Sessão 1

 

É uma linda manhã. Repetidas vezes o sol eleva-se e está sempre novo. Ele nunca envelhece. Os cientistas dizem que ele tem milhões de anos. Bobagem! Todo dia o vejo. Ele está sempre novo. Nada é velho. Mas os cientistas são coveiros, é por isso que digo que eles são tão graves, sérios. Esta manhã, de novo o milagre da existência. A cada momento isso está acontecendo, mas apenas muito poucos, muito poucos o encontram.

            A palavra ‘encontro’ é realmente bela. Para encontrar o momento como ele é, para vê-lo como ele é, sem adicionar, sem deletar, sem qualquer trabalho editorial – apenas vê-lo como ele é, como um espelho… o espelho não edita, graças a Deus; do contrário nenhuma face no mundo seria capaz de adequar-se aos seus requerimentos, nem mesmo a face de Cleópatra. Nenhuma face seria capaz de adequar-se ao espelho, pela simples razão que se ele começar a cortá-lo, editá-lo, adicionar a você, ele começará a destruí-lo. Mas nenhum espelho é destrutivo. Mesmo o espelho mais feio é muito belo em sua indestrutividade. Ele simplesmente reflete.

            Antes de adentrar a sua Arca de Noé, eu estava apreciando o nascer do sol… tão belo, pelo menos hoje – e quem liga para o amanhã? O amanhã nunca vem. Jesus disse, “Não pense no dia seguinte…”

            Hoje está tão belo que por um momento lembrei-me da tremenda beleza do nascer do sol nos Himalaias. Ali, quando a neve está ao seu redor e as árvores parecem noivas, como se tivessem desabrochado flores brancas de neve, uma pessoa não se importa nem um pouco com os mandachuvas, os primeiros ministros e os presidentes do mundo, os reis e as rainhas. De fato, os reis e as rainhas existirão apenas nas cartas do baralho; eles pertencem à esta dimensão. E os presidentes e os primeiros ministros tomarão o lugar dos curingas. Eles não merecem nada melhor.

            Aquelas árvores de montanha com suas flores brancas de neve… e sempre que vejo a neve caindo de suas folhas eu me lembro de uma árvore da minha infância. Aquele tipo de árvore só é possível na Índia; ela se chama madhumalti – madhu significa doce, malti significa a rainha. Nunca cruzei com nenhuma fragrância que é mais bela e mais penetrante – e vocês sabem que sou alérgico a perfumes, então imediatamente sei. Sou muito sensível a perfumes.

            Madhumalti é a árvore mais bela que alguém pode imaginar. Deus deve tê-la criado no sétimo dia. Aliviado de todas as preocupações e pressas do mundo, com tudo concluído, até mesmo o homem e a mulher, ele deve ter criado madhumalti nesse dia de folga, um feriado, um Domingo… apenas o seu velho hábito de criar. É difícil abandonar os velhos hábitos.

As flores da madhumalti com milhares de flores juntas. Não uma flor aqui e outra ali, não, esse não é o modo da madhumalti, nem o meu modo. As flores da madhumalti com uma riqueza, com luxúria, com afluência – milhares de flores, tantas que você não consegue ver as folhas. Toda a árvore fica coberta de flores brancas.

            As árvores cobertas de neve sempre lembraram-me da madhumalti. É claro que não há perfume, e é bom para mim que a neve não tenha perfume. Infelizmente eu não posso segurar as flores da madhumalti mais uma vez. O perfume é tão forte que se espalha por quilômetros, e lembre-se, não estou exagerando. Apenas uma única árvore de madhumalti é suficiente para preencher toda a vizinhança com um imenso perfume.

Eu amo os Himalaias. Eu quero morrer lá. É o lugar mais belo para morrer – claro que para viver também, mas em relação à morte, os Himalaias é o local supremo. É onde Lao Tzé morreu. Nos vales dos Himalaias Buda morreu, Jesus morreu, Moisés morreu. Nenhuma outra montanha pode reivindicar Moisés, Jesus, Lao Tzé, Buda, Bodidarma, Milarepa, Marpa, Tilopa, Naropa e milhares de outros.

A Suíça é bela mas não é nada comparada com os Himalaias. É conveniente estar na Suíça com todas as suas instalações modernas. É muito inconveniente nos Himalaias. Ainda não existe nenhuma tecnologia – nenhuma estrada, eletricidade, aviões, trilhos de trem, nada. Mas então a inocência vem. Uma pessoa é transportada para outro tempo, para outro ser, para outro espaço.

Eu quero morrer lá; e nessa manhã, apreciando o nascer do sol, senti-me aliviado, sabendo que se eu morrer aqui, particularmente em um dia tão lindo quanto esse, tudo estará bem. E escolherei morrer em um dia que eu sentir ser parte dos Himalaias. A morte para mim não é apenas um fim, uma parada final. Não, a morte para mim é uma celebração.

Lembrando da neve caindo das árvores, assim como das flores caindo da madhumalti, um haiku passou como um raio…

O ganso selvagem

Não tem a intenção de lançar os seus reflexos.

A água não tem mente

Para receber as suas imagens.

 

Ahhh, tão belo. O ganso selvagem não tendo a intenção de criar reflexo, e a água não tendo a intenção de recebê-lo também, e, no entanto, o reflexo está lá. Esta é a beleza. Ninguém teve a intenção, entretanto está lá – é isso o que chamo de comunhão. Sempre odiei a comunicação. Para mim a comunicação é feia. Você pode vê-la acontecendo entre uma esposa e um marido, o chefe e o empregado, e assim por diante. Comunhão é a minha palavra.

            Eu vejo a Sala Buda com a minha gente… apenas por um momento como um flash, tantos momentos de comunhão. Não é apenas uma reunião; não é uma igreja. As pessoas não vêm até ela formalmente. As pessoas vêm até mim, não até ela. Sempre que houver um mestre e um discípulo, isso não importa – a comunhão ocorre. Está acontecendo agora, e existem apenas quatro de vocês. Talvez com os meus olhos fechados eu não possa nem contar, e está tudo bem; somente assim é possível permanecer no mundo do incontável… e sem taxas também! Se você pode contar, então a taxação vem. Eu sou incontável, ninguém nunca me taxou.

            Eu era professor em uma universidade. Quando eles queriam aumentar o meu salário eu dizia não. O vice-reitor não podia acreditar; ele disse, “Por que não?”

            Eu disse, “Para além do que estou ganhando agora terei que pagar taxas, e eu odeio taxações. Prefiro continuar com o pagamento que tenho agora do que ganhar mais e ser perturbado pelo departamento de imposto de renda.” Eu nunca passei do limite que era permitido para permanecer livre das taxas.

            Eu nunca paguei nenhum imposto de renda; de fato, não há renda. Eu dei para o mundo, não tirei nada do mundo. É um saldo, não uma renda. Eu dei meu coração e meu ser.

            É ótimo que se permita que as flores não paguem impostos, caso contrário elas parariam de florescer. É ótimo que se permita que a neve não pague impostos, caso contrário ela não cairia, podem acreditar em mim!

            Devo dizer para vocês que depois da Revolução Russa algo aconteceu com o gênio Russo. Liev Tolstói, Fiódor Dostoiévski, Turguêniev, Máximo Gorki – todos eles desapareceram. Entretanto, na Rússia de hoje o escritor, o romancista, o artista são as pessoas mais bem pagas e honradas. Então o que ocorreu? Por que eles não criam mais livros como Os Irmãos Karamazov, Anna Karenina, Pais e Filhos, A Mãe, ou Notas do Subterrâneo? Por quê? Quero perguntar mil vezes, por que? O que aconteceu com o gênio romancista Russo?

            Não acho que nenhum outro país pode competir com a Rússia. Se vocês contarem apenas dez romances do mundo, apenas por necessidade vocês terão que incluir cinco romances Russos, deixando apenas cinco para todo o restante do mundo. O que aconteceu com esse grande gênio? Ele morreu! – porque as flores não podem ser exigidas, não existem dez mandamentos para elas. As flores florescem, vocês não podem exigir que elas floresçam. A neve cai – você não pode emitir um mandamento, não pode marcar um encontro com ela. Isso é impossível. E esse é o caso com os budas. Eles dizem o que querem dizer, quando querem dizê-lo. Eles dirão, até mesmo para uma única pessoa, algo que todo o mundo gostaria de ouvir.

            Agora vocês estão aqui, talvez apenas quatro. Eu digo “talvez” porque a minha matemática é pobre, e com os olhos fechados… vocês podem entender… e com lágrimas nos meus olhos, não porque apenas quatro estão presentes, mas por essa linda manhã, por causa do nascer do sol.

            Obrigado Deus. Ele pensa em mim – embora ele não exista, ainda assim ele pensa em mim. Eu o rejeito, e, entretanto, ele pensa em mim. Grande Deus. A existência parece cuidar. Mas vocês não conhecem os modos da existência; eles são imprevisíveis. Eu sempre amei o imprevisível.

            As minhas lágrimas são pelo nascer do sol. A existência tem cuidado de mim.

            Eu não perguntei.

            Nem ela respondeu.

            Mas mesmo assim houve o cuidado.

O ganso selvagem não tem a intenção de refletir.

A água não tem intenção de refletir as suas imagens…

É assim que estou falando. Eu não sei como será a próxima sentença ou se ela existirá. O suspense é belo.

            Lembro-me novamente da pequena vila onde nasci. Porque a existência escolheu aquela pequena vila em primeiro lugar é inexplicável. É como deveria ser. A vila era bela. Eu viajei por toda parte, mas eu nunca encontrei a mesma beleza. Ninguém nunca volta para o mesmo. As coisas vêm e vão, porém elas nunca são as mesmas.

            Posso ver aquela calma e pequena vila. Apenas algumas poucas cabanas próximas de um lago, e algumas árvores altas onde eu costumava brincar. Não havia escola na vila. Isso é de grande importância, porque permaneci sem instrução por quase nove anos e esses são os anos mais formativos. Depois disso, mesmo se você tentar, você não pode ser educado. Então, de certa forma ainda sou sem instrução, embora eu tenha muitos diplomas. Qualquer pessoa sem instrução poderia consegui-los. E não qualquer diploma, mas um diploma de mestrado de primeiro da classe – isso também pode ser feito por qualquer tolo. Muitos tolos o fazem todo ano e não tem nenhuma significância. O que é significante é que nos meus primeiros anos eu permaneci sem educação. Não havia escola, estrada, linhas férreas, correios. Que bênção! Aquela pequena vila era um mundo por si só. Mesmo quando estou longe daquela vila eu permaneço naquele mundo, sem instrução.

            Eu li o famoso livro de Ruskin, Até Este Último, e quando eu estava lendo-o eu pensava naquela vila. Até Este Último… aquela vila ainda está inalterada. Nenhuma estrada a conecta, nenhuma linha férrea passa por ela, até mesmo agora depois de quase cinquenta anos; nenhum correio, delegacia de polícia, nenhum doutor – de fato, ninguém fica doente naquela vila, ela é tão pura e tão impoluta. Conheço pessoas daquela vila que nunca viram um trem, que se perguntam como os trens se parecem, que não viram nem um ônibus ou um carro. Elas nunca deixaram a vila. Elas vivem tão bem-aventuradas e silenciosas.

            Meu local de nascimento, Kuchwada, era uma vila sem linha férrea e correios. Ela tinha pequenas colinas, outeiros, um belo lago e algumas cabanas, cabanas de palha. A única casa de tijolos era a que eu nasci, e mesmo essa não era perfeitamente uma casa de tijolos. Era apenas uma casa pequena.

            Eu posso vê-la agora e posso descrevê-la com todos os detalhes… porém mais que a casa ou a vila, lembro-me das pessoas. Encontrei-me com milhões de pessoas, mas as pessoas daquela vila eram mais inocentes que qualquer uma, porque elas eram muito primitivas. Elas não conheciam nada do mundo. Nem mesmo um simples jornal nunca entrou naquela vila. Agora vocês podem entender porque não havia escola, nem mesmo uma escola primária… que bênção! Nenhuma criança moderna pode dar-se a esse luxo.

            Sim, devo confessar que tive um tutor privado. Aquele primeiro tutor era ele próprio sem instrução. Ele não estava me ensinando, mas tentando aprender ao ensinar-me. Talvez ele tinha ouvido o grande ditado, “A melhor maneira de aprender é ensinar,” mas ele era um bom homem, simpático, não como um professor de escola maldoso. Para ser um professor de escola é preciso ser maldoso. Isso é parte de todo o mundo dos negócios. Ele era simpático – como manteiga, muito suave. Permita-me confessar, eu costumava bater nele – mas ele não me batia de volta, ele apenas ria e dizia, “Você é uma criança, você pode me bater. Eu sou um homem velho, eu não posso te bater de volta. Quando você ficar velho você entenderá.” Era isso o que ele dizia para mim, e sim, eu entendo.

            Ele era um aldeão simpático com um grande discernimento. Às vezes os aldeões têm um discernimento que falta às pessoas civilizadas. Acabo de lembrar-me…

            Uma bela mulher vai à praia. Não vendo ninguém ao redor ela se despe. Um pouco antes de entrar no oceano um sujeito a interrompe e diz, “Senhora, sou o policial da vila. É proibido nadar no oceano nessa praia.” A mulher fica intrigada e diz, “Então por que você não me preveniu antes de eu me despir?” O velho homem ri, com lágrimas em seus olhos. Ele diz, “Despir-se não é proibido, então esperei atrás de uma árvore!”

            Um belo aldeão… esse tipo de pessoa vivia na vila – pessoas simples. Eu estava cercado por pequenas colinas e havia um pequeno lago. Ninguém pode descrever aquele lago exceto Basho. Até mesmo ele não descreve o lago, ele simplesmente diz:

O lago antigo

O sapo salta para dentro

Plop!

 

É uma descrição? O lago é apenas mencionado, o sapo também. Nenhuma descrição do lago ou do sapo… e plop!

            A vila tinha um lago antigo, muito antigo, e árvores muito antigas ao seu redor – elas talvez tinham centenas de anos – e belas rochas ao redor… e certamente os sapos saltavam. Entra dia sai dia vocês podem ouvir o “plop” repetidas vezes. O som dos sapos saltando realmente ajudava o silêncio predominante. Aquele som tornava o silêncio mais rico, mais significativo. 

            Esta é a beleza de Basho: ele pode descrever algo sem realmente descrevê-lo. Ele pode dizer algo sem nem mesmo mencionar uma palavra. “Plop!” Ora, isso é uma palavra? Nenhuma palavra pode fazer justiça ao som de um sapo saltando em um lago antigo, mas Basho lhe fez justiça.

            Eu não sou um Basho, e aquela vila precisava de um Basho. Talvez ele teria feito belos esboços, pinturas e haikus… Eu não fiz nada em relação àquela vila – vocês perguntarão o porquê – eu nem mesmo a visitei novamente. Uma vez é suficiente. Eu nunca vou para um lugar duas vezes. Para mim o número dois não existe. Eu deixei muitas vilas, muitas cidades, para nunca mais retornar. Uma vez passado, passado para sempre, essa é o meu modo; então eu nunca voltei àquela vila. Os aldeões mandaram-me mensagem para que eu voltasse pelo menos mais uma vez. Eu falei para eles através de um mensageiro, “Eu já estive aí uma vez, duas vezes não é o meu modo.”

            Mas o silêncio daquele lago antigo continua comigo. Novamente eu me lembro dos Himalaias – a neve… tão bela, tão pura, tão inocente. Você só pode vê-la através dos olhos de um Bodidarma, um Jesus, um Basho. Não há outra maneira de descrever a neve; apenas os olhos dos budas a refletem. Os idiotas podem pisoteá-la, podem fazer bolas de neve, mas apenas os olhos dos budas podem refleti-la.

Embora…

O ganso selvagem

Não tem a intenção de lançar os seus reflexos.

A água não tem mente

Para receber as suas imagens.

 

E ainda assim a imagem ocorre.

            Os budas não querem refletir a beleza do mundo, nem o mundo de qualquer forma intenciona ser refletido pelos budas, mas é refletido. Ninguém quer, mas ocorre, e quando ocorre é belo. Quando é feito, é ordinário; quando é feito, vocês são técnicos. Quando ocorre você é um mestre.

            A comunicação é parte do mundo do técnico; a comunhão é a fragrância do mundo do mestre.

            Isso é comunhão.

            Não estou falando sobre algo em particular…

            O ganso selvagem e a água…

Sessão 2

 

Acabo de ter uma experiência dourada, o sentimento de um discípulo trabalhando tão amorosamente no corpo do seu mestre. Ainda estou sem fôlego por causa disso. E também me fez lembrar da minha infância dourada. Todos falam de suas infâncias douradas, mas isso é raramente, muito raramente, verdade. Na maior parte é uma mentira. Mas tantas pessoas estão contando a mesma mentira que ninguém a detecta. Até mesmo os poetas seguem cantando canções de sua infância dourada – Wordsworth por exemplo, um sujeito de maneira alguma sem valor [NT. trocadilho de worth (valor) com worthless (imprestável, inútil)] – mas uma infância dourada é extremamente rara, pela simples razão: onde vocês podem encontrá-la?

            Primeiro, é preciso escolher o próprio nascimento. Isso é quase impossível. A não ser que você tenha morrido em um estado de meditação você não pode escolher o seu nascimento; esta escolha apenas se abre para o meditador. Ele morre conscientemente, por isso ganha o direito de nascer conscientemente.

            Eu morri conscientemente. Não morri de fato, mas fui morto. Eu teria morrido três dias depois mas eles não puderam esperar, nem mesmo por três dias. As pessoas estão com tanta pressa. Vocês ficarão surpresos em saber que o homem que me matou é agora meu sannyasin. Ele veio novamente para me matar, não para tomar sannyas… porém, se ele continua com seu jogo eu continuo com o meu. Ele próprio confessou depois, depois de sete anos sendo um sannyasin. Ele disse, “Amado Mestre, agora posso confessar para você sem medo: fui até Ahmedabad para matá-lo.”

            Eu disse, “Meu Deus, de novo!”

            Ele disse, “O que você quer dizer com ‘de novo’?”

            Eu disse, “Isso é outro assunto, continue…”

            Ele disse, “Em Ahmedabad, sete anos atrás, fui ao seu encontro com um revólver. A sala estava tão lotada que os organizadores permitiram que as pessoas sentassem no palco.”

            Então esse homem, com um revólver para matar-me, teve permissão de sentar-se ao meu lado. Que chance! Eu disse, “Por que você perdeu a chance?”

            Ele disse, “Eu nunca tinha ouvido você falar antes, tinha ouvido apenas comentários. Quando o ouvi pensei: prefiro cometer suicídio em vez de matá-lo. É por isso que tornei-me um sannyasin – este é meu suicídio.”

            Setecentos anos atrás esse homem realmente me matou; ele me envenenou. Ele também era meu discípulo… mas sem um Judas é muito difícil encontrar um Jesus. Eu morri conscientemente, por isso tive a grande oportunidade de nascer conscientemente. Eu escolhi minha mãe e meu pai.

            Milhares de tolos estão fazendo amor ao redor da Terra, continuamente. Milhões de almas por nascer estão prontas para entrar em qualquer útero possível. Eu esperei setecentos anos pelo momento certo, e agradeço a existência por tê-lo encontrado. Setecentos anos não são nada comparados com os milhões e milhões de anos à frente. Apenas setecentos anos – sim, estou dizendo apenas – e escolhi um casal muito pobre, mas muito íntimo.

            Não penso que meu pai um dia olhou para outra mulher com o mesmo amor que teve pela minha mãe. É também impossível de imaginar – mesmo para mim, que posso imaginar todos os tipos de coisas – que a minha mãe, até mesmo em seus sonhos, tivesse outro homem… impossível! Eu conheci ambos; eles eram tão próximos, tão íntimos, tão realizados embora tão pobres… pobres porém ricos. Eles eram ricos em sua pobreza por causa da sua intimidade, ricos por causa do seu amor um pelo outro.

            Felizmente nunca vi minha mãe e meu pai brigando. Digo “felizmente” porque é muito difícil encontrar um marido e uma esposa que não brigam. Quando eles têm tempo para amar apenas Deus sabe, ou talvez ele também não saiba. Afinal, ele tem que cuidar da sua própria esposa… particularmente o Deus Hindu. Pelo menos o Deus Cristão está em uma situação melhor: ele não tem esposa, nenhuma mulher, o que dizer de uma esposa! Porque uma mulher é mais perigosa que uma esposa. Uma esposa você pode tolerar, mas uma mulher… você vira um tolo novamente! Você não pode tolerar uma mulher, ela te “atrai”; uma esposa te “distrai”.

            Eu nunca vi meu pai e minha mãe brigarem, nem mesmo resmungarem. As pessoas falam de milagres – eu vi um milagre: a minha mãe não irritava meu pai. É um milagre porque por séculos a mulher foi tão subserviente aos homens que ela aprendeu práticas dissimuladas – ela resmunga. Resmungar é violência disfarçada, violência mascarada. Eu nunca vi a minha mãe e meu pai em nenhuma situação de conflito.

            Eu fiquei preocupado com a minha mãe quando o meu pai morreu. Eu não podia acreditar que ela seria capaz de sobreviver. Eles amaram-se muito, eles quase tornaram-se um. Ela sobreviveu apenas porque ela também me amava.

            Eu sempre me preocupei com ela. Eu queria que ela estivesse próxima de mim apenas para que ela pudesse morrer em total realização. Agora eu sei. Eu a vi, eu vi nela, e posso dizer para vocês – e através de vocês isso um dia alcançará o mundo – ela iluminou-se. Eu era o seu último apego. Agora não existe nada para ela apegar-se. Ela é uma mulher iluminada – sem instrução, simples, nem mesmo sabendo o que é a iluminação. Esta é a beleza! É possível ser iluminado sem saber o que é a iluminação, e vice-versa: é possível saber tudo sobre a iluminação e permanecer não iluminado.

            Eu escolhi esse casal, apenas simples aldeões. Eu poderia ter escolhido reis e rainhas. Estava em minhas mãos. Todos os tipos de úteros estavam disponíveis, mas eu sou um homem de gostos muito simples: satisfaço-me sempre com o melhor. O casal era pobre, muito pobre. Vocês não serão capazes de entender que o meu pai tinha apenas setecentas rúpias – isso significa trinta dólares. Isso era tudo o que ele possuía, entretanto eu o escolhi para ser meu pai. Ele tinha uma riqueza que os olhos não podiam ver, uma realeza invisível.

            Muitos de vocês o viram e devem ter sentido a beleza do homem. Ele era simples, muito simples, vocês poderiam chamá-lo de aldeão, mas imensuravelmente rico – não da forma mundana, mas como se houvesse uma forma de outro mundo…

            Trinta dólares, essa era a sua única posse. Eu não sabia. Eu soube apenas depois quando o seu negócio veio à falência… e ele estava muito feliz! Eu o perguntei, “Dada” – eu costumava chamá-lo assim; dada significa pai – “Dada, em breve você irá à falência, e você ainda está feliz. O que se passa? Os rumores são falsos?”

            Ele disse, “Não, os rumores são absolutamente verdadeiros. A falência acontecerá – mas estou feliz porque guardei setecentas rúpias. Foi com isso que comecei. E vou te mostrar o lugar…”

            Então ele me mostrou o lugar em que ele escondeu as setecentas rúpias e falou, “Não se preocupe. Eu comecei com apenas setecentos. Nada mais pertence a nós – que vá para o inferno. O que pertence a nós está escondido aqui, nesse lugar, e eu o mostrei para você. Você é o meu filho mais velho, lembre-se desse lugar.”

            Isso eu sei… eu não falei nada para ninguém sobre o lugar, e não irei, porque embora ele fosse generoso em mostrar-me o seu segredo, nem eu sou seu filho, nem ele é meu pai. Ele é ele mesmo, e eu sou eu mesmo. “Pai e filho” é apenas uma formalidade. Aquelas setecentas rúpias ainda estão escondidas em algum lugar debaixo da terra e permanecerão lá a não ser que sejam encontradas acidentalmente por alguém. Eu disse para ele, “Embora você tenha me mostrado o lugar, eu não o vi.”

            Ele disse, “O que você quer dizer?”

            Eu disse, “É simples. Eu não o vi, e eu não quero o ver. Eu não pertenço a nenhuma herança, pequena ou grande, rica ou pobre.”

            Mas, de sua parte ele foi um pai amoroso. Quando deixei o meu cargo na universidade, apenas ele ficou preocupado, ninguém mais. Nenhum dos meus amigos ficou preocupado. Quem liga? – de fato, muitos dos meus amigos estavam felizes que eu tinha deixado à cadeira; agora eles podiam conquistá-la. Eles se apressaram. Apenas o meu pai ficou preocupado. Eu disse a ele, “Não precisa se preocupar.”

            Mas a minha fala não adiantou muito. Ele comprou uma grande propriedade sem me dizer, porque ele sabia perfeitamente bem que se tivesse me contado, eu teria batido em sua cabeça. Ele fez uma bela casa pequena para mim, exatamente como eu gostaria que ela fosse. Vocês ficarão surpresos: ela tinha até ar condicionado, com todas as instalações modernas.

            A casa ficava próxima da minha vila, com um jardim às margens do rio, com degraus levando para baixo, para que eu pudesse nadar… com árvores antigas e um silêncio absoluto no entorno, não havia mais ninguém por quilômetros. Mas ele nunca me contou.

            É bom que o meu pobre pai esteja morto; caso contrário eu traria problemas para ele. Mas ele tinha muito amor e muita compaixão por um filho vagabundo.

            Eu sou um vagabundo. Eu nunca fiz nada pela família. Eles não são gratos a mim de maneira alguma. Eles fizeram tudo por mim. Eu escolhi esse casal não sem uma boa razão… pelo seu amor, sua intimidade, sua quase unidade. Foi assim que, depois de setecentos anos, eu entrei no corpo novamente.

                A minha infância foi dourada. Novamente, não estou utilizando um clichê. Todo mundo diz que sua infância foi dourada, mas não é assim. As pessoas somente pensam que sua infância foi dourada porque a sua juventude foi podre; então a sua velhice é ainda mais podre. Naturalmente, a infância se torna dourada. A minha infância não foi dourada nesse sentido. A juventude foi um diamante, e se eu me tornar um homem velho então essa fase será de platina. Mas a minha infância foi certamente dourada – não um símbolo, absolutamente dourada; não poeticamente, mas literalmente, factualmente.

            Na maior parte dos meus primeiros anos vivi com os pais da minha mãe. Aqueles anos são inesquecíveis. Até mesmo se eu chegar no paraíso de Dante ainda lembrarei daqueles anos. Uma pequena vila, pessoas pobres, mas meu avô – ou seja, o pai da minha mãe – era um homem generoso. Ele era pobre, mas rico em generosidade. Ele dava para todos e cada um qualquer coisa que tivesse. Eu aprendi a arte de dar com ele; eu tenho que aceitar isso. Eu nunca vi ele dizer não para qualquer mendigo ou qualquer um.

            Eu chamava o pai da minha mãe de “Nana”; esta é a forma que o pai da mãe é chamado na Índia. A mãe da minha mãe eu chamava de “Nani.” Eu costumava perguntar ao meu avô, “Nana, onde você encontrou uma esposa tão bela?”

            A minha avó parecia mais Grega do que Indiana. Quando vejo Mukta sorrindo, eu me lembro dela. Talvez seja por isso que tenho um coração mole para com Mukta. Eu não consigo dizer não para ela. Mesmo quando o que ela pede não está certo, eu ainda digo “tudo bem.” No momento em que a vi imediatamente lembrei-me de minha Nani. Talvez havia sangue Grego nela. Nenhuma raça pode clamar pureza. Os Indianos particularmente não devem clamar qualquer pureza de sangue – os Hunas, Mogoís, os Gregos e muitos outros atacaram, conquistaram e governaram a Índia. Eles misturaram-se no sangue Indiano e isso era muito aparente na minha avó. As suas feições não eram Indianas, ela parecia Grega, e ela era uma mulher forte, muito forte. O meu Nana morreu quando tinha cerca de cinquenta anos. A minha avó viveu até os oitenta e ela estava completamente saudável. Mesmo assim ninguém pensava que ela morreria. Eu prometi para ela uma coisa, que quando ela morresse eu viria, e esta seria a minha última visita à família. Ela morreu em 1970. Eu tive que cumprir a minha promessa.

            Nos primeiros anos a minha Nani era a minha mãe; esses são os anos em que uma pessoa cresce. Este círculo foi da minha Nani. A minha própria mãe veio depois disso; eu já estava crescido, já tinha um certo estilo. E a minha avó me ajudou imensamente. O meu avô me amava, mas não pôde me ajudar muito. Ele era tão amoroso, mas para ajudar algo a mais é necessário – um certo tipo de força. Ele sempre teve medo da minha avó. Ele era, de uma certa maneira, um marido dominado pela mulher. Quando se trata da verdade estou sempre certo. Ele me amava, ele me ajudou… o que eu posso fazer se ele era um marido dominado pela mulher? Noventa e nove vírgula nove por cento dos maridos o são, então está tudo bem.

            Lembro-me de um incidente que nunca contei antes. Era uma noite escura; estava chovendo e um ladrão entrou em nossa casa. Naturalmente o meu avô estava com medo. Todo mundo podia ver que ele tinha medo, mas fingia não ter, ele tentou dar o seu melhor. O ladrão estava escondido no canto de nossa pequena casa, atrás de alguns sacos de açúcar.

            Meu avô mastigava bétele continuamente. Assim como um fumante compulsivo, ele mascava bétele compulsivamente. Ele sempre fazia o pan de folha de bétele, e ele o mascava durante todo o dia. Ele começou a mascar o pan e cuspi-lo no pobre ladrão que estava escondido no canto. Eu olhei para essa cena feia e disse a meu avô, com quem eu costumava dormir, “Isso não está certo. Mesmo que ele seja um ladrão nós devemos nos comportar gentilmente. Cuspir? Ou lute ou pare de cuspir!”

            A minha avó falou, “O que você gostaria de fazer?”

            Eu disse, “Eu vou lá dar um tapa no ladrão e colocá-lo para fora.” Eu não tinha mais de nove anos.

            A minha avó riu e disse, “Certo, vou com você – você pode precisar da minha ajuda.” Ela era uma mulher grande. A minha mãe não se assemelha com ela de maneira alguma, nem em beleza física, nem em sua ousadia espiritual. A minha mãe é simples; a minha avó era aventureira. Ela foi comigo.

            Eu fiquei chocado! Eu não podia acreditar no que vi: o ladrão era um homem que costumava vir e me ensinar, meu professor! Eu realmente bati nele forte, mais ainda porque ele era meu professor. Eu disse para ele, “Se você fosse apenas um ladrão eu o teria perdoado, mas você me ensinou grandes coisas, e à noite você faz essas coisas! Agora corra o mais rápido que puder antes que a minha avó te alcance, caso contrário ela vai te esmagar.”

            Ela era uma mulher grande, alta, forte e bela. Meu avô era pequeno e comum, mas eles se davam bem juntos. Ele nunca brigou com ela – ele não poderia – então não existia nenhum problema.

            Lembro-me daquele professor, o pândita da vila, que também costumava vir e me instruir. Ele era o sacerdote do templo da vila. Ele disse, “E as minhas roupas? O seu avô cuspiu por toda parte sobre mim. Ele estragou as minhas roupas.”

            A minha avó riu e disse, “Venha amanhã, eu lhe darei roupas novas.” E ela realmente deu-lhe novas roupas. Ele não veio, ele não ousaria, mas ela foi até a casa do ladrão e me levou com ela, e deu-lhe roupas novas, dizendo “Sim, meu marido foi terrível ao estragar as suas roupas. Não é bom. Sempre que você precisar de roupas novas você pode vir até mim.”

            Aquele professor nunca voltou para me ensinar novamente… não porque alguém falou para ele não ir, ele não ousaria. Ele não apenas parou de me ensinar, ele parou de vir até a rua onde nós morávamos; ele parou de passar por aquele caminho. Mas eu fazia questão de visitá-lo todo dia apenas para cuspir em frente à sua casa, para relembrá-lo. Eu gritava com ele, “Você esqueceu aquela noite? E você sempre costumava me dizer para ser verdadeiro, sincero e honesto e toda aquela bobagem.”

            Mesmo agora posso vê-lo com os olhos baixos, incapaz de me responder.

            O meu avô queria que os maiores astrólogos da Índia fizessem o meu mapa astral. Embora ele não fosse muito rico – de fato nem mesmo rico, o que dizer de muito rico, mas naquela vila ele era a pessoa mais rica – ele estava pronto para pagar qualquer preço pelo mapa astral. Ele fez a longa jornada até Varanasi e viu os homens famosos. Olhando para as notas e datas que meu avô trouxe, o maior astrólogo entre eles disse, “Desculpe-me, eu só poderei fazer esse mapa astral depois de sete anos. Se a criança sobreviver então eu farei o seu mapa sem cobrar nada, mas não acho que ela sobreviverá. Se ela sobreviver será um milagre, porque então haverá uma possibilidade dela tornar-se um buda.”

            O meu avô voltou para casa chorando. Eu nunca tinha visto lágrimas em seus olhos. Eu perguntei, “O que aconteceu?”

            Ele disse, “Tenho que esperar até você ter sete anos. Quem sabe se sobreviverei a esses sete anos ou não? Quem sabe se o próprio astrólogo sobreviverá, porque ele está muito velho. E estou um pouco preocupado com você.”

            Eu disse, “Qual a preocupação?”

            Ele disse, “A preocupação não é que você possa morrer, minha preocupação é que você pode tornar-se um buda.”

            Eu ri, e entre as suas lágrimas ele também começou a rir. Então ele próprio disse, “É estranho que eu esteja preocupado. Sim, o que há de errado em ser um buda?”

            Quando o meu pai ouviu o que os astrólogos disseram para meu avô ele próprio me levou para Varanasi – mas depois continuo com isso.

            Quando eu tinha sete anos um astrólogo veio até a vila do meu avô procurando por mim. Quando um belo cavalo parou em frente da nossa casa, todos nós corremos. O cavalo parecia tão majestoso e o cavaleiro não era ninguém mais do que um dos famosos astrólogos que eu tinha encontrado. Ele disse para mim, “Então você ainda está vivo? Eu fiz o seu mapa astral. Eu estava preocupado, porque as pessoas como você não sobrevivem muito tempo.”

            O meu avô vendeu todos os ornamentos da casa apenas para dar um banquete para todas as vilas vizinhas, para celebrar que eu me tornaria um buda, e, entretanto, não acho que ele entendia o significado da palavra ‘buda’.

            Ele era um Jaina e poderia nunca tê-la ouvido antes. Mas ele estava feliz, imensamente feliz… dançando, porque eu me tornaria um buda. Naquele momento eu não acreditava que ele estava tão feliz apenas por causa dessa palavra ‘buda’. Quando todo mundo foi embora eu perguntei para ele, “Qual o significado de ‘buda’?”

            Ele disse, “Eu não sei, ela simplesmente soa bem. Ademais, eu sou um Jaina. Nós descobriremos de algum Budista.”

            Naquela vila não havia Budistas, mas ele disse, “Algum dia, quando um bhikku Budista passar por aqui, nós saberemos o significado.”

            Mas ele estava tão feliz apenas porque o astrólogo disse que eu me tornaria um buda. Ele então disse a mim, “Acho que ‘buda’ deve significar alguém que é muito inteligente.” Em Hindi buddhi significa inteligência, então ele pensou que ‘buda’ significava alguém inteligente.

            Ele chegou muito próximo, ele quase adivinhou. Infelizmente ele não está vivo, caso contrário ele veria o que um buda significa – não o significado do dicionário, mas um encontro com um desperto vivo. E eu posso vê-lo dançando, vendo que seu neto tornou-se um buda. Isso seria o suficiente para torná-lo iluminado. Mas ele morreu. A sua morte foi uma das experiências mais significantes. Sobre isso tratarei depois.

            Ainda há tempo?

            “É oito e trinta, Osho.”

            Bom, apenas cinco minutos para mim…

            É hora de parar, mas está sendo belo, e eu sou grato. Obrigado.

  

Sessão 3

 

Repetidas vezes o milagre da manhã… o sol e as árvores. O mundo é como um floco de neve: pegue-o em sua mão e ele derrete. Nada resta, apenas uma mão molhada. Mas se você ver, apenas ver, então um floco de neve é tão belo quanto qualquer flor do mundo. E esse milagre acontece toda manhã, toda madrugada, toda noite, vinte e quatro horas, entra dia, sai dia… o milagre. E as pessoas vão venerar Deus nos templos, igrejas, mesquitas e sinagogas. O mundo deve estar cheio de tolos – desculpem-me, não tolos, mas idiotas – incuráveis, sofrendo de um tremendo retardamento. É preciso ir ao templo em busca de Deus? Ele não está aqui e agora?

            A própria ideia da busca é estúpida. Busca-se algo que está longe, e Deus está tão próximo, mais próximo que as batidas do seu coração. Quando vejo a todo momento o milagre impressiono-me, como é possível? Que criatividade tremenda! É possível apenas porque não há criador. Se houvesse um criador você teria a mesma segunda-feira toda segunda-feira, porque o criador criou o mundo em seis dias, então terminou o trabalho. Não há criador, apenas energia criativa – energia em milhões de formas, derretendo, encontrando-se, aparecendo, desaparecendo, unindo-se e partindo.

            É por isso que digo que o sacerdote está o mais longe possível da verdade, e o poeta o mais próximo. É claro que o poeta também não a atingiu. Apenas o místico a alcança… ‘Alcança’ não é a palavra certa: ele se torna ela, ou melhor, entende que ele próprio sempre foi a verdade.

            As pessoas perguntam-me, “Você acredita em astrologia, em religião… nisso, naquilo?” Eu não acredito em nada de maneira alguma, porque eu sei. Isso me faz lembrar de uma história que estava contando para vocês no outro dia…

            O velho astrólogo veio. O meu avô não podia acreditar em seus olhos. O astrólogo era tão famoso que até mesmo os reis ficariam surpresos se ele visitasse os seus palácios; e ele veio até a casa do meu avô. Ela deve ser chamada de casa, mas não era nada de mais, feita de paredes de barro, nem mesmo um banheiro separado. Ele nos visitou e eu imediatamente tornei-me amigo do velho homem.

Olhando para seus olhos – embora eu tivesse apenas sete anos e não pudesse ler uma palavra, eu pude ler os seus olhos: eles não precisavam dos seus três erres* [NT. leitura, escrita e aritmética] – eu disse ao astrólogo, “É estranho que você tenha viajado tanto apenas para fazer o meu mapa astral.”

Varanasi naqueles dias, e mesmo hoje, era muito longe daquela pequena vila.

O velho homem disse, “Eu prometi, e uma promessa deve ser cumprida.” A maneira que ele disse “uma promessa deve ser cumprida” me emocionou. Ali estava um homem vivo!

Eu disse para ele, “Se você veio para cumprir a sua promessa, então eu posso predizer o seu futuro.”

Ele disse, “O quê! Você pode predizer o meu futuro?”

Eu disse, “Sim. Certamente você não vai se tornar um buda, mas você se tornará um bhikkhu, um sannyasin.” Bhikkhu é o nome do sannyasin Budista.

Ele riu e disse, “Impossível!”

Eu disse, “Você pode apostar.”

Ele me perguntou, “Certo, quanto?”

Eu disse, “Não importa. Você pode apostar qualquer quantia que quiser, porque se eu ganhar, eu ganho; se eu perder, eu não perco nada, porque não tenho nada. Você está apostando com uma criança de sete anos. Você não pode ver? Eu não tenho nada.”

Vocês ficarão surpresos em saber que eu estava ali nu. Naquela pobre vila não era proibido, pelo menos para as crianças de sete anos, correr por toda parte nuas. Não era uma vila Inglesa!

Eu ainda posso ver a mim mesmo nu em frente ao astrólogo. Toda a vila reuniu-se em torno, e todos ouviam o que planejávamos.

O velho homem disse, “Certo, se eu me tornar um sannyasin, um bhikkhu” – e ele mostrou o seu relógio de bolso de ouro, cravejado de diamantes – “Eu te darei isso. E se você perder?” Eu disse, “Eu simplesmente perderei. Eu não tenho nada – nenhum relógio de pulso de ouro para te dar. Eu vou simplesmente agradecer você.”

Ele riu e partiu.

Eu não acredito em astrologia. Noventa e nove vírgula nove por cento é besteira, apenas zero vírgula um por cento é pura verdade. Um homem de discernimento, intuição e pureza pode certamente olhar para o futuro, porque o futuro não é existencial, ele está apenas escondido dos seus olhos. Talvez somente uma fina cortina de pensamentos seja tudo o que divide o presente e o futuro.

Na Índia, a noiva cobre a sua face com um ghoonghat. Ora, é difícil traduzir essa palavra; é apenas uma máscara. Ela retira o seu sari da sua face. É assim que o futuro está escondido de nós, apenas por um ghoonghat, um fino véu.

Eu não acredito em astrologia, refiro-me a noventa e nova vírgula nove por cento dela. O restante zero vírgula um por cento não preciso acreditar; é verdade. Eu o vi funcionar. Aquele velho homem foi a primeira prova. Mas é estranho: ele podia ver o meu futuro, claramente vago, com todos os tipos de possibilidades, mas ele não podia ver o seu próprio. Não apenas isso, ele estava pronto para apostar contra mim quando eu disse que ele se tornaria um bhikkhu.

Eu tinha catorze anos e viajava por Varanasi com o pai do meu pai. Ele foi a negócios e eu insisti obstinadamente para ir com ele. Eu parei um velho bhikkhu na estrada entre Varanasi e Sarnath e disse, “Ei velho, você se lembra de mim?”

Ele disse, “Eu nunca te vi antes – por que eu me lembraria de você?”

Eu disse, “Talvez você não se lembre, mas tenho que relembrar-te. Onde está o relógio, o relógio de ouro cravejado com diamantes? Sou a criança que você apostou. Agora chegou o momento de eu perguntar. Declarei que você se tornaria um bhikkhu, e agora você o é. Dê-me o relógio.”

Ele riu e tirou do seu bolso o belo relógio antigo, deu para mim com lágrimas em seus olhos, e – vocês podem acreditar – ele tocou os meus pés. Eu disse, “Não, não. Você é um bhikkhu, um sannyasin, você não pode tocar os meus pés.”

Ele disse, “Esqueça tudo isso. Você provou ser um astrólogo melhor do que eu; deixe-me tocar os seus pés.”

Eu dei aquele relógio para a minha primeira sannyasin. O nome da minha primeira sannyasin é Ma Anand Madhu – uma mulher é claro, porque isso é o que eu gostaria. Ninguém iniciou as mulheres em sannyas como eu. Não apenas isso, eu gostaria de iniciar uma mulher como minha primeira sannyasin, apenas para colocar as coisas em harmonia e ordem.

Buda hesitou antes de dar sannyas para as mulheres… até mesmo Buda! Apenas isto em sua vida me machuca como um espinho, e nada mais. Buda hesitando… por quê? Ele tinha medo que as mulheres sannyasins distrairiam os seus seguidores. Que besteira! Um buda com medo do negócio! Deixe esses tolos serem distraídos se eles quiserem ser!

Mahavira disse que ninguém no corpo de uma mulher pode alcançar o nirvana, a liberação última. Eu tenho que sentir arrependimento por todos esses homens. Maomé nunca permitiu qualquer mulher em uma mesquita. Até hoje as mulheres não são permitidas em uma mesquita; até mesmo nas sinagogas as mulheres sentam-se nas galerias, não com os homens.

Indira Gandhi me disse que quando ela visitou Israel e foi para Jerusalém, ela não podia acreditar que a primeira-ministra de Israel e ela própria estavam ambas sentadas na sacada, e todos os homem estava sentados no andar de baixo, no andar principal. Ela não percebeu que mesmo a primeira-ministra de Israel, sendo uma mulher, não podia ser adequadamente recebida em uma sinagoga; elas podiam somente ser observadoras da varanda. Não é respeitável, é um insulto.

Eu tenho que pedir desculpas por Maomé, por Moisés, por Mahavira, por Buda, e por Jesus também, porque ele não escolheu nenhuma mulher como um dos seus doze apóstolos. Entretanto, quando ele morreu na cruz os doze tolos não estavam lá de maneira alguma. Apenas três mulheres ficaram – Madalena, Maria e a irmã de Madalena. Mas mesmo essas três mulheres não foram escolhidas por Jesus; elas não estavam entre os poucos escolhidos. Os poucos escolhidos escaparam. Ótimo! Eles estavam tentando salvar as suas vidas. Na hora do perigo, apenas as mulheres vieram.

Eu tenho que pedir desculpas ao futuro por todas essas pessoas; e minha primeira desculpa foi dar sannyas para uma mulher. Vocês ficarão entretidos em conhecer toda a história…

O marido de Anand Madhu, é claro, queria ser iniciado primeiro. Aconteceu nos Himalaias; eu tinha um campo em Manali. Eu recusei o marido dizendo, “Você pode ser apenas o segundo, não o primeiro.” Ele ficou tão bravo que deixou o campo naquele mesmo momento. Não apenas isso, ele se tornou meu inimigo e juntou-se a Morarji Desai.

Posteriormente, quando Morarji Desai tornou-se primeiro-ministro, esse homem tentou de todas as formas persuadi-lo a prender-me. É claro que Morarji Desai não tem esse tipo de coragem; não é possível tê-la se você bebe a própria urina. Ele é um tolo total – novamente, desculpe, total idiota. ‘Tolo’ eu reservo apenas para Devageet; esse é o seu privilégio.

Anand Madhu ainda é uma sannyasin. Ela vive nos Himalaias, silenciosamente, sem falar. Desde então o meu esforço sempre foi o de trazer o máximo de mulheres à frente. Às vezes eu até pareço um pouco injusto com os homens. Eu não sou, estou apenas colocando as coisas em ordem. Depois de séculos de exploração das mulheres pelos homens, não é uma tarefa fácil.

A primeira mulher que amei foi a minha sogra. Vocês ficarão surpresos: eu sou casado? Não, não sou casado. Esta mulher é a mãe de Gudia, mas costumo chamá-la de minha sogra, apenas como uma piada. Eu lembrei-me novamente depois de muitos anos. Eu costumava chamá-la de sogra porque eu amava a sua filha, na vida anterior de Gudia. De novo, aquela mulher era tremendamente poderosa, assim como a minha avó.

Minha “sogra” era uma mulher rara, especialmente na Índia. Ela deixou o seu marido, foi até o Paquistão e casou-se com um Islâmico, mesmo ela sendo brâmane. Ela sabia como ousar. Eu sempre gostei da qualidade da ousadia, porque quanto mais você ousa, mais próximo você está de casa. Apenas os intrépidos tornam-se budas, lembrem-se! Os que calculam podem ter um ótimo saldo bancário, mas não podem se tornar budas.

Sou grato ao homem que declarou o meu futuro quando eu tinha apenas sete anos. Que homem! Ter esperado até eu ter sete anos apenas para fazer o meu mapa astral – que paciência! E não apenas isso, ele viajou todo o caminho de Varanasi até a minha vila. Não haviam estradas, não existia trem, ele teve que viajar no lombo de um cavalo.

E quando eu o encontrei na estrada para Sarnath e disse a ele que tinha ganho a aposta, ele imediatamente me deu o seu relógio e disse, “Eu lhe daria todo o mundo mas não tenho mais nada. De fato, eu nem deveria ter esse relógio, mas somente por causa sua eu tive que mantê-lo por todos esses anos, sabendo que qualquer dia você viria. E quando eu me tornei um bhikkhu, Buda não estava em minha mente, mas você – uma criança de sete anos nua declarando o futuro de um dos maiores astrólogos do país. Como você fez aquilo?”

Eu disse, “Isso eu não sei. Eu olhei para os seus olhos e pude ver que você não poderia ficar contente com nada que esse mundo poderia te dar. Eu vi o descontentamento divino. Um homem só se torna um sannyasin quando ele sente o descontentamento divino.”

Eu não sei se o velho homem ainda está vivo ou não. Ele não pode estar, caso contrário ele teria me procurado e encontrado.

Mas aquele momento, na vida da vila, foi o maior. Eles ainda falam sobre aquele banquete. Há pouco tempo uma pessoa daquela vila veio até aqui, e ele disse, “Nós ainda falamos sobre o banquete que seu avô deu à vila. Nunca antes e nunca depois aconteceu algo como aquilo.”

Eu gostei de ver tantas pessoas apreciando. Eu gostei do cavalo branco. Gudia teria amado aquele cavalo. Ela costumava me mostrar os cavalos conforme passávamos por eles na estrada. “Olhe,” ela diria, “que cavalos belos.”

Eu vi muitos cavalos, mas nada como o cavalo que aquele velho astrólogo tinha. Eu vi os mais belos cavalos, mas ainda me lembro do seu cavalo como sendo o mais belo. Talvez a minha infância foi a causa disso, talvez eu não tinha como compará-lo. Mas acreditem-me, sendo eu uma criança ou não, aquele cavalo era belo. Ele era imensamente poderoso, devia ter oito cavalos vapor!

Aqueles dias foram dourados. Tudo o que ocorreu naqueles anos eu posso ver novamente como um filme passando na minha frente. É incrível que um dia eu me interessasse…

Não… Ashu está olhando para o seu relógio. É muito cedo para olhar para o seu relógio. Não seja como a Canada Dry – relaxe. Não seja tão seca. Você olhou para o seu relógio em um momento tal, e você não sabe o que perturbou. Não é apenas um plop!

O que eu estava falando…? Aqueles dias foram dourados. Tudo o que ocorreu naqueles nove anos, eu posso ver novamente como um filme passando na minha frente.

Bom, o filme está de volta, apesar de Ashu e seu relógio.

Sim, foi um tempo dourado. De fato, mais que dourado, porque meu avô não somente me amava, mas amava tudo o que eu fazia. E eu fazia tudo o que vocês poderiam chamar de incômodos.

Eu era um incômodo contínuo. O dia todo ele tinha que ouvir as queixas sobre mim, e ele sempre alegrava-se com elas. É isso o que é maravilhoso e belo neste homem. Ele nunca me puniu. Ele nunca nem mesmo disse uma palavra como “Faça isso,” ou “Não faça aquilo.” Ele simplesmente permitia, absolutamente permitia que eu fosse eu mesmo. Foi assim, sem saber de nada, que senti o gosto do Tao.

Lao Tzé diz, “O Tao é o curso da água. A água simplesmente flui para baixo sempre que a terra a permitir.” Esses primeiros anos foram assim. Eu tinha permissão. Penso que toda criança precisa desses anos. Se nós pudermos permitir esses anos para todas as crianças do mundo nós poderíamos criar um mundo dourado.

Aqueles dias foram plenos, super-plenos! Tantos eventos, tantos incidentes que eu nunca contei para ninguém…

Eu costumava nadar no lago. Naturalmente o meu avô tinha medo. Ele colocou um homem estranho para guardar-me, em um bote. Naquela vila primitiva vocês não podem conceber o que um “bote” quer dizer. Ele é chamado de dongi. Não é nada mais do que um tronco de madeira oco. Não é um bote ordinário. Ele é redondo, e este é o perigo: a menos que você seja um especialista você não pode conduzi-lo. Ele pode virar a qualquer momento. Apenas um pouco de desequilíbrio e você se foi para sempre. É muito perigoso.

Eu aprendi a equilibrar-me conduzindo um dongi. Nada pode ser de mais ajuda. Eu aprendi o “caminho do meio” porque você tem que ir exatamente no meio: se você for para um lado, você cai; para o outro lado e você cai. Você não pode nem mesmo respirar, e é necessário ficar absolutamente em silêncio; somente então você pode conduzir o dongi.

O homem que foi colocado em guarda para salvar-me, eu o chamava de estranho. Por quê? Porque o seu nome era Bhoora, e significa “homem branco.” Ele era o único homem branco da nossa vila. Ele não era Europeu; era apenas sorte que ele não se parecia um Indiano. Ele parecia mais com um Europeu mas ele não era. A sua mãe muito provavelmente trabalhou no acampamento do Exército Britânico e ficou grávida ali. É por isso que ninguém sabia o seu nome, todos chamavam-no de Bhoora. Bhoora significa “o branco.” Não é um nome mas tornou-se o seu nome. Sua aparência era muito impressionante. Ele veio trabalhar para meu avô desde a mais tenra infância, e mesmo ele sendo um servo era tratado como alguém da família.

Eu também o chamava de estranho porque embora eu tenha vindo a conhecer muitas pessoas no mundo, é muito raro cruzar com um homem como Bhoora. Ele era um homem que você poderia confiar. Você poderia dizer qualquer coisa para ele e ele guardaria o segredo para sempre. Esse fato só se tornou conhecido pela minha família somente quando meu avô faleceu. O meu avô confiou a Bhoora todas as chaves e todos os negócios da casa e da terra. Pouco depois que chegamos em Gadarwara a minha família perguntou ao mais devoto servo do meu avô, “Onde estão as chaves?”

Ele disse, “Meu mestre me disse, ‘Nunca mostre as chaves para ninguém mais exceto eu.’ Desculpem-me, mas a menos que ele peça para mim eu não poderei dar as chaves para vocês.” E ele nunca deu as chaves, então nós não sabemos onde essas chaves estão escondidas.

Muitos anos depois quando eu estava novamente vivendo em Bombaim, o filho de Bhoora veio até mim e me deu as chaves e falou, “Nós esperamos muito para que você viesse, mas ninguém veio. Nós cuidamos da terra e das colheitas e guardamos todo o dinheiro.”

Eu dei as chaves para ele de volta e lhe disse, “Tudo agora pertence a você. A casa, as colheitas e o dinheiro pertencem a você, eles são seus. Desculpe-me não saber disso antes, mas nenhum de nós gostaria de voltar e sentir a dor.”

Que homem! Mas esses homens existem na Terra. Eles estão desaparecendo aos poucos, e em vez dessas pessoas vocês verão todos os tipos de pessoas espertas tomando os seus lugares. Essas pessoas são o próprio sal da Terra. Eu chamo Bhoora de um homem estranho porque em um mundo de espertos, ser simples é estranho. É ser um estranho que não é desse mundo.

O meu avô tinha tanta terra quanto alguém poderia desejar, porque naqueles dias, naquela parte da Índia, a terra era absolutamente gratuita. Você apenas tinha que ir até o escritório do governo na capital e pedir a terra. Isso era o suficiente – ela era dada a você. Nós tínhamos catorze acres de lavouras que Bhoora cuidava.

Quando o meu avô ficou doente, Bhoora falou que nunca seria capaz de viver sem ele, eles se tornaram tão próximos. Quando o meu avô estava morrendo nós o levamos de Kuchwad para Gadarwara, porque não haviam instalações hospitalares em Kuchwada para cuidar dos doentes. A casa do meu avô era a única casa da vila.

Quando deixamos Kuchwada Bhoora deixou as chaves para os seus filhos. No caminho para Gadarwara o meu avô morreu, e, por causa do choque, na manhã seguinte Bhoora não acordou de seu sono; ele morreu à noite. A minha avó, o meu pai e mãe não quiseram mais voltar para Kuchwada por causa da dor que iria nos causar, porque o meu avô tinha sido um homem muito belo.

O filho de Bhoora tem quase a minha idade. Faz apenas alguns anos que meu irmão Niklanda e Chaitanya Bharti voltaram para tirar fotos da casa e do lago.

A casa em que nasci, eles agora pedem dez lakhs rúpias por ela, sabendo que um dos meus discípulos pode interessar-se em comprá-la. Dez lakhs! Isso é cem mil dólares. E, vocês sabiam? – ela valia trinta rúpias quando o meu avô faleceu. Até mesmo isso era muito. Nós ficaríamos surpresos se alguém estivesse disposto a dar-nos até mesmo isso.

Era uma parte muito primitiva do país. Justamente porque era primitiva ela tinha algo que agora falta nos seres humanos em todos os outros lugares. O ser humano também precisa ser um pouco primitivo, pelo menos de vez em quando. Uma floresta, uma selva – um oceano, um céu cheio de estrelas.

O ser humano não deve se preocupar apenas com a sua conta bancária. Essa é a coisa mais feia possível. Isso quer dizer que o ser humano está morto! Enterre-o! Celebre! Queime-o! Saltite em seu funeral! A conta bancária não é o ser humano. O ser humano, para ser humano, deve ser tão natural quanto as colinas, os rios, as rochas, as flores…

O meu avô não me ajudou a saber apenas o que é a inocência – isto é, o que é a vida – ele também me ajudou a saber o que é a morte. Ele morreu no meu colo. Disso, falaremos em outro momento.

 

Sessão 4

 

Eu estava falando para vocês do momento em que encontrei o astrólogo que havia se tornado um sannyasin…

            Eu tinha em torno de catorze anos naquele momento e estava com o meu outro avô, ou seja, o pai do meu pai. O meu avô real já havia falecido; ele faleceu quando eu tinha apenas sete anos. O velho bhikkhu, o ex-astrólogo, perguntou-me, “Sou um astrólogo por profissão e leitor de muitas coisas por hobby – linhas das mãos, da cabeça, dos pés, e assim por diante. Como você pôde dizer-me que eu tornar-me-ia um sannyasin? Eu nunca tinha pensando nisso antes. Foi você que colocou a semente em mim e desde então eu tenho pensado apenas em sannyas e nada mais. Como você conseguiu?”

            Eu dei de ombros. Mesmo hoje se alguém pergunta como eu consegui, tudo que posso fazer é dar de ombros – porque não consigo, simplesmente permito que as coisas sejam. É preciso apenas aprender a arte de antecipar-se às coisas para que todos pensem que existe algum controle sobre essas coisas; por outro lado não há nenhum controle, particularmente no mundo que concerne a mim.

            Eu disse ao velho homem, “Eu apenas olhei para os seus olhos e vi tamanha pureza que não pude acreditar que você ainda não era um sannyasin. Você já deveria ser; já era muito tarde.”

            Em um certo sentido sannyas é sempre muito tarde, e em outro sentido é sempre muito cedo… e ambas são verdades simultâneas.

            Agora era a vez do velho homem dar de ombros. Ele disse, “Você me intrigou. Como os meus olhos puderam revelar?”

            Eu disse, “Se os olhos não puderem revelar então não há outra possibilidade para qualquer astrologia.”

            A palavra ‘astrologia’ certamente não se relaciona com os olhos, ela se relaciona com as estrelas. Mas um ser humano cego pode ver as estrelas? Você precisa de olhos para ver as estrelas.

            Eu disse para aquele velho homem, “A astrologia não é a ciência das estrelas, mas a ciência do ver – ver as estrelas mesmo durante o dia, em plena luz do dia.”

            De vez em quando acontece… quando o mestre atinge o discípulo na cabeça. Na manhã de hoje, Ashu, você lembra quando você estava olhando em seu relógio, e atingi a sua cabeça com uma garrafa de soda Canada Dry? Lembra agora? Aquele momento você perdeu. É isso o que significa conhecer astrologia. Ashu teve uma pequena amostra dela da astrologia na manhã de hoje – não acho que ela vai olhar para seu relógio outra vez.

            Mas por favor, olhe outras vezes novamente, para que eu possa te atingir novamente. Foi apenas o início. De outra maneira, como você vai surtar para dentro? Perdoem-me, mas sempre permitam-me atingi-los. Estou sempre pronto para pedir o seu perdão, mas nunca estarei pronto para dizer que não os atingirei novamente. De fato, o primeiro é apenas uma preparação para o segundo, um golpe mais profundo.

            Aqui há uma companhia estranha. Sou um velho Judeu. Há um provérbio que diz: Uma vez Judeu sempre Judeu. Fui uma vez um Judeu e conheço a verdade desse provérbio. Ainda sou Judeu, e, sentado do meu lado há um ser cem por cento Judeu, Devageet; e ali, do meu lado próximo ao meu pé, Devaraj está sentado, parcialmente Judeu. Vocês podem ver o seu nariz… caso contrário, de onde alguém poderia ter um nariz tão belo?

            E Gudia, se ela ainda estiver aqui, também não é uma Inglesa. Ela também já foi Judia. Pela primeira vez quero revelar a vocês que ela não é ninguém menos que Madalena! Ela amou Jesus, mas o perdeu. Ele foi crucificado tão cedo, e uma mulher precisa de tempo e paciência – e ele tinha apenas trinta e três. Esse é o momento de jogar futebol, ou, se você já está crescido aos trinta e três, ir ver uma partida de futebol.

            Jesus morreu muito cedo. As pessoas foram muito não-cruéis com ele… quero dizer, cruéis. Eu queria que elas fossem não-cruéis, é por isso que a palavra veio. Gudia, agora você não pode perder – o que for necessário fazer ou não fazer e de qualquer maneira que você tentar escapar. Eu não sou Jesus, que pode ser facilmente crucificado aos trinta e três. E posso ser muito paciente, mesmo com uma mulher, o que é difícil… isso eu sei, difícil, muito muito difícil às vezes. Uma mulher pode ser realmente uma fonte de angústia*! [NT. pain in the neck / dor no pescoço]

            Eu nunca sofri de dor no pescoço, graças a Deus, mas conheci a dor nas costas. Se é tão terrível nas costas, deve ser muito mais no pescoço! O pescoço é o próprio pináculo das costas. Mas comigo, se você é uma dor no pescoço ou nas costas, não importa: dessa vez você não pode perder. Se você perder dessa vez, será impossível encontrar um homem como eu novamente.

            Jesus pode ser encontrado novamente com muita facilidade – as pessoas estão atingindo a iluminação toda a hora. Mas encontrar um homem como eu, que viajou por milhares de caminhos, em milhares de vidas, e acumulou a fragrância de milhões de flores como uma abelha, é difícil.

            Se alguém perde a oportunidade, talvez a tenha perdido para sempre. Mas não vou permitir que isso aconteça com o meu povo. Eu conheço todos os caminhos para cortar as suas sagacidades, durezas, perícias. Eu não me preocupo com o mundo todo; preocupo-me apenas com a minha gente, aqueles que estão em busca de si próprios.

            Hoje recebi uma tradução de um novo livro que estão publicando na Alemanha. Eu não sei Alemão, então alguém teve que traduzir a parte que dizia respeito a mim. Eu nunca ri tanto de qualquer piada – embora não seja uma piada, é um livro muito sério.

            O autor devotou cinquenta e cinco páginas para provar que sou apenas iluminante e não iluminado [NT. illuminated/enlightened]. Ótimo! Simplesmente ótimo! – apenas iluminante, não iluminado. E vocês ficarão surpresos em saber que há alguns dias atrás recebi outro livro da mesma categoria de idiota, um professor Holandês. Os Holandeses não são muito diferentes dos Alemães, eles pertencem à mesma categoria.

            A propósito, devo dizer a vocês que Gurdjieff costumava dividir toda pessoa de acordo com um certo plano. Ele tinha algumas categorias de idiotas. Ora, esse Alemão e esse Holandês, cujos nomes felizmente esqueci, ambos pertencem à primeira categoria de tolos… não, não tolos – esse termo é reservado para meu discípulo Judeu, Devageet – idiotas. O idiota Holandês provou, ou tentou provar, em uma longa dissertação, que sou apenas iluminado, não iluminante. Ora, esses dois idiotas devem se encontrar e lutar um contra o outro com seus argumentos e livros.

            No que diz respeito a mim, de uma vez por todas, permitam-me declarar ao mundo: Eu não sou nem iluminante nem iluminado. Sou apenas um homem ordinário, um homem muito simples, sem adjetivos nem diplomas. Queimei todos os meus certificados.

            Os idiotas sempre fazem a mesma questão – não faz diferença. Isso é um milagre. Tudo é diferente entre a Índia, Inglaterra, Canada, Estados Unidos da América, Alemanha, menos o idiota. O idiota é universal, o mesmo em todo lugar. Você prova-o em todo lugar e ele é o mesmo. Talvez Buda concordaria comigo; afinal das contas ele disse: Prove o Buda em todos os lugares, e ele é como o oceano: em qualquer lugar que você prová-lo, ele sempre é salgado. Talvez assim como os budas têm o mesmo sabor, os buddhus – que é o nome Indiano para idiotas – também tenham o mesmo sabor. É bom, mas apenas nas linguagens Indianas, que ‘buda’ e ‘budu’ são feitas da mesma raiz, são quase a mesma palavra.

            Eu não me preocupo se vocês acreditam que eu seja iluminado ou não. Mas esse homem está tão preocupado que em seu pequeno livro cinquenta páginas são devotadas à essa questão, se sou iluminado ou não. Elas certamente provam uma coisa, que ele era um idiota de primeira classe.

            Eu sou apenas eu mesmo. Por que eu deveria ser iluminado ou iluminante? E que grande pesquisa! Iluminante é diferente de iluminado? Talvez você é iluminado quando há eletricidade, e você é apenas iluminante quando há apenas a luz de uma vela? Eu não sei qual a diferença.

            Eu não sou nem um nem outro. Eu sou luz, nem iluminada nem iluminante. Eu deixei essas palavras para trás. Posso vê-las como poeira, ainda estimulantes, longe no caminho que eu nunca mais vou viajar novamente, apenas pegadas na areia.

            Esses supostos professores, filósofos, psicólogos – por que eles estão tão preocupados com um pobre homem como eu, que não se preocupa com eles de maneira alguma? Estou vivendo a minha vida, e é minha liberdade vivê-la como eu quiser. Por que eles perdem tempo comigo? Por favor, seria melhor ter vivido aquelas cinquenta e cinco páginas. Quantas horas e noites esse pobre professor deve ter perdido! Ele podia ter se tornado iluminado nesse ínterim, ou pelo menos iluminante. E o Holandês tornar-se-ia iluminante nesse ínterim, ou senão iluminado. Ambos teriam entendido: quem sou eu?

Então há só o silêncio

Nada para dizer

Talvez uma canção para cantar

Ou uma dança

Ou apenas preparar uma xícara de chá

E silenciosamente dar um gole…

 

O sabor do chá é muito mais importante do que toda filosofia.

            Lembre-se Ashu, é por isso que digo que apenas uma coisa que saiu do Canada vale a pena ser mencionada: isto é, Canada Dry, a soda. É realmente bela – eu a amo. Entre todas as sodas do mundo, essa é a melhor. Agora você está rindo. Você tem permissão de olhar para o relógio. Não é preciso escondê-lo debaixo da manga, ou deixá-lo para trás caso você o veja por acidente. Eu não me preocupo de forma nenhuma que horas são. Mesmo quando pergunto, eu não quero realmente saber; é apenas para consolar vocês. Caso contrário eu continuo do meu próprio modo. Eu não sou um homem do tempo. Veja quanto tempo eu levo para voltar para o fio condutor.

            O pai da minha mãe ficou doente de repente. Não era o momento dele morrer; ele não tinha mais que cinquenta anos, ou até menos, talvez era mais jovem do que eu agora. A minha avó tinha apenas cinquenta anos, no pico de sua juventude e beleza. Vocês ficarão surpresos em saber que ela nasceu em Khajuraho, a fortaleza, a mais antiga fortaleza dos Tantrikas. Ela sempre falou para mim, “Quando você for um pouco mais velho, nunca se esqueça de visitar Khajuraho.” Eu não acho que nenhum pai e mãe daria aquele conselho para uma criança, mas a minha avó era rara, persuadindo-me a visitar Khajuraho.

            Khajuraho consiste de milhares de belas esculturas, todas nuas e copulando. Há centenas de templos: muitos deles são apenas ruínas, mas alguns poucos sobreviveram, talvez porque foram esquecidos. Mahatma Gandhi queria que esses poucos templos fossem enterrados porque as estátuas, as esculturas eram muito tentadoras. Entretanto minha avó estava me tentando a ir para Khajuraho. Que avó para se ter! Ela própria era tão bela, como uma estátua, muito Grega de todas as formas.

            Quando a filha de Mukta, Seema, veio ver-me, por um momento não pude acreditar, porque a minha avó tinha exatamente a mesma face, com a mesma coloração. Seema não parece Europeia, ela é mais escura, e a sua face e feição são exatamente como as da minha avó.

            Infelizmente, pensei, a minha avó está morta, caso contrário eu gostaria que Seema a visse. E mesmo com a idade de oitenta anos ela ainda era bela, o que é totalmente impossível.

            Quando a minha avó faleceu eu corri até Bombaim para vê-la. Mesmo em sua morte ela estava bonita. Eu não podia acreditar que ela estava morta. E, de repente, todas as estátuas de Khajuraho tornaram-se vivas para mim. Em seu corpo morto eu vi toda a filosofia de Khajuraho. A primeira coisa que fiz depois de vê-la foi ir novamente para Khajuraho. Era a única forma de homenageá-la. Agora Khajuraho é ainda mais bela do que antes, porque posso vê-la em todos os locais, em cada estátua.

            Khajuraho é incomparável. Há milhares de templos no mundo, mas nada como Khajuraho. Estou tentando criar um Khajuraho vivo neste ashram. Não estátuas de pedra, mas pessoas reais que são capazes de amar, que estão realmente vivas, tão vivas que elas são infectuosas, que apenas ao tocá-las vocês sentem uma corrente, um choque elétrico!

            A minha avó me deu muitas coisas; uma das mais importantes foi a sua insistência para que eu fosse a Khajuraho. Naqueles dias Khajuraho era absolutamente desconhecida. Mas ela insistiu tanto que tive que ir. Ela era teimosa. Talvez eu recebi essa qualidade dela, ou vocês podem chamá-la de uma des-qualidade.

            Durante os últimos vinte anos da sua vida eu estive viajando por toda a Índia. Toda vez que eu passava pela vila ela me falava, “Ouça: nunca entre em um trem que já começou a andar, e não saia do trem antes dele parar. Em segundo lugar, nunca discuta com ninguém do compartimento enquanto você viaja. Terceiro, lembre-se sempre que estou viva e esperando você vir para casa. Por que você está andando por todo o país enquanto estou aqui esperando para cuidar de você? Você precisa de cuidado, e ninguém pode te dar o mesmo cuidado que eu.”

            Por vinte anos continuamente eu tive que ouvir esse conselho. Agora posso dizer para ela, “Não se preocupe, pelo menos aí no outro mundo. Primeiro, eu não viajo mais de trem; de fato, eu não viajo mais, então não é possível sair do trem que ainda não parou. Em segundo lugar, Gudia está cuidando de mim tão lindamente quanto você teria desejado. Terceiro, lembre-se que assim como você se lembrava de mim quando estava viva, permaneça esperando por mim. Logo irei, irei para casa.”

            A primeira vez que fui para Khajuraho fui apenas porque a minha avó estava persistindo para que eu fosse, mas desde então fui para lá centenas de vezes. Não existe nenhum outro lugar no mundo que fui tantas vezes. A razão é simples: você não pode esgotar a experiência. Ela é inexaurível. Quanto mais você sabe, mais você quer saber. Cada detalhe dos templos de Khajuraho é um mistério. Centenas de anos devem ter sido necessários e milhares de artistas para criar cada templo. E nunca cruzei com nada além de Khajuraho que se possa dizer ser perfeito, nem mesmo o Taj Mahal. O Taj Mahal tem as suas falhas, mas Khajuraho não tem nenhuma. Ademais, o Taj Mahal é apenas uma bela arquitetura; Khajuraho é toda a filosofia e psicologia do Novo Ser Humano.

            Quando vi aquelas estátuas nuas*[NT. naked]… não posso dizer “despidas”*[NT. nude] – perdoem-me. O despido é pornográfico; o estar nu é um fenômeno totalmente diferente. No dicionário eles querem dizer a mesma coisa, mas o dicionário não é tudo; há muito mais para a existência. As estátuas estão nuas, mas não despidas. Mas aquelas belezas nuas… talvez um dia o ser humano seja capaz de realizá-las. É um sonho, Khajuraho é um sonho. E Mahatma Gandhi queria enterrá-lo para que ninguém fosse tentado pelas belas estátuas! Somos gratos a Rabindranath Tagore que preveniu Gandhi de fazer tal coisa. Ele disse, “Deixe os templos como eles são…” Ele foi um poeta e podia entender o mistério.

            Fui a Khajuraho tantas vezes que perdi a conta. Sempre que tenho tempo vou correndo para Khajuraho. Se eu não for encontrado em lugar algum, a minha família automaticamente dirá que eu devo estar em Khajuraho, procure por ele lá. E eles estavam sempre certos. Eu tive que subornar os guardas daqueles templos para dizer às pessoas que eu não estava lá quando eu estava. É uma confissão, porque esta foi a única vez que subornei alguém. Mas valeu a pena e não me arrependo, não me sinto desolado por isso.

            De fato, vocês ficarão surpresos, vocês sabem quão perigoso eu sou… O guarda que subornei tornou-se meu sannyasin. Ora, quem subornou quem? Primeiro o subornei para dizer que eu não estava lá dentro; então, aos poucos ele se tornou cada vez mais interessado por mim. Ele devolveu todo o suborno que eu havia lhe dado. Ele é talvez o único homem que devolveu todos os subornos que lhe foram dados. Ele não poderia mantê-los depois que se tornou um sannyasin.

            Khajuraho – o próprio nome soa sinos de alegria em mim, como se tivesse descido do céu à Terra. Em uma noite de lua cheia, ver Khajuraho é ver tudo o que vale a pena ser visto. A minha avó nasceu ali; não admira ela ser uma mulher bela, corajosa e perigosa também. A beleza é sempre assim, corajosa e perigosa. Ela ousava. A minha mãe não se parece com ela, e eu sinto muito por isso. Vocês não podem encontrar nenhuma evidência da minha avó em minha mãe. Nani era uma mulher muito corajosa, e ela me ajudou a ousar tudo – quero dizer tudo.

Se eu queria beber vinho, ela arranjaria. Ela diria, “Se você não puder beber totalmente você não pode se livrar disso.” E eu sei que essa é a forma de livrar-se de qualquer coisa. Qualquer coisa que eu quisesse ela arranjava. O meu avô, o marido dela, sempre tinha medo – assim como qualquer outro marido no mundo, um rato; um belo rato, um cara legal, amável, mas nada comparado com ela. Quando ele morreu no meu colo ela nem mesmo chorou.

Eu perguntei para ela, “Ele está morto. Você o amava. Por que você não está chorando?”

Ela disse, “Por causa de você. Não quero chorar na frente de uma criança” – ela era uma mulher única! – “e não quero consolá-lo. Se eu começar a chorar, então naturalmente você chorará; então quem vai consolar quem?”

Eu devo descrever aquela situação… Estávamos em um carro de boi indo da vila do meu avô para a do meu pai, porque o único hospital ficava ali. O meu avô estava gravemente doente; não apenas doente, mas inconsciente também, quase em coma. Ela e eu éramos as únicas pessoas no carro. Eu posso entender a compaixão dela por mim. Ela nem mesmo chorou na morte do seu amado marido, somente por causa de mim; porque eu era o único ali, e não haveria mais ninguém para me consolar.

Eu disse, “Não se preocupe. Se você pode permanecer sem lágrimas, eu também posso permanecer sem lágrimas.” E, acredite ou não, uma criança de sete anos permaneceu sem lágrimas.

Até mesmo ela ficou intrigada. Ela disse, “Você não está chorando?”

Eu disse, “Não quero consolá-la.”

Era um grupo estranho de pessoas naquele carro de boi. Bhoora, de quem eu falei hoje pela manhã, estava dirigindo. Ele sabia que o seu mestre estava morto, mas ele não olharia para dentro do carro de boi, nem mesmo isso, porque ele era apenas um servo e não era o seu lugar interferir nos assuntos privados. Foi isso o que ele me falou: “A morte é um assunto privado; como posso olhar? Eu ouvi tudo do assento do motorista. Eu queria chorar, eu o amava muito. Sinto-me um órfão – mas não pude olhar para trás, para dentro do carro, caso contrário ele nunca me perdoaria.”

Uma companhia estranha… e Nana estava no meu colo. Eu era uma criança de sete anos com a morte não por alguns segundos, mas continuamente por vinte e quatro horas. Não havia estradas e era difícil chegar na cidade do meu pai. O progresso era muito lento. Permanecemos com o corpo por vinte e quatro horas. Eu não podia chorar porque não queria perturbar a minha avó. Ela não podia chorar porque ela não queria perturbar a pequena criança de sete anos que eu era. Ela realmente era uma mulher de aço.

Quando chegamos na cidade, o meu pai chamou um doutor e vocês podem imaginar: a minha avó deu uma gargalhada! Ela disse, “Vocês pessoas educadas são todas estúpidas. Ele está morto! Não é necessário chamar qualquer doutor. Por favor queime-o, e o mais rápido possível.”

Todos ficaram chocados com essas palavras, menos eu, porque eu a conhecia. Ela queria que o corpo evaporasse nos elementos. Já era hora… já estava tarde; vocês podem entender. Ela disse, “E eu não vou voltar para a vila.”

Quando ela disse que não voltaria a viver na vila, isso obviamente queria dizer que eu não poderia voltar lá para vê-la novamente. Mas ela nunca ficou com a família do meu pai; ela era diferente. Quando comecei a viver na vila do meu pai, eu vivi muito matematicamente naquela vila, gastando quase o dia inteiro com a família do meu pai e toda a noite com a minha avó. Ela costumava viver a sós em seu belo bangalô. Era uma casa pequena, mas realmente bela.

A minha mãe costumava perguntar-me, “Por que você não fica em casa à noite?” Eu disse, “É impossível. Eu tenho que ir até a minha avó, particularmente à noite quando ela se sente sozinha sem o meu Nana, o meu avô. Durante o dia ela fica bem, ela está ocupada e há muitas pessoas em volta – mas à noite em seu quarto ela pode começar a chorar se eu não estiver lá. Eu tenho que estar lá!” Eu sempre permanecia ali, todas as noites, sem exceção.

Durante o dia eu estava na escola. Apenas de manhã e à tarde eu gastava poucas horas com a minha família – minha mãe, meu pai, meus tios. Era uma família grande, e ela permaneceu estranha para mim; ela nunca tornou-se parte de mim.

A minha avó era a minha família, e ela me entendia porque desde a minha infância ela me viu crescer. Ela sabia tanto de mim quanto ninguém, porque ela me permitia tudo… tudo.

Na Índia, quando chega o Festival das Luzes, as pessoas podem apostar. É um ritual estranho: por três dias as apostas são legais; depois disso você pode ser pego e punido.

Eu disse para a minha avó, “Eu quero apostar.”

Ela me perguntou, “Quanto dinheiro você quer?”

Até mesmo eu não pude acreditar em meus ouvidos. Eu pensei que ela diria, “Apostas não.” Em vez disso ela disse, “Então você quer apostar?” Então ela me deu uma nota de cem rúpias e me disse para ir e apostar onde eu quisesse, porque alguém só aprende pela experiência.

Dessa forma ela me ajudou imensamente. Uma vez eu queria visitar uma prostituta. Eu tinha apenas quinze anos e ouvi que uma prostituta estaria na vila. A minha avó me perguntou, “Você sabe o que uma prostituta significa?”

Eu disse, “Eu não sei exatamente.”

Então ela disse, “Você deve ir e ver, mas primeiro vá vê-la cantar e dançar.”

Na Índia as prostitutas cantam e dançam primeiro, mas o canto e a dança foram tão de terceira classe e a mulher era tão feia que vomitei! Eu retornei para casa no meio do show, antes da dança e do canto terminarem, e antes da prostituição começar. A minha Nani perguntou, “Por que você chegou em casa tão cedo?”

Eu respondi, “Foi repugnante.”

Apenas depois quando li o livro de Jean-Paul Sartre, A Náusea, entendi o que aconteceu comigo naquela noite. Mas a minha avó até me deixou ir a uma prostituta. Eu não me lembro de nem mesmo uma vez que ela disse não para mim. Eu queria fumar; ela disse, “Lembre-se de uma coisa: tudo bem com fumar, mas sempre fume em casa.”

Eu disse, “Por quê?”

Ela disse, “Os outros podem oporem-se – então você pode fumar em casa. Eu arranjarei cigarros para você.” Ela continuou a arranjar cigarros para mim até eu falar, “Pare! Eu não preciso mais.”

A minha Nani estava pronta para fazer qualquer coisa apenas para me ajudar a experienciar por mim mesmo. A forma de conhecer é experienciar por si próprio; não é através do que os outros falam. É aí que os pais tornam-se nauseantes: eles estão continuamente te dizendo o que fazer. Uma criança é um renascimento de Deus. Ela deve ser respeitada e deve lhe ser dada todas as oportunidades de crescimento e de ser – não de acordo com você, mas de acordo com o próprio potencial dela.

Se o meu tempo acabou, tudo bem. Se o meu tempo não acabou é ainda melhor. Agora você decide quanto tempo prolongar. Você não é o único Judeu, lembre-se. Você é apenas um Judeu por nascimento, eu sou Judeu no espírito. Tudo depende de você.

 

Sessão 5

 

Estava falando sobre a morte do meu Nana, meu avô. Lembrei-me agora que ele nunca teve que ir ao dentista. Que homem afortunado! Ele morreu com todos os dentes intactos. E olhe para mim. Quando você estava examinando os meus dentes ouvi você dizendo que falta um. Deve ser por isso que sou tão duro: trinta e um dentes em vez de trinta e dois. Talvez seja por isso que golpeio implacavelmente. Naturalmente, quando até mesmo falta um dente, o que mais posso fazer além de golpear implacavelmente dessa forma ou de outras, em quaisquer coisas que eu coloque as minhas mãos?

            Este era o meu modo durante aqueles primeiros anos quando eu vivia com o meu avô, e ainda assim eu era absolutamente protegido de punições. Ele nunca disse “Faça isso,” ou “Não faça isso.” Pelo contrário, ele colocava o seu servo obediente, Bhoora, ao meu serviço, para proteger-me. Bhoora costumava carregar uma arma muito primitiva com ele. Ele costumava me seguir a distância, mas isso era suficiente para assustar os aldeões. Isso era o suficiente para que eu fizesse qualquer coisa que quisesse.

            Qualquer coisa que se possa imaginar… como montar em um búfalo de costas com Bhoora me seguindo. Foi apenas depois, no museu da universidade, que vi uma estátua de Lao Tzé sentado de costas em um búfalo. Eu ri tão alto que o diretor do museu veio correndo até mim dizendo, “Há algo errado?” Porque eu estava segurando meu estômago e sentado no chão, ele disse, “Você está sofrendo de algo?”

            Eu disse, “Não, e não me aborreça, e não me faça rir ainda mais; senão vou começar a chorar. Apenas deixe-me a sós. Nada está errado comigo. Eu apenas lembrei-me da minha juventude. Essa era a forma que eu costumava cavalgar um búfalo.”

            Na minha vila particularmente, e em toda a Índia, ninguém cavalga em um búfalo. Os Chineses são pessoas estranhas, e essa pessoa Lao Tzé foi o mais estranho de todos. Mas Deus sabe, e apenas Deus sabe, como eu descobri a ideia – até mesmo eu não sei – em sentar em um búfalo no mercado, de costas. Eu assumo que foi porque sempre gostei de qualquer coisa absurda.

            Aqueles primeiros anos – se eles me fossem dados novamente, eu estaria pronto para nascer novamente. Mas vocês sabem, e eu sei, nada pode ser repetido. É por isso que estou dizendo que eu estaria pronto para nascer novamente; caso contrário quem iria querer, mesmo que aqueles dias tenham sido cheios de beleza.

            Eu nasci sob uma estrela errada. Arrependo-me de ter esquecido de perguntar para o grande astrólogo porque eu era tão arteiro. Eu não sei viver sem isso; é meu alimento. Eu posso entender o velho homem, meu avô, e o problema que as minhas travessuras causaram a ele. Todo dia ele ficava sentado em seu gaddi – é assim que o assento de um homem rico é chamado na Índia – ouvindo menos de seus clientes, e mais dos reclamantes. Mas ele costumava dizer a eles, “Estou pronto para pagar por qualquer dano que ele tenha feito, mas lembre-se, não irei o punir.”

            Talvez a sua própria paciência comigo, uma criança arteira… até eu não poderia tolerá-la. Se uma criança como aquela fosse dada a mim e por anos… meu Deus! Até mesmo por minutos e eu jogaria a criança para fora da porta para sempre. Talvez aqueles anos fizeram um milagre para meu avô; aquela imensa paciência pagou-se. Ele se tornou cada vez mais silencioso. Eu via o silêncio crescendo a cada dia. De vez em quando eu dizia, “Nana, você pode punir-me. Você não precisa ser tão tolerante.” E, vocês acreditam, ele poderia chorar! As lágrimas chegavam aos seus olhos, e ele diria, “Punir você? Não posso fazer isso. Eu posso punir a mim mesmo, mas não você.”

            Nunca, nem por um momento, vi a sombra da raiva em relação a mim em seus olhos – e acreditem em mim, fiz tudo que mil crianças poderiam fazer. De manhã, até mesmo antes do café da manhã, eu já estava fazendo travessura, até tarde da noite. Às vezes eu chegava em casa tão tarde – três da manhã. Mas que homem ele era! Ele nunca disse, “Você está chegando tarde. Esta não é a hora para uma criança chegar em casa.” Não, nem mesmo uma vez. De fato, na minha frente ele evitaria olhar para o relógio de parede.

            Foi assim que aprendi religiosidade. Ele nunca me levou ao templo onde costumava ir. Eu também costumava ir àquele templo, apenas quando estava fechado, apenas para roubar prismas, porque naquele templo haviam muitos lustres com belos prismas. Acho que com o tempo roubei quase todos. Quando contaram isso para o meu avô ele disse, “E daí! Eu doei os lustres, então posso doar outros. Ele não está roubando; é propriedade do seu Nana. Eu fiz aquele templo.” O sacerdote parou de queixar-se. Qual era o ponto? Ele era apenas um servo do meu Nana.

            Nana costumava ir ao templo todas as manhãs, entretanto nunca disse, “Venha comigo.” Ele nunca me doutrinou. É isso o que é maravilhoso… não doutrinar. É tão humano forçar uma criança indefesa a seguir as suas crenças. Mas ele permaneceu sem ser tentado – sim, chamo-a de grande tentação. No momento que você vê alguém dependente de você de qualquer forma, você começa a doutrinar. Ele nunca nem disse para mim, “Você é um Jaina.”

            Lembro-me perfeitamente – foi no momento em que o censo estava sendo feito. O oficial veio até a nossa casa. Ele fez várias perguntas sobre muitas coisas. Eles perguntaram sobre a religião do meu avô; ele disse, “Jainismo.” Eles então perguntaram a religião da minha avó. O meu Nana disse, “Você pode perguntar para ela. A religião é um assunto privado. Eu mesmo nunca a perguntei.” Que homem!

            A minha avó respondeu, “Eu não acredito em nenhuma religião. Todas as religiões parecem infantis para mim.” O oficial ficou chocado. Até mesmo eu fiquei surpreso. Ela não acredita em nenhuma religião! Encontrar uma mulher na Índia que não acredita em nenhuma religião é impossível. Mas ela nasceu em Khajuraho, talvez em uma família de Tantrikas que nunca acreditou em qualquer religião. Eles praticaram meditação mas nunca acreditaram em nenhuma religião.

            Soa muito ilógico para a mente Ocidental: meditação sem religião? Sim… de fato, se você acreditar em qualquer religião você não pode meditar. A religião é uma interferência em sua meditação. A meditação não necessita de nenhum Deus, nenhum paraíso, nenhum inferno, nenhum medo de punição e nenhuma atração pelo prazer. A meditação não tem nada a ver com a mente; a meditação está além dela, enquanto a religião é apenas mente, está dentro da mente.

            Eu sabia que Nani nunca havia ido a um templo, mas ela me ensinou um mantra que revelarei pela primeira vez. É um mantra Jaina, mas ele não tem nada a ver propriamente com os Jainas. É puramente acidental que ele seja relacionado com o Jainismo…

Namo arihantanam namo namo

Namo siddhanam namo namo

Namo uvajjhayanam namo namo

Namo loye savva sahunam namo namo

Aeso panch nammukaro

Om, shantih, shantih, shantih…

 

O mantra é tão belo. Será difícil traduzi-lo, mas farei o meu melhor… ou meu pior. Primeiro ouçam ao mantra em sua beleza original:

Namo arihantanam namo namo

Namo siddhanam namo namo

Namo uvajjhayanam namo namo

Namo loye savva sahunam namo namo

Aeso panch nammukaro

Savva pavappanasano

Mangalam cha savvesam padhamam havai mangalam

Arihante saranam pavajjhami

Siddhe saranam pavajjhami

Sahu arihantanam namo namo

Namo siddhanam namo namo

Namo uvajjhayanam namo namo

Om, shantih, shantih, shantih…

 

Agora o meu esforço na tradução: “Eu vou aos pés, eu me curvo para os arihantas…” Arihanta é o nome no Jainismo, assim como arhat no Budismo, para alguém que atingiu o supremo, mas não se preocupa com mais ninguém. Ele foi para casa e virou as suas costas para o mundo. Ele não cria uma religião, ele nem mesmo prega, ele nem mesmo declara. É claro que ele tem que ser lembrado em primeiro lugar. A primeira lembrança é para todos aqueles que conheceram e permaneceram em silêncio. O primeiro respeito não é pelas palavras, mas pelo silêncio. Não para servir os outros, mas pela completa realização do próprio sujeito. Não importa se alguém serve os outros ou não; isso é secundário, não primário. O primário é a necessidade de atingir o próprio eu, e isso é tão difícil nesse mundo, conhecer o próprio eu.

            Hoje de manhã dei para Gudia um adesivo de carro da Califórnia que diz: Cuidado! Eu breco para as alucinações. Isso deveria estar em todo carro – não apenas carros, mas nas nádegas de todos também. As pessoas estão vivendo em alucinações; é isso o que a sua vida é: uma alucinação; Eles brecam para espíritos que não estão lá – talvez um Espírito Santo? Mas o que importa se o espírito é sagrado ou profano? Tudo o que importa é que ele não existe.

            E que estupidez! Que clímax da estupidez colocar um espírito santo na trindade Cristã: Deus, o Filho, e o Espírito Santo! Apenas para evitar a mulher eles colocaram um espírito santo ali. Que profano! Vocês veem o truque? Eles não podiam colocar a mãe; eles apagaram a mãe e inscreveram o Espírito Santo. Este Espírito Santo destruiu toda a Cristandade, porque desde o início, desde a sua fundação ele depende de mentiras, alucinações.

            Os Californianos podem ser perdoados – eles são Californíacos – mas os Cristãos não podem ser perdoados por trazer esse sujeito feio, o Espírito Santo, para a trindade. E este Espírito Santo fez o ato profano de engravidar a pobre Maria! Quem vocês acham que engravidou a mulher do pobre carpinteiro, Maria?  Ora, o Espírito Santo! Ótimo! Grande Santidade! Então o que é profanidade?

            Uma coisa é certa, que o Cristianismo tentou evitar completamente a mulher, apagá-la completamente. Eles até criaram uma família. Se uma criança desenhar uma gravura da família – do Pai, Filho e Espírito Santo – vocês diriam, “O que é essa bobagem? Onde está a mãe?”

            Sem a mãe como o pai pode existir? Sem a mãe como pode existir um filho? Até mesmo uma criança entenderia a sua lógica, mas não um teólogo Cristão. Ele não é uma criança, ele é uma criança retardada. Algo está errado com seu cérebro. Particularmente o lado esquerdo do seu cérebro está ou vazio ou cheio de lixo – talvez lixo teológico, a Bíblia – em suma, o Espírito Santo.

            Sou contra esse sujeito. Permitam-me dizer o mais claro possível: se eu encontrasse com ele… quero que vocês saibam que, embora eu seja um homem pacífico, se eu encontrasse esse sujeito, o Espírito Santo, eu o mataria. Eu diria para mim mesmo, “Para o inferno com o pacifismo, pelo menos nesse momento, mate esse sujeito! Depois veremos isso. Podemos ser pacíficos novamente.” Eu colocaria uma mulher em seu lugar. Imediatamente o Cristianismo tomaria consciência.

            Outro adesivo Californiano que dei para Gudia guardar diz: O melhor homem para o posto é provavelmente uma mulher. Não provavelmente, mas certamente… uma mulher poderia trabalhar como o terceiro membro da companhia sagrada. Sem uma mulher é um deserto absoluto: Pai, Filho e Espírito Santo!

            Os Jainas chamam de arihanta uma pessoa que atingiu a si mesma e está tão mergulhada, tão embriagada na beatitude da sua realização que ela esqueceu todo o mundo. A palavra ‘arihanta’ literalmente significa “aquele que matou o inimigo” – e o inimigo é o ego. A primeira parte do mantra diz, “Eu toco o pé daquele que atingiu a si mesmo.”

            A segunda parte é: Namo siddhanam namo namo. Este mantra está em Prakriti, não em Sânscrito. Prakriti é a linguagem dos Jainas; ela é mais antiga que o Sânscrito. A própria palavra “sânscrito” significa refinado. Vocês podem entender pela palavra ‘refinado’ que deve haver algo antes dela, caso contrário o que vocês iriam refinar? ‘Prakriti’ significa não-refinado, natural, cru, e os Jainas estão corretos quando dizem que a sua linguagem é a mais antiga do mundo. A sua religião também é a mais antiga.

                A escritura Hindu Rigveda menciona o primeiro mestre dos Jainas, Adinatha. Isso certamente quer dizer que aquilo é muito mais antigo do que o Rigveda. O Rigveda é o livro mais antigo do mundo e ele fala sobre o tirthankara Jaina, Adinatha, com tamanho respeito que uma coisa é certa, que ele não podia ser contemporâneo das pessoas que escreveram o Rigveda.

            É muito difícil reconhecer um mestre contemporâneo. O seu destino é ser condenado, condenado por todos os lados, de todas as maneiras possíveis. Ele não é respeitado – ele não é uma pessoa respeitável. Leva tempo, milhares de anos, para as pessoas perdoá-lo; apenas então elas começam a respeitá-lo. Quando estão livres da culpa de tê-lo condenado uma vez, elas começam a respeitá-lo, adorá-lo.

            O mantra está em Prakriti, cru e não-refinado. A segunda linha é: Namo siddhanam namo namo – “Eu toco os pés daquele que tornou-se o seu ser.” Então, qual a diferença entra a primeira linha e a segunda?

            O arihanta nunca olha para trás, nunca se preocupa com nenhum tipo de serviço, Cristão ou de outro tipo. O siddha, de vez em quando, dá a sua mão para a humanidade que se afoga, mas apenas de vez em quando, não sempre. Não é uma necessidade, não é compulsório, a escolha é sua; ele pode ou não.

            Assim sendo a terceira linha: Namo uvajjhayanam namo namo… “Eu toco os pés dos mestres, os uvajjhaya.” Eles atingiram o mesmo, mas encaram o mundo, servem o mundo. Eles estão no mundo, não são do mundo… mas mesmo assim dentro do mundo.

            O quarto: Namo loye savva sahunam namo namo… “Eu toco os pés dos professores.” Vocês sabem a sutil diferença entre um mestre e um professor? O mestre conheceu, e transmite o que conheceu. O professor recebeu de alguém que conheceu, e entrega-o intacto ao mundo, mas ele próprio não conheceu.

            Os compositores desse mantra são realmente belos; eles tocam os pés até mesmo daqueles que não conheceram a si mesmos, mas que estão pelo menos carregando a mensagem dos mestres para as massas.

            A número cinco é uma das sentenças mais significantes que já cruzei em toda a minha vida. É estranho que ela tenha sido dada a mim pela minha avó quando eu era uma criança pequena. Quando eu explicá-la, vocês também verão a sua beleza. Apenas a minha avó foi capaz de dá-la a mim. Eu não conheço mais ninguém que teria a fibra para realmente proclamá-la, embora todos os Jainas repitam-na em seus templos. Mas repetir é uma coisa; transmiti-la para alguém que você ama é uma outra totalmente diferente.

            “Eu toco os pés de todos aqueles que conheceram a si próprios”… sem nenhuma distinção, sejam eles Hindus, Jainas, Budistas, Cristãos, Islâmicos. O mantra diz, “Eu toco os pés de todos aqueles que conheceram a si próprios.” Este é o único mantra, até onde sei, absolutamente não-sectário.

            As outras quatro linhas não são diferentes da quinta, elas estão todas contidas nesta, mas esta tem uma vastidão que as outras não têm. A quinta linha deve ser escrita em todos os templos, em todas as igrejas, independentemente de quais sejam, porque diz, “Eu toco os pés de todos aqueles que conheceram-se.” Ela não diz “que conheceram Deus.” Mesmo o “se” pode ser abandonado: estou apenas colocando “se” na tradução. O original simplesmente significa “tocando os pés daqueles que conheceram” – sem “se.” Estou colocando o “se” apenas para preencher as demandas da sua linguagem; caso contrário alguém perguntará, “Conhecer? Conhecer o que? Qual é o objeto do conhecimento?” Não há objeto para o conhecimento; não há nada para conhecer, apenas o conhecedor.

            Este mantra foi a única coisa religiosa, se vocês puderem chamá-lo de religioso, dado a mim pela minha avó, não pelo meu avô, mas pela minha avó… porque uma noite perguntei para ela. Uma noite ela disse, “Você parece acordado. Não consegue dormir? Você está planejando as travessuras de amanhã?”

            Eu disse, “Não, mas de alguma forma surgiu uma questão em mim. Todo mundo tem uma religião, e quando as pessoas me perguntam, ‘A qual religião você pertence?’ eu dou de ombros. Ora, certamente dar de ombros não é uma religião, então quero perguntar para você, o que eu devo dizer?”

            Ela disse, “Eu mesmo não pertenço a nenhuma religião, mas eu amo esse mantra, e isso é tudo o que posso dar para você – não porque ele seja tradicionalmente Jaina, mas apenas porque conheci a sua beleza. Eu o repeti milhões de vezes e sempre encontrei uma tremenda paz… apenas o sentimento de tocar os pés de todos aqueles que conheceram. Eu posso te dar esse mantra; mais do que isso não é possível para mim.”

            Agora posso dizer que aquela mulher era realmente grandiosa, porque no que concerne à religião, todo mundo está mentindo: Cristãos, Judeus, Jainas, Islâmicos – todo mundo está mentindo. Todos falam de Deus, céu e inferno, anjos e todos os tipos de disparates, sem saber de nada. Ela era grandiosa, não porque sabia, mas porque fora incapaz de mentir para uma criança. Ninguém deveria mentir – para uma criança pelo menos é imperdoável.

            As crianças foram exploradas por séculos apenas porque estão dispostas a confiar. Vocês podem mentir para elas muito facilmente e elas confiarão em vocês. Se você é um pai, uma mãe, elas pensarão que deve ser verdade. É assim que toda a humanidade vive na corrupção, em uma lama grossa, muito escorregadia, uma lama grossa de mentiras contadas para as crianças por séculos.

            Se pudermos fazer uma coisa, uma coisa simples: não mentir para as crianças, e confessar para elas a nossa ignorância, então nós seremos religiosos, e vamos colocá-las no caminho da religião. As crianças são pura inocência; não deixe para elas o seu suposto conhecimento. Mas vocês próprios devem estar inocentes, sem mentiras, verdadeiros, mesmo se isso acabar com o ego – e isso irá. Necessariamente isso acabará com o ego.

            O meu avô nunca me disse para ir ao templo, para segui-lo. Eu costumava segui-lo muitas vezes, mas ele diria, “Vai embora. Se você quiser ir ao templo vá sozinho. Não me siga.”

            Ele não era um homem duro, mas nesse ponto ele era absolutamente duro. Eu perguntei para ele várias vezes, “Você pode me dar algo da sua experiência?” E ele sempre negava.

            Quando ele estava morrendo no meu colo, no carro de boi, ele abriu os seus olhos e perguntou, “Que horas são?”

            Eu disse, “Deve ser quase nove horas.”

            Por um momento ele permaneceu em silêncio, e então falou,

 

“Namo arihantanam namo namo

Namo siddhanam namo namo

Namo uvajjhayanam namo namo

Namo loye savva sahunam namo namo

Om, shantih, shantih, shantih…”

 

O que significa? Significa “Om” – o som supremo do silêncio. E ele desapareceu como uma gota de orvalho nos primeiros raios do sol.

            Existe apenas a paz, paz, paz… Estou entrando nela agora…

 

Namo arihantanam namo namo…

Eu vou aos pés daqueles que conheceram.

Eu vou aos pés daqueles que alcançaram.

Eu vou aos pés de todos os que são mestres.

Eu vou aos pés de todos os professores.

Eu vou aos pés de todos que conheceram,

Incondicionalmente.

Om, shantih, shantih, shantih.

    

 

Sessão 6

 

Ok. O meu ok é um pouco triste porque Ashu está triste, e são tão poucos os membros da Arca de Noé que apenas uma pessoa triste é suficiente para mudar toda a atmosfera. Ela está triste porque o seu amor se foi e pode não voltar.

            Vocês se lembram quando há alguns dias eu perguntei para ela, “Onde está o seu amor, Ashu?” E quão feliz ela disse, “Em breve ele estará aqui.”

            Ela pode não ter pensado naquele momento porque perguntei. Eu não pergunto algo para alguém sem um propósito. Pode não ser aparente para você no momento, mas sempre há um propósito. Em todas as minhas absurdidades existem razões. Em toda a minha insanidade há uma subcorrente de total sanidade.

            Eu perguntei para ela porque sabia que em breve ela estaria triste. Anime-se, não se preocupe. Eu conheço o seu amor mais do que você o conhece.

            Ele vai conseguir. Eu vou conseguir. Mas nessa pequena Arca de Noé, não fique triste. Ó. Você está rindo; isso é bom. E é sempre bom ter uma pequena separação do amor; isso torna você e sua saudades mais profunda. Isso faz com que você esqueça das estupidezes que estão ocorrendo, os conflitos. De repente toda a beleza é lembrada. As pequenas separações trazem novas luas de mel. Então espere pela lua de mel. Os meus discípulos sempre encontrarão um caminho até mim, para estarem ao meu lado. Eles querem o caminho. Ele encontrará o caminho até mim.

            Mas, infelizmente, a palavra ‘triste’ faz-me relembrar daquele Alemão, Achim Seidl. Meu Deus, eu não ia falar sobre ele nunca mais na minha vida, e ele está aqui, apenas por causa da sua tristeza… Olhe o que você fez! Então nunca fique triste, caso contrário essas pessoas podem entrar.

            Eu estava tentando encontrar em seu livro o que ele acha de errado em mim que o faz dizer que não sou iluminado. Não que eu seja – apenas porque ele sente que não sou iluminado, e porque sente que sou apenas iluminante. Por curiosidade eu queria ver porque ele concluiu dessa forma. O que encontrei é algo que realmente vale a pena rir. A sua razão para eu ser iluminante é: certamente o que estou falando é de imensa importância para toda a humanidade, mas não sou iluminado por causa “da forma que digo.”

            Isso realmente me fez rir. Eu raramente rio, e mesmo assim apenas no meu banheiro. Apenas o espelho o sabe. A beleza do espelho é que ele não carrega memórias. Eu rio porque parece que esse homem encontrou e conheceu muitas pessoas iluminadas, e não acha que a minha forma de dizer as coisas é a mesma da deles. Eu gostaria de usar uma palavra Americana para ele: o filho da puta está simplesmente intelectualmente constipado. Ele precisa começar um movimento; Quero dizer que ele tem que comer ameixas!

            Eu digo com autoridade – com a minha própria autoridade, é claro – que Bodidarma, se tivesse conhecido a expressão, ele teria dito ao imperador Wu da China, “Seu filho da puta! Vá para o inferno e deixe-me a sós!” mas naqueles dias a expressão Americana não existia. Não que a América não existisse, isso novamente é um mito Europeu. A América foi descoberta por Colombo? Disparate! Ela foi descobertas muitas vezes, mas isso foi sempre abafado.

            Permitam-me lembrá-los que México vem de uma palavra em Sânscrito makshika, e no México existem milhares de provas que o Hinduísmo existia ali muito antes de Jesus Cristo – o que dizer de Colombo! De fato a América, particularmente a América do Sul, era parte de um vasto continente em conjunção com a África. A Índia ficava exatamente no meio, a África abaixo, a América acima. Elas eram divididas apenas por um oceano muito raso; vocês poderiam andar sobre ele! Existem referência a ele nas escrituras Indianas antigas; elas dizem que as pessoas costumavam passar entre a Ásia e a América a pé. Até mesmo casamentos aconteciam. Arjuna, o famoso guerreiro do épico Indiano Mahabharata e famoso discípulo de Krishna, era casado com uma garota Mexicana. É claro que eles chamavam o México de Makshika, mas a descrição é exatamente a do México.

            No México existem estátuas de Ganesh, o deus elefante Hindu. Seria impossível encontrar uma estátua do deus elefante na Inglaterra! Seria impossível encontrá-la em qualquer lugar a menos que esse país tivesse tido contato com o Hinduísmo. Em Bali, sim, ou em Sumatra e no México – mas não em outros locais, a menos que o Hinduísmo estivesse lá. Em alguns templos Mexicanos existem até inscrições em Sânscrito antigo. Estou dizendo isso en passant… se vocês quiserem saber mais vocês terão que olhar para a obra da vida do monge Bhikkhu Chamanlal, em seu livro Hindu América. É estranho que ninguém preste atenção para sua obra. Os Cristãos, é claro, não podem prestar atenção nele, mas a pesquisa deveria ser sem preconceitos.

            Esse Alemão e seu colega psicólogo Holandês que escreveu que eu sou iluminado, mas não iluminante, e que eu sou iluminante mas não iluminado, devem encontrar-se ambos para discutir a questão e chegar a uma conclusão, e então me comunicarem – porque não sou nem um nem outro. Eles estão muito preocupados com as palavras: ‘iluminante’ ou ‘iluminado’? Ademais, as mesmas razões são utilizadas por cada um desses homens para alcançar conclusões totalmente opostas. O Holandês escreveu o seu livro antes do Alemão, que parece que roubou o tema do Holandês. Mas é assim que os professores se comportam – eles seguem roubando os mesmos argumentos uns dos outros, exatamente o mesmo argumento… que eu não falo como um homem iluminado ou como um homem iluminante.

            Mas quem são eles para decidirem como uma pessoa iluminada ou iluminante deve falar? Eles conheceram Bodidarma? Eles viram a sua imagem? Eles imediatamente concluíram que uma pessoa iluminada ou iluminante não pode se parecer com aquilo. Bodidarma parece feroz! Os seus olhos são os de um leão na floresta, e a forma que ele olha para você é tal que parece que ele vai saltar da imagem e te matar instantaneamente. Era assim que ele era! Mas esqueçam Bodidarma, porque agora catorze séculos se passaram…

            Eu conheço Bodidarma pessoalmente. Eu viajei com o homem por pelo menos três meses. Ele me ama assim como eu o amo. Vocês ficarão curiosos em saber porque ele me amou. Ele me amou porque eu nunca fiz nenhuma questão para ele. Ele disse para mim, “Você é a primeira pessoa que encontrei que não fez uma questão – e eu apenas fico entediado com todas as questões. Você é a única pessoa que não me entendia.”

            Eu disse, “Há uma razão.”

            Ele disse, “Qual?”

            Eu disse, “Apenas respondo. Nunca questiono. Se você tiver alguma questão você pode perguntar-me. Se não tem uma questão então mantenha a sua boca fechada.”

            Nós dois rimos, porque nós dois pertencemos à mesma categoria de insanidade. Ele me pediu para continuar a jornada com ele, mas eu disse, “Desculpe-me, eu tenho que seguir o meu caminho, e a partir desse ponto ele se separa do seu.”

            Ele não podia acreditar. Ele nunca tinha convidado alguém antes. Esse era o homem que recusou até mesmo o Imperador Wu – o maior imperador daqueles dias, com o maior império – como se fosse um mendigo. Bodidarma não podia acreditar que eu o recusei.

            Eu disse, “Agora você sabe como é o sentimento de ser recusado. Eu queria te dar um gostinho disso. Adeus.” Mas isso foi há catorze séculos.

            Posso lembrar o Alemão de fazer algumas edições posteriores… de Gurdjieff, que ainda estava vivo há alguns poucos anos. Ele deveria ter visto Gurdjieff e então entenderia como uma pessoa iluminada ou iluminante se comporta e fala. Não há nenhuma única palavra que Gurdjieff não falaria – e é claro que essas palavras não estão escritas em seus livros, porque ninguém as publicaria.

            Ou, se ele se preocupa apenas com a iluminação Indiana, que parece dominar esses idiotas… caso contrário, o que a Índia tem a ver com isso? A iluminação aconteceu em todos os lugares. Se ele se preocupa apenas com a iluminação Indiana, então Ramakrishna está muito próximo de nós. As suas palavras não foram reportadas corretamente, porque ele era um aldeão e utilizava a linguagem de um aldeão. Todas aquelas palavras que as pessoas pensam que não deveria ser utilizadas por um ser iluminado foram editadas. Eu andei por Bengala, perguntando para as pessoas que ainda estavam vivas quando Ramakrishna falava. Todas elas disseram que ele era terrível. Ele costumava falar como um homem deve falar – forte, sem medo, sem nenhuma sofisticação.

            Eu sempre falei como eu quis. Não sou escravo de ninguém, e não ligo para o que esses idiotas pensam de mim. Isso depende deles: eles podem pensar que eu sou iluminado; eles podem pensar que eu sou iluminante; eles podem pensar que sou ignorante. Eles podem pensar o que quiserem – a mente é deles. Eles podem escrever; o papel está aí, a tinta está aí. Por que eu me preocuparia?

            Por falar nisso, Ashu, porque você está triste você trouxe esse idiota para dentro. Nunca fique triste novamente – porque se você estiver eu trarei esse idiota, e você sabe que posso trazer qualquer coisa de qualquer lugar, mesmo de lugar algum.

            Agora terminamos com esse Alemão e a tristeza, certo? Pelo menos dê um risinho… bom! Sim, posso entender. Mesmo se você ri na tristeza a cor é diferente, mas é natural. Os meus sannyasins têm que aprender como estar um pouco acima da natureza. Eles têm que aprender coisas que, no mundo ordinário, ninguém se importa. A separação tem a sua própria beleza, assim como o encontro. Não vejo que há algo errado na separação. A separação tem a sua própria poesia; é preciso apenas aprender a sua linguagem, e é preciso viver em sua profundidade. Então, da própria tristeza vem um novo tipo de alegria… que parece quase impossível, mas ela ocorre. Eu a conheci. Era disso que eu estava falando de manhã. Eu estava falando da morte do meu Nana.

            Foi uma separação total. Nós não nos veríamos de novo, entretanto havia uma beleza nisso, e ele tornou aquilo ainda mais belo ao repetir o mantra. Ele o aproximou mais da oração… tornou-se fragrante. Ele estava velho e morrendo, talvez de um ataque cardíaco severo. Nós não sabíamos porque na vila não tinha doutor, nem mesmo um farmacêutico, nenhum remédio. Então nós não sabíamos a causa da sua morte, mas penso que foi um ataque cardíaco severo.

            Eu perguntei-lhe em seu ouvido, “Nana, você tem algo a dizer para mim antes de partir? Quaisquer últimas palavras? Ou você quer me dar algo para que eu me lembre de você para sempre?”

            Ele retirou o seu anel e o colocou em minha mão. Aquele anel está com algum sannyasin agora; eu o dei para alguém. Mas aquele anel foi sempre um mistério. Por toda a sua vida ele não permitiu que ninguém visse o que tinha nele, embora sempre olhasse para o anel. Aquele anel tinha uma janela de vidro de ambos os lados que você podia olhar dentro. No topo havia um diamante; em cada um dos seus lados havia uma janela de vidro.

            Ele nunca deixou ninguém ver o que era aquilo que ele costumava olhar através da janela. Dentro havia uma estátua de Mahavira, o tirthankara Jaina; uma imagem realmente bela e muito pequena. Devia existir uma pequena imagem de Mahavira dentro e aquelas duas janelas eram lupas. Elas aumentavam-na e a imagem parecia realmente grande. Não tinha uso para mim porque, sinto muito dizer, mesmo que eu tenha tentado o meu melhor nunca fui capaz de amar Mahavira tanto quanto amo Buda, embora eles fossem contemporâneos.

            Algo falta a Mahavira e sem isso o meu coração não pode bater por ele. Ele parece exatamente como uma estátua de pedra. Buda parece mais vivo, mas não de acordo com o meu padrão de vivacidade – é por isso que quero que ele se torne um Zorba também. Se ele encontrar comigo em algum lugar do outro mundo haverá problemas. Ele gritará para mim, “Você queria que eu me tornasse um Zorba!”

            Mas você sabe que eu sei gritar muito melhor. Ele não pode calar-me; Eu terei o meu próprio caminho. Se ele não quiser tornar-se um Zorba, isso é problema dele, mas então o seu mundo está acabado; ele não terá futuro. Se quiser um futuro então ele terá que me ouvir. Ele tem que tornar-se um Zorba. O Zorba não pode existir a sós – ele terminará em Hiroshima – nem um Buda pode existir a sós. No futuro não haverá possibilidade de eles ficarem separados.

            A psicologia futura do ser humano precisa ser uma ponte entre o materialismo e o espiritualismo; entre Oriente e Ocidente. Algum dia alguém ficará grato que a minha mensagem esteja alcançando o Ocidente; caso contrário os buscadores estariam vindo para o Oriente. Dessa vez a mensagem de um buda vivo foi até o Ocidente.

            O Ocidente não sabe como reconhecer um buda. Ele nunca conheceu um buda. Ele conheceu apenas budas parciais – um Jesus, um Pitágoras, um Diógenes – ele nunca conheceu um buda total. Não é surpresa que eles estejam discutindo sobre mim.

            Vocês sabem o que eles estão publicando nos jornais Indianos? Eles estão publicando uma estória que eu posso ser sequestrado por alguns inimigos, e que a minha vida está em perigo. Estou aqui agora e eles não estão realmente preocupados comigo. A Índia é um país podre. A Índia tem sido podre por quase dois mil anos – ela fede! Nada fede mais do que a espiritualidade Indiana. É um cadáver, um cadáver muito antigo, dois mil anos!

            Que estórias as pessoas inventam! Eu posso ser “sequestrado por alguns inimigos” e agora a minha vida está em perigo. É um milagre que sobrevivi. E agora eles querem me proteger! Existem pessoas estranhas no mundo inteiro; mas o futuro do ser humano não pertence às essas pessoas estranhas, mas a um tipo muito novo, e esse novo tipo eu nomeei Zorba o Buda.

            Eu estava dizendo a vocês que meu avô, antes de morrer, deu-me a sua coisa mais estimada – uma estátua de Mahavira escondida atrás de um diamante em um anel. Com lágrimas em seus olhos ele disse, “Eu não tenho mais nada para te dar porque tudo o que tenho será tirado de você também, assim como foi tirado de mim. Eu posso apenas te dar o meu amor por aqueles que conheceram a si próprios.”

            Embora eu não tenha mantido o seu anel, eu cumpri o seu desejo. Eu conheci o uno, e o conheci em mim mesmo. Em um anel o que importa? Mas o pobre velho homem, ele amava o seu mestre, Mahavira, e ele deu o seu amor para mim. Eu respeito o seu amor por seu mestre, e por mim. As últimas palavras em seus lábios foram, “Não se preocupe, porque não estou morrendo.”

            Todos nós esperamos para ver se ele diria algo a mais, mas aquilo era tudo. Os seus olhos fecharam-se e ele faleceu.

            Eu ainda lembro daquele silêncio. O carro de boi estava passando pelo leito de um rio. Lembro-me exatamente de cada detalhe. Eu não disse nada porque não queria perturbar a minha avó. Ela não disse nada. Alguns momentos passaram-se, então fiquei um pouco preocupado com ela e disse, “Diga algo; não fique tão quieta, é insuportável.”

            Vocês acreditam nisso, ela cantou uma música! Foi assim que aprendi que a morte tem que ser celebrada. Ela cantou a mesma música que cantara quando estava apaixonada pelo meu avô pela primeira vez. Isso também deve ser notado: que noventa anos atrás, na Índia, ela teve a coragem de apaixonar-se. Ela permaneceu solteira até a idade de vinte e quatro. Isso era muito raro. Ela era uma mulher tão bonita… eu disse para ela brincando que mesmo o rei de Chhatarpur, o estado onde Khajuraho está, deveria ter se apaixonado por ela.

            Ela disse, “É estranho você mencionar isso, porque isso ocorreu. Eu o recusei, e não apenas ele mas muitos outros também.” Naqueles dias na Índia, as meninas casavam-se quando tinham sete, ou no máximo nove anos. Apenas o medo do amor… se elas fossem mais velhas elas poderiam apaixonar-se. Mas o pai da minha avó era um poeta; as suas músicas ainda são cantadas em Khajuraho e nas vilas próximas. Ele insistiu que a não ser que ela aceitasse, ele não a casaria com ninguém. Pelo bem ou pelo mal, ela apaixonou-se pelo meu avô.

            Eu perguntei para ela, “Isso é ainda mais estranho: você recusou o rei de Chhatarpur, e, entretanto, você se apaixonou por esse pobre homem. Para quê? Ele certamente não era um homem belo, nem extraordinário de outra maneira; por que você se apaixonou por ele?”

            Ela disse, “Você está fazendo a questão errada. Apaixonar-se não tem nenhum ‘porque’ associado. Eu apenas o vi, e foi isso. Eu vi os seus olhos e uma confiança surgiu em mim que nunca oscilou.

            Eu também perguntei ao meu avô, “Nani disse que ela se apaixonou por você. Tudo bem da parte dela, mas por que você permitiu que o casamento ocorresse?”

            Ele disse, “Eu não sou um poeta ou um pensador, mas posso reconhecer a beleza quando a vejo.”

            Eu nunca vi uma mulher mais bonita que a minha Nani. Eu mesmo me apaixonei por ela, e a amei por toda a sua vida. Quando ela morreu com oitenta anos, eu corri para casa e a encontrei deitada lá, morta. Todos estavam esperando por mim porque ela tinha dito para eles não colocar o seu corpo na pilha funerária até que eu chegasse. Eu entrei, descobri a sua face… e ela ainda estava bela! De fato, mais bela do que nunca, porque tudo estava quieto: até mesmo o turbilhão da sua respiração, o turbilhão da vida não estava ali. Ela era apenas uma presença.

            Colocar o fogo em seu corpo foi a coisa mais difícil que já fiz em minha vida. Foi como se eu tivesse colocando fogo nas obras mais belas de Leonardo ou Vincent van Gogh. É claro que para mim ela tinha mais valor do que a Mona Lisa, mais beleza para mim do que Cleópatra. Não é um exagero.

            Tudo o que é belo na minha visão de alguma maneira vem dela. Ela me ajudou de todas as formas a ser quem eu sou. Sem ela eu poderia ser o dono de uma loja ou talvez um doutor ou engenheiro, porque quando fui admitido o meu pai era tão pobre, era difícil para ele enviar-me para a universidade. Mas ele estava até mesmo pronto para emprestar dinheiro para fazê-lo. Ele foi totalmente insistente que eu fosse para a universidade. Eu estava disposto, mas não para ir para a universidade de medicina, e eu não estava disposto a ir para a universidade de engenharia também. Eu recusei totalmente ser um doutor ou um engenheiro. Eu falei para ele, “Se você quer saber a verdade, eu quero ser um sannyasin, um hobo.”

            Ele disse, “O quê! Um hobo?”

            Eu disse, “Sim. Eu quero ir para a universidade estudar filosofia para que eu possa ser um hobo filosófico.”

            Ele recusou, dizendo, “Nesse caso eu não vou emprestar dinheiro para isso.”

            A minha avó disse, “Não se preocupe, filho; você vai e faça qualquer coisa que você quiser. Eu estou viva, e venderei qualquer coisa que eu tiver apenas para ajudá-lo a ser você mesmo. Eu não vou perguntar para onde você quer ir e o que você quer estudar.”

            Ela nunca perguntou, e ela me enviava dinheiro continuamente, até quando me tornei professor. Eu tive que dizê-la que estava agora ganhando dinheiro e era eu que deveria enviar dinheiro para ela.

            Ela disse, “Não se preocupe, eu não utilizo esse dinheiro, e você deve estar utilizando-o bem.”

            As pessoas costumavam perguntar de onde eu tirava dinheiro para comprar os meus livros, porque eu tinha milhares de livros. Até mesmo quando eu era um colegial eu tinha milhares de livros na minha casa. Toda a minha casa era cheia de livros, e todos se perguntavam de onde eu retirava o dinheiro. A minha avó me disse, “Nunca diga a ninguém que você ganha o dinheiro de mim, porque se o seu pai e sua mãe ficarem sabendo eles começarão a me pedir dinheiro, e será difícil para mim recusar.”

            Ela seguiu dando dinheiro para mim. Vocês ficarão surpresos em saber que até mesmo no mês que ela morreu ela tinha enviado o dinheiro costumeiro para mim. Na manhã do dia que ela morreu ela tinha assinado o cheque. Vocês também ficarão impressionados em saber que aquele era o último dinheiro que ela tinha no banco. Talvez de alguma forma ela sabia que não haveria um amanhã.

            Eu sou afortunado de muitas formas, mas eu sou mais afortunado por ter tido os meus avós maternos… e aqueles primeiros anos dourados.

 

Sessão 7

 

Devageet, quando você às vezes diz “Ok” para Ashu, eu entendo errado: Eu penso que é ok para mim. É por isso que ela ri. Mas ainda assim digo que lá, profundamente dentro de mim, não há nada exceto o riso. Você pode anestesiar o meu corpo, tudo, mas não eu. Isso está acima de você.

            Isso acontece com vocês também. O seu núcleo mais profundo está além de todos os químicos e a química. Agora posso ouvir Devageet dando risinhos. É bom ouvir um homem dando risinhos. Os homens quase nunca dão risinhos. Dar risinhos tornou-se um domínio único das mulheres. Os homens ou dão risadas ou não, mas eles não dão risinhos. Dar risinho está justamente no meio. É o Meio Dourado. É o Tao. A risada por ser violenta; não rir é estúpido. Mas dar risinhos é bom.

            Vejam como eu posso dizer algo significante até sobre o sorriso: “Sorrir é bom.” Não se preocupem se eu disser algo correto, é apenas um velho hábito. Eu posso até falar dormindo, então não é problema falar assim.

            Gudia sabe que eu falo enquanto durmo mas ela não sabe de quem. Apenas eu sei isso. Pobre Gudia! Estou falando para ela e ela pensa e preocupa-se sobre o que estou falando, e para quem. Infelizmente ela não está consciente que eu estou falando com ela dessa forma. O sono é um anestésico natural. A vida é tão dura que é preciso ir para baixo toda noite por algumas horas pelo menos. E ela se pergunta se estou realmente dormindo ou não. Eu posso entender o seu questionamento.

            Por mais de um quarto de século eu não dormi. Devaraj, não se preocupe. O sono ordinário… eu dormi mais do que qualquer um no mundo inteiro: três horas durante o dia, e sete, oito, nove horas à noite – tanto quanto alguém pode aguentar. Em tudo, in toto, eu durmo doze horas por dia, mas abaixo estou acordado. Eu me vejo dormindo, e, às vezes, a noite é tão solitária que começo a falar com Gudia. Mas as dificuldades dela são muitas. Primeiro, quando falo em meu sono, falo em Hindi. Eu não posso falar em Inglês enquanto estou dormindo. Eu nunca o farei, embora pudesse se quisesse. Algumas vezes tentei e consegui, mas faltava a alegria.

            Vocês devem saber que todos os dias estou ouvindo uma música de Noorjahan, a famosa cantora Urdu. Todos os dias antes de entrar ouço-a várias vezes. Pode até levar vocês à loucura. O que vocês sabem sobre perfuração? Eu sei o que perfuração significa. Eu perfuro aquela música em Gudia todos os dias. Ela tem que ouvi-la, não há como evitá-lo. Depois que termino o meu trabalho, novamente coloco a mesma música. Eu amo a minha língua… não porque é a minha língua, mas ela é tão bela que mesmo se não fosse minha eu a teria aprendido.

            A música que ela ouve todos os dias, e terá que ouvir muitas vezes, diz: “Se você se lembra ou não, certa vez houve uma confiança entre nós. Certa vez você costumava dizer-me, ‘Você é a mulher mais bela do mundo.’ Agora não sei se você me reconhecerá ou não. Talvez você não se lembre, mas eu ainda me lembro. Eu não posso esquecer a confiança e as palavras que você disse para mim. Você costumava dizer que o seu amor era impecável. Você ainda se lembra? Talvez não, mas eu me lembro – não em sua totalidade, é claro. O tempo causou muito dano.

            “Sou um palácio dilapidado, mas se você olhar, olhar minuciosamente: ainda sou o mesmo. Eu ainda me lembro da confiança e das suas palavras. Aquela confiança que existiu uma vez entre nós, ainda está em sua memória ou não? Eu não sei você, mas ainda me lembro.”

            Por que sigo tocando a música de Noorjahan? É um tipo de perfuração. Não perfurar o seu dente, embora se continuar perfurando o bastante chegará ao seu dente também, mas perfurar nela a beleza de uma língua. Eu sei que será difícil para ela entendê-la ou apreciá-la.

            Em meu sono, quando falo com Gudia, falo repetidamente em Hindi porque sei que o seu inconsciente ainda não é Inglês. Ela esteve na Inglaterra apenas por alguns anos. Antes disso ela estava na Índia, e agora está novamente na Índia. Eu tenho tentado eclipsar tudo entre essas duas vezes. Desta última, quando chegar o momento…

            Hoje vou falar algo sobre o Jainismo. Olhe a loucura desse homem! Sim, eu posso pular de um pico para outro sem nenhuma ponte no meio. Mas vocês têm que tolerar um louco. Vocês se apaixonaram: é sua responsabilidade, não sou responsável por isso.

            O Jainismo é a religião mais ascética do mundo, ou, em outras palavras, a mais masoquista e sadista. Os monges Jainas torturam a si próprios tanto que todos perguntam se eles estão insanos. Eles não estão. Eles são mercadores, e os seguidores dos monges Jainas são todos mercadores. É estranho, toda a comunidade Jaina consiste apenas de mercadores – mas não é realmente estranho porque a própria religião é basicamente motivada pelo lucro no outro mundo. Os Jainas torturam a si próprios para ganharem algo no outro mundo que eles sabem não poderem alcançar nesse.

            Eu devia ter quatro ou cinco anos quando vi pela primeira vez um monge Jaina ser convidado para a casa da minha avó. Eu não pude resistir ao riso. O meu avô me disse, “Fique quieto! Eu sei que você é uma perturbação. Posso te perdoar quando você perturba os vizinhos, mas não posso te perdoar se você tentar ser travesso com o meu guru. Ele é o meu mestre; ele me iniciou nos segredos íntimos da religião.”

            Eu disse, “Eu não tenho nada a ver com esses segredos íntimos, eu tenho a ver com os segredos externos que ele está mostrando tão claramente. Por que ele está nu? Ele não pode pelo menos usar um shorts?”

            Até mesmo o meu avô riu. Ele disse, “Você não entende.”

            Eu disse, “Ok, eu mesmo vou perguntar para ele.” Eu então pedi para a minha avó, “Posso fazer algumas questões para esse homem completamente insano que chega nu na frente das damas e dos cavalheiros?”

            A minha avó riu e disse, “Vai em frente, e não ligue para nada do que seu avô disser. Eu te dou permissão. Se ele disser alguma coisa apenas aponte na minha direção que vou colocá-lo na linha.”

            Ela era realmente uma mulher bonita, corajosa, pronta para dar liberdade sem quaisquer limites. Ela nem me perguntou o que eu iria perguntar. Ela simplesmente disse, “Vai em frente…”

            Todos os aldeões se reuniram para o darshan do monge Jaina. No meio do suposto sermão eu me levantei. Isso faz em torno de quarenta anos, e desde então eu tenho lutado com esses idiotas continuamente. Naquele dia começou uma guerra que só terminará quando eu morrer. Talvez não termine nem com a minha morte; a minha gente pode continuá-la.

            Eu fiz questões simples que ele não pôde responder. Eu fiquei perplexo. O meu avô ficou envergonhado. A minha avó deu um tapinha nas minhas costas e disse, “Excelente! Você conseguiu. Eu sabia que você era capaz.”

            O que eu perguntei? – apenas questões simples. Eu perguntei, “Por que você não quer nascer de novo?” Esta é uma questão muito simples no Jainismo, porque o Jainismo não é nada além de um esforço para não nascer novamente. É toda a ciência da prevenção do renascimento. Então eu fiz para ele uma questão básica, “Você não quer nunca mais nascer de novo?”

            Ele disse, “Não, nunca.”

            Então eu perguntei, “Por que você não comete suicídio? Por que você ainda está respirando? Para que comer? Para que tomar água? Apenas desapareça, cometa suicídio. Porque fazer tanto barulho sobre uma coisa simples?” Ele não tinha mais de quarenta anos de idade… eu disse para ele, “Se você continuar nesse caminho, você talvez tenha que continuar por outros quarenta anos, ou até mesmo mais.”

            É um fato científico que as pessoas que comem menos vivem mais. Devaraj certamente concordará comigo. Foi provado repetidas vezes que se você alimentar qualquer espécie mais do que necessita ela tornar-se-á gorda, confortável e bela certamente, mas morrerá cedo. Se você a alimentar com apenas metade do que necessita, é estranho: ela não será bela, não estará confortável, mas viverá pelo menos o dobro da idade média. Metade do alimento e o dobro da idade – dobre o alimento e você reduzirá pela metade a idade.

            Então eu disse ao monge – eu não sabia desses fatos naquela época – “Se você não quer nascer de novo, por que você está vivendo? Apenas para morrer? Então por que não cometer suicídio?” Eu não acho que ninguém nunca fez esta questão para ele. Em uma sociedade educada ninguém nunca faz uma questão real, e a questão do suicídio é a mais real de todas.

            Albert Camus dizia: O suicídio é a única questão filosófica real. Eu não tinha ideia de Camus naquele momento. Talvez naquele momento não existisse nenhum Camus, e seu livro ainda não havia sido escrito. Mas foi isso o que falei para o monge Jaina: “Se você não quer nascer de novo, o que você diz ser seu desejo, então por que você vive? Para quê? Cometa suicídio! Posso te mostrar uma forma. Embora eu não saiba muito sobre os caminhos do mundo, no que diz respeito ao suicídio, posso dar-te alguns conselhos. Você pode pular do morro do lado da vila, ou você pode pular em um rio.”

            O rio ficava há três milhas da vila e era tão profundo e vasto que cruzá-lo nadando era uma felicidade para mim. Muitas vezes enquanto nadava cruzando o rio eu pensava que era o fim e que eu não seria capaz de alcançar a outra margem. Ele era tão largo, particularmente na estação chuvosa, milhas de largura. Ele parecia um oceano. Na estação chuvosa não era possível ver a outra margem. Quando ele estava cheio, era nesse momento que eu pulava para dentro, ou para morrer ou para atingir a outra margem. A probabilidade maior era que eu nunca atingisse a outra margem.

            Eu disse ao monge Jaina, “Na estação chuvosa você pode pular no rio comigo. Podemos ir juntos por um tempo, então você pode morrer, e eu vou alcançar a outra margem. Eu posso nadar bem o suficiente.”

            Ele olhou para mim tão ferozmente, tão cheio de raiva, que tive que dizer para ele, “Lembre-se, você vai ter que nascer novamente porque ainda está cheio de raiva. Essa não é a forma de abandonar o mundo das preocupações. Por que você está olhando para mim com tanta raiva? Responda a minha questão de uma forma silenciosa e pacífica. Responda alegremente! Se você não pode responder, simplesmente diga, ‘Eu não sei.’ Mas não fique com raiva.”

            O homem disse, “O suicídio é um pecado. Eu não posso cometer suicídio. Mas eu não quero nunca nascer novamente. Eu alcançarei o estado ao renunciar vagarosamente tudo que possuo.”

            Eu disse, “Por favor mostre-me algo que você possui porque, até onde posso ver, você está nu e não possui nada. Quais são as suas posses?”

            O meu avô tentou parar-me. Eu apontei para a minha avó e então falei para ele, “Lembre-se, eu pedi permissão da Nani e agora ninguém pode impedir-me, nem mesmo você. Eu falei com ela sobre você porque fiquei preocupado que se eu interrompesse o seu guru e sua bobagem, seu suposto sermão, você ficaria bravo comigo. Ela disse, “Apenas aponte para mim, isso é tudo. Não se preocupe: apenas um olhar meu e ele ficará em silêncio.” E estranho… é verdade! Ele ficou em silêncio, sem nem mesmo o olhar da minha Nani.     

            Posteriormente eu e minha Nani rimos juntos. Eu disse para ela, “Ele nem olhou para você.”

            Ela disse, “Ele não poderia, porque ele deve ter ficado com medo que eu dissesse ‘Cale-se! Não interfira na criança.’ Então ele evitou-me. A única forma de evitar-me era não interferir em você.”

            De fato, ele fechou os seus olhos como se meditasse. Eu disse para ele, “Nana, ótimo! Você está bravo, fervendo, existe um fogo dentro de você, entretanto você se senta com os olhos fechados como se estivesse meditando. O seu guru está bravo porque as minhas questões estão perturbando-o. Você está bravo porque o seu guru não é capaz de responder. Mas eu digo, esse homem que está dando o sermão aqui é apenas um imbecil.”! E eu não tinha mais do que quatro ou cinco anos.

            A partir daquele momento aquela permaneceu a minha linguagem. Eu imediatamente reconheço o idiota, não importa onde ele esteja, não importa quem ele seja. Ninguém pode escapar dos meus olhos de raios X. Eu posso imediatamente ver qualquer retardamento, ou qualquer outra coisa.

            Outro dia eu estava dando para um dos meus sannyasins a caneta que escrevi o seu nome, apenas para que ele lembrasse que aquela era a caneta que eu tinha utilizado no início de sua nova vida, o seu sannyas. Mas a sua esposa estava lá. Eu até convidei a sua esposa para tornar-se uma sannyasin. Ela queria, e não queria – vocês sabem como as mulheres são: desse modo e daquele modo; vocês nunca sabem exatamente. Mesmo quando elas mostram a sua mão direita para fora do carro, vocês nunca sabem se elas realmente vão virar à direita. Elas podem estar sentindo o vento ou ninguém sabe – elas podem estar fazendo qualquer coisa.

            Aquela mulher era aleatória, aguada… uma mulher perfeita até certo ponto. Ela queria dizer sim e, entretanto, ela não pôde dizê-lo. Ela queria dizer não e, entretanto, não pôde dizê-lo – esse tipo de mulher. E lembre-se que isso é noventa e nove vírgula nove por cento de todas as mulheres da Terra; apenas zero vírgula um por cento é deixado de fora. Caso contrário aquela mulher é muito representativa.

            Ainda assim eu tentei seduzi-la – em sannyas, quero dizer! Eu joguei o meu jogo um pouco, e ela estava chegando muito próximo de dizer sim quando parei. Eu também não sou tão simples quanto pode parecer externamente. Não quero dizer que sou complexo, quero dizer que posso ver as coisas tão claramente que às vezes tenho que retirar a minha simplicidade e o seu convite.

            Quando ela estava quase para dizer sim, ela agarrou a mão do seu marido, que era agora um sannyasin. Eu olhei para ele e pude ver que ele queria abandonar essa mulher. Ela o torturou o suficiente. De fato, ele estava esperando que ao tornar-se um sannyasin essa mulher teria misericórdia e o deixaria por sua própria vontade. Eu pude ver a sua perplexidade quando tentei persuadir a sua esposa a tornar-se uma sannyasin. Em seu coração ele estava dizendo, “Meu Deus. Se ela tornar-se uma sannyasin então até mesmo em Rajneeshpuram eu não poderei ficar tranquilo.”

            Ele quer tornar-se parte dessa comuna. Ele é um homem rico e detém um negócio multi-milionário e quer doar tudo para a comuna. Ele estava com medo… eu pude ver completamente esse sannyasin e sua esposa.

            Não havia ponte entre eles e nunca houve. Eles eram apenas um casal Inglês, vocês sabem… Deus sabe porque eles casaram-se – e Deus não existe. Eu repito muitas vezes porque sempre sinto que vocês podem pensar que Deus realmente sabe! Deus não sabe porque ele não existe.

            Deus é uma palavra como ‘Jesus’. Ela não significa nada, é apenas uma exclamação. É assim que a história segue, dizendo como Jesus ganhou o seu nome…

            José e Maria estão trazendo as suas crianças para casa de Belém. Maria está sentada na mula com a criança. José está andando à frente segurando a corda, guiando a mula. De repente ele tropeça, batendo os dedos do pé em uma pedra. “Jesus!” ele gritou. E vocês sabem como as mulheres são…

            Maria disse, “José! Eu estava pensando que nome dar para a nossa nova criança, e justamente agora você pronunciou o nome certo – Jesus!”

            Foi assim que a pobre criança ganhou o seu nome. Não é uma coincidência que quando você bate a sua mão com um martelo por engano você exclama, “Jesus!” Não pense que você está lembrando de Jesus; lembre-se apenas do pobre José batendo os seus dedos na pedra.

            Quando eu parar de respirar Devaraj saberá o que fazer. Embora ele seja um Judeu parcial… mas ainda assim ele é um homem que vocês podem confiar. Eu sei que ele não acredita que é parcialmente Judeu. Ele pensa que uma parte da sua família pode ter sido Judia, mas ele não é! É assim que os Judeus são, mesmo os parcialmente Judeus. Ele parece ser perfeito. Um Judeu sempre é um perfeito Judeu, para dizer a verdade. Apenas uma única gota de Judaísmo em você é suficiente para torná-lo um Judeu perfeito.

            Mas eu amo e confio nos Judeus. Apenas olhem para essa Arca de Noé: dois terços são Judeus. Eu sou um Judeu perfeito sem qualquer hesitação. Devageet não é um Judeu perfeito, apenas um Judeu. Devaraj é parcialmente Judeu, fazendo todos os esforços para esconder isso – mas isso o torna ainda mais Judeu. Você não pode esconder o seu Judaísmo. Onde você vai esconder o seu nariz? Esta é a única coisa que permanece descoberta em todo o corpo. Vocês podem esconder tudo exceto o nariz, porque vocês terão que respirar.

            Eu estava dizendo que Jesus, até Jesus, não é um nome, mas apenas uma exclamação de José quando ele bateu os seus dedos em uma pedra. Da mesma forma Deus. Quando alguém diz, “Meu Deus!” isso não significa que essa pessoa acredita em Deus. Ela está simplesmente reclamando, se houver alguém no céu para ouvir. Quando ela diz “Deus!” ela simplesmente quer dizer o que está escrito em muitos documentos governamentais – “A Quem Possa Interessar.” “Meu Deus!” simplesmente significa “A quem possa interessar,” ou, se não houver ninguém, então “Desculpe, não tem a ver com ninguém. É apenas uma exclamação e não pude contê-la.”

            Que horas são?… porque estou meia hora atrasado e não quero atrasar vocês também. De vez em quando também posso ser legal. Apenas para lembrá-los… Você está no seu melhor agora. Muito bom. Mesmo quando é muito bom eu sei como dizer “Chega”…

            Isso é tremendamente belo…

            Tão belo.

            Pare.

Publicado por rafaelxa

Simply meditate, dance, read, sing, stay quiet, waiting. Do a ritual in each opportunity. Connect yourself with the source. It's not difficult. Be really happy. You could dodge the ignorance. You could grasp wisdom in any book, tree or face. It's up to you. Be aware, be awake!

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