Sessão 17

 

Ok. As primeiras palavras que Ajit Saraswati declarou na noite de ontem foram, “Osho, nunca pensei que conseguiria.” É claro que aqueles que estavam presentes pensaram que ele estava falando sobre viver na comuna. E isso é, de certa maneira, verdadeiro, relevante, porque lembro-me o primeiro dia que ele veio me ver há vinte anos atrás. Ele teve que pedir permissão para a sua esposa apenas para ver-me por alguns minutos. Então aqueles que estavam presentes devem ter entendido, naturalmente, que ele nunca tinha pensado em vir, deixando sua esposa e filhos e um negócio muito bom. Renunciando tudo, apenas para estar aqui comigo… em um verdadeiro sentido de renúncia. Mas isso não foi o que ele quis dizer, e eu entendi.

            Eu disse a ele, “Ajit, também estou surpreso. Não que nunca esperei por isso; eu sempre esperei por isso, esperei e desejei esse momento, e estou feliz que você veio.”

            Novamente, os outros devem ter pensado que eu estava falando dele ter vindo para morar. Eu estava falando de outra coisa – mas ele entendeu. Pude ver em seus olhos, que se tornaram cada vez mais parecidos com os de uma criança. Eu vi que ele entendeu o que vir até um mestre realmente significa. Significa vir até si próprio. Não pode significar outra coisa além da autorrealização. O seu sorriso era absolutamente novo.

            Eu estava preocupado com ele: ele estava ficando mais sério a cada dia. Eu estava realmente preocupado, porque para mim seriedade sempre foi uma palavra suja, uma doença, algo muito mais cancerígeno do que o câncer pode ser e certamente muito mais infeccioso do que qualquer doença. Mas respirei um grande suspiro de alívio; uma carga desapareceu do meu coração.

            Ele é uma das poucas pessoas que se eu morresse antes dele tornar-se iluminado, então eu teria que girar a roda novamente, eu teria que nascer de novo. Embora seja impossível girar a roda… e eu não sei nada da mecânica por trás do giro de uma roda, particularmente da roda do tempo. Não sou um mecânico, não sou um técnico, então seria muito difícil para mim girar a roda novamente… e ela não se moveu desde quando eu tinha vinte e um anos.

            Há trinta e um anos atrás a roda parou. Agora tudo deve estar enferrujado. Mesmo se vocês jogarem óleo nela – não é a roda de um Rolls Royce. É a roda do karma, da ação, e da consciência implicada em toda ação. Eu terminei com isso. Mas para um homem como Ajit, eu tentaria voltar novamente qualquer que fosse o custo.

            Estou determinado a deixar este corpo apenas quando pelo menos mil e um dos meus discípulos estiverem iluminados, não antes disso. Devaraj, lembre-se disso! Não será difícil – o trabalho básico foi feito – é apenas uma questão de um pouco de paciência.

            Gudia disse há pouco quando eu estava chegando, ao ouvir que Ajit tornou-se iluminado, “É estranho, a iluminação está rebentando em todos os lugares.” Ela tem que rebentar em todos os lugares, este é o meu trabalho. E essas mil e uma pessoas estão quase prontas para rebentar a qualquer momento. Apenas uma pequena brisa e a flor se abre… ou o primeiro raio de sol e o botão abre seu coração para ele – qualquer coisa.

            Ora, o que foi que ajudou Ajit? Nesses vinte anos que o conheço eu sempre fui amável em relação a ele. Eu nunca o golpeei – nunca foi necessário. Até mesmo antes de eu lhe dizer algo, ele já o recebia. Antes de dizer ele ouvia. Nesses vinte anos ele tem me seguido o mais próximo possível. Ele é o meu Mahakashyapa.

            O que causou a coisa de ontem à noite? Foi apenas porque ele ficou pensando em mim em todos os momentos. No momento em que ele me viu, todo aquele pensamento desapareceu – e esse era o único pensamento ao seu redor, como uma nuvem. E não acho que ele entendeu o significado exato de suas palavras! Leva tempo, e as palavras surgem tão de repente. Ele só disse, como se a despeito de si mesmo, “Nunca pensei que conseguiria.”

            Eu disse, “Não se preocupe. Sempre tive certeza que aconteceria mais cedo ou mais tarde, em algum momento aconteceria.”

            Ele olhou um pouco intrigado. Ele estava falando sobre vir e eu estava falando sobre acontecer. Então, como se uma janela se abrisse e você visse – simplesmente assim – uma janela abriu-se e ele viu. Ele tocou os meus pés com lágrimas em seus olhos e um sorriso em sua face. Ver lágrimas e sorrisos misturando-se e fundindo-se é belo. É uma experiência por si só.

            Por causa de Ajit Saraswati não pude completar a história que comecei. Ele esteve na esquina por tanto tempo que me acostumei com ele. Vocês se lembram do dia que eu estava falando de Ajit Mukherjee, o famoso escritor do tantra, o autor de Tantra Arte e Pinturas do Tantra? Eu disse, e vocês podem checar as suas notas… quando eu disse “Ajit” eu não pude dizer “Mukherjee.” Para mim “Ajit” sempre quis dizer “Ajit Saraswati.” Então quando falei de Ajit Mukherjee, primeiro eu disse “Ajit Sarasw…,” então corrigi-me. Comecei a falar “Saraswati” e fui até “Sarasw…,” então disse, “Mukherjee.”

            Ele esteve presente, sem interferir de maneira alguma, na esquina, esperando, apenas esperando. Tal confiança é rara, embora comigo existam milhares de sannyasin com o mesmo tipo de reverência. Sabendo-o ou não, isso não importa; o que importa é a presença da reverência.

            Ajit Saraswati tem um pano de fundo Hindu, então naturalmente é mais fácil para ele ter esse tipo de reverência, de confiança. Mas ele foi educado no Ocidente; talvez seja por isso que ele pôde aproximar-se de mim. Um pano de fundo Hindu e uma mente Ocidental científica – ter essas duas coisas juntas é um fenômeno raro, e ele é um homem único.

            E, Gudia, outros seguirão. Sim, eles rebentarão! Aqui, ali e em todos os lugares. Eles têm que rebentar rapidamente porque não tenho muito tempo. Mas o som de um homem rebentando na existência não é o som da música pop [NT. trocadilho com pop no sentido de rebentar], não é nem mesmo o som da música clássica; é música pura, incapaz de ser classificada… nem mesmo para ser ouvida, mas apenas para ser sentida.

            Ora, vocês veem que absurdo? Eu estou falando de uma música que tem que ser sentida e não ouvida. Sim, é disso que estou falando; É isso o que é a iluminação. Tudo se torna silencioso, como se o sapo de Basho nunca tivesse saltado no lago antigo… nunca, nunca… como se o lago permanecesse sem ondulações, sempre refletindo o céu, imperturbável.

            Esse haiku de Basho é belo. Eu sempre o repito muitas vezes porque ele é sempre tão novo e sempre prenhe de um novo significado. É a primeira vez que falo que o sapo não saltou, e não houve plop. O lago antigo não é nem antigo nem novo; ele não sabe nada do tempo. Não há ondulações em sua superfície. Nele vocês podem ver todas as estrelas mais glorificadas, mais magníficas, do que elas são no céu acima. A profundidade do lago contribui imensamente para a riqueza delas. Elas se tornam da mesma substância que os sonhos são feitos.

            Quando uma pessoa rebenta na iluminação, então essa pessoa sabe que o sapo não saltou… o lago antigo não era antigo. Então a pessoa sabe o que existe.

            Tudo isso no seu momento certo. Novamente esqueci… a pobre história que comecei ontem. Vocês talvez pensaram que eu não a lembraria, mas posso esquecer tudo, exceto uma bela história. Mesmo quando eu estiver morto, se vocês quiserem conversar, perguntem-me algo sobre uma história – talvez apenas uma fábula de Ésopo, Panchtantra, As Estórias de Jataka, ou apenas as parábolas de Jesus.

            Eu estava falando ontem… tudo começou com a metáfora da “morte de cão.” Eu disse que um pobre cão não tem nada a ver com ela. Mas há uma história por trás da metáfora, e porque milhões de pessoas morrerão uma morte de cão é valoroso entender. Talvez vocês já ouviram a história. Penso que todas as crianças já ouviram-na; é tão simples.

            Deus criou o mundo: homem, mulher, animais, árvores, pássaros, montanhas – tudo. Talvez ele era um comunista. Ora, isso não é bom; pelo menos Deus não deveria ser um comunista. Não seria bom chamá-lo de “Camarada Deus”: “Camarada Deus, como você está?” Simplesmente não soa bem. Mas a história diz que ele deu a todos vinte anos de vida. Todos tiveram o mesmo tempo. Como era de se esperar, o homem imediatamente levantou-se e disse, “Apenas vinte anos? Não é o suficiente.”

            Isso mostra algo sobre o homem: nada é suficiente. Nunca é suficiente. A mulher não se levantou. Isso também mostra algo sobre a mulher. Ela está satisfeita com as coisas pequenas. Os seus desejos são muito humanos; ela não está pedindo as estrelas. De fato, ela dá risinhos do homem por todos os seus esforços para alcançar o Everest, ou a lua, ou Marte. Ela não entende para que essa bobagem. Por que não vamos ver o que está passando na televisão agora? Até onde sei, ver televisão…

            Ashu está olhando para baixo. Não fique envergonhada. Não estou falando nada contra as mulheres assistindo televisão. Estou falando sobre eu mesmo. Acho que as mulheres só assistem televisão pelos comerciais, não para algo a mais; um novo sabonete, ou xampu, ou um novo carro… o novo, qualquer coisa nova.

            No comercial tudo é sempre novo. Realmente são as coisas velhas empacotadas novamente. Sim, o pacote é novo, o rótulo é novo, o nome é novo. Mas uma mulher está interessada em uma nova máquina de lavar, um refrigerador ou uma bicicleta. O interesse da mulher é imediato.

            Nessa história ela não levanta e diz para Deus, “O quê? Apenas vinte anos?” De fato, quando o homem se levantou, a mulher deve tê-lo puxado para baixo dizendo, “Sente-se, homem. Por que você está resmungando? Seu velho resmungão, sente-se.”

            Mas o homem bateu o pé e disse, “Resisto de todas as formas possíveis a essa imposição de apenas vinte anos. Mais anos são necessários.”

            Deus estava perdido. Sendo um Deus comunista, o que ele poderia fazer? Ele havia distribuído os anos igualmente. Mas os animais entendiam mais que esse sujeito comunista.

            O elefante riu e disse, “Não se preocupe. Você pode tirar dez anos da minha vida, porque vinte anos é muito tempo. O que eu farei com vinte anos? – dez anos são suficientes.” Então o homem ganhou dez anos da vida do elefante. Esses são os anos entre os vinte e os trinta, quando um homem se comporta como um elefante. Esses são os anos em que os hippies e os yippies e as outras tribos nascem. Em todo o lugar do mundo eles deveriam chamar-se “os elefantes”… pensando muito de si próprios.

            Então o leão levantou e disse, “Por favor aceite dez anos da minha vida. Para mim dez anos são mais que suficientes.” Entre os trinta e os quarenta o homem ruge como o leão, como se fosse Alexandre o Grande. Até mesmo Alexandre não era um leão real, o que dizer dos outros? Entre os trinta e os quarenta, todo homem comporta-se como um leão da sua própria maneira.

            Então o tigre levantou-se e disse, “Quando todos estão contribuindo com o pobre homem, então a minha contribuição é, também, de dez anos da minha vida.” Entre os quarenta e os cinquenta o homem comporta-se como um tigre – muito reduzido em comparação ao leão, muito mais depilado, não mais que um gato grande, mas o velho hábito de gabar-se continua.

            Então o cavalo levantou-se e também contribuiu com dez anos. Entre os cinquenta e os sessenta o homem carrega todos os tipos de cargas. Ele é apenas um cavalo. Não um cavalo ordinário, um cavalo muito extraordinário, carregado com uma montanha de preocupações, mas, de alguma forma a sua vontade é tanta que ele sobrevive e segue em frente.

            Aos sessenta o cão contribuiu com dez anos e é por isso que chama-se uma “morte de cão.” Esta história é uma das parábolas mais belas. Entre os sessenta e os setenta o homem vive como um cão, latindo em tudo o que se move. Ele encontra todas as desculpas para latir.

            A história não vai além dos setenta porque ela foi originalmente contada antes do homem poder viver mais de setenta anos. Setenta é a idade convencional. Se você é um homem convencional, então consulte um calendário e morra exatamente aos setenta. Qualquer coisa a mais que isso já é um pouco moderna. Viver até os oitenta, noventa ou mesmo cem anos, isso é ultra-moderno, isso é rebeldia. Isso é extraviar-se.

            Vocês sabem que na América existem pessoas congeladas em tanques porque elas estavam sofrendo de doenças incuráveis? Incuráveis hoje – talvez em vinte anos podemos encontrar a cura. Então, mesmo podendo viver mais alguns anos com a doença, eles escolheram ficar congelados – às suas próprias custas, lembrem-se. Na América tudo é às suas próprias custas. Mesmo estando congelados, quase mortos, eles estão pagando. Eles têm que pagar de antemão, com antecedência, pelos próximos vinte anos, para que seus corpos possam ser mantidos continuamente congelados. É um negócio caro, obviamente. Apenas os muito ricos podem pagá-lo. Penso que a manutenção de um corpo congelado custe quase mil dólares por dia. Eles têm esperança, ou melhor, tinham a esperança, que quando uma cura fosse encontrada eles pudessem ser descongelados e trazidos de volta à vida, curados.

            Eles estão esperando – pobres sujeitos ricos; existem pelo menos algumas centenas de pessoas por toda a América, esperando. Isso dá a ‘esperar’ um novo significado. Esse é um tipo novo de espera – sem respirar, e, entretanto, esperando. Isso é realmente esperar por Godot, e pagando também.

            A história é antiga, por isso o proverbial setenta anos. “Uma morte de cão” simplesmente significa a morte de um homem que viveu como um cão. Novamente, não fique ofendido se você ama os cães. Não tem nada a ver com os cães. Os cães são pessoas legais. Mas “viver como um cão” significa viver apenas para latir, desfrutando o latido, bradando a toda e qualquer oportunidade. Viver como um cão simplesmente significa não viver uma vida humana, mas algo subumano, algo menor do que o humano. E alguém que vive como um cão necessariamente morrerá como um cão.

            Obviamente você não pode ter uma morte que não mereceu. Repito: você não pode ter uma morte que não mereceu, que você não tenha trabalhado por toda a vida. A morte é ou uma punição ou uma recompensa; tudo depende de você. Se você viver superficialmente, então a sua morte será apenas a morte de cão. Os cães são pessoas excitadas, muito intelectuais. Se você vive intensamente, intuitivamente, a partir do coração, inteligentemente, não intelectualmente; se você permitir que todo o seu ser envolva-se em tudo que você faz, então você pode morrer a morte de um deus.

            Permitam-me cunhar outra frase, oposta à “morte de cão”: “a morte de um deus.”* [NT. Trocadilho dog/god.] Como vocês podem ver ‘dog’ e ‘god’ são feitas das mesmas letras, apenas escritas diferentemente. A mesma coisa colocada de maneira inversa torna-se ‘cão’; colocada no sentido correto torna-se ‘deus’. A substância da existência, o seu ser, é o mesmo; quer vocês estejam de ponta cabeça ou de pé, não importa. De uma maneira importa: se vocês estiverem de ponta cabeça vocês sofrerão. E se vocês começarem a andar de ponta cabeça, então poderão visualizar a si próprios no sétimo inferno. Mas vocês podem saltar e ficar de pé – não há ninguém impedindo!

            Esse tem sido todo o meu ensinamento: Saltem! Não fiquem de ponta cabeça, fiquem de pé. Sejam naturais! Então vocês viverão como um deus. E, é claro, um deus morre como um deus. Ele vive como um deus e morre como um deus. E por deus simplesmente quero dizer um mestre de si próprio.

 

Sessão 18

 

Sigmund Freud estava entrevistando um de seus pacientes. Ele perguntou ao homem deitado no divã, “Olhe pela janela – você pode ver o mastro sobre o edifício de escritórios do outro lado da rua?”

            O velho homem disse, “É claro. Você acha que sou cego? Posso ser velho, mas posso ver o mastro, a bandeira e tudo. Que tipo de questão é essa? Estou pagando para você fazer essas questões estúpidas?”

            Freud disse, “Espere, é assim que a psicanálise funciona. Diga-me o que o mastro o faz lembrar.”

            O velho começou a dar risadinhas. Freud estava imensamente feliz. Com muita vergonha o velho homem disse, “Ele me faz lembrar de sexo.”

            Freud queria que todos provassem a sua nova teoria, e essa era uma confirmação. Ele disse, “Entendo. O mastro não é nada além de um símbolo fálico. Você não precisa se preocupar, é totalmente verdade.”

            O velho ainda estava rindo e disse, “Que psicanálise! Eu vim até aqui por isso? Paguei adiantado por isso?” Lembre-se, Freud costumava cobrar adiantado, porque quando você está lidando com todos os tipos de pessoas loucas você não pode depender de elas pagarem depois. O pagamento tinha que ser feito antes do tratamento começar.

            De fato, ninguém em todo o mundo, incluindo o próprio Sigmund Freud, foi totalmente psiconalisado, pela simples razão que isso não pode ser feito. Vocês podem seguir e seguir, ad nauseam. Por quê? – porque são apenas pensamentos, insubstanciais. Um pensamento leva a outro, e assim por diante; não há fim nisso. Nunca nenhum psicanalista reivindicou estar totalmente psicoanalisado. Algo sempre permanece, e este algo é muito maior do que os pequenos fragmentos que você esteve brincando em nome da psicanálise.

            O velho estava ficando um pouco irritado também. Freud disse, “Somente essa última questão, então não fique irritado. É claro que o divã o faz lembrar de sexo; ele faz todos se lembrarem de sexo, então não há problema nisso – não fique irritado. Apenas essa última questão: o que você pensa quando vê um camelo?”

            Agora o velho estava realmente alvoroçado, rindo tão alto que teve que segurar o seu estômago com suas mãos. Ele disse, “Meu Deus! Nunca pensei que a psicanálise tivesse algo a ver com camelos. Porém, por uma estranha coincidência, fui ao zoológico há alguns dias e pela primeira vez na vida vi um camelo, e aqui está esse velhote me perguntando o que lembro quando vejo camelos! O camelo me faz lembrar de sexo, é claro, seu filho da mãe.”

            Agora era a vez de Freud ficar surpreso. Um camelo? – ele não podia entender como um camelo poderia fazer qualquer pessoa lembrar-se de sexo! Um camelo? Mesmo ele, Sigmund Freud, nunca pensou em um camelo. Era apenas uma questão. Ele esperava que o homem diria, “Ele não me lembra de nada em particular. É simplesmente um camelo. Ele deveria fazer-me lembrar de algo?”

            Freud disse, “Você aniquilou toda a minha alegria. Eu pensava que você estava confirmando minha amada teoria – mas não posso imaginar como um camelo o faria lembrar-se de sexo.”

            O homem riu ainda mais alto e disse, “Tolo! Você não entende nada? Não se preocupe com aquele camelo estúpido. Tudo me faz lembrar de sexo, até você! Então o que posso fazer? Esse é meu problema. É por isso que estou aqui. É minha obsessão.”

            Contei a vocês a história para explicar o que eu quis dizer com a palavra ‘obsessão’. E todo o mundo pode ser dividido em duas categorias: as pessoas que são obcecadas por sexo, e as pessoas que são obcecadas pela morte. Essa é a linha real de demarcação entre Oriente e Ocidente. Não é uma divisão geográfica, mas muito mais importante do que a geografia.

            Eu falei que a língua Inglesa segue agregando palavras de outras línguas. ‘Geografia’ é uma palavra, como muitas outras, emprestada do Árabe. Em Árabe é belo, é jugafria, não ‘geografia’. Mas quer seja geografia ou jugrafia ela não pode ser uma linha divisória. Algo psicológico tem que ser entendido.

            O Oriente é obcecado pela morte, o Ocidente pelo sexo. Um materialista necessariamente será obcecado pelo sexo e o espiritualista obcecado pela morte – e ambas são obsessões. E viver uma vida com qualquer obsessão, seja ela Ocidental ou Oriental, é viver quase sem viver… é perder toda a oportunidade. O Oriente e o Ocidente são dois lados da mesma moeda, e assim o são também a morte e o sexo. O sexo é a energia, o início da vida; e a morte é a culminação da vida.

            Não é coincidência que milhões de pessoas nunca conheceram o que é o orgasmo real. É pela simples razão que, a menos que você esteja pronto para uma espécie de morte, você não saberá o que é o orgasmo. E ninguém quer morrer, todo mundo quer viver, renovar a vida repetidas vezes.

            No Oriente a ciência não pôde ter nenhum ponto de partida, pois quando as pessoas estão tentando parar a roda, quem está pronto para estudar ciência? Ou pronto para ouvir? Quem se preocupa? A roda deve parar. Entretanto isso pode ser feito por qualquer tolo, apenas colocando uma pedra em seu caminho. Você não precisa de muita tecnologia para parar uma roda, mas para movê-la, você precisa de ciência.

            A investigação mais constante da ciência é encontrar a causa do próprio movimento da existência, ou, em outras palavras, encontrar algum mecanismo que se move perpetuamente por si só, sem precisar de qualquer combustível, sem qualquer gás – um movimento perpétuo, constante, sem o suporte de qualquer energia, porque toda fonte de energia mais cedo ou mais tarde secará, e então a roda parará. A ciência está em busca de uma forma de manter a roda movendo-se para sempre, para encontrar um movimento que é independente de qualquer fonte de energia.

            A ciência nunca teria começado no Oriente; o carro nunca começou. Ninguém estava interessado em iniciá-lo também; eles estavam muito preocupados em como pará-lo, porque estava descendo em um desfiladeiro. No Oriente uma coisa totalmente diferente ocorreu, que certamente nunca ocorreu no Ocidente – o tantra. O Oriente pôde explorar o núcleo mais profundo da energia sexual sem qualquer inibição, sem qualquer medo. O Oriente não estava de forma alguma preocupado com o sexo. De fato, não acho que a história que contei para vocês é verídica.

            Sinto que Sigmund Freud devia estar em seu banheiro olhando no espelho, falando consigo mesmo. Aquele velho no divã não é ninguém além de Sigmund Freud ele mesmo. Se olharem em seu livro vocês se convencerão do que estou dizendo. Toda a preocupação de Freud era com o sexo; tudo tinha que ser reduzido ao sexo. Ele foi a pessoa mais obcecada por sexo na história humana, e, infelizmente, ele dominou a suposta psicologia, a psicanálise e muitos outros tipos de terapias. Ele tornou-se uma figura paterna.

            Estranho que um homem como Sigmund Freud, que sofria todos os tipos de medos e fobias, pôde tornar-se a figura chave de todo esse século. Ele tinha muito medo. Naturalmente, lembre-se, se vocês estão obcecados com algo, quer seja o sexo ou a morte – essas são as duas categorias principais… Há milhares de coisas no mundo, mas elas vão estar contidas nessas categorias. Se você está obcecado com qualquer uma delas, você é totalmente ignorante, e permanecerá com medo – de fato, com medo da luz, porque na sua escuridão você criou o seu próprio mundo imaginário de teorias, dogmas e tudo aquilo. Você terá medo da luz, de um homem segurando uma lâmpada… um homem como Diógenes entrando nu com uma lâmpada mesmo com o sol a pino.

            Às vezes penso que seria bom, bom para Sigmund Freud, se Diógenes tivesse entrado em seu suposto escritório de psicanalista, com a sua lâmpada ainda acesa – obviamente nu, porque ele sempre estava nu. O encontro teria produzido algo de imenso valor. As pessoas como Sigmund Freud têm medo da luz; é por isso que Diógenes costumava carregar a sua lâmpada. Sempre que alguém perguntava por que ele carregava a lâmpada em plena luz do dia, ele respondia, “Estou procurando por um homem, e ainda não o encontrei.”

            Momentos antes de sua morte alguém o perguntou, “Diógenes, antes de você deixar o corpo, por favor nos diga: Você já encontrou o homem?”

            Diógenes riu e disse, “Sinto muito dizer que não pude encontrá-lo. Mas devo dizer uma coisa: Ainda tenho a minha lâmpada comigo, ninguém a roubou – e isso é ótimo.”

            Sigmund Freud era obcecado, mas continua a representar toda a atitude Ocidental. É por isso que Carl Gustav Jung não pôde ficar com ele por muito tempo. A razão é simples: a obsessão de Jung não era o sexo, mas a morte. Ele precisava de um mestre no Oriente, não no Ocidente. Entretanto, tamanha é a complexidade das coisas que ele ainda era muito orgulhoso do Ocidente, tanto que quando visitou a Índia alguém sugeriu que ele fosse ver Maharshi Raman, que ainda estava vivo, mas Jung não foi. Era um voo de apenas uma hora… e ele foi para todos os outros lugares. Ele ficou na Índia por meses, mas ele não teve tempo de ir ver Maharshi Raman. De novo, a razão é simples: é preciso ter coragem para encarar um homem como Raman. Ele é um espelho. Ele vai mostrar a sua face real. Ele retirará todas as suas máscaras.

            Realmente odeio esse homem Jung. Posso condenar Sigmund Freud, mas não o odeio. Ele estava errado, mas era um gênio. Ele era um gênio, apesar de fazer algo que não posso dar suporte porque sei que não está certo. Mas esse homem Jung era apenas um pigmeu; comparado com Freud ele não está em lugar nenhum. Ademais, ele também foi um Judas: ele traiu seu mestre.

            O próprio mestre estava errado, mas isso é outra coisa. Certo ou errado, Freud escolheu Jung para ser seu principal discípulo, e ele ainda assim provou ser apenas um Judas. Ele não era do mesmo calibre de Freud. A razão real do rompimento – e eu nunca vi isso ser mencionado por nenhum Freudiano ou Junguiano, estou dizendo pela primeira vez – foi que a obsessão de Jung era pela morte, e a de Freud pelo sexo. Eles não podiam ficar juntos por muito tempo, eles tinham que se separar.

            O Oriente, por milhares de anos, esteve morbidamente engajado em, de alguma forma, livrar-se da vida. Sim, chamo-o de mórbido. Amo chamar uma coisa do que ela é. Uma pá é apenas uma pá, nem mais nem menos. Quero simplesmente declarar o fato. O Oriente sofreu muito apenas por causa dessa morbidez, continuamente pensando em como livrar-se da vida desde o momento do nascimento. Penso que essa é a obsessão mais antiga do mundo. Milhares de pessoas do mesmo calibre de Freud viveram sob ela, e a fortaleceram e a alimentaram.

            Não me lembro de um único ser humano que foi contra ela. Todos concordaram, apesar de discordarem em tudo o mais: Mahavira, Manu, Kanad, Gautama, Shankara, Nagarjuna – a lista é quase infinita. E eles são todos muito superiores a Sigmund Freud, C. G. Jung ou Adler, e os muitos bastardos que eles deixaram para trás.

            Mas apenas ser um gênio, mesmo um grande gênio, não significa necessariamente que você está certo. Às vezes um simples lavrador pode estar mais certo do que um grande erudito. Um jardineiro pode estar mais certo do que um professor. A vida é realmente estranha; ela sempre visita os mais simples, os que amam. O Oriente errou e o Ocidente está errando também. Ambos estão desequilibrados.

            Tive que falar sobre isso porque esta é uma das minhas mais básicas contribuições, que o ser humano não deve se preocupar nem com o sexo, nem com a morte. Ele deve ser livre de ambas as obsessões; somente então ele conhece, e sabe que, estranhamente, elas não são diferentes. Todo momento de amor profundo é, também, um momento de morte profunda. Todo orgasmo é também um fim, um final total. Algo atinge um pico, toca uma estrela, e não será novamente o mesmo, não importa o que você faça. De fato, quanto mais você faz, mais longe ele fica.

            Mas o ser humano vive quase como um rato, escondido em sua toca. Você pode chamá-lo de Ocidental, Oriental, Cristão, Hindu; há milhares de tocas disponíveis para todos os tipos de ratos. Mas estar em uma toca, não importa quão decorada, pintada, quase como uma catedral, um templo belo ou uma mesquita, ainda assim é uma toca. E viver nela é seguir cometendo um suicídio lento – porque você não é feito para ser um rato. Seja um homem. Seja uma mulher.

            Até agora tudo estava acontecendo inconscientemente, pela natureza, mas agora a natureza não pode fazer mais nada. Vocês não podem ver claramente? Darwin diz que o homem nasceu do macaco. Talvez ele esteja certo. Não penso assim, é por isso que digo que talvez ele esteja certo. Mas o que aconteceu então? Os macacos não estão virando homens… vocês não veem, de repente, um macaco tornando-se um homem e provando a teoria de Darwin.

            Nenhum macaco está interessado em Charles Darwin. Não acho que eles já leram seus livros muito não-poéticos. De fato eles estão – eles devem estar, assumo – bravos, porque Darwin pensa que o ser humano evoluiu. Nenhum macaco pode acreditar que o ser humano é mais evoluído que ele. Todos os macacos – acreditem em mim, estive em contato com todos os tipos de pessoas, incluindo os macacos – acreditam que o ser humano é um macaco decaído… decaído das árvores. Eles não podem pensar que é uma evolução. Talvez Darwin estava certo – mas então o que aconteceu? Esqueça os macacos, nós não temos nada com eles.

            O que aconteceu com o ser humano? Milhões de anos se passaram e o ser humano ainda é o mesmo. A evolução parou? Por que razão? Não acho que nenhum Darwiniano é capaz de responder e saibam que estudei Darwin e seus seguidores o mais fundo possível. Digo “possível” porque não há muita profundidade. O que posso fazer? Mas nenhum Darwiniano responde a questão básica: se a evolução é a regra da existência, então por que o ser humano não evoluiu para um super-homem? Ou pelo menos algo melhor? Não chame de super; isso soa como uma palavra muito grandiosa para ser vinculada ao ser humano. Por que o ser humano não é apenas um pouco melhor?

            Mas não houve nenhuma mudança por séculos. Até onde os historiadores sabem, o ser humano sempre foi o mesmo, tão feio quanto hoje. De fato, se algo pode ser dito sobre a mudança, é que ele tornou-se ainda mais feio. Sim, estou falando o que ninguém diz. Os políticos não podem dizê-lo porque os votos pertencem aos macacos. Os supostos filósofos não podem dizê-lo porque estão esperando pelo Prêmio Nobel e seu comitê consiste de macacos. Se vocês disserem a verdade vocês teriam os mesmos problemas que eu. Eu não conheci um único dia sem problemas desde que tornei-me consciente. Dentro não há nenhum problema; todo problema cessou. Mas fora os problemas existem a todo momento. Até mesmo se vocês se associarem a mim vocês terão problemas.

            Há alguns dias recebi a mensagem que um dos meus centros foi atacado. Todas as janelas foram quebradas em um ataque de um grupo. As pessoas levaram quaisquer coisas que conseguiram. E logo depois disso todo um centro foi incendiado.

            Ora, a minha gente não prejudicou ninguém; as pessoas estavam apenas se encontrando lá, meditando. Até mesmo os policiais declararam, “É estranho, porque por dois anos nós observamos essas pessoas, e elas são totalmente inocentes. Elas não são políticas nem ideológicas – elas apenas divertem-se. Por que as casas deles devem ser queimadas é inexplicável.” A polícia pode não encontrar a explicação, porque a explicação está aqui, sentada nessa cadeira de dentista.

            Não conheci um único dia em que não houve um problema ou outro; e é a coisa mais estranha de compreender, porque não prejudicamos ninguém. Não fiz mal a ninguém; a minha gente não fez mal a ninguém… mas talvez esse seja o crime. A máfia tudo bem; eu não, vocês não. Este mundo obcecado ou com o sexo ou com a morte permanecerá mórbido, doente. Se quisermos ter uma humanidade íntegra, saudável, então teremos que pensar em termos totalmente diferentes.

            A primeira coisa que quero falar é: aceite aquilo que já está aí. O sexo não é criação sua, graças a Deus; caso contrário todo mundo estaria utilizando um tipo diferente de mecanismo, e haveria uma frustração tremenda porque esses mecanismos não se adequariam uns aos outros de maneira alguma. Eles não se adequam nem quando são exatamente iguais, quando são feitos para estarem em harmonia, eles não se harmonizam. Se todo mundo inventasse a sua própria sexualidade então haveria um caos real. Vocês não poderiam concebê-lo. É bom que vocês já vieram prontos, já são hoje aquilo que potencialmente serão amanhã.

            E a morte também é uma coisa natural. Pensem por um momento: se vocês fossem viver para sempre, o que fariam? Lembrem-se, vocês não seriam capazes de cometer suicídio. Sempre amei a busca de Alexandre pelo segredo da vida eterna… Ele finalmente a encontrou em um deserto na Arábia. Que alegria! Que êxtase! Ele deve ter dançado. Mas naquele momento o o corvo disse, “Espere, espere um momento antes de beber a água. Esta água não é uma água ordinária. Eu bebi dela, infelizmente! Agora não posso morrer. Tentei todos os métodos, mas nada funcionou. O veneno não pode me matar. Bati minha cabeça contra uma rocha, mas a rocha quebrou e saí ileso. Antes de você decidir beber a água, pense duas vezes.” A história continua dizendo que Alexandre correu da caverna para que não fosse tentado a beber da água.

            O professor de Alexandre não era ninguém menos do que Aristóteles, o pai da filosofia e da lógica Europeia. De fato, Aristóteles foi o pai de todo o pensamento Ocidental. Um grande pai! Sem ele não haveria ciência, e é claro que não haveria Hiroshima e Nagasaki. Sem Aristóteles vocês não poderiam conceber o Ocidente. Aristóteles foi o professor de Alexandre e sempre pensei que os professores são muito pobres.

            Na minha infância lembro-me de ver um livro – não me lembro qual, ou talvez era um filme – no qual Aristóteles estava ensinando Alexandre, e o garoto disse, “Agora não quero aprender nada; quero cavalgar. Torne-se um cavalo para mim.” Então o pobre Aristóteles tornou-se um cavalo. Ele ajoelhou-se enquanto Alexandre sentava em suas costas e o cavalgava. E esse foi o homem que tornou-se o pai da filosofia Ocidental! Que tipo de pai…?

            Sócrates nunca é chamado de pai da filosofia Ocidental. Sócrates, é claro, foi o mestre de Platão, e Platão foi o mestre de Aristóteles. Mas Sócrates foi envenenado porque não era palatável – não era fácil de digerir. O Ocidente quis esquecer tudo sobre ele. Ele poderia ter criado a síntese que estou falando. Se não tivesse sido envenenado e fosse ouvido; se a sua investigação pela verdade tivesse se tornado a própria base, nós viveríamos em um mundo totalmente diferente. Platão também não é pensado como o pai, porque é muito proximamente associado com o perigoso Sócrates. De fato não sabemos nada de Sócrates exceto o que Platão escreveu sobre ele.

            Assim como Devageet está tomando notas, da mesma maneira Platão deve ter continuamente tomado notas de seu mestre. Platão não é aceito porque é apenas uma sombra de Sócrates. Aristóteles é discípulo de Platão, mas um Judas. Ele era um discípulo no começo, e aprendeu o que o seu mestre tinha para ensinar, e então tornou-se um mestre por seu próprio mérito. Mas que pobre mestre ele era, assalariado de um rei como tutor de seu filho. É tão feio saber que ele estava pronto para tornar-se um cavalo para Alexandre! Quem estava ensinando quem? Quem é realmente o mestre?

            Eu era um professor na universidade. Sei que Alexandre cavalgando em Aristóteles refuta o fato deste ser o pai da filosofia Ocidental. Se ele é o pai então toda a filosofia do Ocidente é apenas uma órfã, uma criança adotada pelos missionários Cristãos, talvez pela Madre Teresa de Calcutá. Esta grande dama pode fazer qualquer coisa! Tenho pena de Aristóteles. Não consigo encontrar nenhuma outra palavra para ele. Sinto-me envergonhado porque também fui um professor.

            A primeira coisa que eu costumava falar para a minha classe todos os dias era, “Lembrem-se, aqui sou o mestre. Se vocês não quiserem me ouvir, simplesmente saiam. Se vocês quiserem me ouvir, então apenas ouçam. Estou pronto para responder todas as suas questões, mas não vou tolerar qualquer barulho, nem mesmo um sussurro. Se vocês têm uma namorada aqui, então saiam imediatamente e permitirei que vocês saiam com suas namoradas. Quando estou falando, apenas eu estou falando, e vocês estão ouvindo. Se vocês quiserem falar alguma coisa então levantem a mão e mantenha-a levantada, porque não significa que quando você quiser perguntar eu necessariamente tenho que responder naquele momento. Não estou aqui como servo de vocês. Não sou Aristóteles. Até mesmo Alexandre não poderia fazer de mim um cavalo.”

            Essa era a minha introdução todos os dias, e sou feliz porque eles entendiam. Eles tinham que entender. É por isso que às vezes o golpeio forte, Devageet, sabendo perfeitamente bem que você terá que utilizar os seus botões, e o barulho deles necessariamente estará aqui. O que você pode fazer? Eu sei perfeitamente bem. É apenas um velho hábito meu.

            Eu nunca falei exceto no silêncio total. Vocês sabem, por anos vocês me ouviram. Vocês conhecem o silêncio da Sala Buda. Apenas naquele silêncio… a frase do seu Inglês é muito significativa: que o silêncio é tão profundo que vocês podem ouvir até uma agulha caindo no chão. Eu também sei, mas sou apenas acostumado com o silêncio.

            No outro dia, quando deixei a sala, você não parecia muito feliz. Naquele mesmo dia, posteriormente, eu me senti mal, aquilo realmente me machucou. Eu nunca quis de maneira alguma machucá-lo, é apenas meu velho hábito, e vocês não podem me ensinar novos truques mais. Eu fui para além da possibilidade de ser ensinado.

            Quando vim para a América comecei a dirigir novamente e ao sentarem-se comigo no carro as pessoas sentem-se irritadas de vez em quando. Não sou um motorista, muito menos um bom motorista – então naturalmente eu fazia tudo que era errado. Embora elas tentassem não interferir, eu podia entender a dificuldade delas. Elas mantinham-se controladas. Eu estava dirigindo e elas controlavam-se – era uma grande cena. Mas ainda assim, de vez em quando elas esqueciam-se e começavam a falar para mim algo que estava quase sempre certo. Sobre isso não tenho nada a dizer. Mas certo ou errado não importa – quando estou dirigindo, estou dirigindo. Se vou errado então vou errado. Quanto tempo elas podiam controlar-se? Era perigoso, e elas não se preocupavam com as suas próprias vidas. Elas se preocupavam com a minha vida, mas o que posso fazer? Eu podia simplesmente declarar o fato que se eu estou dirigindo errado eu continuaria a fazer isso. Naquele momento particularmente eu não queria ser ensinado. Não era nenhum egoísmo.

            Sou simples assim. Vocês podem sempre me falar onde eu estou errando, e estou aberto para ouvir. Mas quando estou fazendo algo, odeio interferências. Mesmo que a intenção seja boa, não a quero nem que seja para o meu próprio bem. Eu prefiro morrer dirigindo errado do que ser salvo pelo conselho de alguém. É assim que sou e é muito tarde para mudar.

            Vocês ficarão surpresos em saber que sempre foi muito tarde. Mesmo quando eu era apenas uma criança já era muito tarde. Só posso fazer algo da forma que eu quiser fazê-la; certo e errado é irrelevante. Se dá certo, bom; se não dá certo, excelente.

            Às vezes posso ser duro com você, mas não quero ser. É apenas um velho hábito de mais de trinta anos de ensinamento no total silêncio. Não posso esquecê-lo.

            Eu estava apenas fazendo uma observação, e vou discuti-la amanhã. A observação é que não sou contra abandonar a roda, mas sou contra ser obcecado por pará-la. Ela para por si só, mas você não pode pará-la. Ela pode parar apenas quando você faz outra coisa. Esta outra coisa, chamo-a de meditação.

 

Sessão 19

 

Ok. Eu disse “ok” um pouco antes, somente porque eu estava ficando afetado por sua preocupação. Pelo menos no início não fique preocupado; no início deixe-me falar. Se você está preocupado, obviamente eu direi “ok”, mas isso não será um ok de maneira alguma.

            Depois da morte do meu avô fiquei novamente longe da minha Nani, mas logo retornei para a vila do meu pai. Não que eu quisesse – foi apenas como esse “ok” que eu disse no início… não que eu quisesse dizer “ok”, mas até mesmo eu não posso ignorar a preocupação dos outros, e os meus pais não me deixariam ir para a casa do meu falecido avô. A minha avó ela própria não queria ir comigo, e sendo uma criança de apenas sete anos, eu não podia ver nenhum futuro nisso.

            Repetidas vezes eu me imaginava voltando para a velha casa, sozinho no carro de boi… Bhoora falando com os bois. Ele pelo menos teria algum tipo de companhia. Eu estaria a sós dentro do carro de boi, apenas pensando no futuro. O que eu faria lá? Sim, os meus cavalos estariam lá, mas quem iria alimentá-los? De fato, quem iria me alimentar? Nunca aprendi nem mesmo a arte de fazer uma simples xícara de chá.

            Um dia Gudia saiu para um feriado e Chetana estava fazendo o seu dever aqui, servindo-me. De manhã, quando acordei, apertei o botão para o meu chá. Chetana o trouxe e colocou a xícara do lado da cama, então foi ao banheiro preparar a minha toalha e escova de dentes, e tudo o que eu precisava. Enquanto isso, pela primeira vez em dez anos – é preciso aprender pequenas coisas – tentei pegar a xícara do chão, e ela caiu!

            Chetana veio correndo, naturalmente, com medo. Eu disse, “Não se preocupe – foi minha responsabilidade. Eu não deveria ter feito isso. Nunca precisei pegar a minha xícara do chão. Gudia tem me mimado por anos. Agora você não pode me desamimar em apenas um dia.”

            Tive muitos anos de mimo. Sim, chamo-o de mimo porque eles nunca me permitiram fazer algo eu mesmo. A minha avó era maior do que Gudia pode conceber: ela até escovava os meus dentes! Eu falava para ela, “Nani, posso escovar o meu próprio dente.”

            Ela diria, “Fique quieto, Raja! Fique quieto. Não me perturbe quando estou fazendo algo.”

            Eu balançava minha cabeça e falava, “Essa é boa! Você está fazendo algo comigo; não posso nem dizer a você que posso fazê-lo eu mesmo.”

            Não posso lembrar-me de uma única coisa que eu precisava fazer exceto ser eu mesmo – e isso significava a fonte de todas as travessuras. Porque quando você não exige que uma criança faça nada ela tem tanta energia, ela tem que investi-la em algum lugar – o certo ou o errado não importa. O que importa é o investimento, e a travessura é o investimento mais agradável possível. Então eu fazia todos os tipos de travessuras com todo mundo do entorno.

            Eu costumava carregar uma pequena maleta, assim como as dos doutores. Uma vez vi um doutor passando pela vila, e eu disse para minha Nani, “A menos que eu consiga aquela maleta não comerei!” De onde eu tirei a ideia de não comer? Eu tinha visto o meu avô não comer por dias, particularmente na estação chuvosa quando os Jainas têm o seu festival; os mais ortodoxos não comem nada por dez dias. Foi por isso que eu disse, “Não comerei a menos que eu consiga aquela maleta.”

            Vocês sabem o que ela fez? É por isso que ainda a amo. Ela disse a Bhoora, “Pegue a sua arma e corra atrás daquele doutor e roube a sua maleta. Mesmo se você tiver que atirar no homem, pegue a sua maleta. Não se preocupe, vamos cuidar de você no tribunal.”

            Bhoora correu com a sua arma; eu corri atrás para ver o que iria acontecer. Vendo Bhoora com sua arma – um Europeu com uma arma na Índia daqueles dias era a última coisa que alguém queria ver – o doutor começou a tremer como uma folha em um vento forte. Bhoora disse a ele, “Não é preciso tremer; apenas passe a sua maleta e vá para o inferno, ou qualquer lugar que você queira ir.” O doutor, ainda tremendo, passou a sua maleta. Não sei como você chama essa maleta de doutor, Devaraj. É uma maleta ou algo do tipo? A maleta de um doutor? Devageet, como você a chama?

            “Uma mala de visita, talvez?”

            Uma mala de visita? Ela não parece com uma mala. Devaraj, você pode sugerir um nome? Uma mala de visita? Ok… você pode encontrar uma palavra melhor?

            “A maleta original era chamada de maleta Gladstone. Esta era a maleta preta original.”

            O que é isso? Uma maleta Gladstone? Sim, era isso o que eu estava pensando e não podia me lembrar – é claro, uma maleta Gladstone. Bom, mas ainda não gosto desse nome para a maleta. Continuarei a chamá-la de maleta de doutor, embora eu saiba que não é uma maleta. Não importa; a esta altura todo mundo entendeu o que eu quis dizer.

            Vendo o doutor tremer vi, pela primeira vez, que toda educação era inútil. Se ela não pode torná-lo destemido então para que serve? Apenas para ganhar pão e manteiga você tremerá? Você será uma maleta cheia de pão e manteiga, tremendo. Isso é maravilhoso. Isso de repente me faz lembrar do Doutor Eichling.

            Ouvi dizer – é apenas uma fofoca e amo fofocas mais do que os evangelhos…* [NT. Trocadilho gossips/gospels] De qualquer forma esses evangelhos não são nada mais que fofocas contadas erradamente, sem picância. Ouvi dizer – é assim que os evangelhos de Buda começam, quero dizer, as fofocas de Buda começam. Ouvi dizer – que bela frase! – que a amada do Doutor Eichling, que, a propósito eu chamaria Inkling, mas ouvi que seu nome não é Inkling mas Eichling…

            Não conheço este homem. Pensei que ele tinha morrido, porque lhe dei sannyas e o chamei de Shunyo. Não sei o que aconteceu com Shunyo ou como o Doutor Eichling ressuscitou, mas se Jesus pôde fazê-lo, por que não o Eichling? De qualquer forma, ele ainda está aqui – ou sobreviveu, ou ressuscitou, não é muito significante qual das opções. A fofoca é que sua amada fugiu com outro sannyasin e ela se apaixonou por esse novo homem.

            Quando eles voltaram o Doutor Eichling teve um “ataque de amor.” Estou surpreso que ele conseguiu, porque para ter um ataque de amor você precisa ter, primeiro, um coração. Um ataque cardíaco não é necessariamente um ataque de amor. Um ataque cardíaco é fisiológico, um ataque de amor é psicológico, da parte mais profunda do coração. Mas antes você tem que ter um coração.

            Ora, é impossível o Doutor Eichling ter um ataque cardíaco, ou um ataque de amor. Eles deveriam ter me consultado. É claro que não sou um doutor, mas certamente sou um médico no mesmo sentido que Buda era. Buda costumava chamar a si mesmo de médico, não um filósofo.

            Pobre Doutor Eichling… não há nada errado. Quando não há nada ali, como algo pode estar errado? Fisiologicamente ele estava absolutamente em ordem. Psicologicamente o problema ainda existe: a sua amada é agora a amada de outrem. Isso dói – mas onde?

            Ninguém sabe onde dói. Nos pulmões? No peito? Era aqui que o Doutor Eichling mostrava a sua dor, no peito. Doutor Eichling, não é no seu peito, é na sua mente, no seu ciúme. E o centro do ciúme certamente não é no peito; de fato, tudo tem o seu centro na mente.

            Se vocês forem seguidores de B. F. Skinner, ou Pavlov, o avô ou talvez o bisavô de Skinner e contemporâneo de Freud, o seu maior oponente também – então ‘mente’ não é a palavra correta; vocês podem ler ‘cérebro’ em seu lugar. Mas o cérebro é apenas o corpo da mente, o mecanismo através do qual a mente funciona. Quer você o chame de mente ou cérebro não importa; o que importa é que tudo tem o seu centro ali.

            Doutor Eichling – não posso chamá-lo de Shunyo porque na frente do seu escritório em Madras, em sua placa ele escreveu “Escritório do Doutor Eichling.” Se você telefonar para ele, a sua assistente diz, “O Doutor Eichling? Ele não está disponível. Ele está em uma reunião.” Vou chamá-lo novamente de Shunyo quando aquela placa desaparecer, e sua estúpida assistente perguntar, “Quem é esse sujeito Eichling? Nós nunca ouvimos falar dele. Sim, certa vez ele esteve aqui, então foi para a Índia e morreu lá. Um sujeito chamado Shunyo retornou em seu lugar.” Chamarei-o de Shunyo apenas quando ele enterrar a sua placa, pular sobre ela e desaparecer.

            Mas a história, ou melhor a fofoca, foi apenas para contar para vocês que tudo existe primeiro na mente; somente então no corpo. O corpo é uma extensão da mente na matéria. O cérebro é o início desta extensão, e o corpo a sua manifestação plena, mas a semente está na mente. A mente carrega não apenas a semente do corpo, mas ela também tem a possibilidade de tornar-se quase qualquer coisa. O seu potencial é infinito. Todo o passado da humanidade está contido nela – e não apenas o passado da humanidade, mas até mesmo o passado pré-humano.

            Durante os nove meses no útero materno a criança passa por quase três milhões de anos de evolução… muito rapidamente é claro, como se você visse um filme tão rápido que é difícil vê-lo – apenas vislumbres. Mas em nove meses a criança certamente passa por toda a vida desde o seu início. No início – e não estou citando a Bíblia, estou apenas declarando os fatos da vida de qualquer criança – no início toda criança é um peixe, assim como certa vez toda a vida iniciou-se no oceano. O ser humano ainda carrega a mesma quantidade de sal em seu corpo do que a água do mar. A mente do ser humano interpreta o drama repetidamente: todo o drama do nascimento, do peixe ao idoso arquejando o seu último suspiro.

            Eu queria voltar à vila, mas era quase impossível reganhar o que havia se perdido. Foi aqui que entendi que é melhor nunca voltar a nada. Desde então estive em muitos locais, mas nunca voltei a nenhum. Uma vez que deixo um local deixo-o para sempre. Aquele episódio da minha infância determinou para sempre um certo padrão, uma estrutura, um sistema. Embora eu quisesse ir, não havia suporte. A minha avó simplesmente disse, “Não, não posso voltar para a vila. Se o meu marido não está lá então por que eu voltaria? Fui para lá apenas por causa dele, não pela vila. Se eu tiver que ir para algum lugar, gostaria de ir para Khajuraho.”

            Mas isso também era impossível porque os pais dela estavam mortos. Posteriormente visitei a casa dela, onde ela nasceu. Era apenas uma ruína. Não havia possibilidade de voltar para lá. E Bhoora, que era a única pessoa que estava pronta para voltar, morreu logo depois da morte do seu mestre, apenas vinte e quatro horas depois.

            Ninguém estava preparado para ver duas mortes acontecer tão rapidamente, especialmente eu, a quem ambos significavam muito. Bhoora pode ter sido apenas um servo obediente para meu avô, mas para mim ele era um amigo. Na maior parte do tempo estávamos juntos – nos campos, na floresta, no lago, em todos os lugares. Bhoora me seguia como uma sombra, sem interferir, sempre pronto para ajudar, e com um coração tremendo… tão pobre e, entretanto, tão rico, juntos.

            Ele nunca me convidou para sua casa. Uma vez perguntei, “Bhoora, por que você nunca me convida para sua casa?”

            Ele disse, “Sou tão pobre que embora eu queira convidá-lo, a minha pobreza impede-me. Não quero que você veja aquela casa feia em toda sua sujeira. Nessa vida não serei capaz de convidá-lo. Realmente abandonei a própria ideia.”

            Ele era muito pobre. Naquela vila haviam duas partes: uma para as castas altas e outra para as pobres, do outro lado do lago. Era lá que Bhoora vivia. Embora eu tenha tentado muitas vezes chegar na sua casa, não consegui porque ele sempre me seguia como uma sombra. Ele me impedia antes mesmo de eu dar um passo naquela direção.

            Até mesmo o meu cavalo costumava ouvi-lo. Quando acontecia deste ir na direção da sua casa, Bhoora dizia, “Não! Não vá.” É claro que ele havia criado o cavalo desde a sua infância; eles entendiam um ao outro, e o cavalo parava. Não havia como fazer com que o cavalo se movesse na direção da casa de Bhoora, ou mesmo na parte mais pobre da vila. Eu sempre a via do outro lado, do lado mais rico, onde os brâmanes e os Jainas viviam, e todos aqueles que eram puros por nascimento. Bhoora era um sudra. A palavra ‘sudra’ significa “impuro por nascimento,” e não há como um sudra purificar-se.

            Esta é a obra de Manu. É por isso que o condeno e odeio. Eu o denuncio e quero que o mundo conheça este homem, Manu, porque a menos que conheçamos essas pessoas nunca seremos capazes de livrarmo-nos delas. Elas continuarão a nos influenciar de alguma forma ou outra. Pode ser a raça – até mesmo na América, se você é um negro, você é um sudra, um “nigger,” intocável.

            Seja você um negro ou um branco, ambos precisam estar familiarizados com a filosofia insana de Manu. Foi Manu que influenciou as duas Guerras Mundiais de uma maneira muito sutil. E talvez ele será a causa da terceira, e última… um homem realmente influente!

            Mesmo antes de Dale Carnegie escrever o seu livro, Como Ganhar Amigos e Influenciar as Pessoas, Manu sabia de todos os segredos. De fato, surge a pergunta de quantos amigos Dale Carnegie teve, e quantas pessoas ele influenciou. Ele certamente não é como Karl Marx, Sigmund Freud, Mahatma Gandhi. E todas essas pessoas não estavam familiarizadas de maneira alguma com a ciência do influenciar pessoas. Elas não precisaram conhecê-la, elas a tinham em suas entranhas.

            Não acho que nenhum homem influenciou mais a humanidade do que Manu. Até mesmo hoje, você conhecendo o seu nome ou não, ele o influencia. Se você se acha superior apenas porque é branco ou negro, ou apenas porque é um homem ou uma mulher, de alguma forma Manu está puxando as suas cordas. Manu tem que ser absolutamente descartado.

            Eu queria dizer outra coisa, mas comecei com um passo errado. A minha Nani era muito insistente: “Sempre desça da cama com o pé direito.” E vocês ficarão surpresos em saber, hoje não segui o conselho dela, e tudo está dando errado. Comecei com um “ok” errado; ora, quando no próprio começo você não está ok, naturalmente, tudo o que se segue torna-se frenético.

Ainda há algum tempo para eu dizer algo certo? Bom. Vamos recomeçar.

            Eu queria ir à vila, mas ninguém estava pronto para me apoiar. Eu não concebia como poderia viver lá sozinho, sem o meu avô, a minha avó, ou Bhoora. Não, não era possível, então eu relutantemente disse, “Ok, ficarei na vila do meu pai.” Mas minha mãe naturalmente queria que eu ficasse com ela e não com a minha avó, que desde o início deixou claro que ficaria na mesma vila, mas separada. Uma pequena casa foi encontrada para ela em um lugar muito bonito próximo ao rio.

            A minha mãe insistiu para que eu ficasse com ela. Por mais de sete anos eu não vivia com a minha família. Mas a minha família não é uma coisa pequena, ela se parece mais com um jumbo – tantas pessoas, todos os tipos de pessoas: meus tios, tias, os seus filhos e os parentes dos tios, e assim por diante. 

            Na Índia a família não é o mesmo que no Ocidente. No Ocidente a família é somente singular: o marido, a esposa, um, dois ou três filhos. No máximo haverão cinco pessoas na família. Na Índia as pessoas ririam – cinco? Apenas cinco? Na Índia a família é incontável. Há centenas de pessoas. Os convidados vêm para visitar e nunca vão embora, e ninguém diz para eles, “Por favor, está na hora de ir,” porque de fato ninguém sabe quem os convidou.

            O pai pensa, “Talvez eles são parentes da minha esposa então é melhor ficar quieto.” A mãe pensa, “talvez eles são parentes do meu marido…” Na Índia é possível entrar em uma casa que você não tem nenhuma relação e se você se mantiver calado, você poderá morar ali para sempre. Ninguém vai pedir para você sair; todos pensarão que alguém o convidou. Você só tem que permanecer quieto e sorrindo.

            Era uma família grande. O meu avô – o pai do meu pai – era um homem que nunca gostei muito, para dizer o mínimo. Ele era tão diferente do meu outro avô, o oposto; muito agitado, pronto para pular em alguém a qualquer hora, pronto para aceitar qualquer desculpa para brigar. Ele era um lutador real, com ou sem causa. A própria luta era o seu exercício, e ele estava continuamente lutando. Era raro vê-lo quando não estava brigando com alguém, e, estranhamente, haviam pessoas que o amavam também.

            O meu pai tinha uma pequena loja de roupas. De vez em quando eu costumava sentar-me ali só para observar as pessoas e ver o que estava acontecendo, e, às vezes era realmente interessante. A coisa mais interessante era quando algumas pessoas perguntavam a meu pai, “Onde está o Baba?” – este era o meu avô. “Queremos negociar com ele, e não com mais ninguém.”

            Fiquei intrigado porque o meu pai era tão simples, tão verdadeiro e honesto. Ele diria simplesmente para as pessoas o preço de um item dessa forma: “Este é o meu preço de custo. Agora você decide quanto lucro você quer nos dar. Deixarei para você. Não posso reduzir o preço de custo é claro, mas você pode decidir quanto quer pagar.” Ele diria aos seus clientes, “Vinte rúpias é o preço de custo; você pode me dar uma ou duas rúpias a mais. Duas rúpias significa dez por cento de lucro, e isso é o suficiente para mim.”

            Mas as pessoas perguntavam, “Onde está o Baba? – porque a menos que ele esteja aqui não há alegria do negociar.” Eu não pude acreditar no início, mas posteriormente vi o ponto delas. A alegria da barganha, da compra, ou – como vocês a chamam – pechincha?* [NT. Higgling. A pronúncia correta é Haggling.]

            “Pechincha, Osho.”

            Pechincha? Bom. Devia ser uma grande alegria para os clientes, porque se o item era vinte rúpias, meu Baba começaria em cinquenta rúpias e depois de uma longa sessão de pechincha, que ambos haviam desfrutado, eles fechariam em algum lugar próximo a trinta rúpias.

            Eu costumava rir; e quando o cliente ia embora o meu Baba costumava dizer-me, “Você não deve rir nesses momentos. Você deve ficar sério, como se fôssemos perder dinheiro. Não podemos perder, é claro,” ele costumava me dizer. “Se a melancia cai na faca, ou a faca cai na melancia, em qualquer caso a melancia é cortada, e não a faca. Então não ria quando você vê que estou cobrando trinta rúpias por uma coisa que poderia ser comprada por apenas vinte rúpias do seu pai. O seu pai é um tolo.”

            E é claro que parecia que meu pai era um tolo – o mesmo tipo de tolo de Devageet. Agora cabe a ele alcançar a mesma tolice última que meu pai alcançou. Para os tolos tudo é possível, até mesmo a iluminação. Sim, meu pai era um tolo, e meu Baba era um homem muito esperto, um velho sagaz. No momento que lembro dele, ele é como uma raposa. Ele deve ter nascido alguma vez como uma raposa; ele era uma raposa.

            Tudo que Baba fazia era muito calculado. Ele seria um bom jogador de xadrez porque podia conceber pelo menos cinco passos à frente. Ele é realmente o homem mais esperto que já cruzei. Já vi muitos homens espertos, mas ninguém se compara com o meu Baba. Eu sempre perguntava de onde meu pai retirou a sua simplicidade. Talvez seja a natureza que não permite que as coisas saiam do equilíbrio, então ela deu uma criança muito simples para um homem muito complexo.

            Baba era um gênio da esperteza. Toda a vila tremia. Ninguém era capaz de conceber quais eram os seus planos. De fato, ele era um homem tal – e observei isso eu próprio – que quando íamos para um rio, o meu Baba e eu, e alguém perguntava, “Onde você está indo, Baba?” Toda a vila costumava chamá-lo de Baba; Baba significa apenas avô. Nós estávamos indo ao rio, e estava claro para todos onde estávamos indo, mas esse homem, com a sua qualidade diria, “À estação.” Eu olhava para ele, e ele olhava para mim e piscava.

            Eu ficava intrigado. Qual era o ponto? Nenhum negócio estava sendo feito, e supostamente você não deve mentir sem razão alguma. Quando o homem passava eu perguntava a ele, “Por que você piscou, Baba? E por que você mentiu para aquele homem sem razão? Por que você não pôde dizer ‘Ao rio,’ quando estamos indo ao rio? Ele sabe, todo mundo sabe que essa estrada leva ao rio e não à estação. Você sabe e ainda assim disse, ‘À estação.’”

            Ele disse, “Você não entende – é preciso praticar continuamente.”

            “Praticar o quê?” perguntei.

            Ele disse, “É preciso praticar continuamente o seu negócio. Eu não posso dizer a verdade porque então, um dia, fazendo negócio, posso simplesmente dizer o preço certo. E isso não é da sua conta; foi por isso que pisquei para você, para que você ficasse quieto. Em relação a mim, estamos indo à estação; se essa estrada leva até lá ou não, não é da conta de ninguém. Mesmo se aquele homem tivesse falado que esta estrada não leva a estação, eu teria dito apenas que irei à estação pelo rio. Cabe a mim. É possível ir a qualquer lugar por qualquer lugar. Pode demorar um pouco mais, isso é tudo.”

            Baba era esse tipo de homem. Ele vivia ali com todos os seus filhos, meu pai, seus irmãos e irmãs e seus cônjuges… e não era possível conhecer todas as pessoas que reuniam-se ali. Eu via pessoas chegando e nunca partindo. Não éramos ricos, entretanto havia o suficiente para todos comerem.

            Eu não queria entrar nessa família, eu disse a minha mãe, “Ou volto para a vila sozinho – o carro de boi está pronto e sei o caminho; vou chegar lá de alguma maneira. E conheço os aldeões: eles ajudarão a sustentar uma criança. E é apenas uma questão de alguns anos, então os repararei o máximo que puder. Mas não posso viver nessa família. Isso não é uma família, é um bazar.”

            E era um bazar, continuamente zunindo com tantas pessoas, sem espaço algum, nenhum silêncio. Até mesmo se um elefante tivesse saltado naquele lago antigo, ninguém ouviria o plop; havia muito acontecendo. Simplesmente recusei, dizendo, “Se eu tiver que ficar, então a única alternativa é viver com a minha Nani.”

            A minha mãe ficou ferida, é claro. Sinto muito, porque desde então a tenho ferido repetidas vezes. Não pude evitar. De fato, não fui responsável; a situação era tal que eu não podia viver naquela família depois de muitos anos de liberdade absoluta, silêncio, espaço. De fato, na casa do meu Nana eu era o único que era ouvido. O meu Nana era quase silencioso cantando o seu mantra, e é claro que a minha avó não tinha ninguém para conversar.

            Eu era o único a ser ouvido; caso contrário havia silêncio. Depois de anos em tal beatitude, então viver naquela suposta família, cheia de faces não-familiares, tios e seus sogros, primos – era demais! Era impossível distinguir quem era quem! Posteriormente eu costumava pensar que alguém deveria publicar um pequeno folheto sobre a minha família, um Quem é Quem.

            Quando eu era professor as pessoas costumavam vir até mim e dizer algo como, “Você não me conhece? Sou o irmão da sua mãe.”

            Eu olhava para a face do homem, então dizia, “Por favor seja outra pessoa, porque a minha mãe não tem irmãos – isso eu sei sobre a minha família.”

            Este homem em particular então falou, “Sim, você está certo. Eu quis dizer que sou realmente um primo.”

            Eu disse, “Assim sendo, tudo bem. E então, o que você quer? Quero dizer, quanto você quer? Você deve ter vindo para emprestar dinheiro.”

            Ele disse, “Ótimo! Mas é estranho, como você pôde ler a minha mente?”

            Eu disse, “É muito fácil. Apenas me diga quanto você quer.”

            Ele levou vinte rúpias e eu disse, “Obrigado Deus. Pelo menos perdi um parente. Agora ele nunca mais mostrará a sua cara novamente.”

            E foi isso o que aconteceu: nunca mais vi a sua cara novamente, em lugar algum. Centenas de pessoas emprestaram dinheiro de mim e ninguém nunca o devolveu. Eu ficava feliz que ninguém o fazia, porque se o fizesse seria apenas para pedir mais.

            Eu queria retornar à vila mas não pude. Tive que fazer um acordo apenas para não machucar a minha mãe. Mas sei que a tenho machucado e ferido. Qualquer coisa que ela queria eu nunca fiz; de fato, fiz apenas o oposto. Naturalmente, aos poucos ela me aceitou como alguém que estava perdido para ela.

            Acontecia de eu estar sentado justamente na sua frente e ela perguntava, “Você viu alguém por aqui? – porque quero enviar alguém para buscar vegetais no mercado.” O mercado não era longe – a vila era pequena, apenas dois minutos – e ela estava perguntando, “Você viu alguém?”

            Eu diria, “Não, não vi ninguém. A casa parece completamente vazia para mim. Estranho, onde foram todos os parentes? Eles sempre desaparecem quando há algum trabalho para ser feito.” Mas ela nunca me pedia para ir buscar vegetais para ela. Ela tentou uma ou duas vezes, e então abandonou a ideia para sempre.

            Uma vez ela me mandou comprar bananas, e eu trouxe tomates porque no caminho eu esqueci. Eu tentei; esse foi o problema. Eu repeti para mim mesmo, “Banana… banana… banana…” e então um cão latiu, ou alguém perguntou onde eu estava indo, e continuei dizendo, “Banana… banana… banana…”

            Eles disseram, “Ei! Você ficou louco?”

            Eu disse, “Fiquem quietos! Não fiquei louco. Vocês devem estar loucos. Que absurdo é esse, interrompendo as pessoas que estão silenciosas fazendo os seus trabalhos?” Mas até ali eu já tinha esquecido o que iria comprar, então trouxe qualquer coisa que pude conseguir. Mas tomates era a última coisa a trazer, porque eles não são permitidos em uma família Jaina. Minha mãe bateu na sua cabeça dizendo, “Isso é banana? Quando você entenderá?”

            Eu disse, “Meu Deus! Você pediu bananas? Esqueci – desculpe-me.”

            Ela disse, “Mesmo se você tivesse esquecido, você não poderia ter trazido outra coisa em vez de tomates? Você sabe que tomates não são permitidos em nossa casa” – porque eles são tão vermelhos, como carne, e em uma casa Jaina, mesmo uma similaridade com a carne… apenas a cor vermelha pode fazer você lembrar do sangue ou da carne. Até mesmo um tomate é suficiente para fazer um Jaina sentir-se doente.

            Pobres tomates! Eles são sujeitos tão simples e tão meditativos. Se você os ver sentados – eles sentam-se exatamente como os monges Budistas com suas cabeças raspadas, e eles parecem tão centrados também, como se tivessem feito centramento por toda as suas vidas, tão aterrados… mas os Jainas não gostam deles.

            Então tive que levar aqueles tomates de volta e distribuí-los aos pedintes. Eles sempre ficavam felizes ao verem-me. Os mendigos eram os únicos a ficarem felizes ao verem-me, porque sempre era uma ocasião que eu era enviado para jogar algo fora da casa. Eu nunca jogava fora, eu dava aos mendigos.

            Eu não podia viver na família de acordo com ela. Todo mundo estava procriando; toda mulher estava quase sempre grávida. Sempre que lembro da minha família de repente penso em surtar – embora eu não possa surtar; apenas desfruto a ideia de surtar. Todas as mulheres estavam sempre com uma barriga grande. Uma gravidez terminava, outra começava – e tantas crianças…

            “Não,” eu disse a minha mãe, “Sei que te machuca, e sinto muito, mas viverei com a minha avó. Ela é a única que pode entender-me e permitir-me não só amor, mas liberdade também.”

            Uma vez perguntei a minha Nani, “Por que você só teve a minha mãe?”

            Ela disse, “Que pergunta!”

            Eu disse, “…Porque nessa família toda mulher está sempre carregando um volume em sua barriga. Por que você só teve a minha mãe e nenhuma outra criança – pelo menos um irmão para ela?”

            Então ela disse algo que não posso esquecer: “Isso foi também por causa do seu Nana. Ele queria uma criança, então fizemos um acordo. Eu falei para ele, ‘Apenas uma criança, então será o seu destino se for um menino ou uma menina’ – porque ele queria um menino.” Ela riu, “E foi bom que nasceu uma menina; caso contrário de onde eu teria você? Sim, foi bom,” ela disse, “que eu não dei à luz a nenhuma outra criança; caso contrário você também não gostaria desse local. Teria muita gente.”

            Permaneci na vila do meu pai onze anos e fui forçado quase que violentamente a ir para a escola. E não era um negócio de um dia, era uma rotina de todos os dias. Toda manhã eu era forçado a ir para a escola. Um dos meus tios, ou qualquer pessoa, me levava até lá, esperava do lado de fora até que o professor tivesse tomado posse de mim – como se eu fosse um pedaço de propriedade a ser passado de uma mão para outra, ou um prisioneiro passando de uma mão para a outra. Mas é isso o que a educação ainda é: um fenômeno forçado e violento.

            Toda geração tenta corromper a nova geração. É um certo tipo de estupro, um estupro espiritual – e naturalmente os pais mais poderosos, fortes e maiores podem forçar a criança pequena. Fui um rebelde desde o primeiro dia que fui levado para a escola. No momento que vi os portões perguntei para o meu pai, “É uma prisão ou uma escola?”

            Meu pai disse, “Que pergunta! É uma escola. Não tenha medo.”

            Eu disse, “Não tenho medo, estou simplesmente investigando qual atitude devo tomar. Qual a necessidade desse portão grande?”

            O portão era fechado quando todas as crianças, os prisioneiros, entravam. Só era aberto novamente à tarde quando as crianças eram liberadas para a noite. Ainda posso ver aquele portão. Ainda posso ver-me com meu pai pronto para registrar-me naquela escola feia.

            A escola era feia, mas o portão era ainda mais feio. Ele era grande e era chamado de “Portão do Elefante,” Hathi Dwar. Um elefante podia passar por ele, ele era tão grande. Talvez ele seria bom para os elefantes de um circo – e era um circo – mas para crianças pequenas ele era muito grande.

            Terei que contar muitas coisas para vocês sobre esses nove anos…

 

Publicado por rafaelsc

"Ensinar não é encher um balde, é acender um fogo" Yeats "Creio porque é absurdo" Tertuliano "Seja uma luz para si próprio" Buda “Sentando-se quieto, sem fazer nada, a primavera vem e a grama cresce, por si só." Matsuo Bashō "O silêncio e a risada são a chave – silêncio dentro, risada fora" Osho

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