sempre esteve contra mim. Eu excluo o meu pai, minha mãe, meus irmãos – mas era uma família grande. Todos eles estavam contra mim, por uma razão simples – e posso entendê-los, eles estavam certos em um aspecto – que eu estava me comportando como um louco, e eles estavam preocupados.

            Todo mundo naquela pequena vila estava reclamando de mim ao meu pobre pai. Devo dizer que ele teve paciência infinita. Ele ouvia a todos. Era quase um trabalho de vinte e quatro horas. Todo dia – entra dia, sai dia, às vezes até mesmo no meio da noite – alguém viria, porque eu tinha feito algo que não deveria ter sido feito. E eu estava fazendo apenas coisas que não deveriam ser feitas. De fato, pergunto-me como eu sabia quais eram as coisas que não deveriam ser feitas, porque nem mesmo por acidente eu fazia algo que deveria ser feito.

            Uma vez perguntei a Pagal Baba, “Talvez você possa explicar-me. Eu poderia entender se cinquenta por cento das coisas que faço fossem erradas, e cinquenta por cento fossem certas, mas comigo sempre é cem por cento errado. Como consigo isso? Você pode explicar-me?”

            Pagal Baba riu e disse, “Você controla perfeitamente. É assim que se faz as coisas. E não se preocupe com o que os outros dizem; siga seu próprio caminho. Ouça todas as queixas e se você for punido, desfrute.”

            Eu realmente desfrutei, devo dizê-lo – até mesmo a punição. O meu pai parou de punir-me no momento em que descobriu que eu desfrutava. Por exemplo, uma vez ele me disse, “Corra sete vezes em torno do quarteirão. Corra rápido, e então volte.”

            Perguntei, “Posso correr setenta vezes? É tão bonito pela manhã.” Posso ver a sua face. Ele pensou que estava punindo-me. Eu realmente corri setenta vezes em torno do quarteirão. Logo ele entendeu que era difícil punir-me. Eu desfrutava.

            Sempre simpatizei com o meu pai porque ele sofria desnecessariamente. Eu costumava ter um cabelo longo, e eu o amava. Não apenas isso, eu costumava usar roupas do Punjabi, que não eram usadas naquela área. Apaixonei-me pelas roupas do Punjabi depois de vê-las em um grupo de cantores que visitaram à vila. Eu achava que elas eram as roupas mais belas da Índia. Com o meu cabelo longo, e usando o salwar e a kurta, as pessoas pensavam que eu era uma garota. E eu estava passando através da loja do meu pai, entrando e saindo da casa o dia todo.

            As pessoas perguntavam a meu pai, “De quem é essa garota? Que tipo de roupas ela está usando?” Obviamente o meu pai ficava ofendido. Não vejo que há algo errado se alguém pensa que seu garoto é uma garota. Mas nessa sociedade masculina chauvinista o meu pai naturalmente veio correndo atrás de mim dizendo, “Ouça, você pare de usar esse salwar e kurta. Essas roupas parecem de mulher. E, ademais, corte o seu cabelo; caso contrário vou cortá-lo para você!”

            Eu falei para ele, “No momento em que você cortar o meu cabelo você se arrependerá.”

            Ele disse, “O que você quer dizer?”

            Eu disse, “Eu já disse. Agora você pode pensar a respeito, e descobrir o que quero dizer. Você se arrependerá.”

            Ele ficou muito bravo. Esta foi a única vez que o vi tão bravo. Ele trouxe suas tesouras da loja. Era uma loja de roupas, e então sempre haviam tesouras para cortar as roupas. Então ele cortou o meu cabelo dizendo, “Agora você vá até o cabeleireiro para que ele corte melhor; caso contrário você parecerá uma caricatura.”

            Eu disse, “Eu vou, mas você se arrependerá.”

            Ele disse, “De novo? O que você quer dizer?”

            Eu disse, “Você quem fez. Você pensa sobre isso. Por que devo explicá-lo a você? Não devo nenhuma explicação para ninguém. Você cortou o meu cabelo e arrepender-se-á.”

            Fui a um cabeleireiro que consumia ópio. Eu o escolhi particularmente porque ele era o único homem que faria qualquer coisa que eu dissesse. Nenhum outro cabeleireiro faria algo a não ser que ele pensasse ser o certo. Terei que explicar para vocês que na Índia, a cabeça de uma criança é completamente raspada apenas quando o seu pai morre. Fui até esse sujeito viciado em ópio de quem eu amava de qualquer forma. O seu nome era Natthu. Eu lhe disse, “Natthu, você pelo menos é capaz de cortar todo o meu cabelo?”

            Ele disse, “Sim, sim, sim” – três vezes.

            Eu disse, “Ótimo. Essa é o caminho do Buda – três vezes. Então por favor corte-o.” E ele raspou minha cabeça completamente.

            Quando cheguei em casa, o meu pai olhou para mim e não pôde acreditar: eu parecia um monge Budista. Esta é a diferença entre os monges Budistas e os Hindus. O monge Hindu raspa a sua cabeça deixando algum cabelo no topo da cabeça, no exato ponto onde o sahasrar, o sétimo chakra está. É para protegê-lo e brindá-lo com uma pequena sombra do sol quente. O monge Budista é mais ousado; ele corta tudo, ele raspa toda a sua cabeça.

            Meu pai disse, “O que você fez? Você sabe o que isso significa? Estarei agora mais encrencado que antes. Todo mundo vai perguntar, “Por que essa criança está com o cabelo completamente raspado? O seu pai morreu?”

            Eu disse, “Isso é com você agora. Eu te falei que você iria arrepender-se.” E ele arrependeu-se por meses. As pessoas continuavam perguntando para ele, “O que aconteceu?”… porque eu não deixava o meu cabelo crescer.

            Natthu sempre estava lá, e ele era um homem amável. Sempre que eu ia até ele e sua cadeira estava vazia, eu sentava em sua cadeira e dizia, “Natthu, faça-o novamente.”

            Então quaisquer fios que haviam crescido ele os raspava. Ele me disse, “Eu amo raspar cabeças. Os tolos vêm até mim e dizem, ‘Corte desse jeito, nesse estilo, ou naquele.’ Tudo bobagem. Esse é o melhor estilo: eu não tenho que me preocupar, nem você. É simplesmente liso, e muito santo.”

            Eu disse, “Você disse a palavra. Isso é muito santo. Mas você compreende que se o meu pai ficar sabendo que você é a pessoa que está fazendo isso, você terá problemas?”

            Ele disse, “Não se preocupe. Todo mundo sabe que sou viciado em ópio. Posso fazer qualquer coisa. Se eu não corto sua cabeça fora, isso é o suficiente.” E ele riu.

            Eu disse, “Isso é bom. Na próxima vez, se eu quiser cortar a minha cabeça fora, eu venho até você. Sei que posso contar com você.”

            Ele disse, “Sim meu garoto, sim meu garoto, sim meu garoto.”

            Talvez por causa do ópio, ele tinha que repetir tudo três vezes. Talvez somente assim ele podia ouvir o que estava falando.

            Mas meu pai aprendeu uma lição. Ele me disse, “Eu me arrependi o suficiente. Não farei uma coisa dessa de novo.” E ele nunca fez. Ele manteve sua palavra. Essa foi a sua primeira e última punição a mim. Isso é inacreditável para mim, porque fiz tantas coisas incômodas. Mas ele ouvia pacientemente todas as queixas, e nunca falava nada para mim. De fato, ele fez o seu melhor para me proteger.

            Uma vez lhe perguntei, “Você prometeu não me punir, mas você não prometeu me proteger. Não há necessidade de proteger-me.”

            Ele disse, “Você é tão travesso que se eu não te proteger, não acho que você sobreviverá. Alguém em algum lugar vai te matar. Tenho que protegê-lo. Ademais, esse Pagal Baba está sempre me dizendo ‘proteja essa criança.’ Eu o amo e respeito. Se ele diz que tenho que protegê-lo, então ele deve estar certo. Então posso acreditar que toda a vila está errada, incluindo eu. Mas não posso pensar que Pagal Baba está errado.”

            E sei que Pagal Baba costumava falar a todos, meus professores, meus tios, “Proteja essa criança.” Até minha mãe ouviu que ela deveria proteger-me. Lembro-me perfeitamente, a única pessoa que ele não disse isso foi a minha Nani. Era uma exceção tão absolutamente clara que tive que perguntá-lo, “Por que você nunca fala para minha Nani ‘Proteja-o’?”

            Ele disse, “Não há necessidade: ela vai te proteger mesmo se tiver que morrer por você. Ela até brigaria comigo. Posso confiar nela. Ela é a única da sua família que não preciso dizer nada sobre sua proteção.”

            Seu discernimento era claro como o cristal. Sim, existem olhos que podem ver além da fumaça que todo ser humano cria em torno de si apenas para esconder-se por detrás.

Publicado por rafaelsc

"Ensinar não é encher um balde, é acender um fogo" Yeats "Creio porque é absurdo" Tertuliano "Seja uma luz para si próprio" Buda “Sentando-se quieto, sem fazer nada, a primavera vem e a grama cresce, por si só." Matsuo Bashō "O silêncio e a risada são a chave – silêncio dentro, risada fora" Osho

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