Sessão 20

 

Espere pelo meu “Ok…”

            Estou em frente ao Portão do Elefante da minha escola primária… e aquele portão iniciou muitas coisas na minha vida. Eu não estava sozinho é claro; o meu pai estava comigo. Ele veio para inscrever-me na escola. Eu olhei para os portões altos e disse a ele, “Não.”

            Ainda posso ouvir esta palavra. Uma criança pequena que perdeu tudo… Posso ver na face da criança um ponto de interrogação conforme ela se pergunta o que irá acontecer.

            Eu fiquei olhando para os portões, e o meu pai me perguntou, “Você está impressionado por esse portão grande?”

            Agora tomo a história em minhas próprias mãos:

            Eu disse para o meu pai, “Não.” Esta foi a minha primeira palavra antes de entrar na escola primária, e vocês ficarão surpresos, ela também foi a minha última palavra ao deixar a universidade. No primeiro caso, o meu pai estava comigo. Ele não era muito velho, mas para mim, uma criança pequena, ele era velho. No segundo caso, um homem realmente muito velho estava do meu lado, e nós estávamos novamente na frente de um portão ainda maior.

            O velho portão da universidade foi desmontado para sempre, mas ele permanece em minha memória. Ainda posso vê-lo – o velho portão, não o novo; não tenho relacionamento com o novo – e ao vê-lo choro, porque o velho portão era realmente grande, simples, mas grande. O novo é apenas feio. Talvez ele seja moderno, mas toda a arte moderna retomou à feiura, apenas porque esta foi rejeitada por séculos. Talvez retomar à feiura é um passo revolucionário. Mas a revolução, se feia, não é revolução de maneira alguma, é apenas reação. Vi o portão novo apenas uma vez. Desde então passei por aquela estrada muitas vezes, mas sempre fecho os meus olhos. Com os olhos fechados posso ver novamente o velho portão.

            O velho portão da universidade era ruim, realmente ruim. Ele foi feito quando a universidade estava apenas começando e eles não foram capazes de criar uma estrutura monumental. Todos nós vivíamos em barracas militares, porque a universidade começou tão de repente que não houve tempo para fazer albergues ou bibliotecas. Eram apenas barracas militares abandonadas. Mas o local era belo, situado em uma pequena colina.

            Os militares o abandonaram porque ele só foi significativo durante a Segunda Guerra Mundial. Ele estava em uma altitude necessária para o radar deles, para procurar pelo inimigo. Agora não havia mais necessidade, então eles o abandonaram. Foi uma bênção, pelo menos para mim, porque eu não seria capaz de ler e estudar em nenhuma outra universidade além dessa.

            O seu nome era Universidade de Sagar. Sagar significa “oceano.” Sagar tinha um lago tremendamente belo, tão grande que não era chamado de lago, mas sagar, um oceano. Ele realmente parecia um oceano, com ondas que se elevavam sobre si. Não é possível acreditar que é apenas um lago. Eu vi apenas dois lagos com ondas tão grandes. Não que eu tenha visto apenas dois lagos; vi muitos. Vi os mais belos lagos da Caxemira, dos Himalaias, Darjeeling, Nainital, e muitos outros no sul da Índia, nas Colinas Nandi, mas vi apenas dois com ondas que se assemelham ao oceano: o lago de Sagar e o lago de Bopal.

            Comparado com o lago de Bhopal, é claro que o lago de Sagar é pequeno. O lago de Bhopal é, talvez, o maior lago de todo o mundo. Neste lago eu vi ondas que só podem ser descritas como ondas de maré, elevando-se possivelmente a três ou quatro metros de altura. Nenhum outro lago pode reivindicar isso. Ele é tão vasto. Uma vez tentei navegar em seu entorno com um barco, e isso levou dezessete dias. Eu ia o mais rápido que vocês podem imaginar – mais do que isso, porque não havia policiais em volta, e nenhum limite de velocidade. Quando terminei a excursão eu simplesmente disse para mim mesmo, “Meu Deus, que lago belo!” E ele é muito profundo.

            O mesmo é verdadeiro em uma escala menor em relação ao lago de Sagar. Mas, em outro sentido, ele tem uma beleza que o lago de Bhopal não possui. Ele é cercado por belas montanhas, não tão vastas, mas tremendamente belas… particularmente de manhã no nascer do sol e à tarde no pôr do sol. E se for uma noite de lua cheia você realmente saberá o que é a beleza. Em um pequeno bote naquele lago, em uma noite de lua cheia, uma pessoa simplesmente sente que nada mais é necessário.

            É um local belo… mas ainda me sinto mal porque o velho portão não está mais lá. Ele deveria ser desmontado. Estou perfeitamente consciente disso, não somente agora; mesmo naquela época todo mundo tinha consciência que ele precisaria ser desmontado. Ele era apenas temporário, feito apenas para inaugurar a universidade.

            Este era o segundo portão, lembro-me. Quando deixei a universidade eu estava ao lado do portão com o meu velho professor, Sri Krishna Saksena. O pobre homem morreu há apenas alguns anos atrás, e ele enviou uma mensagem dizendo que queria me ver. Eu amaria vê-lo, mas agora nada pode ser feito a menos que ele renasça rápido, e como um sannyasin, para que ele possa alcançar-me. Eu o reconheceria imediatamente, isso posso prometer.

            Ele era um homem de qualidades excepcionais. Ele foi o único professor entre todos os que cruzei – professores, palestrantes, leitores etc – ele foi o único capaz de entender que tinha um estudante que deveria ser seu mestre.

            Ele estava ao lado do portão persuadindo-me a não deixar a universidade. Ele dizia, “Você não deve partir, particularmente quando a universidade te deu uma bolsa de estudos de Ph.D. Você não deve perder essa oportunidade.” Ele tentava de milhares de maneiras me dizer que eu era seu estudante mais amado. Ele disse, “Eu tive muitos estudantes no mundo inteiro, particularmente na América” – porque ele ensinava na América a maior parte do tempo – “mas posso dizer,” ele me disse, “Eu não me preocuparia em convencer nenhum deles a permanecer. Por que eu me preocuparia? – não tinha nada a ver comigo, era o futuro deles. Mas em relação a você” – e lembro-me das suas palavras com lágrimas em meus olhos – ele disse, “em relação a você, é o meu futuro.” Não posso esquecer as suas palavras. Permitam-me repeti-las. Ele disse, “O futuro daqueles outros estudantes depende deles; o seu futuro é o meu futuro.”

            Eu disse a ele, “Por quê? Por que o meu futuro deve ser o seu futuro?”

            Ele disse, “Essa é uma coisa que é melhor eu não falar com você,” e começou a chorar.

            Eu disse, “Entendo. Por favor não chore. Mas não posso ser persuadido a fazer nada contra a minha própria mente, e está definido em uma dimensão totalmente diferente. Sinto muito desapontá-lo. Sei perfeitamente bem o quanto você esperou, quão feliz você ficou por eu ter superado toda a universidade. Eu o vi, como um criança, tão feliz por causa da medalha de ouro que nem foi dada a você, mas a mim.”

            Eu não dava a mínima para aquela medalha de ouro. Eu a joguei em um poço muito fundo, tão fundo que não penso que ninguém a encontrará novamente; e eu o fiz na frente do Doutor Sri Krishna Saksena.

            Ele disse, “O que você está fazendo? O que você fez?” – porque eu já a havia jogado no poço. E ele estava tão feliz que fui escolhido para uma bolsa de estudos. Era por um período indefinido, de dois a cinco anos.

            Ele disse, “Por favor, reconsidere.”

            O primeiro portão era o do Elefante, e eu estava com meu pai não querendo entrar. E o último portão também era um Portão do Elefante, e eu estava com meu velho professor, não querendo entrar novamente. Uma vez era o suficiente; duas vezes seriam demais.

            O argumento que se iniciou no primeiro portão durou até o segundo. O não que falei para o meu pai foi o mesmo não que falei para o meu professor, que era realmente um pai para mim. Posso sentir a sua qualidade. Ele se preocupava tanto comigo quanto o meu pai se preocupava, ou talvez ainda mais. Quando eu estava doente ele não conseguia dormir; ele se sentava do lado da minha cama a noite toda. Eu dizia para ele, “Você está velho, doutor” – eu costumava chamá-lo de doutor – “por favor vá dormir.”

            Ele diria, “Não vou dormir a menos que você prometa que até amanhã você estará perfeitamente bem.”

            E eu tinha que prometer – como se estar doente ou não dependesse da minha promessa. Mas de alguma forma, uma vez que tinha lhe prometido, isso funcionava. É por isso que digo que há algo como a mágica no mundo.

            Aquele ‘não’ tornou-se o meu tom, a própria matéria de toda a minha existência. Eu disse para o meu pai, “Não, não quero entrar por esse portão. Isso não é uma escola, é uma prisão.” O próprio portão, e a cor do edifício… É estranho, particularmente na Índia, as prisões e as escolas são pintadas da mesma cor, e ambas são feitas de tijolos vermelhos. É muito difícil saber se o edifício é uma prisão ou uma escola. Talvez um piadista prático conseguiu fazer uma piada, mas ele a fez perfeitamente.

            Eu disse, “Olhe para essa escola – você chama isso de escola? Olhe para esse portão! E você está aqui para forçar-me a entrar por pelo menos quatro anos.” Assim começou um diálogo que durou vários anos; e vocês cruzarão com ele muitas vezes, porque ele entrecruza-se com a história.

            O meu pai disse, “Sempre tive medo…” e estávamos no portão, do lado de fora é claro, porque eu ainda não o havia permitido levar-me para dentro. Ele prosseguiu “…sempre tive medo que seu avô, e particularmente essa mulher, a sua avó, fossem te mimar.”

            Eu disse, “A sua desconfiança, ou medo, estava certo, mas o trabalho foi feito e ninguém pode desfazê-lo agora, então por favor vamos para casa.”

            Ele disse, “O quê? Você tem que ser educado.”

            Eu disse, “Que tipo de início é esse? Eu não tenho nem a liberdade de dizer sim ou não. Você o chama de educação? Mas se você quiser, por favor não me pergunte: aqui está a minha mão, arraste-me para dentro. Pelo menos terei a satisfação de nunca ter entrado nessa instituição feia por mim mesmo. Por favor, pelo menos faça-me esse favor.”

            É claro que meu pai estava ficando muito chateado, então ele me arrastou para dentro. Embora fosse um homem muito simples ele imediatamente entendeu que aquilo não era certo. Ele disse para mim, “Embora eu seja seu pai, não parece certo eu te arrastar para dentro.”

            Eu disse, “Não se sinta culpado de maneira alguma. O que você fez está perfeitamente certo, porque a menos que alguém me arrastasse para dentro eu não entraria de acordo com a minha própria decisão. A minha decisão é ‘não.’ Você pode impor a sua decisão a mim porque tenho que depender de você em relação à alimentação, vestes, abrigo e tudo. Naturalmente você está em uma posição privilegiada.”

            Que entrada! – sendo arrastado para a escola. O meu pai nunca se perdoou. No dia em que ele tomou sannyas, vocês sabem a primeira coisa que ele disse para mim? “Desculpe-me, porque fiz tantas coisas erradas para você. Foram tantas que nem posso contá-las, e devem existir outras que nem tenho conhecimento. Apenas me perdoe.”

            A entrada na escola foi o início de uma nova vida. Por anos vivi como um animal selvagem. Sim, não posso dizer um ser humano selvagem, porque não existem seres humanos selvagens. Apenas raramente um ser humano se torna um ser humano selvagem. Eu sou um agora; Buda foi um, Zaratustra também foi, Jesus. Mas, naquela época era perfeitamente verdadeiro dizer que vivi por anos como um animal selvagem. Mas isso é muito superior a Adolf Hitler, Benito Mussolini, Napoleão, ou Alexandre o Grande. Estou apenas nomeando os piores – piores no sentido que eles pensavam ser os mais civilizados.

            Alexandre o Grande pensava ser o homem mais civilizado de seu tempo, é claro. Adolf Hitler, em sua autobiografia, Minha Luta… não sei como os Alemães pronunciam o título – tudo que posso lembrar é, Mein Kampf. Deve estar errado, deve estar. Em primeiro lugar está em Alemão: M-e-i-n K-a-m-p-f.

            Qualquer que seja a pronúncia, não importa para mim. O que importa para mim é que em seu livro ele tenta provar que alcançou o status de “super-homem” que o ser humano havia sido preparado por milhares de anos.  E o partido de Hitler, os Nazistas, e a sua raça, os Arianos Nórdicos, seriam “governantes do mundo,”e esse governo duraria mil anos! Apenas a fala de um louco – mas um louco muito poderoso. Quando ele falava você tinha que ouvir, até mesmo o seu disparate. Ele pensava ser o único Ariano real, e os Nórdicos eram a única raça de sangue puro. Mas ele estava vendo um sonho.

            O homem raramente torna-se um super-homem, e a palavra ‘super’ não tem nada a ver com ‘superior’. O verdadeiro super-homem é aquele que está consciente de todos os seus atos, pensamentos e sentimentos, de tudo o que é feito – de amor, de vida, de morte.

            Um grande diálogo começou com o meu pai naquele dia, e continuou intermitentemente, terminando apenas quando ele se tornou um sannyasin. Depois disso não havia questão para qualquer argumento, ele se rendeu. No dia em que ele tomou sannyas, ele estava chorando e segurando o meu pé. Eu estava de pé, e vocês não podem acreditar… como um flash, a velha escola, o Portão do Elefante, a pequena criança resistindo, inapta para entrar, e meu pai me puxando – tudo passou como um flash. Eu sorri.

            Meu pai perguntou, “Por que você está sorrindo?”

            Eu disse, “Só estou feliz que um conflito finalmente acabou.”

            Mas era isso o que estava acontecendo. Meu pai me arrastou; nunca fui para a escola de bom grado.

            Devageet, umidificar os meus lábios…

            Estou feliz que fui arrastado para dentro, que nunca fui por mim mesmo, consentindo. A escola era realmente feia – todas as escolas são feias, de fato. É bom criar uma situação para que as crianças aprendam, mas não é bom educá-las. A educação está fadada a ser feia.

            E qual foi a primeira coisa que vi na escola? A primeira coisa foi o encontro com o professor da minha primeira classe. Eu vi pessoas belas e feias, mas eu nunca vi algo como aquilo novamente! – Enfatize algo; não posso chamar aquele algo de alguém. Ele não parecia um homem. Eu olhava para o meu pai e dizia, “Foi para isso que você me arrastou?”

            O meu pai disse, “Fique quieto!” Em voz baixa, para que a “coisa” não ouvisse. Ele era o mestre, e ele iria me ensinar. Eu não podia nem olhar para o homem. Deus deve ter criado a sua face com uma tremenda pressa. Talvez a sua bexiga estava cheia, e apenas para terminar o trabalho ele fez esse homem e então correu para o banheiro. Que homem ele criou! Ele tinha apenas um olho, e um nariz torto. Aquele único olho era o suficiente! Mas o nariz torto realmente adicionava uma feiura muito grande à face. E era enorme! – dois metros de altura – e devia pesar no mínimo cento e oitenta quilos, não menos que isso.

            Devaraj, como essas pessoas desafiam à pesquisa médica? Cento e oitenta quilos, e ele sempre estava saudável. Ele nunca tirou um dia de folga, nunca foi a um médico. Toda a cidade dizia que esse homem era feito de aço. Talvez sim, mas não de um aço bom – estava mais para arame farpado! Ele era tão feio que não quero falar nada sobre ele, embora eu tenha que dizer algumas coisas, mas pelo menos não sobre ele diretamente.

            Ele foi meu primeiro mestre, quero dizer professor. Porque na Índia os professores de escola são chamados “mestres”; é por isso que disse que ele foi meu primeiro mestre. Até mesmo hoje, se eu visse aquele homem certamente começaria a tremer. Ele não era um homem de maneira alguma, ele era um cavalo!

            Eu disse para o meu pai, “Primeiro olhe para esse homem antes de você assinar.”

            Ele disse, “O que há de errado nele? Ele foi meu professor, ele foi professor do meu pai – ele tem ensinado aqui por gerações.”

            Sim, isso era verdade. Era por isso que ninguém podia reclamar dele. Se você reclamava o seu pai diria, “Não posso fazer nada, ele foi meu professor também. Se eu for reclamar com ele, ele pode até punir a mim.”

            Então o meu pai disse, “Nada está errado com ele, ele é decente.” Então meu pai assinou os papéis.

            Eu então disse ao meu pai, “Você está assinando os seus próprios problemas, então não me culpe.”

            Ele disse, “Você é um menino estranho.”

            Eu disse, “Certamente somos estranhos um ao outro. Vivi longe de você por tantos anos, fiquei amigo das mangueiras, dos pinheiros e das montanhas, dos oceanos e dos rios. Não sou um mercador, e você é. O dinheiro significa tudo para você; não posso nem contá-lo.”

            Até mesmo hoje… não toco em dinheiro há anos. A ocasião nunca se apresentou. Isso me ajudou tremendamente porque não sei como as coisas funcionam no mundo da economia. Eu sigo meu próprio caminho; eles têm que me seguir. Não os sigo, não posso.

            Eu disse ao meu pai, “Você entende de dinheiro, e eu não. As nossas linguagens são diferentes; e lembre-se, você me impediu de voltar à vila, então agora se houver conflito, não me culpe. Eu entendo algo que você não entende, e você entende algo que nem entendo nem quero. Nós somos incompatíveis. Dada, não somos feitos um para o outro.”

            E levou praticamente toda a sua vida para cobrir a distância entre nós, mas é claro, foi ele que teve que viajar. É isso o que quero dizer quando digo que sou teimoso. Não posso ceder nem mesmo um centímetro, e tudo começou no Portão do Elefante.

            O primeiro professor – não sei seu nome real, e ninguém na escola o sabia também, particularmente as crianças; elas simplesmente o chamavam de Mestre Kantar. Kantar significa “caolho”; isso era o suficiente para as crianças, e também era uma condenação do homem. Em Hindi kantar não significa apenas “caolho,” kantar também é utilizado como uma maldição. Não pode ser traduzido desta forma porque a nuance é perdida na tradução. Então todos nós o chamávamos de Mestre Kantar em sua presença, e quando ele não estava nós o chamávamos apenas de Kantar – aquele sujeito caolho.

            Ele não era apenas feio; tudo o que ele fazia era feio. E, é claro, no meu primeiro dia alguma coisa deveria acontecer. Ele costumava punir as crianças cruelmente. Nunca vi ou ouvi falar de outra pessoa fazendo essas coisas as crianças. Eu conhecia muitas pessoas que tinham deixado a escola por causa desse sujeito, e elas permaneceram analfabetas. Ele era demais. Vocês não acreditam o que ele costumava fazer, ou que algum homem pode fazer isso. Explicarei para vocês o que aconteceu comigo naquele primeiro dia – e muito mais se seguiria.

            Ele estava ensinando aritmética. Eu sabia um pouco porque minha avó costumava ensinar-me um pouco em casa – particularmente um pouco de linguagem e aritmética. Então eu estava olhando pela janela uma bela árvore pipal brilhando no sol. Não há outra árvore que brilha tão lindamente no sol, porque cada folha dança separadamente, e toda a árvore torna-se quase um coro – milhares de dançarinas e cantoras brilhando juntas, mas também independentes.

            A árvore pipal é uma árvore muito estranha porque todas as outras árvores inalam dióxido de carbono e exalam oxigênio durante o dia… O que quer que seja vocês podem falar corretamente, porque vocês sabem que não sou uma árvore, nem um químico ou um cientista. Mas a árvore pipal exala oxigênio vinte e quatro horas por dia. Você pode dormir sob uma árvore pipal, e não sob nenhuma outra porque elas são perigosas à saúde. Eu olhava para a árvore com as suas folhas dançando na brisa, e o sol brilhando em cada folha, e centenas de papagaios pulando de um galho a outro, desfrutando, sem nenhuma razão. Ai de mim, eles não tinham que ir para a escola.

            Eu estava olhando pela janela e o Mestre Kantar gritou comigo.

            Ele disse, “É melhor fazer as coisas certas desde o início.”

            Eu disse, “Concordo absolutamente com isso. Também quero colocar tudo em seu devido lugar desde o início.”

            Ele disse, “Por que você está olhando pela janela quando estou ensinando aritmética?”

            Eu disse, “A aritmética tem que ser ouvida, não vista. Não tenho que ver a sua bela face. Eu estava olhando pela janela para evitá-la. No que diz respeito à aritmética, você pode perguntar-me; Ouvi e sei.”

            Ele me fez uma pergunta, e aquilo foi o início de um problema muito longo – não para mim, mas para ele. O problema foi que respondi corretamente. Ele não podia acreditá-lo e falou, “Você estando certo ou errado ainda assim vou puni-lo, porque não está certo olhar pela janela quando o professor está ensinando.”

            Eu fui chamado à sua frente. Eu tinha ouvido falar sobre suas técnicas de punição – ele era um homem como o Marques de Sade. Da sua mesa ele retirou uma caixa de lápis. Ele costumava colocar um lápis entre cada um dos seus dedos, e então apertava as suas mãos com força, dizendo, “Você quer um pouco mais? Você precisa de mais?” – a crianças pequenas! Ele certamente era um fascista. Estou fazendo essa declaração para que ela fique pelo menos registrada: as pessoas que escolhem ser professores têm algo de errado. Talvez seja o desejo de dominar ou um desejo por poder; talvez todas elas sejam um pouco fascistas.

            Eu olhei para os lápis e disse, “Ouvi falar desses lápis, mas antes de você os colocar entre os meus dedos, lembre-se, isso vai te custar muito, talvez até mesmo o seu trabalho.”

            Ele riu. Posso dizer a vocês que era como um monstro em um pesadelo rindo. Ele disse, “Quem pode me impedir?”

            Eu disse, “Esse não é o ponto. Quero perguntar: é ilegal olhar pela janela quando a aritmética está sendo ensinada? E se fui capaz de responder às questões que foram ensinar e sou capaz de repeti-las palavra por palavra, então está errado olhar pela janela? Então por que as janelas foram criadas nessa sala de aula? Para que propósito? – porque o dia inteiro alguém está ensinando algo, e uma janela não é necessária à noite quando não há ninguém para olhar por ela.”

            Ele disse, “Você é um encrenqueiro.”

            Eu disse, “Isso é verdade, e eu vou até o diretor saber se é legítimo você me punir mesmo quando lhe respondi corretamente.”

            Ele tornou-se um pouco mais suave. Fiquei surpreso porque ouvi que ele não era um homem que poderia ser subjugado de maneira alguma.

            Então eu disse, “E então vou ao presidente do comitê municipal que opera essa escola. Amanhã virei com um comissário de polícia para que ele possa ver com seus próprios olhos que tipos de práticas ocorrem aqui.”

            Ele tremeu. Não era visível para os outros, mas posso ver essas coisas que as outras pessoas podem perder. Posso não ver paredes, mas não posso perder coisas pequenas, quase microscópicas. Eu falei para ele, “Você está tremendo, embora não seja capaz de aceitá-lo. Mas veremos. Primeiro deixe-me ir ao diretor.”

            Fui ao direitor e disse, “Eu sei que esse homem tortura crianças. Isso é ilegal, mas eu não posso falar nada sobre porque ele é o professor mais velho da vila, e praticamente todos os pais e avôs foram seus pupilos. Então ninguém pode levantar um dedo contra ele.”

            Eu disse, “Eu não ligo. O meu pai foi seu estudante e o meu avô também. Não ligo para o meu pai ou meu avô; de fato, realmente não pertenço a essa família. Eu tenho vivido longe deles. Sou um estrangeiro aqui.”

            O diretor disse, “Pude ver imediatamente que você deve ser um estranho, mas, meu garoto, não entre em problemas desnecessários. Ele irá torturá-lo.”

            Eu disse, “Não é fácil. Que isso seja o início da minha luta contra toda a tortura. Eu vou lutar.”

            E eu bati com meus punhos – é claro que os punhos de uma criança pequena – na sua mesa, e falei para ele, “Não ligo para a educação ou qualquer coisa, mas devo ligar para a minha liberdade. Ninguém pode me atormentar desnecessariamente. Você tem que mostrar-me o código educacional. Não posso ler, e você tem que mostrar-me se é ilegal olhar pela janela mesmo que eu tenha sido capaz de responder todas as questões corretamente.”

            Ele disse, “Se você respondeu corretamente então não há questão para onde você estava olhando.”

            Eu disse, “Venha comigo.”

            Ele veio com seu código educacional, um livro velho que ele sempre carregava. Penso que ninguém nunca o leu. O diretor disse a Kantar Master, “É melhor não atormentar esta criança porque parece que isso pode voltar-se contra você. Ela não vai desistir facilmente.”

            Mas Kantar Master não era esse tipo de homem. Com medo ele tornou-se ainda mais agressivo e violento. Ele disse, “Vou mostrar a essa criança – você não precisa se preocupar. E quem liga para aquele código? Fui professor aqui a minha vida toda, e essa criança vai ensinar-me o código?”

            Eu disse, “Amanhã, ou eu estarei nesse prédio ou você, mas nós dois não podemos existir aqui juntos. Apenas espere até amanhã.”

            Eu corri para casa e contei para o meu pai. Ele disse, “Fiquei preocupado ao matricular você na escola apenas para trazer problemas para os outros e para si mesmo, e também arrastar-me para isso.”

            Eu disse, “Não, estou simplesmente reportando para que depois você não diga que não avisei.”

            Eu fui até o comissário de polícia. Ele era um homem amável; Eu não esperava que um policial poderia ser tão simpático. Ele disse, “Eu ouvi sobre esse homem. De fato, o meu próprio filho foi torturado por ele. Mas ninguém prestou queixas. É ilegal torturar, mas a menos que você faça a queixa nada pode ser feito, e eu não posso queixar-me eu mesmo porque fiquei preocupado dele reprovar o meu filho. Então foi melhor deixá-lo torturando. Era apenas uma questão de alguns meses, então o meu filho estaria em outra classe.”

            Eu disse, “Estou aqui para denunciar, e não estou preocupado em ir para outra classe de maneira alguma. Estou pronto para ficar nessa classe por toda a minha vida.”

            Ele olhou para mim, me deu um tapinha nas costas e disse, “Aprecio o que você está fazendo. Amanhã vou até lá.”    

            Então apressei-me para ver o presidente do comitê municipal, que provou-se ser apenas um estrume. Sim, apenas estrume, e nem mesmo seco – tão feio! Ele disse a mim, “Eu sei. Nada pode ser feito em relação a isso. Você terá que viver com isso, você terá que aprender a tolerá-lo.”

            Eu disse a ele, e lembro-me exatamente das minhas palavras, “Não vou tolerar nada que é errado de acordo com a minha consciência.”

            Ele disse, “Se esse é o caso, não posso ajudá-lo. Vá ao vice-presidente, talvez ele possa ser de mais ajuda.”

            E por isso devo agradecer àquele estrume, porque o vice-presidente daquela vila, Shambhu Dube, provou-se ser o único homem de valor em toda aquela vila, na minha experiência. Quando bati em sua porta – eu tinha apenas oito ou nove anos de idade, e ele era o vice-presidente – ele chamou, “Sim, entre.” Ele estava esperando ver um cavalheiro, e ao me ver ele pareceu um pouco envergonhado.

            Eu disse, “Desculpe-me não ser um pouco mais velho – por favor desculpe-me. Ademais, não tenho educação nenhuma, mas tenho que denunciar esse homem, o Mestre Kantar.”

            No momento em que ouviu a minha história – que esse homem tortura crianças pequenas na primeira série ao colocar lápis entre os seus dedos e então apertá-los, e que tem alfinetes que força sob as unhas, e que era um homem de dois metros, pesando cento e oitenta quilos – ele não podia acreditar.

            Ele disse, “Ouvi rumores, mas por que ninguém denunciou?”

            Eu disse, “Porque as pessoas têm medo que suas crianças sejam torturadas ainda mais.”

            Ele disse, “Você não tem medo?”

            Eu disse, “Não, porque estou pronto para reprovar. Isso é tudo o que ele pode fazer.” Eu disse que estava pronto para reprovar e não insistiria no sucesso, mas que lutaria até o fim: “Sou eu ou ele – não podemos ficar ambos no mesmo edifício.”

            Shambhu Dube pediu para que eu me aproximasse. Segurando a minha mão ele disse, “Sempre amei pessoas rebeldes, mas nunca pensei que uma criança da sua idade poderia ser rebelde. Eu o parabenizo.”

            Nós nos tornamos amigos, e essa amizade durou até a sua morte. Aquela vila tinha uma população de vinte mil pessoas, mas na Índia ela ainda era uma vila. Na Índia, a menos que um povoado tenha cem mil habitantes ele não é considerado um povoado. Quando existem mais de cinco e cinquenta mil pessoas então é uma cidade. Em toda a minha vida nunca cruzei com outro ser humano naquela vila do mesmo calibre, qualidade ou talento de Shambhu Dube. Se vocês me perguntarem, parecerá um exagero, mas de fato, em toda a Índia eu nunca encontrei outro Shambhu Dube. Ele era raro.

            Quando eu estava viajando por toda a Índia ele esperava por meses pela minha visita de apenas um dia pela vila. Ele era a única pessoa que sempre vinha me ver quando o meu trem passava através da vila. É claro que não estou incluindo o meu pai nem a minha mãe; eles tinham que ir. Mas Shambhu Dube não era meu parente. Ele apenas me amava, e esse amor começou naquele encontro, naquele dia quando fui protestar contra o Mestre Kantar.

            Shambhu Dube era o vice-presidente do comitê municipal, e ele disse a mim, “Não se preocupe. Aquele sujeito deve ser punido. De fato, o serviço dele acabou. Ele aplicou-se para uma extensão mas nós não lhe daremos. A partir de amanhã você não o verá naquela escola novamente.”

            Eu disse, “Isso é uma promessa?”

            Ele olhou em cada um dos meus olhos. Ele riu e disse, “Sim, é uma promessa.”

            No dia seguinte o Mestre Kantar foi embora. Ele nunca mais foi capaz de olhar para mim depois daquilo. Tentei contatá-lo, bati na sua porta muitas vezes apenas para dizer adeus, mas ele era realmente um covarde, uma ovelha sob a pele de um leão. Mas aquele primeiro dia na escola tornou-se o início de muitas, muitas coisas.

 

Sessão 21

 

Ok. O homem o qual eu estava falando, o seu nome completo era Pândita Shambhuratan Dube. Todos costumávamos chamá-lo de Shambhu Babu. Ele era um poeta sem avidez por publicar, o que é raro. Isso é muito raro em um poeta. Eu cruzei com centenas dessa tribo, e eles são todos tão ávidos por serem publicados que a poesia se torna secundária. Chamo qualquer pessoa ambiciosa de política, e Shambhu Dube não era ambicioso.

            Ele também não era um vice-presidente eleito também, porque para ser eleito você tinha que pelo menos candidatar-se para a eleição. Ele foi nomeado pelo presidente, que era apenas um estrume sagrado como eu havia dito antes, e ele queria alguns homens com inteligência para fazer seu trabalho. O presidente era um estrume absoluto e ele estava no ofício há anos. Repetidas vezes ele era escolhido pelos outros estrumes.

            Na Índia, ser um estrume sagrado é uma grande coisa – você se torna um mahatma. Esse presidente era quase um mahatma, e tão falso como todos o são, caso contrário eles não seriam mahatmas em primeiro lugar. Por que um homem de criatividade e inteligência escolheria ser um estrume? Por que ele teria algum interesse em ser venerado? Não vou nem mencionar o nome do estrume sagrado; ele é sujo. Ele nomeou Shambhu Babu como seu vice-presidente, e penso que essa foi a única coisa boa que ele fez em toda a sua vida. Talvez ele não sabia o que estava fazendo – estrumes não são pessoas conscientes.

            No momento em que Shambhu Babu e eu nos vimos, algo aconteceu: o que Carl Gustav Jung chama “sincronicidade.” Eu era apenas uma criança; não apenas isso, selvagem também. Eu era um noviço das matas, sem educação e sem disciplina. Nós não tínhamos nada em comum. Ele era um homem de poder e muito respeitado pelas pessoas, não porque era um estrume, mas porque era um homem forte, e se você não fosse respeitável com ele, algum dia você sofreria por isso. E sua memória era muito, muito boa. Todos tinham medo dele e por isso o respeitavam, e eu era apenas uma criança.

            Aparentemente não havia nada em comum entre nós. Ele era o vice-presidente de toda a vila, o presidente da associação dos advogados, o presidente do Rotary Clube, e assim por diante. Ele era ou o presidente ou o vice-presidente de muitos comitês. Ele estava em todos os lugares, e ele era um homem bem-educado. Ele tinha o mais alto grau em direito, mas não praticava o direito naquela vila.

            Não se preocupem com os demônios barulhentos trabalhando lá fora – afinal todos eles são meus discípulos. Se dou sannyas para demônios o que vocês podem esperar? Tenho coletado todos os discípulos de Belzebu. Este era o nome que Gurdjieff costumava chamar o demônio, Belzebu. Mas eu gostaria de dizer a Gurdjieff que Belzebu está perdendo centenas de discípulos todos os dias. Mas eles estiveram com Belzebu por tanto tempo que aprenderam a sua tecnologia. Não sou contra a tecnologia, eu a amo. É por isso que os discípulos de Belzebu acham fácil tornarem-se meus discípulos, muito fácil, porque eles continuam o mesmo trabalho comigo que costumavam fazer para o feio Belzebu.

            Então não se preocupem se eu não estiver. De fato, todos os barulhos deles dão um pano de fundo belo para o que estou falando para vocês… é claro, um tipo de pano de fundo de Picasso, um pouco semelhante a um pesadelo. Mas, às vezes, os pesadelos podem ser belos, e é possível sentir pena quando terminam. E o que eles estão fazendo pode não soar belo, mas eles estão fazendo o meu trabalho. Naturalmente Belzebu está muito bravo… eles são seus discípulos e estão usando a sua tecnologia para mim.

            A ciência é um pouco demoníaca. Vocês são treinados em medicina, então, de uma forma, vocês fazem parte da tecnologia de Belzebu. Perdoem àqueles pobres sujeitos – eles estão fazendo o seu melhor, e, no que diz respeito a mim, quando estou falando nada importa.

            Eu estava dizendo – olhe para o pano de fundo, e o silêncio: se alguém conhece, então é possível usar Belzebu como um servo.

            Eu estava falando de Shambhu Dube, Shambhu Babu. Ele era um poeta, mas nunca publicou a sua poesia em vida. Ele era um grande escritor de história também, e, por acaso, um famoso diretor de cinema familiarizou-se com ele e suas histórias. Agora Shambhu Babu está morto, mas um grande filme foi feito usando uma de suas histórias, Jhansi ki rani – “A Rainha de Jhansi.” Ele ganhou muitos prêmios, tanto nacionais quanto internacionais. Infelizmente ele não está vivo. Ele era meu único amigo naquele lugar.

            Uma vez que ficou decidido que eu viveria ali… foi planejado para ser apenas sete anos, mas, de fato, morei ali por onze anos. Talvez eles disseram apenas sete anos para persuadir-me a ficar; talvez era a intenção deles desde o início.

            Na Índia daqueles dias, a estrutura educacional iniciava-se com quatro anos de educação primária – esta era um fenômeno separado, subordinada às autoridades locais – então mais três anos se você quisesse continuar na mesma direção. Sete anos, portanto; e então você obteria um certificado.

            Talvez essa era a intenção deles e não estavam mentindo para mim. Mas havia outro caminho também, e foi isso o que de fato ocorreu. Depois de quatro anos você podia ou continuar na mesma linha ou mudar: você poderia ir para o ensino médio. Se você continuasse na mesma linha você nunca aprenderia Inglês. A educação primária terminava depois de sete anos, e você estava totalmente educado apenas na língua local – e na Índia existem trinta línguas reconhecidas. Mas depois do quarto ano havia uma abertura e você podia trocar o mecanismo. Você podia ir para a escola de Inglês; você podia ingressar no ensino médio, como era chamado.

            Novamente era um curso de quatro anos e se você continuasse naquela linha então, após outros três anos, você tornar-se-ia um matriculado. Meu Deus! Que desperdício de vida! Todos aqueles belos dias desperdiçados tão impiedosamente, arrasados! E no momento em que você se tornava um matriculado você era então capaz de ir para a universidade. Novamente um curso de seis anos! Ao todo tive que gastar quatro anos na escola primária, quatro anos no ensino médio, três anos na escola de Inglês e seis anos na universidade – dezessete anos da minha vida!

            Penso que se eu pudesse interpretar isso, a única palavra que vem até mim, a despeito de Belzebu e seus discípulos fazendo um grande trabalho – ex-discípulos, quero dizer – a única palavra que vem até mim é ‘disparate’. Dezessete anos! E eu tinha oito ou nove anos quando comecei todo esse disparate, então no dia que deixei a universidade eu tinha vinte e seis, e estava tão feliz – não porque eu era um medalhista de ouro, mas porque eu estava finalmente livre. Novamente livre.

            Eu estava com tanta pressa que disse ao meu professor, “Não desperdice o meu tempo. Ninguém pode convencer-me a entrar por esses portões novamente. Até mesmo quando eu tinha nove anos de idade o meu pai teve que arrastar-me para dentro, mas agora ninguém pode arrastar-me. Se alguém tentar então vou arrastá-lo para fora.” E, é claro, eu estava pronto para arrastar o pobre velho que estava tentando persuadir-me a não partir.

            Ele disse, “Ouça-me: é raro receber uma bolsa de Ph.D. Faça o seu Ph.D. e lhe prometo que um dia você será capaz de obter um D.Litt.”

            Eu disse, “Não desperdice o meu tempo, porque o meu ônibus está partindo.” O ônibus estava no portão. Tive que correr para pegá-lo, e sinto muito porque não pude nem o agradecer. Não tive tempo – o ônibus estava partindo e as minhas malas já estavam embarcadas, e o motorista – como os motoristas o fazem – estava buzinando como um louco. Eu era o único passageiro que ainda não estava no ônibus, e o meu velho professor estava quase de joelhos persuadindo-me a não partir.

            Shambhu Babu era bem-educado, eu não era educado, quando a amizade começou. Ele tinha um passado glorioso; eu não tinha nada. Toda a vila ficou chocada com a nossa amizade, mas ele não ficou nem mesmo constrangido. Respeito essa qualidade. Costumávamos andar de mãos dadas. Ele tinha a idade do meu pai, e os seus filhos eram mais velhos que eu. Ele morreu dez anos antes do meu pai. Penso que devia ter cinquenta anos. Esse seria o momento certo para que fôssemos amigos. Mas ele foi o único homem a reconhecer-me. Ele era um homem de autoridade na vila, e o seu reconhecimento foi de imensa ajuda para mim.

            O Mestre Kantar nunca mais foi visto na escola novamente. Ele foi imediatamente dispensado porque faltava apenas um mês para a sua aposentadoria, e sua aplicação por uma extensão foi cancelada. Isso criou uma grande celebração na vila. O Mestre Kantar foi um grande homem naquela vila, embora eu o tenha colocado para fora em apenas um dia. Isso era alguma coisa. As pessoas começaram a respeitar-me. Eu diria, “Que absurdo é esse? Eu não fiz nada – simplesmente eu trouxe o homem e as suas infrações à luz.”

            Fico surpreso em como ele continuou torturando as crianças pequenas por toda a sua vida. Mas as pessoas pensavam que a educação era isso. Existia esse pensamento, e muitos Indianos ainda pensam assim, que a menos que se torture uma criança não se pode ensiná-la – embora eles não digam isso tão claramente.

            Então eu disse, “Não é uma questão de respeito e, no que concerne à minha amizade com Shambhu Babu, não é uma questão de idade. Ele é realmente amigo do meu pai. Até mesmo o meu pai ficou admirado.”

            Meu pai costumava perguntar a Shambhu Babu, “Por que você é tão amigável com esse garoto encrenqueiro?”

            E Shambhu Babu ria e dizia, “Um dia você entenderá o porquê. Não posso dizê-lo agora.” Sempre fiquei maravilhado com a beleza do homem. Era parte da sua beleza que ele responderia dizendo, “Não posso responder. Um dia você entenderá.”

            Um dia ele disse para o meu pai, “Talvez eu não deveria ser amigável em relação a ele, mas respeitoso.”

            Isso também me chocou. Quando estávamos sozinhos, eu disse a ele, “Shambhu Babu, que disparate você estava falando para o meu pai? O que você quer dizer ao falar que você deve respeitar-me?”

            Ele disse, “Eu respeito você porque posso ver, mas não muito claramente, como se escondido detrás de uma cortina de fumaça, o que você será um dia.”

            Tive que encolher os meus ombros. Eu disse, “Você está falando bobagens. O que poderia ser? Eu já sou isso.”

            Ele disse, “Isso! É isso o que me impressiona em você. Você é uma criança; toda a vila ri da nossa amizade e se pergunta o que conversamos, mas eles não sabem o que estão perdendo. Eu sei” – ele o enfatizou – “Eu sei o que estou perdendo. Posso senti-lo um pouco, mas não posso vê-lo claramente. Talvez um dia quando você estiver realmente crescido eu possa ser capaz de vê-lo.”

            E, tenho que confessar, depois de Magga Baba ele foi o segundo homem que reconheceu que algo imensurável havia acontecido comigo. É claro que ele não era um místico, mas um poeta tem a capacidade, de vez em quando, de ser um místico, e ele era um grande poeta. Ele também era grandioso porque nunca se preocupou em publicar a sua obra. Ele nunca se preocupou em ler em nenhum encontro de poetas. Parecia estranho ele ler a sua poesia a um garoto de nove anos, e ele me perguntava, “Tem algum valor, ou é apenas inútil?”

            Agora a sua poesia está publicada, mas ele não existe mais. Ela foi publicada em sua memória. Ela não contém a sua melhor obra porque nenhuma das pessoas que a escolheu era sequer poeta, e é necessário um místico para escolher a poesia de Shambhu Babu. Eu conheço tudo o que ele escreveu. Não há muita coisa – alguns poucos artigos, muito poucos poemas e histórias, mas de uma maneira estranha todos estão interconectados em um tema único.

            O tema é a vida, não como um conceito filosófico, mas a vivida momento a momento. Vida com ‘v’ minúsculo, porque ele nunca me perdoaria se você escrevesse vida com um ‘V’ maiúsculo. Ele era contra letras maiúsculas. Ele nunca escreveu nenhuma palavra com maiúsculas. Mesmo o início de uma sentença sempre era escrito com letras minúsculas. Ele escrevia até o seu próprio nome com letras minúsculas. Eu perguntei-lhe, “O que está errado com as letras maiúsculas? Por que você é tão contra elas, Shambhu Babu?”

            Ele disse, “Não sou contra elas, mas sou apaixonado pelo imediato, não pelo longínquo. Sou apaixonado pelas pequenas coisas: uma xícara de chá, um banho de rio, um banho de sol… sou apaixonado pelas coisas pequenas, e elas não podem ser escritas com letras maiúsculas.”

            Eu o entendo, então quando digo que embora ele não fosse um mestre iluminado, nem sequer um mestre, eu ainda o conto como número dois, depois de Magga Baba, porque ele me reconheceu quando isso era impossível, absolutamente impossível. Nem eu me reconhecia, mas ele reconheceu-me.

            Quando entrei em seu escritório de vice-presidente pela primeira vez e nos olhamos um nos olhos do outro, por um momento houve apenas o silêncio. Então ele levantou-se e me disse, “Por favor, sente-se.”

            Eu disse, “Não é necessário que você fique de pé.”

            Ele disse, “Não é uma questão de necessidade, e me faz feliz levantar-me para você. Nunca senti isso antes – e estive de pé para o governador e todas as pessoas supostamente poderosas. Eu vi o vice-rei de Nova Delhi, mas não fiquei tão mistificado quanto estou por você, confesso. Por favor não conte a ninguém.”

            E essa é a primeira vez que conto. Mantive-o como um segredo por todos esses anos, quarenta anos. Sinto um alívio.

            Hoje de manhã Gudia disse, “Você dormiu até tarde.”

            Sim, na última noite dormi, pela primeira vez em muitos anos, como eu gostaria de dormir todas as noites. Durante toda a noite não fui perturbado nem mesmo por um momento. Geralmente tenho que olhar para meu relógio de vez em quando, apenas para ver se já é hora de levantar-me. Mas na última noite, depois de muitos anos, não olhei nem uma vez para o meu relógio. Tive até que perder a poção de Devaraj. É assim que chamo a sua mistura especial de desjejum. É uma poção, mas é realmente boa. É difícil de comer porque leva meia hora apenas para mastigar, mas é realmente saudável e nutritiva. Devemos torná-la disponível para todos – a poção de Devaraj para o café da manhã. É claro que ela não é rápida, é lenta, muito lenta. Podemos chamá-la de “break-slow”? [NT. trocadilho com breakfast/desjejum.] Mas então não soaria certo.

            Tive que perder o café da manhã hoje por duas razões: primeiro, queria manter o compromisso com Devageet, e eu já estava cinco minutos atrasado, e não gosto de me atrasar. Segundo, se eu tivesse começado a poção eu levaria tanto tempo para comê-la que no momento em que eu a terminasse seria hora do almoço. Não haveria intervalo, o que é necessário. Então pensei em perdê-la. Mas realmente a aprecio e, ao perdê-la, realmente sinto sua falta.

            A última noite foi umas das mais raras pela simples razão que ontem eu falei para vocês sobre Shambhu Babu, e isso me aliviou de um peso. Eu também falei sobre o meu pai e como terminou a contínua luta. Senti-me tão aliviado.

            Shambhu Babu foi um homem que poderia ter-se tornado um realizado, mas perdeu essa oportunidade. Ele perdeu por causa de muita intelectualidade. Ele era um gigante intelectual. Ele não podia sentar-se em silêncio nem mesmo por um único momento. Eu estava presente quando ele morreu. É um destino estranho que eu tenha que ver todos que amo morrerem.

            Eu não estava muito longe quando ele estava morrendo. Ele me ligou um pouco antes para dizer, “Venha rápido se você puder, porque não acho que posso durar muito. Quero dizer,” ele disse, “que posso durar até mesmo alguns dias.”

            Corri imediatamente para a vila. Esta fica a apenas oitenta quilômetros de Jabalpur, e cheguei lá em duas horas. Ele ficou tão feliz. Novamente ele olhou para mim com o mesmo olhar da primeira vez que nos encontramos, quando eu tinha em torno de nove anos de idade. Houve um silêncio muito eloquente. Nada foi dito, mas tudo foi ouvido.

            Segurando as suas mãos eu disse para ele, “Por favor feche os seus olhos, não se esforce.”

            Ele disse, “Não. Os olhos vão se fechar por si só muito em breve, e então não serei mais capaz de abri-los. Então, por favor, não me peça para fechar os meus olhos. Eu quero vê-lo. Talvez eu não seja capaz de vê-lo novamente. Uma coisa é certa,” ele disse, “que você não voltará à vida. Ai de mim, se eu tivesse te ouvido! Você sempre insistiu no ficar em silêncio, mas continuei a postergar. Agora não há tempo nem mesmo para postergar.”

            Lágrimas vieram aos seus olhos. Permaneci sem dizer nada, apenas com ele. Ele fechou os seus olhos e morreu.

            Ele tinha olhos tão belos, e uma face tão inteligente. Eu conheço muitas pessoas belas mas é muito raro ter a beleza daquele homem. Não foi feito pelos seres humanos, certamente não foi feito na Índia. Ele foi, e ainda é, um dos meus maiores amores. Apesar dele ainda não ter entrado no corpo novamente, estou esperando por ele.

            Esta é uma comuna com múltiplos propósitos. Alguns propósitos vocês conhecem, e alguns somente eu os conheço. Este é um dos propósitos desconhecido pelos organizadores da comuna, que estou esperando algumas almas. Estou até mesmo preparando casais para recebê-las. Shambhu Babu estará aqui em breve. Há tantas memórias ligadas a este homem que vou ter que me referir a ele repetidas vezes. Mas hoje, apenas a sua morte.

            Estranho eu ter que falar da sua morte primeiro e depois das outras coisas. Não, em relação a mim não é estranho, porque para mim o momento da morte abre um ser humano como nada o faz. Nem mesmo o amor pode fazer este milagre. Ele tenta, mas os amantes o impedem, porque no amor duas pessoas são necessárias; na morte apenas uma pessoa é suficiente por si só. Isso ocorre porque não há perturbação dos outros. Eu vi Shambhu Babu morrer com uma atitude tão relaxada e jubilosa que não posso esquecer de sua face.

            Vocês ficarão surpresos em saber que ele tinha a face de – adivinhem quem? – quase a mesma face do ex-presidente dos EUA, Richard Nixon! Mas sem a feiura escondida em toda célula e fibra de Nixon…! De outro modo Shambhu Babu seria o presidente da Índia. Ele era muito mais inteligente do que o assim chamado presidente da Índia, Sanjiva. Mas quero dizer que fotograficamente ele parecia muito com Nixon em seus dias de juventude. É claro, quando uma alma diferente está ali, mesmo a mesma face tem uma aura diferente, uma diferente – como dizê-lo – uma significância totalmente diferente. Então, por favor, não me entendam mal, porque todos vocês conhecem Richard Nixon enquanto somente eu conheci Shambhu Babu, então o mal-entendido deve ocorrer.

            Por favor esqueçam que falei que eles se parecem, simplesmente esqueçam isso. É melhor que vocês não conheçam a face de Shambhu Babu em vez de começarem a pensar nele como Richard Nixon. Mas devo confessar que tenho um local suave para Richard Nixon, apenas porque ele lembra Shambhu Babu. Vocês têm que me perdoar por isso; eu sei que ele não merece, mas não posso fazer nada também. Sempre que vejo a sua foto tudo o que vejo é Shambhu Babu, e não Nixon.

            Quando Nixon tornou-se presidente dos EUA, eu disse para mim mesmo, “Aha! Pelo menos um homem que lembra Shambhu Babu tornou-se presidente dos EUA.” Eu amaria que Shambhu Babu se tornasse presidente dos EUA; é claro que isso não era possível, mas a semelhança me consolava. Quando Nixon fez o que fez, senti-me envergonhado, novamente porque ele lembra Shambhu Babu. E quando ele teve que renunciar à presidência fiquei triste, não por causa dele – não tenho nada a ver com ele – mas porque agora eu não veria a face de Shambhu Babu novamente nos jornais.

            Agora não há problema porque não leio mais jornais. Não os leio há anos. Eu costumava terminar a leitura de quatro jornais em um minuto, mas por mais de dois anos eu nem mesmo olhei para eles. E não leio nenhum livro – simplesmente não leio. Tornei-me inculto novamente, assim como eu sempre quis ser se o meu pai não tivesse me arrastado para aquela escola… mas ele me arrastou. E o que todas essas escolas, colégios e universidades fizeram comigo tomou-me muita energia para desfazer, mas fui bem-sucedido em desfazer tudo.

            Eu desfiz tudo o que a sociedade fez comigo. Sou novamente um menino inculto, selvagem – vocês não usam essa palavra em Inglês… em Hindi, um homem de uma vila é chamado de gamar. Uma vila é chamada de gam, e o aldeão é chamado de gamar. Mas gamar também quer dizer “tolo” e os significados se misturaram, tanto que ninguém agora acha que a palavra ‘gamar’ significa aldeão; todos pensam que ela significa tolo.

            Eu vim da vila totalmente em branco, sem nada escrito em mim. Mesmo enquanto estava longe daquela vila, permaneci um garoto selvagem. Nunca permiti que ninguém escrevesse algo em mim. As pessoas estão sempre prontas… não apenas prontas, mas insistentes em escrever algo sobre você. Eu vim da vila vazio, e posso dizer agora que tudo que foi escrito no meio eu apaguei, e apaguei completamente. De fato, demoli o próprio muro, então é impossível escrever algo nele de novo.

            Shambhu Babu poderia ter feito isso também. Eu sei que ele era capaz, de tornar-se um buda, mas isso não ocorreu. Talvez a sua própria profissão – ele era um advogado – o impediu. Ouvi falar de todos os tipos de pessoas tornando-se budas, mas nunca ouvi falar de nenhum advogado tornando-se um buda. Não acho que alguém dessa profissão pode tornar-se um buda, a menos que realmente renuncie a tudo o que aprendeu. Shambhu Babu não pôde reunir essa coragem, e sinto muito por ele. Não sinto muito por mais ninguém porque nunca cruzei com outra pessoa que era tão capaz e, entretanto, não saltou.

            Eu costumava perguntá-lo, “Shambhu Babu, qual é o obstáculo?”

            E ele sempre diria a mesma coisa: “Como posso explicá-lo? Não sei exatamente o que o obstáculo é, mas deve haver algo impedindo-me.”

            Eu sabia o que era, mas ele também sabia, embora nunca tenha reconhecido que sabia. E ele sabia que eu sabia que ele sabia. Ele fechava seus olhos sempre que eu fazia a questão – e sou um homem teimoso; repetidas vezes eu perguntava para ele, “Qual é o obstáculo?”

            Ele fechava seus olhos, apenas para não me encarar olhos nos olhos, porque aquela era uma situação a qual ele não poderia mentir. Quero dizer que ele não poderia ser um advogado… mentiroso.* [NT. Trocadilho lawyer/liar] Mas agora que ele está morto posso dizer que embora não fosse um buda, ele foi quase um buda, o que eu nunca direi de outra pessoa novamente. Manterei essa categoria especial, de quase um buda, para Shambhu Babu.

Sessão 22

 

Eu ia dizer “Ok,” mas não. Um dia eu disse gentilmente, apenas para ser respeitoso, e sofri muito. Então tudo ficou errado. Então agora eu direi ok apenas quando estiver tudo realmente ok; caso contrário o silêncio é melhor…

Ok.

Lembro-me novamente do pobre Sigmund Freud. Ele estava esperando em seu escritório por um paciente rico, e, claro, Judeu. E a psicanálise é o maior negócio que um Judeu já fundou. Eles falharam com Jesus, eles não podiam falhar com Sigmund Freud. É claro que este não tem comparação.

Freud estava esperando, sentando-se e levantando-se em sua sala. O paciente era realmente rico, e a psicanálise é um tratamento que se segue por anos, a menos que o paciente encontre um Judeu mais articulado, mas ele nunca sai do círculo vicioso.

Freud olhou repetidas vezes para seu relógio de ouro, e então, no último momento, quando estava pensando em desistir, o paciente apareceu. O seu grande carro apareceu no horizonte e Freud estava, é claro, furioso. Finalmente o carro chegou até a sua varanda, o Judeu desceu e quando entrou no escritório Sigmund Freud estava realmente bravo porque ele estava cinquenta segundos atrasado.

Freud disse, “Foi bom ouvir o seu carro na varanda no momento certo; caso contrário eu iria começar a sessão sozinho.”

É uma piada profissional. Apenas aqueles que estão na profissão da psicanálise vão entendê-la. Vou explicá-la para vocês, porque nenhum de vocês é psicanalista.

A piada é que Freud disse, “Eu teria começado sem você” – sem o paciente. Vocês veem o ponto? Deixem-se ser mais claro – a piada tem que ser posta de lado. Em um certo ponto eu tenho que começar.

Exatamente no momento certo de dizer “ok” eu direi – e não como Sigmund Freud, mas conhecendo completamente a piada. Ademais, não posso desapontá-los. Esta é apenas uma nota introdutória; agora retomaremos a história ininterrupta.

Sim, ela é ininterrupta. Como ela pode terminar antes de eu terminar? Outra pessoa terá que escrever o posfácio. Eu não posso escrevê-lo – por favor perdoem-me por isso – mas estou preparando a minha gente: Devageet, Devaraj, Ashu… esta trindade o fará. E lembrem-se, na minha trindade existe uma mulher que manterá esses dois sujeitos brigando para sempre. Mas ainda assim eles conseguirão escrever o posfácio. Se eles não conseguirem, então Ashu pode deixá-los brigar, e, enquanto isso ela mesma pode escrevê-lo.

Na manhã de hoje, por acaso, referi-me à palavra de Carl Gustav Jung, ‘sincronicidade’. Não gosto do homem, mas gosto da palavra que ele introduziu. Por isso ele deve ter todo o crédito possível. Em nenhuma outra língua existe uma palavra como ‘sincronicidade’, porque é uma palavra inventada, inventada por Carl Gustav Jung.

            Mas todas as palavras são inventadas por uma pessoa ou outra, então não há nada errado em inventar uma palavra, particularmente quando ela realmente indica uma experiência que permaneceu não-rotulada por séculos. Apenas por essa palavra, ‘sincronicidade’, Jung deveria ter recebido o Prêmio Nobel, embora ele seja medíocre. Mas muitas pessoas medíocres receberam o Prêmio Nobel; se mais uma recebê-lo, qual o problema? E eles também dão o prêmio postumamente, então, por favor, concedam a esse pobre sujeito Carl Gustav Jung um Prêmio Nobel. Não estou fazendo piada. Estou realmente agradecido por essa palavra, porque foi isso o que sempre iludiu a compreensão do intelecto humano.

            Eu estava falando com vocês sobre a minha estranha amizade com Shambhu Babu. Era estranha de muitas maneiras. Primeiro, ele era mais velho do que o meu pai, ou talvez da mesma idade – mas até onde lembro, ele parecia mais velho – e eu tinha apenas nove anos de idade. Ora, que tipo de amizade é possível? Ele era um bem-sucedido especialista em direito, não apenas naquele lugar pequeno, mas ele havia praticado na alta corte e na suprema corte. Ele era uma das maiores autoridades legais. E ele era amigo de uma criança selvagem, rebelde, indisciplinada e analfabeta. Quando ele disse, naquele primeiro encontro, “Por favor sente-se,” fiquei maravilhado.

            Eu não esperava que o vice-presidente levantar-se-ia para receber-me e falasse, “Por favor sente-se.”

            Eu disse a ele, “Primeiro sente-se você. Sinto-me um pouco envergonhado ao sentar-me antes de você. Você é velho, talvez até mais velho que meu pai.”

            Ele disse, “Não se preocupe. Sou amigo do seu pai. Mas relaxe e diga-me porque você veio.”

            Eu disse, “Vou te dizer depois porque vim. Primeiro…” Ele olhou para mim, eu olhei para ele; e o que transpirou naquele pequeno fragmento de momento tornou-se minha primeira questão. Perguntei-lhe, “Primeiro, diga-me o que está acontecendo agora, entre os seus olhos e os meus.”

            Ele fechou os seus olhos. Penso que talvez dez minutos passaram-se antes dele abri-los novamente. Ele disse, “Perdoe-me, não pude entender – mas algo ocorreu.”

            Nos tornamos amigos; aquilo foi em algum momento de 1940. Apenas posteriormente, anos depois, apenas um ano antes dele morrer – ele morreu em 1960, depois de vinte anos de amizade, uma amizade estranha – somente então fui capaz de dizer-lhe que a palavra que ele estava buscando foi inventada por Carl Gustav Jung. Essa palavra é ‘sincronicidade’; era isso o que ocorria entre nós. Ele sabia, eu sabia, mas faltava a palavra.

            Sincronicidade pode significar muitas coisas simultâneas, é multidimensional. Pode significar um certo sentimento rítmico; pode significar o que as pessoas sempre chamaram de amor; pode significar amizade; pode simplesmente significar dois corações batendo juntos sem rima ou razão… é um mistério. Apenas de vez em quando é possível encontrar uma pessoa que as coisas se encaixam; o quebra-cabeça apenas desaparece. Todas as peças que não se encaixavam, de repente encaixam-se por si sós.

            Quando eu disse a minha avó, “Tornei-me amigo do vice-presidente dessa vila,” ela disse, “Você quer dizer o Pândita Shambhuratan Dube?”

            Eu disse, “Você parece um pouco chocada com isso. O que está acontecendo com você, Nani?”

            As lágrimas rolaram de seus olhos. Ela disse, “Então você não encontrará muitos amigos no mundo, é por isso que estou preocupada. Se Shambhu Babu tornou-se seu amigo então você não encontrará muitos amigos no mundo. Não apenas isso: talvez você possa encontrar amigos, porque você é jovem, mas Shambhu Babu certamente não encontrará outro amigo no mundo, porque ele é muito velho.”

            Repetidas vezes a minha avó vai vir para a minha história com o seu tremendo discernimento. Sim, posso vê-lo agora. Recapitulando, posso ver o que ela viu e chorou. Eu sei agora que Shambhu Babu nunca teve qualquer outro amigo; exceto eu, ele não tinha amigos.

            Eu costumava visitar a minha vila de vez em quando, talvez uma vez por ano, ou duas, não mais que isso. E conforme tornei-me cada vez mais envolvido com a minha própria atividade – ou vocês podem chamá-la de inatividade… conforme tornei-me cada vez mais envolvido com os sannyasins, e o movimento da meditação, as minhas visitas à vila tornaram-se ainda mais raras. De fato, nos últimos anos antes dele morrer minhas únicas visitas eram quando eu passava pela vila no trem.

            O chefe da estação era meu sannyasin, então, é claro, o trem ficava parado o quanto eu quisesse. Eles – e por “eles” quero dizer meu pai, minha mãe, Shambhu Babu e muitos outros que me amavam – vinham até a estação. Aquela seria minha única visita: dez, vinte, no máximo trinta minutos. O trem não podia atrasar mais porque outros trens tinham que vir. Eles esperavam fora da estação.

            Mas posso entender a sua solidão. Ele não tinha outros amigos. Quase todos os dias ele me escrevia uma carta – isso é muito raro – e não havia nada para escrever. Às vezes ele me enviava apenas o papel vazio dentro de um envelope. Eu entendo até isso. Ele estava se sentindo muito sozinho, e gostaria de ter a minha companhia. Tentei o máximo estar ali tanto quanto era prático, porque para mim era realmente enfadonho ficar naquela vila. Foi apenas por ele que sofri aquela vila.

            Depois que ele morreu fui muito raramente para lá. Agora tenho uma desculpa – que não posso ir porque ela me lembra de Shambhu Babu. Mas realmente não há porque ir para lá. Quando ele estava lá, havia um motivo. Ele era um pequeno oásis em um deserto.

            Ele era absolutamente destemido em relação a todos os tipos de condenações que vieram até ele por minha causa. Ser associado comigo, mesmo naqueles dias, não era uma coisa boa. Era perigoso. Eles disseram a ele, “Você perderá todo o respeito da comunidade, e foi a comunidade que o tornou presidente.”

            Eu disse a ele, “Você pode escolher, Shambhu Babu: ser o presidente dessa vila estúpida ou ser meu amigo.”

            Ele abandonou à prefeitura, e sua presidência. Ele não me disse uma única palavra; ele simplesmente escreveu a sua carta de resignação ali, na minha frente. Ele disse, “Amo algo em você que é indefinível. A presidência dessa vila estúpida não significa nada para mim. Estou pronto para perder tudo, se se trata disso. Sim, estou pronto para perder tudo.”

            Eles tentaram persuadi-lo a não renunciar, mas ele não voltou atrás.

            Eu lhe disse, “Shambhu Babu, você sabe perfeitamente bem que odeio todas as presidências, vice-presidências, sejam elas municipais ou nacionais. Não posso lhe dizer, “Volte atrás em sua demissão,’ porque não posso cometer esse crime. Se você quiser voltar atrás você é livre para assim o fazer.”

            Ele disse, “O selo está fechado. Não há porque voltar atrás, e estou feliz que você não tentou persuadir-me.”

            Ele permaneceu um homem solitário. Ele tinha dinheiro suficiente para viver como um homem rico, então quando renunciou à sua presidência ele também resignou da ordem dos advogados. Ele disse, “Tenho dinheiro suficiente, por que preocupar-me? E por que o direito? – com todas as legalidades e a contínua mentira em nome da verdade.”

            Ele encerrou a sua profissão. Essas eram as qualidades que eu amava nele. Sem pensar por um único momento ele renunciou e no dia seguinte abandonou à ordem dos advogados. Por ele eu tinha que visitar a vila de vez em quando, ou chamá-lo até onde eu estava, apenas para que ele ficasse comigo por alguns dias. De vez em quando ele costumava vir.

            Ele foi um homem real, sem medo de qualquer consequência. Uma vez ele me perguntou, “O que você vai fazer? – porque não acho que você pode permanecer na universidade como professor por muito tempo.”

            Eu disse, “Shambhu Babu, nunca planejo. Se eu abandonar esse trabalho espero que algum outro trabalho esteja esperando por mim. Se Deus…” e lembrem-se do “se,” porque ele não era um teísta, essa era outra qualidade que eu amava nele; ele costumava dizer, “A menos que eu conheça, como posso acreditar?”

            Eu disse a ele, “Se Deus pode encontrar trabalho para todos os tipos de pessoas, animais, árvores, penso que ele será capaz de encontrar algum tipo de trabalho para mim também. E se ele não puder encontrar nenhum, o problema é dele, não meu.”

            Ele riu e disse, “Sim, isso está perfeitamente certo. Sim, é problema dele se ele estiver por aqui – mas o ponto é: se ele estiver por aqui, e aí?”

            Eu disse, “Então também não vejo nenhum problema para mim. Se não houver trabalho posso respirar fundo e dizer adeus à existência. É uma prova suficiente que não sou necessário. E se não sou necessário então não vou impor-me a essa pobre existência.”

            As nossas conversas, se elas pudessem ser todas recapituladas, os nossos argumentos, se eles pudessem ser todos reproduzidos novamente, eles formariam diálogos melhores que os de Platão. Ele era um homem muito lógico, tão lógico quanto sou ilógico. E essa é a coisa mais desconcertante: que nós éramos os únicos amigos um do outro na vila.

            Todos perguntavam, “Ele é um lógico, você é totalmente ilógico. Qual é a ponte entre vocês dois?”

            Eu disse, “Será difícil para você entender porque você não é nem um nem outro. A própria lógica dele o traz para o seu próprio limite. Sou ilógico, não porque nasci ilógico – ninguém nasce ilógico; sou ilógico porque vi a futilidade da lógica. Então posso ir com ele de acordo com a sua lógica e, entretanto, a um certo ponto, ir na frente dele, então ele se torna temeroso e para. E isso tem mantido a nossa amizade, porque ele sabe que tem que ir além daquele ponto, e sabe que ninguém mais pode ajudá-lo. Vocês todos” – referia-me às pessoas da vila – “pensam que ele é uma ajuda para mim. Vocês estão errados. Vocês podem perguntar a ele. Eu sou uma ajuda para ele.”

            Vocês ficarão surpresos, mas um dia algumas pessoas foram à casa dele para indagar, “É verdade que esse garotinho é algum tipo de guia ou ajuda para você?”

            Ele disse, “Certamente. Não há dúvida em relação a isso. Por que vocês vieram perguntar para mim? Por que vocês não perguntam para ele? – ele é vizinho de vocês.”

            A qualidade é muito rara e a minha avó estava certa quando disse, “Temo que Shambhu Babu ficará sem amigos. E,” ela disse, “em relação a você, os meus medos são… Mas você ainda é jovem; talvez você encontre alguns poucos amigos.”

            O discernimento dela era realmente tão claro. Vocês ficarão surpresos em saber que em toda a minha vida eu não tive nenhum amigo, exceto Shambhu Babu. Se ele não estivesse por aqui eu nunca saberia o que significa ter um amigo. Sim, tive muitos conhecidos – na escola, colégio, universidade, existiram centenas. Vocês poderiam pensar que todos eles eram amigos, até eles poderiam pensar o mesmo – mas exceto esse homem eu não conheci uma única pessoa que posso chamar de amiga.

            Ter conhecidos é muito fácil; ter conhecidos é muito ordinário. Mas a amizade não é parte do mundo ordinário. Vocês ficarão surpresos em saber que sempre que eu ficava doente – e eu estava a oitenta milhas da vila – imediatamente recebia um telefonema de Shambhu Babu, muito preocupado.

            Ele perguntaria, “Você está bem?”

            Eu diria, “Qual o problema? Por que você está tão preocupado? Você parece doente.”

            Ele disse, “Não estou doente mas senti que você estava, e agora eu sei que você está. Você não pode escondê-lo de mim.”

            Aconteceu muitas vezes. Vocês não acreditarão, mas foi apenas por causa dele que tive que ter um número privado de telefone. É claro que havia um telefone para a minha secretária cuidar de todos os compromissos por todo o país. Mas eu tinha um telefone secreto, privado, apenas para Shambhu Babu, para que ele pudesse averiguar se ficasse preocupado, até mesmo no meio da noite. Eu até fiz questão de, se eu não estivesse em casa, talvez viajando por algum lugar da Índia, e estivesse doente, eu ligaria para ele apenas para dizer, “Por favor não fique preocupado porque estou doente.” Isso é sincronicidade.

            De alguma forma uma conexão profunda existia. No dia em que ele morreu fui vê-lo sem hesitação. Eu nem mesmo indaguei. Eu simplesmente dirigi até a vila. Eu nunca gostei daquela estrada, e eu gosto de dirigir, mas aquela estrada de Jabalpur a Gadarwara era realmente uma filha da mãe! Vocês não encontrariam uma estrada pior em lugar algum. Nossa estrada conectando o rancho a Antelope é uma superhighway em comparação. Como vocês chamam-nas na Alemanha? Autobahn?

            “Sim, Osho.”

            Ok, se Devageet diz que está certo, então deve estar certo. A nossa estrada é uma autobahn comparada com a estrada da universidade até a casa de Shambhu Babu. Eu apenas corri… com um sentimento nas entranhas.

            Eu dirijo rápido. Eu amo velocidade, mas naquela estrada vocês não podem ir a mais de vinte milhas por hora; esse é o máximo possível, então vocês podem conceber que tipo de estrada era. No momento em que você chegava, se não estivesse morto então estaria próximo disso! Havia apenas uma coisa boa: antes de entrar na vila você cruzava o rio. Essa era a sua recompensa: você podia tomar um bom banho, podia nadar por meia hora para refrescar-se, e dar um bom banho no seu carro também. Então, quando chegasse na vila, ninguém pensaria que você era o espírito santo.

            Eu corri. Nunca na minha vida tive tanta pressa. Nem mesmo agora que eu deveria estar com pressa porque o tempo está esvaindo-se das minhas mãos e o dia em que terei que dar adeus a todos vocês não está longe, embora eu gostaria de permanecer um pouco mais. Nada está em minhas mãos exceto os braços dessa cadeira, e vocês podem ver como estou segurando-me neles, sentindo-os para ver se ainda estou no corpo. Não há necessidade de preocupar-se… ainda há um pouco de tempo.

            Aquele dia tive que apressar-me, e provou-se certo porque se eu tivesse chegado alguns minutos depois eu nunca teria visto os olhos de Shambhu Babu novamente. Vivos, quero dizer – olhando para mim da mesma forma que olhou pela primeira vez. Eu queria ver aquele primeiro olhar pela última vez… aquela sincronicidade. E naquela meia hora antes dele morrer não houve nada além de pura comunhão. Eu disse que ele podia falar qualquer coisa que quisesse.

            Ele pediu que todas as outras pessoas saíssem. É claro que elas ficaram ofendidas. A sua esposa, filhos e irmãos não gostaram disso. Mas ele disse claramente, “Quer vocês gostem ou não, quero que todos vocês saiam imediatamente porque não tenho muito tempo a perder.”

            Naturalmente com medo, todos saíram. Nós dois rimos. Eu disse, “Qualquer coisa que você quiser me dizer, você pode dizer.”

            Ele disse, “Não tenho nada a dizer para você. Apenas segure as minhas mãos. Permita-me senti-lo. Preencha-me com a sua presença, lhe imploro.” Ele continuou, “Não posso ajoelhar-me e tocar os seus pés. Não que eu não gostaria de o fazer, apenas o meu corpo não está em condições de levantar-se da cama. Tenho apenas alguns minutos.”

            Eu podia ver que a morte estava quase em sua porta. Eu segurei as suas mãos e lhe disse algumas coisas que ele ouviu muito atentamente.

            Na minha infância conheci apenas duas pessoas que realmente me fizeram ter consciência do que é a atenção real. A primeira, é claro, foi a minha Nani. Estou até me sentindo um pouco triste de colocá-la junto com Shambhu Babu, porque a atenção dela, embora similar, possuía muitas dimensões a mais. De fato, eu não deveria ter falado duas pessoas. Mas já falei; agora permitam-me explicar o mais claro possível.

            Com a minha Nani, toda noite era quase um ritual, assim como vocês esperam toda noite e toda manhã…

            Vocês sabem que toda manhã acordo e apresso-me para meu banheiro tomar um banho e aprontar-me porque sei que todo mundo deve estar esperando? Hoje não tomei meu café da manhã porque sabia que iria atrasar vocês todos. Eu dormi um pouco mais que o usual. Toda noite sei que todos vocês devem estar se preparando, tomando os seus banhos, e o momento que vejo a luz em seus pequenos quartos, sei que os demônios chegaram e que agora devo apressar-me.

            E todo o dia vocês estão ocupados. O seu tempo está cheio o dia todo. Vocês podem dizer que sou um homem completamente aposentado – não cansado, aposentado… e não retirado por outrem. Essa é a minha maneira de viver, da noite até a manhã. Mantendo todo mundo cansado sem fazer negócios, esse é todo o meu trabalho. Não acho que exista alguém no mundo – ou já existiu, ou existirá algum dia – que não tem um negócio de qualquer tipo, como eu. E ainda assim, apenas para manter-me respirando, preciso de milhares de sannyasins continuamente trabalhando. Vocês podem pensar em uma piada maior?

            Hoje eu estava dizendo para Chetana que Vivek saiu de férias. Depois de dez anos a pobre garota certamente merece isso. Não é pedir muito em dez anos. Matematicamente é um dia a cada dois anos.

            Eu disse a ela, “Você pode ir, felizmente.”

            Ela foi para a Califórnia. Eu disse a ela, “Ficarei feliz por você desfrutar esses poucos dias.”

            Eu estava dizendo a Chetana, “Ano que vem talvez eu possa tirar alguns dias de férias.” Mas o problema é que não posso ir sozinho. Preciso de toda a minha equipe, e não pode faltar nem um membro dela. Toda a minha equipe é muito maior que a equipe do presidente dos EUA. É a equipe de um homem pobre; ela tem que ser maior que a dele. E não a do presidente de qualquer país, mas do país mais rico. Por quê? – porque a minha equipe não consiste de servos, ela consiste de amantes, e eu não posso ir se faltar qualquer um.

            Esse é o único problema, e eu contei-o a Chetana. Mas ela estava feliz. Ela estava tão feliz que não acho que se preocupou com o meu problema. É óbvio que ela estava feliz, porque se a minha equipe sair de férias comigo então ela certamente estará lá. E Chetana… houve uma época em que eu mesmo lavava as minhas roupas, mas certamente não era tão bom quanto o seu trabalho. Não posso lhe dar uma recomendação melhor que essa, porque embora eu desse o melhor que podia, era apenas uma tarefa a ser feita e concluída o mais rápido possível. Para você é uma oração, um caso de amor, não apenas trabalho a ser concluído. Não acho que exista alguém em todo o mundo que tem as roupas mais bem lavadas que as minhas.

            Então Chetana estava feliz, pensando, “Ótimo, vamos todos sair de férias.” Mas tenho que levar tantas pessoas que Vivek estava certa. Quando estávamos deixando Puna houve muita preparação – particularmente para ela, porque ela tinha que preocupar-se com o meu corpo, meus alimentos, e detalhes pequenos como esses. Não acho que ela dormia, ela estava tão preocupada que nada fosse deixado para trás, e que tudo deveria estar disponível na viagem. Vivek estava certa quando ela me disse, “Osho, você é como uma grande montanha de ouro que deve ser levada de um lugar para o outro.”

            Eu disse a ela, “Isso é verdade, exatamente verdade. Apenas uma coisa tem que ser lembrada: que a montanha, embora dourada, está viva e consciente também. Então seja muito cuidadosa.”

            Você vê a minha dificuldade, Chetana? Ora, se eu saísse de férias apenas por uma semana, ou por um final de semana, quanto você terá que preparar? Nós teríamos que fazer tudo exatamente como é aqui na Casa Lao Tsé – é uma tarefa gigantesca. Mas porque você ficou tão feliz penso que valeria a pena fazê-lo. Apenas para fazer uma única pessoa feliz posso fazer qualquer coisa. Essa foi a substância de toda a minha vida.

  

 

Sessão 23

 

Agora, meu trabalho com vocês…

Eu estava contando a vocês sobre um certo relacionamento que ocorreu entre uma criança de cerca de nove anos de idade e um velho homem de, talvez, cinquenta. A diferença de idade era grande, mas o amor pode transcender todas as barreiras. Se pode ocorrer mesmo entre um homem e uma mulher, então que outra barreira poderia ser maior? Mas não houve barreiras, e o que ocorreu não pode ser descrito como apenas amor. Ele poderia ter me amado como um filho, ou como seu neto, mas não foi isso.

            O que ocorreu foi amabilidade – e que fique registrado: dou mais valor à amabilidade do que ao amor. Não há nada maior do que a amabilidade. Sei que vocês notaram que não usei a palavra ‘amizade’. Até ontem eu estava usando-a, mas agora é a hora de contar a vocês algo maior do que a amizade – a amabilidade.

            A amizade também pode ser um empecilho, da sua própria maneira, como o amor. Ela também pode ser invejosa, possessiva, temerosa com a perda e, por causa deste medo, há muita agonia e muita luta. De fato, as pessoas estão continuamente lutando contra aqueles que amam – estranho, apenas estranho… incrivelmente estranho.

            A amabilidade paira mais alto, acima de tudo aquilo que o ser humano sabe e sente. É mais uma fragrância do ser, ou, vocês poderiam dizer, um florescimento do ser. Algo transpira entre duas almas, e, de repente, existem dois corpos, mas um ser – é isso o que chamo florescimento. A amabilidade é liberdade de tudo o que é pequeno e medíocre, de tudo o que estamos familiarizados com – de fato, muito familiarizados.

            Posso entender porque a minha Nani derramou lágrimas por eu ser amigo de Shambhu Babu. Ela estava certa quando me disse, “Não estou preocupada com Shambhu Babu – ele tem idade suficiente, logo a morte vai alcançá-lo.” E é estranho, mas ele morreu antes da minha avó, exatamente dez anos antes, e, entretanto, minha avó era mais velha que ele.

            Ainda fico maravilhado com a intuição daquela mulher. Ela disse, “Ele vai morrer logo; e você? As minhas lágrimas são por você. Você terá que viver uma longa vida. Você não encontrará muitas pessoas com qualidades tais como as de Shambhu Babu. Por favor, não faça da amizade com ele o seu critério; caso contrário você viverá uma vida muito solitária.”

            Eu disse, “Nani, mesmo Shambhu Babu está abaixo do meu critério, então você não precisa se preocupar. Vou viver a vida de acordo com a minha visão, onde quer que ela possa me levar – talvez para lugar algum. Mas uma coisa é certa,” eu disse a ela, “concordo absolutamente com você que não terei muitos amigos.”

            E isso foi verdadeiro. Nos meus dias de escola eu não tinha amigos. Nos meus dias de colégio pensavam que eu era um estranho. Na universidade, sim, as pessoas sempre me respeitaram, mas isso não é amizade, o que dizer sobre amabilidade. É um destino estranho ter sido sempre respeitado desde a minha mais tenra infância. Mas se a minha Nani estivesse viva agora ela poderia ver os meus amigos, meus sannyasins. Ela veria milhares de pessoas que tenho sincronicidade. Mas ela está morta; Shambhu Babu está morto. O florescimento veio em um momento em que todos aqueles que estavam realmente preocupados comigo não existem mais.

            Ela estava certa em dizer que eu viveria uma vida solitária, mas ela estava errada também, porque como todo mundo ela pensava que solidão e solitude são sinônimas; elas não são. Elas não são sinônimas, elas são opostas polares.

            Solidão é um estado negativo. Quando você não consegue estar consigo mesmo e implora a companhia do outro, então é solidão. Se você consegue companhia ou não isso não fará diferença nenhuma; você permanecerá sozinho. Em todo o mundo, em toda casa, vocês podem ver a verdade do que estou falando. Não posso dizer em todo lar, eu disse em toda casa. Um lar existe muito raramente. Um lar é onde a solidão foi transformada em solitude, não em união.

            As pessoas pensam que se duas pessoas estão juntas, então a solidão acaba. Não é tão fácil. Lembrem-se, não é tão fácil; de fato, torna-se mais difícil. Quando duas pessoas solitárias encontram-se a solidão é multiplicada; não apenas duplicada, lembrem-se, é uma multiplicação, e muito feia. É como um polvo, uma luta contínua em diferentes nomes, por razões diferentes. Mas se vocês colocarem todos esses disfarces de lado, por baixo vocês não verão nada além de pura solidão. Não é solitude. Solitude é a descoberta do próprio ser.

            Muitas vezes eu disse para a minha avó que ficar sozinho é o mais belo estado que alguém pode sonhar. Ela ria e dizia, “Fique quieto! Bobagem. Eu sei o que é – tenho vivido uma vida solitária. O seu Nana está morto. Ele me enganou: ele morreu sem nem mesmo me contar que iria morrer. Ele morreu sem nem me comunicar para onde estava indo, e para quê. Ele me traiu.” Ela era amarga em relação a ficar sozinha. Então ela me disse, “Você também me deixou. Você foi para a universidade e me visita apenas uma ou duas vezes por ano. Eu espero meses somente pelo dia em que você vai voltar para casa. E esses um ou dois dias terminam tão rapidamente. Você não sabe o que é a solidão – eu sei.”

            Embora ela estivesse chorando, eu ri. Eu queria chorar com ela, mas não pude. Em vez de chorar, eu ri.

            Ela disse, “Veja! Você não me entende de maneira nenhuma.”

            Eu disse, “Eu entendo, é por isso que estou rindo. Repetidas vezes você insiste que solidão e solitude são iguais, e eu digo definitiva e absolutamente que elas não são iguais. E você terá que entender a solitude se quiser livrar-se da sua solidão. Você não pode livrar-se dela ao ter pena de si mesma. E não fique brava com meu avô…”

            Essa foi a única vez que defendi o meu Nana contra ela. “O que ele poderia fazer? Ele não lhe traiu – embora você possa sentir-se traída. Essa é outra questão. A morte ou a vida não estão nas mãos de ninguém. Ele morreu tão impotentemente quanto nasceu… e você não lembra o quão impotente ele estava? Ele estava falando repetidamente, ‘Pare a roda, Raja, você não pode parar a roda?’ Naquela súplica constante para que parássemos a roda o que ele estava pedindo? Ele estava pedindo a sua liberdade.

            “Ele estava dizendo, ‘Não quero nascer novamente contra a minha vontade e não quero morrer contra a minha vontade.’ Ele queria ser. Ele pode não ter sido capaz de dizê-lo corretamente, mas é exatamente assim que traduzo o que ele falou. Ele somente queria ser – sem nenhuma interferência, sem ser forçado a nascer ou ser forçado a morrer. Era isso o que ele estava contra. Ele apenas pedia liberdade.”

            E vocês sabem, a palavra Indiana para o supremo é moksha. Moksha significa “liberdade absoluta.” Não existe nenhuma palavra em qualquer língua exatamente como moksha – particularmente não em Inglês, porque o Inglês é muito dominado pelo Cristianismo.

            Há alguns dias recebi um álbum de fotos de um dos centros na Alemanha. O álbum consiste de todas as imagens daquele belo lugar e sua cerimônia de abertura. Até mesmo o padre Cristão da igreja mais próxima participou da cerimônia. Eu gostei do que ele falou: “Essas pessoas são belas. Tenho assistido elas trabalharem mais duro que qualquer um trabalha nos dias de hoje, e com tanta alegria que é uma felicidade vê-las… mas elas são um pouco loucas.”

            O que ele disse estava certo, mas porque ele disse, “Elas são um pouco loucas,” ele não está certo. Sim, elas são loucas – muito mais que ele pode conceber. Mas a razão porque ele disse isso era feia: o “porque” não “o que”. Ele as chamou de loucas porque elas acreditam que existem muitas vidas, vidas após vidas. Esta foi a sua razão para chamá-las de loucas.

            De fato, se alguém está louco então não é a minha gente e sim aqueles que pensam que a minha gente está louca. Eu reservo este direito a mim. Posso chamá-los de loucos, porque quando o digo, digo por amor e entendimento. Não é uma palavra condenatória para mim; para mim é uma apreciação. Todos os poetas são loucos, todos os pintores são loucos, todos os músicos são loucos; caso contrário eles não seriam poetas, músicos e pintores. Se isso é assim para os pintores, os músicos e os dançarinos, então o que dizer dos místicos? Eles devem ser os mais loucos. E os meus sannyasins estão no caminho para serem os mais loucos, porque não conheço outro modo de ser realmente são nesse mundo insano.

            A minha avó estava certa ao dizer que eu não teria amigos, e ela também estava certa em dizer que Shambhu Babu não teria amigos. Sobre Shambhu Babu ela estava absolutamente certa; sobre mim, apenas até o ponto em que comecei a iniciar as pessoas em sannyas. Ela esteve viva apenas por alguns dias depois que iniciei o primeiro grupo de sannyasins nos Himalaias. Escolhi particularmente a parte mais bonita dos Himalaias, Kulu Manali – “o vale dos deuses” como ele é chamado. E certamente é um vale dos deuses. O vale é tão belo que é impossível acreditar, mesmo quando o próprio observador está no vale. É inacreditavelmente verdadeiro. Escolhi Kulu Manali para a primeira iniciação de vinte e um sannyasins.

            Isso foi apenas alguns dias antes da minha mãe… da minha avó falecer. Perdoem-me novamente, porque sigo chamando-a de “mãe” e então corrijo-me. O que posso fazer? Eu a conheci como minha mãe. Toda a minha vida tentei corrigi-lo e não fui capaz de o fazer. Ainda não chamo minha mãe de “mãe”; ainda chamo-a “bhabhi,” não mãe, e bhabhi quer dizer apenas “mulher do irmão mais velho.” Todos os meus irmãos riem de mim. Eles dizem, “Por que você segue chamando a mãe de ‘bhabhi’? – porque bhabhi significa mulher do irmão mais velho. Certamente seu pai não é seu irmão mais velho.” Mas o que posso fazer? Conheci minha avó como minha mãe desde meus primeiros anos, e aqueles primeiros anos são os anos mais importantes da vida. Penso que é o que os cientistas chamam de “impressão”* [NT. imprint]”

            Quando um pássaro sai de seu ovo e olha para sua mãe, com este primeiro olhar ele tem uma impressão. Mas se o pássaro sai e você remove a mãe e a substitui por outra coisa, uma impressão diferente ocorre.

            De fato, foi assim que a palavra ‘impressão’ passou a ser usada. Um cientista estava trabalhando com o que ocorre quando um pássaro sai do ovo pela primeira vez. Ele removeu tudo do entorno, mas esqueceu-se completamente que ele próprio estava ali. O pássaro saiu, olhou em volta e pôde ver apenas as botas do cientista que estava ali observando.

            O pássaro foi até as botas e muito amavelmente começou a brincar com elas. O cientista ficou maravilhado, mas depois ficou com problemas porque o pássaro ficava continuamente batendo na sua porta, não por ele, mas por causa das suas botas. Ele teve que manter as suas botas perto da casa do pássaro. E a coisa mais estranha que vocês podem imaginar aconteceu: quando o pássaro ficou maduro ele fez amor primeiro com as botas. Ele não podia apaixonar-se por uma passarinha – e haviam muitas disponíveis – mas ele tinha uma certa impressão de como esse objeto de amor deveria ser. Ele podia amar apenas um belo par de botas.

            Eu vivi com a minha avó por anos e penso nela como minha mãe. E não foi uma perda. Eu gostaria que ela fosse minha mãe. Se houvesse qualquer possibilidade de meu ser nascer de novo, embora não haja nenhuma, eu a escolheria para ser a minha mãe. Estou simplesmente enfatizando o ponto. Não há possibilidade do meu ser nascer de novo; a roda parou há muito tempo. Mas ela estava certa quando disse que eu não teria amigos. Não tive amigos na escola, ensino médio, colégio ou na universidade. Embora muitos pensassem ser meus amigos, eles eram apenas admiradores, no máximo conhecidos, ou ainda um passo além, seguidores, mas não amigos.

            No dia em que comecei a iniciar o meu único medo era, “Serei capaz de algum dia transformar meus seguidores em meus amigos?” Na noite anterior não pude dormir. Repetidas vezes eu pensava, “Como vou administrar isso? Um seguidor supostamente não é um amigo.” Eu disse para mim mesmo aquela noite em Kulu Manali nos Himalaias, “Não fique sério. Você pode administrar qualquer coisa, embora você não saiba o ABC da ciência gerencial.”

            Lembro de um livro de Bern, A Revolução Gerencial. Eu o li, não porque o título contém a palavra ‘revolução’, mas porque o título contém a palavra ‘gerencial’. Embora eu tenha amado o livro, naturalmente fiquei desapontado porque não era o que eu estava procurando. Nunca fui capaz de administrar qualquer coisa. Então aquela noite em Kulu Manali eu ri.

            Um homem – não vou falar para vocês o nome dele porque ele me traiu, e é melhor não mencionar alguém que me traiu e ainda está vivo – estava dormindo em meu quarto. Ele acordou com meu riso, e eu disse a ele, “Não se preocupe. Eu não posso ficar mais louco do que já sou. Durma.”

            “Mas,” ele disse, “apenas uma questão; caso contrário não poderei dormir: Por que você riu?”

            Eu disse, “Eu estava apenas contando uma piada para mim mesmo.”

            Ele riu e foi dormir sem nem perguntar que piada era.

            Eu soube naquele exato momento que tipo de seguidor ele era. De fato, como um flash de luz eu vi que esse homem ficaria comigo por muito tempo. Então não o iniciei em sannyas, embora ele tenha insistido. Todos questionaram porque eu insistia para que os outros “saltassem” embora resistia à toda persuasão daquele homem. Ele queria saltar e eu disse, “Por favor espere.”

            Dentro de dois meses estava claro para todos porque eu não havia dado sannyas para ele. Dentro de dois meses ele havia partido. Partir não é um problema, mas ele tornou-se meu inimigo. Ser meu inimigo é inconcebível para mim – sim, até para mim. Não posso acreditar como alguém pode ser meu inimigo. Nunca prejudiquei ninguém na minha vida. Você não pode encontrar uma criatura mais inofensiva. Por que alguém deveria ser meu inimigo? Deve haver alguma coisa na própria pessoa. Ela deve estar me usando como uma tela.

            Eu gostaria de iniciar a minha avó, mas ela estava na vila de Gadarwara. Até tentei contatá-la, mas Kulu Manali fica cerca de três mil quilômetros de Gadarwara.

            ‘Gadarwara’ é um nome estranho. Eu gostaria de evitá-lo, mas ele tem que aparecer de qualquer maneira, de uma forma ou de outra, então é melhor liquidar isso. Ele significa ‘a vila do pastor’; é ainda mais estranho porque o lugar na Caxemira onde Jesus está enterrado chama-se Pahalgam, que também significa a vila do pastor. No caso de Pahalgam é entendível, mas por que a minha vila? Nunca vi nenhuma ovelha ali, nem mesmo pastores. Por que ela é chamada de vila do pastor? Não existem muitos Cristãos ali também; de fato, apenas um. Vocês ficarão surpresos: ele é o padre de uma pequena igreja, e eu costumava ser o seu único ouvinte.

            Uma vez ele disse a mim, “É estranho: você não é Cristão, então, por que você chega exatamente no horário, todo Domingo sem falta?” Ele prosseguiu, “Haja chuva ou até chuva de granizo, tenho que vir porque penso que você deve estar esperando – e você sempre está aqui. Por quê?”

            Eu disse, “Você não me conhece. Eu apenas amo torturar as pessoas, e ouvir você se torturando a si mesmo por uma hora, dizendo coisas que você não tem a intenção de dizer, é uma alegria para mim. Eu viria mesmo se toda a vila estivesse queimando. Você pode contar comigo: eu ainda estarei aqui exatamente na hora.”

            Então certamente os Cristãos não tinham nada a ver com aquela vila. Apenas um Cristão vivia ali e sua igreja também não era muito uma igreja – apenas uma pequena casa. É claro que uma cruz foi colocada nela, e sob ela foi escrito: “Esta é uma Igreja Cristã.” Sempre me perguntei por que aquela vila era chamada de vila do pastor, e quando fui ao túmulo de Jesus em Pahalgam, na Caxemira, a questão tornou-se ainda mais pertinente.

            Estranhamente, Pahalgam tem quase a mesma estrutura da minha vila. Pode ser uma coincidência. Quando vocês não conseguem entender algo vocês dizem, “Talvez seja uma coincidência” – mas não sou o tipo de homem que abandona uma coisa tão facilmente. Eu olhei para essa questão até onde pude naquele momento, mas agora posso olhar até onde eu quiser.

            Gadarwara também foi visitada por Jesus e fora da vila está o lugar onde ele ficou. As suas ruínas ainda são honradas. Ninguém se lembra porque elas são honradas. Existe uma rocha que diz que certa vez um homem chamado Isu visitou esse local, e ficou ali. Ele converteu as pessoas da vila e da área vizinha, então retornou a Pahalgam. O departamento arqueológico da Índia colocou aquela rocha ali, então ela não é muito velha.

            Tive que trabalhar muito duro naquela rocha para limpá-la. Foi difícil porque ninguém nunca se importou com ela. A rocha ficava dentro de um pequeno castelo. O castelo não é mais habitável e até adentrá-lo é perigoso. A minha avó tentava prevenir-me de entrar nele porque ele podia colapsar a qualquer momento. Ela estava certa. Até mesmo um pequeno vento e as paredes começavam a balançar. A última vez que o vi, ele havia ruído. Isso foi quando fui para Gadarwara para o funeral da minha avó. Também fui visitar o local onde um homem chamado Isu ficou certa vez.

            Isu é, certamente, outra forma do Aramaico Yeshu, que vem do Hebraico Joshua. Em Hindi Jesus é chamado Isa, e carinhosamente, Isu. Talvez um dos homens que mais amo esteve ali, naquela vila. Apenas a ideia que Jesus também andou por aquelas ruas era excitante, era um êxtase. Isso é incidental. Não posso provar de nenhuma forma histórica se isso ocorreu ou não. Mas se você me perguntar em segredo, posso sussurrar em seu ouvido, “Sim, é verdade. Mas, por favor, não me pergunte mais…”

 

Publicado por rafaelxa

Simply meditate, dance, read, sing, stay quiet, waiting. Do a ritual in each opportunity. Connect yourself with the source. It's not difficult. Be really happy. You could dodge the ignorance. You could grasp wisdom in any book, tree or face. It's up to you. Be aware, be awake! "Creio porque é absurdo" Tertuliano "Seja uma luz para si próprio" Buda “Sitting quietly, doing nothing, spring comes, and the grass grows, by itself." Bashō Matsuo "O silêncio e a risada são a chave – silêncio dentro, risada fora" Osho

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