Sessão 24

 

Eu estava falando para vocês que a amizade é um valor superior ao amor. Ninguém disse isso antes. E eu também disse que a amabilidade é superior à amizade. Ninguém nem mesmo mencionou isso. Certamente terei que explicar.

            O amor, por mais belo que seja, permanece terreno. É algo como as raízes de uma árvore. O amor tenta elevar-se acima da terra e tudo o que esta implica – o corpo – mas cai repetidas vezes. Não é surpreendente que as pessoas dizem que alguém “caiu de amor.”* [NT. Fall in love] Esta frase existe em todas as línguas, até onde eu sei.

            Tentei explorar essa questão perguntando a várias pessoas de vários países. Escrevi a todas as embaixadas perguntando se elas tinham uma frase em sua língua que é exatamente equivalente a “caindo de amor.” Todas responderam, “É claro.”

            E quando perguntei, “Vocês têm uma frase ou algo similar ao que chamo ‘elevando-se no amor’?” ou elas riram, ou começaram a falar sobre outra coisa. Se perguntei por carta, então elas nunca responderam. Certamente ninguém responde a um louco que está perguntando, “Existe uma palavra em sua língua para ‘elevando-se no amor’?”

            Nenhuma língua tem esse tipo de palavra, e não pode ser apenas coincidência. Em uma língua tudo bem, até mesmo em duas talvez, mas não pode ser coincidência em três mil línguas. Não é por acaso que todas as línguas conspiraram juntas para fazer uma frase de três mil maneiras para significar “cair de amor.” Não, a razão é: o amor é basicamente da terra. Ele pode saltar um pouco, ou melhor, vocês podem chamá-lo de cooper…

            Ouvi dizer que o cooper está na moda, particularmente na América, e isso é tão verdade que outra noite recebi um presente de uma senhora que ama os meus livros. Ela me enviou uma roupa de cooper. Grande ideia! Amei. Eu falei para Chetana, “Lave-a, eu vou usá-la.”

            Ela disse, “Você vai fazer cooper?”

            Eu disse, “Em meu sono! Vou usá-la como pijama.” E, a propósito, vocês provavelmente sabem que todos os meus pijamas já são roupas de fazer cooper. Eu gosto deles, porque no meu sono posso fazer cooper e exercícios, ou lutar com Muhammad Ali o grande, e fazer todos os tipos de coisas – mas apenas no meu sono, debaixo dos meus cobertores, em absoluta privacidade.

            Eu estava falando para vocês que o amor, de vez em quando, salta e sente-se como se estivesse livre da terra; mas a terra sabe mais: em breve ele volta aos seus sentidos com um golpe, talvez com ossos quebrados. O amor não pode voar. Ele é um pavão, com belas penas – mas lembre-se, eles não são capazes de voar. Sim, o pavão pode fazer cooper…

            O amor é muito terreno. A amizade é um pouco superior; ela tem asas – não apenas penas, mas as asas de um papagaio. Vocês sabem como os papagaios voam? – De uma árvore para outra, ou talvez de um jardim para outro, de um bosque para outro, mas não voam na direção das estrelas. Seu voo é pobre. A amabilidade é o mais alto valor, porque a amabilidade não tem gravitação de maneira alguma. É apenas levitação, se vocês me permitem usar essa palavra. Não sei se os pânditas do Inglês permitirão ‘levitação’; ela apenas significa ‘contra a gravidade’. A gravitação puxa para baixo, a levitação puxa para cima. Mas quem liga para os pânditas? – eles são muito graves, eles já estão em seus túmulos.

            A amabilidade é uma gaivota – sim, como Jonathan, elevando-se além das nuvens. Isso é apenas para conectá-los com o que eu estava falando para vocês…

            A minha avó chorou porque ela pensava que eu não teria amigos. De uma forma ela estava certa, de outra estava errada. Ela estava certa em relação aos meus dias de escola, colégio e universidade, mas errada em relação a mim, porque mesmo nos meus dias de escola – embora eu não tivesse nenhum amigo no sentido ordinário, tive amigos em um sentido muito extraordinário. Contei a vocês sobre Shambhu Babu. Contei a vocês sobre minha própria Nani. De fato, essas duas pessoas me mimaram, e me mimaram de uma forma que não é possível voltar atrás. Qual era a estratégia delas?

            A minha Nani veio primeiro, cronologicamente também; ela era tão atenta a mim. Ela ouvia a todos os meus disparates, minhas fofocas, com uma atenção tão absorta que até eu acreditava estar falando a verdade.

            O segundo foi Shambhu Babu. Ele também ouvia com olhos que não piscavam. Eu nunca tinha visto alguém ouvir sem piscar: de fato, conheço somente outra pessoa, e essa sou eu. Não posso assistir um filme pela simples razão que quando o faço esqueço de piscar. Não posso fazer duas coisas juntas, particularmente se elas são tão divergentes quanto olhar um filme e piscar. Até hoje é impossível para mim. Não vejo filmes porque duas horas sem piscar dá dor de cabeça e os olhos ficam cansados, tão cansados que eles não conseguem nem dormir. Sim, o cansaço pode ser tão grande que mesmo o sono significa muito esforço. Mas Shambhu Babu costumava ouvir-me sem piscar. De vez em quando eu lhe dizia, “Shambhu Babu, por favor pisque. A menos que você pisque não vou dizer mais nada.”

            Então ele piscaria rapidamente duas ou três vezes e diria, “Ok, agora continue e não me perturbe.”

            Bertrard Russell escreveu certa vez que chegaria um dia em que a psicanálise tornar-se-ia a maior profissão. Por quê? Porque eles são as únicas pessoas que ouvem com atenção, e todos precisam de alguém para ouvi-los pelo menos de vez em quando. Mas pagar um psicanalista para ouvi-lo – apenas pense nesse absurdo, pagar uma pessoa para ouvi-lo! É claro que ele realmente não ouve tudo, ele finge. Foi por isso que fui o primeiro homem da Índia a pedir que as pessoas pagassem para me ouvir. Isso é totalmente o oposto da psicanálise, e faz sentido. Se você quer entender-me, então pague. E no Ocidente as pessoas estão pagando apenas para serem ouvidas.

            Sigmund Freud, sendo um Judeu perfeito, criou umas das maiores invenções do mundo – o divã do psicanalista. É realmente uma grande invenção. O pobre paciente deita-se no divã, assim como eu aqui – mas não sou o paciente, essa é a dificuldade.

            O paciente está escrevendo as notas: Doutor Devageet, ele se chama. Ele é chamado de doutor, mas não é como Sigmund Freud. Ele não está aqui como um doutor. Estranhamente – comigo tudo é estranho – o doutor está deitado no divã, e o paciente está sentado no assento do doutor. O meu próprio doutor está sentado aqui, perto dos meus pés. Você já viu algum doutor sentado aos pés de seu paciente?

Aqui é um mundo totalmente diferente. Comigo tudo fica de cabeça para cima – não posso dizer de cabeça para baixo.

Não sou um paciente, embora seja muito paciente; e os meus doutores não são doutores, embora sejam perfeitamente qualificados como doutores. Eles são meus sannyasins, meus amigos. É disso o que estou falando, o que a amabilidade pode fazer – um milagre. É alquimia. O paciente torna-se o doutor, o doutor torna-se o paciente; isso é alquimia.

O amor não pode fazê-lo. O amor, apesar de bom, não é suficiente. E comer demais mesmo de uma coisa boa é ruim para vocês; isso dará diarreia ou cólicas no estômago e outras coisas mais. O amor pode fazer tudo, exceto ir além de si próprio. Ele vai cada vez mais para baixo. Ele se torna rixa, implicância e conflito. Todo amor, se segue naturalmente o seu fim natural, necessariamente termina em divórcio. Se vocês não seguem logicamente, essa é outra questão; então vocês ficam presos. Ver qualquer pessoa presa é realmente terrível; é necessário que algo seja feito em relação a isso. Mas essas pessoas presas, se você fizer alguma coisa em relação a isso, elas vão ambas lutar contra você juntas, com dentes e unhas.

Lembro-me, há algumas semanas atrás, um amigo do Anthony veio da Inglaterra tomar sannyas e vocês conhecem um cavalheiro Inglês – ele estava tão preso, como vocês dizem, até o pescoço. Não era possível ver nada, ele estava tão afundado na lama. Era possível ver apenas alguns dos seus cabelos – apenas alguns porque ele era um homem calvo, assim como eu. Se ele fosse completamente calvo isso seria muito melhor; pelo menos ninguém o notaria. Tentei puxá-lo para fora, mas como você puxa para fora um homem com apenas alguns cabelos aparecendo na lama? Tenho meus próprios métodos.

Pedi para Anthony e Uttama ajudarem o pobre homem. Eles me disseram, “Ele quer separar-se da esposa.” Eu vi a sua esposa também, porque ela insistiu que queria estar presente quando ele tomasse sannyas. Ela queria ver o quanto ele seria hipnotizado. Permiti a presença dela porque não há hipnotismo sendo praticado aqui. De fato, ela própria ficou interessada. Convidei-a também, dizendo, “Por que você não se torna uma sannyasin?”

Ela disse, “Vou pensar a respeito.”

Eu disse a ela, “Todo o meu princípio é ‘Salte antes de pensar,’ mas não posso fazer nada, então pense a respeito. Se eu ainda estiver por aqui até você pensar, estarei pronto para ajudar você.”

Mas eu disse a Anthony e Uttama – que são ambos meus sannyasins, e são daqueles poucos realmente próximos a mim – para ajudarem o seu amigo. Falei para eles fazerem todos os arranjos possíveis para a sua esposa e seus filhos, para que estes não fiquem desamparados, mas espiritualmente o marido dela não devia sofrer mais. Mesmo que ele tivesse que deixar tudo para a sua esposa, que assim fosse. Sou suficiente para ele.

Eu vi o homem e a sua beleza. Ele tem uma qualidade muito simples, infantil, a mesma fragrância que vocês encontram quando chove pela primeira vez e a terra alegra-se – a fragrância da alegria. Ele estava feliz em ser um sannyasin.

Há alguns dias recebi uma mensagem dizendo que ele estava dormindo continuamente, apenas por causa do medo da sua esposa. Ele não queria levantar-se. No momento em que acorda, ele imediatamente toma comprimidos para dormir. Eu disse para Anthony dizer para ele, “Este sono não ajudará. Pode até matá-lo, mas não o ajudará ou sua esposa. Você deve encarar a verdade.”

Pouquíssimas pessoas encaram a verdade, aquilo que elas chamam de amor é apenas biológico – e noventa e nove por cento do amor é biológico. A amizade é noventa e nove por cento psicológica. A amabilidade é noventa e nove por cento espiritual. O um por cento que sobra no amor é amizade; o um por cento que sobra na amizade é amabilidade. E o um por cento que sobra na amabilidade é apenas para aquilo que não tem nome. De fato os Upanishads chamaram-no exatamente assim: “Tattvamasi – tu és isso.” Tat… como vou chamá-lo? Não, não vou atribuir nenhum nome a ele. Todos os nomes traíram o ser humano. Todos os nomes sem exceção provaram-se inimigos do ser humano, então não quero nomeá-lo.

Simplesmente indico com os meus dedos em sua direção. E mesmo que eu dê ou não um nome a ele, ele não tem nome. É inominável. Todos os nomes são invenções nossas. Quando entenderemos uma coisa simples? Uma rosa é uma rosa é uma rosa; qualquer nome que você der a ela, não faz diferença nenhuma porque mesmo a palavra ‘rosa’ não é o seu nome. Ela está simplesmente ali. Quando você abandona a linguagem entre você e a existência, de repente a explosão… o êxtase!

O amor pode ajudar, por isso não sou contra o amor. Isso seria como ser contra uma escada. Não, uma escada é boa, mas andem com cuidado, particularmente em uma escada velha. E lembrem-se: o amor é o mais velho. Adão e Eva caíram por ele; mas não era preciso cair, não havia nenhuma necessidade de eles caírem. Se eles escolheram – e, de vez em quando, alguém quer cair, então é apenas sua escolha. Mas cair com liberdade é uma coisa, e cair como uma punição é totalmente outra.

Se eu fosse escrever a Bíblia novamente… eu não faria uma coisa tão estúpida, vocês podem acreditar em mim. Estou dizendo se eu fosse escrevê-la, então eu faria Adão e Eva caírem, não como uma punição, mas como uma escolha, a partir da liberdade deles.

Que horas são?

“Oito e cinco, Osho.”

Isso é bom, porque ainda nem comecei. O início requer um longo tempo.

O amor é bom, apenas bom, mas não suficiente, não é suficiente para dar-lhes asas. Para isso a amizade é necessária, e o amor não a permite. O suposto amor, eu quero dizer, é extremamente contra a amizade. Ele teme muito a amizade porque qualquer coisa superior é um risco, e a amizade é superior.

Quando você pode desfrutar da amizade de um homem ou uma mulher, então você conhece pela primeira vez que o amor é uma trapaça, uma enganação. Infelizmente, então você realiza quanto tempo foi perdido. Mas a amizade é somente uma ponte. É preciso passar por ela; não é possível morar nela. Uma ponte não foi feita para se viver sobre ela. Esta ponte leva à amabilidade.

A amabilidade é pura fragrância. Se o amor é a raiz e a amizade a flor, então a amabilidade é a fragrância, invisível aos olhos. Vocês não podem nem tocá-la; vocês não podem segurá-la em suas mãos, particularmente se quiserem mantê-la em seus punhos fechados. Sim, vocês podem tê-la em suas mãos abertas, mas não em suas mãos fechadas.

A amabilidade é quase o que, no passado, os místicos chamaram de oração. Não quero chamá-la de oração pela simples razão que a palavra é associada com as pessoas erradas. É uma bela palavra, mas estar com a companhia errada contamina; vocês começam a feder à sua companhia. No momento em que alguém diz “oração” todo mundo torna-se alerta, com medo, atento – como se um general tivesse chamado a atenção dos seus soldados, e, de repente, todos virassem estátuas.

O que ocorre quando alguém menciona uma palavra como ‘oração’, ‘deus’, ou ‘paraíso’? Por que vocês se fecham? Não estou condenando vocês, estou simplesmente dizendo – ou, em vez disso, trazendo à atenção de vocês – que essas belas palavras foram imensamente poluídas pelos assim chamados “seres sagrados.” Eles fizeram um trabalho profano, não posso perdoá-los.

Jesus diz, “Perdoe seus inimigos” isso eu posso fazer – mas ele não diz, “Perdoe seus sacerdotes.” E mesmo se tivesse dito eu lhe diria, “Fique quieto! Não posso perdoar os sacerdotes. Não posso nem os perdoar, nem os esquecer, porque se eu os esquecer quem irá demoli-los? E se eu os perdoar, então quem irá desfazer o que eles fizeram com a humanidade? Não, Jesus, não! Inimigos posso entender – sim, eles devem ser perdoados, eles não sabem o que fazem. Mas os sacerdotes? Por favor não digam que eles não entendem o que estão fazendo. Eles entendem exatamente o que estão fazendo. É por isso que não posso perdoar, nem esquecer. Tenho que lutar até meu último suspiro.”

O amor te leva – mas apenas se ele te leva na direção da amizade ele é amor. Se ele não te leva na direção da amizade, então é luxúria, não amor. Se ele te leva à amizade, seja grato a ele mas não o permita invadir a sua liberdade. Sim, ele ajudou; isso não significa que agora ele tem que dificultar também. Não carregue o barco nas costas apenas porque ele te carregou à outra margem.

Não seja tolo! Quero dizer – perdoe-me, Devageet, esta palavra reservei para você; quero dizer, não seja idiota. Mas sigo esquecendo. Repetidas vezes uso a palavra errada, ‘tolos’, para os outros, sendo que ela é uma palavra especial para Devageet. Particularmente nessa Arca de Noé – esse é o meu nome para esta cabine.

O amor é bom. Transcenda-o, porque ele pode levá-lo a algo melhor: a amizade. E quando dois amantes se tornam amigos, isso é um fenômeno raro. Alguns chorarão de alegria, ou celebrarão, ou, se forem músicos, tocarão guitarra, ou, se alguém for poeta, então escreverá um haiku, um rubaiyat. Mas se alguém não for nem músico nem poeta, ainda é possível dançar, pintar, sentar-se silenciosamente e olhar para o céu. O que mais pode ser feito? A existência já o fez.

Ashu, agora olhe o tempo…

“Oito e vinte cinco, Osho.”

Olhe para seu relógio.

“Oito e vinte sete, Osho.”

Oito e vinte sete? Olhe, sou um Judeu – ainda assim economizei alguns minutos. Acredito em seu relógio, mas vou falar somente por alguns minutos mais.

Do amor à amizade, e da amizade à amabilidade – essa é toda a minha religião. A amizade é novamente um “ship,” um ‘relation-ship’, uma certa servidão… muito sutil, mais sutil que o amor, mas ela está lá; e com ela todos os ciúmes e todas as doenças do amor também. Elas vêm de uma forma muito sutil. Mas a amabilidade é liberdade do outro; por isso não é uma questão de relacionamento.

O amor é direcionado ao outro, a amizade também. A amabilidade é apenas uma abertura do seu coração para a existência. De repente, em um momento particular, vocês podem abri-lo para um homem, uma mulher, uma árvore, uma estrela… no início vocês não podem abri-lo para toda a existência. É claro que no final vocês têm que abrir o seu coração ao todo, simultaneamente, sem endereçar ninguém. Este é o momento… vamos chamá-lo apenas de o momento.

Vamos esquecer as palavras iluminação, budidade, consciência Crística, vamos apenas chamá-lo de

O MOMENTO

 – escreva-o com letras maiúsculas.

Tem sido tão bom. Sei que há tempo, mas tem sido tão belo, e com qualquer coisa bela, nada mais deve ser pedido. O mais destrói.

 

Sessão 25

 

Ok. Eu estava citando Bertrand Russell – essa citação ajudará como um parafuso. Ele disse, “Mais cedo ou mais tarde todo mundo precisará da psicanálise, porque é tão difícil encontrar alguém para lhe escutar, que esteja atento a você.”

            A atenção é tão necessária que se o roto encontrasse o esfarrapado ele até pagaria por atenção, mas, pelo menos, teria a alegria de alguém ouvindo-o atentamente. O ouvinte pode ter tapado seus ouvidos com algodão, isso é outra questão. Nenhum psicanalista pode ouvir a todo esse disparate entra dia, sai dia. Ademais, ele próprio precisa de alguém para ouvi-lo.

            Vocês ficarão surpresos em saber que todos os psicanalistas vão uns nos outros. É claro que eles não cobram entre si, por cortesia profissional, mas há uma grande necessidade de desanuviar, descarregar, de simplesmente dizer qualquer coisa que vier na mente e não seguir empilhando, porque então essas pilhas torturam vocês.

            Citei Bertrand Russell como uma ligação. Chamei-a de parafuso apenas para que pudesse continuar a minha história. Bertrand Russell ele próprio, apesar de ter vivido uma longa vida, nunca soube o que é a vida. Mas às vezes as palavras daqueles que não souberam podem ser usadas significantemente por aqueles que podem ver. Estes podem colocar aquelas palavras em um contexto adequado.

            Vocês podem não ter cruzado com essa citação porque ela está em um livro que ninguém lê de maneira alguma. Vocês não acreditariam que Bertrand Russell poderia escrever tal livro. É um livro de histórias curtas. Ele escreveu centenas de livros, muitos deles bem conhecidos, bem lidos e reconhecidos, mas esse livro é raro em um sentido pois é apenas uma coleção de histórias curtas, e ele estava muito relutante em publicá-lo. Ele não era um escritor de histórias curtas, e as suas histórias são, é claro, de terceira classe, mas aqui e ali nessas histórias de terceira classe é possível cruzar com uma sentença que apenas Bertrand Russell poderia ter escrito. Essa citação é desse livro.

            Eu amo histórias, e tudo isso começou com a minha Nani. Ela amava histórias também. Não que ela costumava me contar histórias; pelo contrário, ela costumava provocar-me para que eu contasse histórias para ela, todos os tipos de histórias e fofocas. Ela ouvia tão atentamente que ela me tornou um contador de histórias. Somente por sua causa eu encontrava algo interessante, porque ela esperava o dia todo apenas para ouvir a minha história. Se eu não podia encontrar algo, então eu inventava. Ela é responsável: todo o crédito ou culpa, qualquer forma que vocês quiserem chamar, vai para ela. Eu inventava histórias para contar-lhe apenas para que ela não ficasse desapontada, e posso prometer a vocês que tornei-me um contador de histórias bem-sucedido somente por causa dela.

            Comecei a ganhar competições quando eu era apenas uma criança na escola primária, e isso continuou até o fim, quando deixei a universidade. Coletei tantos prêmios, medalhas, troféus, escudos, etc. que minha avó tornou-se uma jovem mulher novamente. Sempre que trazia alguém para mostrar os meus prêmios e condecorações ela não era mais uma velha mulher, ela quase tornava-se jovem de novo. Toda a sua casa tornou-se quase um museu porque eu continuava a enviar-lhe meus prêmios. Até o colégio, é claro, eu era quase um residente de sua casa. Era apenas por cortesia que eu costumava visitar os meus pais de dia; mas a noite era dela, porque essa era a hora de contar histórias.

            Ainda posso ver-me ao lado de sua cama e ela ouvindo tão atentamente o que eu estava falando. Cada palavra pronunciada por mim era absorvida por ela como se tivesse um imenso valor. E as palavras tornavam-se valiosas apenas porque ela as recebia com tanto amor e respeito. Quando elas batiam na minha porta elas eram apenas indigentes, mas quando elas entravam em sua casa, elas não eram mais as mesmas pessoas. No momento em que ela me chamava dizendo, “Raja! Agora diga-me o que aconteceu com você hoje – tudo. Prometa-me que você não deixará nada para trás,” o indigente abandonava tudo o que o fazia parecer um indigente; agora ele era um rei. Todo dia eu tinha que prometer, e ainda que eu lhe contasse tudo o que havia ocorrido, ela insistia, “Conte-me mais,” ou “Conte-me aquilo de novo.”

            Muitas vezes eu lhe dizia, “Você vai me mimar; tanto você quanto Shambhu Babu vão me mimar para sempre.” E eles realmente fizeram bem o seu trabalho. Coletei centenas de prêmios. Não havia um único colégio em todo o estado em que eu não tivesse falado e ganho – exceto uma vez. Apenas uma vez não fui o ganhador, e a razão foi simples. Todos ficaram impressionados, até mesmo a garota que ganhou, “porque,” ela me disse, “é impossível pensar que eu pudesse ganhar de você.”

            Todo o auditório – e devia existir pelo menos dois mil estudantes – preencheu-se de um grande zumbido, e todo mundo estava dizendo que foi injusto, até mesmo o diretor que estava presidindo a disputa. Perder aquele prêmio tornou-se muito significante para mim; de fato, se eu não tivesse perdido aquele prêmio, eu estaria em um grande apuro. Vou contar isso para vocês no momento certo.

            O diretor chamou-me e disse, “Desculpe, você certamente é o ganhador” e ele me deu o seu próprio relógio dizendo, “Isso é muito mais caro do que a taça que foi dada àquela garota.” E certamente era. Era um relógio de ouro. Recebi milhares de relógios, mas nunca recebi um tão belo; era realmente uma obra de arte. Aquele diretor era muito interessado em coisas raras, e seu relógio era uma peça rara. Ainda posso vê-lo.

            Recebi muitos relógios, mas os esqueci. Um desses relógios tem um comportamento estranho. Quando preciso dele, ele para. Em todos os momentos ele funciona perfeitamente; ele para apenas à noite entre as três e as cinco. Não é um comportamento estranho? – porque é nessa hora que às vezes acordo, apenas um velho hábito. Em meus dias de juventude eu costumava levantar-me às três da manhã. Fiz isso por tantos anos que mesmo se eu não me levantar, tenho que virar-me na cama e então voltar a dormir. Essa é a hora que preciso ver se devo levantar-me ou posso ter um pouco mais de sono; e, estranhamente, é nesse momento que o relógio para.

            Hoje ele parou exatamente às quatro. Eu olhei para ele e voltei a dormir; quatro horas é muito cedo. Depois de dormir por quase uma hora, novamente olhei para o relógio: ainda era quatro. Eu disse a mim mesmo. “Ótimo, então essa noite nunca vai terminar.” Então fui dormir novamente, sem pensar – vocês me conhecem, não sou um pensador – sem pensar que o relógio poderia ter parado. Pensei, “Essa noite parece ser a última. Posso dormir para sempre. Ótimo! Apenas muito estranho!” E senti-me tão bem que a noite nunca terminaria que adormeci novamente. Depois de duas horas novamente olhei para o relógio, ainda era quatro horas! Eu disse, “Ótimo! Não apenas essa noite é longa, mas até o tempo parou também!”

            O diretor deu-me seu relógio e falou, “Desculpe-me, porque certamente você foi o ganhador, e devo dizer-lhe que o homem que foi o juiz está apaixonado pela garota que ganhou o prêmio. Ele é um tolo. Eu digo isso mesmo ele sendo um dos meus professores e um colega. Esta é a gota d’água. Vou demiti-lo agora. Este é o fim do seu serviço nesse colégio. Isso é demais. Eu estava na cadeira presidencial, e todo o auditório riu. Parece que todos sabiam que a garota não era capaz de falar, e penso que ninguém exceto o seu amante, o professor, entendeu o que ela estava dizendo. Mas você sabe, o amor é cego.”

            Eu disse, “Absolutamente certo – o amor é cego. Mas por que você escolheu uma pessoa cega para ser o juiz, particularmente quando a sua garota era uma competidora? Vou expor tudo.” E expus tudo aos jornais, contando toda a história. Foi realmente um problema para o pobre professor – tanto que seu caso de amor acabou. Ele perdeu tudo, o seu serviço, a sua reputação, e a garota por cujo amor ele apostou tudo – tudo estava perdido. Ele ainda está vivo. Uma vez, já idoso, ele veio ver-me e confessou, “Desculpe-me, certamente fiz algo errado, mas nunca pensei que tomaria proporções tamanhas.”

            Eu disse a ele, “Ninguém sabe o que uma ação ordinária vai trazer ao mundo. E não se arrependa. Você perdeu o seu serviço e sua amada. O que eu perdi? Nada de maneira alguma, apenas mais um prêmio, e tenho tantos que não ligo.”

            De fato, a casa da minha avó tornou-se, posteriormente, um museu para meus troféus, taças e medalhas. Mas ela ficava muito feliz, imensamente feliz. Era uma casa pequena abarrotada com toda aquela bobagem, mas ela ficava feliz que eu continuava a enviar-lhe todos os meus prêmios, do colégio e da universidade. Continuei enviando-lhe, e todo ano eu ganhava uma dúzia de prêmios, pelo debate, eloquência ou em competições de contar histórias.

            Mas digo-lhes uma coisa: tanto minha Nani quanto Shambhu Babu mimaram-me ao serem tão atentos. Eles me ensinaram, sem ensinar, a arte do falar. Quando alguém ouve tão atentamente, você imediatamente começa a dizer algo que não havia planejado ou mesmo imaginado; isso simplesmente flui. É como se a atenção se tornasse magnética e atraísse o que está escondido em vocês.

            A minha própria experiência é que esse mundo não se tornará um local belo para se viver a menos que todos aprendam como ser atentos. Nesse momento, ninguém está atento. Mesmo quando as pessoas estão mostrando que estão ouvindo; elas não estão ouvindo, elas estão fazendo mil outras coisas. Hipócritas apenas fingindo… mas não da forma que um ouvinte ativo deve ser – totalmente atento, somente atenção e nada mais, aberto.  A atenção é uma qualidade feminina, e todos que conhecem a arte da atenção, do ser atento, se tornam, em um certo sentido, muito femininos, muito frágeis, suaves; tão suaves que vocês podem arranhá-los apenas com suas unhas.

            A minha Nani esperava todo o dia eu voltar para casa e contar as suas histórias. E vocês ficarão surpresos como, sem saber, ela me preparou para o trabalho que eu iria fazer. Foi ela que ouviu pela primeira vez muitas das histórias que conto para vocês. Era para ela que eu podia contar qualquer absurdo sem qualquer medo.

            A outra pessoa, Shambhu Babu, era totalmente diferente da minha Nani. A minha Nani era muito intuitiva, mas não intelectual. Shambhu Babu também era intuitivo, mas intelectual também. Ele era um intelectual da primeira classe. Cruzei com muitos intelectuais, alguns famosos e alguns muito famosos, mas nenhum deles chega perto de Shambhu Babu. Ele era realmente uma grande síntese. Assagioli amaria o homem. Ele tinha intuição mais intelecto, e não pouco de ambos, mas altos picos. Ele também costumava ouvir-me, e esperava o dia todo até que a escola terminasse. Todo o dia depois da escola era dele.

            No momento em que eu era liberto da prisão, da minha escola, eu ia até Shambhu Babu. Ele estaria pronto com chá e alguns doces que sabia que eu gostava. Menciono isso porque as pessoas raramente pensam nos outros. Ele sempre arrumava às coisas com a outra pessoa na mente. Nunca vi ninguém se preocupar tanto com o outro como ele. A maior parte das pessoas, embora preparem para os outros, fazem isso de acordo consigo mesmas, forçando à outra pessoa a gostar do que elas próprias gostam.

            Essa não era a maneira de Shambhu Babu. O seu pensar no outro era uma das coisas que eu amava e respeitava nele. Ele sempre comprava coisas depois de perguntar aos vendedores o que a minha Nani costumava comprar. Fui saber disso apenas depois da sua morte. Só então os vendedores me contaram, os confeiteiros também, que “Shambhu Babu sempre costumava fazer uma pergunta estranha: “O que aquela senhora, que vive ali sozinha perto do rio – o que ela compra de vocês?’ Nós nunca quisemos saber porque ele perguntava, mas agora sabemos: ele estava perguntando o que você gostava.”

            Eu sempre ficava impressionado que ele sempre estava preparado com as coisas que eu gostava. Ele era um homem do direito, então naturalmente encontrava um jeito. Da escola eu me apressava até a sua casa, tomava meu chá e doces que ele havia trazido; então ele estava pronto. Mesmo antes de eu terminar, ele estava pronto para ouvir o que eu tinha para dizer. Ele diria, “Apenas me fale qualquer coisa que você quiser. Não é uma questão do que você fala, mas que você fale.”

            A sua ênfase era muito clara. Eu era deixado absolutamente livre, nem mesmo com um tema para falar, livre para dizer qualquer coisa que eu quisesse. Ele sempre adicionava, “Se você quiser permanecer em silêncio, você pode. Ouvirei ao seu silêncio.” E de vez em quando acontecia de eu não dizer uma palavra. Não havia nada a ser dito.

            E quando eu fechava os meus olhos ele fechava os seus olhos, e nós sentávamos como Quakers, em silêncio. Muitas vezes, dia após dia, ou eu falava ou nós ficávamos em silêncio. Um vez eu disse a ele, “Shambhu Babu, parece estranho você ouvir a uma criança. Seria mais apropriado se você falasse e eu escutasse.”

            Ele riu e disse, “Isso é impossível. Não posso dizer nada a você, e nunca direi nada, pela simples razão que eu não sei. Sou grato a você por me tornar consciente da minha ignorância.”

            Essas duas pessoas deram-me tanta atenção que na minha primeira infância tornei-me consciente do fato, que apenas agora os psicólogos estão falando sobre, que a atenção é um tipo de alimento, um sustento. Uma criança pode ser perfeitamente cuidada, mas se ninguém prestar atenção a ela existe toda a possibilidade dela não sobreviver. A atenção parece ser o ingrediente mais importante da alimentação de alguém.

            Fui afortunado nesse aspecto. A minha Nani e Shambhu Babu fizeram a bola rolar, e conforme ela rolou, ela reuniu cada vez mais musgo. Sem nunca aprender como falar, tornei-me um falante. Ainda não sei como falar e alcancei milhares de pessoas – sem nem saber como começar. Vocês podem ver a parte divertida disso? Devo ter falado mais que qualquer homem em toda a história, embora eu tenha apenas cinquenta e um anos.

            Comecei a falar tão cedo, embora eu não seja de maneira alguma o que vocês chamam de orador no Ocidente. Não um orador que diz, “Senhoras e Senhores,” e todo aquele disparate – tudo emprestado e nada experienciado. Eu não sou um falante nesse sentido, mas falo com todo o meu coração em chamas, incendiado. Eu não falo como uma arte, mas como se fosse a minha vida. E desde os meus primeiros dias de escola isso foi reconhecido, não por um, mas por muitos, que o meu discurso parecia vir do meu coração, que eu não estava tentando repetir algo que preparei como um papagaio. Algo espontâneo estava nascendo naquele momento.

            O diretor que me deu seu relógio e trouxe todos esses problemas para vocês, o seu nome era B.S. Audholia. Espero que ele ainda esteja vivo. Até onde sei ele está, e sei o suficiente. Não espero contra a esperança; quando espero, isso significa que é assim.

            Naquela noite ele disse, “Desculpe-me” – e ele estava realmente arrependido; ele demitiu o professor. B.S. Audholia também me disse que sempre que eu precisasse de algo, eu só precisaria informá-lo, e se tivesse dentro da sua capacidade ele o faria. Posteriormente, sempre que eu precisava de algo, eu apenas enviava uma nota a ele e aquilo era realizado. Ele nunca perguntava por quê.

            Uma vez lhe perguntei, “Por que você nunca me pergunta por que preciso disso?”

            Ele disse, “Conheço você: se você pediu, se eu perguntasse por que seria tolice. Você poderia fornecer tantas razões, mesmo se não necessitasse da coisa. Mais uma coisa,” ele disse: “se você o pediu, seria impossível crer que você pediria a menos que realmente necessitasse. Conheço-o, e conhecê-lo é o suficiente para dar-me todas as razões que necessito.”

            Olhei para o homem. Eu não esperava que um diretor de um colégio muito famoso poderia ser tão compreensível. Ele riu e disse, “Foi apenas uma coincidência que tornei-me diretor; de fato, eu não deveria ser. Foi apenas um erro da parte dos governadores.” Eu não perguntei, mas ele deve ter lido na minha face. A partir daquele dia comecei a deixar a barba. Não é possível ler muito atrás de uma barba. É perigoso se as coisas podem ser lidas tão facilmente. Vocês têm que criar algo para que vocês não sejam apenas um jornal.

            Seis meses depois quando nos encontramos novamente ele disse, “Por que você começou a deixar a barba crescer?”

            Eu disse, “Você é a causa. Você disse que leu a minha face; agora a minha face não vai mais ser tão fácil de ler.”

            Ele riu e disse, “Você não pode escondê-lo – está nos seus olhos. Por que você não começa a usar óculos escuros se quer realmente escondê-lo?”

            Eu disse, “Não posso usar óculos pela simples razão que não posso criar qualquer barreira entre meus olhos e a existência. Esta é a única ponte onde nos encontramos, não há outra.”

            É por isso que um cego tem a simpatia de todos em todo lugar. Ele é um homem sem uma ponte; ele perdeu o seu contato. Os pesquisadores estão dizendo agora que oitenta por cento do nosso contato com a existência é através dos olhos. Talvez eles estejam certos – talvez seja mais do que eles pensam, mas oitenta por cento está certo. Pode revelar-se, no final das contas, ser muito superior, talvez noventa por cento ou mesmo noventa e nove por cento. O olho é o ser humano.

            O Buda não pode ter os mesmos olhos que Adolf Hitler – ou vocês acham que ele pode? Esqueçam ambos; eles não são contemporâneos. Jesus e Judas são contemporâneos, e não apenas contemporâneos, mas mestre e discípulo. Ainda assim digo que eles não podem ter os mesmos olhos, a mesma qualidade. Judas deve ter tido olhos muito sagazes, realmente Judeus. Jesus deve ter tido os olhos de uma criança; embora fisicamente ele não fosse mais criança, psicologicamente ele era. Mesmo na cruz ele morreu como se estivesse em um útero, ainda no útero – tão fresco, como se a flor não tivesse aberto, permanecendo um botão. Ele nunca conheceu toda a feiura que existe em todos os lugares. Jesus e Judas viveram juntos, moveram-se juntos, mas acho que Judas nunca olhou para os olhos de Jesus; caso contrário as coisas seriam diferentes.

            Se Judas tivesse coragem suficiente para olhar nos olhos de Jesus, pelo menos uma vez, não haveria crucificação e nenhum Cruztianismo – quero dizer, Cristianismo. Aquele é o meu nome para o Cristianismo. Judas era sagaz.

            Jesus era tão simples que vocês podem quase chamá-lo de “o tolo.” É isso o que Fiódor Dostoiévski diz em um dos seus romances mais criativos, O Idiota.

            Embora ele não tenha sido escrito para ou sobre Jesus, Dostoiévski estava tão preenchido pelo espírito de Jesus que, de alguma forma, Jesus entra. O personagem principal do romance, O Idiota, não é ninguém mais que Jesus. Ele não é mencionado, nem vocês podem encontrar referências a ele, nem nenhuma semelhança, mas se vocês o lerem algo começará a ressoar em seus próprios corações, e vocês concordarão comigo. Será um acordo, mas não através da cabeça; será um acordo mais fundo do que a imaginação pode penetrar, na própria batida dos seus corações – um acordo real. 

Sessão 26

 

Tenho que seguir em círculos, círculos dentro de círculos dentro de círculos, porque é assim que a vida é. E ainda mais no meu caso. Em cinquenta anos eu devo ter vivido pelo menos cinquenta vidas. De fato, não fiz nada além de viver. As outras pessoas têm muitas ocupações, mas desde minha infância permaneci um vagabundo, sem fazer nada, apenas vivendo. Quando você não faz nada além de viver, então é claro que a vida toma uma dimensão totalmente diferente. Não é mais horizontal, ela adquire profundidade.

            Devageet, é bom que você nunca foi meu estudante; caso contrário você nunca seria um dentista. Eu seria a última pessoa que lhe permitiria um certificado. Mas aqui você pode divertir-se e dar risinhos, pensando que estou muito relaxado, não há problema. Mas lembre-se, mesmo se eu estiver morto posso sair do meu túmulo para gritar com você. Este tem sido todo o meu negócio, toda a minha vida.

            Não fiz nada no sentido de obter lucro, de ter uma grande conta bancária, de tornar-me uma pessoa poderosa politicamente. Vivi da minha maneira, e nesta maneira de viver, ensinar tem sido uma parte essencial. Então, mesmo aqui, desculpe-me, não posso esquecê-lo: sou sempre o mestre. Você sabe, eu sei, todo mundo nessa sala sabe, que você está abaixo de mim, e estou na cadeira de dentista – você não está. Se dou risinhos, isso pode ser perdoado: “Aha! O velho está desfrutando de si próprio!” Mesmo Ashu está divertindo-se com a ideia; caso contrário ela é uma mulher séria, muito séria. As mulheres, certa vez elas foram professoras, digitadoras, enfermeiras, algo deu errado no projeto delas. Elas de repente tornaram-se tão sérias.

            Entretanto Eva não era séria, Adão era. A serpente nunca poderia o persuadir. De fato, ela tentou muitas vezes; é isso o que a história Egípcia conta, e esta é muito mais autêntica do que a versão bíblica. É mais antiga também. Ela diz que a serpente tentou Adão, mas não pôde fisgá-lo. Então finalmente, como último recurso, ela tentou Eva. É melhor chamá-la de Eva, assim como os Egípcio o fazem, soa mais feminino – Eva. A serpente conseguiu na primeira tentativa. Desde então, todos os vendedores e anunciantes têm mirado em Eva. Eles não notam de maneira alguma o pobre homem que está pagando por tudo que Eva compra. Isso é problema dele, então por que eles se preocupariam?

            Eve, ou Eva como gosto de chamá-la – sempre gosto do belo, onde quer que ele se encontre. Eve não soa muito musical e parece ser mutilado, podado, parece mais como um jardim Inglês, não como um jardim Zen. Eva tem um potencial ilimitado, apenas o seu som, então vamos chamá-la de Eva. Por que o demônio foi bem-sucedido com ela em sua primeira tentativa? Pela simples razão que ela não tinha uma mente de negócios. Ela não estava séria, deve ter rido das piadas do demônio, deve ter falado alegremente – fofocado eu quis dizer. E quando você fofoca com o diabo, ele vai levar vantagem. Se você rir das suas piadas, então ele sabe que tem um caminho, ele pode aproximar-se do seu ser. Foi assim que ele persuadiu a pobre Eva.

            Desde então, acho que as mulheres perderam a sua qualidade própria de serem alegres. Mesmo se elas riem, é uma risada abafada. Mesmo quando elas riem, elas colocam as mãos em suas faces, como se alguém fosse ver o grande trabalho que seus dentistas fizeram nelas. Mas aqui, nessa sala, não há necessidade de ser sério. É bom que hoje, pela primeira vez, Ashu está rindo tão claramente que posso ouvir. E por que ela está rindo? Ela está rindo porque o pobre Devageet está sendo espancado. Naturalmente ela ri e diz para mim – posso ouvir o que ela está pensando – “Dê-lhe um bom tapa, mais um!” Não, isso é o bastante; caso contrário vou me perder.

            Era isso o que eu estava falando: que a vida é um círculo dentro de um círculo dentro de um círculo – e ainda mais a minha vida. Não vivi da forma que se é esperado viver. Não fiz nada além. Sim, apenas vivi e não fiz mais nada, mas então é demais: um único momento é quase uma eternidade! Apenas pense nisso…

            Então tenho que seguir em frente da mesma forma que vivi. Vocês terão que me suportar, não há outro caminho. Nunca lidei com ninguém, então não sei como, e mesmo se eu tentar aprender agora, é muito tarde. Mas vocês têm lidado com todos os tipos de pessoas em suas vidas.

            Não lidei com meu pai, minha mãe, meus tios que eram todos amáveis e prestativos comigo; nem meus professores primários, que não eram meus inimigos; nem meus professores da universidade, que sempre quiseram ajudar-me, apesar de mim. Mas não lidei com ninguém, todos tiveram que lidar comigo. Agora é muito tarde. As coisas não podem ser alteradas agora. Foi, e ainda é, um caso unilateral.

            Vocês podem suportar-me, estou disponível. Mas não posso suportar vocês, por duas razões: primeira, vocês não estão disponíveis, não estão presentes. Mesmo se eu bater em sua porta, não há ninguém dentro – e os vizinhos me informam que o sujeito nunca foi visto. A porta está trancada. Quem a trancou? – ninguém sabe. Onde está a chave? – talvez perdida. E mesmo se eu puder encontrar a chave ou quebrar o cadeado – o que é muito mais fácil – qual seria o ponto? O sujeito não está dentro da casa. Não vou encontrá-lo ali; vocês estão sempre em outro lugar. Agora, como encontrá-los e suportá-los? É impossível.

            Em segundo lugar, mesmo se fosse possível, apenas em prol do argumento, eu não poderia fazê-lo. Eu nunca o fiz. Não conheço o seu mecanismo. Ainda sou simplesmente um garoto selvagem da vila.

            Há algumas noites a minha secretária estava chorando e dizendo a mim, “Por que você confia em mim, Osho? Não sou digna. Não sou digna nem de mostrá-lo a minha face.”

            Eu disse, “Quem liga para mérito ou demérito? E quem o decidirá? Eu, pelo menos, não vou decidir. Por que você está chorando?”

            Ela disse, “Apenas a ideia que você me escolheu para fazer o seu trabalho… é uma tarefa tão grande.”

            Eu disse, “Esqueça tudo sobre a grandeza da tarefa e apenas ouça o que digo.”

            Nunca fiz nada eu mesmo, então naturalmente nunca me preocupei se ela seria capaz de fazê-lo ou não. Eu simplesmente disse a ela “Ouça,” e, é claro, quando digo algo ela tem que ouvir. Ora, como ela consegue fazê-lo não é problema meu, nem dela. Ela consegue porque eu falei. Eu falei porque não sei nada sobre administração.

            Vocês veem por que a escolhi? Ela se adequa. Eu sou um desadequado.  

            A minha avó sempre se preocupou. Repetidas vezes ela dizia, “Raja, você será um desajustado. Eu lhe digo, você sempre será um desajustado.”

            Eu costumava rir dela e dizer, “A própria palavra ‘desajustado’ é tão bela que me apaixonei por ela. Agora, se eu me ajustar, lembre-se, baterei na sua cabeça – e quando falo, você sabe que falo sério. Vou realmente bater em sua cabeça, se você estiver viva. Se você não estiver viva então irei até o seu túmulo, mas certamente farei algo maldoso. Você pode confiar em mim.”

            Ela riu mais e disse, “Aceito o desafio. Repito que você permanecerá um desajustado para sempre, quer eu esteja viva ou morta. E você nunca será capaz de acertar a minha cabeça porque você nunca será capaz de adequar-se.”

            E ela estava plenamente correta. Eu era o desajustado, em todo lugar. Na universidade onde eu estava ensinando nunca tirei a fotografia anual dos docentes. O vice-reitor me disse uma vez, “Reparei que você é o único membro do corpo docente que nunca vem à nossa fotografia anual. Todo mundo vem, porque a foto é publicada, e quem não quer que sua foto seja publicada?”

            Eu disse, “Certamente não quero que minha foto seja publicada – não junto com tantos asnos. E essa fotografia permaneceria para sempre como uma mancha no meu nome, reconhecendo que uma vez fui associado com essa companhia.”

            Ele ficou chocado e disse, “Você chama todas essas pessoas de asnos? Incluindo a mim?”

            Eu disse, “É claro que incluindo você. Foi isso o que eu pensei,” eu lhe disse. “E se você quiser ouvir algo simpático, você chamou o homem errado. Chame um dos seus asnos.”

            Não existe uma única fotografia de quando eu estava em serviço. Eu era um desajustado tal que pensava ser melhor não me associar com aquelas pessoas as quais eu não tinha nada em comum. Na universidade eu me associava apenas com uma árvore, uma árvore gulmohar.* [NT. Delonix regia conhecida popularmente como Flamboiã]

            Não sei se esse tipo de árvore existe no Ocidente ou não, mas esta é uma das árvores mais bonitas do Oriente. A sua sombra é realmente fresca. Ela não cresce muito; ela espalha os seus galhos em todas as direções. Às vezes os galhos de uma única árvore gulmohar antiga pode cobrir uma área tal que facilmente quinhentas pessoas podem sentar-se debaixo. E quando ela floresce no verão, milhares de flores desabrocham simultaneamente. Ela não é uma árvore miserável, produzindo uma flor ou outra, não. De repente, em uma noite todos os botões desabrocham, e de manhã você não acredita em seus olhos – milhares de flores! E elas são das cores dos sannyasins. Eu tinha apenas aquela árvore como minha amiga.

            Estacionei o meu carro debaixo dela por tantos anos que, vagarosamente, todos adquiriram consciência de não estacionarem ali; era o meu lugar. Não tive que dizer, mas, com o tempo, vagarosamente tornou-se aceito. Ninguém perturbaria aquela árvore. Se eu não viesse, aquela árvore esperaria por mim. Por anos estacionei debaixo daquela árvore. Quando deixei a universidade dei adeus ao vice-reitor e então disse, “Devo ir agora, está escurecendo e a minha árvore pode ir dormir antes do sol se pôr. Tenho que dizer adeus àquela gulmohar.”

            O vice-reitor olhou para mim como se eu fosse louco, mas qualquer um olharia da mesma forma. É essa a forma de olhar para um desajustado. Mas ele ainda não acreditava que eu iria fazê-lo. Então ele assistiu da sua janela enquanto eu disse adeus à gulmohar.

            Eu abracei a árvore e permanecemos juntos por um momento. O vice-reitor veio correndo até mim dizendo, “Desculpe-me, apenas desculpe-me. Nunca vi ninguém abraçando uma árvore, mas agora eu sei o quanto todo mundo está perdendo. Nunca vi ninguém dizer adeus ou bom dia a uma árvore, mas você não apenas me ensinou uma lição, ela realmente penetrou.”

            Depois de dois meses ele me ligou, apenas para informar-me, dizendo, “É triste e muito estranho, mas o dia que você saiu, algo aconteceu com a sua árvore” – ela havia se tornado minha árvore agora.

            Eu disse, “O que aconteceu?”

            Ele disse, “Ela começou a morrer. Se você vier agora você verá apenas uma árvore morta, sem flores ou folhas. O que aconteceu? Foi por isso que liguei para você.”

            Eu disse, “Você deveria ligar para a árvore. Como posso responder pela árvore?”

            Por um momento houve silêncio. Então ele disse, “É como eu sempre pensei: você é louco!”

            Eu disse, “Você ainda não está convencido; caso contrário, quem liga para um louco? Você deveria ligar para a árvore. E a árvore está do lado de fora da sua janela – nenhum telefone é necessário.”

            Ele simplesmente desligou. Eu ri, mas no próximo dia de manhã cedo, antes que qualquer idiota da universidade estivesse ali, fui ver a árvore. Sim, todas as flores tinham secado, e, entretanto, era época. Não havia nada – nem as flores, nem as folhas também. Apenas galhos nus contra o céu. Abracei a árvore novamente e soube que ela estava morta. No primeiro abraço houve uma resposta; no segundo abraço não havia ninguém para responder. A árvore havia partido; apenas o seu corpo permanecia ali, e podia permanecer por anos. Talvez ela ainda permaneça, mas é apenas madeira morta.

            Nunca fui capaz de ajustar-me em lugar algum. Como um estudante eu era um incômodo. Todo professor que me deu aula olhava para mim como uma punição que Deus enviou-lhe. Eu desfrutava ser um mensageiro de Deus; eu aproveitei ao máximo. Quem não aproveitaria? E se eles pensassem que eu era uma punição, eu provava ser exatamente – ou mais – o que eles esperavam.

            Apenas poucos deles encontraram-me recentemente. A primeira questão deles era, “Nós ainda não podemos acreditar que você tornou-se iluminado. Você era um encrenqueiro. Esquecemos todos os estudantes que estudaram com você, mas mesmo agora vemos você de vez em quando, em nossos pesadelos.”

            Posso entendê-los. Eu não podia adequar-me em lugar algum. Quaisquer coisas que eles me ensinaram era tão medíocre que eu tinha que lutar contra. Eu tinha que dizer a eles, “Isso é tão medíocre…” Ora, vocês podem imaginar dizer isso a um professor que está esperando que todos estejam apreciando à sua aula – preparada por dias – e no final um estudante se levanta… e eu era um estudante estranho, para dizer o mínimo.

            A primeira coisa a ser lembrada é que eu tinha um longo cabelo – e aquele cabelo longo tinha uma história ainda mais longa. Vou chegar a ela algum dia em algum círculo. Esta é a beleza de seguir em círculos. Você pode chegar ao mesmo ponto várias vezes, em um nível diferente – como seguir em círculos rumo ao topo de uma montanha: vocês voltam à mesma vista muitas vezes, em diferentes níveis. Cada vez um pouco diferente porque vocês não estão no mesmo lugar, mas ainda assim a vista é a mesma, talvez mais bela, talvez muito mais bela, porque vocês podem ver mais…

            Vou chegar a esse ponto em algum momento, mas não hoje.

            Que horas são?

            “Oito e um, Osho.”

            Bom. Permitam-me apenas molhar os lábios.

            Hoje, particularmente, eu queria dizer que a atenção é uma espada de dois gumes – dois gumes porque ela corta tanto o ouvinte quanto o falante. Ela também os une. É um processo muito significante. Gurdjieff tinha a palavra certa para isso, ‘cristalização’.

            Se um ser humano está realmente atento, não importa em relação a que – a XYZ, a qualquer coisa – neste processo de atenção ele tornar-se-á integrado, cristalizado. Ao focar-se em uma coisa ele tornar-se-á focado dentro do seu ser.

            Mas isso é apenas metade da história. A pessoa que está ouvindo atentamente certamente alcança a cristalização. É um fato conhecido em todas as escolas Orientais de meditação. Apenas estar atento a qualquer coisa, até à tolice, funcionará. Somente uma garrafa de Coca-Cola ajudará imensamente, particularmente aos Americanos. Apenas olhe para uma garrafa de Coca-Cola atentamente, e você terá o segredo da meditação transcendental de Maharishi Mahesh Yogi. Mas é apenas meia verdade, e meia verdade pode ser mais perigosa do que uma mentira completa.

            A outra metade é possível apenas se você não está apenas lendo um livro, ou cantando um mantra, ou olhando para uma estátua; a outra metade é possível apenas se você está em uma profunda sincronicidade com uma pessoa viva. Não estou chamando-o de amor, porque isso pode iludir vocês; nem mesmo amizade, porque vocês vão pensar que já a conhecem. Vou chamá-la de “sincronicidade,” apenas para que vocês pensem nela e deem um pouco do seu ser.

            Quando vocês se sentem realmente atentos, a sincronicidade acontece. Pode ser apenas um pôr do sol que vocês estejam assistindo, ou apenas uma flor, ou crianças brincando na grama e vocês desfrutando a felicidade delas… mas uma certa harmonia é necessária. Se esta ocorre, a atenção existe. Se a harmonia ocorre entre um mestre e um discípulo, então certamente você tem o diamante mais precioso possível em suas mãos.

            Eu falei para vocês que fui afortunado, embora não saiba porquê. Existem coisas que só podem ser declaradas; elas existem, e não há razão por que elas existem. As estrelas existem, as rosas existem, o universo existe – ou, talvez, muito melhor: os universos existem. É melhor chamar a existência de multiverso em vez de universo. A ideia de múltiplas dimensões deve ser introduzida.

            O ser humano está dominado pela ideia do “um” há muito tempo. E sou um pagão: não acredito em Deus, acredito em deuses. Para mim uma árvore é um deus, uma montanha é um deus, um ser humano é um deus – mas nem sempre. Ele tem o potencial. Uma mulher é um deus, mas nem sempre; mais frequentemente ela é uma megera – mas essa é uma escolha dela. Ela não precisa ser; ninguém a forçou.

            Ordinariamente o homem é apenas um marido, que é uma palavra feia em todas as línguas. A palavra ‘marido’ [NT. husband] vem de ‘pecuária’ [NT. husbandry]. É isso o que os nossos sannyasins estão fazendo – jardinagem, agricultura… Da palavra ‘agro’ significando indústria… isso é pecuária. E quando vocês apresentam alguém como marido, vocês sabem o que estão dizendo? Aquele pobre sujeito sabe que ele está sendo reduzido a um lavrador? Mas essa é toda a ideia; aquele homem é um lavrador, e a mulher é o campo! Grande ideia!

            O homem ordinariamente permanece muito confinado ao mundano, e a mulher ainda mais. Ela vence o homem de todas as formas possíveis. É claro que ela é uma motorista do banco de trás, mas ela é a motorista.

            Um homem foi parado por estar acima da velocidade permitida, e o policial estava muito irritado porque o homem não estava apenas acima da velocidade, mas ele também não tinha carteira de habilitação, e o que ele mostrou como sua carteira de habilitação era apenas um tíquete para um filme que eles foram ver. Isso era demais!

            O policial disse, “Agora vou lhe dar um tíquete real!”

            A mulher gritou com o marido, “Eu tenho falado a você desde o começo, mas você nunca me ouve!” E ela gritou tão alto que até o policial parou de escrever a multa para ouvir o que estava acontecendo. Ela disse, “Onde estão os seus óculos em primeiro lugar? Você não consegue ver, e você está dirigindo! Além disso você está tão bêbado que tenho te chutado continuamente, entretanto não vejo efeito nenhum! Parece que você perdeu toda a sensibilidade!” Então ela virou para o policial e disse, “Oficial, mande-o para a cadeia! Ele merece pelo menos seis meses de trabalho duro; menos que isso não vai ensiná-lo nada!”

            Até mesmo o policial não podia entender tanta punição por um pouco de velocidade. Ele disse ao homem, “Senhor, você pode ir. Deus já te puniu o suficiente dando-lhe essa mulher como esposa. Isso é o suficiente. Até eu sinto dó de você. Eu sei porque você perdeu sua visão. Quem gostaria de ver essa mulher? E sei que você está correndo porque ela está continuamente te chutando. Sinto realmente dó de você.” Ele disse, “Você pode seguir correndo, mas ela sempre estará aí. Corra tão rápido que ela fique para trás, realmente para trás.”

            Tanto os homens quanto as mulheres vivem uma vida mundana e feia, realmente feia. Uma vez apontei para a minha avó a mulher de um dos meus professores conforme ela passava pela minha vila. Eu tinha falado para ela, “A minha avó e toda minha família vivem lá e eles ficariam felizes em encontrar você.”

            Eu apresentei ela para minha avó, e quando ela saiu nós dois demos risada. Nenhum de nós disse algo por um tempo. Eu ri porque a minha avó teve que tolerar a mulher. Ela riu, dizendo, “Isso não é nada – você tem que tolerar o marido dela. Se ela é terrível, ele deve ser ainda mais.”

            Eu disse, “Posso dizer somente o seguinte: ele certamente parece mais feio que qualquer fotografia de passaporte.”

            Passei a minha vida inteira ensinando. Eu raramente estava presente nos meus dias de escola. Eles tinham que me dar setenta e cinco por cento de presença apenas para livrarem-se de mim. Isso aconteceu durante todos os meus dias de escola, no colegial e na faculdade.

            Na faculdade eu tinha até um acordo com o diretor, B.S. Audholia. Ele era um homem belo. Ele era o diretor de um colégio em Jabalpur, no centro da Índia. Jabalpur tem muitos colégios, e o dele era um dos mais proeminentes. Fui expulso de um colégio porque um professor não estava preparado para permanecer no serviço se eu não fosse expulso. Essa era sua condição – e ele era um professor respeitado. Posso entrar nos detalhes dessa história depois.

            Fui expulso, naturalmente. Quem liga para um pobre estudante? E o professor era um Ph.D., D.Litt. etc, etc, e ele serviu àquele colégio quase sua vida toda. Ora, demiti-lo por causa de mim – estando eu certo ou errado, não era a questão. Foi isso o que o diretor me disse antes de expulsar-me. Ele tinha que dar-me uma explicação, então me chamou. Ele deve ter pensado que eu era como qualquer outro estudante, tremendo porque estava prestes a ser expulso. Ele não esperava que eu entraria em seu escritório como um terremoto.

            Eu gritei com ele antes dele ter a chance de dizer qualquer coisa. Eu disse, “Você provou ser apenas um estrume sagrado.” Usei a palavra Hindi gobar ganesh, que significa realmente “uma estátua feita de estrume,” e bati em sua mesa com meu punho tão forte que ele levantou-se. Eu disse, “Há uma mola na sua mesa? Eu bato nela e você levanta! Sente-se!” Eu disse isso tão alto que ele sentou-se silenciosamente. Ele estava com medo dos outros ouvirem e entrarem, particularmente o homem que estava guardando a porta.

            Ele disse, “Ok, vou sentar-me. O que você tem a dizer?”

            Eu disse, “Você me chamou aqui e você está me perguntando o que tenho para dizer? Eu digo que você deve expulsar esse outro sujeito, Doutor S.N.L. Shrivastava. Ele é apenas estúpido, mesmo com seu Ph.D. e D.Litt. – o que torna pior. Não o prejudiquei, simplesmente fiz questões completamente legítimas. Ele nos ensina lógica, e se não tenho permissão de usar lógica em sua aula, onde eu serei lógico? Diga-me.”

            Ele disse, “Isso soa correto. Obviamente se ele lhe ensina lógica, você tem que ser lógico.”

            Eu disse, “Então chame-o, e apenas veja quem é lógico.”

            No momento em que o Doutor Shrivastava ouviu que eu estava no escritório do diretor e que ele estava sendo chamado, ele fugiu para sua casa. Ele não apareceu por três dias. Eu fiquei sentado lá por três dias continuamente, do momento em que o escritório abria até quando fechava. Ele finalmente escreveu uma carta para o diretor dizendo, “Isso não pode continuar e,” ele escreveu, “Não quero encarar esse garoto. Ou você o expulsa ou me libera do meu serviço.”

            O diretor me mostrou a carta. Eu disse, “Agora está ok. Ele não é capaz de nem mesmo encontrar-me na sua presença, apenas uma vez, para que você possa ver quem é lógico. Pelo menos uma amostra de lógica não lhe seria mal. Mas se ele não é capaz de encarar-me – e esta carta é uma prova suficiente que ele é um covarde – não quero que ele seja demitido. Não posso ser tão cruel, porque conheço a sua esposa e filhos e suas responsabilidades. Por favor expulse-me agora, e dê-me por escrito que fui expulso.”

            Ele olhou para mim e disse, “Se eu te expulsar pode ser difícil para você ser admitido em qualquer outro colégio.”

            Eu disse, “Isso é problema meu. Sou um desajustado – tenho que lidar com essas coisas.” Foi depois que isso ocorreu que bati na porta de todos os diretores da cidade – é uma cidade de colégios – e todos eles disseram, “Se você foi expulso então nós não podemos assumir o risco. Ouvimos rumores que você vem argumentando por oito meses com o Doutor Shrivastava, e que você não permitia que ele ensinasse de maneira alguma.”

            Quando contei toda a história para B.S. Audholia, ele disse, “Aceito o risco, mas com uma condição.” Ele era um bom homem, generoso, mas limitado. Eu não espero generosidade ilimitada de ninguém, mas a menos que você tenha generosidade ilimitada você perdeu a experiência mais bela da vida. Sim, foi generoso de sua parte admitir-me, mas a condição cancelava muito disso. A condição era boa para mim, mas não para ele. Para ele era um crime, para mim uma oportunidade para ser livre.

            Ele me fez assinar um acordo que eu não participaria da aula de filosofia. Eu disse, “Isso está perfeitamente bem; de fato, o que mais posso pedir? Isso é o que amo fazer, não participar dessas aulas idiotas. Estou disposto a assiná-lo, mas lembre-se, você também tem que assinar um acordo dizendo que você me dará setenta e cinco por cento de presença.”

            Ele disse, “Isso é uma promessa. Não posso dá-la por escrito porque ela criaria complicações, mas é uma promessa.”

            Eu disse, “Fico com sua palavra e confio em você.”

            E ele manteve sua palavra. Ele me deu noventa por cento de presença embora eu nunca tenha ido a uma aula de filosofia em seu colégio, nem mesmo uma vez.

            Eu realmente não fui muito para a escola primária, porque o rio era tão atraente e seu chamado era irresistível. Então eu estava sempre no rio – não sozinho é claro, mas com muitos outros estudantes. Então havia uma floresta além do rio. E havia tanta geografia real para explorar – quem se preocupava com o mapa sujo que eles tinham na escola? Eu não me preocupava onde era Constantinopla, eu estava explorando por mim mesmo: a floresta, o rio – havia tantas outras coisas para fazer.

            Por exemplo, conforme a minha avó vagarosamente me ensinava a ler, eu comecei a ler livros. Não acho que ninguém antes e depois de mim se envolveu tanto na biblioteca daquela vila. Agora eles mostram a todos o local onde eu costumava sentar-me, e o lugar onde eu costumava ler e tomar notas. Mas de fato eles deveriam mostrar para as pessoas que esse era o lugar de onde eles queriam expulsar-me. Eles ameaçaram-me repetidas vezes.

            Mas, uma vez que comecei a ler, uma nova dimensão se abriu. Eu engoli toda a biblioteca, e comecei a ler os livros que mais amava para a minha avó à noite. Vocês não acreditarão, mas o primeiro livro que li para ela foi O Livro de Mirdad. Este começou uma longa série.

            É claro que de vez em quando ela costumava perguntar, no meio de um livro, o significado de uma certa sentença, ou passagem, ou um capítulo inteiro – a sua essência. Eu lhe dizia, “Nani, eu estava lendo para você, e você não ouviu?”

            Ela disse, “Você sabe, quando você lê eu fico tão interessada em sua voz que esqueço completamente que você está lendo. Para mim, você é meu Mirdad. A menos que você me explique, Mirdad permanecerá absolutamente desconhecido no que diz respeito a mim.”

            Então eu tinha que explicar para ela, mas isso foi uma grande disciplina para mim. Explicar, ajudar outra pessoa que está disposta a ir um pouco mais fundo do que poderia ir sozinha, segurá-la pela mão, vagarosamente, isso tornou-se toda a minha vida. Não a escolhi, não da forma que ela foi escolhida por J. Krishnamurti. Foi-lhe imposto pelos outros. No início até mesmo os seus discursos eram escritos por Annie Besant ou por Leadbeater; ele simplesmente os repetia. Ele não estava sozinho. Era tudo pré-planejado e feito mecanicamente.

            Sou um homem espontâneo, é por isso que ainda permaneço selvagem. Às vezes me pergunto o que estou fazendo aqui, ensinando pessoas a serem iluminadas. E, uma vez que elas se iluminam, eu imediatamente começo ensiná-las como tornarem-se não-iluminadas novamente. O que estou fazendo?

            Sei que agora está chegando a hora de muitos dos meus sannyasins estourarem na iluminação. E comecei a preparar, e trabalhar no solo e na ciência de como desiluminar muitas almas iluminadas novamente. Isso é o que tenho feito. Um tipo estranho de trabalho, mas o desfrutei ao máximo, e ainda o desfruto. Vou desfrutá-lo até o último suspiro, ou mesmo depois disso. Sou um pouco louco, vocês sabem, então posso fazer isso, embora nenhum homem louco nunca o tenha feito. Mas alguém tem que fazê-lo um dia. Alguém tem que quebrar o gelo.

 

Sessão 27

 

Vocês veem a sincronicidade? Simultaneamente, eu e Devageet dissemos, “Ok.” É claro que ele disse por uma coisa, eu por outra – mas as linhas se cruzam. Um momento antes de entrar eu estava escutando um dos maiores flautistas, Hariprasad. Isso incita muitas memórias em mim.

            Existem muitos tipos de flautas no mundo. A mais importante é a Arábica; a mais bela, a Japonesa; e existem muitas outras. Mas nada se compara com a pequena flauta Indiana de bambu por sua doçura. E Hariprasad é certamente um mestre no que diz respeito à flauta. Ele tocou na minha frente, não apenas uma vez, mas muitas vezes. Sempre que ele sentia que tinha que tocar em seu máximo, ele corria até mim onde quer que eu estivesse – às vezes até mesmo milhares de milhas, apenas para tocar a sua flauta por uma hora a sós comigo.

            Eu perguntei-lhe, “Hariprasad, você poderia tocar em qualquer lugar – por que fazer essa longa jornada?”

            E na Índia mil milhas é quase como vinte mil milhas no Ocidente. Os trens Indianos – eles ainda andam, eles não correm. No Japão os trens correm a quatrocentas milhas por hora; e na Índia quarenta milhas por hora é uma grande velocidade; e os ônibus, e os riquixás… Apenas para tocar a flauta por uma hora no meu quarto… eu perguntei-lhe, “Por quê?”

            Ele disse, “Porque tenho milhares de admiradores, mas ninguém entende particularmente o som silencioso. A menos que alguém entenda o som silencioso ele não pode realmente apreciar. Então venho até você; e apenas essa hora é suficiente para permitir-me tocar a minha flauta por meses na frente de todos os tipos de idiotas – governadores, ministros-chefes e os chamados “grandes.” Quando me sinto cansado, exausto e enfastiado dos idiotas corro até você. Por favor não me negue apenas essa uma hora.”

            Eu disse, “É uma alegria ouvi-lo, a sua flauta, a sua música. Elas próprias são grandiosas, mas particularmente porque elas me fazem lembrar do homem que nos apresentou. Você lembra daquele homem?”

            Ele tinha esquecido completamente quem o apresentou a mim, e posso entender… devia fazer quarenta anos. Eu era uma criança pequena, ele um jovem homem. Ele tentou muito lembrar-se mas não conseguiu, e disse, “Perdoe-me, mas parece que a minha memória não está funcionando bem. Não posso nem lembrar-me do homem que me apresentou a você. Mesmo se eu tiver que esquecer todo o resto, pelo menos devo lembrar-me dele.”

            Lembrei-lhe do homem, e ele começou a chorar. Eu gostaria de falar para vocês hoje desse homem.

            Pagal Baba era um desses homens notáveis que vou falar sobre. Ele era da mesma categoria de Magga Baba. Ele era conhecido apenas como Pagal Baba; pagal significa “o louco.” Ele chegou como um vento, sempre repentino, e então desapareceu tão de repente quanto chegara.

            Eu não o descobri, ele me descobriu. Quero dizer que eu estava apenas nadando no rio quando ele passou; ele olhou para mim, eu olhei para ele, e ele pulou no rio e nós nadamos juntos. Não sei quanto tempo nadamos mas não sou daqueles que diz “chega.” Ele já era um santo estabelecido. Eu o tinha visto antes, mas não tão de perto. Em um encontro, fazendo bhajan e cantando músicas a Deus, eu o tinha visto e tinha certos sentimentos em relação a ele, mas os mantive para mim. Eu não tinha dito uma única palavra sobre. Existem coisas que estão mais bem guardadas no coração; ali elas crescem mais rápidas. Ali é o solo certo.

            Naquele momento ele era um homem velho; eu não tinha mais que vinte. Obviamente foi ele que disse, “Vamos parar. Estou cansado.”

            Eu disse, “Você poderia ter me dito a qualquer hora e eu teria parado, mas, no que diz respeito a mim, sou um peixe no rio.”

            Sim, era assim que eu era conhecido na minha vila. Quem mais nadava seis horas toda manhã das quatro até as dez? Quando todo mundo estava dormindo, dormindo pesado, eu já estava no rio. E quando todos iam trabalhar eu ainda estava no rio. É claro que às dez horas todo dia a minha avó viria, e então eu saia da água porque era hora da escola, eu tinha que ir à escola. Mas imediatamente depois da escola eu estava de volta ao rio.

            Quando cruzei pela primeira vez com Siddharta, o romance de Herman Hesse, não pude acreditar que o que ele havia escrito sobre o rio eu vi muitas vezes. E sei perfeitamente bem que Hesse estava apenas imaginando – uma boa imaginação – porque ele morreu sem ser um buda. Ele foi capaz de criar Siddhartha, mas não pôde tornar-se um Siddhartha. Mas quando cruzei com sua descrição do rio, e os humores, as mudanças, e os sentimentos do rio, fiquei comovido. Fiquei mais impressionado pela sua descrição do rio do que qualquer outra coisa. Não posso relembrar desde quando amo o rio – parece que nasci em suas águas.

            Na vila da minha Nani eu estava continuamente ou no lago ou no rio. O rio era um pouco longe, talvez duas milhas, então eu tinha que escolher o lago com mais frequência. Mas de vez em quando eu ia ao rio, porque a qualidade de um rio e de um lago é totalmente diferente. Um lago, de certa forma, está morto, fechado, sem fluir, não indo a lugar algum, estático. Esse é o significado da morte: não é dinâmica.

            O rio está sempre fluindo, correndo até um objetivo desconhecido, talvez sem saber nada sobre o objetivo, mas ele alcança, sabendo ou não – ele alcança o objetivo. O lago nunca se move. Ele permanece onde está, dormente, simplesmente morrendo, morrendo a cada dia; não há ressurreição. Mas o rio, por menor que seja, é tão grande como o oceano, porque mais cedo ou mais tarde ele tornar-se-á o oceano.

            Sempre amei a sensação de fluxo: apenas indo, aquele fluxo, aquele movimento contínuo… a vivacidade. Então, mesmo o rio sendo a duas milhas, eu costumava ir de vez em quando apenas para sentir o gosto.

            Mas na vila do meu pai o rio era muito próximo. Era apenas dois minutos de caminhada da casa da minha Nani. Do andar de cima você poderia vê-lo; ele estava lá com toda a sua grandeza e convidando… irresistível.

            Eu costumava correr da escola ao rio. Sim, apenas por um momento eu parava para jogar meus livros na casa da minha Nani. Ela me persuadiria a tomar pelo menos uma xícara de chá, dizendo, “Não tenha tanta pressa. O rio não partirá, não é um trem.” Isso é exatamente o que ela costumava dizer repetidas vezes: “Lembre-se, não é um trem. Você não pode perde-lo. Então por favor beba a sua xícara de chá, então vá. E não jogue os seus livros desse jeito.”

            Eu não falava nada porque isso significava mais atrasos. Ela sempre ficava impressionada, dizendo, “Em qualquer outro momento você está pronto para argumentar. Mas quando está indo ao rio, mesmo se eu disser algo – quer seja um disparate, ilógico, absurdo – você simplesmente ouve como se fosse uma criança obediente. O que acontece com você quando está indo ao rio?”

            Eu disse, “Nani, você me conhece. Você sabe perfeitamente bem que não quero gastar tempo. O rio está chamando. Posso até ouvir o som de suas ondas enquanto estou bebendo o meu chá.”

            Queimei meus lábios muitas vezes ao beber o chá que estava muito quente. Mas eu estava com pressa e a xícara tinha que ser esvaziada. A minha Nani estava lá; ela não me deixaria ir antes de tomar o meu chá.

            Ela não era como Gudia. Gudia é especial nisso; ela sempre me diz, “Espere. O chá está muito quente.” Talvez seja o meu velho hábito. Eu novamente começo a pegar a xícara e então ela diz, “Espere! Está muito quente.” Sei que ela está certa, então espero até ela não objetar, então tomo o chá. Talvez o velho hábito de apenas tomar o chá e correr ao rio ainda esteja lá.

            Embora minha avó soubesse que eu queria alcançar as águas do rio o mais rápido possível, ela tentaria me persuadir a comer alguma coisa – uma coisa ou outra. Eu diria a ela, “Me dê tudo. Colocarei nos meus bolsos e comerei no caminho.” Sempre gostei de castanha-de-caju, particularmente das salgadas, e por anos eu costumava encher todos os meus bolsos com elas. Todos os meus bolsos significavam dois na minha calça – shorts, porque nunca gostei de calças longas, talvez porque todos os professores as usavam, e eu odeio professores, e uma certa associação deve ter sido criada. Então eu usava somente shorts.

            Na Índia os shorts são muito melhores, climaticamente, do que calças longas. Meus dois bolsos ficavam cheios de castanhas-de-caju. E vocês ficarão surpresos: apenas por causa daquelas castanhas-de-caju tive que falar para o alfaiate fazer dois bolsos nas minhas camisas. Eu sempre tinha dois bolsos nas camisas. Nunca entendi porque apenas um bolso é colocado nas camisas. Por que não apenas um bolso nas calças também? Ou apenas um bolso nos shorts? Por que apenas um nas camisas? A razão não é óbvia, mas sei por quê. O único bolso é sempre do lado esquerdo para que a mão direita possa pegar e colocar as coisas, e naturalmente nenhum bolso é necessário para a pobre mão esquerda. O que um pobre homem faz com um bolso?

            A mão esquerda é uma das partes reprimidas do corpo humano. Se vocês tentarem, vocês entenderão o que estou dizendo. Vocês podem fazer tudo com a mão esquerda que podem fazer com a direita, até mesmo escrever, e talvez melhor. Depois de trinta ou quarenta anos de hábito, no começo vocês certamente achariam difícil usar a mão esquerda, porque a mão esquerda foi ignorada e mantida ignorante.

            A mão esquerda é realmente a parte mais importante do seu corpo porque ela representa o lado direito do seu cérebro. A sua mão esquerda está conectada com o lado direito do seu cérebro, e a sua mão direita com o lado esquerdo do cérebro, como uma cruz. A direita é realmente esquerda, e a esquerda é realmente a direita.

            Ignorar a mão esquerda é ignorar o lado direito do cérebro – e o lado direito do cérebro contém tudo o que tem valor, todos os diamantes, esmeraldas, safiras e rubis… tudo o que tem valor – todos os arco-íris, as flores e as estrelas. O lado direito do cérebro contém a intuição, os instintos; em resumo, ele contém o feminino. A mão direita é chauvinista masculina.

            Vocês ficarão surpresos em saber que quando comecei a escrever, sendo tão inconveniente quanto eu era, comecei a escrever com a mão esquerda. É claro que todo mundo foi contra mim; de novo, é claro, exceto a minha Nani. Ela foi a única a dizer, “Se ele quer escrever com a mão esquerda o que está errado nisso?” Ela prosseguiu, “A questão é escrever. Por que vocês todos estão preocupados com que mão ele usa? Ele pode segurar a caneta com sua mão esquerda, e vocês podem segurá-la com suas mãos direitas. Qual é o problema?”

            Mas ninguém me permitia usar a minha mão esquerda, e ela não podia estar em todos os locais comigo. Na escola, todo professor e todo estudante era contra eu usar a mão esquerda: a direita era certa, a esquerda era errada. Mesmo agora não consigo entender por quê. Por que o lado esquerdo do corpo é renegado e mantido prisioneiro? E vocês sabem, dez por cento das pessoas amariam escrever com a sua mão esquerda; de fato elas começam com a mão esquerda, mas são forçadas a parar.

            É uma das mais antigas calamidades que aconteceu com o ser humano, que metade do seu ser não esteja disponível para si. Um tipo estranho de ser humano nós criamos! É como um carro de boi com apenas uma roda: a outra roda está lá, mas é mantida invisível; usada, mas apenas de forma clandestina. Isso é feio. Resisti desde o começo.

            Perguntei ao professor e ao diretor, “Mostre-me a razão por que devo escrever com a mão direita.”

            Eles apenas deram de ombros. Então falei, “O seu dar de ombros não ajudará; vocês têm que me responder. Vocês não me aceitariam se eu desse de ombros; então por que devo aceitar vocês? Eu ignoro a razão completamente. Por favor expliquem-me adequadamente.”

            Fui mandado para o conselho escolar porque os professores não me entendiam, ou não me explicavam. De fato, eles me entendiam perfeitamente. O que eu estava dizendo era claro: “O que está errado em escrever com a mão esquerda? E se escrevo a resposta certa com a minha mão esquerda, essa resposta pode estar errada – apenas porque ela foi escrita com a mão esquerda?”

            Eles disseram, “Você está louco e vai levar todo mundo à loucura. É melhor você ir ver o conselho escolar.”

            O conselho era o comitê municipal que dirigia todas as escolas. Na vila existiam quatro escolas primárias e dois colégios, um para meninas e outro para meninos. Que vila – onde meninos e meninas eram mantidos absolutamente separados. Era esse conselho que tomava as decisões sobre quase tudo, então naturalmente fui enviado até ele.

            Os membros do conselho ouviram-me muito seriamente, como se eu fosse um assassino e eles estavam sentados como juízes prestes a me enforcar. Eu lhes disse, “Não sejam tão sérios, relaxem. Apenas me digam o que está errado se escrevo com a minha mão esquerda?” Eles olharam uns para os outros. Então falei, “Isso não ajudará. Vocês têm que me responder, e não sou fácil de lidar. Vocês terão que escrever porque não confio em vocês. A maneira que vocês estão olhando uns para os outros parece tão sagaz e política que é melhor ter a resposta de vocês por escrito. Escrevam o que há de errado escrever a resposta certa com a mão esquerda.”

            Eles estavam sentados lá como estátuas. Ninguém nem tentou dizer algo a mim. Ninguém estava pronto para escrevê-lo também. Eles simplesmente disseram, “Teremos que considerar.”

            Eu disse, “Considerem. Estarei aqui. Quem está impedindo vocês de considerarem na minha frente? Isso é algo privado como um caso de amor? E todos vocês são cidadãos respeitáveis: pelo menos seis pessoas não deveriam estar em um caso de amor – isso seria como sexo grupal.”

            Eles gritaram comigo, “Fique quieto! Não use essas palavras!”

            Eu disse, “Tenho que usar essas palavras apenas para provocar vocês; caso contrário vocês ficariam apenas sentados aí como estátuas. Pelo menos agora vocês se moveram e disseram algo. Agora considerem, e vou ajudá-los e não atrapalhá-los de maneira alguma.”

            Eles disseram, “Por favor saia. Não podemos considerar na sua frente; você vai interferir. Sabemos sobre você, assim como todo mundo da cidade. Se você não sair então nós sairemos.”

            Eu disse, “Vocês podem sair primeiro, isso é gentileza.”

            Eles tiveram que sair da sua própria sala de comitê antes de mim. A decisão veio no próximo dia. A decisão era simplesmente que “Os professores estão certos, e todos devem escrever com a mão direita.”

            Essa falsidade é dominante em todos os lugares. Não posso nem compreender que tipo de estupidez é essa. E essas são as pessoas que estão no poder! Os direitistas! Elas são poderosas – os chauvinistas masculinos são poderosos. Os poetas não são poderosos, nem os músicos…

            Agora olhem para esse homem Hariprasad Chaurasia – um exímio tocador de flauta de bambu mas que viveu a sua vida em total pobreza. Ele não podia lembrar-se de Pagal Baba, que apresentou ele a mim – ou é melhor dizer, “eu para ele”? – porque eu era apenas uma criança e Hariprasad era uma autoridade reconhecida mundialmente no que diz respeito à flauta de bambu.

            Pagal Baba também me apresentou a outros flautistas, particularmente Pannalal Ghosh. Mas ouvi-o tocando e ele não era nada comparado com Hariprasad. Por que Pagal Baba me apresentou a essas pessoas? Ele próprio era o maior flautista, mas não tocava para o público. Sim, ele tocava para mim, uma criança, ou para Hariprasad, ou Pannalal Ghosh, mas deixou claro que não podíamos falar isso para ninguém. Ele mantinha a sua flauta escondida em sua mala.

            A última vez que o vi ele me deu sua flauta e disse, “Não vamos nos encontrar de novo – não que eu não queira te encontrar, mas porque esse corpo não é capaz de carregar a si mesmo mais.” Ele devia ter por volta de noventa anos. “Mas como uma recordação eu te dou essa flauta, e te digo, se você praticar você pode tornar-se um dos maiores flautistas.”

            Eu disse, “Mas não quero nem mesmo tornar-me o maior flautista. Ser um flautista não pode satisfazer-me; é unidimensional.”

            Ele entendeu e disse, “Isso é com você.”

            Perguntei-lhe várias vezes porque ele tentava me contatar sempre que vinha à vila – porque isso era a primeira coisa que ele fazia.

            Ele disse, “Por quê? Você deveria perguntar de outro jeito: por que venho à vila? Apenas para contatá-lo – não venho a essa vila por nenhuma outra razão.”

            Por um momento não pude dizer nenhuma palavra, nem mesmo “obrigado.” De fato, em Hindi não há nenhuma palavra que seja realmente equivalente a “obrigado.” Sim, existe uma palavra que é usada, mas ela tem um sabor totalmente diferente: dhanyavad. Ela significa “Deus te abençoe.” Ora, uma criança não pode dizer “Deus te abençoe” a um homem de noventa anos. Eu disse, “Baba, não me dê problemas. Não posso nem o agradecer.” Para dizer isso precisei usar uma palavra Urdu, shukriya, que chega mais próxima do Inglês, mas ainda não é exatamente o mesmo. Shukriya significa “gratidão,” mas ela chega muito próxima.

            Eu lhe disse, “Você me deu esta flauta. Vou guardá-la em sua memória, e praticarei também. Quem sabe? – você sabe melhor que eu; talvez esse seja o meu futuro, mas não vejo nenhum futuro nela.”

            Ele riu e disse, “É difícil falar com você. Mantenha a flauta com você e tente tocá-la. Se algo acontecer, bom; se nada acontecer então guarde-a em minha memória.”

            Comecei a tocá-la, e amei. Toquei-a por anos e tornei-me realmente proficiente. Eu costumava tocar a flauta e um dos meus amigos – não realmente um amigo, mas um conhecido – costumava tocar a tabla. Viemos a nos conhecer porque nós dois amávamos nadar.

            Um ano quando o rio estava cheio e nós dois tentávamos cruzá-lo – essa era a minha alegria, cruzar o rio na estação chuvosa quando ele ficava realmente amplo; fluindo com tanta força que nos carregava pelo menos duas ou três milhas para baixo. Apenas para cruzá-lo tínhamos que estar prontos para viajar três milhas para voltar, e cruzar de volta significava mais três milhas, então era uma jornada de seis milhas! E na estação chuvosa…! Mas essa era uma das minhas alegrias.

            Esse garoto, Hari era seu nome também. Hari é um nome muito comum na Índia; ele significa “deus.” Mas é um nome muito estranho. Não acho que nenhuma língua tenha um nome para Deus como Hari porque ele realmente significa “o ladrão” – Deus o ladrão! Por que Deus é chamado de ladrão? Porque mais cedo ou mais tarde ele rouba o seu coração… e quanto mais cedo melhor. O nome do garoto era Hari.

            Estávamos nós dois tentando atravessar o rio cheio. O rio devia ter quase uma milha de largura. Hari não sobreviveu; ele afogou-se em algum lugar da travessia. Eu procurei por todos os lados, mas foi impossível: o rio estava enchendo muito rápido. Se ele se afogou seria impossível encontrá-lo; talvez alguém mais para baixo do rio encontraria o seu corpo.

            Chamei o mais alto que pude, mas o rio estava rugindo. Eu ia ao rio todos os dias e tentei o melhor que uma criança poderia fazer. A polícia tentou, a associação de pescadores tentou, mas nem mesmo um traço foi encontrado. Ele deve ter sido levado pelo rio muito antes de eles ouvirem falar do caso. Em sua memória joguei no rio a flauta que Pagal Baba havia me dado.

            Eu disse, “Eu gostaria de jogar-me no rio mas tenho outro trabalho a fazer. Essa é a coisa mais preciosa que tenho do meu lado, então vou jogá-la. Eu nunca mais vou tocar essa flauta novamente sem o Hari tocando a tabla. Não posso conceber-me tocando novamente. Tome-a, por favor!”

            Era uma bela flauta, talvez esculpida por um criador de flautas muito habilidoso. Talvez ela tenha sido feita especialmente para Pagal Baba por um dos seus seguidores. Falarei mais sobre Pagal Baba porque há tantas coisas a serem ditas sobre ele.

            Que horas são?

            “Dez e vinte três, Osho.”

            Bom. O tempo não será suficiente hoje, então teremos que deixar Pagal Baba para outro momento. Mas uma coisa talvez eu esqueça posteriormente: é sobre o garoto Hari que morreu… Ninguém soube se ele morreu ou se fugiu da sua casa, porque o seu corpo nunca foi encontrado. Mas sei que ele morreu, porque eu estava nadando com ele, e, de repente, a um certo ponto, no meio do rio eu vi ele desaparecendo. Eu gritei “Hari! Qual é o problema?” – mas não havia ninguém para responder.

            Para mim a própria Índia está morta; não acho que a Índia é uma parte viva da humanidade. É uma terra morta, morta há tantos séculos que até mesmo os mortos esqueceram-se que estão mortos. Eles estão mortos há tanto tempo, alguém tem que relembrá-los. É isso o que estou tentando fazer, mas é uma tarefa muito ingrata, ter que relembrar alguém, dizendo, “Senhor, você está morto. Não acredite que você está vivo.”

            É isso o que tenho feito continuamente por esses vinte e cinco anos, sai dia, entra dia. É triste que o país que deu à luz a Buda, Mahavira e Nagarjuna esteja morto.

            Pobre Devageet – apenas para esconder o seu risinho ele teve que tossir. Às vezes me pergunto quem está tomando nota. Tossir tudo bem, dar risinhos também é perdoável, mas e as notas? Eu costumava enganar os meus professores apenas rabiscando, fingindo que estava tomando notas, e rápido. E eu costumava rir quando eles eram enganados. Mas é impossível enganar-me, e é bom que vocês não possam. Estou vendo vocês, embora vocês pensem que meus olhos estejam fechados. Sim, eles estão fechados, mas suficientemente abertos para ver o que vocês estão escrevendo.

            Isso é belo. Eu golpeio vocês com força e, entretanto, vocês…

            … Pare-o agora.

           

Publicado por rafaelxa

Simply be silent, meditate, dance, read, sing. Do a ritual in each opportunity. Connect yourself with the source. It's not difficult. Be really happy. You could dodge the ignorance. You could grasp wisdom in any book, tree or face. It's up to you. Be aware, be awake! "Creio porque é absurdo" Tertuliano "Seja uma luz para si próprio" Buda “Sitting quietly, doing nothing, spring comes, and the grass grows, by itself." Matsuo Bashō "O silêncio e a risada são a chave – silêncio dentro, risada fora" Osho

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