Sessão 8

 

Eu estava falando sobre um incidente que é absolutamente importante para entender a minha vida e seu mecanismo… e isso ainda está vivo em mim.

A propósito, falei que ainda posso lembrar-me, mas a palavra ‘lembrar’ não está correta. Ainda posso ver todo o incidente ocorrendo. É claro que eu era apenas uma criança pequena, mas isso não significa que o que eu disse não era para ser levado a sério. De fato, é a única coisa séria que já falei: suicídio.

            Para um Ocidental pode parecer um pouco rude perguntar a um monge – que é quase como um papa para os Jainas – essa questão: “Por que você não comete suicídio?” Mas sejam gentis comigo. Permitam-me explicar antes de vocês concluírem, ou pararem de me ouvir.

            O Jainismo é a única religião do mundo que respeita o suicídio. Agora é a vez de vocês ficarem surpresos. É claro que eles não chamam de suicídio; eles dão um belo nome metafísico, santhara. Eu sou contra isso, particularmente da forma como é feito. É muito violento e cruel. É estranho que uma religião que acredita na não-violência pregue o santhara, o suicídio. Vocês podem chamá-lo de suicídio metafísico, mas, afinal, suicídio é suicídio; o nome não importa. O que importa é o que o ser não está mais vivo.

            Por que sou contra isso? Não sou contra o direito de um ser humano cometer suicídio. Não, isso deve ser um dos direitos humanos básicos. Se não quero viver, quem tem o direito de forçar-me a viver? Se eu mesmo quero desaparecer, então tudo o que os outros podem fazer é torná-lo o mais confortável possível. Note: um dia quero desaparecer. Não posso viver para sempre.

            Há alguns dias alguém mostrou-me um adesivo de carro. Ele diz, “Tenho orgulho de ser Americano.” Eu olhei para aquilo e, posteriormente, chorei. Não sou um Americano e tenho orgulho de não ser um Americano. Nem sou um Indiano. Então quem sou? Tenho orgulho em ser um ninguém. Foi aqui que toda a minha longa jornada me trouxe – sou um ninguém, sem casa, um nada. Renunciei à iluminação, o que ninguém o fez antes de mim. Também renuncie ao posto de iluminante, pela iluminação daquele idiota Alemão! Eu não tenho religião, país ou lar. Todo o mundo é meu.

            Sou o primeiro cidadão do universo. Vocês sabem que sou louco. Posso começar a emitir passaportes para a cidadania universal. Eu estive pensando nisso. Estou pensando em um cartão laranja, que pode ser emitido por mim para os meus sannyasins como um passaporte para a irmandade universal, como oposto das nações, raças e religiões.

            Não sou contra a atitude Jaina de suicídio, mas o método… o método deles é não comer nada. Leva quase noventa dias para o pobre ser humano morrer. É tortura. Você não pode melhorá-la. Nem mesmo Adolf Hitler poderia ter concebido uma ideia tão boa. Para o conhecimento de Devageet, Adolf Hitler concebeu a ideia de perfurar os dentes das pessoas – sem anestesia é claro. Ainda existem muitos Judeus pelo mundo que os dentes foram perfurados sem nenhuma razão além de criar angústia. Mas Adolf Hitler pode não ter ouvido falar dos monges Jainas e suas práticas masoquistas. Eles são soberbos! Eles nunca cortam seus cabelos, eles o retiram com as suas mãos. Vejam que grande ideia!

            Todo ano o monge Jaina retira o seu cabelo, barba e bigode, e todos os pelos de seu corpo, apenas com as suas mãos! Eles são contra qualquer tecnologia – e eles a chamam lógica, indo até o fim lógico de uma coisa. Se vocês utilizam uma lâmina, isso é tecnologia; vocês sabiam disso?  Vocês já consideraram uma lâmina uma coisa tecnológica? Até mesmo os supostos ecologistas seguem fazendo as suas barbas sem saber que estão cometendo um crime contra a natureza.

            Os monges Jainas arrancam os seus cabelos – e não privadamente, porque eles não têm nenhuma privacidade. Parte do seu masoquismo é não ter nenhuma privacidade, ser totalmente público. Eles arrancam os seus cabelos enquanto estão nus no mercado. A multidão, é claro, encoraja e aplaude. E os Jainas, embora sintam uma grande simpatia – vocês podem ver até lágrimas em seus olhos – inconscientemente eles também desfrutam disso, e sem a necessidade de um ingresso. Eu abomino. Sou averso a todas essas práticas.

            A ideia de cometer santhara, suicídio, por não comer ou beber, não é nada além de um longo processo de autotortura. Não o posso apoiar. Mas apoio absolutamente a ideia da liberdade de morrer. Considero-a um direito de nascença, e mais cedo ou mais tarde toda constituição no mundo irá contê-la, terá que contê-lo como o direito de nascença mais básico – o direito de morrer. Não é um crime.

            Mas torturar qualquer pessoa, incluindo você mesmo, é um crime. Com isso vocês serão capazes de entender que eu não estava sendo rude, estava fazendo uma questão muito relevante. Naquele dia comecei uma luta de uma vida contra todos os tipos de estupidezes, disparates, superstições – em suma, bobagem religiosa. Bobagem é uma palavra bela. Ela diz muito em tão pouco.

            Naquele dia comecei a minha vida como um rebelde, e continuarei a ser um rebelde até a minha última respiração – ou até mesmo depois disso, quem sabe. Mesmo se eu não tiver um corpo, eu terei milhares de corpos dos meus discípulos. Eu posso provocá-los – e vocês sabem que sou um sedutor, posso colocar ideias em suas cabeças pelos próximos séculos. Isso é exatamente o que farei. Com a morte desse corpo a minha rebelião não pode morrer. A minha revolução continuará ainda mais intensamente, porque então ela terá muitos outros corpos, muitas outras vozes, muitas outras mãos para continuá-la.

            Aquele dia foi significante, historicamente significante. Sempre lembro-me daquele dia juntamente com o dia que Jesus discutiu com os rabinos no templo. Ele era um pouco mais velho do que eu, talvez oito ou nove anos. A forma que ele argumentou determinou todo o curso da sua vida.

            Não me lembro o nome do monge Jaina; talvez o seu nome era Shanti Sagar, significando “oceano de bem-aventurança.” Ele certamente não era isso. Foi por isso que esqueci até o seu nome. Ele era apenas uma poça suja, não um oceano de bem-aventurança ou paz ou silêncio. E ele certamente não era um homem de silêncio, porque ele ficou muito bravo.

            Shanti pode significar muitas coisas. Ela pode significar paz, pode significar silêncio; esses são os dois significados básicos. Paz e silêncio faltavam nele. Ele não era nem pacífico nem silencioso, de maneira alguma. Nem vocês poderiam dizer que ele não tinha nenhuma agitação, porque ele ficou tão bravo que gritou comigo para que me sentasse.

            Eu disse, “Ninguém pode mandar-me sentar em minha própria casa. Eu posso mandá-lo sair, mas você não pode mandar-me sentar. Mas não vou mandá-lo sair porque tenho algumas outras questões. Por favor não fique bravo. Lembre-se do seu nome, Shanti Sagar – oceano de paz e silêncio. Você poderia ser pelo menos uma pequena piscina. E não fique desequilibrado por uma pequena criança.”

            Sem me preocupar se ele estava em silêncio ou não, perguntei para a minha avó, que ria profusamente nesse momento, “O que você diz, Nani? Devo fazê-lo mais questões, ou mandá-lo sair da nossa casa?”

            Não perguntei para meu avô é claro, porque esse homem era seu guru. A minha Nani disse, “Você pode perguntar o que quiser, e se ele não puder responder, a porta está aberta, ele pode sair.”

            Aquela era a mulher que eu amava. Aquela era a mulher que me fez um rebelde. Até mesmo o meu avô ficou chocado que ela me apoiou daquela maneira. Aquele suposto Shanti Sagar imediatamente ficou em silêncio no momento em que ele viu a minha avó me apoiando. Não apenas ela, os aldeões ficaram imediatamente do meu lado. O pobre monge Jaina foi deixado absolutamente a sós.

            Eu fiz algumas outras questões para ele. Eu perguntei, “Você disse, ‘Não acredite em nada a menos que você tenha experienciado por si próprio.’ Eu vejo a verdade nisso, por isso a questão…”

            Os Jainas acreditam que existem sete infernos. Até o sexto há uma possibilidade de voltar, mas o sétimo é eterno. Talvez o sétimo seja o inferno Cristão, porque ali também, uma vez que você entrou você estará para sempre. Eu continuei, “Você se referiu aos sete infernos, então a questão surge, você visitou o sétimo? Se sim, então você não poderia estar aqui. Se você não o visitou, em que autoridade você diz que ele existe? Você deveria dizer que existem apenas seis infernos, não sete. Agora, por favor, seja correto: diga que existem apenas seis infernos, ou se você quer insistir nos sete, então prove-me que pelo menos um homem, Shanti Sagar, voltou do sétimo inferno.”

            Ele ficou embasbacado. Ele não podia acreditar que uma criança podia fazer tal questão. Hoje eu também não posso acreditar! Como eu pude fazer uma questão como essa? A única resposta que posso dar é que eu não era educado, e totalmente sem qualquer conhecimento. O conhecimento torna você muito astuto. Eu não era astuto. Eu simplesmente fiz a questão que qualquer criança poderia ter feito se ela não fosse educada. A educação é o maior crime que o ser humano cometeu contra as pobres crianças. Talvez a última liberação no mundo será a liberação das crianças.

            Eu era inocente, totalmente sem conhecimento. Eu não podia ler ou escrever, nem mesmo contar para além dos meus dedos. Mesmo hoje, quando tenho que contar algo, começo com os meus dedos, e se erro um dedo fico perdido.

            Ele não podia responder. A minha avó levantou-se e disse, “Você tem que responder à questão. Não pense que apenas uma criança está perguntando: também pergunto e sou sua anfitriã.”

            Agora novamente tenho que apresentá-los a uma convenção Jaina. Quando um monge Jaina vai até uma família para receber o seu alimento, depois de comer, como uma bênção para a família, ele dá um sermão. O sermão é direcionado aos anfitriões. A minha avó falou, “Sou sua anfitriã hoje, e também estou fazendo a mesma questão. Você visitou o sétimo inferno? Se não, diga verdadeiramente que não o visitou, mas então você não poderá falar que existem sete infernos.”

            O monge ficou tão perplexo e confuso – ainda mais ao ser confrontado por uma mulher bonita – que ele começou a sair. A minha avó gritou, “Pare! Não saia! Quem responderá à questão da minha criança? E ele ainda tem mais algumas para fazer. Que tipo de homem você é, escapando das questões de uma criança!”

            O homem parou. Eu disse para ele, “Eu abandono a segunda questão, porque o monge não pôde respondê-la. Ele também não respondeu à primeira questão, então o farei uma terceira; talvez ele seja capaz de respondê-la.”

            Ele olhou para mim. Eu disse, “Se você quer olhar para mim, olhe nos meus olhos.” Houve um grande silêncio, assim como aqui. Ninguém disse uma palavra. O monge abaixou os seus olhos, e então falei, “Então não quero perguntar. As minhas duas primeiras questões ficaram sem respostas, e a terceira não a fiz porque não quero que um convidado da casa fique envergonhado. Eu retiro.” E eu realmente me retirei da reunião e fiquei muito feliz quando a minha avó me seguiu.

            Meu avô deu seu adeus ao monge, mas assim que este partiu o meu avô correu de volta para a casa e perguntou a minha avó, “Você está louca? Primeiro você apoia esse garoto que é um encrenqueiro de nascença, então você sai com ele sem nem falar adeus para o meu mestre.”

            A minha avó disse, “Ele não é o meu mestre, então não ligo nem um pouco. Ademais, este que você pensa ser encrenqueiro é a semente. Ninguém sabe o que sairá dela.”

            Agora eu sei o que saiu dela. A menos que um ser nasça encrenqueiro é impossível ele tornar-se um buda. E não sou apenas um buda, como Gautama o Buda; isso é muito tradicional. Sou Zorba o Buda. Sou o encontro entre o Ocidente e o Oriente. De fato, não divido o Ocidente e o Oriente, acima ou abaixo, homem e mulher, bom ou mau, Deus e o diabo. Não! Mil vezes não! Não divido. Eu uno tudo o que estava dividido até agora. Este é o meu trabalho.

            Aquele dia foi imensamente significante para entender o que aconteceu durante toda a minha vida, porque a menos que você entenda a semente, você perderá a árvore e a floração, e talvez a lua através dos galhos.

            Daquele dia em diante sempre fui contra qualquer coisa masoquista. É claro que fui conhecer a palavra muito depois, mas a palavra não importa. Fui contra tudo o que é ascético; nem mesmo essa palavra eu conhecia naqueles dias, mas eu podia farejar algo sórdido. Vocês sabem que sou alérgico a todos os tipos de autotortura. Quero que todo ser humano viva no seu máximo; o mínimo não é a minha forma. Viva no máximo, ou, se você pode ir além do máximo, então fantástico. Vá! Não espere! Não gaste tempo esperando por Godot.

            É por isso que digo várias vezes para Ashu, “Siga em frente, siga em frente e enlouqueça o Devageet!” É claro que não posso enlouquecer Ashu; uma mulher não pode enlouquecer, isso não é possível. Elas enlouquecem os homens. Esta é a habilidade delas, e elas são eficientes. Elas guiarão o condutor, mesmo sentadas no banco de trás. Vocês conhecem os condutores de banco de trás: eles são os piores! E quando não há ninguém para conduzir o condutor, que liberdade! As mulheres não podem enlouquecer – até mesmo eu não posso enlouquecer uma mulher.

            Então é difícil. Embora eu continue dizendo, “Siga em frente, siga em frente,” ela não ouve. As mulheres nascem surdas; elas seguem fazendo qualquer coisa que quiserem fazer. Mas Devageet ouve. Eu não estou dizendo nada para ele, mas mesmo assim ele ouve, e surta para fora. Esta é a forma do covarde. Eu a chamo forma do mínimo, do limite de velocidade. Se você for mais rápido do que aquilo, você é multado.

            O mínimo é o caminho do covarde. Se eu fosse decidir, então o mais alto limite deles seria o limite mínimo; qualquer pessoa que fosse abaixo dele seria imediatamente multada. Estamos tentando alcançar às estrelas, e eles estão presos nos carros de boi. Estamos tentando, e esse é todo o esforço da física, alcançar, finalmente, a mesma velocidade da luz. A menos que alcancemos essa velocidade estamos condenados. Se pudermos alcançar a velocidade da luz, podemos escapar de qualquer Terra e planetas que estiverem morrendo. Toda Terra, todo planeta, toda estrela morrerá um dia. Como vamos escapar disso? Vocês precisarão de uma tecnologia muito veloz. Esta Terra em apenas quatro mil anos estará morta. Qualquer coisa que vocês fizerem, nada pode salvá-la. Todo dia ela fica mais próxima da sua morte… e vocês estão tentando mover-se a trinta milhas por hora! Tente cento e oitenta e seis mil milhas por segundo. Esta é a velocidade da luz.

            O místico a alcança e, de repente, em seu ser interior há apenas luz e nada mais. Isso é o despertar. Sou em prol do máximo. Viva no máximo de todas as maneiras possíveis. Mesmo se você decidir morrer, morra com a velocidade máxima. Não morra como um covarde – salte no desconhecido.

            Não sou contra a ideia de terminar com a vida. Se alguém decidir terminá-la, então é claro que isso é direito seu. Mas sou certamente contra torná-la uma longa tortura. Quando esse Shanti Sagar morreu, ele levou cento e dez dias sem comer. Um ser humano é capaz, se está com a saúde normal, de sobreviver facilmente noventa dias sem alimento. Se é extraordinariamente saudável então pode sobreviver mais tempo.

            Então lembrem-se, eu não fui rude com o homem. Naquele contexto a minha questão era absolutamente correta, talvez mais ainda porque ele não pôde respondê-la. E, é estranho dizê-lo hoje, este foi o início não apenas do meu questionamento, mas também o início das não respostas das pessoas. Ninguém respondeu qualquer uma das minhas questões nesses últimos quarenta e cinco anos. Encontrei muitas pessoas supostamente espirituais, mas ninguém nunca respondeu a qualquer uma das minhas questões. De uma maneira aquele dia determinou todo o meu aroma, toda a minha vida.

            Shanti Sagar saiu muito irritado, mas eu estava imensamente feliz, e não o escondi do meu avô. Eu disse para ele, “Nana, ele pode ter saído irritado, mas estou me sentindo absolutamente correto. O seu guru é apenas medíocre. Você deveria escolher alguém com um pouco mais de valor.”

            Até ele riu e falou, “Talvez você esteja certo, mas agora na minha idade mudar de guru não seria muito prático.” Ele perguntou para a minha Nani, “O que você acha?”

            A minha Nani, sempre verdadeira a seu espírito, disse, “Nunca é tarde para mudar. Se você vê que o que você escolheu não está certo, mude-o. De fato, seja rápido, porque você está ficando velho. Não diga, ‘Estou velho, então não posso mudar.’ Um homem novo pode dar-se ao luxo de não mudar, mas não um homem velho, e você está suficientemente velho.”

            E apenas alguns poucos anos depois ele morreu, mas não pôde reunir a coragem de mudar o seu guru. Ele continuou no mesmo velho padrão. A minha avó costumava cutucá-lo dizendo, “Quando você vai mudar o seu guru e seus métodos?”

            Ele diria, “Sim, eu irei, eu irei.”

            Um dia a minha avó disse, “Pare com toda essa bobagem! Ninguém nunca muda a não ser que seja agora. Não diga, ‘Eu irei, eu irei.’ Ou mude ou não mude, mas seja claro.”

            Aquela mulher podia tornar-se uma força tremendamente poderosa. Ela não foi feita para ser apenas uma esposa. Ela não foi feita para viver naquela pequena vila. Todo o mundo devia conhecê-la. Talvez eu seja o seu veículo; talvez ela verteu a si própria em mim. Ela me amava tão profundamente que nunca considerei a minha mãe real como minha mãe real. Sempre considerei a minha Nani a minha mãe real.

            Sempre que eu tinha que confessar algo, algum mal que eu tinha feito para alguém, eu só podia confessar para ela, ninguém mais. Ela era a minha confiança. Eu pude segredar qualquer coisa para ela porque entendi uma coisa, isto é: ela era capaz de compreender. Eu devo ter feito todos os tipos de coisas que uma pessoa é capaz de fazer, e eu contaria para ela à noite. Isso quando eu fiquei com ela, antes de ir para a universidade.

            Eu nunca dormi na casa da minha mãe. Embora a minha avó tivesse se mudado para a mesma vila do restante da família, depois da morte do meu avô, eu dormia com ela pela simples razão que eu podia contá-la as várias travessuras que tinha feito durante o dia. Ela ria e dizia, “Muito bem! Ótimo! Bom! Aquele homem merecia. Ele realmente caiu no poço como você disse?”

            Eu diria, “Sim, mas ele não morreu.”

            Ela disse, “Está certo, mas você conseguiu empurrá-lo no poço?”

            Havia um poço na nossa vizinhança sem nenhum muro de proteção. À noite qualquer um podia cair nele. Eu costumava levar pessoas até lá, e o homem que havia caído não era ninguém mais que o confeiteiro. A minha mãe – minha avó… Sempre esqueço porque considero-a como minha mãe. Melhor chamá-la de Nani, para que não haja desentendimentos. Eu disse para minha Nani, “Hoje eu consegui fazer com que o confeiteiro caísse no poço.” Eu ainda posso ouvir o riso dela. Ela riu até chorar.

            Ela disse, “Isso é muito bom, mas ele está vivo ou não?”

            Eu disse, “Ele está perfeitamente bem.”

            “Então,” ela disse, “não há problema. Não se preocupe; aquele homem merecia isso. Ele mistura tantas porcarias em seus doces, alguém tinha que fazer algo em relação a isso.” Posteriormente ela disse para ele, “A menos que você mude os seus modos, lembre-se, você cairá no poço muitas vezes.” Mas ela nunca me disse uma palavra sobre isso.

            Eu perguntei para ela, “Você não quer dizer nada a respeito disso?”

            Ela disse, “Não, porque o vejo desde a sua infância. Mesmo se você faz algo errado, você o faz de maneira tão correta, e no momento exato, que até mesmo um erro torna-se um acerto.” Foi ela que me disse, pela primeira vez, que o certo nas mãos de um homem errado torna-se errado, e o errado nas mãos de um homem certo torna-se certo.

            Então não se preocupe com o que você está fazendo; lembre-se apenas de uma coisa: o que você está sendo. Isso é uma grande questão, sobre fazer e ser. Todas as religiões estão preocupadas com o fazer; estou preocupado com o ser. Se o seu ser está correto, e por correto quero dizer bem-aventurado, silencioso, amável, carinhoso, então, qualquer coisa que você fizer estará certa. Então não existirão outros mandamentos para você, apenas um: apenas seja. Seja tão totalmente que na própria totalidade nenhuma sombra é possível. Então você não pode fazer nada errado. Todo o mundo pode dizer que está errado, isso não importa; o que importa é o seu próprio ser.

            Não estou preocupado com Cristo sendo crucificado, porque sei que mesmo na cruz ele estava totalmente tranquilo consigo mesmo. Ele estava tão cheio de tranquilidade que ele pôde orar, “Pai” – esta era a sua palavra para Deus. Para ser exato ele não disse “Pai,” e sim “Abba,” que é muito mais belo. “Abba, perdoe essas pessoas porque elas não sabem o que fazem.” Novamente enfatizando a palavra ‘fazer’ – “o que elas estão fazendo.” Infelizmente, elas não puderam ver o ser do homem na cruz. É o ser que importa, a única coisa que importa.

            Naquele momento da minha vida, fazendo questões estranhas e irritantes para o monge Jaina, não considero que fiz nada de errado. Talvez eu o tenha ajudado. Talvez um dia ele entenderá. Se tivesse coragem ele teria entendido até mesmo naquele dia, mas era um covarde – ele escapou. E desde então, esta tem sido a minha experiência: os supostos mahatmas e santos são todos covardes. Nunca encontrei com um único mahatma – Hindu, Islâmico, Cristão, Budista – que realmente é um espírito rebelde. A não ser que um ser humano seja rebelde ele não pode ser religioso. A rebelião é a própria fundação da religião.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sessão 9

 

O tempo não pode ir para trás, mas a mente pode. Que desperdício – dar uma mente tal, que não pode esquecer de nada, para um homem que não apenas tornou-se uma não-mente, mas que também prega para que os outros abandonem a mente. Em relação à minha mente – lembrem-se, a minha mente, não eu – é um mecanismo parecido com o que está sendo utilizado aqui. Minha ‘mente’ simplesmente significa a maquinaria, mas uma máquina perfeita dada um homem que vai descartá-la! Por isso falei que era um desperdício.

            Mas sei a razão: a menos que você tenha uma mente perfeita você não pode ter a inteligência para descartá-la. A vida é cheia de contradições. Nada é ruim em relação a isso; isso torna a vida mais saborosa.

            Não há razão para o homem e a mulher serem dois; eles poderiam ter sido como a ameba. Vocês podem perguntar para o Devaraj: a ameba não é nem masculina nem feminina, ela é uma. Ela é também como Muktananda e todos os outros idiotanandas – celibatária, mas tem a sua própria forma de reprodução. Que problema ela causa para todos os médicos do mundo! Ela simplesmente segue comendo, tornando-se cada vez mais gorda, e, em um certo momento, divide-se em duas. Esta é a sua forma de reprodução. É realmente brahmacharya, celibato.

            Os homens e as mulheres poderiam ser um, como a ameba, mas não haveria poesia, apenas reprodução – é claro, nenhum conflito também, nenhum resmungo, nenhuma briga – mas a poesia que surgiu é tão valiosa que todos os conflitos, os resmungos e disputas valem a pena.

            Agora há pouco eu estava novamente ouvindo Noorjahan… “Aquela confiança que havia entre nós, você deve tê-la esquecido, mas eu não. Lembro-me ainda, pelo menos de um pouco. Aquelas palavras que você falou para mim, talvez você não se lembre de todas, mas apenas a memória delas é suficiente para me fazer esperar. Aquele amor que existiu entre nós…”

            Wo karar, “aquele amor”… a palavra karar é muito mais intensa que a palavra ‘amor’ pode traduzir; é muito mais apaixonada. Ela seria melhor traduzida como “aquela paixão,” ou “aquele amor apaixonado.” E wo rah mujh mein our tuh mein thee – “e a via que existia entre você e eu…”

            “A via…” De vez em quando, quando os corações estão abertos, existe um caminho; caso contrário as pessoas se comunicam, elas não comungam. Elas falam, mas ninguém ouve. Elas fazem negócios, mas há apenas um vácuo entre si, não há uma alegria transbordante. Wo rah – “Aquela via,” e wo karar – “aquele amor apaixonado.”

            “Talvez você tenha esquecido, mas eu me lembro. Não posso esquecer que uma vez você disse, ‘Você é a rainha do mundo, a mulher mais bela.’ Talvez você não possa nem me reconhecer agora…”

            As coisas mudam, os amores mudam, os corpos mudam; é da própria natureza da existência ser mutável, estar em fluxo. Eu ouço aquela música logo antes de entrar em sua cabine, porque a amei desde a minha infância. Penso que talvez ela provoque algumas memórias em mim… e ela certamente o faz.

            Ontem eu estava contando para vocês o incidente que aconteceu entre mim e o monge Jaina. Não foi o final daquela história, porque no dia seguinte ele teria que vir de novo pedir comida na casa do meu avô.

            Será difícil para vocês entenderem porque ele teria que vir novamente quando ele deixou a nossa casa com tanta raiva. Tenho que explicar o contexto para vocês. Um monge Jaina não pode receber alimento de qualquer pessoa exceto outro Jaina, e, infelizmente para ele, nós éramos a única família Jaina naquela pequena vila. Ele não poderia pedir comida em outro lugar, embora quisesse, mas seria contra a sua disciplina. Então, apesar de si próprio, ele voltou.

            Eu e minha avó estávamos esperando no andar de cima, olhando da janela porque sabíamos que ele teria que vir. A minha Nani me disse, “Olhe, ele está vindo. Agora, o que você vai perguntar hoje?”

            Eu disse, “Eu não sei. Primeiro deixe-o pelo menos comer, e, então, convencionalmente ele fará um discurso para a família e as pessoas que se reuniram.” Depois de cada alimentação, um monge Jaina discursa um sermão de agradecimento. “Então não se preocupe.” Eu lhe disse, “Encontrarei alguma coisa para perguntar. Primeiro deixe-o falar.”

            Ele estava muito cauteloso ao falar, e muito breve, o que era estranho. Mas, quer você fale ou não, se uma pessoa quiser questioná-lo, ela pode. Ela pode questionar o seu silêncio. O monge estava falando sobre a beleza da existência, pensando talvez que aquilo não criaria qualquer problema, mas criou.

            Eu me levantei. A minha Nani estava rindo no fundo da sala – ainda posso ouvir o seu riso. Eu perguntei para ele, “Quem criou este belo universo?”

            Os Jainas não acreditam em Deus. É difícil para a mente Cristã Ocidental até mesmo compreender uma religião que não acredita em Deus. O Jainismo é muito superior ao Cristianismo; pelo menos o Jainismo não acredita em Deus e no Espírito Santo, e toda a bobagem que se segue daí. O Jainismo é, acreditem em mim ou não, uma religião ateísta – porque ser ateísta e religioso parece ser contraditório, uma contradição em termos. O Jainismo é pura ética, pura moralidade, sem um Deus. Então quando perguntei ao monge Jaina, “Quem criou essa beleza?” obviamente, como eu sabia que ele responderia, ele respondeu, “Ninguém.”

            Esta era a resposta que eu esperava. Então eu disse, “Beleza tal pode ser criada por ninguém?”

            Ele disse, “Por favor não me entenda mal…” Dessa vez ele veio preparado; ele parecia mais íntegro. “Por favor não me entenda mal,” ele disse, “Não estou dizendo que ninguém é alguém.”

            Vocês se lembram da história de Alice Através do Espelho? A Rainha pergunta a Alice, “No caminho até aqui, você encontrou alguém vindo ver-me?”

            Alice disse, “Eu vi ninguém.”

            A Rainha pareceu intrigada, e então falou, “É estranho; então ninguém deveria ter chego aqui antes de você e ele não está aqui.”

            Alice, como uma dama Inglesa, é claro, deu risinhos, apenas espirituosamente. A sua face permaneceu grave. Ela disse, “Madame, ninguém é ninguém.”

            A Rainha disse, “É claro, eu sei que ninguém deve ser ninguém, mas por que ele está tão atrasado? Parece que ninguém anda mais devagar que você.”

            Alice esqueceu-se por um momento e disse, “Ninguém anda mais rápido do que eu.”

            A Rainha então disse, “Isso é ainda mais estranho. Se ninguém anda mais rápido que você, por que ele não chegou ainda?”

            Alice então percebe o seu erro, mas era muito tarde. Ela novamente repete, “Por favor, Madame, lembre-se que ninguém é ninguém.”

            A Rainha falou “Eu já sei disso, ninguém é ninguém. Mas a questão é, por que ele não está aqui ainda?”

            Eu disse para o monge Jaina, “Eu sei que ninguém é ninguém, mas você falou tão lindamente, exaltando tanto a existência que isso chocou-me, porque os Jainas supostamente não fazem isso. Parece que por causa da experiência de ontem você alterou a sua tática. Você pode alterar a sua tática, mas você não pode alterar a mim. Eu ainda pergunto, se ninguém criou o universo, como ele veio a ser?”

            Ele olhou para um lado e para o outro; todos estava em silêncio exceto a minha Nani, que ria alto. O monge perguntou-me, “Você sabe como o universo veio a ser?”

            Eu disse, “Ele sempre existiu; não é necessário que ele venha a ser.” Posso confirmar esta sentença depois de quarenta e cinco anos, depois da iluminação e da não-iluminação, depois de conhecer o que é e, coloque em letras maiúsculas – IGNORÁ-LO. Ainda posso dizer o mesmo que aquela jovem criança: o universo sempre existiu; não há necessidade dele ser criado ou vir de algum lugar – ele simplesmente existe.

            O monge Jaina não veio no terceiro dia. Ele escapou da nossa vila para a próxima onde havia outra família Jaina. Mas devo homenageá-lo: sem saber ele iniciou uma pequena criança na jornada em direção à verdade.

            Desde então fiz essa questão para muitas pessoas e encontrei a mesma ignorância encarando-me – grandes pânditas, pessoas instruídas, grandes mahatmas adorados por milhares, e, entretanto, incapazes de responder à uma questão simples levantada por uma criança.

            De fato, nenhuma questão real já foi respondida, e prevejo que nenhuma questão real será algum dia respondida, porque quando você chega a uma questão real, a única resposta é o silêncio. Não o silêncio estúpido de um pândita, um monge ou um mahatma, mas o seu próprio silêncio. Não o silêncio de outro, mas o silêncio que nasce dentro de você. Exceto isso, não há resposta. E aquele silêncio que cresce dentro é uma resposta para você, e para aqueles que fundem-se com o seu silêncio no amor; caso contrário não é resposta para ninguém, exceto você.

            Existiram muitas pessoas silenciosas no mundo que não ajudaram os outros de maneira alguma. Os Jainas os chamaram arihantas, os Budistas os chamaram arhatas; ambas as palavras significam o mesmo. É que as linguagens são um pouco diferentes. Uma é Prakriti, a outra é Pali. Elas são linguagens vizinhas ou, melhor, irmãs. Arihanta, arhata – vocês podem ver que ambas as palavras são as mesmas.

            Existiram arihantas e arhatas, que, apesar de terem encontrado a resposta, não foram capazes de proclamá-la, e, a menos que você seja capaz de proclamá-la, proclamá-la dos telhados das casas, a sua resposta não tem muito valor. É apenas a resposta de uma pessoa em uma multidão em que todos estão cheios de questões. Em breve o arihanta morre, e com ele o seu silêncio. Ele desaparece como se estivesse escrevendo na água. Você pode escrever e assinar na água, mas no momento em que você terminar de escrever a sua assinatura não estará mais ali.

            O mestre real não apenas sabe, ele ajuda milhões a saberem. O seu conhecimento não é privado, está aberto para todos aqueles que estão prontos para receber. Eu conheci a resposta. A questão carreguei-a por milhares de anos, em um corpo, em outro corpo, de um corpo para o outro corpo, mas a resposta aconteceu pela primeira vez. Aconteceu apenas porque questionei persistentemente sem nenhum medo das consequências.

            Estou relembrando desses incidentes para torná-los conscientes que a menos que alguém pergunte, e pergunte a todos totalmente, é difícil perguntar para si próprio. Quando alguém é jogado para fora de todas as portas – quando todas as portas estão trancadas ou batidas na sua cara – então, finalmente, esta pessoa se volta para dentro… e ali está a resposta. Ela não está escrita; vocês não vão encontrar uma Bíblia, uma Torá, ou um Alcorão, uma Gita, um Tao Te Ching ou um Dhammapada… Não, vocês não vão encontrar nada escrito ali.

            Vocês também não encontrarão ninguém ali – nenhum Deus, nenhuma figura paterna, sorrindo e batendo em suas costas, dizendo, “E aí! Bom, meu filho, você chegou em casa. Perdoo todos os seus pecados.” Não, vocês não encontrarão ninguém ali. O que vocês encontrarão é um silêncio tremendo, irresistível, tão denso que alguém sente poder tocá-lo… como uma bela mulher. É possível senti-lo como uma bela mulher, e ele é apenas silêncio, mas muito tangível.

            Quando o monge desapareceu daquela vila nós rimos continuamente por dias, particularmente minha Nani e eu. Eu não podia acreditar como ela era infantil! Naquele momento ela deveria ter em torno de cinquenta anos, mas seu espírito era como se nunca tivesse deixado de ser uma criança. Ela riu comigo e disse, “Você fez bem.”

            Até hoje posso ver as costas do monge em fuga. Os monges Jainas não são pessoas bonitas; eles não podem ser, toda a sua abordagem é feia, apenas feia. Até as suas costas eram feias. Sempre amei a beleza onde quer que ela fosse encontrada – nas estrelas, em um corpo humano, nas flores ou no voo de um pássaro… em qualquer lugar. Sou um adorador desavergonhado da beleza, porque não posso ver como alguém pode conhecer a verdade se essa pessoa não ama a beleza. A beleza é o caminho da verdade. E o caminho e a meta não são diferentes: o próprio caminho, no fim das contas, torna-se a meta. O primeiro passo é também o último.

            Aquele encontro – sim, esta é a palavra certa – aquele encontro com o místico Jaina iniciou milhares de outros encontros; Jainas, Hindus, Islâmicos, Cristãos, e eu estava pronto para fazer qualquer coisa apenas para ter um bom argumento.

            Vocês não acreditarão em mim, mas fui circuncidado na idade de vinte e sete anos, depois de já estar iluminado, apenas para entrar em uma ordem Islâmica Sufi que não permitia ninguém que não havia sido circuncidado. Eu disse, “Certo, então faça! Este corpo será destruído de qualquer forma, e vocês estão cortando apenas um pequeno pedaço de pele. Corte-a, mas quero entrar na escola.”

            Até eles foram incapazes de acreditar em mim. Eu disse, “Acreditem em mim, estou pronto.” E quando comecei a argumentar eles disseram, “Você estava tão disposto a ser circuncidado e, entretanto, você está tão indisposto a aceitar qualquer coisa que nós dizemos!”

            Eu disse, “Este é o meu jeito. Sobre o não-essencial estou sempre pronto para dizer sim. Sobre o essencial sou absolutamente inflexível, ninguém pode forçar-me a dizer sim.”

            É claro que eles tiveram que me expulsar da sua suposta ordem Sufi, mas eu disse para eles, “Expulsando-me, vocês estão simplesmente declarando ao mundo que vocês são pseudo-Sufis. O único Sufi real está sendo expulso. De fato, expulso todos vocês.”

            Desnorteados, eles entreolharam-se. Mas esta é a verdade. Eu fui até a ordem deles não para conhecer a verdade; eu já a conhecia. Então por que entrei? Apenas para ter uma boa companhia para argumentar.

            Argumentar foi a minha alegria desde a infância. Farei qualquer coisa apenas para ter um bom argumento. Mas quão raro é achar um meio realmente bom para o argumento! Entrei para a ordem Sufi – isso estou confessando pela primeira vez – e até permiti que esses tolos me circuncidassem. Eles o fizeram com métodos tão primitivos que tive que sofrer por pelo menos seis meses. Mas não me preocupava com aquilo; minha única preocupação era conhecer o Sufismo de dentro. Infelizmente, não pude encontrar um Sufi real em minha vida. Mas isso é verdade não apenas sobre os Sufis; não encontrei um Cristão real também, ou um Hassida real.

  1. Krishnamurti convidou-me para encontrá-lo em Bombaim. O homem que trouxe a mensagem era um amigo em comum, Parmananda. Eu disse a ele, “Parmananda, volte e diga a Krishnamurti que, se ele quiser vir ver-me, ele deve vir – isso é o apropriado – em vez de pedir-me para ir até ele.”

            Parmananda disse, “Mas ele é mais velho que você.”

            Eu disse, “Vá até ele. Não responda em nome dele. Se ele disser que é mais velho que eu, então não valerá a pena ir, porque o despertar não pode ser mais velho ou mais novo; é sempre o mesmo – simplesmente fresco, eternamente fresco.”

            Ele foi e nunca voltou, por que como Krishnamurti poderia, um homem velho, vir ver-me? Entretanto ele queria me ver. Isso é interessante, não é? Eu nunca quis vê-lo, caso contrário eu teria ido vê-lo. Ele queria me ver e, ainda assim queria que eu fosse até ele. Vocês devem conceder que isso é um pouco demais. Parmananda nunca retornou com uma resposta. No próximo dia que ele veio eu perguntei, “O que aconteceu?”

            Ele disse, “Krishnamurti ficou muito bravo, tão bravo que não o questionei novamente.”

            Ora, ele queria ver-me; eu amaria vê-lo, mas eu nunca quis, pela simples razão que não gosto de ir até as pessoas, mesmo que essa pessoa seja J. Krishnamurti. Amo o que ele diz, amo o que ele é, mas nunca desejei – pelo menos nunca falei para alguém – vê-lo, porque então seria simples: eu deveria ir até ele. Ele desejou, ele queria me ver, e, entretanto, queria que eu fosse até ele. Não gosto disso, nunca vou gostar.

            Isso criou, pelo menos da parte dele, um antagonismo em relação a mim. Desde então ele tem falado contra mim. No momento que ele vê um dos meus sannyasins ele se comporta como um touro. Se você acenar uma bandeira vermelha para um touro vocês sabem o que acontece. É isso o que ocorre quando ele vê alguns dos meus sannyasins vestidos de vermelho: de repente ele fica enraivecido. Digo que ele deve ter sido um touro em sua vida passada; ele não esqueceu seu antagonismo contra a cor vermelha.

            Isso só começou quando recusei ir vê-lo. Antes disso ele nunca tinha falado contra mim. Em relação a mim, sou um homem livre. Posso falar a favor de uma pessoa e, na mesma respiração contra a mesma pessoa, sem qualquer dificuldade da minha parte. Amo todos os tipos de contradições e inconsistências.

  1. Krishnamurti está contra mim, mas não estou contra ele. Ainda o amo. Ele é um dos homens mais belos do Século XX. Não penso existir nenhuma outra pessoa viva que posso comparar com ele. Mas ele tem uma limitação, e essa limitação tem sido sua ruína. A limitação é que ele tenta ser totalmente intelectual, e isso não é possível se você quer elevar-se, se você quiser ir além das palavras e dos números.

            Krishnamurti deveria estar além, mas está amarrado na intelectualidade Vitoriana. A sua intelectualidade não é nem moderna, mas Vitoriana, com quase um século de idade. Ele diz que é afortunado por não ter lido os Upanishads, o Gita ou o Alcorão. Então o que ele tem feito? Eu digo para vocês: ele lê romances policiais de terceira categoria! Por favor não contem para ninguém, caso contrário ele vai bater sua cabeça contra a parede. Não estou preocupado com sua cabeça, estou preocupado com a parede. Em relação a sua cabeça, ele tem sofrido de enxaqueca nos últimos cinquenta anos – isso é mais que toda a minha vida – tanto que em seu diário ele diz muitas vezes que queria bater a cabeça contra a parede. Sim, estou preocupado com a parede.

            Por que ele sofre de enxaqueca? – por causa de muita intelectualidade, e nada mais. Não é o mesmo caso do pobre Asheesh, meu marceneiro. Ele também sofre de enxaqueca, mas isso é físico. A enxaqueca de J. Krishnamurti é espiritual. Ele é muito intelectual; apenas ouvi-lo é o suficiente para lhe dar uma enxaqueca. Se você não sofrer de enxaqueca depois de uma palestra de J. Krishnamurti isso significa que você já está iluminado – ou que você não tem uma cabeça. O segundo é mais provável. O primeiro é um pouco difícil.

            A enxaqueca de Asheesh pode ser curada, mas a de Krishnamurti não é terminável. Ele é incurável. Mas agora não é mais necessário também, ele está tão velho e acostumado a viver com a sua enxaqueca. Ela tornou-se quase uma esposa. Se vocês levarem essa enxaqueca embora ele vai ficar sozinho, viúvo. Não façam isso. Ele e sua enxaqueca são casados, e eles vão morrer juntos.

            Eu estava dizendo que o meu primeiro encontro com o monge Jaina nu começou uma longa, uma longa série de encontros com muitos supostos monges – embusteiros. Todos eles sofrem de intelectualidade e nasci para trazê-los para a terra. Mas é quase impossível trazê-los aos seus sentidos. Talvez eles não querem porque têm medo. Talvez não ter sensibilidade ou inteligência é muito vantajoso para eles.

            Eles são respeitados como seres humanos sagrados; para mim eles são apenas estrume de vaca sagrado. Uma coisa sobre estrume de vaca é boa: ele não cheira. Lembro vocês disso porque sou alérgico a cheiros. Estrume de vaca tem essa única boa qualidade, não é alérgico. Qual é a palavra certa, Devaraj?

            “Não alergênico, Osho”

            Certo, não alergênico.

            A minha Nani não era realmente uma mulher Indiana; até mesmo o Ocidente teria sido um pouco menos estranho para ela. E lembrem-se, ela era absolutamente não instruída – talvez por causa disso ela era tão perceptiva. Talvez ela podia ver algo em mim que eu não estava consciente naqueles dias. Talvez essa seja a razão dela ter me amado tanto… não sei dizer. Ela não está mais viva. Uma coisa eu sei: quando o seu marido morreu ela nunca mais voltou àquela vila, ela permaneceu na vila do meu pai. Eu tive que deixá-la ali, mas quando retornava, muitas vezes a perguntava, “Nani, podemos voltar para a vila?”

            Ela sempre dizia, “Para quê? Você está aqui.” Aquelas três palavras simples ressoam em mim como música reverberando: “Você está aqui.” Eu digo o mesmo para vocês. Ela me amava – e vocês sabem que ninguém pode amá-los mais do que eu os amo.

            É belo.

            Vocês nunca estiveram aqui.

            Infelizmente, se eu pudesse também convidá-los para esse espaço nos Himalaias! O “agora” é um espaço belo. E pobre Devageet – ainda posso ouvir o seu risinho. Meu Deus! Nenhuma química pode pelo menos prevenir-me de ouvir os risinhos?

            Não pensem que fiquei louco, já estou louco. Vocês veem? – a insanidade de vocês e a minha insanidade, elas são totalmente diferentes. Anote isso. Até mesmo Rasputin, se estivesse vivo, seria um sannyasin… quero dizer, ele teria sido um sannyasin. Ninguém, sem exceção, pode me enganar.

            Sou o tipo de pessoa que mesmo no momento da morte dirá, “Basta, basta por hoje…”

Sessão 10

 

Eu estava olhando algumas fotos da procissão de casamento da Princesa Diana e, estranhamente, a única coisa que me impressionou em todo o disparate foram os belos cavalos, suas danças alegres. Olhando para aqueles cavalos lembrei-me do meu próprio cavalo. Eu não falei para ninguém dele, nem mesmo para Gudia, que ama cavalos. Mas agora que não estou mantendo nada secreto, até isso pode ser contado.

            Eu não tive apenas um cavalo, de fato, tive quatro cavalos. Um era só meu – e vocês sabem como sou minucioso… até mesmo hoje ninguém mais pode dirigir os Rolls Royces. É apenas frescura. Eu era o mesmo naquele tempo também. Ninguém, nem mesmo o meu avô, tinha permissão de andar no meu cavalo. É claro que eu tinha permissão de andar no cavalo de qualquer um. Tanto o meu avô quanto minha avó tinham um. Era estranho em uma vila Indiana uma mulher andar a cavalo – mas ela era uma mulher estranha, fazer o quê? O quarto cavalo era o de Bhoora, o servo que sempre me seguia com a sua arma, a uma certa distância é claro.

            O destino é estranho. Eu nunca prejudiquei ninguém na minha vida, nem mesmo nos meus sonhos. Sou absolutamente vegetariano. Mas, por um bom ou mau destino, desde a minha infância sempre fui seguido por um guarda. Não sei o porquê, mas desde Bhoora sempre tive um guarda. Até mesmo hoje os meus guardas estão ou à frente ou atrás, mas estão sempre presentes. Bhoora começou todo o jogo.

            Eu já disse para vocês que ele parecia um Europeu, por isso era chamado de Bhoora. Não era o seu nome real. Bhoora simplesmente significa “o branco.” Nem eu sei o seu nome de maneira alguma. Ele parecia Europeu, muito Europeu, e ele parecia realmente estranho, especialmente naquela vila onde, acho, nenhum Europeu já entrou. E ainda existem guardas…

            Mesmo quando criança eu podia entender por que Bhoora me seguia a uma certa distância em seu cavalo, porque por duas vezes tentaram sequestrar-me. Eu não sabia por que alguém teria interesse em mim. Agora pelo menos posso entender. O meu avô, apesar de não ser muito rico de acordo com os padrões Ocidentais, era certamente muito rico naquela vila. Dakaits – agora Devageet terá uma dificuldade real em soletrar a palavra ‘dakait’…

            Não é uma palavra Inglesa; ela vem palavra Hindi daku. Mas nesse sentido o Inglês é uma das línguas mais generosas do mundo. Todo ano o Inglês segue absorvendo oito mil palavras de outras línguas; é por isso que o Inglês fica cada vez maior. Necessariamente tornar-se-á o idioma mundial – ninguém pode impedir isso. Todas as outras línguas do mundo, por outro lado, são muito tímidas; elas seguem encolhendo. Elas acreditam na pureza, que nenhuma outra língua deve ter permissão para entrar. Naturalmente elas permanecerão pequenas e primitivas. Dakait é uma transliteração de daku; significa ladrão – não apenas um ladrão ordinário, mas quando um grupo de pessoas, armadas e organizadas, planejam o ato do roubo, então isso é “dakaidade”.

            Quando eu era jovem, na Índia, era uma prática comum roubar os filhos dos ricos, para então ameaçar os pais que se eles não pagassem, as mãos da criança seriam cortadas. Se eles pagassem, então podiam salvar as mãos da criança. Às vezes a ameaça seria cegar à criança, ou se os pais fossem realmente ricos então a ameaça era direta – que a criança seria morta. Para salvar à criança, os pobres pais estavam prontos para fazer qualquer coisa.

            Duas vezes tentaram me roubar. Duas coisas me salvaram: a primeira foi o meu cavalo, que era um Árabe realmente forte; a segunda foi Bhoora, o servo. Ele tinha ordens do meu avô para atirar para cima – não nas pessoas tentando sequestrar-me, porque isso é contra o Jainismo, mas você pode atirar para cima para assustá-las. É claro que a minha avó tinha sussurrado no ouvido de Bhoora, “Não se preocupe com o que meu marido fala. Primeiro você pode atirar no ar, mas se isso não funcionar lembre-se: se você não atirar nas pessoas eu vou atirar em você.” E ela era boa de tiro. Eu a vi atirar e ela sempre foi precisa até o menor ponto. Ela era como Gudia – ela não perdia muito.

            Nani era de muitas formas parecida com Gudia, muito exata em relação aos detalhes. Ela sempre ia direto ao ponto, nunca em torno dele. Existem pessoas que andam em torno, em torno, em torno: você tem que descobrir o que elas realmente querem. Este não era o jeito dela; ela era exata, matematicamente exata. Ela disse a Bhoora, “Lembre-se, se você chegar sem ele apenas para reportar que ele foi roubado, vou atirar em você imediatamente.” Eu sabia, Bhoora sabia, meu avô sabia, porque embora ela falasse no ouvido de Bhoora, não era um sussurro; era alto o suficiente para ser ouvido por toda a vila. Ela estava falando sério. Ela sempre falava sério.

            O meu avô olhou para o outro lado. Eu não pude resistir; eu ri alto e falei, “Por que você está olhando para o outro lado? Você a ouviu. Se você é um Jaina real, fale para Bhoora não atirar em ninguém.”

            Mas antes de meu avô dizer alguma coisa, a minha Nani disse, “Eu falei para o Bhoora em seu nome também, então fique quieto.” Ela era uma mulher tal que até no meu avô ela atiraria. Eu a conhecia – não digo literalmente, mas metaforicamente, e isso é mais perigoso que literalmente. Então ele permaneceu quieto.

            Duas vezes fui quase sequestrado. Uma vez o meu cavalo me trouxe de volta para casa, e na outra Bhoora teve que atirar, é claro que para o alto. Talvez se houvesse alguma necessidade ele teria atirado na pessoa que tentava sequestrar-me. Mas não foi necessário, assim ele salvou-se e, também, a religião do meu avô.

            Desde então, é estranho… parece muito, muito estranho para mim porque fui absolutamente inofensivo para todos, entretanto estive em perigo muitas vezes. Tentaram matar-me várias vezes. Sempre me perguntei, uma vez que a vida vai acabar mais cedo ou mais tarde, por que alguém teria interesse em terminá-la no meio. Isso serviria a qual propósito? Se eu pudesse ser convencido desse propósito poderia parar de respirar nesse exato momento.

            Certa vez perguntei a um homem que tentou matar-me. Tive a chance de perguntá-lo porque, finalmente, ele tornou-se um sannyasin. Perguntei, “Agora estamos ambos a sós, diga-me por que você tentou matar-me?”

            Naqueles dias, em Woodlands Bombaim, eu dava sannyas às pessoas a sós em meu quarto. Eu disse, “Estamos a sós. Eu posso te dar sannyas, não há problema nisso. Primeiro torne-se um sannyasin, então me diga o propósito, por que você queria matar-me? Se você convencer-me pararei de respirar aqui e agora na sua frente.”

            Ele começou a chorar e segurou os meus pés. Eu disse, “Isso não basta, você tem que convencer-me do propósito.”

            Ele disse, “Fui apenas um idiota. Não tenho nada a falar para você. Eu estava apenas tendo um ataque de raiva.” Talvez esta seja a razão para um homem absolutamente inofensivo como eu ser atacado de toda maneira possível. Deram-me veneno…

            Gudia tem alguns ataques de raiva de vez em quando, mas mesmo assim ela nunca me prejudicou. Ela não pode, é impossível para ela. De vez em quando todo mundo pode ter ataques de raiva, particularmente uma mulher; e mais ainda se ela tem que viver vinte e quatro horas por dia, ou talvez mais, com um homem como eu, que não é simpático de maneira alguma; que é sempre duro, sempre tentando te empurrar até a borda, e que não permite que você volte. Ele segue te empurrando e dizendo para você “Pule antes de pensar!”

            A minha Nani era certamente similar a Gudia, particularmente quando ela estava em um ataque de raiva. Eu a vi em um ataque de raiva, mas nunca me preocupei. Eu a vi puxar a sua arma e correr até o quarto do meu avô – mas continuei o que eu estava fazendo. Ela me perguntou, “Você não está com medo?”

            Eu disse, “Continue e faça o seu trabalho e deixe-me fazer o meu.”

            Ela riu, dizendo, “Você é um garoto estranho. Eu vou matar o seu avô e você está tentando fazer uma casa de cartas. Você está louco ou o quê?”

            Eu disse, “Vá até lá e mate aquele velho. Sempre sonhei em fazer isso eu próprio, então por que me preocuparia? Não me perturbe.”

            Ela sentou-se do meu lado e começou a me ajudar a fazer o palácio que eu estava criando com as cartas do baralho. Mas quando ela falou para Bhoora, “Se alguém tocar na minha criança, você não deve atirar para o alto porque acreditamos no Jainismo… Esta crença é boa, mas apenas no templo. No mercado temos que nos comportar da maneira do mundo, e o mundo não é Jaina. Como podemos nos comportar de acordo com nossa filosofia?”

            Eu posso ver a sua lógica absolutamente clara. Se você está falando com alguém que não sabe Inglês, você não pode falar com essa pessoa em Inglês. Se você falar com ela em sua própria língua, então existe uma possibilidade maior de comunicação. As filosofias são idiomas; que isso fique absolutamente claro. As filosofias não significam nada de forma alguma – elas são linguagens. E no momento em que vi minha avó dizer a Bhoora, “Quando um dakait tentar roubar a minha criança, fale a língua que ele entende, esqueça completamente o Jainismo” – naquele momento entendi. Embora não tenha ficado tão claro para mim como ficaria depois, deve ter sido claro a Bhoora. O meu avô certamente entendeu a situação porque ele fechou os seus olhos e começou a repetir o seu mantra: “Namo arihantanam namo… namo siddhanam namo…”

            Eu ri, a minha avó deu uma risadinha; Bhoora, é claro, apenas sorriu. Mas todo mundo entendeu a situação – e ela estava certa, como sempre.

            Eu vou contar para vocês outra semelhança entre Gudia e minha avó: ela está quase sempre certa, mesmo comigo. Se ela diz algo, posso não concordar, mas sei que finalmente ela estará certa. Não vou concordar, isso também é verdade. Sou um homem teimoso, falei para vocês muitas vezes. Prendo-me a tudo que sou, certo ou errado. O meu erro é meu erro, e o amo porque é meu. Mas em relação à questão se ela está certa ou errada… sempre que há um conflito sei que Gudia estará certa no final. No momento decidirei – e sou um homem teimoso.

            A minha avó tinha a mesma qualidade de estar sempre certa. Ela disse a Bhoora, “Você acha que esses dakaits acreditam no Jainismo? E aquele velho tolo…” ela indicava o meu avô que estava repetindo o seu mantra. Ela então falou, “Aquele velho tolo só falou para você atirar para o alto porque nós não devemos matar. Deixe-o repetir o seu mantra. Quem está falando para ele matar? Você não é um Jaina, não é?

            Eu sabia instintivamente naquele momento que se Bhoora fosse um Jaina ele poderia perder o seu emprego. Eu nunca me preocupei antes se Bhoora era um Jaina ou não. Pela primeira vez preocupei-me pelo pobre homem, e comecei a rezar. Eu não sabia para quem, porque os Jainas não acreditam em qualquer Deus. Nunca fui doutrinado em qualquer crença, mas ainda assim comecei a falar dentro de mim mesmo, “Deus, se você estiver aí, salve o emprego desse pobre homem.” Você vê o ponto? Mesmo naquele momento eu disse, “Se você estiver aí…” Eu não podia mentir mesmo nessa situação.

            Mas, misericordiosamente, Bhoora não era um Jaina. Ele disse, “Não sou um Jaina, então não ligo.”

            A minha Nani disse, “Então lembre-se do que te falei, e não do que aquele velho tolo falou.”

            De fato ela sempre costumava utilizar aquele termo para meu avô: “aquele velho tolo” – e reservei-o para Devageet. Mas “aquele velho tolo” está morto. A minha mãe… a minha avó está morta. Desculpem-me, novamente eu disse “minha mãe.” Realmente não acredito que ela não era a minha mãe, mas apenas a minha avó.

            A propósito, vocês ficarão surpresos que todos os meus irmãos e irmãs – e existem quase uma dúzia deles – todos chamam a minha mãe de “Ma,” mãe, exceto eu; chamo-a “Bhabbhi.” Todo mundo na Índia sempre costumava perguntar-se por que eu chamava minha mãe Bhabbhi, porque significa “esposa do irmão mais velho.” Em Hindi, a palavra para irmão mais velho é bhaiya; a palavra para sua esposa é bhabhi. Os meus tios chamam a minha mãe de Bhabhi, e isso é perfeitamente correto. Por que continuo a chamá-la de Bhabbhi até mesmo hoje? A razão é, conheci outra mulher como minha mãe – a mãe da minha mãe.

            Depois daqueles primeiros anos conhecendo Nani como minha mãe, era impossível chamar qualquer outra mulher de Ma – mãe. Sempre a chamei de minha Nani, sabia que ela não era a minha mãe real, mas ela serviu de mãe para mim. A minha mãe real permaneceu um pouco longe, um pouco estranha. Embora Nani esteja morta, ela está mais próxima de mim. Embora minha mãe esteja agora iluminada ainda vou chamá-la de Bhabbhi, não posso chamá-la de Ma. Utilizá-lo seria quase uma traição com alguém que está morto. Não, não posso fazê-lo.

            A minha própria avó disse-me várias vezes, “Por que você segue chamando a sua mãe de Bhabbhi? Chame-a de mãe.” Eu simplesmente evitava a questão. Esta é a primeira vez que falo e discuto sobre isso – com vocês.

            A minha Nani tornou-se de alguma forma parte do meu ser. Ela amou-me imensamente. Uma vez, quando um ladrão entrou na nossa casa ela lutou contra ele de mãos limpas, e vi quão feroz uma mulher poderia ser… realmente perigosa! Se eu não tivesse interferido ela teria matado o pobre homem. Eu disse, “Nani! O que você está fazendo? Apenas por mim, solte-o. Deixe-o ir!” Porque eu estava chorando e dizendo para ela parar por mim, ela permitiu que o homem fosse embora. O pobre homem não podia acreditar que ela estava sentada em seu peito segurando seu pescoço com suas duas mãos. Ela certamente o teria matado. Apenas um pouco mais de pressão em sua garganta e o homem morreria.

            Quando ela falou com Bhoora eu sabia que ela falava a sério. Bhoora também sabia. Quando o meu avô começou o mantra, eu sabia que ele também entendia que ela falava a sério.

            Fui atacado duas vezes – e para mim era uma alegria, uma aventura. De fato, no fundo eu queria saber o que era ser raptado. Essa sempre foi a minha característica, vocês podem chamar de meu caráter. É uma qualidade encher-me de contentamento. Eu costumava ir a cavalo até a floresta que nos pertencia. O meu avô prometeu que tudo o que era seu pertenceria a mim por testamento, e ele foi verdadeiro com a sua palavra. Ele nunca deu um único pai para nenhuma outra pessoa.

            Ele tinha milhares de acres de terra. É claro que naqueles tempos eles não tinham valor nenhum. Mas não me preocupo com o valor – essas terras eram tão belas: aquelas árvores imensas, um grande lago e, no verão, quando as mangas amadureciam era tão fragrante. Eu costumava ir tanto até lá que meu cavalo aprendeu o meu caminho.

            Ainda sou o mesmo… e se eu não gostar de um lugar nunca retorno.

            Fui para Madras apenas uma vez, uma única vez, porque nunca gostei do lugar, particularmente da língua. Parecia que todos lutavam contra todos. Eu odiei aquilo e odeio aquele tipo de língua. Então eu disse para o meu anfitrião, “Essa é a primeira e a última visita a você.”

            Ele disse, “Por que a última?”

            Eu disse, “Odeio esse tipo de língua. Todo mundo parece estar lutando. Sei que não estão – é apenas a forma que eles falam.” Odeio Madras, não gosto de maneira alguma.

            Krishnamurti gosta de Madras, mas isso é problema dele. Ele vai para lá todo ano. Ele é um Tamil. De fato, ele nasceu perto de Madras. Ele é um Madrasi, então, para ele, ir até lá é perfeitamente lógico. Por que eu deveria ir até lá?

            Eu costumava ir a vários locais. Por quê? Não há porque. Eu simplesmente gostava de ir. Gosto de estar de passagem. Vocês entenderam?… de passagem. Sou um homem que não tenho negócios aqui, ou ali, ou em qualquer lugar. Estou apenas de passagem. Deixe-me dizer em outras palavras: estou no touro mecânico. Agora acho que vocês entenderam.

            Eu costumava ir no meu cavalo, e vendo aqueles cavalos na procissão de casamento da Princesa Diana não pude acreditar que a Inglaterra pudesse ter cavalos tão belos. A rainha é apenas simples – não quero dizer feia somente por pura polidez. E o Príncipe Charles certamente não é um príncipe: olhe para a sua face! Vocês falam que sua face é principesca? Talvez na Inglaterra… E os convidados! As grandes perucas! Em particular, o sumo sacerdote – como vocês o chamam na Inglaterra?

            “O Arcebispo de Canterbury, Osho.”

            Excelente! Arcebispo! Um grande nome para um traço-traço-traço; caso contrário eles falarão que porque utilizei essas palavras eu não posso ser iluminado! Mas acho que todos no mundo entenderão o que quero dizer por traço-traço-traço – até mesmo o arcebispo!

            Todas aquelas pessoas, e pude amar somente os cavalos! Eles eram as pessoas reais. Que alegria! Que trote! Que dança! Apenas pura celebração. Imediatamente lembrei-me do meu próprio cavalo, daqueles dias… a fragrância ainda está aqui. Posso ver o lago e a mim mesmo como uma criança no cavalo na floresta. É estranho – embora meu nariz esteja debaixo dessa ratoeira posso sentir o cheiro das mangueiras, das árvores neem, dos pinheiros, e eu também posso sentir o cheiro do meu cavalo.

            Era bom que eu não era alérgico aos cheiros naqueles dias, ou, quem sabe, eu poderia ser alérgico, mas era inconsciente disso. É uma estranha coincidência que o ano da minha iluminação foi também o ano que me tornei alérgico. Talvez eu fosse alérgico antes e apenas não tinha consciência disso, e, quando tornei-me iluminado, essa consciência veio. Abandonei a iluminação agora.

            “Por favor,” estou falando para a existência, “abandone essa alergia para que eu possa novamente montar a cavalo.” Esse seria um grande dia, não apenas para mim mas para todos os meus sannyasins.

            Há apenas uma foto, que eles seguem publicando no mundo todo, na qual estou cavalgando em um cavalo da Kashimira. É apenas uma foto. Eu não estava realmente cavalgando. Mas porque o fotógrafo queria me fotografar em um cavalo, e eu amava o homem – o fotógrafo, quero dizer – eu não podia falar não para ele. Ele trouxe o cavalo e todos os seus equipamentos, então eu disse tudo bem. Apenas sentei-me no cavalo, e vocês podem ver pela foto que o meu sorriso não era verdadeiro. É o sorriso de quando um fotógrafo diz, “Sorria por favor!” Mas se posso transcender a iluminação, quem sabe, talvez eu possa transcender a alergia aos cavalos, pelo menos. Então posso ter o mesmo tipo de mundo ao meu redor:

O lago…

As montanhas,

O rio…

 

Eu apenas teria saudades da minha avó.

            Devageet, você não é o único Judeu aqui. Lembre-se, você não está com pressa; eu estou com pressa. Minha bexiga está doendo! Então por favor… Sempre quero ter a última palavra. Devageet, você seria uma ótima esposa resmungona. Realmente, falo sério! Encontre um rapaz legal e vá para a lua de mel. Veja, você já está pensando que estou dispensando você. Não fique com tanta pressa. A sua bexiga não está explodindo! Agora…

            Isso é bom.

            Isso é fabuloso! Acabei de utilizar essa palavra pela primeira vez na minha vida… fabuloso! Não sei o que ela significa, mas quando a sua bexiga está estourando, quem liga?

 

 

 

Sessão 11

 

Devageet… realmente ótimo, e depois de ser golpeado, você viu as estrelas. Também posso ver as estrelas com você.

Certo.

A vila que nasci não era parte do Império Britânico. Era um estado pequeno governado por uma rainha Islâmica. Posso vê-la agora. Estranho… ela também era tão bela quanto a rainha da Inglaterra, exatamente tão bela quanto. Mas havia uma coisa boa: ela era Islâmica, enquanto que a rainha da Inglaterra não é. Tais mulheres deveriam ser sempre Islâmicas, porque elas têm que permanecer escondidas atrás de um véu, chamado burqa. Ela costumava visitar a nossa vila de vez em quando; e é claro, naquela vila, a minha casa era a única onde ela podia ficar, e, ademais, ela amava a minha avó.

            A minha Nani e ela estavam conversando quando vi pela primeira vez a rainha sem o seu véu. Eu não podia acreditar: uma rainha, e tão sem graça! Então entendi o propósito da burqa, o véu – que os Hindus chamam parda. É para mulheres feias; em um mundo melhor ela serviria para os homens feios também. Pelo menos você não poderia atacar ninguém com a sua feiura. É uma agressão. Se a beleza é uma atração, então o que é a feiura? É uma agressão, um ataque, e ninguém está protegido dele. Nenhuma lei protege alguém.

            Eu ri na própria cara da rainha. Ela disse, “Por que você está rindo?”

            Eu disse, “Estou rindo porque sempre perguntei-me qual era o propósito da parda e da burqa. Hoje eu sei.”

            Não acho que ela entendeu, porque ela sorriu. Embora fosse uma mulher feia devo conceder que seu sorriso era belo.

            O mundo está cheio de coisas estranhas. Cruzei com muitas pessoas que eram belas, mas quando sorriam as suas faces pareciam destorcidas, feias. Eu vi o Mahatma Gandhi apenas quando eu era criança. Ele era feio até o âmago. De fato eu diria que ele era unicamente feio, mas a sua beleza estava em seu sorriso. Ele sabia como sorrir; sobre isso não posso ser contra ele. Sobre tudo o restante sou contra ele, porque exceto pelo seu sorriso tudo era apenas bobagem, podre! Ele foi realmente um grande Bodigarbage [NT. garbage = lixo]. O nosso próprio Bodilixo não é nada comparado com ele.

            Ouvi falar que as pessoas chamam o Swami Bodigarbha de Bodigarbage. Gostei disso! Elas adicionaram algo ao nome. De fato colocaram-no exatamente onde ele deveria estar. Eu lhe dei o nome de Bodigarbha, o que poderia ser o seu futuro. Mas as pessoas só podem ver o que está muito próximo; elas o chamam de Bodigarbage. Talvez esse nome seria bom para o Mahatma Gandhi.

A rainha… (Devageet reprime um espirro.) Agora, isso realmente me distrai. Você sabia, Devageet, que na Índia as pessoas acreditam que quando você espirra, o demônio entra em você? Então quando elas espirram, para prevenir que o demônio entre nelas, elas falam com um clique (Osho estala os dedos) “Om shantih, shantih, shantih…. Om shantih, shantih, shantih… Om shantih, shantih, shantih…” Três vezes você tem que estalar os seus dedos. Eu não sei como você chama esse estalar com os dedos; de qualquer forma, os Indianos realmente o fazem.

Eu não sei se o demônio é impedido de entrar ou não, mas qualquer coisa que você estiver fazendo não é perturbada. Agora, você é um Judeu, não um Hindu, então, pelo menos você espirra e não faz todo o procedimento Hindu; caso contrário tornei-me são, e tenho muito medo da sanidade. Mas não estou falando algo errado – eu quis dizer sanidade: tenho muito medo da sanidade.

Posso sentir a sua confusão. Não é necessário você ficar confuso. Sou um homem insano com medo de ficar são novamente – e aquele procedimento levaria qualquer pessoa à sanidade. Mas você é um Judeu, graças a Deus! Como um Inglês, você tentou muito prevenir o espirro; até isso posso entender. Um Inglês previne tudo o que é possível, até mesmo um espirro, particularmente quando está na presença de alguém que finge ser mais sagrado que você.

Mas relaxe, não finjo ser mais sagrado que você. Você pode espirrar alegremente, então o espirro não me distrairá. Ele pode até me dar algumas dicas para a história que estou contando. De volta ao trabalho. Chega de distrações por causa desse espirro.

Como eu estava falando, a minha vila pertencia a um estado pequeno, muito pequeno, Bhopal. Ele não era parte do Raj Inglês. É claro que a rainha de Bhopal costumava nos visitar de vez em quando. Eu estava falando que certa vez eu estava presente, e ri da feiura da mulher e da beleza da sua máscara. A sua burqa era realmente bela; era cravejada de safiras. Ela ficou tão impressionada pela minha avó que a convidou para a celebração anual na capital. A minha avó disse, “Para mim é impossível ir porque não posso deixar a minha criança sem cuidados por tantos dias.”

Em Hindi “minha criança” é uma frase tremendamente bela, mera beta; ela significa “minha criança, meu menino.”

A rainha disse, “Não há problema: você pode trazê-lo também. Também o amo.”

Eu não podia entender por que ela me amaria. Eu não fiz nada de errado. Por que eu deveria ser punido? A própria ideia de ser amado por essa mulher era como se um monstro rastejasse sobre você. Naquele momento era parecia exatamente como um monstro, cheio de coisas grudentas. Talvez ela gostasse de mascar chiclete – tudo nela era um chiclete. Na minha vida nunca tive medo, exceto daquela mulher. Mas a aventura de ir à capital como um convidado da rainha, e hospedar-se em seu belo palácio que eu tinha ouvido mil e uma histórias, foi demais. Embora eu não quisesse nunca mais ver aquela mulher, fui com a minha avó para a celebração anual.

Lembro-me do palácio. Era um dos mais belos da Índia. Ele tinha quinhentos acres de matas e um lago de quinhentos acres – mil acres no total. A rainha foi boa conosco como convidados, mas confesso, evitei olhar para a sua face o máximo que pude. Talvez ela ainda esteja viva, porque naquela época ela não era tão velha.

Um incidente estranho aconteceu com relação àquele palácio – devo chamá-lo de uma coincidência. No dia em que eu disse, “Certo, estou pronto para mover-me para os Himalaias,” naquele mesmo dia o filho da rainha de Bhopal me ligou dizendo que se tivéssemos interessados eles gostariam de ceder o palácio deles – o mesmo palácio que estou falando para vocês. Aquele palácio… por um momento não pude acreditar que eles o ofereceriam. Eles perderam tudo; todo o estado se foi, fundindo-se na Índia. Tudo o que sobrou foi apenas os mil acres, e aquele palácio. Mas ainda assim é um reino belo – quinhentos acres de árvores antigas, e quinhentos acres de um lago que era apenas parte do grande lago de Bhopal.

Na Índia o lago de Bhopal é o maior. Não acho que exista no mundo algum outro lago que possa competir com ele, ele é tão vasto. Não posso me lembrar quantas milhas de largura são, mas não é possível ver a outra margem de lugar algum. Aqueles quinhentos acres do lago do castelo são parte do mesmo lago, mas pertencem ao castelo.

Eu disse, “É muito tarde. Diga ao príncipe e à sua mãe, se ela ainda estiver viva, que somos gratos pela oferta mas decidi ir para os Himalaias.” Por sete anos tenho tentado encontrar apenas alguns poucos milhares de acres de terra, mas os políticos sempre interferem. Diga a ele, “Lembro-me de visitar o seu palácio e a sua mãe – talvez ela ainda esteja viva, não sei.” Mas diga a ele, “Eu amei o castelo, e ainda o amo, ainda mais agora que você o ofereceu a mim. Mas decidi ir para os Himalaias.”

A minha secretária ficou chocada e falou, “Ele está oferecendo o palácio para você e não está pedindo nenhum dinheiro. Ele deve valer pelo menos dois milhões de dólares.”

Eu disse, “Dois milhões ou vinte milhões de dólares, não importa de maneira alguma. Meu obrigado tem muito mais valor. Quantos milhões de dólares você acha que ele vale? Apenas diga para ele, ‘Ele envia o seu obrigado, mas a sua oferta chegou apenas algumas horas atrasada. Se você tivesse oferecido o palácio há apenas algumas horas antes ele o teria aceitado. Agora nada pode ser feito de maneira alguma.”

Quando ouviu, o príncipe ficou chocado. Ele não podia acreditar que alguém poderia oferecer um palácio tal sem pedir nada em troca e receber a resposta, “Desculpe, não, obrigado.”

Conheço o palácio. Fui um hóspede dele uma vez em minha infância, e mais uma vez posteriormente. Eu o vi pelos olhos de uma criança e também pelos olhos de um jovem homem. Não, não fui enganado quando o vi quando criança, mas ele era muito mais bonito do que eu havia entendido naquele momento. Uma criança, embora inocente, tem limitações; a sua visão não pode implicar tudo o que é possível. Ela apenas vê o que é aparente. Eu também visitei o palácio como um jovem homem, novamente como um convidado, e sabia que ele devia ser uma das estruturas mais belas do mundo, particularmente a sua localização. Mas tive que recusá-lo.

Às vezes é tão bom recusar, porque eu já sabia que se eu aceitasse haveriam problemas ad infinitum. Aquele palácio não podia ser meu palácio. Os políticos, que tornaram-se todo-poderosos – ignorantes, corruptos, sem talento e imorais – iriam cair encima. Apesar de eu ter recusado, eles ainda assim caíram encima, pensando que o príncipe estava mentindo, pois como alguém poderia recusar tal oferta?

Eu fiquei sabendo que eles estavam-no torturando de todas as formas possíveis para saber por que ele me ofereceu o palácio. Eu não o aceitei. Nada aconteceu na realidade, apenas uma ligação – mas isso foi o suficiente.

Os políticos Indianos devem ser os piores do mundo. Políticos existem em todo o lugar, mas eles não são nada perto dos políticos Indianos.

A razão é clara: por dois mil anos a Índia esteve na escravidão. Em 1947, somente por sorte, a Índia libertou-se. Digo por sorte porque a Índia ainda não merece isso; todo o crédito vai para a Attlee, o primeiro ministro Inglês daquele momento. Ele era um socialista, um tipo de sonhador. Ele pensava sobre igualdade e liberdade e todos os tipos de grandes coisas. Foi ele o verdadeiro pai da liberdade Indiana. Não é que a Índia conseguiu ou mesmo mereceu à libertação. Foi apenas sorte ter Attlee como primeiro ministro da Inglaterra.

Depois de dois mil anos de escravidão os Indianos tornaram-se realmente espertos. Apenas para sobreviver, o escravo tornou-se esperto. A escravidão terminou, mas a esperteza continua. Nenhum Attlee pode destruí-la. Ela não está nas mãos de ninguém; ela espalhou-se por toda a Índia. Ao final desse século a Índia será o país mais populoso do mundo. Apenas pensar nisso é o suficiente para que eu não durma.

Sempre que não quero dormir penso na Índia no final desse século. Isso é o suficiente! Então, mesmo se você me der pílulas para dormir elas não me afetarão. A própria ideia de que a Índia será o país mais densamente povoado do mundo, com todos aqueles políticos pigmeus, é o suficiente! Vocês podem pensar em um pesadelo maior?

Recusei aquele belo palácio. Ainda sinto muito por ter que recusar o único homem que veio com uma oferta, sem nem pedir por dinheiro. Certamente sinto muito por ele… eu tive que recusar porque tinha me decidido, e uma vez que decido, certo ou erradamente, não posso voltar atrás. Não posso cancelá-lo; não está em meu sangue. É apenas um tipo de teimosia.

Que horas são, Devageet?

“Dez e trinta e um, Osho.”

Bom! Deem-me apenas dez minutos. Lembrem-se disso, eu não dormi toda a noite.

Sem a minha insistência onde vocês estariam? Vocês teriam parado há muito tempo. Continuem – não seja uma esposa Judia. Judia e esposa, ambos juntos! Até mesmo Deus não pode lidar com isso, então ele administra com um Espírito Santo.

Pobre Devageet, não importa o quão forte eu bata nele, ele nunca se vinga. Tudo bem. Qualquer um – e quando digo qualquer um quero dizer, Moisés, Jesus, Buda – teria inveja de mim. Gautama o Buda tinha o seu próprio médico particular, mas nenhum buda já teve o seu próprio dentista. Eles certamente não foram tão afortunados. Pelo menos ninguém teve um Devageet como companhia, isso é absolutamente certo.

Bom, agora pare.

 

 

 

Publicado por rafaelsc

"Ensinar não é encher um balde, é acender um fogo" Yeats "Creio porque é absurdo" Tertuliano "Seja uma luz para si próprio" Buda “Sentando-se quieto, sem fazer nada, a primavera vem e a grama cresce, por si só." Matsuo Bashō "O silêncio e a risada são a chave – silêncio dentro, risada fora" Osho

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