Sessão 12

 

Trabalhei à noite toda por causa de um pequeno comentário que fiz que talvez tenha sido ofensivo com Devaraj. Ele pode não o ter percebido, mas o comentário pesou sobre mim a noite inteira. Eu disse, “Nenhum buda já teve um dentista pessoal, mas Gautama o Buda teve um médico pessoal.” Isso não está totalmente correto, então consultei os registros, os registros Akáshicos.

            Terei que falar algumas coisas a mais, que ninguém se preocupa, particularmente os historiadores tolos. Eu não estava consultando a história. Eu tive que entrar no que H.G. Wells chamou A Máquina do Tempo, voltar no tempo. É o trabalho mais difícil, e vocês sabem que sou um homem preguiçoso. Ainda estou arquejando.

            O médico de Buda, Jivaka, foi dado a Buda por um rei, Bimbisara. Ademais, Bimbisara não era um sannyasin de Buda; ele era apenas um simpatizante. Por que Bimbisara deu Jivaka para Buda? – Jivaka era o médico particular de Bimbisara, o mais famoso daqueles dias – porque ele estava competindo com outro rei cujo nome era Prasenjita. Prasenjita ofereceu para Buda o seu médico particular. Ele havia acabado de mencionar que, “Sempre que você precisar, o meu médico particular estará ao seu serviço.”

            Isso foi demais para Bimbisara. Se Prasenjita podia fazê-lo, então Bimbisara mostraria para ele que podia oferecer o seu médico querido para Buda como um presente. Então, embora Jivaka seguisse Buda para qualquer lugar que este fosse, ele não era um discípulo, lembrem-se. Ele permaneceu um Hindu, um brâmane.

            Isso era estranho – um médico para Buda, continuamente consigo, mesmo em seus momentos mais íntimos, e ainda assim um brâmane? Isso mostra a verdade. Jivaka ainda recebia um salário do rei. Ele estava a serviço do rei. Se o rei queria que ele ficasse com Buda, tudo bem; um servo tem que seguir a ordem do seu mestre. Mesmo assim ele raramente ficava com Buda porque Bimbisara era velho e sempre precisava do seu médico, então ele o chamava de volta para a capital.

            Devaraj, talvez você não tenha pensado nisso, mas fiquei triste por ter sido um pouco cruel. Eu não deveria ter dito aquilo. Você é tão único como alguém pode ser. Em relação a ter sido o médico de um Buda, ninguém se compara com você, tanto no passado quanto no futuro… porque nunca haverá um homem tão simples, tão insano a ponto de chamar a si próprio de Zorba o Buda.

            Isso me faz lembrar da história que estava contando para vocês. Um grande fardo foi retirado do meu coração. Vocês podem até vê-lo na minha respiração. Estou realmente aliviado. Foi apenas um comentário simples, mas sou tão sensível, talvez mais do que um buda deveria ser. Mas o que posso fazer? Não posso ser um buda de acordo com outrem; só posso ser eu mesmo. Estou aliviado de um grande fardo que você pode não ter sentido de maneira alguma, ou, talvez, no fundo você estava consciente dele e deu risinhos apenas para escondê-lo. Você não pode esconder nada de mim.

            Mas, estranhamente, a consciência se torna ainda mais clara e desanuviada por qualquer coisa que ajuda o corpo a desaparecer. Estou segurando nessa cadeira apenas para lembrar-me que o corpo ainda está aqui. Não que eu o queira aqui, mas apenas para que vocês não surtem. Não há espaço aqui para quatro pessoas surtarem. Sim, se vocês surtarem para dentro há espaço em qualquer lugar.

            Agora chegamos à história. Chamo-a uma história – não que ela seja, mas tanto da vida se parece com uma história que se você souber como lê-la, você não precisaria de um romance. Pergunto-me por que J. Krishnamurti lê romances, e, ainda mais romances policiais. Algo lhe falta. Infelizmente ele não o pode ver, um homem de tanta inteligência, ou, talvez, ao vê-lo ele esteja tentando enganar-se através dos romances policiais.

            Ele diz que é afortunado por não ter lido o Bhagavad Gita, nem o Alcorão, nem o Rigveda… entretanto ele lê romances policiais. Ele deveria dizer também que é infeliz por ler romances policiais; ele nunca disse isso. Mas sei porque eu também era um convidado na mesma casa onde ele costumava ficar em Bombaim. A dama que era nossa anfitriã perguntou-me, “Quero perguntá-lo  apenas uma coisa: não o vejo lendo romances policiais – o que acontece? Ela disse, “Eu pensava que toda pessoa iluminada lia romances policiais.”

            Eu disse, “De onde você tirou essa ideia sem sentido?”

            Ela disse, “De Krishnamurti. Ele também fica aqui; o meu marido é seu seguidor. Também amo e sou simpatizante. Eu o vi lendo romances policiais de terceira classe e pensei que deveria haver algo nisso. Por favor me desculpe por ser curiosa sobre algo tão pessoal, mas eu estava olhando em sua mala de viagem. Pensei que talvez você estivesse escondendo romances policiais nela.”

            Eu costumava carregar não apenas uma mala, mas três grandes. Ela deve ter pensado que eu carregava quase uma biblioteca de romances policiais comigo, mas ela não pôde encontrar nem mesmo um único livro. Ela ficou intrigada.

            Outros amigos de Varanasi, onde J. Krishnamurti fica, perguntaram a mesma coisa. Ainda outros amigos de Nova Delhi fizeram a mesma questão. Não pode estar errado – tantas pessoas de muitos locais diferentes fazendo a mesma questão várias vezes. Muitas pessoas o viram ler romances policias enquanto viajava em aviões. De fato, falando a verdade para vocês, eu próprio o vi por sorte, em um avião viajando de Bombaim para Delhi. Ele estava lendo um romance policial naquele momento. Por um inevitável destino nós viajamos no mesmo avião, para que eu pudesse falar com certeza que ele lê romances policiais. Não preciso de testemunhas; eu próprio sou uma testemunha.

            Mas posso criar uma história sobre qualquer coisa pequena que acontece; ela apenas tem que ser trazida para um contexto adequado. Hoje de manhã eu estava falando para vocês sobre a época em que a rainha de Bhopal visitava a nossa vila, que era parte do seu estado, e ela nos convidou para sermos seus convidados em sua celebração anual. Quando ela estava na nossa vila ela perguntou para a minha Nani, “Por que você chama o garoto de Raja?”

            ‘Raja’ significa “rei,” e, naquele estado, o título de Raja era obviamente reservado para o dono do estado. Até mesmo o marido da rainha não era chamado de “Raja,” mas apenas “Príncipe” – Rajkumar – assim como o pobre Philip da Inglaterra é chamado de “Príncipe” Philip – nem mesmo “Rei.” Entretanto, estranhamente, ele é o único homem ali que se parece com um rei. Nem a rainha da Inglaterra se parece com uma rainha, nem mesmo o pobre Príncipe Charles se parece com o proverbial Príncipe Charmoso. O único homem que se parece com um rei não é chamado de rei, ele é chamado apenas de “Príncipe” Philip.

            Sinto muito por ele. A razão é que ele não pertence a mesma linhagem de sangue, e é o sangue que determina tudo, pelo menos no mundo idiota deles. Caso contrário sangue é sangue. No laboratório o sangue de um rei ou rainha não mostrará nada de diferente.

            Vocês dois são médicos, você é enfermeira, e a quarta pessoa aqui é um misto de enfermeira e doutora, sem um certificado é claro. Todos vocês podem entender que o sangue não pode ser um fator determinante. A Rainha Elizabeth tem o sangue certo – certo, não de acordo com o cientista, mas de acordo com os idiotas. Charles é seu filho, pelo menos cinquenta por cento; ele tem a herança. Philip é um estranho, e apenas para consolá-lo eles o chamam de “Príncipe.”

            Da mesma maneira, naquele pequeno estado, naquela época, a mulher era a cabeça e era chamada de rainha, rani, mas não havia raja. O seu marido era apenas um príncipe – Rajkumar. Naturalmente ela perguntou para a minha avó, “Por que você chama esse seu garoto de Raja?” Vocês ficarão surpresos em saber que era realmente ilegal naquele estado dar o nome de Raja para alguém. A minha avó riu e disse, “Ele é o rei do meu coração, e, no que diz respeito às leis, em breve deixaremos esse estado, mas não posso mudar o seu nome.”

            Até eu fiquei surpreso quando ela disse que nós em breve deixaríamos o estado… apenas para salvar o meu nome? Naquela noite eu disse para ela, “Nani, você está louca? Apenas para salvar esse nome estúpido…? Pode ser qualquer nome e no privado você pode chamar-me de Raja. Não é necessário deixarmos o estado.”

            Ela disse, “Sinto nas entranhas que em breve teremos que deixar esse estado. Por isso arrisquei.”

            E foi isso o que aconteceu. Esse incidente aconteceu quando eu tinha oito anos, e depois de um ano tivemos que deixar aquele estado para sempre… mas ela nunca deixou de me chamar de Raja. Mudei meu nome, apenas porque Raja – “o rei” – parecia muito esnobe, e eu não gostava que todos rissem na escola, e, ademais, não queria que ninguém mais me chamasse de Raja, exceto a minha avó. Era uma questão privada entre nós.

            Mas a rainha ficou ofendida pelo nome. Quão pobres essas pessoas são, os presidentes, os primeiros ministros… muito pobres! Entretanto eles são poderosos. Eles são idiotas ao máximo, entretanto, poderosos ao máximo também. É um mundo estranho.

            Eu disse para a minha avó, “Até onde entendo, ela não ficou apenas ofendida com o meu nome, ela tem ciúmes de você.” Eu podia vê-lo tão claramente que não havia nenhuma dúvida. “E”, disse-lhe, “Não estou lhe perguntando se estou certo ou errado.” De fato, isso determinou o meu jeito por toda a minha vida.

            Nunca perguntei para ninguém se estou certo ou errado. Errado ou certo, se quero fazê-lo, quero fazê-lo e o farei certo. Se é errado então o farei certo, mas nunca permiti que ninguém interferisse. Isso me deu o que tenho – nada desse mundo, nenhuma conta bancária, mas o que realmente importa: o sabor da beleza, do amor, da verdade, da eternidade… em resumo, de si próprio.

            Que horas são, Devageet?

            “Três minutos para as oito, Osho.”

            Ótimo. Também fui duro contigo na manhã de hoje. Não direi nada em relação àquilo, apenas isso: com qualquer pessoa que amo esqueço-me que tenho que comportar-me. Então eu farei ou direi coisas que são normais quando estou sozinho, isso é amor – estar com alguém como se estivéssemos sozinhos. Mas às vezes pode ser duro para a outra pessoa.

            Sempre posso dizer “desculpe-me,” mas é muito formal. E quando bato, e bato com frequência, é tão amoroso que um “desculpe-me” formal não funcionaria. Mas vocês podem ver as minhas lágrimas, elas dizem mais do que posso… muitas vezes mais. Relembro-os, no futuro também serei duro, talvez mais duro com vocês. Essa é a minha forma de ser amoroso. Espero que vocês entendam – se não hoje então amanhã, ou talvez no dia depois de amanhã. Mais que isso não posso dizer, porque pelo menos por esses dois dias estou confirmado. Estarei aqui. Permanece aberto, mas pelos próximos dois dias eu certamente estarei aqui.

            Eu estava falando que depois de um ano nós tivemos que deixar aquele estado e aquela vila. Disse antes que no caminho o meu avô morreu. Aquele foi o meu primeiro encontro com a morte, e foi um belo encontro. Não foi feio de maneira alguma, como acontece mais ou menos com quase todas as crianças do mundo. Felizmente eu fiquei ao lado do meu avô moribundo por horas, e ele morreu vagarosamente. Aos poucos eu podia sentir a morte acontecendo nele, e eu podia ver o seu grande silêncio.

            Também tive sorte que a minha Nani estava presente. Talvez sem ela eu teria perdido a beleza da morte, porque o amor e a morte são tão similares, talvez o mesmo. Ela me amava. Ela derramou o seu amor em mim, e a morte estava lá, acontecendo vagarosamente. Um carro de boi… ainda posso ouvir o seu som… o ruído das suas rodas nas pedras… Bhoora continuamente gritando com os bois… o som do seu chicote estalando… Ainda posso ouvir tudo. Está tão profundamente enraizado na minha experiência que acho que nem mesmo a minha morte o apagará. Talvez até mesmo morrendo eu poderei ouvir o som daquele carro de boi.

            A minha Nani segurava a minha mão, e eu estava completamente atordoado, não sabendo o que estava ocorrendo, totalmente no momento. A cabeça do meu avô estava no meu colo. Segurei as minhas mãos no seu peito, e, vagarosamente, a respiração desapareceu. Quando senti aquilo disse para a minha avó, “Sinto muito, Nani, mas parece que ele não está mais respirando.”

            Ela disse, “Está perfeitamente bem. Você não precisa se preocupar. Ele viveu o bastante, não há porque pedir por mais.” Ela também me disse, “Lembre-se, porque esses são os momentos que não devem ser esquecidos: nunca peça por mais. O que é, é suficiente.”

            É suficiente? Apenas dez minutos para mim; falarei para vocês quando parar. Tenho mais pressa que vocês. Por fim os seduzi.

            Agora posso dizer, com grande alegria, pare.

           

 

Sessão 13

 

Ok, remova a toalha. Ashu, perdoe-me, porque agora tenho que começar o meu negócio, e você pode entender que duas camisas juntas em um único tórax é muito difícil para o pobre tórax, particularmente para o pobre coração escondido por detrás do tórax. O coração não pode comportar-se de uma forma política ou diplomática. Ele não é um diplomata; ele é simples e infantil.

            Não consigo esquecer Jesus. Relembro-o mais do que qualquer Cristão do mundo. Jesus diz, “Abençoados são aqueles que se parecem com as crianças pequenas, pois deles é o reino de Deus.” A coisa mais importante para lembrar-se aqui é a palavra ‘pois’. Em todas as falas de Jesus que começam com “Abençoados são aqueles…” e terminam com “…o reino de Deus” essa passagem é única porque todas as outras declaram, “Abençoados são os humildes porque eles herdarão o reino de Deus.” Elas são lógicas e promessas para o futuro – o futuro que não existe. Essa é a única que diz, “…pois deles é o reino de Deus.” Nenhum futuro, nenhuma racionalidade, nenhuma razão, nenhuma promessa de lucro; apenas uma pura declaração de fato, ou antes, uma simples declaração de fato.

            Sempre fiquei impressionado com essa declaração, sempre maravilhado. Não acredito que alguém pode ficar impressionado pela mesma declaração repetidas vezes por trinta anos… Sim, por trinta anos essa declaração esteve comigo, e ela sempre trouxe um tiritar da alegria em meu coração: “Pois deles é o reino de Deus”…tão ilógico embora tão verdadeiro.

            Ashu, tenho que dizer para você remover a toalha porque dois negócios não podem acontecer juntos, particularmente no coração de alguém. E você tem sido tão boa comigo todos os dias desde que a conheci, e quando tento lembrar quando começou parece que a conheço desde sempre. Não estou brincando. Realmente quando penso em Ashu não posso lembrar-me quando ela entrou no meu mundo de pessoas íntimas. Parece que ela sempre esteve ali, sentada do meu lado, como uma enfermeira dental ou não. Agora ela tornou-se uma editora associada com Devaraj – esta é uma grande promoção. Agora você tem dois médicos. Isso não é ótimo? – você pode fazê-los brigar um contra o outro, e curtir!

            Agora cheguei à minha história… Antes da história é sempre bom ter uma pequena nota introdutória, a mais irracional possível, porque essa é exatamente a introdução certa para um homem como eu. Às vezes riu de mim mesmo, sem razão alguma… porque quando há razão, o riso para.

            Só é possível rir sem razão. O sorrir não tem relacionamento com a racionalidade, então, de vez em quando coloco a minha racionalidade de lado, e a irracionalidade também – lembre-se que elas são os dois lados da mesma coisa – e então dou uma risada verdadeiramente do coração.

            É claro que ninguém pode ouvi-la. Não é física, senão Devaraj ou Devageet a teriam detectado com os seus instrumentos. Eles não a podem detectar. É transcendental à toda instrumentalidade. Vejam que palavra bela eu criei: instrumentalidade. Escreva-a exatamente dessa forma, instru-mental-idade. Então vocês entenderão o que estou dizendo – pelos menos as palavras, e talvez, um dia, o sem palavras também. Essa é a minha esperança, o meu sonho para vocês todos.

            Vocês ficarão preocupados, porque hoje estou demorando muito para começar. Vocês me conhecem, eu conheço vocês. Eu irei o mais vagarosamente possível. Isso ajudará a esvaziar vocês. Esse é todo o meu negócio, esvaziar: vocês podem chamá-lo “Esvaziar Ilimitado.”

            No outro dia eu estava contando para vocês que a morte do meu avô foi o meu primeiro encontro com a morte. Sim, um encontro e algo a mais; não apenas um encontro, caso contrário eu perderia o seu significado real. Eu vi a morte e algo a mais que não estava morrendo, que estava flutuando acima dela, escapando do corpo… os elementos. Aquele encontrou determinou todo o curso da minha vida. Ele me deu uma direção, ou melhor, uma dimensão, que eu não conhecia antes.

            Eu tinha ouvido falar da morte das outras pessoas, mas apenas ouvido. Eu não tinha visto, e mesmo se tivesse, não tinha significado nada para mim.

            A menos que alguém que você ame morra, você não pode realmente encontrar a morte. Que isso seja enfatizado:

            A morte só pode ser encontrada na morte de um amado.

            Quando o amor mais a morte estão ao seu redor, existe uma transformação, uma imensa mutação, como se um novo ser nascesse. Você nunca mais é o mesmo. Mas as pessoas não amam, e porque não amam não podem experienciar a morte da forma que a experienciei. Sem amor, a morte não lhe dá as chaves da existência. Com amor, a morte lhe entrega as chaves para tudo o que existe.

            A minha primeira experiência de morte não foi um simples encontro. Ela foi complexa de muitas formas. O homem que eu amava estava morrendo. Eu o conhecia como meu pai. Ele me criou com absoluta liberdade, nenhuma inibição, nenhuma supressão e nenhum mandamento. Ele nunca me disse, “Não faça isso,” ou “Faça aquilo.” Somente agora posso compreender a beleza do homem. É muito difícil para um homem velho não dizer para uma criança, “Não faça isso, ou aquilo,” ou “Apenas sente-se aqui, não faça nada,” Mas ele nunca o fez. Não me lembro de uma única vez que ele tentou interferir no meu ser. Ele simplesmente retirava-se. Se ele achava que o que eu estava fazendo era errado, ele retirava-se e fechava os seus olhos.

            Uma vez lhe perguntei, “Nana, por que você fecha os olhos às vezes quando estou somente sentado do seu lado?”

            Ele disse, “Você não entende hoje, mas talvez algum dia. Fecho os meus olhos para não impedi-lo de fazer qualquer coisa que você estiver fazendo, seja ela certa ou errada. Não tenho que impedi-lo. Eu o tirei da sua mãe e pai. Se eu não puder te dar liberdade, então por que eu o tiraria dos seus pais? Tirei-o para que eles não interferissem em você. Como posso interferir?

            “Mas saiba,” ele continuou, “é uma grande tentação às vezes. Você é uma tentação. Eu não sabia, caso contrário eu não teria me arriscado. De alguma forma você é genial ao encontrar as coisas erradas para fazer. “Pergunto-me,” ele disse, “como você continua encontrando tantas coisas erradas para fazer. Ou eu estou completamente insano, ou você.”

            Eu disse, “Nana, não se preocupe. Se alguém está insano, então sou eu.” E a partir daquele dia tenho falado para as pessoas, “Não se preocupe comigo, sou um louco.”

            Eu disse isso para consolá-lo, e ainda o falo para consolar as pessoas que são realmente loucas. Mas quando você está em um hospício e você é o único que não é louco, o que você pode fazer a não ser falar para todos, “Relaxem, sou um louco, não me levem a sério.” Foi isso o que fiz a minha vida inteira.

            Ele costumava fechar os seus olhos, mas, às vezes, era uma tentação muito grande… Por exemplo, um dia eu estava montado em Bhoora, nosso servo. Ordenei que ele se comportasse como um cavalo. Primeiro ele ficou desnorteado, mas a minha avó disse, “O que tem de errado nisso? Você não pode atuar um pouco? Bhoora, comporte-se como um cavalo.” Então ele começou a fazer tudo o que um cavalo faria, e eu estava montado nele.

            Isso foi demais para o meu avô. Ele fechou os seus olhos e começou a cantar o seu mantra: “Namo arihantanam namo… namo siddhanam namo.

            É claro que parei, porque quando ele começava a cantar o seu mantra isso significava que aquilo tinha sido demais para ele. Era hora de parar. Balancei-o e disse, “Nana, volte, não é necessário cantar o seu mantra. Parei com o jogo. Você não viu que era apenas um jogo?”

            Ele olhou em meus olhos. Eu olhei nos seus olhos. Por um momento houve apenas o silêncio. Ele esperou eu falar. Ele teve que ceder; ele disse, “Certo, falarei primeiro.”

            Eu disse, “Está certo, porque se você permanecesse em silêncio, eu permaneceria em silêncio por toda a minha vida. É bom que você tenha falado, porque agora posso respondê-lo. O que você quer perguntar?”

            Ele disse, “Sempre quis perguntá-lo, por que você é tão travesso?”

            Eu disse, “Esta é uma questão que você deve reservar para Deus. Quando você encontrá-lo, pergunte, ‘Por que você criou esta criança tão travessa?’ Você não pode me perguntar isso. É quase como perguntar ‘Por que você é você?’ Ora, como isso pode ser respondível? No que me diz respeito, não estou nem um pouco preocupado. Estou apenas sendo eu mesmo. Isso é permitido ou não, nessa casa?” Nós estávamos sentados do lado de fora, no jardim.

            Ele olhou para mim novamente e perguntou, “O que você quer dizer?”

            Eu disse, “Você entendeu perfeitamente bem o que quero dizer. Se não me permitirem ser eu mesmo então não entrarei novamente nessa casa. Então, por favor, seja claro comigo: ou entro nessa casa com a licença para ser eu mesmo, ou esqueço-me dessa casa e serei apenas um andarilho, um vagabundo. Diga-me claramente e não hesite, vamos lá!”

            Ele riu e disse, “Você pode entrar na casa. É a sua casa. Se não posso resistir em interferir em você então eu deixarei a casa. Você não precisa.”

            Foi exatamente isso o que ele fez. Apenas dois meses depois desse diálogo ele não estava mais nesse mundo. Ele não deixou apenas a casa, ele deixou todas as casas, até o corpo, que era a sua casa real.

            Eu amava o homem porque ele amava a minha liberdade. Posso amar apenas se a minha liberdade é respeitada. Se eu tiver que barganhar por amor, pagando com a minha liberdade, então esse amor não é para mim. Então é para os meros mortais, não para aqueles que conheceram.

            Nesse mundo quase todos pensam que amam, mas se você olhar em volta para os amantes, eles são prisioneiros uns dos outros. Que tipo estranho de amor é o amor que cria escravidão! O amor pode alguma vez tornar-se escravidão? Mas em noventa e nove vírgula nove por cento dos casos isso acontece, porque desde o começo não existia amor.

            É fato que as pessoas ordinárias somente pensam que amam. Elas não amam – porque quando o amor chega, onde está o ‘eu’ e o ‘tu’? Quando o amor chega ele traz imediatamente um tremendo sentido de liberdade, não-possessividade. Mas esse amor acontece, infelizmente, muito raramente.

            Amor com liberdade – se vocês os têm, vocês são reis ou rainhas. Este é o reino real de Deus – amor com liberdade. O amor dá as raízes com a terra e a liberdade dá asas. 

            O meu avô deu-me ambos. Ele me deu o seu amor, mais do que deu para minha mãe e até mesmo minha avó; e ele me deu liberdade, que é o maior presente. Quando estava morrendo ele me deu o seu anel, e com uma lágrima em seu olho ele me disse, “Não tenho mais nada para te dar.”

            Eu disse, “Nana, você já me deu o presente mais precioso.”

            Ele abriu os seus olhos e disse, “O quê?”

            Eu ri e disse, “Você esqueceu? Você me deu o seu amor e você me deu liberdade. Acho que nenhuma criança teve tanta liberdade como a que você me deu. O que mais preciso? O que mais você pode me dar? Sou grato. Você pode morrer em paz.” Desde então eu vi muitas pessoas morrerem, mas morrer em paz é realmente difícil. Eu só vi cinco pessoas morrerem em paz: a primeira foi meu avô; a segunda foi o meu servo Bhoora; a terceira foi minha Nani; a quarta, meu pai, e a quinta foi Vimalkirti.

            Bhoora morreu porque não podia conceber viver em um mundo sem o seu mestre. Ele simplesmente morreu. Ele relaxou na morte. Ele veio conosco para a vila do meu pai porque ele dirigia o carro de boi. Quando não ouviu nada, nenhuma palavra de dentro do carro coberto, ele perguntou-me, “Beta” – que significa filho – “está tudo bem?”

            Repetidas vezes Bhoora perguntava, “Por que esse silêncio? Por que ninguém está falando?” Mas ele era o tipo de homem que não olharia dentro da cortina que separava ele de nós. Como ele poderia olhar dentro quando a minha avó estava ali? Este era o problema, ele não podia olhar. Mas repetidas vezes ele perguntava, “O que está acontecendo – por que todos estão em silêncio?”

            Eu disse, “Não há nada errado. Estamos aproveitando o silêncio. Nana quer que fiquemos em silêncio.” Isso era mentira, porque Nana estava morto – mas, de uma maneira era verdade. Ele estava em silêncio; aquela era uma mensagem para nós ficarmos em silêncio.

            Eu finalmente disse, “Bhoora, tudo está bem; Nana se foi.”

            Ele não podia acreditar. Ele disse, “Então como tudo pode estar bem? Sem ele não posso viver.” E dentro de vinte e quatro horas ele morreu. Assim como uma flor que se fecha… recusando-se a permanecer aberta no sol e na lua, por sua própria vontade. Nós tentamos de tudo para salvá-lo, porque agora nós estávamos em uma cidade maior, a cidade do meu pai.

            A cidade do meu pai era, para a Índia é claro, apenas uma cidade pequena. A população era de apenas vinte mil. Ela tinha um hospital e uma escola. Nós tentamos tudo o que foi possível para salvar Bhoora. O doutor no hospital ficou admirado porque ele não podia acreditar que esse homem era Indiano; ele parecia tão Europeu. Ele deve ter sido uma aberração da biologia, quem sabe. Algo deve ter dado certo. Assim como eles dizem, “Algo deve ter dado errado,” cunhei a frase, “Algo deve ter dado certo” – por que sempre errado?

            Bhoora estava em choque por causa da morte do seu mestre. Tivemos que mentir para ele até chegarmos na cidade. Apenas quando chegamos na cidade e o corpo foi retirado do carro de boi que Bhoora viu o que tinha ocorrido. Ele então fechou os seus olhos e nunca os abriu novamente. Ele disse, “Não posso ver meu mestre morto.” E aquela era apenas uma relação mestre-servo. Mas havia entre eles uma certa intimidade, uma certa proximidade que é indefinível. Ele nunca abriu os seus olhos novamente, isso posso garantir. Ele viveu apenas mais algumas horas, e ele entrou em coma antes de morrer.

            Antes de meu avô morrer ele falou para minha avó, “Cuide de Bhoora. Sei que você vai cuidar do Raja – não tenho que falar isso – mas cuide de Bhoora. Ele serviu a mim como ninguém.”

            Eu disse ao doutor, “Você pode entender o tipo de devoção que existia entre esses dois homens?”

            O doutor perguntou-me, “Ele é Europeu?”

            Eu disse, “Ele parece um.”

            O doutor disse, “Não seja traiçoeiro. Você é uma criança, apenas sete ou oito anos de idade, mas muito traiçoeira. Quando te perguntei se o seu avô estava morto você disse não, e isso não era verdade.”

            Eu disse, “Não, era verdade: ele não está morto. Um homem com um amor tão grande não pode estar morto. Se o amor puder morrer então não há esperança para o mundo. Não acredito que um homem que respeitava tanto a minha liberdade, a liberdade de uma criança pequena, está morto apenas porque não pode respirar. Não posso equacionar os dois, não respirar e morte.”

            O doutor Europeu olhou para mim com suspeitas e disse a meu tio, “Este garoto ou será um filósofo ou ficará louco.” Ele estava errado: sou ambos juntos. Não há questão de ou/ou. Não sou Soren Kierkegaard; não há questão de ou/ou. Mas pergunto-me porque ele não acreditou em mim… uma questão tão simples.

            Mas as coisas simples são as mais difíceis de acreditar; as coisas difíceis são as mais fáceis de acreditar. Por que você acreditaria? A sua mente diz, “É tão simples, não há nenhuma complexidade. Não há razão para acreditar.” A menos que você seja um Tertuliano, cuja declaração é uma das que mais amo…

            Se eu tivesse que escolher apenas uma declaração de toda a literatura em qualquer língua do mundo, sinto muito, mas eu não escolheria Jesus Cristo; eu não escolheria Gautama o Buda também; eu não escolheria nem Moisés ou Maomé, ou mesmo Lao Tsé ou Chuang Tzu. 

            Eu escolheria esse sujeito estranho que não é muito conhecido – Tertuliano. Não sei exatamente como o seu nome é pronunciado, então é melhor soletrá-lo: T-e-r-t-u-l-i-a-n-o. A citação que eu escolheria entre todas é, “Credo quia absurdum” – apenas três palavras – “Acredito porque é absurdo.”

            Parece que alguém o perguntou em que ele acreditava e por que, e Tertuliano respondeu, “Credo quia absurdum – é absurdo, por isso acredito.” A razão para acreditar dada por Tertuliano é absurdum – “porque é absurdo.”

            Esqueçam por um momento Tertuliano. Desçam a cortina sobre ele. Olhe para as rosas. Por que vocês as amam? Não é absurdo? Não há razão para amá-las. Se alguém persistir perguntando porque vocês amam rosas, vocês finalmente darão de ombros. Isso é “Credo quia absurdum,” este dar de ombros. Este é todo o significado da filosofia de Tertuliano.

            Eu não posso entender porque o doutor não pôde acreditar que meu avô não estava morto. Eu sabia e ele sabia que, no que diz respeito ao corpo, ele estava morto; não havia disputa sobre isso. Mas há algo mais do que o corpo – no corpo e, entretanto, sem fazer parte do corpo. Permitam-me repeti-lo para enfatizá-lo: no corpo e, entretanto, sem ser do corpo. O amor o revela; a liberdade lhe dá asas para elevar-se ao céu.

            Há mais tempo?

            “Sim, Osho.”

            Quanto? Estamos indo muito devagar, assim como a celebração de um homem pobre. Vá ao extremo. Não dessa forma, não devagar – este não é o meu jeito. Queime ou não queime de maneira alguma. Ou queime as duas pontas juntas ou deixe a escuridão ter a sua própria beleza.

Sessão 14

 

Vejam que cavalheiro Inglês eu sou! Embora quisesse interferir, não o fiz. Eu já tinha aberto a minha boca para falar mas parei. Isso chama-se autocontrole. Até eu posso rir. Quando vocês sussurram é algo tão bom. Embora eu saiba que vocês não sussurram bobagens, ainda assim soa bem – embora seja técnico e o que vocês estão falando seja perfeitamente científico. Mas entre vocês dois, vocês sabem, o velhaco está sentado na cadeira.

            Eu ainda não falei ok. Primeiro vá ao ponto que posso dizer ok. Quando o “ok” está longe de mim ele significa algo. Um ok de mim vem de muito longe… sou um lunático! Não conheço ninguém tão passado. Agora, à obra…

            Tvadiyam vastu Govinda, tubhyam eva samarpayet: “Meu Deus, esta vida que você me deu, a submeto novamente para você com o meu obrigado.” Essas foram as últimas palavras do meu avô, apesar dele não ser Hindu e nunca ter acreditado em Deus. Esta sentença, este sutra, é um sutra Hindu – mas na Índia as coisas são misturadas, particularmente as coisas boas. Antes de morrer, entre outras coisas, ele disse uma coisa repetidas vezes: “Pare a roda.”

            Naquele momento eu não podia entender. Se parássemos as rodas do carro, e aquelas eram as únicas rodas, então, como poderíamos chegar até o hospital? Quando ele repetia, “Pare a roda, o chakra,” eu perguntei para a minha avó, “Ele ficou louco?”

            Ela riu.

            Aquilo era o que eu gostava naquela mulher. Mesmo ela sabendo, como eu sabia, que a morte estava muito próxima… se até mesmo eu sabia, como seria possível que ela não soubesse? Era tão aparente que a qualquer momento ele pararia de respirar, entretanto ele insistia em parar a roda. Ainda assim ela riu. Posso vê-la rindo agora.

            Ela não tinha nem cinquenta anos. Mas sempre observei uma coisa estranha sobre as mulheres: as afetadas, que fingem ser belas, na idade de quarenta e cinco anos é o momento em que estão mais feias. Você pode cruzar o mundo e ver o que eu estou falando. Com todos os seus batons e maquiagem, sobrancelhas falsas e não sei o que mais… meu Deus!

            Até mesmo Deus não pensou nessas coisas quando criou o mundo. Pelo menos não é mencionado na Bíblia que no quinto dia ele criou o batom, e no sexto dia ele criou sobrancelhas postiças etc. Na idade de quarenta e cinco anos, se uma mulher é realmente bela ela chega ao ápice. A minha observação é: o homem chega ao seu ápice na idade de trinta e cinco, e a mulher na idade de quarenta e cinco. A mulher é capaz de viver dez anos a mais do que o homem – e isso não é injusto. Ela sofre tanto dando à luz às crianças que um pouco de vida extra, apenas para compensar, está perfeitamente certo.

            A minha avó tinha cinquenta anos, ainda no pico da sua beleza e juventude. Eu nunca esqueci aquele momento – foi um tremendo momento! O meu avô estava morrendo e pedindo para que nós parássemos as rodas. Que disparate! Como eu poderia parar as rodas? Nós tínhamos que chegar até o hospital, e sem as rodas nós nos perderíamos na floresta. E a minha avó estava rindo tão alto que até mesmo Bhoora, o servo, nosso motorista, perguntou, é claro que do lado de fora, “O que está acontecendo? Por que você ri?” Porque eu costumava chamá-la de Nani, Bhoora também costumava chamá-la de Nani, apenas por respeito a mim. Ele então falou, “Nani, meu mestre está doente e você está rindo tão alto; o que está acontecendo? E por que Raja está tão silencioso?”

            A morte e a minha avó rindo, ambas tornaram-me totalmente silencioso, porque eu queria entender o que estava ocorrendo. Algo estava ocorrendo que eu nunca tinha visto antes e eu não perderia um único momento com qualquer distração.

            O meu avô disse, “Pare a roda. Raja, você não pode me ouvir? Se posso ouvir a sua avó rindo você deve ser capaz de ouvir-me. Eu sei que ela é uma mulher estranha; nunca fui capaz de compreendê-la.”

            Eu disse a ele, “Nana, pelo que sei ela é a mulher mais simples que já vi, embora eu não tenha visto muito ainda.”

            Mas agora posso falar, não acho que exista nenhum homem na Terra, vivo ou morto, que viu tantas mulheres como eu. Mas apenas para consolar meu avô moribundo eu disse a ele, “Não se preocupe com seu riso. Eu a conheço. Ela não está rindo para o que você está dizendo, é algo entre nós, uma piada que contei a ela.”

            Ele disse, “Tudo bem. Se é uma piada que você lhe contou então está perfeitamente certo ela rir. Mas e o chakra, a roda?”

            Agora eu sei, mas naquele tempo eu desconhecia totalmente esta terminologia. A roda representa toda a obsessão Indiana com a roda da vida e morte. Por milhares de anos, milhões de pessoas fizeram apenas uma coisa: tentaram parar a roda. Ele não estava falando das rodas do carro de boi – estas eram muito fáceis de parar; de fato era difícil mantê-las se movendo.

            Não havia estrada – não somente naquele tempo, até mesmo agora! No ano passado um dos meus primos distantes visitou o ashram, e ele disse, “Eu quero trazer toda a minha vida aos seus pés, mas a dificuldade real é a estrada.”

            Eu disse, “Ainda?”

            Quase cinquenta anos se passaram, mas a Índia é um país tal que o tempo está paralisado. Quem sabe quando o relógio parou? Mas parou exatamente às doze horas, com ambas as mãos juntas. Isso é belo: o relógio decidiu o tempo correto. Em qualquer momento que ocorreu – e deve ter ocorrido a milhares de anos atrás – o relógio, ou aleatoriamente, ou por alguma inteligência computadorizada, parou às doze horas, com ambas as mãos juntas. Você não pode vê-las como duas, você pode ver apenas uma. Talvez era doze horas de uma noite… porque o país é tão escuro, e a escuridão é tão densa.

            “Meu Deus,” o homem disse para mim, “Eu não posso trazer a família inteira para vê-lo por causa da estrada.”

            Talvez eles nunca me verão, apenas por causa da estrada. Naquela época não existia estrada, e ainda hoje nenhuma linha férrea passa por aquela vila. É uma vila realmente pobre, e quando eu era criança era ainda mais pobre.

            Eu não podia entender naquele momento por que o meu Nana insistia tanto. Talvez o carro de boi – porque não havia estrada – estava fazendo muito barulho. Tudo estava rangendo, e ele estava agonizando, então naturalmente ele queria parar a roda. Mas a minha avó ria. Agora eu sei porque ela riu. Ele estava falando sobre a obsessão Indiana com a vida e a morte, simbolicamente chamada de roda da vida e morte – e, concisamente, de roda – que continua a girar.

            No mundo Ocidental apenas Friedrich Nietzsche teve a coragem e a loucura suficientes para propor a ideia do eterno retorno. Ele o emprestou da obsessão Oriental. Ele ficou muito impressionado com dois livros. O primeiro foi o Manu Smriti. Chama-se A Coleção dos Versos de Manu; é a mais importante escritura Hindu. Eu a odeio! Vocês podem entender a sua importância. Não posso odiar nada ordinário. Ela é extra-ordinariamente feia. Manu é um dos homens que eu esqueceria tudo sobre não-violência se o visse; eu atiraria nele! Ele merece.        Manu Samhita, Manu Smriti – por que o chamo de livro mais feio do mundo? Porque ele divide homens e mulheres – e não apenas homens e mulheres, mas ele divide a humanidade em quatro classes, e ninguém pode cruzar de uma classe para a outra. Ele cria hierarquia.

            Vocês ficarão surpresos em saber que Adolf Hitler sempre tinha uma cópia do Manu Samhita em sua mesa, do lado da sua cama. Ele respeitava mais este livro do que a Bíblia. Agora vocês podem entender porque o odeio. Eu não tenho uma cópia do Manu Samhita nem mesmo na minha biblioteca, embora eu tenha sido presenteado com no mínimo uma dúzia de cópias, mas sempre as queimei. Esta é a única maneira de comportar-se com esse livro. Respeitosamente, é claro, eu as queimei.

            Nietzsche amou dois livros e emprestou imensamente deles. O primeiro foi o Manu Samhita e o outro foi o Mahabharata. Este livro é, talvez, o maior no que diz respeito ao volume; é gigante! Não acho que a Bíblia, o Alcorão, o Dhammapada, o Tao Te Ching podem ser comparados com ele em relação ao volume. Vocês entender-me-ão apenas se o colocarem do lado da Enciclopédia Britânica. Comparado com o Mahabharata a Enciclopédia Britânica é somente um livro pequeno. É certamente uma grande obra, mas feia.

            Os cientistas sabem perfeitamente bem que existiram vários animais muito grandes na Terra no passado – quase do tamanho de uma montanha, mas muito feios. O Mahabharata está entre esses animais. Não que vocês não possam encontrar nada belo nele; ele é tão grande que se irem fundo vocês poderão certamente encontrar um rato aqui e ali na montanha.

            Esses dois livros influenciaram Nietzsche imensamente. Talvez nada foi mais responsável pela obra de Nietzsche do que esses dois livros. Um é de Manu, e o Mahabharata foi escrito por Vyasa. Devo conceder que esses dois livros fizeram um tremendo trabalho, um trabalho sujo! Seria melhor que esses dois livros não tivessem sido escritos de maneira alguma.

            Friedrich Nietzsche lembra-se desses dois livros com tanto respeito que vocês ficariam impressionados – impressionados porque esse era o homem que se autodenominava “anti-Cristo.” Mas não fiquem impressionados. Esses dois livros são anti-Cristo, de fato eles são contra qualquer coisa que é bela: anti-verdade, anti-amor. Não é coincidência que Nietzsche se apaixonou por eles. Embora ele nunca tenha gostado de Lao Tsé ou Buda, ele gostava de Manu e Krishna. Por quê?

            A questão é muito significante. Ele gostava de Manu porque amava a ideia de hierarquia. Ele era contra a democracia, liberdade, igualdade; em resumo ele era contra todos os verdadeiros valores. Ele também amava o livro de Vyasa, o Mahabharata, porque ele contém o conceito que apenas a guerra é bela. Uma vez ele escreveu em uma carta para sua irmã, “Nesse momento estou cercado de uma imensa beleza. Eu nunca vi tanta beleza.” Alguém pensaria que ele havia entrado no Jardim do Éden, mas não, ele estava assistindo a um desfile militar. O sol estava brilhando em suas espadas desembainhadas, e o som que ele chama de “o mais belo som que já ouvi” não era Beethoven ou Mozart, nem mesmo Wagner, mas o som das botas dos soldados Alemães marchando.

            Wagner era amigo de Nietzsche, e não apenas isso, mas algo a mais: Nietzsche apaixonou-se pela esposa do seu amigo. Pelo menos ele poderia ter pensado no pobre homem… mas não, ele pensou que nem Beethoven, nem Mozart, nem Wagner, ninguém podia comparar-se com a bela música das botas dos soldados Alemães. Para ele as espadas ao sol e o som do exército desfilando eram o máximo da beleza.

            Grande estética! E lembre-se, não sou um homem que está contra Friedrich Nietzsche. Eu o aprecio sempre que ele se aproxima da verdade, mas a verdade é meu valor e meu critério. “Espadas ao sol” e “o som das botas marchando” – quando ele se afasta da verdade, não importa quem seja, vou atingir a cabeça dele com uma espada desembainhada. E é tão belo: a espada desembainhada, e o som da cabeça de Friedrich Nietzsche sendo cortada, e o belo sangue por todo lado… Isso foi o que seu discípulo, Adolf Hitler, fez.

            Hitler adotou as ideias de Manu a partir de Nietzsche. Hitler não era um homem que poderia ter encontrado Manu sozinho; ele era um pigmeu. Nietzsche certamente era um gênio, mas um gênio que se perdeu. Ele era um homem que poderia ter se tornado um buda, mas infelizmente ele morreu apenas como um louco.

            Eu estava falando para vocês da obsessão Indiana, e, naquela referência lembrei-me de Nietzsche. Ele foi o primeiro no Ocidente a reconhecer a ideia de “eterno retorno.” Mas ele não foi honesto; ele não disse que a ideia foi emprestada. Ele fingiu ser original. É muito fácil fingir ser original, muito fácil; não precisa de muita inteligência. E, entretanto, ele era um homem de gênio. Ele nunca utilizou o seu gênio para descobrir algo; ele utilizou-o para emprestar das fontes que não eram ordinariamente conhecidas pelo mundo em geral. Quem conhece o Samhita de Manu? – e quem liga? Manu escreveu-o há cinco mil anos atrás. E quem se preocupa com o Mahabharata? É um livro tão grande que a menos que uma pessoa queira ficar louca ela não o lerá.

            Mas há pessoas que leem até a Enciclopédia Britânica. Eu conheço uma pessoa; ele era meu amigo pessoal. Este é o momento que eu deveria pelo menos lembrar do seu nome. Ele ainda pode estar vivo – este é o meu único medo – mas então também, não há razão para temer, simplesmente porque ele lê a Enciclopédia Britânica. Ele nunca vai ler o que estou falando – nunca, nunca; ele não tem tempo. Ele não apenas lê a Enciclopédia Britânica, ele a decora – e esta é a sua loucura. Caso contrário ele parece muito normal. Quando você menciona algo que é parte da enciclopédia ele imediatamente torna-se anormal, e começa a citar muitas páginas. Ele não liga se você quer ouvir ou não.

            Apenas essas pessoas leem o Mahabharata. É a enciclopédia Hindu; vamos chamá-la de “Enciclopédia Indiana.” Naturalmente ela deve ser maior que a Enciclopédia Britânica. A Inglaterra é apenas a Inglaterra – não é maior que um pequeno estado da Índia. A Índia tem pelo menos três dúzias de estados daquele tamanho – e isso não seria toda a Índia, porque metade da Índia é agora o Paquistão. Se vocês realmente quiserem uma imagem inteira da Índia, então vocês terão que fazer mais algumas adições.

            Burma uma vez foi parte da Índia. Foi apenas no início desse século que Burma foi desconectado da Índia. O Afeganistão foi parte da Índia; é quase um continente. Então o Mahabharata, a “Enciclopédia Indiana,” necessariamente deve ser mil vezes maior do que a Enciclopédia Britânica, que contém apenas trinta e dois volumes. Isso não é nada. Se vocês coletarem tudo o que falei vai dar mais do que isso.

            Alguém contou. Eu não sei com certeza porque nunca faço tais tolices, mas eles estimaram que escrevi trezentos e trinta e três livros até agora. Excelente! – não os livros, mas o homem que os contou. Ele deve esperar, porque muitos ainda estão em manuscrito e muitos outros ainda não foram traduzidos dos originais em Hindi. Quando tudo aquilo for coletado será a verdadeira “Enciclopédia Rajneeshica.” Mas o Mahabharata é maior, e sempre permanecerá como o maior livro do mundo – eu quero dizer em volume, em peso.

            Menciono-o porque eu estava falando da obsessão Indiana. Todo o Mahabharata não é nada mais que a obsessão Indiana escrita detalhadamente, volumosamente, dizendo que o ser humano nasce novamente, eternamente.

            Era por isso que meu avô estava dizendo, “Pare a roda.” Se eu pudesse parar a roda eu a pararia, não apenas para ele mas para todas as outras pessoas do mundo. Eu não apenas a pararia, eu a destruiria para sempre, para que ninguém pudesse retornar novamente. Mas ela não está em minhas mãos.

            Mas por que essa obsessão?

            Fiquei consciente de muitas coisas no momento da sua morte. Eu falarei sobre tudo que fiquei consciente naquele momento, porque aquilo determinou toda a minha vida.           

Sessão 15

 

Sempre amei a história contada por Henry Ford. Ele fez o seu carro mais belo e estava mostrando-o para um cliente muito próspero e promissor. Era o seu último modelo, e ele levou o cliente para dar uma volta. Depois de quarenta e cinco quilômetros o carro parou de repente.

            O cliente disse, “O quê? Um carro novo e ele para depois de quarenta e cinco quilômetros?

            For disse, “Desculpe-me, senhor. Esqueci de colocar petróleo.”

            Naqueles dias, até mesmo na América, o combustível era chamado petróleo, não gás.

            O cliente ficou impressionado. Ele disse, “O que você quer dizer? Você está falando que esse carro estava andando sem petróleo por quarenta e cinco quilômetros?”

            Ford disse, “Sim, senhor. Por trinta ou quarenta quilômetros apenas o meu nome é necessário: nenhum petróleo é necessário.”

            Se estou na área sou suficiente – nada mais é necessário. Posso não dormir à noite toda. Não é problema para mim – de certa maneira era uma noite bela. A lua estava tão brilhante… talvez a beleza e o brilho da lua não me deixaram dormir. Mas não, essas não podem ser as causas. Acho que a causa é que fui um pouco duro com Devageet. Sim, posso ser muito duro. Não sou duro, mas posso ser muito duro, particularmente em certos momentos quando vejo uma possibilidade de alguma abertura em vocês. Então eu realmente bato! – não com um pequeno martelo, mas com uma marreta. Quando é preciso bater, por que escolher um martelo pequeno? Termine com um golpe único! Às vezes sou muito duro, é por isso que às vezes tenho que ser muito suave – apenas para compensar, para trazer equilíbrio.

            Quando deixei a sala, embora você estivesse sorrindo, foi um pouco triste. Não pude esquecê-lo. É muito fácil para mim esquecer de algo; mas se fui duro, então não é fácil. Posso perdoar qualquer pessoa no mundo, exceto eu próprio. De qualquer forma o meu sono é apenas uma camada fina. Abaixo estou sempre acordado. A camada fina pode ser muito facilmente perturbada, mas apenas por mim, não por outrem.

            No momento em que saí da sala e o vi um pouco triste… talvez por muitas razões, não apenas o meu golpe. Mas, quaisquer que sejam as razões da sua tristeza, de alguma forma aprofundei a escuridão em você. E estou aqui para iluminá-lo, não para escurecê-lo – se esta palavra for permitida. De fato devemos torná-la uma palavra, ‘endarken’, porque muitas pessoas seguem escurecendo umas às outras. É estranho que a palavra não exista embora a realidade exista. A iluminação raramente ocorre e, entretanto, temos uma palavra para ela. Ainda não temos uma palavra para aquilo que vai além da iluminação, mas talvez haja um limite para tudo. Algo sempre estará além, muito longe, fora do escopo das palavras, mas transcendental.

            Mas escurecer deve tornar-se uma palavra comumente utilizada. Todo mundo está escurecendo todo mundo. O marido está escurecendo a esposa; caso contrário, o que ele está fazendo no escuro? Apenas escurecendo a sua esposa. E o que a esposa está fazendo? Ele é um tolo se pensa que apenas ele escurece ela. No escuro ela está escurecendo ele mais do que ele poderia lidar. De qualquer maneira ele precisa de óculos – ela ainda não os necessita. Ele é apenas um pobre supervisor, então é claro que precisa de óculos. O que ela é? Ela é uma mãe, uma esposa. Ela não precisa de óculos.

            No escuro, tenha consciência da mulher que você ama – particularmente no escuro. Talvez seja por isso que o homem utiliza a luz. Os homens amam a luz quando fazem amor; eles mantêm os seus olhos abertos quando fazem amor. As mulheres mantêm os olhos fechados. Elas não podem olhar sem rir da feiura de tudo o que está acontecendo – o babuíno sentado sobre elas, e tudo aquilo… etc, etc, etc.

            Fiquei com um pouco de dó. Digo um pouco porque para mim ficar apenas um pouco com dó é muito. Somente uma das minhas lágrimas é necessária. Não preciso chorar por horas, e arrancar o meu cabelo… que não existe mais. Ninguém nunca pensou em arrancar a própria barba. Não acho que em nenhuma língua, nem mesmo em Hebraico, exista uma expressão: “arrancar a própria barba,” E vocês conhecem os Hebreus e seus profetas bíblicos – todos eles tinham barba. É uma lei natural que se você tem barba você ficará calvo, porque a natureza sempre mantém o equilíbrio.

            Agora lembro-me da minha avó novamente…

            Embora eu fosse bem pequeno, ela costumava dizer-me, “Ouça, Raja, nunca deixe a barba.”

            Eu diria, “Por que você menciona isso? Tenho apenas dez anos, a minha barba nem nasceu. Por que você menciona isso?”

            Ela disse, “É preciso cavar um poço antes da casa incendiar-se.”

            Meu Deus! Ela estava realmente cavando um poço antes da casa incendiar-se. Ela era uma mulher realmente bela. Nunca entendi a sua resposta e disse, “Tudo bem, continue, fale o que você tem para falar.”      

            Ela disse, “Nunca, nunca deixe a barba crescer… embora eu saiba que você a deixará.”

            Eu disse, “Isso é estranho. Se você já sabe, então por que você está tentando impedir-me?”

            Ela disse, “Estou tentando o meu melhor, mas sei que você vai deixar a barba crescer. As pessoas como você sempre deixam a barba crescer. Eu te conheço há onze anos; deve haver alguma razão para isso.” E ela começou a ponderar sobre mim.

            Não há muito nisso; é que ninguém quer gastar seu tempo olhando para um espelho como um tolo, fazendo a barba. Pense em uma mulher com barba, olhando para um espelho – como ela pareceria? Um homem sem barba é exatamente igual a isso. É simples: salva tempo, e salva você de parecer um tolo, pelo menos em seu próprio espelho.

            Mas uma coisa é certa: no momento em que você começa a deixar a barba crescer você começa a ficar calvo. A natureza sempre se lembra de manter o equilíbrio. Ela pode te dar muito cabelo. Se você começa a deixar a barba crescer, então, é claro, a verba tem que ser cortada de algum local. É simples economia, pergunte a qualquer contador.

            Eu estava apenas um pouco preocupado com Devageet, sentindo como se tivesse lhe machucado. Talvez eu o tenha feito… talvez era necessário. Então não se preocupe com meu sono. Se algo é necessário, estou sempre pronto para perder a minha vida a qualquer momento – não por nenhuma causa nacional, não por nenhum estado, não por nenhuma raça, mas pelo indivíduo, por qualquer um que o coração ainda bata, que ainda sinta e seja capaz de todas as coisas infantis. Lembrem-se, estou dizendo “coisas infantis.” Significa uma pessoa que ainda é uma criança. Estou pronto para dar a minha vida se ela puder crescer, maturar, e tornar-se integral. Sempre que utilizo a palavra ‘integração’, sempre quero dizer inteligência mais amor; isso é igual a integração.

            Ora, isso tem sido uma longa nota de rodapé. Se George Bernard Shaw pôde ser perdoado, e não apenas perdoado, mas laureado com um prêmio Nobel, então vocês podem perdoar-me também. E não clamo por um Prêmio Nobel. Mesmo se eles tivessem me dado um prêmio Nobel, eu o teria recusado. Não é para mim – está cheio de sangue.

            O dinheiro dado com o Prêmio Nobel está ensopado de sangue, porque o homem, Nobel, era um fabricante de bombas. Ele ganhou seu imensurável dinheiro na Primeira Guerra Mundial vendendo armas para ambos os lados. Eu nunca gostaria de tocar em seu dinheiro. De fato, não toco em dinheiro há muitos anos, porque não tenho que. Alguém sempre cuida do dinheiro para mim – e o dinheiro é sempre sujo, não apenas o dinheiro do Prêmio Nobel.

            O homem que fundou o Prêmio Nobel estava sentindo-se realmente culpado, e apenas para livrar-se da sua culpa ele fundou o Prêmio Nobel. Foi um belo gesto, mas similar a matar um homem e então falar para ele, “Desculpe, senhor, por favor me desculpe.” Eu não aceitaria aquele dinheiro de sangue.

            George Bernard Shaw não era apenas respeitado, mas também foi laureado com um Prêmio Nobel, e seus pequenos livros tinham introduções tão longas que você se pergunta se o livro foi escrito pela introdução, ou a introdução para o livro. Até onde consigo ver o livro foi escrito para a introdução, e é isso o que aprecio.

            Essa foi uma longa nota introdutória. Não se preocupe com o meu sono, mas lembre-se de não se perturbar se sou duro. Embora você saiba, e todos saibam, que nada pode alterar-me, muitas coisas podem certamente alterar em meu corpo e mesmo na minha mente. É claro que não sou nem meu corpo nem a minha mente, mas tenho que funcionar a partir do meu corpo e minha mente.

            Agora posso ver que os meus lábios estão secos. Ora, isso pode ser feito por qualquer coisa do lado externo. Estou falando, mas os meus lábios secos estão criando problemas. Vou conseguir, mas eles são um obstáculo. Devageet, você pode ajudar – faça o seu truque. Ele será uma grande interrupção, e então posso começar. Obrigado…

            Agora à história.

            A morte não é o fim, mas apenas a culminação, da vida de alguém, um clímax. Não é que você acabou, mas você é transportado para outro corpo. É isso o que os Orientais chamam de “a roda.” Ela segue girando e girando. Sim, ela pode ser parada, mas o modo de pará-la não está no momento em que você está morrendo.

            Esta é uma das lições, a maior lição que aprendi na morte do meu avô. Ele estava chorando, com lágrimas em seus olhos, e pediu para que parássemos a roda. Nós não sabíamos o que fazer: como parar a roda?

            A sua roda era a sua roda; ela não era nem visível para nós. Era a sua própria consciência, e apenas ele poderia fazê-lo. Porque ele pedia para nós a pararmos, era óbvio que ele não poderia pará-la ele próprio; daí as lágrimas e sua constante insistência, pedindo várias vezes para nós, como se fôssemos surdos. Nós dissemos a ele, “Nós o ouvimos, Nana, e entendemos. Por favor fique em silêncio.”

            Naquele momento algo grande ocorreu. Eu nunca o revelei para ninguém; talvez antes desse momento não era a hora certa. Eu estava dizendo para ele, “Por favor fique em silêncio” – o carro de boi estava rangendo na estrada feia, ríspida. Não era nem uma estrada, somente um rastro, e ele insistia, “Pare a roda, Raja, ouviu? Pare a roda.”

            Muitas vezes eu lhe disse, “Sim, eu o ouvi. Entendo o que você quer dizer. Você sabe que ninguém exceto você pode parar a roda, então, por favor, fique em silêncio. Tentarei lhe ajudar.”

            A minha avó estava admirada. Ela me olhava com olhos grandes, maravilhados: o que eu estava falando? Como eu poderia ajudar?

            Eu disse, “Sim. Não fique tão admirada. De repente lembrei-me de uma das minhas vidas passadas. Vendo a morte dele lembrei-me de uma dentre as minhas próprias mortes.” Essa vida e morte aconteceu no Tibete. Este é o único país que sabe, muito cientificamente, como parar a roda. Então comecei a cantar algo.

            Nem a minha avó pôde entender, nem o meu moribundo avô, nem o meu servo Bhoora, que estava ouvindo atentamente do lado de fora. Ademais, nem eu podia entender uma única palavra do que estava cantando. Apenas depois de doze ou treze anos entendi o que era. Demorou todo esse tempo para que eu descobrisse. Era o Bardo Thodol, um ritual Tibetano.

            Quando um ser humano morre no Tibete, eles repetem um certo mantra. Este mantra é chamado bardo. O mantra diz, “Relaxe, fique em silêncio. Vá para o seu centro, esteja somente ali; não o deixe, não importa o que aconteça ao corpo. Seja apenas uma testemunha. Deixe acontecer, não interfira. Lembre-se, lembre-se, lembre-se que você é apenas uma testemunha; esta é a sua verdadeira natureza. Se você conseguir morrer lembrando-se, a roda para.”

            Eu repeti o Bardo Thodol para meu avô moribundo sem nem saber o que estava fazendo. Foi estranho – não apenas o repeti, mas também ele ficou totalmente silencioso ouvindo-o. Talvez o Tibetano seja uma coisa estranha de se ouvir. Ele pode nunca ter ouvido uma palavra de Tibetano antes; ele pode nunca nem ter ouvido falar que havia um país chamado Tibete. Até mesmo em sua morte ele ficou totalmente atento e em silêncio. O bardo funcionou embora ele não pudesse entendê-lo. Às vezes as coisas que você não entende funciona; elas funcionam somente porque você não as entende.

            Nenhum grande cirurgião pode operar o seu próprio filho. Por quê? Nenhum grande cirurgião pode operar um ente querido. Não falo da sua esposa – qualquer um poderia operar a sua própria esposa – falo de um ente querido, que certamente não é a sua esposa e nunca poderia ser. Reduzir os seus entes queridos à sua esposa é um crime. É claramente impune pela lei, mas a própria natureza pune, então não é necessária nenhuma lei.

            Nenhum amante pode ser reduzido a um marido. É tão feio ter um marido. A própria palavra é feia. Ela vem da mesma raiz de ‘husbandry’ [NT. pecuária, agricultura]; o marido é aquele que usa a mulher como um campo, um sítio, para plantar a sua semente. A palavra ‘marido’ tem que ser totalmente apagada de todas as línguas do mundo. É inumana. Um amante é entendível, mas não um marido!

            Eu estava repetindo o bardo embora não entendesse o seu significado, nem sabia de onde ele estava vindo, porque não o tinha lido ainda. Mas quando o repeti, somente o choque daquelas palavras estranhas fez o meu avô ficar em silêncio. Ele morreu naquele silêncio.

            Viver no silêncio é belo, mas morrer no silêncio é ainda mais belo, porque a morte é como um Everest, o maior pico dos Himalaias. Embora ninguém tivesse me ensinando, aprendi muito naquele momento de silêncio. Eu vi a mim mesmo repetindo algo absolutamente estranho. Aquilo me chocou para um novo plano de ser e empurrou-me para uma nova dimensão. Comecei uma nova busca, uma peregrinação.

            Nessa peregrinação encontrei mais homens notáveis do que Gurdjieff narra em seu livro Encontro com Homens Notáveis. Aos poucos, como e quando aconteceu, eu falarei sobre eles. Hoje posso falar sobre um desses homens notáveis.

            O seu nome real não é conhecido, nem a sua idade real, mas ele era chamado de “Magga Baba.” Magga simplesmente significa “grande caneca.” Ele sempre segurava a sua caneca. Ele a utilizava para tudo – para seu chá, seu leite, sua comida, para o dinheiro que as pessoas davam-no, ou para qualquer coisa que o momento demandava. Tudo o que ele possuía era a sua magga e é por isso que era conhecido como Magga Baba. Baba é uma palavra respeitosa. Ela simplesmente quer dizer avô, o pai de seu pai. Em Hindi o pai da sua mãe é nana, o pai de seu pai é baba.

            Magga Baba foi certamente um dos homens mais notáveis que já viveram nesse planeta. Ele foi realmente um dos escolhidos. Vocês podem contá-lo com Jesus, Buda, Lao Tsé. Não sei nada sobre sua infância ou seus pais. Ninguém sabe de onde ele veio – um dia, de repente, ele apareceu na vila.

            Ele não falava. As pessoas persistiam em fazer questões de todos os tipos. Ele ou permanecia em silêncio, ou, se elas incomodavam muito, ele começava a gritar besteiras, absurdos, apenas sons sem sentidos. Aquelas pobres pessoas pensavam que ele estava falando em uma língua que talvez elas não entendiam. Ele não estava utilizando nenhuma língua. Ele estava apenas fazendo sons. Por exemplo, “Higgalal hoo hoo hoo guloo higga hee hee.” Então ele esperava e perguntava novamente, “Hee hee hee?” Parecia que ele perguntava, “Você entendeu?”

            E as pobres pessoas diziam, “Sim, Baba, sim.”

            Então ele mostrava a sua caneca e fazia um sinal. Este sinal na Índia significa dinheiro. Ele vem dos velhos dias em que existiam moedas reais de ouro e prata. As pessoas costumavam checar se era ouro real ou não ao jogar a moeda no chão e ouvir a seu som. O ouro real tem o seu próprio som, e ninguém pode forjá-lo. Então Magga Baba mostraria a sua magga com uma mãe e com a outra dava o sinal do dinheiro, significando, “Se você entendeu então me dê algo.” E as pessoas davam.

            Eu ria até as lágrimas porque ele não havia dito nada. Mas ele não era ávido por dinheiro. Ele tirava de uma pessoa e dava para outra. A sua magga estava sempre vazia. De vez em quando haveria algo nela. Ela era uma passagem: o dinheiro chegava e saía; alimento chegava e saía; e a magga sempre estava vazia. Ele estava sempre limpando-a. Vi-o limpando-a de manhã, de noite e de tarde, sempre limpando-a.

            Quero confessar a vocês – ‘vocês’ quer dizer o mundo – que eu era a única pessoa que ele costumava falar, mas apenas em privado, quando ninguém mais estava presente. Eu ia até ele tarde da noite, talvez duas da manhã, porque aquela era a hora mais provável de encontrá-lo a sós. Ele estaria abraçado a seu velho cobertor, na noite de inverno, do lado de um fogo. Eu sentava do seu lado por um tempo. Eu nunca o perturbava; esta era a única razão por que ele me amava. De vez em quando acontecia de ele virar de lado, abrir seus olhos, me ver sentado ali e começar a falar por sua própria vontade.

            Ele não falava Hindi, então as pessoas achavam difícil se comunicar com ele, mas isso não era verdade. Ele certamente não era familiarizado com o Hindi, mas ele sabia não apenas Hindi mas muitas outras línguas também. É claro que ele sabia mais a língua do silêncio; ele permaneceu em silêncio quase toda a sua vida. De dia ele não falava com ninguém, mas de noite ele falava comigo, apenas quando eu estava sozinho. Era uma bênção ouvir às suas poucas palavras.

            Magga Baba nunca disse nada sobre sua própria vida, mas ele disse muitas coisas sobre a vida. Ele foi o primeiro homem a me dizer, “A vida é mais do que ela aparenta ser. Não julgue pelo que a vida aparenta, mas vá fundo nos vales onde as raízes da vida estão.” De repente ele falava, de repente ele ficava em silêncio. Esta era a sua maneira. Não havia forma de persuadi-lo a falar: ou ele falava ou não. Ele não responderia a qualquer questão, e a conversa entre nós dois era um segredo absoluto. Ninguém sabia sobre isso. Essa é a primeira vez que conto.

            Ouvi muitos grandes oradores, e ele era apenas um homem pobre, mas as suas palavras eram puro mel, tão doces e nutritivas, tão prenhes de significado. “Mas,” ele me disse, “você não deve contar para ninguém que tem falado comigo até eu morrer, porque muitas pessoas pensam que sou surdo. É bom para mim que elas pensem assim. Muitos pensam que sou louco – isso é ainda melhor no que me diz respeito. Muitos que são muito intelectuais tentam compreender o que estou dizendo, e são apenas palavras sem sentido. Pergunto-me quando ouço o significado que eles derivam delas. Digo para mim mesmo, ‘Meu Deus! Se essas pessoas são intelectuais, professoras, pânditas e eruditas, então o que dizer sobre a pobre multidão? Eu não disse nada, entretanto elas criaram tantas coisas a partir do nada, assim como bolhas de sabão.”

            Por alguma razão, ou talvez sem razão nenhuma, ele me amava.

            Tive a sorte de ser amado por muitas pessoas estranhas, Magga Baba é o primeiro da minha lista.

            Todo o dia ele ficava cercado de pessoas. Ele era realmente um homem livre, entretanto, não era livre para mover-se porque as pessoas seguravam-no. Elas colocavam-no em um riquixá e levavam-no para onde quisessem. É claro que ele não dizia não, porque estava fingindo que era ou surdo, ou burro, ou louco. E ele nunca pronunciou uma palavra que podia ser encontrada em qualquer dicionário. Obviamente ele não poderia dizer sim ou não; ele simplesmente ia.

            Uma ou duas vezes ele foi roubado. Ele desapareceu por meses porque as pessoas de outra cidade o roubaram. Quando a polícia o encontrou e perguntou para ele se ele queria retornar, é claro que ele fez a sua coisa novamente. Ele disse algum disparate, “Yuddle fuddle shuddle…”

            A polícia disse, “Este homem está louco. O que escreveremos em nossos relatórios: ‘Yuddle fuddle shuddle’? O que isso quer dizer? Alguém pode entender isso?” Então ele permaneceu ali até que foi roubado de volta pelas pessoas da cidade original. Esta era a minha cidade, onde eu estava vivendo logo após a morte do meu avô.

            Eu o visitava quase todas as noites sem falta, debaixo da sua árvore neem, onde ele costumava dormir e viver. Mesmo quando eu estava doente e minha avó não me deixava sair, mesmo assim, durante a noite quando ela estava dormindo eu escapava. Mas eu tinha que ir; Magga Baba tinha que ser visitado pelo menos uma vez por dia. Ele era um tipo de alimento espiritual.

            Ele me ajudou tremendamente embora nunca tenha dado qualquer direção exceto pelo seu próprio ser. Apenas pela sua presença ele acionava forças desconhecidas em mim, desconhecidas para mim. Sou muitíssimo grato a este homem Magga Baba, e a maior bênção de todas foi que eu, uma criança pequena, era o único que ele costumava falar. Aqueles momentos de privacidade, sabendo que ele não falava com mais ninguém em todo o mundo, foram tremendamente fortalecedores, vitalizantes.

            Se, às vezes, eu fosse até ele e alguma outra pessoa estivesse presente, ele faria algo tão terrível que a outra pessoa escaparia. Por exemplo, ele jogaria coisas, ou pularia, ou dançaria como um louco, no meio da noite. Qualquer um ficaria com medo – afinal, todo mundo tem esposa, crianças e um emprego, e esse homem parece estar louco; ele poderia fazer qualquer coisa. Então, quando a pessoa ia embora, nós dois ríamos juntos.

            Eu nunca ria daquela forma com mais ninguém, e não acho que acontecerá novamente nessa vida… e não tenho nenhuma outra vida. A roda parou. Sim, está rodando um pouco, mas é somente um momentum do passado; nenhuma energia nova está sendo introduzida nela.

            Magga Baba era tão belo que não vi nenhum outro homem que pode ser colocado do seu lado. Ele era como uma escultura Romana, simplesmente perfeita – ainda mais perfeita do que qualquer escultura, porque ele estava vivo, tão cheio de vida eu quero dizer. Não sei se é possível encontrar um homem como Magga Baba novamente, e não quero, também, porque um Magga Baba é o suficiente, mais que suficiente. Ele foi tão satisfatório – e quem se preocupa com repetições? E, sei perfeitamente, não é possível ser mais alto do que aquilo.

            Eu próprio cheguei ao ponto onde você não pode subir mais. Não importa quão alto você for, você ainda estará na mesma altura. Em outras palavras, chega um momento no crescimento espiritual que é instransponível. Este momento é chamado, paradoxalmente, de transcendental.

            No dia em que ele partiu para os Himalaias pela primeira vez ele chamou-me. Durante a noite alguém foi até a minha casa e bateu na porta. O meu pai abriu e o homem disse que Magga Baba queria ver-me.

            Meu pai disse, “Magga Baba? O que ele quer com meu filho? Ademais ele nunca fala, então como ele poderia chamá-lo?”

            O homem disse, “Não sei de mais nada. Isso era tudo o que eu tinha para transmitir. Por favor, fale para a pessoa referida. Se esta pessoa é o seu filho, isso não é da minha conta.” E o homem desapareceu.

            O meu pai me acordou no meio da noite e disse, “Ouça, isso é significativo: Magga Baba quer te ver. Em primeiro lugar ele não fala…”

            Eu ri porque sabia que ele falava comigo, mas não falei para meu pai.

            Ele prosseguiu, “Ele quer vê-lo agora, no meio da noite. O que você vai fazer? Você vai até esse louco?”

            Eu disse, “Eu tenho que ir.”

            Ele disse, “Às vezes acho que você é um pouco louco também. Tudo bem, vá, e feche a porta do lado de fora para não me perturbar novamente quando você chegar.”

            Apressei-me, corri. Esta era a primeira vez que ele me chamava. Quando cheguei até ele eu disse, “O que está acontecendo?”

            Ele disse, “Esta é a minha última noite aqui. Estou partindo, talvez para sempre. Você é a única pessoa que converso aqui. Perdoe-me, tive que falar com aquele homem que enviei até você, mas ele não sabe de nada. Ele não me conhece como um homem espiritual. Ele era um estranho e o subornei dando-lhe uma rúpia, e disse a ele para entregar a mensagem na sua casa.”

            Naqueles dias, uma rúpia de ouro era muito. Há quarenta anos atrás na Índia uma rúpia de ouro era quase o suficiente para viver, em perfeito conforto, por um mês. Vocês sabem que a palavra Inglesa ‘rupee’ vem da palavra Hindi rupaiya que significa “o dourado”? De fato, a nota de papel não deveria chamar-se rúpia; não é dourada. Pelo menos os tolos poderiam tê-la pintado de dourado, mas eles não fizeram nem isso. Uma rúpia naqueles dias seria quase setecentas rúpias hoje. Muito mudou em apenas quarenta anos. As coisas tornaram-se setecentas vezes mais caras.

            Ele disse, “Eu apenas lhe dei uma rúpia e lhe disse para entregar a mensagem. Ele ficou tão desnorteado pela rúpia que nem olhou para mim. Ele era um estranho – nunca o vi antes.”

            Eu disse, “Posso dizer o mesmo. Nunca vi aquele homem nessa cidade; talvez ele esteja de passagem. Mas você não precisa se preocupar com isso. Por que você me chamou?”

            Magga Baba disse, “Estou partindo e não há ninguém que eu pudesse chamar para dizer adeus. Você era o único.” Ele me abraçou, beijou a minha testa, disse adeus e foi embora, exatamente dessa forma.

            Magga Baba desapareceu muitas vezes em sua vida – as pessoas o levavam e o traziam novamente – então quando ele desapareceu pela última vez, as pessoas não ligaram tanto. Apenas depois de alguns meses as pessoas ficaram conscientes que ele tinha desaparecido, que ele não voltava por vários meses. Elas começaram a procurar nos locais que ele estava anteriormente, mas ninguém sabia sobre ele.

            Naquela noite, antes de desaparecer ele me disse, “Talvez eu não seja capaz de vê-lo desabrochar em flor, mas as minhas bênçãos estarão com você. Talvez eu não consiga retornar. Estou indo para os Himalaias. Não diga nada a ninguém em relação ao meu paradeiro.” Ele estava tão feliz quando estava dizendo isso para mim, tão bem-aventurado por estar indo para os Himalaias. Os Himalaias sempre foram a casa de todos aqueles que buscaram e encontraram.

            Eu não sabia para onde ele tinha ido porque os Himalaias é a maior extensão de montanhas do mundo, mas, certa vez, enquanto eu viajava nos Himalaias eu fui até um local que parecia ser o seu túmulo. Estranho dizer que ele estava do lado de Moisés e Jesus. Estas duas pessoas também estão enterradas no fundo dos Himalaias. Eu fui até lá para ver o túmulo de Jesus; foi apenas uma coincidência eu ter encontrado Moisés e Magga Baba também. Foi uma surpresa é claro. Nunca imaginei que Magga Baba pudesse ter algo a ver com Moisés e Jesus, mas vendo o seu túmulo ali entendi imediatamente porque a sua face era tão bela; porque ele parecia mais com Moisés do que qualquer outro Hindu. Talvez ele pertencesse à tribo perdida. Moisés perdeu uma tribo quando estava a caminho de Israel. Esta tribo estabeleceu-se na Caxemira, nos Himalaias. Digo com autoridade que esta tribo foi mais certeira no encontrar Israel do que o próprio Moisés. O que Moisés encontrou em Israel era apenas um deserto, totalmente inútil. O que eles encontraram na Caxemira foi realmente o jardim de Deus.

            Moisés foi até lá em busca da sua tribo perdida. Jesus também foi para lá depois da sua suposta crucificação. Estou chamando-a de suposta porque ela não ocorreu, ele permaneceu vivo. Depois de seis horas na cruz Jesus não estava morto. A forma que os Judeus crucificavam as pessoas era um método tão cruel que levava quase trinta e seis horas para uma pessoa morrer.

            Foi arranjado por um discípulo muito rico de Jesus que a crucificação deveria ocorrer em uma sexta-feira. Foi tudo combinado… porque no sábado os Judeus não permitem que nenhum trabalho continue; é o dia sagrado deles. Jesus tinha que ser tirado da cruz e colocado em uma caverna temporariamente, até a próxima segunda-feira. Nesse ínterim ele foi roubado da caverna.

            Esta é a história que os Cristãos contam. O fato real é que na noite em que ele estava na caverna, depois de ser retirado da cruz, ele foi levado para fora de Israel. Ele estava vivo embora tivesse perdido muito sangue. Levou alguns dias para curá-lo, mas ele foi curado e viveu até a idade de cento e doze anos em uma pequena vila chamada Pahalgam nos Himalaias da Caxemira.

            Ele escolheu o lugar, Pahalgam, porque ele encontrou o túmulo de Moisés ali. Moisés havia ido antes para procurar a sua tribo perdida. Ele a encontrou, mas descobriu também que Israel não era nada comparado com a Caxemira. Nenhum outro lugar pode ser comparado com a Caxemira. Ele viveu e morreu ali – refiro-me a Moisés. E quando Jesus foi até a Caxemira com Tomás, o seu amado discípulo, ele enviou Tomás para mostrar para a Índia o seu caminho. Ele próprio morou na Caxemira, perto do túmulo de Moisés, pelo resto de sua vida.

            Magga Baba está enterrado na mesma pequena vila de Pahalgam. Quando estive em Pahalgam descobri um estranho relacionamento que parte de Moisés, passa por Jesus e Magga Baba e chega até mim.

            Antes de Magga Baba deixar a minha vila ele me deu a sua coberta dizendo, “Essa é a única coisa que possuo e você é a única pessoa que eu gostaria de dá-la.”

            Eu disse, “Tudo bem, mas meu pai não me deixará entrar com essa coberta em casa.”

            Ele riu, eu ri… ambos desfrutamos. Ele sabia perfeitamente bem que o meu pai não permitiria uma coberta tão suja como aquela em casa. Mas sinto muito e fico triste por não ter preservado aquela coberta. Não era muito – um trapo sujo e velho – mas pertencia a um homem da categoria de Buda e Jesus. Eu não poderia levá-la para minha casa porque meu pai era vendedor de roupas e muito cuidadoso com as vestes. Eu sabia perfeitamente bem que ele não permitiria. Eu também não poderia levá-la para a casa da minha avó. Ela não a permitiria porque era muito exigente em relação à limpeza.

            Adquiri minha frescura em relação à limpeza dela. É sua culpa, não é da minha responsabilidade de maneira alguma. Não posso tolerar qualquer coisa usada ou suja – impossível. Eu costumava falar para ela, rindo é claro, “Você está me mimando.”

            Mas é verdade. Ela sempre me mimou, mas sou grato a ela. Ela me mimou em favor da pureza, da limpeza e da beleza.

            Para mim Magga Baba era importante, mas se tivesse que escolher entre minha Nani e ele eu ainda escolheria minha Nani. Embora ela não fosse iluminada naquele momento e Magga Baba sim, às vezes um pessoa não-iluminada é tão bela que alguém a escolherá, mesmo se uma pessoa iluminada está disponível como uma alternativa.

            É claro que se eu pudesse escolher ambos eu o faria. Ou, se eu tivesse que escolher duas entre milhões de pessoas, então eu os escolheria a ambos. Magga Baba do lado de fora… ele não poderia entrar na casa da minha avó; ele permaneceria do lado de fora debaixo da sua árvore neem. E é claro a minha Nani poderia sentar-se do lado de Magga Baba. “Aquele sujeito!” ela costumava chamá-lo. “Aquele sujeito! Esqueça-o e nunca chegue próximo dele. Até mesmo quando você somente passar por ele, sempre tome um banho.” Ela sempre temeu que ele tivesse piolhos, porque ninguém nunca o viu tomando um banho.

            Talvez ela tivesse certa: ele nunca tomou um banho no intervalo que o conheci. Eles não podem existir juntos, isso também é verdade. A coexistência não seria possível nesse caso – mas sempre podemos tomar certas providências. Magga Baba poderia sempre ficar abaixo da árvore neem no jardim ao lado, e Nani poderia ser a rainha da casa. E eu sempre teria o amor de ambos, sem ter que escolher isso ou aquilo. Odeio “ou isso/ou aquilo.”

            Que horas são?

            “Dezesseis minutos depois das dez, Osho.”

            Cinco minutos para mim. Sejam gentis com um pobre homem, e depois de cinco minutos vocês podem parar.

Sessão 16

 

Existem seis grandes religiões no mundo. Elas podem ser divididas em duas categorias: a primeira consiste do Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. Elas creem em uma única vida. Você existe apenas entre o nascimento e a morte, não há nada além do nascimento e da morte – a vida é tudo. Embora elas acreditem em céu, inferno e Deus, estes são os ganhos de uma vida, uma única vida. A outra categoria consiste do Hinduísmo, Jainismo e Budismo. Estas acreditam na teoria da reencarnação. Um ser nasce novamente, eternamente – a menos que esse ser se torne iluminado, então a roda para.

            Era isso o que meu avô pedia enquanto estava morrendo, mas eu não tinha consciência de todo o seu significado… embora eu tenha repetido o bardo como uma máquina, sem nem entender o que estava dizendo ou fazendo. Agora posso entender a preocupação do pobre homem. Vocês podem chamá-la de “a preocupação última.” Se ela se torna uma doença, como ocorreu no Oriente, então é uma obsessão, então a condeno. Então é mais que uma doença; não é uma coisa a ser elogiada, mas realmente uma coisa a ser condenada.

            A obsessão é uma forma psicológica de condenar algo; por isso utilizei a palavra. Em relação às massas do Oriente, a obsessão tem sido uma doença por milhares de anos. Ela impediu que elas ficassem ricas, prósperas e afluentes, porque toda a preocupação foi como parar a roda. Quem então vai lubrificá-la e girá-la suavemente?

            É claro que preciso que os meus sannyasins mantenham as rodas dos Rolls rodando. Um pequeno barulho e eles estão em apuros… mesmo um doce barulho. Por dois dias um dos Rolls Royces estava fazendo um pequeno barulho – acontece de vez em quando – muito doce, como um pequeno pássaro cantando nas árvores. Mas não deve ser assim; um Rolls não deve ser um pássaro. E de onde vinha o barulho? Da direção. Não posso tolerá-lo. Como vocês sabem, não sou um homem intolerante – mas um Rolls Royce novo começando a cantar, e ainda por cima na direção?

            De fato, não sei nada sobre o que está debaixo do capô. Nunca olhei e nunca quis olhar. Isso não me interessa. Mas devo dizer que o barulho é doce, assim como o assobio de um pássaro pequenino. Mas ele deve parar. Um Rolls Royce não deveria assoviar, docemente ou não. E o que os rapazes estão fazendo? Toda a função deles – e sua meditação também – é apenas manter os Rolls Royces em perfeitas condições de trabalho. Até mesmo se os dois outros sujeitos, Rolls e Royce nascessem novamente eles teriam inveja porque estamos tentando melhorar o que eles fizeram. É claro que o Rolls é o melhor carro do mundo, mas é aperfeiçoável. Ele pode e deve ser melhorado… e eu não quero que as suas rodas parem.

            Os Indianos são obcecados. Tornou-se uma doença da alma parar a roda da vida e da morte. É claro que para eles a roda sempre os fez relembrar das rodas do carro de boi. Se eles quiserem pará-las estou perfeitamente de acordo. Mas há rodas melhores; não é necessário pará-las todas. De fato, a própria ideia de não nascer novamente simplesmente mostra que você não viveu. Pode parecer contraditório para vocês, mas permitam-me dizê-lo: apenas aquele que viveu totalmente para a roda da vida e da morte. Embora aqueles que querem pará-la sejam aqueles que não viveram de maneira alguma. Eles morrerão pessimamente. [NT. They will die a dog’s death.]

            Não sou contra os cães – notem, por favor – estou apenas usando uma metáfora. E deve ser significante, porque em Hindi também existe a mesma metáfora. É a única metáfora que é similar em ambos Hindi e Inglês. De fato, não similar, mas a mesma: kutte ki maut – “a morte de um cão.” Exatamente a mesma. Deve haver algo nela. Para descobrir o que é devo contar uma história a vocês.

            Diz-se que quando Deus fez o mundo – lembre-se que é apenas uma história – quando Deus fez o mundo, homem e mulher, animais e árvores e tudo, ele deu para todos o mesmo limite de idade: vinte anos.

            Pergunto-me, por que vinte anos? Talvez Deus também contava em seus dedos, e não apenas de suas mãos, mas de seus pés também: isso formaria vinte.

            Fiz minha própria pesquisa. De vez em quando em sua banheira, enquanto limpa os seus dedos dos pés e das mãos, você deve tê-los contado. Talvez um dia ele contou os seus e uma ideia deve ter vindo: dar a todos vinte anos de vida. Ele parece ser um poeta. Ele também parece ser um comunista. Agora os Americanos ficarão muito ofendidos. Deixe-os ficarem – eu não ligo. Se eu não liguei para ninguém mais no mundo, por que eu ligaria para os Yankees? E nessa fase da minha vida quero permanecer tão chocante, ou ainda mais, do que eu era antes.

            Eu sei com certeza que se Jesus tivesse permissão de ensinar um pouco mais, ele não teria sido tão chocante, ele teria se tornado mais razoável. Afinal, ele era um Judeu. Ele teria entendido, e então ele não teria falado tanto disparate – “o reino de Deus” – e aqueles doze tolos que ele ou eles próprios pensavam ser apóstolos! Ele deve ter dado a eles alguma dica; caso contrário, sendo tão tolos, eles não poderiam pensar nisso eles próprios.

            Jesus era tão chocante que mesmo o maior revolucionário daqueles dias, João Batista, que era também o mestre de Jesus e que foi aprisionado – na prisão, até mesmo da sua cela ele enviou uma mensagem para Jesus. Ele disse, “Ouvindo às suas declarações eu me pergunto, você realmente é o messias que temos esperado? – porque as suas declarações são tão chocantes.”

            Ora, chamo isso de um certificado. João Batista foi um dos maiores revolucionários do mundo; Jesus foi apenas um dos seus discípulos. É um acidente da história que João Batista esteja esquecido e Jesus seja lembrado.

            João Batista era puro fogo. A sua cabeça foi cortada. A rainha ordenou que sua cabeça fosse presenteada a ela em um prato; apenas então ela sentiria que o país permaneceria tranquilo. E isso foi feito. A cabeça de João Batista foi cortada, colocada em um belo prato de ouro e presenteada para a rainha. Esse homem, João Batista, também ficou um pouco preocupado quando ouviu os comentários escandalosos de Jesus. E digo que de vez em quando eles têm que ser editados – sim, até eu digo isso – não porque sejam escandalosos, mas porque eles começam a soar como insensatos. Escandalosos tudo bem, mas insensatos? Não.

            Pense somente em Jesus amaldiçoando a figueira porque ele e seus discípulos tinham fome e não havia frutos na árvore. Não era a estação. A culpa não era da árvore, entretanto ele ficou tão bravo que amaldiçoou a árvore, ela permaneceria feia para sempre.

            Ora, isso é o que chamo de tolice. Não ligo se foi dito por Jesus ou por qualquer outro. Ser escandaloso é parte da religiosidade, mas a tolice não. Talvez se Jesus tivesse ensinado um pouco mais – ele tinha apenas trinta e três anos quando foi crucificado – penso, sendo realmente um Judeu, ele ficaria pacífico na idade de setenta anos. Não haveria necessidade de crucificá-lo de maneira alguma. Os Judeus estavam com pressa.

            Acho que não era apenas os Judeus que estavam com pressa – porque os Judeus sabem mais – talvez a crucificação de Jesus veio dos Romanos, que sempre foram infantis e estúpidos. Não conheço ninguém como Jesus, ou um Buda, ou um Lao Tsé, que ocorreu à raça Romana e à sua história.

            Apenas um homem vem até mim; o Imperador Aurélio. Ele escreveu o famoso livro Meditações. É claro que não é o que chamo de meditação, apenas meditações. A minha meditação é sempre no singular; não pode haver plural nela. As suas meditações são realmente contemplações; não pode haver singular nelas. Marco Aurélio é o único nome que posso lembrar em toda a história Romana que vale a pena mencionar – mas mesmo assim não muito. Qualquer pobre Basho pode derrotar Marco Aurélio. Qualquer Kabir pode golpear o imperador e levá-lo para além dos seus sentidos.

            Não sei se isso é permitido em qualquer linguagem ou não, “levar alguém para além dos seus sentidos.” Trazer alguém para os seus sentidos é certamente permitido – mas esse não é o meu trabalho, qualquer um pode fazer isso. Até mesmo um bom golpe pode fazê-lo, uma pedra na estrada pode fazê-lo. Um buda não é necessário para isso; um buda é necessário para levá-lo além dos seus sentidos. Basho, Kabir, ou mesmo uma mulher como Lalla ou Rabiya poderiam realmente ter levado esse pobre imperador para esse além.

            Mas isso é tudo o que chegou dos Romanos – nada de mais – mas ainda assim é alguma coisa. Não se deve rejeitar alguém totalmente. Apenas por cortesia aceito Marco Aurélio, não como um homem iluminado, mas como um bom homem. Ele poderia ter sido iluminado se, por acaso, tivesse cruzado com um homem como Bodidarma. Apenas um olhar de Bodidarma nos olhos de Marco Aurélio seria o suficiente. Então ele teria conhecido, pela primeira vez, o que é a meditação.

            Ele teria voltado para casa e queimado tudo o que havia escrito até o momento. Talvez, então, ele deixaria uma coleção de esboços – uma Polygaloides paucifolia, uma rosa murchando, ou apenas uma nuvem flutuando no céu – umas poucas sentenças aqui e ali, sem dizer muito, mas o suficiente para provocar, o suficiente para desencadear um processo na pessoa que cruzar com eles. Isso seria um bloco de notas real sobre meditação, mas não sobre meditações… Não há plural possível.

            O Oriente, particularmente a Índia, pode ser chamada pelos psicólogos não apenas de obsessiva em relação à morte, mas realmente possuída pela ideia de suicídio. De uma forma o psicólogo estaria errado. É preciso viver enquanto se está vivo; não há necessidade de pensar na morte. E quando a morte chega é necessário morrer, e morrer totalmente; então não há nenhuma necessidade de olhar para trás. E a todo momento ser total na vida, no amor, na morte – é assim que alguém conhece. Conhece o quê? Não há o quê. Uma pessoa simplesmente conhece– não o quê, mas isso: o conhecedor. “O quê” é o objeto, “isso” é a própria subjetividade.

            No momento em que meu Nana morreu a minha avó ainda ria o último lampejo do seu riso. Então ela se controlou. Ela era certamente uma mulher que podia controlar a si mesma. Mas não fiquei impressionado com o seu controle, fiquei impressionado pelo seu riso na própria face da morte.

            Repetidas vezes eu perguntava para ela, “Nani, você pode me dizer por que você riu tão alto quando a morte era tão iminente? Se mesmo uma criança como eu estava consciente da morte, não é possível que você não estivesse.”

            Ela disse, “Eu estava consciente, por isso ri. Ri do pobre homem tentando parar a roda desnecessariamente, porque nem o nascimento nem a morte significam algo no final das contas.”

            Eu tive que esperar pelo momento quando pude perguntar e argumentar com ela. Quando eu mesmo tornei-me iluminado, pensei, então vou perguntá-la. E foi isso o que fiz.

            A primeira coisa que fiz depois da minha iluminação, na idade de vinte e um anos, foi correr para a vila onde a minha avó estava, a vila do meu pai. Ela nunca deixou aquele lugar onde o seu marido havia sido cremado. Aquele lugar tornou-se a sua casa. Ela se esqueceu de todas as luxúrias que estava acostumada. Ela se esqueceu de todos os jardins, dos campos, e do lago que possuía. Ela simplesmente nunca voltou, nem mesmo para resolver as coisas.

            Ela disse, “Qual é o ponto? Tudo está resolvido. O meu marido está morto, e a criança que amo não está lá; tudo está resolvido.”

            Imediatamente depois da minha iluminação corri até a vila para encontrar duas pessoas: a primeira, Magga Baba, o homem que eu estava falando anteriormente. Vocês certamente se perguntarão por que… Porque eu queria que alguém me dissesse, “Você está iluminado.” Eu sabia, mas queria ouvir de fora também. Magga Baba era o único homem que eu poderia perguntar naquele momento. Eu tinha ouvido que ele recentemente havia voltado à vila.

            Eu corri até ele. A vila era duas milhas da estação. Vocês não acreditam como eu corri até ele. Eu alcancei a árvore neem…

            A palavra ‘neem’ não pode ser traduzida porque não acho que nada como a árvore neem existe no Ocidente de maneira alguma. A árvore neem é algo estranho: se você provar as folhas elas são muito amargas; impossível acreditar que um veneno poderia ter um gosto mais venenoso. De fato é o oposto, ela não é venenosa. Se vocês comerem algumas poucas folhas da árvore neem todos os dias… o que é uma coisa difícil. Eu fiz isso por anos; cinquenta folhas de manhã e cinquenta de novo à noite. Ora, uma pessoa realmente determinada a se matar é necessária para comer cinquenta folha da árvore neem!

            Ela é tão amarga, mas ela purifica o sangue e lhe mantém totalmente livre de qualquer infecção – mesmo na Índia, o que é um milagre! Diz-se que até o vento que passa através das folhas da árvore neem é mais puro que qualquer outro. As pessoas plantam a árvore neem em torno das suas casas apenas para manter o ar puro e sem poluição. É um fato cientificamente provado que a árvore neem mantém longe todos os tipos de infecções ao criar uma barreira de proteção.

            Eu corri até a árvore neem onde Magga Baba sentava-se, e, no momento em que ele me viu, vocês sabem o que ele fez? Eu mesmo não podia acreditar – ele tocou os meus pés e chorou. Eu me senti muito envergonhado porque uma multidão se reuniu e todos pensavam que Magga Baba tinha ficado realmente louco agora. Até aquele momento ele era um pouco louco, mas agora ele havia desaparecido, desaparecido para sempre… gate, gate – desaparecido, e desaparecido para sempre. Mas Magga Baba riu e pela primeira vez, ele me disse na frente das pessoas, “Meu garoto, você conseguiu! Mas eu sabia que um dia você conseguiria.”

            Eu toquei os seus pés. Pela primeira vez ele tentou me impedir de o fazer, dizendo, “Não, não, não toque os meus pés novamente.”

            Mas eu ainda os tocava, apesar dele insistir. Eu não ligava e dizia, “Quieto! Faça o seu trabalho e deixe-me fazer o meu. Se sou iluminado como você diz, por favor não impeça um homem iluminado de tocar o seu pé.”

            Ele começou a rir de novo e disse, “Seu patife! Você está iluminado, mas ainda é um patife.”

            Eu então corri até a minha casa – isto é, a casa da minha Nani, não a do meu pai – porque ela era a mulher que eu queria contar o que aconteceu. Mas estranhas são as formas da existência: ela estava na porta, olhando para mim, um pouco maravilhada. Ela disse, “O que aconteceu com você? Você não é mais o mesmo.” Ela não era iluminada, mas era suficientemente inteligente para ver a diferença em mim.

            Eu disse, “Sim, eu não sou mais o mesmo, e eu vim para compartilhar a experiência que aconteceu comigo.”

            Ela disse, “Por favor, no que me diz respeito, sempre permaneça o meu Raja, a minha pequena criança.”

            Então eu não disse nada para ela. Um dia passou-se, então no meio da noite ela me acordou. Com lágrimas nos olhos ela disse, “Desculpe-me. Você não é mais o mesmo. Você pode fingir, mas posso ver através do seu fingimento. Não é necessário fingir. Você pode me contar o que aconteceu com você. A criança que eu conhecia está morta, mas alguém muito melhor e luminoso tomou o seu lugar. Não posso te chamar mais de meu, mas isso não importa. Agora você será capaz de ser chamado de meu por milhões, e todo mundo será capaz de sentir você como seu. Eu retiro a minha reivindicação – mas ensine-me também o caminho.”

            Essa foi a primeira vez que conto para alguém. A minha Nani foi meu primeiro discípulo. Eu ensinei o caminho para ela. O meu caminho é simples: estar em silêncio, experienciar em si próprio aquilo que é sempre o observador, e nunca o observado; conhecer o conhecedor, e esquecer o conhecido.

            O meu caminho é simples, tão simples como o de Lao Tsé, Chuang Tzu, Krishna, Cristo, Maomé, Zaratustra… porque apenas os nomes diferem, o caminho é o mesmo. Apenas os peregrinos são diferentes; a peregrinação é a mesma. E a verdade, o processo, é muito simples.

            Tive sorte de ter a minha avó como a minha primeira discípula, porque nunca encontrei alguém tão simples. Eu encontrei muitas pessoas simples, muito próximas da simplicidade dela, mas a profundidade da simplicidade dela era tal que ninguém nunca foi capaz de transcendê-la, nem mesmo o meu pai. Ele era simples, totalmente simples, e muito profundo, mas não em comparação a ela. Sinto muito dizer que ele está longe, e minha mãe está muito longe; ela não está nem próxima da simplicidade do meu pai.

            Vocês ficarão surpresos em saber – e estou declarando-o pela primeira vez – que minha Nani não foi apenas o meu primeiro discípulo, ela foi meu primeiro discípulo iluminado também, e ela tornou-se iluminada muito antes de eu começar a iniciar as pessoas em sannyas. Ela nunca foi uma sannyasin.

            Ela morreu em 1970, o ano em que comecei a iniciar as pessoas em sannyas. Ela estava em seu leito de morte quando ouviu falar do meu movimento. Embora eu próprio não tenha ouvido, um dos meus irmãos me disse que essas foram as suas últimas palavras… “Era como se ela estivesse falando com você,” meu irmão me disse. “Ela disse, ‘Raja, agora você começou um movimento de sannyas, mas é muito tarde. Eu não posso ser sua sannyasin porque no momento em que você chegar aqui eu não estarei mais nesse corpo, mas que fique registrado para você que quero ser sua sannyasin.”

            Ela morreu antes de eu alcançá-la, exatamente doze horas antes. Foi uma longa jornada de Bombaim até aquela pequena vila, mas ela insistiu que ninguém deveria tocar o seu corpo até eu chegar; então qualquer coisa que eu decidisse deveria ser feita. Se eu decidisse que o seu corpo seria enterrado, então tudo bem. Se eu decidisse que seu corpo seria cremado, então tudo bem também. Se eu decidisse outra coisa, tudo estaria certo também.

            Quando cheguei em casa não pude acreditar em meus olhos: ela tinha oitenta anos de idade e, entretanto, parecia tão jovem. Ela havia morrido há doze horas atrás, mas ainda não havia nenhum sinal de deterioração. Eu disse para ela, “Nani, cheguei. Sei que você não será capaz de me responder dessa vez. Estou dizendo apenas para que você saiba. Não é preciso responder.” De repente, quase um milagre! Outras pessoas estavam presentes, o meu pai, e toda a família estavam ali. De fato toda a vizinhança reuniu-se. Todas as pessoas viram uma coisa: uma lágrima rolou do seu olho esquerdo – depois de doze horas!

            Os doutores – por favor note isso, Devaraj – haviam declarado que ela estava morta. Ora, pessoas mortas não choram; até mesmo as pessoas reais raramente o fazem, o que dizer das pessoas mortas! Mas havia uma lágrima rolando do seu olho. Eu a recebi como uma resposta, e esperar o que mais? Eu ateei fogo à sua pira funerária, conforme o seu desejo. Eu não fiz isso nem no corpo do meu pai.

            Na Índia é quase uma lei absoluta que o filho mais velho deve atear o fogo na pira funerária de seu pai. Eu não fiz isso. No que diz respeito ao corpo do meu pai, eu nem mesmo fui ao seu funeral. O último funeral que participei foi o da minha Nani.

            Naquele dia eu disse para meu pai, “Ouça, Dada, não será possível eu ir ao seu funeral.”

            Ele disse, “Que bobagem você está falando? Eu ainda estou vivo.”

            Eu disse, “Eu sei que você ainda está vivo, mas por quanto tempo? Há alguns dias Nani estava viva; amanhã talvez você não esteja. Eu não quero assumir nenhum risco. Quero dizer agora que decidi não comparecer a nenhum outro funeral depois do da minha Nani. Então, por favor, desculpe-me, eu não irei ao seu funeral. É claro que você não estará lá, por isso estou pedindo o seu perdão hoje.”

            Ele entendeu e ficou um pouco em choque, é claro, mas disse, “Certo, se essa é a sua decisão, mas quem então ateará o fogo no meu funeral?”

            Esta é uma questão muito significante na Índia. Naquele contexto normalmente seria o filho mais velho. Eu disse a ele, “Você já sabe que sou um hobo, não possuo nada.”

            Magga Baba, embora completamente pobre, tinha dois pertences: a sua coberta e a sua magga – a caneca. Eu não tenho nenhum pertence. Embora eu viva como um rei, não possuo nada. Nada é meu. Se um dia alguém vier até mim e disser, “Saia desse local agora,” eu sairei imediatamente. Eu nem terei que empacotar nada. Nada é meu. Foi assim que um dia deixei Bombaim. Ninguém podia acreditar que eu partiria tão fácil sem olhar para trás nem mesmo uma vez.

            Não pude ir ao funeral do meu pai, mas pedi a sua permissão de antemão, muito tempo antes, no funeral da minha Nani. A minha Nani não era uma sannyasin, mas ela foi uma sannyasin de outras formas, de todas as outras formas exceto que não lhe dei um nome. Ela morreu de laranja. Embora eu não tenha pedido que ela usasse laranja, porém no dia em que ela se tornou iluminada ela parou de usar vestidos brancos.

            Na Índia uma viúva tem que usar branco. E por que apenas uma viúva? Para que ela não pareça bela – uma lógica natural. E ela tem que raspar a sua cabeça! Olhe… como chamar esses bastardos? Apenas para deixar uma mulher feia eles cortam o seu cabelo e não permitem que ela use qualquer outra cor exceto o branco. Eles tiram todas as cores da vida dela. Ela não pode comparecer a nenhuma celebração, nem mesmo o casamento do seu próprio filho ou filha! A própria celebração é proibida para ela.

            No dia em que a minha Nani iluminou-se, lembro-me – eu anotei, deve estar em algum lugar – foi no dia dezesseis de Janeiro de 1967. Falo sem hesitação que ela foi a minha primeira sannyasin; e não apenas isso, ela foi meu primeiro sannyasin iluminado.

            Vocês dois são doutores e vocês conhecem o Doutor Ajit Saraswati bem. Ele está comigo por quase vinte anos, e não conheço ninguém que tenha sido tão sincero para comigo. Vocês ficarão surpresos em saber que ele está esperando do lado de fora… e todas as possibilidades existem dele estar quase pronto para iluminar-se. Ele veio morar aqui na comuna; deve ter sido difícil para ele, particularmente como Indiano, deixar a sua esposa, seus filhos e sua profissão. Mas ele não pode viver sem mim. Ele está pronto para renunciar a tudo. Ele está esperando lá fora. Esta será a sua primeira entrevista, e posso sentir que esse será a sua iluminação também. Ele a mereceu, e a mereceu com muita dificuldade. Ser um Indiano e estar totalmente comigo não é uma tarefa fácil.

            Que horas são?

            “Falta quinze para as nove, Osho.”

            Cinco minutos para mim. É tão imensamente belo… Não, isso é só ótimo. Não, não é preciso ser ambicioso. Não, sou um homem consistente… consistentemente, não… e lembrem-se que não estou dizendo “não” como uma negativa. Para mim o ‘não’ é a palavra mais bela da língua de vocês. Amo-a. Não sei se mais alguém a ama, mas eu a amo.

            Vocês dois são pacientes… e eu sou o doutor. É a hora. Tudo tem que parar.

           

           

 

 

Publicado por rafaelxa

Simply meditate, dance, read, sing, stay quiet, waiting. Do a ritual in each opportunity. Connect yourself with the source. It's not difficult. Be really happy. You could dodge the ignorance. You could grasp wisdom in any book, tree or face. It's up to you. Be aware, be awake! "Creio porque é absurdo" Tertuliano "Seja uma luz para si próprio" Buda “Sitting quietly, doing nothing, spring comes, and the grass grows, by itself." Bashō Matsuo "O silêncio e a risada são a chave – silêncio dentro, risada fora" Osho

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