Livros que Amei, OSHO, Capítulos 9-16

CAPÍTULO 9

1984 na Casa Lao Tsé, Rajneeshpuram, Oregon, USA

 

Agora é o meu momento. Não acho que alguém já falou em uma cadeira de dentista. Sinto-me privilegiado. Vejo que os budas invejam-me.

O PS. continua…

O primeiro livro hoje: O Destino da Mente de Haas. Não sei como seu nome é pronunciado: h-a-a-s – eu o pronuncio Haas. O livro não é muito conhecido pela simples razão que ele é muito profundo. Acho que esse sujeito Haas deve ser Alemão; mesmo assim ele criou um livro de imensa significância. Ele não é um poeta, ele escreve como um matemático. Ele foi o homem que me deu a palavra filosia.

Filosofia quer dizer ‘amor à sabedoria’; philo é amor e sophia é sabedoria, mas não pode ser aplicada a darshan, a forma Oriental de olhar para o todo. A filosofia é ríspida.

Em seu livro O Destino da Mente, Haas utiliza para darshan não a palavra filosofia, mas filosia. Philo ainda quer dizer amor, mas osia significa verdade, o real, o supremamente real – não amor por conhecimento ou sabedoria, mas amor pela verdade, palatável ou impalatável, não importa.

Este é um daqueles livros que aproximou o Oriente e o Ocidente – mas apenas aproximou, os livros não podem fazer mais nada. Para o encontro ocorrer um ser humano é necessário, não um livro, e Haas supriu à demanda. O seu livro é belo, mas ele próprio é apenas ordinário. Para um encontro real um Buda, um Bodidarma, um Jesus, um Maomé ou um Baal Shem são necessários. Em suma, a meditação é necessária e não acho que esse homem Haas alguma vez meditou. Ele pode ter concentrado – os alemães sabem muito de concentração, campos de concentração… ótimo! Eu tenho mantido campos de meditação e eles têm mantido campos de concentração! A concentração é alemã, a meditação não. Sim, vez por outra até mesmo na Alemanha um meditador acontece, mas essa não é a regra, apenas a exceção, e a exceção sempre prova à regra. Eu conheço Eckhart, Boehme…

O meu segundo nome de hoje é Eckhart. Eu amaria se ele tivesse nascido no Oriente. Nascer entre alemães e então escrever ou falar sobre o supremo é uma tarefa difícil. Mas o pobre homem o fez, e o fez perfeitamente. Alemães são alemães; quaisquer coisas que fizerem as fazem perfeitamente. Ainda hoje parece que um sannyasin alemão continua a bater. Perfeição! Ouvindo às suas batidas, quão belas elas soam no meio de todo esse silêncio.

Eckhart era iletrado. É estranho o fato de muitos místicos serem iletrados. Deve haver algo errado com a educação. Por que não existem muitos místicos educados? A educação deve estar destruindo algo, e isso previne as pessoas de tornarem-se místicas. Sim, a educação destrói. Vinte e cinco anos continuamente, do jardim da infância aos cursos de pós-graduação na universidade, ela segue destruindo qualquer coisa que seja bela e estética. O lótus é esmagado pela educação, a rosa é assassinada pelos seus supostos professores, vice-reitores, reitores. Que belos nomes eles escolheram para si próprios.

A educação real ainda não começou. Ela tem que começar. Será a educação do coração, não da cabeça; do feminino em você, não do masculino.

É surpreendente que Eckhart, entre os alemães, a raça mais chauvinista masculina do mundo, tenha permanecido em seu coração e falado a partir dele. Iletrado, pobre, sem nenhum status político, sem nenhum status econômico, nenhum status – apenas um mendigo, mas tão rico. Pouquíssimas pessoas foram tão ricas. Rico em seu ser – seu SER.

Escreva SER com letras maiúsculas.

Essas duas palavras, ser e tornar-se, devem ser entendidas. Tornar-se é um processo sem começo nem fim, um contínuo. Mas ser não é um processo de maneira alguma, ele simplesmente é. Chame-o talidade e você estará muito próximo dele.

Ser não é nem do tempo nem do espaço, é uma transcendência. Transcendência – novamente, escreva TRANSCENDÊNCIA com letras maiúsculas. Quem dera você pudesse escrevê-la com letras douradas. É uma palavra que deve ser escrita a ouro, puro ouro – nem dezoito nem vinte e quatro quilates, cem por cento ouro.

Eckhart diz apenas algumas poucas coisas, mas até mesmo isso foi suficiente para irritar o feio sacerdócio, o papa e os demônios que o cercam. Eles imediatamente proibiram Eckhart. Eles falaram para ele o que dizer e o que não dizer. É necessário um louco como eu para não ouvir a esses tolos. Mas Eckhart era um homem simples; ele ouviu, ouviu a autoridade. Um Alemão é, sobretudo, um Alemão. Quando você diz “Vire à esquerda” ele vira à esquerda; quando você diz “Vire à direita” ele vira à direita.

Eu fui expulso do treinamento do exército na universidade porque quando eles diziam “Vire à direita” eu apenas pensava. Todo mundo imediatamente virava, exceto eu. O oficial ficou intrigado. Ele disse, “Qual o seu problema? Você não ouve? Algo está errado com seus ouvidos?”

Eu disse, “Não, algo está errado comigo. Não vejo sentido. Por que eu deveria virar à direita ou à esquerda? Não há necessidade, nenhuma razão. E esses pobres tolos que viraram à direita e então à esquerda vão voltar para a mesma posição que já estou.”

Naturalmente fui expulso – e fiquei imensamente feliz. Todo mundo pensou ser má sorte, eu pensei ser boa sorte. As pessoas sussurravam que algo deveria estar errado comigo: “Ele foi expulso e entretanto está desfrutando…” Dei uma festa com vinho e tudo.

Echkart ouviu. Um Alemão não pode ser realmente iluminado, seria muito difícil. Vimalkirti pode ser o primeiro Alemão a tornar-se iluminado. Mas Eckhart estava muito perto; apenas mais um passo e o mundo acabaria… e a abertura, a abertura das portas, a abertura para o além. Mas ele disse – mesmo ele sendo Alemão e mesmo sob pressão do papa – ele disse coisas bonitas. Somente um pouco de verdade entrou em seus dizeres, por isso o incluo.

Terceiro, outro alemão: Boehme. Não sei como pronunciar o seu nome, mas quem se importa! Escreve-se assim: B-o-e-h-m-e. Os alemães devem pronunciá-lo diferentemente, disso estou certo. Mas não sou Alemão. Eu não tenho que me comprometer com ninguém de forma alguma. Eu sempre o chamei “Boomay.” Mesmo se ele vier até mim e dizer, “Isso não é exatamente o meu nome,” eu direi, “Sai fora! Para mim esse é o seu nome, e esse será o seu nome, Boomay.”

Estranhamente, sempre que Arpita vem até o meu quarto eu sinto cheiro de Boehme, repentinamente lembro de Boehme. Talvez seja apenas uma associação, porque ele era um sapateiro e Arpita é minha sapateira. Mas Arpita, você é abençoada por fazer-me lembrar de Boehme, um dos mais belos alemães de todos os tempos. Novamente, ele era totalmente pobre. Parece que é necessário ser pobre para ser sábio; isso sempre ocorreu até agora. Mas não depois de mim. Depois de mim você terá que ser rico para ser iluminado.

Jesus diz que os ricos não entrarão em seu reino de Deus. Ele estava falando da maneira antiga. Eu digo enfaticamente que apenas os mais ricos entrarão no reino de Deus. E lembre-se, o que estou falando é o mesmo que Jesus estava falando, não é contraditório. O ‘pobre’ na terminologia de Jesus e o ‘rico’ na minha terminologia significa exatamente o mesmo. Ele chama de pobre o ser humano que perdeu a si mesmo, seu ego, e esse é o ser humano que chamo de rico. Quanto mais sem ego você é, mais rico você é. Mas no passado muito raramente um homem como Boehme nascia em uma família rica, particularmente no Ocidente.

Não é assim no Oriente. Buda era um príncipe, Mahavira era um príncipe; os vinte e quatro tirthankaras dos Jainas eram todos reis. Krishna era rei. Rama era rei. Todos eram ricos, imensamente ricos. Isso significa algo; significa a riqueza que estou falando. Um ser humano é rico quando o seu ego é perdido. Quando ele não existe mais, ele existe.

Boehme diz poucas coisas, pouquíssimas. Ele não podia falar muitas coisas, então não tenha medo. A única coisa que eu gostaria de mencionar é: O coração é o templo de Deus. Sim, Boehme, é o coração não a cabeça.

Quarto: Um homem, Idries Shah. Não mencionarei nenhum dos seus livros porque todos são belos. Recomendo todos os livros desse homem.

Não tenha medo, ainda sou insano. Nada pode tornar-me são. Mas um livro de Idries Shah sobressai em relação a todos os outros. Todos são belos, eu gostaria de mencioná-los todos, mas o livro Os Sufis é um diamante puro. O valor do que ele fez em Os Sufis é imensurável.

Não interrompa, isso está lindo.

Falar, para mim, é tão fácil. Posso falar até mesmo dormindo, e muito racionalmente também. Bom. Sempre que reconheço algo como Os Sufis eu sempre aprecio. E ele é belo – isso vocês entenderão se puderem entender o livro Os Sufis de Idries Shah. Ele é o homem que introduziu Mulla Nasruddin ao Ocidente, e ele fez um serviço incrível. Ele não pode ser reembolsado. O Ocidente permanecerá grato a ele para sempre. Idries Shah tornou as pequenas anedotas de Nasruddin ainda mais belas. Esse homem não tem apenas a capacidade de traduzir exatamente as parábolas, mas até mesmo de embelezá-las, para torná-las mais pungentes, mais afiadas. Eu incluo todos os seus livros.

O meu número está certo?

“Sim, Osho.”

Quinto, incluirei outro homem, Alan Watts, com todos os seus livros. Eu amei esse homem imensamente. Eu amei Buda por diferentes razões; eu amei Salomão por uma razão diferente. Eles são iluminados, Alan Watts não é. Ele é americano… não nascido americano, essa é a sua única esperança; ele apenas emigrou para lá. Mas ele escreveu livros tremendamente valiosos. O Caminho Zen deve ser contado como um dos mais importantes; É Isso é uma tremenda obra de beleza e entendimento – e de um homem que ainda não é iluminado; por isso é mais apreciável.

Quando você é iluminado, qualquer coisa que você diz é bela; ela deve ser. Mas quando você não é iluminado e tateia no escuro e mesmo assim encontra uma pequena janela de luz, isso é formidável, fantástico. Alan Watts era um bêbado, mas ainda assim ele estava muito próximo.

Ele foi certa vez um padre Cristão ordenado – que azar! – mas renunciou. Pouquíssimas pessoas têm a coragem de renunciar ao sacerdócio, porque ele provê tantas coisas do mundo. Ele renunciou a tudo e tornou-se quase um hobo. Mas que hobo! – relembrando Bodidarma, Basho ou Rinzai. Alan Watts não pode permanecer muito tempo sem tornar-se um buda. Ele morreu há muito; nessas alturas ele está deixando a escola… deve estar pronto para vir a mim! Estou esperando por todas essas pessoas. Alan Watts é uma delas – estou esperando-o.

Sexto… Agora há pouco, incidentalmente, mencionei o nome Rinzai. O seu Provérbios é o meu sexto, a coleção dos seus ditados. O meu número está correto?

“Sim, Osho.”

Isso é bom. Você sussurrou algo para Ashu, então me perguntei. Desculpe-me por interrompê-lo. Você está muito concentrado em suas notas.

Rinzai… o seu nome Chinês é Lin Chi; em Japonês é Rinzai. Eu escolhi o Japonês, Rinzai. Rinzai parece mais belo, mais estético.

Os Provérbios de Rinzai são dinamite pura. Por exemplo ele diz: Vocês tolos, vocês seguidores de Buda, renunciem a ele! A menos que renunciem a ele vocês não o encontrarão. Rinzai amava Buda, por isso dizia isso. Ele também disse: Antes de você usar o nome Gautama o Buda, lembre-se que este nome não é a realidade. O buda fora da pagoda não é o buda real. Ele está dentro de você… e você está completamente inconsciente, você nunca ouviu falar dele. Este é o buda real. Abandone o buda externo para que você possa alcançar o interno. Rinzai diz: Não há doutrina, nenhum ensinamento, nenhum Buda. E lembre-se, ele não era um inimigo de Buda, mas um seguidor, um discípulo.

Foi Rinzai que levou a flor do Zen da China para o Japão. Ele transmitiu o espírito do Zen para a língua Japonesa, e não apenas para a língua, mas para a própria cultura, o arranjo das flores, a cerâmica, a jardinagem etc. Um homem, um único homem, transformou toda a vida de uma nação.

Sétimo: O sétimo não é um homem iluminado como Rinzai, mas muito próximo. Hazrat Inayat Khan, o homem que introduziu o Sufismo no Ocidente. Ele não escreveu um livro, mas todas as suas palestras foram coletadas em doze volumes. Aqui e ali elas são belas. Desculpe-me, não posso dizer que todas elas são belas, mas aqui e ali, às vezes, particularmente quando ele está falando sobre uma história Sufi, elas são belas.

Ele também era um músico; nisso ele era realmente um maestro. Ele não era um mestre no mundo espiritual, mas no mundo da música ele certamente o foi. Mas às vezes ele voava ao espiritual, elevava-se para além das nuvens… para cair novamente com um baque, é claro. Ele deve ter sofrido de… Devaraj, como você o chama? Multi-fraturas? Múltiplas fraturas, talvez essa seja a palavra correta.

Oitavo: O filho de Hazrat Inayat Khan. O seu nome é bem conhecido entre os buscadores do Oriente: Hazrat Vilayat Ali Khan. Ele é um belo homem. Ele ainda vive. O pai está morto, Vilayat está vivo, e quando digo vivo realmente quero dizer vivo – não apenas respirando… respirando é óbvio, mas não apenas respirando. Todos os seus livros são incluídos aqui. Vilayat Ali Khan também é um músico, assim como seu pai, de uma qualidade superior, de uma profundidade maior. Ele é mais profundo… e – ouça a essa pausa – mais silencioso também.

Nono: Novamente quero incluir outro livro de Khalil Gibran, Jesus, O Filho do Homem. É um daqueles livros que é quase ignorado. Os Cristãos o ignoram porque chama Jesus de filho do homem. Eles não apenas o ignoram, eles o condenam. E, é claro, quem mais se preocupa com Jesus? Se os Cristãos eles próprios estão condenando o livro, então ninguém mais se preocupa com ele.

Khalil Gibran é um Sírio de um local muito próximo a Jerusalém. De fato, nas colinas da Síria as pessoas – umas poucas pessoas pelo menos – ainda falam Aramaico, a linguagem de Jesus. Entre aqueles cedros gigantes, qualquer um, mesmo um tolo, necessariamente ficará admirado, mistificado. Khalil Gibran nasceu na Síria, debaixo dos cedros que tocam às estrelas. Ele chegou muito próximo de representar o homem real Jesus – mais próximo do que os quatro supostos discípulos que escreveram os evangelhos. Eles são mais fofocas do que evangelhos [NT. trocadilho gossips/gospels]. Khalil Gibran está mais próximo, mas os Cristãos ficaram bravos porque ele chama Jesus de filho do homem. Eu amo o livro.

O livro relaciona as histórias de diferentes pessoas sobre Jesus: um operário, um agricultor, um pescador, um cobrador de impostos – sim, até mesmo um cobrador de impostos – um homem, uma mulher, todas as possibilidades. É como se Khalil Gibran perguntasse para várias pessoas sobre Jesus – o Jesus real, não o Jesus Cristão; o Jesus real, feito de carne… e as estórias são tão belas. Cada estória precisa ser meditada. Jesus, o Filho do Homem é a minha nona seleção de hoje.

Décimo: Outro livro de Khalil Gibran, O Louco. Não posso deixá-lo de fora, embora confesso que gostaria.  Eu gostaria de deixá-lo fora porque eu sou aquele louco que ele está falando. Mas não posso deixá-lo de fora. Ele fala tão significativamente, tão autenticamente sobre o núcleo mais profundo do louco. E esse louco não é um louco ordinário, mas um Buda, um Rinzai, um Kabir. Eu me pergunto – sempre me perguntei – como Khalil Gibran conseguiu. Ele próprio não era um louco, ele próprio não era iluminado. Ele nasceu na Síria, mas infelizmente viveu na América.

Mas há surpresas e surpresas, questões sem respostas. Como ele conseguiu? Talvez ele próprio não tenha conseguido… talvez algo, alguém – o que os Sufis chamam de Khidr, e os Teosofistas chamam K.H., Koothumi – deve ter tomado posse dele. Ele estava possuído, mas nem sempre. Quando não estava escrevendo ele era um homem muito ordinário, de fato mais ordinário do que os supostos homens ordinários: cheio de inveja, raiva, paixões de todos os tipos. Mas de vez em quando ele ficava possuído, possuído do além, e então algo começava a verter dele… pinturas, poesias, parábolas.

CAPÍTULO 10

1984 na Casa Lao Tsé, Rajneeshpuram, Oregon, USA

 

Certo, quantos livros eu comentei no pós-escrito – quarenta?

“Trinta, eu acho, Osho.”

Trinta? Bom. É um alívio porque muitos livros ainda estão esperando. Vocês podem entender o meu alívio apenas se tivessem que escolher um livro a cada mil, e isso é exatamente o que estou fazendo. O pós-escrito continua.

O primeiro livro, o Ser e o Nada de Jean-Paul Sartre. Primeiro devo mencionar que não gosto do homem. Não gosto dele porque ele é um esnobe. Ele é uma das pessoas mais esnobes desse século. Eu o chamo de esnobe porque ele tornou-se o líder do Existencialismo sem saber nada o que significa ser existencial. Mas o livro é bom – não para os meus discípulos, mas para aqueles que ficaram um pouco loucos, apenas um pouco. O livro é ilegível.

Se você estiver um pouco louco ele lhe trará aos seus sentidos. É uma grande obra nesse sentido – medicinal. Devaraj, note: medicinal. Ele deve ser prescrito em todos os hospícios. Todo louco deve ser forçado a lê-lo, estudá-lo. Se ele não puder trazer-lhe à sanidade, nada pode. Mas apenas para a loucura de primeiro grau, como os filósofos, professores, matemáticos, cientistas – mas apenas o primeiro grau, não aqueles muito avançados na loucura.

O existencialismo que Jean-Paul Sartre representa é ridículo. Sem saber nada de meditação ele fala sobre ‘ser’, e ele fala sobre ‘nada’. Ai de mim, eles não são dois: ser é não-coisidade; é por isso que Buda chamou o ser de anatta – não-eu. Gautama o Buda é o único homem na história a chamar o eu ‘não-eu’. Eu amo Buda por mil e uma razões; essa é apenas uma das razões. As milhares eu não posso contá-las por causa da falta de tempo. Talvez um dia eu comece a falar dessas mil razões também…

Mas Jean-Paul Sartre eu não gosto – apenas não gosto, nem mesmo odeio, porque ódio é uma palavra forte; eu a guardo para o segundo livro. Jean-Paul Sartre não sabe nada da existência, mas ele criou um jargão, um jargão filosófico, ginástica intelectual. E é realmente ginástica. Se você ler dez páginas do Ser e o Nada, ou vocês vão ficar sãos ou insanos. Mas ler dez páginas é uma tarefa difícil. Quando eu era professor a passava para os meus estudantes, mas ninguém nunca a completou. Ninguém podia ler nem dez páginas – uma página era demais; de fato um parágrafo é demais. Não há pé nem cabeça. E são mil páginas ou mais. É um livro grande.

Eu o relembro no pós-escrito pois embora eu não goste do homem, eu posso desgostar da sua filosofia… sim, vou chamá-la filosofia, apesar de ele querer que ela fosse chamada de anti-filosofia. Eu não posso chamá-la de anti-filosofia pela simples razão que toda anti-filosofia, no limite, prova-se ser apenas outra filosofia. A existência não é nem filosófica nem anti-filosófica. Ela é.

Eu incluo o livro porque ele fez uma tarefa tremenda. É um dos livros mais monumentais já escritos, com tanta habilidade, tamanha lógica. E, entretanto, o homem era apenas ordinário, um comunista – esta é outra razão para eu desgostar dele. Um homem que conhece a existência não pode ser comunista, porque ele saberá que a igualdade é impossível. As coisas são desiguais. Nada é igual e nada nunca poderá ser igual. A igualdade é apenas um sonho, um sonho de pessoas estúpidas. A existência é uma desigualdade multidimensional.

Segundo: Eu esperarei… a tinta de Devageet acabou. Que caneta tinteiro você tem! Meu Deus, ela deve ter pertencido a Adão e Eva! Que barulho ela faz! Mas ninguém pode esperar mais nada nessa Arca de Noé.

O segundo – porque o barulho parou – o segundo é o Ser e Tempo de Martin Heidegger. Eu odeio este homem. Ele não era apenas um comunista, mas um fascista também, um seguidor de Adolf Hitler. Não posso acreditar no que os Alemães podem fazer! Ele era um homem tão talentoso, um gênio, e, entretanto, um apoiador daquele imbecil retardado Adolf Hitler. Fico simplesmente espantado. Mas o livro é bom – novamente, não para os meus discípulos, mas para aqueles que estão muito avançados em sua loucura. Se você estiver realmente avançado na loucura, leia o Ser e Tempo. Ele é absolutamente não-entendível. Ele vai acertar você como um martelo na cabeça. Mas há alguns belos vislumbres nele. Sim, quando alguém bate em você na cabeça com um martelo, mesmo durante o dia você começa a ver estrelas. Esse livro é exatamente assim: há algumas poucas estrelas nele.

O livro não está completo. Martin Heidegger prometeu escrever uma segunda parte. Ele continuou prometendo ao longo de toda a sua vida, mas ele nunca produziu a segunda parte, obrigado Deus! Acho que ele próprio não podia entender o que tinha escrito, então por que continuá-lo? Como produzir a segunda parte? E a segunda parte seria a culminação da sua filosofia. Foi melhor não a produzir e não se tornar motivo de riso. Ele morreu sem produzir a segunda parte. Mas a primeira parte é boa para pessoas avançadas na insanidade – e existem muitas; é por isso que estou falando desses livros e incluindo-os na minha lista.

Terceiro: Esse é para os reais especialistas na loucura, que foram além de toda psiquiatria, psicanálise, que não podem ser ajudados. Esse terceiro livro é novamente a obra de um alemão, Ludwig Wittgenstein. Apenas ouça o seu título: Tractatus Logico Philosophicus. Chamemo-lo apenas de Tractatus. É um dos livros mais difíceis que existem. Mesmo um homem como G.E. Moore, um grande filósofo inglês, e Bertrand Russell, outro grande filósofo – não apenas inglês, mas um filósofo do mundo todo – ambos concordaram que esse homem Wittgenstein era muito superior a eles.

Ludwig Wittgenstein era um homem realmente amável. Não o odeio, mas não o desgosto. Eu gosto dele e o amo, mas não de seu livro. O seu livro é apenas ginástica. Apenas de vez em quando, depois de páginas e páginas você cruza com uma sentença que é luminosa. Por exemplo: Aquilo que não deve ser falado não deve ser falado; é preciso ficar em silêncio sobre isso. Ora, essa é uma declaração bela. Até mesmo os santos, místicos, poetas podem aprender muito dessa sentença. Aquilo que não pode ser falado não deve ser falado.

Wittgenstein escreve de uma maneira matemática, pequenas sentenças, nem mesmo parágrafos – sutras. Mas para os seres humanos muito avançados na insanidade esse livro pode ser de imensa ajuda. Ele pode golpeá-los exatamente na alma, não apenas na cabeça. Assim como um prego ele pode penetrar em seus próprios seres. Isso pode acordá-los dos seus pesadelos.

Ludwig Wittgenstein foi um homem amável. Foi-lhe oferecido uma das cadeiras mais estimadas de filosofia em Oxford. Ele recusou. É isso o que eu amo nele. Ele foi tornar-se um lavrador e pescador. Isso é amável no homem. Isso é mais existencial que Jean-Paul Sartre, embora Wittgenstein nunca tenha falado de existencialismo. O existencialismo, a propósito, não pode ser falado; você tem que vivê-lo, não há outro caminho.

Esse livro foi escrito quando Wittgenstein estava estudando com G.E. Moore e Bertrand Russell. Dois grandes filósofos da Inglaterra, e um alemão… foi o suficiente para criar o Tractatus Logico Philosophicus. Traduzido ele significa Wittgenstein, Moore e Russell. Em relação a mim, eu gostaria mais de ver Wittgenstein sentado aos pés de Gurdjieff do que estudando com Moore e Russell. Ali seria o lugar certo para ele, mas ele deixou escapar. Talvez na próxima vez, quero dizer, na próxima vida… para ele, não para mim. Para mim essa é suficiente, essa é a última. Mas para ele, pelo menos uma vez ele precisará estar na companhia de um homem como Gurdjieff ou Chuang Tzu, Bodidarma – mas não Moore, Russel, não Whitehead. Ele associou-se com essas pessoas, as pessoas erradas. Um homem certo na companhia das pessoas erradas, foi isso que o destruiu.

A minha experiência é, na companhia certa até uma pessoa errada torna-se certa, e vice-versa: na companhia errada, mesmo uma pessoa certa torna-se errada. Mas isso somente aplica-se para um ser humano não-iluminado, certo ou errado, ou ambos. Uma pessoa iluminada não pode ser influenciada. Ela pode associar-se com qualquer um – Jesus com Madalena, uma prostituta; Buda com um assassino, um assassino que matou novecentas e noventa e nove pessoas. Ele tinha jurado matar mil pessoas e ele mataria Buda também; foi assim que ele encontrou Buda.

O nome do assassino não é conhecido. O nome que as pessoas deram a ele foi Angulimala, que significa ‘o homem que veste uma guirlanda de dedos’. Era assim que ele fazia. Ele matava um homem, cortava seus dedos e colocava-os em uma guirlanda, apenas para não perder a contagem do número de pessoas que havia matado. Apenas dez dedos faltavam para completar mil; em outras palavras apenas mais um homem… Então Buda apareceu. Ele estava apenas se movendo por aquela rua de uma vila para a outra. Angulimala gritou, “Pare!”

Buda disse, “Ótimo. É isso o que tenho falado para as pessoas: Pare! Mas, meu amigo, quem ouve?”

Angulimala olhou assustado: Esse homem está insano? E Buda continuou andando na direção de Angulimala. Angulimala novamente gritou, “Pare! Parece que você não sabe que sou um assassino e jurei matar mil pessoas. Até mesmo a minha mãe deixou de ver-me, porque falta apenas uma pessoa… eu vou matar-te… mas você parece tão belo que se você parar e voltar eu não vou te matar.”

Buda disse, “Esqueça isso. Eu nunca voltei em minha vida, e, no que diz respeito ao parar, eu parei há quarenta anos atrás; desde então não sobrou ninguém para mover-se. E, no que diz respeito a matar-me, você pode fazê-lo de qualquer maneira. Tudo o que nasce morrerá.”

Angulimala viu o homem, caiu aos seus pés e foi transformado. Angulimala não podia mudar Buda, Buda mudou Angulimala. Madalena a prostituta não podia mudar Jesus, mas Jesus mudou a mulher.

Então o que digo é aplicável somente a assim chamada humanidade ordinária, não é aplicável àqueles que estão despertos. Wittgenstein pode tornar-se iluminado; ele poderia ter-se tornado iluminado até mesmo nessa vida. Infelizmente ele associou-se com a companhia errada. Mas o seu livro pode ser de grande ajuda para aqueles que estão realmente no terceiro grau da insanidade. Se eles puderem compreender qualquer coisa do livro eles voltarão à sanidade.

Quarto: Antes de eu declarar o nome do quarto, sinto-me tremendamente agradecido à existência… Agora vou falar sobre um homem que estava além dos número, Vimalkirti. O nome do seu livro é Nirdesh Sutra. O nosso Vimalkirti não é o único Vimalkirti; de fato, eu lhe dei esse nome por causa desse Vimalkirti que vou falar para vocês. As suas declarações são chamadas Vimalkirti Nirdesh Sutra. Nirdesh Sutra significa ‘diretrizes’.

Vimalkirti foi um dos homens mais maravilhosos; até mesmo um Buda pode ter ciúmes desse homem. Ele foi um discípulo de Buda, mas nunca se tornou um discípulo formalmente, ele nunca foi iniciado por Buda externamente. E ele era um homem tão terrível que todos os discípulos de Buda tinham medo dele. Eles nunca quiseram que Vimalkirti se tornasse um discípulo. Apenas vê-lo de passagem ou cumprimentá-lo era suficiente para que ele dissesse algo chocante. Chocar era o seu método. Gurdjieff o teria amado – ou, quem sabe, até mesmo Gurdjieff ficaria chocado. O homem era realmente terrível, um homem real.

Diz-se que ele estava doente e Buda pediu para Sariputta ir ver o velho homem e perguntá-lo sobre sua saúde. Sariputta disse, “Eu nunca disse não para você, mas dessa vez eu digo, e digo enfaticamente: Não! Não quero ir. Mande outra pessoa. Aquele homem é realmente terrível. Mesmo em seu leito de morte ele criará problemas para mim. Não quero ir.”

Buda pediu a todos e ninguém estava pronto para ir exceto um homem, Manjusri, o primeiro discípulo de Buda a tornar-se iluminado. Ele foi, é daí que surge esse livro. É um diálogo. Nosso Vimalkirti ganhou o nome por causa desse homem. O Vimalkirti original estava morrendo em sua cama e Manjusri estava fazendo-lhe questões, ou melhor, respondendo às suas questões. É assim que o Vimalkirti Nirdesh Sutra nasceu – uma obra realmente excelente.

Ninguém se preocupa com ele porque não é um livro de qualquer religião em particular. Não é nem mesmo um livro dos Budistas, porque ele nunca foi um discípulo formal de Buda. As pessoas respeitam tanto a forma que elas esquecem o espírito. Eu recomendo o livro para todos os buscadores reais. Eles encontrarão uma mina de diamantes.

Quinto, eu quero falar novamente de J. Krishnamurti para vocês. O nome do livro é Comentários sobre o Viver. Existem muitos volumes dele. Ele foi feito da mesma matéria que as estrelas foram feitas.

O Comentários sobre o Viver é seu diário. De vem em quando ele escrevia algo em seu diário… um belo pôr do sol, uma árvore antiga, ou mesmo a noite… os pássaros voltando para casa… qualquer coisa… um rio correndo para o oceano… qualquer coisa que sentia ele anotava, às vezes. É assim que esse livro nasceu. Ele não foi escrito sistematicamente, é um diário. Entretanto, lê-lo é o suficiente para transportá-lo para outro mundo – o mundo da beleza, ou, muito melhor, da beatitude. Vocês podem ver as minhas lágrimas?

Faz tempo que não o leio, mas somente mencionar esse livro é suficiente para trazer lágrimas aos meus olhos. Eu amo o livro. É um dos maiores livros já escritos. Eu disse anteriormente que Primeira e Última Liberdade de Krishnamurti era seu melhor livro, que ele não foi capaz de transcendê-lo – é óbvio que não com um livro, porque o Comentários é apenas um diário, não é um livro no sentido real, mas de qualquer forma eu o incluo.

Sexto… meu número está correto?

“Sim, Osho.”

Tão bom ouvir “Sim, Osho.” Apenas ouvir sim é tão bom, tão nutritivo, tão vitalizante. Não posso ser grato o suficiente por isso. E tenho milhares de sannyasins por todo o mundo cantando “Sim, Osho, sim!” Devo considerar-me o homem mais afortunado que já esteve na Terra, ou em qualquer outro planeta.

Sexto… o sexto livro é novamente chamado Comentários, uma obra imensa em cinco volumes de Maurice Nicoll. Lembre-se, eu sempre pronunciei o seu nome Morris Nickoal. Na noite passada perguntei para Gudia qual era a pronúncia real, exata, adequada – porque ele era Inglês. Ela disse, “Nickle”.

Eu disse, “Meu Deus! Toda a minha vida o chamei de Nickoal, por causa da grafia: N-i-c-o-l-l. Eu me pergunto como pode ser pronunciado Nickle. Nickoal parece ser a pronúncia correta. Mas certo ou errado, se Gudia o diz – ela é propriamente Inglesa – então tudo bem. Eu o chamarei Morris Nickle… e seu Comentários.

Nicoll era um discípulo de Gurdjieff e, ao contrário de Ouspensky, ele nunca traiu, ele não foi um Judas. Um verdadeiro discípulo até o último suspiro e além deste também. Os comentários de Nicoll são vastos – não acho que ninguém os lê – vários milhares de páginas. Mas se alguém se lançar ao trabalho, esta pessoa será imensamente beneficiada. Na minha opinião o Comentários de Nicoll deve ser considerado um dos melhores livros do mundo.

Sétimo: Novamente um livro de outro discípulo de Gurdjieff, Hartmann. O livro é Nossa Vida com Gurdjieff, Hartmann – eu não sei a pronúncia exata… porque posso ouvir uma pequena risadinha em algum lugar. Mas não se preocupe com a pronúncia. Hartmann e sua esposa eram ambos discípulos de Gurdjieff. Hartmann era um músico e tocava nas danças de Gurdjieff. Gurdjieff utilizava dança como meditações, não apenas para os discípulos, mas também para as pessoas que viam os discípulos dançando.

Em Nova Iorque, quando ele se apresentou pela primeira vez, Hartmann estava tocando piano, os discípulos dançavam e, no momento em que Gurdjieff gritava “Pare!” – era um exercício de parar. Não você Devageet, você continua escrevendo. Quando Gurdjieff gritava “Pare!” os dançarinos realmente paravam, no meio da dança! Eles estavam no limiar do palco. Todos caiam uns sobre os outros no chão, mas, ainda assim, ninguém se movia! A audiência ficava estupefata. A audiência não podia acreditar que as pessoas podiam ser tão obedientes. Hartmann escreveu o livro Nossa Vida com Gurdjieff e é uma bela descrição de um discípulo. Ele será útil para qualquer pessoa que esteja no caminho.

Qual é o número?

“O último foi o número sete, Osho.”

Bom, você está ouvindo.

Oitavo… você vê a minha forma de ensinar? E você vê que mesmo quando tento perturbar você é apenas para ensinar-te algo que você poderia não estar consciente? Mas um dia você sentir-se-á agradecido.

Sétimo… está certo?

“É o número oito, Osho.”

Tão bom ser corrigido por um discípulo, imensamente bom. Um mestre sempre sente-se abençoado se um discípulo o corrige. E é apenas uma questão de números. Quando tento corrigi-los vocês todos, pelo menos posso permitir que vocês tenham um pouco de prazer no que diz respeito aos números. Então, qual é o número agora?

“É o número oito, Osho.”

Bom. Às vezes quero rir… Oito? Bom.

O oitavo livro que vou falar foi escrito por Ramanuja, um místico Hindu. Ele é chamado Shree Pasha. É um comentário sobre o Brahman Sutras. Existem muitos comentários sobre o Brahman Sutras – eu já falei sobre o Brahman Sutras de Badrayana. A forma do comentário de Ramanuja sobre ele é única.

O livro original é muito seco, absolutamente desértico. É claro que o deserto também tem a sua beleza e a sua verdade, mas Ramanuja em seu Shree Pasha o torna um jardim, um oásis. Ele o deixa suculento. Eu amo o livro que Ramanuja escreveu. Não gosto de Ramanuja porque ele era um tradicionalista. Eu odeio profundamente os tradicionalistas, os ortodoxos. Eu os considero fanáticos – mas o que se pode fazer, o livro é belo; de vez em quando até mesmo um fanático pode fazer algo belo. Então perdoe-me por incluí-lo.

Nono. Eu sempre amei os livros de P.D. Ouspensky apesar de nunca ter amado o homem. Ele parecia um professor de escola, não um mestre, e você pode amar um professor de escola? Eu tentei enquanto estava na escola e falhei; no colégio, falhei; na universidade, falhei. Eu não conseguia; e não acho que alguém possa amar um professor de escola – particularmente se a professora for uma mulher; então é impossível! Há alguns tolos que até mesmo casam-se com mulheres que são professoras! Eles devem estar sofrendo de uma doença que os psicólogos chamam de ‘masoquismo’; eles devem estar procurando alguém para torturá-los.

Eu não gosto de Ouspensky. Ele era exatamente o professor de escola, até mesmo quando palestrava sobre os ensinamentos de Gurdjieff. Ele ficava na frente de um quadro negro, com um giz em suas mãos, com uma mesa e uma cadeira, exatamente como um professor de escola, com óculos e tudo, nada faltava. E a maneira que ele ensinava! – Posso ver porque tão poucas pessoas atraíram-se por ele, embora trouxesse uma mensagem dourada.

Segundo, o odeio porque ele foi um Judas. Não posso amar ninguém que trai. Trair é cometer suicídio, suicídio espiritual. Até mesmo Judas teve que cometer suicídio dentro de apenas vinte e quatro horas depois da crucificação de Jesus. Ouspensky não é um caso de amor, mas o que posso fazer? Ele era um escritor capaz, talentoso, um gênio. Esse livro que mencionarei foi uma publicação póstuma. Ele nunca quis que ele fosse publicado durante a sua vida. Talvez tivesse medo. Talvez ele pensou que o livro não provaria às suas expectativas.

É um livro pequeno e o seu nome é O Futuro da Psicologia do Homem. Ele escreveu em seu testamento que o livro deveria ser publicado apenas quando ele estivesse morto. Não gosto do homem, mas devo dizer, a despeito de mim, que nesse livro ele quase que predisse a mim e meus sannyasins. Ele predisse a psicologia futura, e é isso o que estou fazendo aqui – o ser humano futuro, o Novo Ser Humano. Esse pequeno livro deve ser um estudo necessário para todos os sannyasins.

Décimo… ainda estou certo?

“Sim, Osho.”

Bom.

O livro que falarei é Sufi. O Livro de Bahauddin. O místico Sufi original, Bahauddin, criou a tradição do Sufismo. Nesse pequeno livro tudo está contido. É como uma semente. Amor, meditação, vida, morte… ele não deixou absolutamente nada de fora. Medite sobre ele.

Por hoje é só.

CAPÍTULO 11

1984 na Casa Lao Tsé, Rajneeshpuram, Oregon, USA

Certo. Mencionei quantos livros no PS. até agora?

“Foram quarenta livros no PS., Osho.”

Bom. Sou um homem teimoso.

Primeiro, O Outsider, de Colin Wilson. É um dos livros mais influentes desse século – mas o homem é ordinário. Ele é um erudito de tremenda capacidade, e sim, existem algumas poucas percepções profundas aqui e ali – mas o livro é belo.

Em relação a Colin Wilson, ele próprio não era um ‘outsider’; ele era um homem mundano. Eu sou um outsider, por isso amo o livro. Eu o amo porque embora ele não faça parte da dimensão que ele fala, ele escreve muito, muito próximo da verdade. Mas lembre-se, mesmo se você está próximo da verdade você ainda é falso. Você é ou verdadeiro ou falso, não há nada entre um e outro.

O livro O Outsider representa um grande esforço da parte de Wilson em entender de fora o mundo de um outsider; de fora olhar para um outsider, como se alguém estivesse olhando pela fechadura da sua porta. Ele pôde ver um pouco – e Colin Wilson viu. Vale a pena ler o livro – apenas ler, não estudar. Leia-o e jogue-o na lixeira, porque a menos que um livro venha de um real outsider ele será um eco distante, muito distante… eco do eco, reflexão da reflexão.

O segundo, Os Analectos de Confúcio. Eu não gosto de Confúcio de maneira alguma, e não sinto qualquer culpa em não gostar dele. Sinto-me realmente aliviado que isso está registrado agora. Confúcio e Lao Tzé foram contemporâneos. Lao Tzé era um pouco mais velho; Confúcio foi ver Lao Tzé e voltou tremendo, profundamente abalado, perspirando. Os seus discípulos perguntaram, “O que aconteceu na caverna? …Porque só estavam vocês dois lá e ninguém mais.”

Confúcio disse, “Foi bom que ninguém testemunhou. Aquele homem, meu Deus, ele é um dragão! Ele poderia ter me matado, mas escapei. Ele é realmente perigoso.”

Confúcio reportou sinceramente. Um homem como Lao Tzé pode matar-te apenas para ressuscitar você; e, a não ser que alguém esteja pronto para morrer ele não poderá renascer. Confúcio escapou do seu próprio renascimento.

Eu já escolhi Lao Tzé e para sempre. Confúcio pertencia ao mundo muito ordinário, mundano. Mas deixe anotado que não gosto dele; ele era um esnobe. É estranho que ele não tenha nascido na Inglaterra. Mas, de qualquer forma, a China daqueles dias era a Inglaterra. Naqueles dias a Inglaterra era apenas bárbara, não havia nada de valor lá.

Confúcio era um político, sagaz, esperto, mas realmente não muito inteligente; caso contrário ele teria caído aos pés de Lao Tzé, ele não teria escapado. Ele não estava apenas com medo de Lao Tzé, ele teve medo do silêncio… porque Lao Tzé e o silêncio são os mesmos.

Mas eu quis incluir um dos mais famosos livros de Confúcio, apenas para ser justo. Os Analectos é o seu livro mais importante. Para mim é como as raízes de uma árvore, feias mais muito essenciais – o que vocês chamam

 de um mal necessário. Os Analectos é um mal necessário. Nele ele fala sobre o mundo e as questões mundanas, política e tudo. Um discípulo lhe perguntou, “Mestre, e o silêncio?”

Confúcio ficou irritado, perturbado. Ele gritou com o discípulo e falou, “Cale a boca! Silêncio? – o silêncio você o terá em seu túmulo. Na vida ele não é necessário, há muitas outras coisas mais importantes para fazer.”

Essa era a sua atitude. Vocês podem entender porque não gosto dele. Eu tenho dó dele. Ele era um homem bom. Infelizmente ele chegou tão perto de um dos maiores, Lao Tzé, e ainda assim deixou escapar! Posso apenas deixar cair uma lágrima por ele.

Terceiro: Khalil Gibran escreveu muitos livros em sua língua materna. Aqueles que ele escreveu em Inglês são bem conhecidos: os mais famosos, O Profeta e O Louco… e existem muitos outros. Mas ele escreveu muitos em sua língua materna, poucos deles estão traduzidos. É claro que traduções não podem ser iguais, mas Khalil Gibran é tão excelente que mesmo nas traduções você pode encontrar algo valioso. Eu farei referência a algumas traduções hoje. O terceiro é O Jardim do Profeta, de Khalil Gibran. É uma tradução, mas ela faz-me lembrar do grande Epicuro.

Não conheço ninguém exceto eu que chamou Epicuro de grande. Ele foi condenado ao longo das eras. Mas sei que quando as massas condenam um homem necessariamente deve ter algo de grande nele. O livro de Khalil Gibran, O Jardim do Profeta faz-me lembrar de Epicuro porque ele costumava chamar a sua comuna de O Jardim. Tudo que uma pessoa faz o representa. Platão chamou a sua comuna de A Academia – naturalmente; ele era um acadêmico, um grande filósofo intelectual.

Epicuro chamava a sua comuna de O Jardim. Eles viviam sob as árvores, sob as estrelas. Certa vez o rei foi ver Epicuro porque ouviu que essas pessoas eram imensamente felizes. Ele queria saber, ficou curioso, qual seria o motivo dessas pessoas serem tão felizes: Qual seria a causa? – porque elas não tinham nada. Ele ficou intrigado, porque elas eram realmente felizes, elas estavam cantando e dançando.

O rei disse, “Eu me sinto muito contente com você e sua gente, Epicuro. Você gostaria de um presente de mim?”

Epicuro disse ao rei, “Se você vier novamente, você poderia trazer um pouco de manteiga, porque por muitos anos a minha gente não viu manteiga. Todos estão comendo apenas pão, sem manteiga. E uma coisa mais: se você vier novamente por favor não permaneça como um forasteiro; pelo menos enquanto estiver aqui torne-se parte de nós. Participe, seja um de nós. Dance, cante. Nós não temos nada mais para oferecê-lo.”

O livro de Khalil Gibran faz-me lembrar de Epicuro. Sinto muito não ter mencionado Epicuro, mas não sou responsável por isso. O seu livro foi queimado, destruído pelos Cristãos. Todas as cópias que estavam disponíveis foram destruídas há centenas de anos atrás. Então não posso mencionar o seu livro, mas eu o trouxe através de Khalil Gibran e seu O Jardim do Profeta.

Quarto… bom… outra tradução de Khalil Gibran, A Voz do Mestre. Deve ter sido um livro muito belo no original, porque mesmo na tradução aqui e ali há traços de beleza, pegadas. Mas isso está fadado a ser assim. A linguagem que Khalil Gibran falava é muito próxima da linguagem de Jesus. Eles são vizinhos, a casa de Khalil Gibran é o Líbano. Ele nasceu nas colinas do Líbano, sob os cedros, as maiores árvores do mundo. Olhando para um cedro do Líbano você pode acreditar em van Gogh, que as árvores são o desejo da Terra de alcançar às estrelas. Elas têm centenas de pés de altura e milhares de anos.

Khalil Gibran representa Jesus de alguma forma; ele pertence à mesma dimensão, embora não seja um cristo. Ele poderia ter sido. Assim como Confúcio, ele também deixou escapar. Havia pessoas vivas durante a vida de Gibran que ele poderia ter procurado, mas o pobre sujeito estava perambulando nas ruas sujas de Nova Iorque. Ele deveria ter ido a Maharshi Ramana, que ainda estava vivo, que era um cristo, um buda.

Quinto é o livro de Maharshi Ramana. Não é bem um livro, apenas um pequeno panfleto intitulado Quem Sou Eu?

Ramana não era nem um erudito nem muito educado. Ele deixou a sua casa quando tinha apenas dezessete anos e nunca retornou. Quem retorna à casa ordinária quando encontra a casa real? O seu método é uma investigação simples em seu núcleo mais profundo ao perguntar, “Quem sou eu?” Ele é realmente o fundador da iluminação intensiva, não algum sujeito americano – ou camarada – que finge ser o seu inventor.

Eu disse que não é um livro grande, mas o homem é grande. Às vezes menciono livros que são grandes, escritos por homens pequenos, muito medíocres. Agora estou mencionando um homem realmente grande que escreveu um livro muito pequeno, apenas algumas páginas, um panfleto. Caso contrário ele estava sempre em silêncio; ele falou muito pouco, apenas de vez em quando. Khalil Gibran seria imensamente beneficiado se tivesse ido até Maharshi Ramana. Então ele teria ouvido A Voz do Mestre. Maharshi Ramana também beneficiar-se-ia com Khalil Gibran, porque este podia escrever como ninguém. Ramana foi um escritor pobre; Khalil Gibran foi um homem pobre, mas um grande escritor. Os dois juntos seriam uma bênção ao mundo.

Sexto, A Mente da Índia, de Moorehead e Radhakrishnan. Moorehead não sabia nada da Índia, nem Radhakrishnan, mas estranhamente eles escreveram um belo livro, muito representativo de toda a herança Indiana. Só faltam os picos, como se uma escavadeira trabalhasse destruindo todos os picos do Himalaia e o tornasse plano. Sim, esses dois sujeitos fizeram o trabalho de uma escavadeira. Se alguém conhece o espírito da Índia – não posso chamá-lo de mente – então o título do livro seria A Não-Mente da Índia.

Mas embora o livro não represente o mais elevado, ele ainda assim representa o mais baixo, e o mais baixo é a maioria, noventa e nove vírgula nove por cento. Então ele realmente representa quase toda a Índia. É lindamente escrito, mas é apenas uma suposição. Um era Inglês e o outro um político indiano – uma grande combinação. Juntos eles escreveram esse livro A Mente da Índia.

Sétimo. Agora, no fim da nossa longa lista, introduzo a vocês dois livros que acho que vocês já experimentaram: Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll e o oitavo é Alice Através do Espelho. Ambos são não-sérios, é por isso que os amo. Ambos são escritos para crianças, é por isso que os respeito imensamente. Ambos estão cheios de beleza, grandeza, mistério e pequenas parábolas que podem ser entendidas em muitos níveis. Sempre amei uma parábola, por exemplo…

Alice chega até o rei – ou talvez era a rainha, não importa – e o rei pergunta a Alice, “Você encontrou com o meu mensageiro no caminho vindo até mim?”

Alice diz, “Eu encontrei ninguém, senhor.”

O rei então diz, “Então ele já deveria ter chego.”

Alice não podia acreditar, mas apenas por respeito, surpresa, Alice permaneceu em silêncio, totalmente uma dama Inglesa.

Gudia, você está aí? Há poucos dias você me perguntou, “Ainda há uma dama Inglesa em mim, Osho?” Apenas um pouquinho, não muito – nada com que se preocupar. E um pouco é bom.

Alice deve ter sido uma dama inglesa perfeita. Por formalidade ela nem mesmo deu risinhos. Ela disse que tinha encontrado ninguém, e o Rei pensou que ela tinha encontrado com alguém chamado Ninguém. Meu Deus, ele pensou que Ninguém é um homem, que Ninguém é alguém…! Novamente Alice diz, “Senhor, eu não te disse que encontrei ninguém? Ninguém é ninguém!”

O rei riu e disse, “Sim, é claro que ninguém é ninguém, mas por que ele não chegou ainda?”

Tantas parábolas belas em ambos os livros, Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho. E o mais estranho fato a lembrar-se é que Lewis Carroll não era o nome real… porque ele era um matemático e professor de escola; por isso ele utilizou um nome falso. Mas que calamidade, o pseudônimo tornar-se realidade para todo o mundo e o homem real ser completamente esquecido. É estranho que um matemático e professor de escola pudesse escrever livros tão belos.

Vocês perguntar-se-ão por que estou incluindo-os. Estou incluindo-os porque quero dizer ao mundo que para mim, o Ser e o Nada de Jean Paul Sartre e Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll são iguais. Não importa. De fato, se eu fosse escolher entre os dois eu escolheria Alice no País das Maravilhas e jogaria o Ser e o Nada no oceano, tão longe no Pacífico que ninguém o encontraria. Para mim esses dois pequenos livros têm grande valor espiritual. Sim, não estou brincando… é sério.

Nono… repetidas vezes eu volto para Khalil Gibran. Eu o amei e adoraria ajudá-lo. Eu até mesmo esperei por ele, mas ele ainda não nasceu. Ele terá que buscar outro mestre no futuro. O Errante é a minha escolha para esse número.

O Errante de Khalil Gibran é uma coleção de parábolas. A parábola é o método mais antigo de dizer o que é profundo; aquilo que não pode ser dito pode sempre ser dito em uma parábola. É uma bela coleção de pequenas histórias.

Que vigarista eu sou! Mesmo com os olhos fechados estou observando Devageet não apenas tentando dizer coisas – ele está até mesmo usando suas pernas, o que não é muito cavalheiresco, e nas costas do mestre…! O que fazer, o mundo é assim.

Isso é belo, Ashu. Apenas relembre-me do número.

“Nós estávamos falando sobre o número nove, Osho.”

Décimo: Outro livro de Khalil Gibran, Os Provérbios Espirituais. Agora devo objetar, apesar da objeção ser contra Khalil Gibran, que amo. Ele não pode escrever ‘provérbios espirituais’. Espirituais? – Embora o livro seja belo seria melhor chamá-lo de Belos Provérbios. Belo, não espiritual. Chamá-lo de espiritual é um absurdo. Mas ainda assim eu amo o livro, assim como amo todas as absurdidades.

Eu lembro de Tertuliano, cujo livro – desculpem-me – não incluí. Era impossível para mim incluir todos, mas pelo menos posso mencionar o seu nome. O mais famoso provérbio de Tertuliano é: credo quia absurdum – eu creio porque é absurdo. Não acho que exista outro provérbio em todas as linguagens do mundo que seja mais fértil do que esse. E Tertuliano é um santo Cristão. Sim, quando eu vejo a beleza eu a aprecio – até mesmo em um santo Cristão.

Credo quia absurdum – isso deveria ser escrito em diamantes, nem mesmo em letras douradas. O ouro é muito barato. Este provérbio: eu creio porque é absurdo, é tão valioso. Tertuliano poderia escrever um livro chamado Provérbios Espirituais mas Khalil Gibran não.

Khalil Gibran deveria meditar. É a hora dele começar a meditar, assim como é a minha hora de parar de falar… mas eu não posso pela simples razão que eu tenho que completar cinquenta.

Décimo… estou certo, Devageet?

“De fato já chegamos até cinquenta. Aquele foi o número dez, Osho.”

Então farei cinquenta e um, porque não posso deixar esse de fora. É impossível, com número ou sem número. Você pode fazer o mesmo que eu: erre os números em algum lugar, e chegue ao mesmo número que eu estou chegando.

Décimo primeiro, Esperando Godot de Samuel Beckett. Ora, ninguém sabe o que ‘Godot’ significa, assim como ninguém sabe o que ‘Deus’ significa. De fato, Beckett fez um grande trabalho ao inventar a palavra Godot para Deus [NT. God]. Todo mundo está esperando por nada porque Deus não existe. Todo mundo está esperando, esperando, esperando… e esperando para nada. É por isso que mesmo a numeração estando completa eu quis incluir esse livro Esperando Godot.

Agora esperem apenas dois minutos… Obrigado.

CAPÍTULO 12

1984 na Casa Lao Tsé, Rajneeshpuram, Oregon, USA

Certo, agora esse é o pós-pós-escrito. É difícil entender a minha dificuldade. Até onde me lembro sempre estive lendo e não fazendo nada, todos os dias, por quase meio século. Naturalmente, selecionar é uma tarefa quase impossível. Mas realizei isso durante essas sessões, então a responsabilidade é de vocês.

Primeiro, Martin Buber. Eu não seria capaz de perdoar-me se Martin Buber não fosse incluído. Como castigo incluo os seus dois livros: primeiro, Estórias do Hassidismo. O que D.T. Suzuki fez pelo Zen, Buber fez pelo Hassidismo. Ambos fizeram um tremendo serviço para os buscadores. Mas Suzuki tornou-se iluminado; lamento dizer, mas Buber não pôde.

Buber foi um grande escritor, filósofo, pensador, mas todas essas coisas são brinquedos. Entretanto, eu pago meu respeito a ele ao incluir o seu nome, porque sem ele o mundo nem mesmo conheceria a palavra Hassida.

Buber nasceu em uma família Hassídica. Desde a sua infância ele foi criado entre os Hassidas. Estava em seu próprio sangue, ossos, em sua medula, então quando ele relata soa tão verdadeiro, embora ele esteja descrevendo o que ouviu, nada mais. Ele ouviu corretamente; isso deve estar registrado. Até mesmo ouvir corretamente é muito difícil, e então reportá-lo ao mundo todo é ainda mais difícil, mas ele o fez lindamente.

Suzuki é iluminado, Buber não – mas Suzuki não é um grande escritor, Buber é. Suzuki é um escritor ordinário. Buber eleva-se muito alto no que diz respeito à arte da escrita. Mas Suzuki sabe e Buber não sabe; ele está apenas relatando a tradição a qual ele foi criado… relatando autenticamente, é óbvio.

Estórias do Hassidismo deve ser lido por todos os buscadores da verdade. Essas estórias, pequenas estórias, tem um aroma único. É diferente do Zen, é diferente também do Sufismo. Elas têm o seu próprio aroma, não emprestado de ninguém, original, sem imitação. O Hassida ama, ri, dança. A sua religião não é a do celibato, mas da celebração. É por isso que encontro uma ponte entre a minha gente e os Hassidas. Não é acidental que muitos Judeus vieram até mim; por outro lado, estou sempre estilhaçando as cabeças dos Judeus sempre que posso… e ainda assim eles sabem que os amo. Eu amo o essencial no Judaísmo, que é o Hassidismo. Moisés não ouviu falar dele, é claro, mas ele era um Hassida; se ele sabia ou não, não importa. Eu o declaro um Hassida – e também declaro Buda, Krishna, Nanak e Maomé. O Hassidismo nasceu a partir de Baal Shem. A palavra não importa, o espírito importa.

O segundo livro de Martin Buber, Eu e Tu, é a sua obra mais famosa, o livro através do qual ele ganhou o Prêmio Nobel. Desculpe-me, mas discordo completamente. Eu o menciono porque é uma obra bela, escrita artisticamente, com grande profundidade e sinceridade. Mas ainda assim não há alma nele, porque não havia alma no próprio Buber. Como o pobre homem poderia trazê-la para seu livro, sua obra-prima?

Eu e Tu é muito respeitado pelos Judeus porque eles pensam que ele representa a sua religião. Ele não representa nenhuma religião de maneira alguma, nem Judia ou Hindu; o livro apenas representa a ignorância do homem chamado Martin Buber. Mas o homem foi certamente um artista, um grande gênio. Quando um gênio começa a escrever sobre algo que ele não sabe nada, ele ainda assim pode produzir uma obra-prima.

Eu e Tu está basicamente errado porque Buber diz que ele é um diálogo entre homem e Deus. Eu e Tu…! Disparate! Não pode haver um diálogo entre homem e Deus, só pode haver o silêncio. Diálogo? Vocês falariam sobre o que com Deus? Sobre a desvalorização do dólar? Ou sobre o Ayatollah Ruhollah Khomeini? Qual o tema que vocês dialogariam com Deus? Não há nada que vocês poderiam dialogar. Vocês somente poderiam estar em um estado de fascínio… total silêncio.

Não há ‘eu’ e não há ‘tu’ naquele silêncio; por isso refuto não apenas o livro, mas até mesmo o título. Eu e Tu…? Isso significa que alguém permanece separado. Não, é como uma gota de orvalho escorregando de uma folha do lótus no oceano. A gota de orvalho desaparece, ou, em outras palavras, torna-se o oceano, mas não há eu e tu. Ou existe apenas eu ou existe apenas tu. Mas quando não existe nenhum eu, ali não pode haver nenhum tu, este não teria nenhum significado. Se não existe nenhum tu, não pode haver nenhum eu também, então, de fato, só existe o silêncio… essa pausa… O meu ser em silêncio por um momento diz muito mais do que Martin Buber tenta dizer em Eu e Tu, e falha. Mas mesmo que seja uma falha, é uma obra-prima.

Terceiro… Martin Buber era um Judeu, e outros Judeus estão na fila. Meu Deus, que fila longa, pobres Devageet e Ashu… afinal de contas, eles têm que comer também, eles não podem viver apenas das minhas palavras. Então serei rápido. Tentarei dispersar o máximo que conseguir. Mas alguns são muito teimosos e sei que eles não irão embora sem que eu fale algo sobre eles.

O segundo homem depois de Martin Buber é um dos mais teimosos – não mais teimoso que eu. Talvez eu fui um Judeu em uma das minhas vidas passadas; devo ter sido. Esse homem é Karl Marx. O livro que ele está segurando em sua mão é Das Kapital.

É o pior livro já escrito. Mas, de uma certa forma é um grande livro, porque ele domina milhões de pessoas. Quase metade do mundo é comunista, e a outra metade você não pode ter certeza. Mesmo as pessoas que não são comunistas, no fundo elas sentem que há algo bom no comunismo. Não há nada de bom nele. É a exploração de um grande sonho. Karl Marx era apenas um sonhador – não um economista, de maneira alguma – apenas um sonhador; um poeta, mas um poeta de terceira ordem. Ele também não é um grande escritor. Ninguém lê Das Kapital. Eu cruzei com muitos comunistas famosos, e eu os perguntei, olhando profundamente em seus olhos, “Você leu Das Kapital?” Nem um disse sim.

Eles disseram, “Apenas algumas páginas… Temos muitas outras coisas para fazer, não podemos ler um livro tão grande.” Milhares de páginas, cem por cento lixo, escritas nem logicamente nem racionalmente, mas como se alguém estivesse louco. Karl Marx escreve sobre qualquer coisa que ocorre em sua mente. Sentado no Museu Inglês, cercado por milhares de livros, ele escrevia, escrevia, escrevia. Você sabia que era quase um ritual diário ele ser arrastado para fora do museu na hora do fechamento? Ele tinha que ser forçado a sair; caso contrário ele não iria. De vez em quando ele era levado para fora inconsciente.

Agora esse homem tornou-se um deus! Há algo como uma trindade profana: Karl Marx, Friedrich Engels, e, é claro, Lênin – essas três pessoas tornaram-se quase divinas para milhões de pessoas na Terra. É uma calamidade, mas ainda assim menciono o livro – não que você deva lê-lo, mas para que você não o leia. Sublinhe o que eu disse: não o leia. Você já está perdido. Isso já é o suficiente. Não há necessidade de Das Kapital.

Quarto: Lembre-se que Marx também é um Judeu. Essa é toda uma fila de Judeus. Quarto, Sigmund Freud, outro Judeu. A sua grande obra é Conferências sobre a Psicanálise. Não gosto da palavra análise, nem gosto do homem, mas ele conseguiu criar um grande movimento assim como Karl Marx. Ele também é uma das figuras dominantes do mundo.

Os Judeus sempre sonharam em dominar o mundo. Eles estão realmente dominando. Os três homens mais importantes que podemos dizer que dominam essa era são Karl Marx, Sigmund Freud e Albert Einstein. Todos os três são Judeus. Os Judeus realizaram o seu sonho, eles estão dominando. Mas Marx está errado no que diz respeito à economia; Freud está errado porque a mente não deve ser analisada, mas colocada de lado para que você possa entrar no mundo da não-mente.

Albert Einstein claramente está certo em suas teorias sobre a relatividade, mas ele provou-se errado ao ser totalmente tolo quando escreveu uma carta ao Presidente Roosevelt propondo fazer a bomba atômica. Hiroshima e Nagasaki – as milhares de pessoas que morreram ali, queimadas vivas, estão todas apontando na direção de Albert Einstein. Foi a sua carta que começou o processo de fazer bombas atômicas na América. Ele nunca pôde se perdoar; essa é a parte boa do homem. Pelo menos ele reconheceu que cometeu um dos maiores pecados possíveis. Ele morreu totalmente frustrado. Antes de morrer ele disse, “Eu nunca, nunca nasceria novamente como um físico, eu seria apenas um encanador.”

E ele foi uma das maiores mentes de toda a história da humanidade. Por que ele ficou tão frustrado em ser um físico? Por quê? Pela simples razão que ele não estava consciente do que estava fazendo. Ele ficou consciente apenas quando era muito tarde… Esta é a maneira do ser humano inconsciente: ele se torna consciente apenas quando já é muito tarde. O ser humano consciente está consciente de antemão.

Quinto… tenho tantos Judeus esperando é tão difícil: quem escolher e quem não escolher? E vocês sabem que os Judeus não são pessoas fáceis para lidar. Eu devia em vez disso abandonar toda a fila, em vez de preocupar-me. Então começarei com outra coisa. Terminarei com os Judeus, pelo menos por enquanto. Dispersem todos! Estou falando com os Judeus, não com vocês.

Quinto: eu estava preocupado que talvez eu não seria capaz de mencionar o livro de Gurdjieff Encontro com Homens Notáveis. Obrigado Deus por esse PPS. Essa é uma grande obra.

Gurdjieff viajou por todo o mundo, particularmente Oriente Médio e Índia. Ele foi para o Tibete; não apenas isso, ele foi o professor do finado Dalai Lama… não o atual – este é um tolo – mas o anterior. O nome de Gurdjieff em Tibetano é escrito como Dorjeb, e muitas pessoas pensavam que Dorjeb era outra pessoa. Ele não é ninguém mais que George Gurdjieff. Porque esse fato era do conhecimento do governo Britânico – que Gurdjieff esteve no Tibete por muitos anos; não apenas no Tibete, mas ele estava vivendo no palácio de Lhasa por muito anos – eles impediram-no de ficar na Inglaterra. Ele originalmente queria ficar na Inglaterra, mas não teve permissão.

Gurdjieff escreveu esse livro Encontro com Homens Notáveis como uma memória. É uma memória tremendamente respeitosa com todas aquelas pessoas estranhas que ele encontrou em sua vida – Sufis, místicos Indianos, lamas Tibetanos, monges Zen Japoneses. Devo mencionar para vocês que ele não escreveu sobre todos; ele deixou várias pessoas de fora do seu relato pela simples razão que o livro iria para o mercado e tinha que satisfazer às demandas do mercado.

Eu não tenho que satisfazer às demandas de ninguém. Não sou um homem que se preocupa de forma nenhuma com o mercado, por isso posso dizer que ele deixou de fora as pessoas realmente notáveis do seu relato. Mas qualquer coisa que ele escreve é bela. O livro ainda traz lágrimas aos meus olhos. Sempre que algo é belo os meus olhos se enchem de lágrimas; não há outra maneira de homenagear.

Esse é um livro que deve ser estudado, não apenas lido. Em Inglês vocês não têm uma palavra para trilha; é uma palavra Hindi que significa ler e ler novamente todos os dias de toda a sua vida. Ela não pode ser traduzida como leitura, particularmente no Ocidente onde você lê uma brochura e, uma vez que você a tenha lido, você a taca fora ou a deixa no trem. Ela também não pode ser traduzida como estudo, porque estudo é um esforço concentrado em entender o significado da palavra, das palavras. ‘Trilha’ não é nem leitura nem estudo, mas algo a mais. É repetir alegremente, tão alegremente que ela penetra até o seu coração, então torna-se a sua respiração. Leva uma vida, e isso é necessário se vocês quiserem entender os livros reais, livros como o Encontro com Homens Notáveis de Gurdjieff.

Não é uma ficção como Don Juan – um homem fictício criado por um sujeito Americano, Carlos Castañeda. Este homem fez um grande desserviço à humanidade. Ninguém deveria escrever ficções espirituais pela simples razão que as pessoas começarão a pensar que a espiritualidade não é nada além de uma ficção.

Encontros com Homens Notáveis é um livro real. Algumas pessoas que Gurdjieff menciona ainda estão vivas; Eu mesmo encontrei algumas. Sou uma testemunha do fato dessas pessoas não serem fictícias, embora eu não possa perdoar Gurdjieff por deixar de fora as pessoas mais notáveis que conheceu.

Não há necessidade de se comprometer com o mercado; não há necessidade de se comprometer de qualquer maneira. Ele era um homem tão forte, pergunto-me por que ele comprometeu-se, por que ele omitiu as pessoas realmente importantes. Encontrei algumas pessoas que ele omitiu do livro, elas próprias disseram-me que Gurdjieff havia estado lá. Elas estão muito velhas agora. Mas ainda assim o livro é bom – parcial, incompleto, mas valioso.

Sempre amei um livro cujo autor é desconhecido; ele é anônimo, embora seja conhecido que ele foi escrito por um discípulo de Kabir. Não importa quem o escreveu, mas quem quer que seja deve ter sido iluminado; isso pode ser dito sem qualquer hesitação.

É um pequeno livro de poemas, muito mal escrito. Talvez o homem não era muito educado, mas isso também não importa. O que importa é a sua matéria. Sim, a matéria importa – o conteúdo. O livro não foi nem publicado. As pessoas que o possuem são contra publicá-lo, e eu posso entender os seus sentimentos e concordo completamente com elas. Elas dizem que quando um livro é publicado ele se torna parte do mercado, e elas não o querem publicar. Se alguém quiser o livro essa pessoa pode vir e copiá-lo com sua própria letra. Então existem muitos manuscritos por toda a Índia, mas todos prometeram não o publicar. A publicação certamente faz algo com um livro; ele se torna mecânico, ele perde algo ao ser impresso. Ele perde o seu espírito; ele se torna um cadáver.

Não existe nome para esse livro; porque ele nunca foi publicado nenhum título foi necessário. Perguntei para as pessoas que têm a cópia original, “Como vocês o chamam?”

Eles responderam, “O Grantha.”

Ora, O Grantha deve ser explicado para vocês. É uma palavra antiga de quando os livros eram escritos em folhas, não em papel. Certas folhas podem ser utilizadas para escrever e quando elas são amarradas juntas isso é chamado de Grantha. ‘Amarrar’ é o significado exato de O Grantha – ‘amarrar as folhas’.

O livro tem algumas declarações imensamente valiosas. Vou familiarizar vocês com algumas. A primeira, ela diz: Aquilo que pode ser dito, não se preocupe com isso, isso não pode ser verdade. A verdade não pode ser dita. Segundo: Deus é apenas uma palavra – significante, mas não existente. Deus é apenas um símbolo representando uma experiência, não um objeto. Terceiro: a meditação não é uma ‘mentitação’, não é da mente. Pelo contrário, abandonar a mente é meditar. E assim por diante.

Eu quero mencionar O Grantha porque ele não é mencionado em local algum e nunca foi traduzido.

Sétimo… ainda estou correto com os meus números?

“Sim, Osho.”

Eu sou contra Karl Marx e Friedrich Engels mas devo apreciar o livro desses dois homens, O Manifesto Comunista – e lembre-se, não sou um comunista! Você não pode encontrar um homem mais anticomunista do que eu, mas ainda assim amo esse pequeno livro, O Manifesto Comunista. Amo a maneira que ele foi escrito – não o conteúdo, mas o estilo.

Vocês sabem que tenho gostos multidimensionais e aprecio até mesmo o estilo. Buda teria fechado os seus olhos e ouvidos, Mahavira teria corrido; estilo…? Mas estou em minha própria categoria. Sim, eu amo o estilo que O Manifesto Comunista foi escrito, e odeio o conteúdo. Vocês me entendem? É possível amar o vestido e, entretanto, odiar a pessoa. Esse é realmente o caso comigo. A última sentença de O Manifesto Comunista é: Proletários do mundo, uni-vos. Vocês não têm nada a perder exceto seus grilhões, e vocês têm um mundo a ganhar.

Vocês veem o estilo? A força de dizer a coisa: Unam-se! Vocês não têm nada a perder exceto seus grilhões, e um mundo a ganhar. É isso que falo a meus sannyasins, embora eu não fale se unam, eu falo: Apenas seja – e vocês não têm nada a perder exceto os seus grilhões.

E eu não digo que vocês têm que ganhar o mundo – quem liga, quem se importa! Vocês podem persuadir-me a tornar-me Alexandre o Grande ou Napoleão Bonaparte ou Adolf Hitler ou Joseph Stalin ou Mao Tsé-tung? Há uma longa fila de todos esses idiotas e não quero ter nenhuma relação com eles. Eu não digo para os meus sannyasins: Ganhem – não há nada a ser ganho. Apenas seja – este é o meu manifesto. Seja, porque ao ser você já alcançou tudo.

Oitavo… ainda estou correto?

“Sim, Osho.”

Bom.  Você ainda dá conta? Você se preparou antes? – porque não o ouço sussurrando hoje. Sussurre um pouco, isso é bom.

Oitavo, o livro de Marcel [NT. Albert Camus], O Mito de Sísifo. Não sou um homem religioso no sentido ordinário; sou religioso da minha própria maneira. Então as pessoas perguntar-se-ão porque estou incluindo livro que não são religiosos. Eles são, mas vocês têm que cavar fundo, e então vocês encontrarão a sua religiosidade. O mito de Sísifo é um mito antigo, e Marcel o utilizou para seu livro. Permitam-me relatá-lo para vocês.

Sísifo, um deus, foi colocado para fora do paraíso porque ele desobedeceu ao Deus supremo e foi punido. A punição era que ele tinha que carregar uma grande rocha do vale até o topo de uma montanha que tinha um pico tão pequeno que toda vez que ele o alcançava com a rocha gigante e tentava colocá-la no chão, a rocha começa a rolar em direção ao vale novamente. Sísifo tinha que ir até o vale novamente para carregar a rocha, bufando, perspirando… uma tarefa sem sentido… sabendo perfeitamente bem que ela escorregaria novamente, mas o que fazer?

Essa é toda a história dos seres humanos. É por isso que digo que se você cavar você encontrará a pura religião nele. Essa é a situação dos seres humanos, sempre foi. O que vocês estão fazendo? O que todo mundo está fazendo? Carregando uma rocha até um ponto no qual ela sempre escorrega de volta para o mesmo vale, talvez mais profundo a cada vez. E na manhã seguinte, depois do café da manhã é claro, você a carrega novamente. E você sabe enquanto carrega o que acontecerá. Ela escorrega novamente.

O mito é belo. Marcel apenas o introduziu novamente. Ele era uma pessoa muito religiosa. De fato, ele era o existencialista real, não Jean-Paul Sartre, mas ele não era um ‘poser’, então ele nunca esteve em primeiro plano. Ele permaneceu em silêncio, escreveu silenciosamente, morreu silenciosamente. Muitas pessoas no mundo não sabem que ele já faleceu. Ele era um homem silencioso – mas o que ele escreveu, O Mito de Sísifo, é muito eloquente. O Mito de Sísifo é uma das maiores obras de arte já produzidas.

Nono: Lembro-me repetidas vezes, eu não sei porque, que tenho que incluir Bertrand Russell. Eu sempre o amei, sabendo perfeitamente bem que nós somos opostos polares – de fato, diametralmente opostos. Talvez seja esta a razão. Os opostos polares se atraem. Vocês veem novamente as lágrimas em meus olhos? Elas são para Bertrand Russel – Bertie como ele era conhecido pelos seus amigos. Dele é o nono livro, A História da Filosofia Ocidental.

Ninguém fez um trabalho parecido em relação à filosofia Ocidental. Apenas um filósofo poderia fazê-lo. Os historiadores tentaram e existem várias histórias da filosofia, mas nem um historiador era um filósofo. Essa é a primeira vez que um filósofo da categoria de Bertrand Russell também escreveu uma história – A História da Filosofia Ocidental. E ele é tão sincero que não o chama de A História da Filosofia, porque ele sabe perfeitamente bem que ele não conhecia nada da filosofia Oriental. Ele simplesmente, humildemente declara o que sabe, declarando também que não é a história da filosofia, mas somente a parte Ocidental, de Aristóteles até Bertrand Russell.

Eu não amo filosofia, mas o livro de Russell não é apenas uma história, mas uma obra de arte. É tão sistemática, tão estética, uma criação tão bela, talvez porque Russell basicamente era um matemático.

A Índia ainda precisa de um Bertrand Russell para escrever sobre a filosofia e a história indianas. Há muitas histórias, mas elas são escritas por historiadores, não filósofos, e obviamente um historiador é apenas um historiador; ele não pode entender a profundidade e o ritmo interno do pensamento mutante. Radhakrishna escreveu uma História da Filosofia Indiana, talvez esperando que ela se tornasse como o livro de Bertrand Russel, mas era um roubo. O livro não foi escrito por Radhakrishna, ele foi uma tese de um pobre estudante que Radhkrishna foi o examinador, e ele roubou toda a tese. Houve um caso contra ele no tribunal, mas o estudante era tão pobre que não pôde lutar pelo caso. Radhakrishna deu-lhe dinheiro suficiente para que ficasse quieto.

Ora, essas pessoas não podem fazer justiça à filosofia Indiana. Um Bertrand Russell é necessário na Índia, na China… particularmente esses dois países. O Ocidente é afortunado em ter um pensador revolucionário como Bertrand Russell, que pôde e de fato escreveu a mais bela narrativa descrevendo toda a progressão do pensamento Ocidental desde Aristóteles até ele próprio.

Décimo. O décimo livro que falarei agora não é de novo um livro supostamente religioso. É religioso apenas se você meditar sobre ele… se você não o ler, mas meditar sobre ele. Ele ainda não tem tradução, existindo apenas no original em Hindi, As Canções de Dayabai.

Eu estava me sentindo um pouco culpado porque mencionei Rabiya, Meera, Lalla, Sahajo, e deixei de fora mais uma mulher que vale a pena mencionar: Daya. Agora sinto-me aliviado.

As Canções de Daya. Ela foi contemporânea de Meera e Sahajo, mas ela é muito mais profunda do que ambas. Ela está realmente além dos números. Daya é um pequeno cuco – mas não se preocupe… De fato na Índia o cuco é chamado koyal, e ele não tem o sentido de ficar louco. Daya é realmente um cuco – não louca, mas uma cantora doce como um koyal indiano. Em uma noite de verão indiana, uma chamada distante de um cuco; Daya é isso… uma chamada distante no verão quente desse mundo.

Eu falei sobre ela; talvez um dia será possível traduzi-lo. Mas tenho medo que talvez não seja possível, por que como é possível traduzir esses poetas e cantores? O Oriente é pura poesia, e o Ocidente e todas as suas linguagens são prosa, pura prosa. Eu nunca encontrei poesia real em Inglês. Às vezes ouço os músicos clássicos Ocidentais… outro dia eu estava ouvindo Beethoven, mas tive que parar no meio. Uma vez que você conheceu a música Oriental então não há nada comparável a ela. Uma vez que você ouviu a flauta de bambu indiana então todo o resto torna-se apenas ordinário.

Então não sei se esses cantores, poetas e loucos os quais falei em Hindi serão traduzidos, mas não posso resistir em mencionar os seus nomes. Talvez o próprio mencionar crie a situação para que eles sejam traduzidos.

CAPÍTULO 13

1984 na Casa Lao Tsé, Rajneeshpuram, Oregon, USA

 

O primeiro livro de hoje é Sede de Viver de Irving Stone. É um romance baseado na vida de Vincent van Gogh. Stone fez uma tremenda obra, não me lembro de alguém que tenha feito algo parecido. Ninguém escreveu tão intimamente sobre outra pessoa, como se escrevesse a partir do seu próprio ser.

Sede de Viver não é apenas um romance, é um livro espiritual. É espiritual no meu sentido, porque para mim todas as dimensões da vida têm que ser incorporadas em uma única síntese; só assim é espiritual. O livro foi escrito tão lindamente que a possibilidade de o próprio Irving Stone ser capaz de transcendê-lo é remota.

Depois desse livro ele escreveu muitos outros, e meu segundo livro de hoje também é de Irving Stone. Eu o coloquei em segundo porque ele é secundário, não é da qualidade de Sede de Viver. O livro é A Agonia e o Êxtase, novamente baseado em outra vida da mesma maneira. Talvez Stone pensava que ele seria capaz de criar outro Sede de Viver, mas falhou. Embora tenha falhado, o livro fica em segundo – não considerando os outros, mas o seu próprio. Existem centenas de romances escritos sobre as vidas de artistas, poetas, pintores, mas nenhum deles alcançam à altura do segundo livro, o que dizer do primeiro. Ambos são belos, mas o primeiro é de uma beleza transcendental.

O segundo livro é um pouco inferior, mas a culpa não é de Irving Stone. Quando você sabe que escreveu um livro como Sede de Viver, o instinto humano natural é de imitar-se a si próprio, criando algo da mesma ordem, mas no momento em que você imita ele não pode ser o mesmo. Quando escreveu Sede não estava imitando, ele era uma ilha virgem. Quando escreveu A Agonia e o Êxtase ele estava imitando a si próprio, e esta é a pior imitação. Todo mundo o faz em seu próprio banheiro, olhando para o espelho… é esse o sentimento em relação a seu segundo livro. Mas digo que mesmo sendo apenas uma reflexão no espelho, ele reflete algo do real; por isso o conto.

Eu perguntei há pouco para Gudia sobre qual vida Irving Stone havia escrito em A Agonia e o Êxtase, porque, no que concerne a mim, esqueci completamente. Isso também é muito raro; não esqueço facilmente. Perdoo facilmente, mas não esqueço facilmente. Qual vida ele escreveu sobre, você sabe, Devaraj? Foi Gauguin?

“Foi Michelangelo, Osho.”

Michelangelo? Uma grande vida. Então Stone deixou escapar muito. Se fosse Gauguin então tudo bem, mas sendo Michelangelo então sinto muito; nem eu posso perdoá-lo. Mas ele escreve lindamente. A sua prosa é como poesia, embora o segundo livro não seja da mesma qualidade de Sede de Viver. Ele não pode ser pela simples razão que nunca houve um homem como Vincent van Gogh. Aquele sujeito holandês foi simplesmente inimitável! Ele permanece a sós. Em todo o céu cheio de estrelas ele brilha a sós, separadamente, unicamente da sua forma. Escrever um grande livro sobre ele é fácil, e também o seria em relação a Michelangelo, mas Stone estava tentando imitar a si mesmo, por isso deixou escapar. Nunca seja um imitador. Não siga… nem mesmo a si próprio.

Apenas seja

momento a momento

sem saber

quem você é…

e onde você está.

É isso o que significa

ser meu povo.

Pobre Chetana, eu falei para ela que minhas roupas tinham que ser brancas como a neve. Ela é minha lavadeira. Ela faz o que puder, o que for possível.

Hoje estou imensuravelmente feliz ao encontrar-me novamente nos Himalaias. Eu quero morrer nos Himalaias assim como Lao Tzé o fez. É maravilhoso estar vivo nos Himalaias, é ainda mais maravilhoso morrer nos Himalaias. A neve, onde quer que ela esteja, representa a pureza dos Himalaias, a virgindade… o amanhã nunca chega, então não há necessidade de preocupar-se. Comigo é sempre hoje e neste momento estamos naquele mundo dos Himalaias.

Michelangelo deve ter amado o mármore branco; ele esculpiu uma estátua de Jesus nele. Nenhum outro homem entalhou imagens tão belas, então não deveria ser difícil para Stone escrever uma bela história sobre Michelangelo. Mas ele deixou escapar apenas porque estava imitando a si próprio. Infelizmente, se ele pudesse esquecer o seu primeiro livro, ele teria produzido outro Sede de Viver.

Terceiro, a Ressurreição de Liev Tolstói. Por toda a sua vida Liev Tolstói preocupou-se, preocupou-se imensamente com Jesus; por isso o título, Ressurreição. E Liev Tolstói realmente criou uma obra de arte tremenda. Ela tem sido uma bíblia para mim. Eu ainda posso ver a mim mesmo quando era jovem carregando a Ressurreição comigo. Até meu pai ficou preocupado. “Está certo ler um livro,” ele me disse um dia, “mas por que você carrega esse livro o dia inteiro? Você já o leu.”

Eu disse, “Sim, eu o li, não apenas uma vez, mas muitas vezes. Mas vou carregá-lo comigo.”

Toda a minha vila sabia disso, que eu continuamente carregava um certo livro chamado Ressurreição. Todos eles pensavam que eu era louco – e um louco pode fazer tudo. Mas por que eu carregava a Ressurreição o dia todo? – e não apenas durante o dia, mas durante a noite também. O livro ficava comigo na minha cama. Eu o amo… a maneira que Liev Tolstói reflete toda a mensagem de Jesus. Ele é muito mais bem-sucedido do qualquer apóstolo exceto Tomás – e sobre isso eu falarei depois de Ressurreição.

Os quatro evangelhos particularmente incluídos na Bíblia deixam escapar todo o espírito de Jesus. Ressurreição é muito melhor. Tolstói realmente amou Jesus e o amor é mágico, particularmente porque quando você ama alguém o tempo desaparece. Tolstói amou tanto Jesus que eles se tornaram contemporâneos. O intervalo é grande, dois mil anos, mas ele desaparece entre Tolstói e Jesus. Isso acontece raramente, muito raramente, é por isso que eu carregava esse livro em minha mão. Eu não carrego mais o livro em minha mão, mas no meu coração ele ainda está lá.

Quarto, o quinto evangelho. Não está registrado na Bíblia; ele foi encontrado no Egito: Notas sobre Jesus, por Tomás. Eu falei sobre ele porque imediatamente me apaixonei por ele. Tomás, em seu Notas sobre Jesus, é tão simples que não pode ser impreciso. Ele é tão direto, imediato, que ele não existe, apenas Jesus existe.

Você sabia que Tomás foi o primeiro discípulo a alcançar a Índia? A Cristandade Indiana é a mais antiga do mundo, mais antiga que o Vaticano. E o corpo de Tomás ainda está preservado em Goa – um local estranho, mas belo, muito belo. É por isso que todos os forasteiros chamados hippies foram atraídos por Goa. Não há outro local… não há praias mais puras e belas como as de Goa.

O corpo de Tomás ainda está preservado, e é um milagre como ele está preservado. Agora sabemos como preservar um corpo, congelá-lo, mas o corpo de Tomás não está congelado; algum método antigo utilizado no Egito, no Tibete, foi utilizado nesse caso também. Os cientistas ainda não foram capazes de descobrir – quais produtos químicos foram utilizados… ou mesmo se qualquer produto químico foi utilizado ou não. Os cientistas são demais! Eles podem alcançar à lua, mas não podem fazer uma caneta-tinteiro que não vaze! Sobre as coisas pequenas eles são um fracasso.

Não sou um cientista. Ontem, mesmo quando eu disse “Certo,” não estava certo. Eu disse simplesmente porque amo vocês e não quero causar qualquer problema. Eu não sei nada sobre maquinarias ou química, eu só conheço a mim mesmo. Quando tudo ao meu redor está seguindo perfeitamente há uma transcendência. Eu sei através desta transcendência que tudo está seguindo perfeitamente. Se algo está errado, eu tenho que descer novamente.

Permita-me explicá-los todo o conceito Oriental de descer. Um ser humano nasce apenas se algo está errado… se algo está errado nele. Se nada está errado ele não nasceu; ele move-se para a fonte, desaparece no cosmos.

Anteontem tudo funcionou perfeitamente. Ontem não. Primeiro eu disse “Certo”; isso não era verdade. Mas posso mentir porque amo – não quero desapontá-los. No final também eu disse, “Ótimo, podemos terminar,” mas não havia nada para terminar porque não havia nem começado. Eu tive que dizer isso para que não se repita. Por favor não me force a mentir. Eu não sou Inglês, não sou britânico; até mesmo pela etiqueta é difícil para mim, realmente difícil para mim. Ajude-me para que eu possa dizer a verdade. Neste momento as coisas estão realmente belas – e não estou falando como um britânico – de fato lindas… Vocês me conhecem, o sedutor.

Quinto – outro livro de Liev Tolstói. Um dos maiores de todas as línguas do mundo, Guerra e Paz. Não apenas o melhor, mas também o mais volumoso… milhares de páginas. Eu não conheço ninguém que lê esses livros a não ser eu mesmo. Eles são tão grandes, tão vastos, eles causam medo.

Mas o livro de Tolstói tem que ser vasto. Guerra e Paz é toda a história da consciência humana – toda a história; ela não pode ser escrita em poucas páginas. Sim, é difícil ler milhares de páginas, mas se alguém puder essa pessoa será transportada para outro mundo. Ela conhecerá o sabor de algo clássico. Sim, é um clássico.

Sexto. Hoje parece que estou cercado por Russos. O sexto é A Mãe de Maxim Gorky. Eu não gosto de Gorky; ele é um comunista e odeio comunistas. Quando odeio eu simplesmente odeio, mas o livro A Mãe, embora escrito por Maxim Gorky, eu o amo. Eu o amei por toda a minha vida. Eu tinha tantas cópias desse livro que meu pai costumava dizer, “Você está louco? Uma cópia de um livro é suficiente, e você segue comprando mais! Várias vezes vejo um pacote postal e não é nada além de outra cópia de A Mãe de Maxim Gorky. Você está louco?”

Eu disse-lhe, “Sim, no que diz respeito a A Mãe, estou louco, totalmente louco.”

Quando vejo a minha própria mãe lembro-me de Gorky. Gorky deve ser contado como o artista supremo de todo o mundo. Particularmente em A Mãe ele alcançou o pico mais alto da arte da escrita. Ninguém antes e ninguém depois… Ele é apenas como um pico do Himalaia. A Mãe deve ser estudado, e estudado repetidas vezes; apenas então, vagarosamente, ele passa através de você. Então lentamente você começa a senti-lo. Sim, esta é a palavra: senti-lo – não pensar, não ler, mas senti-lo. Você começa a tocá-lo, ele começa a tocá-lo. Ele se torna vivo. Então não é mais um livro, mas uma pessoa… uma pessoa.

O sétimo é outro Russo, Turguêniev, e seu livro Pais e Filhos. Este tem sido um dos meus casos de amor. Eu amei muitos livros, milhares de livros, mas nenhum igual a Pais e Filhos de Turguêniev. Eu costumava forçar o meu pobre pai a lê-lo. Ele está morto; caso contrário eu pediria desculpas. Por que o forcei a ler o livro? Esta era a única maneira dele entender a disparidade entre eu e ele. Mas ele foi um homem realmente maravilhoso; ele costumava ler o livro repetidas vezes apenas porque eu falava. Não foi uma vez que ele o leu, mas muitas vezes. E ele não apenas lia o livro, mas, pelo menos entre ele e eu a disparidade foi superada. Nós não éramos mais pai e filho. O feio relacionamento entre pai e filho, mãe e filha, e assim por diante… pelo menos comigo meu pai o abandonou, nos tornamos amigos. É difícil ser amigo de seu próprio pai, ou seu próprio filho; todo o crédito vai para ele, não para mim.

O livro de Turguêniev, Pais e Filhos deve ser lido por todos, porque todos estão enredados em algum tipo de relacionamento – pai e filho, marido e mulher, irmão e irmã, ad nauseam… sim, isso cria náusea. Todo o negócio da ‘família’ em meu dicionário deve significar ‘náusea’. E, entretanto, todo mundo está fingindo. “Que bonito…” Todo mundo está fingindo ser Inglês, britânico.

Oitavo, D.H. Lawrence. Eu sempre quis falar sobre o seu livro, mas tinha medo se a minha pronúncia seria correta ou não. Por favor não ria. Toda a minha vida eu o chamei de ‘A Fônix’ porque era assim que eu pronunciava. Nesta manhã eu perguntei para Gudia, “Seja boa para mim Gudia” – o que é raro! “Qual é a pronúncia dessa palavra?”

Ela disse, “Feenix!”

Eu disse, “Meu Deus! Feenix? E toda a minha vida eu a falei ‘fônix’…!” Esse é meu oitavo livro, A Fênix. Certo, eu mudarei a pronúncia pelo menos para parecer Inglês.

A Fênix. Este é um livro maravilhoso, um daqueles que é escrito apenas raramente… apenas uma vez em décadas, ou mesmo em séculos.

Nono, outro livro de D.H. Lawrence. A Fênix é excelente, belo, mas não é minha escolha final. Minha escolha final é o seu livro Psicanálise e o Inconsciente, que é raramente lido. Ora, quem vai ler esse livro? As pessoas que leem romances não o lerão, e as pessoas que leem psicanálise não o lerão porque não consideram Lawrence como um psicanalista. Mas eu o leio. Não sou nem um fã de romances, nem louco por psicanálise. Estou livre de ambos. Sou absolutamente livre. Eu amo esse livro.

Os meus olhos estão começando a coletar gotas de orvalho. Por favor não interrompa.

Psicanálise e o Inconsciente foi e sempre será um dos meus livros mais amados e estimados. Embora eu não leia mais, se eu fosse ler novamente esse seria o primeiro livro que leria. Não os Vedas nem a Bíblia, mas Psicanálise e o Inconsciente… e, vocês sabem, o livro é contra a psicanálise.

D.H. Lawrence foi um revolucionário real, um rebelde. Ele foi muito mais revolucionário do que Sigmund Freud. Sigmund Freud é classe média. Eu não falarei mais do que isso, portanto não esperem. Ao dizer ‘classe média’ eu disse tudo de medíocre. Esse é o significado de classe média: apenas no meio. Sigmund Freud não é um rebelde no sentido real; Lawrence é.

Bom. Não se preocupem comigo e minhas lágrimas. É bom ter lágrimas uma vez ou outra, e eu não choro há muito tempo.

Décimo: o Luz da Ásia de Arnold. Eu tenho que falar sobre mais dois livros, e mesmo se eu morrer completarei o meu discurso.

Décimo primeiro. Minha décima primeira escolha é Bijak. Bijak é a seleção de canções de Kabir. Bijak significa ‘a semente’ – e, é claro, a semente é sutil, muito sutil, invisível. Você não pode vê-la, a menos que brote e se torne uma árvore.

Não interrompa. Vocês querem continuar? – esta é a questão. Nunca pergunte a mim, pergunte a si próprio. Se vocês não querem continuar, simplesmente informem-me, isso é o suficiente. É realmente difícil cavalgar em dois cavalos, e é isso o que estou fazendo. Ademais, um deles é uma égua e outro um garanhão. Agora o que fazer – duas direções diferentes…

Décimo segundo. Por causa dessa situação escolhi o livro de Herbert Marcuse, O Homem Unidimensional. Eu sou contra ele, mas ele escreveu um belo livro. Sou contra porque sei que um ser humano realiza-se apenas quando é multidimensional, quando se propaga em todas as dimensões possíveis, não em uma dimensão. O Homem Unidimensional é a história do ser humano moderno; é minha décima segunda escolha.

O décimo terceiro é o livro misterioso dos Chineses, I Ching.

Décimo quarto e último. Este livro é um romance Indiano que ainda não foi traduzido para o Inglês. Estranho ele ser mencionado por um homem como eu, mas é valioso mencionar. O título em Hindi é Nadi ke Dweep, que pode ser traduzido como Ilhas de um Rio, e foi escrito por Satchidanand Vatsyayana. Esse romance é para aqueles que querem meditar; é um romance de meditadores. Nenhum outro romance, nem de Tolstói ou Tchekhov, pode ser comparado a ele. É lamentável ter sido escrito em Hindi.

Espere. É belo que eu queira apenas desfrutar em vez de dizer algo. Falar dessa altura é tão difícil. Sem interrupções, por favor…

CAPÍTULO 14

1984 na Casa Lao Tsé, Rajneeshpuram, Oregon, USA

 

Fiquei sabendo que você surtou hoje de manhã, Devageet. De vez em quando surtar é um bom exercício, mas surtar para fora [NT. freaking out] eu não apoio. É uma variedade comum – o que chamam de variedade de jardim. Surte para dentro! Se você vai surtar de qualquer forma, por que para fora? Por que não para dentro? Se você surtar para dentro então você se tornará uma anomalia Osho, e isso é algo de valor. Você está no caminho para tornar-se uma anomalia Osho, mas você se move com muita cautela; devo dizer cientificamente, racionalmente.

Eu nem permito que você escreva as suas notas, eu interrompo. Em vez de pedir perdão eu grito com você, mesmo quando você não está interrompendo, dizendo “Não interrompa, Devageet!” Eu sei que isso pode surtar qualquer um. Mas você sabe que sou um louco e quando você está lidando com um louco você tem que ser realmente generoso – não apenas cortês, mas realmente amoroso.

Quando você não está interrompendo e eu digo, “Não interrompa!” eu devo querer dizer algo. Deve haver alguma ideia na minha mente. Talvez você não esteja nem consciente da sua própria ideia de interrupção. Dá tanto prazer interromper. E, é claro, você é o chefe aqui. Nessa cabine pelo menos, você é o Noé. Sou apenas um passageiro sem um ticket. Mas posso ver as coisas mesmo na sua inconsciência, e quando digo “Não interrompa,” é claro que parece ultrajante. Ninguém ouviu você me interrompendo, nem mesmo você – mas eu ouvi. Ouvi o sussurro no inconsciente.

Grandes ideias vieram até mim hoje; caso contrário sou um pobre homem, não tenho grandes ideias. Por favor não surte para fora. Para resumir, sempre surte para dentro.

O PPS. continua; essa foi uma nota em parêntesis.

O primeiro livro de hoje é A Arte de Viver de Lin Yutang. É um nome Chinês. Lembro-me de um dos meus próprios livros, A Arte de Morrer. Lin Yutang não sabia nada da vida porque não sabia nada da morte. Embora ele fosse Chinês, ele é um Chinês corrupto, um Cristão. Isso é corrupção. A corrupção torna-te um Cristão. A corrupção corrompe, e você vira um Cristão.

Lin Yutang em seu livro A Arte de Viver escreve lindamente sobre muitas coisas – com exceção da morte. Isso significa que a vida não está inclusa. A vida só pode vir se você permitir que a morte venha, a vida não virá se você proibir à morte. Elas são dois lados da mesma moeda. Você não pode ter um lado e rejeitar o outro. Mas ele escreve lindamente, artisticamente – ele é certamente um dos maiores escritores da era moderna – mas qualquer coisa que ele escreve é apenas imaginação, pura, pura imaginação… apenas sonho sobre coisas belas. Às vezes os sonhos podem ser belos. Todos os sonhos não são pesadelos.

A Arte de Viver não tem nada a ver com a vida e nada a ver com a arte também, mas ainda assim é um grande livro. É grande no sentido que você pode ser absorvido por ele. Você pode perder-se nele, assim como é possível perder-se em uma floresta densa: as estrelas no céu, as árvores ao redor, e nenhum caminho, nenhum lugar para ir. Ele te leva para lugar nenhum. Ainda assim acho que é um dos grandes livros. Por quê? – porque ao lê-lo você esquece o passado e o futuro e se torna parte do presente.

Eu não sei se Lin Yutang algum dia conheceu algo de meditação. Infelizmente ele era Cristão; por isso ele nunca foi a um monastério Taoista, nem a um templo Budista. Infelizmente, ele não pode saber o que perdeu. Em vez disso ele estava apenas lendo a Bíblia, um dos livros de mais baixa qualidade do mundo – exceto duas pequenas peças dela: A Canção de Salomão no Velho Testamento; e, no Novo Testamento, O Sermão da Montanha. Se estes forem retirados a Bíblia é só lixo. Infelizmente, se ele soubesse algo de Buda, Chuang Tzu, algo de Nagarjuna, Kabir, al-Hillaj Mansoor… algo desses loucos; apenas então o seu livro seria autêntico. É artístico, mas não autêntico. Não é sincero.

Segundo – outro livro de Lin Yutang, A Sabedoria da China. Ele tinha a arte de escrever então podia escrever qualquer coisa, até A Sabedoria da China, embora não soubesse nada de Lao Tzé, que contém toda a sabedoria não apenas da China, mas de todo o mundo. É claro que Lin Yutang inclui algumas sentenças de Lao Tzé, mas essas sentenças são aquelas que coincidem com sua educação Cristã. Em outras palavras, elas não têm nada a ver com Lao Tzé. Ele cita Chuang Tzu, mas naturalmente as suas seleções são muito racionais, e Chuang Tzu não é um homem racional; ele é um dos homens mais absurdos que já existiu.

Chuang Tzu é um dos meus casos de amor, e quando você fala sobre alguém que ama necessariamente você utilizará extremos, exageros, mas para mim eles não soam como isso. Eu poderia dar todo o reinado do mundo para Chuang Tzu por qualquer uma das parábolas que escreveu – e ele escreveu centenas. Cada uma é um Sermão da Montanha, uma Canção de Salomão, um Bhagavadgita. Cada parábola representa tanto e tão ricamente que é imensurável.

Lin Yutang cita Chuang Tzu mas cita-o como um Cristão, não como um homem que entende. Mas ele é certamente um bom escritor, e A Sabedoria da China deve ser colocado juntamente com aqueles poucos livros que representam todo um país, como o História da Filosofia Ocidental de Bertrand Russell, ou a Mente da Índia de Moorehead e Radhakrishnan. É história, não mistério, mas escrito lindamente, corretamente, incluindo a gramática e tudo.

Ele é apenas um Cristão, mas foi educado em uma escola convento. Ora, você pode pensar em um azar maior para uma criança do que uma escola convento? Então Lin Yutang está certo de todas as formas de acordo com os Cristãos, e errado de todas as formas de acordo com esse louco que está falando sobre ele. Mas mesmo assim o amo. Ele é talentoso. Não posso falar que é um gênio, perdoem-me, mas é talentoso, imensamente talentoso. Não peça mais que isso. Gênio ele não é – e não posso ser respeitoso, eu só posso ser verdadeiro. Posso ser absolutamente verdadeiro.

Terceiro, um livro que eu quis evitar mas parece que não consigo. Ele segue interferindo [NT. Expressão idiomática: poking its nose in]. É claro que é um livro Judeu; caso contrário onde você encontraria um nariz tão longo? O Talmud.

Por que quis evitá-lo? Se eu disser qualquer coisa contra os Judeus – como eu tenho feito e seguirei fazendo… Mas neste momento não quero falar nada contra os Judeus; apenas neste momento, como se fosse um feriado. É por isso que quis evitar esse livro.

Há apenas uma sentença bela nele, isso é tudo, então posso citá-la. Ela diz: Deus é terrível. Ele não é seu tio, não é simpático. Apenas essa sentença: Deus não é simpático e não é seu tio – isso eu amo. Isso é realmente excelente. Caso contrário todo o livro é apenas lixo. Em seu conjunto ele é muito primitivo, para ser jogado fora. Salve apenas essa sentença quando você estiver jogando-o fora. Escreva-a em seu quarto: Deus não é seu tio, ele não é simpático – lembre-se! Isso o trará de volta aos seus sentidos quando você começar a fazer coisas estúpidas para com sua mulher ou marido, seus filhos, seus servos… ou mesmo para si próprio.

Quarto: Eu nasci em uma família que pertencia a uma seção muito pequena do Jainismo. Ela segue um louco que deve ter sido apenas um pouco menos louco que eu. Eu não posso dizer mais louco que eu!

Falarei sobre os seus dois livros, que não estão traduzidos em Inglês, nem mesmo em Hindi, porque são intraduzíveis. Não acho que ele terá qualquer audiência internacional – impossível. Ele acredita na não-linguagem, na não-gramática, nada de nada. Ele fala exatamente como um louco. O quarto é o seu livro, Shunya Svabhava – A Natureza da Vacuidade.

São apenas algumas páginas, mas de tremenda significância. Cada sentença contém escrituras, mas são muito difíceis de entender. Vocês naturalmente perguntarão como pude entendê-las. Em primeiro lugar, assim como Martin Buber nasceu em uma família Hassida, eu nasci nessa tradição desse homem louco. O seu nome é Taran Taran. Não é seu nome real, mas ninguém sabe o seu nome real. Taran Taran simplesmente significa O Salvador. Taran Taran tornou-se o seu nome.

Eu o tenho respirado desde a minha infância, ouvido às suas músicas, me perguntado o que quis dizer. Mas uma criança nunca se preocupa com o significado. A canção era bela, o ritmo era belo, a dança era bela, e isso é suficiente. É preciso entender essas pessoas apenas se alguém for adulto; caso contrário, se desde a sua infância a pessoa estiver cercada pelo ambiente, essa pessoa não precisa entender e, entretanto, em suas entranhas ela entenderá.

Entendo Taran Taran – não intelectualmente, mas existencialmente. Ademais eu também sei o que ele está falando. Mesmo se eu não tivesse nascido em uma família de seus seguidores eu o teria entendido. Entendi tantas tradições diferentes – e não nasci em todas elas. Entendi tantos loucos que qualquer um ficaria louco apenas ao esforçar-se para entendê-los! Mas apenas olhe para mim: eles não me afetaram de jeito nenhum. Eles permaneceram, de alguma maneira, abaixo de mim. Eu permaneci transcendental a eles todos.

Ainda assim eu teria entendido Taran Taran. Eu poderia não ter tido contato com ele, isso é possível, porque os seus seguidores são muito poucos, apenas poucos milhares, e encontrados apenas nas partes centrais da Índia. E eles têm tanto medo porque são tão minoritários que não chamam a si mesmos de seguidores de Taran Taran, eles chamam-se Jainas. Secretamente eles acreditam, não em Mahavira como o restante dos Jainas acreditam, mas em Taran Taran, o fundador de sua seita.

O próprio Jainismo é uma religião muito pequena; apenas três milhões de pessoas acreditam nela. Há duas seitas principais: os Digambaras e os Svetambaras. Os Digambaras acreditam que Mahavira viveu nu – a palavra digambara significa ‘vestido de céu’; metaforicamente significa ‘o nu’. Essa é a seita mais antiga.

A palavra svetambara significa ‘vestido de branco’, e os seguidores dessa seita acreditam que embora Mahavira estivesse nu ele foi coberto pelos deuses com um pano branco invisível. Isso é um compromisso apenas para satisfazer aos Hindus.

Os seguidores de Taran Taran pertencem à seita Digambara, e eles são os mais revolucionários dos Jainas. Eles nem mesmo veneram às estatuas de Mahavira; os seus templos são vazios, significando à vacuidade interior. Seria quase impossível conhecer Taran se não pela chance de nascer em uma família que acreditava nele. Mas agradeço a Deus, valeu a pena nascer nessa família. Todos os problemas podem ser perdoados apenas por essa única coisa, que eles familiarizaram-me com um tremendo místico.

O seu livro Shunya Svabhana diz apenas uma coisa repetidas vezes, assim como um louco. Vocês me conhecem, vocês podem entender.  Eu estive falando a mesma coisa repetidamente por vinte e cinco anos. Eu disse repetidas vezes: Acorde! É isso o que ele faz em Shunya Svabhava.

Quinto: O segundo livro de Taran Taran, Siddhi Svabhava – A Natureza da Suprema Realização, um belo título. Ele diz a mesma coisa repetidas vezes: Esteja vazio! Mas o que o pobre sujeito pode fazer? Ninguém pode dizer mais nada. “Esteja acordado, esteja consciente…”

A palavra Inglesa ‘beware’ é criada a partir de duas palavras: ‘be aware’, seja consciente – então não tenha medo da palavra ‘beware’ [NT. cuide-se], apenas esteja consciente, e no momento em que você está consciente você chegou em casa.

Existem muitos livros de Taran Taran, mas esses dois contêm toda a sua mensagem. Um mostra a você quem você realmente é – pura vacuidade; o segundo, como você pode alcançá-la: ao tornar-se vigilante. Mas eles são livros muito pequenos, apenas algumas páginas.

Sexto… eu sempre quis falar sobre esse livro, mas tive medo de deixar escapar porque não há tempo. Eu não planejo, sempre sigo sem planos. Eu pensei em falar sobre cinquenta livros apenas, mas então veio o PS. e continuei. Outra vez cinquenta foram completados, mas ainda havia muitos livros belos que tive que continuar e começar o PPS. É por isso que agora posso falar desse livro. É o Notas do Subsolo de Dostoievsky.

É um livro muito estranho, tão estranho quanto o homem. Apenas notas – como as notas de Devageet, fragmentárias, à primeira vista não relacionadas entre si, mas realmente relacionadas com uma corrente subterrânea de vivacidade. É preciso meditar sobre elas. Não posso dizer nada mais que isso. É uma grande obra de arte e uma das mais ignoradas. Ninguém parece notá-la, pela simples razão que não é um romance, apenas notas, e elas parecem desconexas ao não-meditador. Mas para os meus discípulos elas podem ser de grande significância; eles podem encontrar tesouros escondidos nelas.

Continue sussurrando… eu não estou dizendo nada. Realmente eu não deveria ter dito isso. Isso também é um tipo de interrupção. Eu devo ficar mais alerta. Mas é muito difícil estar mais alerta do que estou. Um estado de alerta maior não existe de maneira alguma, então o que posso fazer? No máximo posso ignorá-lo. Eu ouvi até o seu risinho… mas, por favor, não surte para fora, surte para dentro.

Sétimo, um livro que chegou até mim de lugar nenhum. Eu não iria falar sobre ele, mas aqui está ele. Não tenha medo, e não surte para fora depois. Esse é um livro escrito por Ludwig Wittgenstein – não é realmente escrito como um livro, mas novamente notas. Ele foi postumamente publicado como Investigações Filosóficas. É um estudo realmente penetrante em todos os profundos problemas do ser humano. Naturalmente a mulher está incluída; caso contrário, de onde o homem encontraria seus profundos problemas. O problema real do homem é a mulher. Há um registro em que Sócrates diz: Se você casar com uma bela e boa mulher – que é rara – você terá sorte.

Esse livro, as Investigações Filosóficas de Ludwig Wittgenstein – eu o amo, a sua claridade, transparência, a sua racionalidade impecável. Eu o amo do início ao fim, e gostaria que todos no caminho passassem por ele… não da forma que as pessoas nos grupos de terapia crescem e “passam por ele” – não na dor. É isso que muitos sannyasins pensam, que passar pelo sofrimento é necessário; não o é, a escolha é de vocês. Vocês podem passar pelas bênçãos, pela bem-aventurança… cabe a vocês decidirem.

Então eu não quero dizer “passe por isso” no mesmo sentido que os supostos terapeutas humanistas querem dizer. Quando digo “passe por isso” quero dizer dance-o, ame-o. Eu posso estar certo literalmente, mas gramaticalmente estou errado. E é claro que estou errado, porque posso ouvir seu risinho. Desculpe, Devageet, porque ainda posso ouvir… Mas esta é uma interrupção da minha parte – e não quero que ninguém surte para fora, particularmente as pessoas próximas a mim, e as pessoas que não sabem que hoje estou aqui, amanhã talvez não esteja.

Devageet, um dia esta cadeira estará vazia e você estará chorando porque você surtou para fora. E posso parar a qualquer momento; então você se arrependerá. Você já sabe disso, mas você esqueceu. Por sete anos estive falando continuamente, mas um dia – você é uma testemunha disso – eu posso parar de repente. Posso parar a qualquer momento, talvez amanhã ou no dia depois de amanhã. Então não se preocupe de maneira alguma, qualquer coisa que faço, mesmo se te irrito ou perturbo, é por você, porque não tenho nada a ganhar com isso. Eu não tenho nada a ganhar no mundo todo. Eu já tenho aquilo que os seres humanos anseiam e vivem milhares de vidas para conseguir.

Oitavo: O oitavo é o livro… posso ouvi-lo chorando Devageet, e é bom de vez em quando. E chorar com o seu mestre… Os meus olhos estão cheios de lágrimas, e você está chorando. Há algum tipo de comunhão acontecendo. Por isso que para o oitavo livro escolhi a Psicossíntese de Assagioli.

Sigmund Freud fez um grande trabalho ao criar a psicanálise, mas ela é apenas metade. A outra metade é a psicossíntese criada por Assagioli – mas esta também é apenas metade, a outra metade. O meu trabalho é o todo: Psicotese.

Psicanálise e psicossíntese, estudar ambas essas ciências é útil. A psicossíntese é lida muito raramente porque Assagioli não é uma figura elevada como Freud; ele não foi capaz de atingir a mesma altura. Mas ele deve ser lido por todos os meus sannyasins. Não é que ele esteja certo e Freud errado; ambos são erradamente tomados separadamente. Eles estão certos apenas quando são colocados juntos. E esse é todo o meu trabalho: colocar todas as peças juntas como um quebra-cabeça.

Nono…sempre apreciei Khalil Gibran; eu gostaria de apreciá-lo ainda mais antes de condená-lo. Não se preocupem, eu não estou apenas dizendo a palavra condenar gentilmente, eu realmente estou dizendo-a. Nono é o livro de Khalil Gibran Poemas em Prosa – belo. Ninguém no mundo moderno, exceto Rabindranath Tagore, pode escrever tal poesia em prosa.

É estranho que ambos sejam forasteiros à língua Inglesa. Talvez seja por isso que eles possam escrever em uma linguagem tão poética. Eles vêm de línguas distintas: Khalil Gibran do Árabe, que é imensamente poética, poesia pura; e Rabindranath do Bengali, que é ainda mais poética do que o Árabe. De fato, se vocês verem dois Bengalis brigando ficarão surpresos porque pensarão que ambos trocam palavras de amor entre si. Vocês não serão capazes de conceber que estão brigando. Mesmo na briga o Bengali é poético.

Eu o sei pela minha própria experiência. Eu estive na Bengala e vi as pessoas brigando – pura poesia! Fiquei impressionado. Quando fui para Maharashtra eu vi as pessoas falando, fofocando e fiquei preocupado: elas estão brigando? A polícia deve ser informada? Marathi é uma língua tal que você não pode dizer nada doce nela. Ela é grossa, dura. É uma língua de luta.

É estranho que os Ingleses apreciaram tanto Khalil Gibran quanto Rabindranath, mas não aprenderam nada com eles. Eles não aprenderam o segredo do sucesso deles. Qual é o segredo do sucesso deles? A sua ‘poeticidade’.

Décimo: Este é um livro de Khalil Gibran que eu nunca quis condenar publicamente, porque amo o homem. Mas tenho que o fazer para que fique registrado que posso condenar um homem mesmo quando o amo, se as suas palavras não representam à verdade.

O livro é Pensamentos e Meditações. Ora, não posso concordar com ele, e, por causa disso eu sei que Khalil Gibran nunca soube o que é meditação. Nesse livro ‘meditações’ não são nada além de ‘contemplações’; somente assim elas podem ir juntas com os pensamentos. Ashu, você não tem que seguir com pensamentos, você tem que seguir com a meditação – comigo, não com Khalil Gibran. Então vá mais alto. A menos que você a atinja eu pararei de falar assim muito em breve. Quero afirmar a minha transcendência de todas as maneiras. Nenhum buda o fez antes. Quero ser um pioneiro.

Sou contra esse décimo livro porque sou contra o pensamento. Sou também contra ele porque Khalil Gibran utiliza a palavra meditação no sentido Ocidental. No Ocidente meditação simplesmente significa pensar sobre algo concentradamente. Isso não é meditação. No Oriente meditação significa não pensar de maneira alguma. Ela não tem nada a ver com ‘sobre isso ou aquilo’, ela é não-objetiva. Não há objeto nela, apenas pura subjetividade. Soren Kiekegaard diz: O núcleo mais profundo do ser humano é pura subjetividade. Isso é meditação.

 

CAPÍTULO 15

1984 na Casa Lao Tsé, Rajneeshpuram, Oregon, USA

Certo. O primeiro livro que falarei nesse PPS. é um que ninguém acharia que um dia eu falaria sobre. É a autobiografia de Mahatma Gandhi Minhas Experiências com a Verdade. Falar sobre os experimentos dele com a verdade é realmente maravilhoso. Este é o momento certo.

Ashu, continue; senão vou começar a condenar Mahatma Gandhi. Continue para que eu possa ser suave com o pobre homem. Até hoje eu nunca fui. Talvez você possa me ajudar a ser um pouco suave até mesmo com Mahatma Gandhi… embora eu saiba que é quase impossível.

Mas eu posso certamente falar algumas coisas belas. A primeira: ninguém escreveu a sua autobiografia com tanta sinceridade, com tanta autenticidade. É uma das autobiografias mais autênticas já escritas.

Uma autobiografia é uma coisa muito estranha: você está escrevendo sobre si próprio. Ou você começa a gabar-se ou começa a ficar muito humilde – apenas outra forma de gabar-se. Eu falarei sobre isso no meu segundo livro. Mas Mahatma Gandhi não fez nenhuma dessas duas coisas; ele é simples, apenas declarando factualmente, assim como um cientista… totalmente despreocupado que é a sua própria autobiografia. Ele diz tudo que uma pessoa gostaria de esconder dos outros. Mas o próprio título está errado. Não é possível experimentar a verdade. É possível conhecê-la ou não a conhecer, mas não é possível experimentar com ela.

A própria palavra experimento pertence ao mundo da ciência objetiva. Não é possível experimentar com a subjetividade, e esta é a verdade. Note que:

A subjetividade é irredutível a qualquer objeto de experimentação, observação.

A subjetividade é o fenômeno mais misterioso da existência e o seu mistério é que ela é sempre anterior. Qualquer coisa que você observe, não é ‘ela’… não é a subjetividade. A subjetividade é sempre a observadora e nunca o observado. Você não pode experimentar com a verdade, porque o experimento é possível apenas com as coisas, objetos, não com a consciência.

Mahatma Gandhi foi um homem sincero, bom, mas ele não era um meditador. E se uma pessoa não medita, não importa quão boa ela seja, tudo é inútil. Ele experimentou toda a sua vida e não alcançou nada. Ele morreu tão ignorante como sempre. É uma infelicidade, porque é muito difícil encontrar um homem de tanta integridade, sinceridade, honestidade, e com um tremendo desejo de conhecer a verdade. Mas esse próprio desejo tornou-se uma barreira.

A verdade é conhecida por pessoas como eu, que nem se preocupam com ela, que estão indiferentes mesmo em relação a própria verdade. Mesmo se Deus bater em minha porta, eu não a abrirei. Ele terá que descobrir a sua própria maneira de abri-la. A verdade vem para as pessoas preguiçosas. Por isso chamei a mim mesmo de Guia do Ser Humano Preguiçoso para a Iluminação. Agora posso adicionar uma coisa a mais para que fiquei completo: Eu sou o guia do ser humano preguiçoso para a iluminação, e para a não-iluminação também! Isso é ir além da iluminação.

Eu sinto muito pelo homem, embora eu tenha sempre criticado-o por sua política, sua sociologia, e toda a sua ideia estúpida de virar a roda do tempo para trás – você pode chamá-la de roda de fiar. Ele queria que o ser humano se tornasse primitivo novamente. Ele era contra toda tecnologia, até mesmo contra as pobres linhas férreas, o telégrafo, o sistema postal. Sem a ciência o ser humano seria um babuíno. O babuíno pode ser muito forte… mas um babuíno é um babuíno. O ser humano tem que ir em frente.

Oponho-me até ao título do livro porque não é apenas um título, ele sumariza toda a sua vida. Ele pensou que porque tinha sido educado na Inglaterra ele seria o perfeito Inglês Indiano – totalmente Vitoriano. Essas são as pessoas que vão para o inferno, os Vitorianos! Ele era cheio de etiqueta, cheio de manias, cheio de todas as formas de estupidezes Inglesas. Agora Chetana deve estar magoada. Chetana perdoe-me. É só por acaso que você está aqui e você me conhece – eu sempre encontro algo para golpear as pessoas.

Mas Chetana é afortunada: ela não é uma dama Inglesa, ela é uma aberração Osho! E ela vem de uma família Inglesa pobre, isso é muito bom. O seu pai era um pescador, simples. Ela não é esnobe; de outro modo as damas Inglesas, mais que os cavalheiros, sempre mantêm seus narizes para cima, como se sempre estivessem olhando as estrelas. Elas realmente fedem – fedem esnobismo!

Mahatma Gandhi foi educado na Inglaterra; talvez isso o tenha bagunçado. Talvez seria melhor se permanecesse sem educação, então não teria experimentado com a verdade, ele teria experienciado a verdade.

Experimentar com a verdade? Absurdo! Ridículo! Se alguém quer conhecer a verdade é preciso experienciá-la.

Segundo: as Confissões de Santo Agostinho. Agostinho foi a primeira pessoa a escrever a sua autobiografia sem medo, mas ele foi para o outro extremo. É por isso que aprecio Gandhi. Em suas Confissões Agostinho confessa muito – até mesmo os pecados que nunca cometeu! – apenas pela pura alegria do confessar. Que alegria! Pela pura alegria de dizer ao mundo que “não há nenhum pecado que não cometi. Eu cometi todo pecado que o ser humano é capaz de cometer.”

Isso não é verdade. Ninguém pode cometer todos os pecados. Ninguém é capaz disso, nem mesmo Deus. O que dizer de Deus, mesmo o próprio diabo vai começar a pensar como desfrutar dessas coisas que Agostinho está confessando! Agostinho exagerou!

O exagero é uma das doenças mais comuns entre os santos. Eles exageram tudo, até mesmo seus pecados; então, naturalmente, eles se tornam capazes de exagerar suas virtudes. Esta é a segunda parte da estória. Quando você exagera os seus pecados, certamente contra esse pano de fundo mesmo as suas pequenas virtudes parecem muito grandes, muito brilhantes – um relâmpago nas nuvens escuras. Essas nuvens escuras ajudam imensamente a mostrar o relâmpago. Sem pecado você não pode se tornar um santo. Quanto maiores os pecados, maior o santo – simples aritmética!

Mas ainda assim incluo o livro porque é escrito lindamente. Eu sou um tipo de homem, por favor note, deixe registrado, que mesmo se você mentir lindamente vou apreciá-la pela sua beleza. Não por ser uma mentira – quem se importa se é uma mentira ou não! A sua beleza a torna digna de desfrute, apreciação.

As Confissões é uma obra-prima das mentiras. Ele está cheio de mentiras. Mas o homem fez o seu trabalho quase perfeitamente. Eu digo quase perfeitamente porque sempre há a possibilidade de alguém fazer o trabalho ainda melhor. Mas ele o fez quase noventa e nove por cento perfeito; não sobrou muito escopo para ninguém. Sim, depois dele muitos tentaram, até mesmo um grande homem chamado Liev Tolstói. Eu falei sobre os seus livros Ressurreição e Guerra e Paz. Ao longo de toda a sua vida ele estava tentando escrever as suas próprias confissões; nisso ele não pôde ser bem-sucedido. Agostinho parece ser insuperável mesmo para um homem como Tolstói. Mas, Tolstói, por favor não surte para fora; eu o colocarei na minha lista.

Terceiro: o Anna Karenina de Liev Tolstói, um romance pequeno, mas imensamente belo. Vocês devem se perguntar por que devo incluir um romance em minha lista. Apenas porque sou louco! Eu gosto de todos os tipos de coisas. Anna Karenina é um dos meus livros mais amados. Quantas vezes o li não posso lembrar. Quero dizer o número de vezes – lembro-me do livro perfeitamente bem, posso contar o livro todo.

Olhe! Ashu deu um grande suspiro; ela deve ter-se preocupado; Agora esse louco vai contar todo o Anna Karenina! Seria belo estar com este belo livro. Ele deve ser lido e relido novamente; apenas então vocês o sentirão, sentirão o cheiro e provarão o sabor. Não é um livro ordinário.

Liev Tolstói falhou como santo, assim como Mahatma Gandhi falhou como santo, mas Liev Tolstói foi um grande romancista. Mahatma Gandhi foi bem-sucedido – e permanecerá para sempre – como um pináculo da sinceridade. Não conheço nenhum outro homem neste século que foi tão sincero. Quando ele escrevia para as pessoas ‘Sinceramente seu’ ele era realmente sincero. Quando vocês escrevem ‘sinceramente seu’, vocês sabem, e todo mundo sabe, e a pessoa que você está escrevendo também sabe, que isso é bobagem. É muito difícil, quase impossível, ser realmente ‘sinceramente seu’. É isso o que torna uma pessoa religiosa – a sinceridade.

Liev Tolstói queria ser religioso, mas não conseguiu. Ele tentou bastante. Sinto grande simpatia pelo seu esforço, mas ele não foi um homem religioso. Ele tem que esperar pelo menos algumas poucas vidas. De uma forma foi bom que ele não foi um homem religioso como Muktananda; caso contrário ele não teria alcançado Ressurreição, Guerra e Paz, Anna Karenina, e mais uma dúzia de livros belos, imensamente belos. Então ele seria outro Swami Idiotananda e nada mais.

Quarto, Ajit Sarasw… Ajit Mukherjee. Ele fez um grande serviço ao Tantra. Incluirei seus dois livros.

Quarto: Ajit Mukherjee A Arte do Tantra, e quinto, o seu outro livro As Pinturas do Tantra. O homem ainda está vivo e sempre o amei por esses dois livros, porque eles são obras-primas – as pinturas, a arte e os comentários que ele fez para as pinturas. As suas introduções são imensamente valiosas.

Mas o homem ele próprio parecer ser um pobre Bengali. Há alguns dias atrás ele encontrou Laxmi em Delhi. Ele veio vê-la e confessou que queria dar toda a sua coleção de Tantra para mim. Ele deve ter uma das mais valiosas e ricas coleções de pinturas do Tantra e da arte do Tantra. Ele disse para Laxmi, “Eu queria dar para ele porque é o único homem que será capaz de entender e conhecer o significado da coleção, mas tenho muito medo.” Ele disse, “Apenas associar-se de qualquer maneira com ele poderia criar problemas para mim, então eu finalmente doei toda a minha coleção de uma vida para o governo Indiano.”

Eu amei esses dois livros – mas o que dizer sobre esse homem: Ajit Mukherjee ou Aji Rato? [NT. Mouse] Que medo! – e com tal medo é possível entender o Tantra? Impossível! O que ele escreveu é apenas intelectual. Não é, não pode ser, do coração. Ele não tem coração. Eu sei que até mesmo um rato tem um coração no que diz respeito à fisiologia – mas não é um coração, é apenas pulmão. É apenas o ser humano que tem algo a mais que pulmões… um coração; e o coração cresce apenas no clima da coragem, no amor, na aventura. Que homem pobre! Ainda assim aprecio os seus livros. O rato fez uma obra tremenda. Esses dois livros sempre permanecerão de imensa significância para o Tantra e os buscadores da verdade. Mas esqueça e perdoe Ajit Rato – quero dizer Ajit Mukherjee.

Por favor lembre-se que não sou contra você, Ajit Mukherjee, nem contra ninguém. Não sou inimigo de ninguém no mundo, embora exista milhões de pessoas que me consideram como seu inimigo. Isso é problemas delas; não tenho nada a ver com isso. Ajit Mukherjee, eu te amo porque você serviu bem ao Tantra. O Tantra precisa de muitos eruditos, filósofos, pintores, escritores, poetas, para que a sabedoria antiga possa tornar-se viva novamente, e você ajudou um pouco.

Sexto – este é um livro que eu sempre quis falar sobre; está até agendado para as minhas falas matinais em Inglês. Eu já falei sobre ele em Hindi e também pode ser traduzido. O livro é de Shankaracharya – não o tolo atual, mas Adi Shankaracharya, o original.

O livro tem mil anos, e não é nada além de uma pequena canção: “Bhaj Govindam Moodh Mate – Ó Idiota…” Ora, Devageet, ouça com cuidado; eu não estou falando com você, esse é o título do livro. Bhaj Govindam – cante a música do Senhor – Moodh Mate, Ó Idiota. Ó Idiota, cante a música do Senhor.

Mas os idiotas não ouvem. Eles nunca ouvem a ninguém, eles são surdos. Mesmo se ouvirem eles não entendem. Eles são imbecis. Mesmo se puderem entender, não seguem; e a menos que sigam, o entendimento é insignificante. O entendimento é entendimento apenas quando ele é provado pelo seu seguir.

Shankaracharya escreveu muitos livros, mas nenhum deles é tão belo quanto essa canção: Bhaj Govindam Moodh Mate. Eu falei muito sobre essas três ou quatro palavras, quase três centenas de páginas. Mas vocês sabem o quanto amo cantar; se eu tivesse a oportunidade seguiria infinitamente. Mas quero pelo menos mencionar o livro aqui.

Sétimo, outro livro de Ludwig Wittgenstein. Ele também é um dos meus casos de amor. O nome do livro é Philosophical Papers. Não é um livro, mas sim uma coleção de artigos que apareceram em diferentes momentos. Todos os artigos são belos. Wittgenstein não poderia fazer diferente. Ele tinha aquela capacidade de produzir beleza sem ser ilógico, e também de escrever poesia em prosa. Não acho que alguma vez pensou em si mesmo como um poeta, mas o declaro um poeta de primeira ordem. Ele está na mesma categoria que Kalidas, Shakespeare, Milton ou Goethe.

Sétimo: A Carne e os Ossos do Zen, de Paul Reps. É uma grande obra – não é original no sentido que ele a tenha criado, mas embora não original ela é muito mais significante do que apenas uma tradução. Ela é uma categoria em si própria. Por um lado é original, por outro uma tradução. É uma tradução das antigas anedotas e escritos originais do Zen. Eu sei porque li quase todos os livros escritos sobre o Zen e nada se compara com o livro de Paul Reps. Ele capturou um vislumbre. Ele tem o mesmo sabor de Basho ou Rinzai.

O homem ainda está vivo em algum lugar da Califórnia. Ele coletou nesse livro não apenas anedotas Zen, mas também o Vigyan Bhairav Tantra – os cento e doze sutras de Shiva para Parvati, sua amada, nos quais Shiva fala sobre todas as chaves possíveis. Não posso conceber que exista qualquer coisa a mais para a meditação do que o Vigyan Bhairav Tantra. Cento e doze chaves são suficientes – elas parecem ser suficientes; cento e treze não parecerá o número certo. Cento e doze parece realmente esotérico, belo.

Esse livro é muito pequeno, você pode carregá-lo em seu bolso; é um livro de bolso. Mas você também pode carregar o Koh-i-Noor em seu bolso… embora o Koh-i-Noor esteja cravejado na coroa Inglesa e você não poder carregá-la em seu bolso. Mas a coisa mais bela sobre Paul Reps é que ele não adicionou nenhuma palavra sua – o que é incrível. Ele simplesmente traduziu – não apenas traduziu, ele trouxe a flor do Zen para a língua Inglesa. Esta flor não é encontrada em qualquer outro escritor que escreve em Inglês sobre o Zen. Até mesmo Suzuki não foi capaz de o fazer, porque era Japonês. Embora iluminado ele não pôde trazer o aroma da sua iluminação para os seus livros em Inglês. O Inglês de Suzuki é belo, mas muito não-iluminado, talvez eletrizado, mas absolutamente não-iluminado.

Paul Reps fez uma tarefa quase impossível, ser Americano e entretanto, repito, entretanto, capturar totalmente o aroma do Zen. E não apenas capturá-lo para si mas trazê-lo no A Carne e os Ossos do Zen para todo o mundo também. O mundo deve sempre ser-lhe grato, embora não seja uma pessoa iluminada. É por isso que digo que é uma tarefa quase impossível.

Nono… Estou esperando vocês elevarem-se um pouco mais, porque falarei sobre algo que pertence às alturas, às alturas supremas. Bom… mas não pare. Bom não significa parar,  simplesmente significa siga em frente, siga em frente… Charaiveti, Charaiveti.

A propósito, o livro que vou mencionar como o nono é o Zen Budismo de Christmas Humphreys. Originalmente ele gostaria de intitulá-lo Siga em Frente, Siga em Frente – como uma tradução de Charaiveti, Charaiveti – ou caminhe, caminhe. Mas um Inglês é sobretudo um Inglês; ele finalmente abandonou a ideia e chamou o seu livro de Zen Budismo.

O livro é belo, mas o título é feio porque o Zen não tem nada a ver com qualquer ‘ismo’. Budismo ou qualquer outro. Zen Budismo não está certo como um título. Apenas Zen seria o suficiente. Humphreys escreveu em seu diário que tinha escolhido Charaiveti, Charaiveti como a sua primeira preferência para o título, mas então pensou ser muito longo. Caminhe, Caminhe… Continue, Continue. Ele alterou o título e o tornou feio: Zen Budismo. Mas o livro é belo. Ele introduziu milhões de Ocidentais no mundo do Zen. Ele serviu tremendamente.

Esse homem Humphreys foi um discípulo de D.T. Suzuki e ele serviu ao mestre como ninguém mais o fez, particularmente no Ocidente. Ele permaneceu devoto a Suzuki por toda a sua vida.

Gudia estava me dizendo ontem que ela disse a Devageet que “se você viver com Osho como eu vivo por um mês, então você saberá o que é – difícil.” Eu certamente sei que é difícil. Estar com uma pessoa iluminada é difícil – e estar com alguém que foi além disso é ainda mais.

Mas Humphreys provou-se realmente um discípulo; ele permaneceu verdadeiro, leal e obediente a Suzuki até o final da vida deste e da sua própria. Ele não hesitou nem por um único momento. Vocês podem encontrar esse espírito inabalável no livro.

Décimo… o último dessa seção. É um livro muito pequeno, conhecido apenas por algumas poucas pessoas no mundo, mas ele precisa ser declarado do topo dos telhados para todos. É As Canções de Chandidas – um louco Bengali, um Baul. A palavra Baul significa louco. Chandidas dançou e cantou de vila em vila e ninguém sabe quem coletou suas músicas. Deve ter sido alguém com um espírito grande e generoso, tão generoso que ele próprio não mencionou o seu nome.

As Canções de Chandidas… sinto tanta reverência. Somente o nome de Chandidas e meu coração começa a pulsar com uma batida diferente. Que homem ele foi, e que poeta! Houve milhares de poetas, mas Chandidas é da mesma categoria de Salomão, não menos que isso. Se Salomão pode ser comparado com alguém então será com Chandidas.

As canções de Chandidas cantam coisas estranhas – de Deus que não existe. Chandidas também sabe que Deus não existe, mas ele canta sobre ele porque Deus representa apenas a existência. Deus não existe, ele é a existência.

Chandidas também canta de meditação, embora nada possa ser dito sobre meditação – mas ainda assim ele diz algo, algo que não pode ser ignorado. Ele diz: a meditação é equivalente à não-mente. Que fórmula tremenda! Albert Einstein teria inveja de Chandidas. Infelizmente Einstein não sabia nada de Chandidas nem de meditação. Um dos maiores homens da sua era, ele estava absolutamente inconsciente da meditação. Ele estava consciente de tudo, exceto de si próprio.

Chandidas canta músicas de amor, de vigilância, de beleza, de natureza. E existem poucas músicas que não se preocupam com nada; somente pura alegria, a própria alegria do cantar – o significado não é importante de maneira alguma.

Esse é o meu décimo e último livro de hoje.

 

CAPÍTULO 16

1984 na Casa Lao Tsé, Rajneeshpuram, Oregon, USA

 

Quantos livros eu falei sobre no PPS.? Hmmm?

“Quarenta, Osho.”

Quarenta?

“Sim, Osho.”

Vocês sabem que sou obstinado. Vou terminar com cinquenta não importa o que aconteça; caso contrário vou começar outro PPPS. Minha obstinação realmente compensou-me: ela ajudou-me muito a lutar contra todos os tipos de besteiras que o mundo está cheio. Ela foi uma tremenda ajuda ao salvar a minha própria inteligência contra a mediocridade que cerca a todos em todos os lugares. Então não me arrependo nem um pouco em ser obstinado, de fato, agradeço a Deus que tenha me feito dessa maneira: totalmente obstinado.

O primeiro livro é de Bennett, um Inglês, um perfeito Inglês. O livro é sobre um místico Indiano absolutamente desconhecido, Shivpuri Baba. O mundo o conheceu somente através do livro de Bennett.

Shivpuri Baba foi certamente uma das florações mais raras, particularmente na Índia onde tantos idiotas estão fingindo ser mahatmas. Encontrar um homem como Shivpuri Baba na Índia é realmente sorte ou um trabalho imenso de pesquisa. Existem quinhentos mil mahatmas na Índia; esse é o número real. Encontrar um homem real nessa multidão é quase impossível.

Mas Bennett foi um afortunado de muitas maneiras. Ele foi também o primeiro homem a descobrir Gurdjieff. Não foi nem Ouspensky nem Nicoll, foi ninguém mais que Bennett. Bennett encontrou Gurdjieff em um campo de refugiados em Constantinopla. Aqueles eram os dias da Revolução Russa. Gurdjieff teve que deixar a Rússia; no caminho ele tomou dois tiros antes de escapar. Os nossos estilos são diferentes, mas de uma maneira estranha o destino pode jogar o mesmo jogo novamente…

Gurdjieff em um campo de refugiados! – pensando nisso não posso acreditar que a humanidade possa decair tanto. Colocar um Buda, um Gurdjieff, Jesus ou Bodidarma em um campo de refugiados… Quando Bennett o descobriu Gurdjieff estava numa fila de comida. O alimento era fornecido apenas uma vez ao dia e a fila era longa. Havia milhares de refugiados que deixaram a Rússia porque os comunistas estavam matando as pessoas sem considerar quem matavam, ou para que. Vocês ficarão surpresos em saber que eles mataram quase dez milhões de Russos.

Como Bennett descobriu Gurdjieff? Gurdjieff sentado entre os seus discípulos não seria difícil de reconhecer, mas Bennett o reconheceu em roupas estragadas e sujas, sujas por vários dias. Como ele o reconheceu naquela fila? Aqueles olhos – ninguém pode escondê-los. Aqueles olhos – não importa se o homem está sentado em um trono dourado, ou em um campo de refugiados, eles são iguais. Bennett trouxe Gurdjieff para o Ocidente.

Ninguém agradece o pobre Bennett por isso, e há uma razão. É porque ele era um tipo de pessoa oscilante. Bennett nunca traiu Gurdjieff enquanto este estava vivo. Ele não ousou. Aqueles olhos eram demais; duas vezes ele viu o seu tremendo impacto. Ele reporta em seu livro sobre Gurdjieff – que não é um grande livro, é por isso que não estou contando-o, apenas me referindo a ele – Bennett diz: Eu fui até Gurdjieff cansado e exausto depois de uma longa jornada. Eu estava doente, muito doente, pensando que iria morrer. Eu fui vê-lo apenas para que antes de morrer eu pudesse ver aqueles olhos novamente… a minha última experiência.

Ele foi até o quarto de Gurdjieff. Gurdjieff olhou para ele, levantou-se, chegou perto e o abraçou. Bennett não podia acreditar – era o jeito de Gurdjieff. Se tivesse esbofeteado-o isso seria mais esperado, mas ele o abraçou! Mas havia algo a mais no abraço. No momento em que Gurdjieff o tocou, Bennett sentiu um tremendo aumento de energia. Ao mesmo tempo ele viu Gurdjieff ficando pálido. Gurdjieff sentou-se; então com grande dificuldade levantou-se e foi ao banheiro, dizendo para Bennett, “Não se preocupe, apenas espere dez minutos e estarei de volta, o mesmo de sempre.”

Bennett disse, “Nunca senti tamanho bem-estar, tamanha saúde, tamanho poder. Parece que posso fazer tudo.”

Muitas pessoas que usam drogas sentem – LSD ou maconha e outras drogas – que sob o seu impacto sentem que podem fazer qualquer coisa. Uma mulher pensou que podia voar, então ela voou pela janela no décimo terceiro andar de um prédio de Nova Iorque. Você pode concluir o que aconteceu. Nem mesmo os pedaços da mulher foram encontrados.

Bennett disse, “Sentia que podia fazer qualquer coisa. Naquele momento entendi a famosa declaração de Napoleão: Nada é impossível. Não apenas entendi, senti que podia fazer qualquer coisa que quisesse. Mas eu sabia que fora a compaixão de Gurdjieff. Eu estava morrendo e ele me salvou.”

Isso aconteceu duas vezes… novamente alguns anos depois. No Oriente isso é chamado “a transmissão”; a energia pode pular de uma chama para outra lâmpada que está morrendo. Mesmo que essas experiências tão grandes tenham ocorrido com ele, Bennett era um homem oscilante. Ele não podia hesitar e trair como Ouspensky, mas quando Gurdjieff morreu, então ele traiu. Ele começou a buscar outro mestre. Que azar! – quero dizer, que azar para Bennett. Foi bom para os outros, porque foi assim que ele encontrou Shivpuri Baba. Mas Shivpuri Baba, por maior que seja, não é nada comparado com Gurdjieff. Não posso acreditar em Bennett. E ele era um cientista, um matemático… somente isso me dá uma pista. O cientista quase sempre se comporta como um tolo fora da sua área específica.

Sempre defini ciência como ‘conhecer mais e mais sobre menos e menos’, e religião como ‘conhecer menos e menos sobre mais e mais’. A culminação da ciência será conhecer tudo sobre nada e a culminação da religião será conhecer tudo – não conhecer sobre tudo, simplesmente conhecer; não sobre, apenas conhecer. A ciência terminará na ignorância; a religião terminará na iluminação.

Todos os cientistas, até mesmos os grandes, provaram-se tolos de muitas formas fora da sua área específica. Eles se comportam infantilmente. Bennett foi um cientista e matemático de reputação, mas vacilou, não alcançou. Ele começou a buscar por outro mestre novamente. E ele também não ficou com Shivpuri… Shivpuri Baba era um homem muito velho quando Bennett o encontrou. Ele tinha quase cento e dez anos de idade. Ele era realmente feito de aço. Ele viveu por quase um século e meio. Ele tinha dois metros de altura, cento e cinquenta anos e, ainda assim, não havia sinal que ele morreria. Ele decidiu abandonar o seu corpo – foi sua decisão.

Shivpuri era um homem silencioso, ele não ensinava. Particularmente um homem que conheceu Gurdjieff e seu tremendo ensinamento acharia muito ordinário estar com Shivpuri Baba. Bennett escreveu seu livro e começou a buscar novamente por um mestre. Shivpuri Baba ainda não estava nem morto.

Então, na Indonésia, Bennett encontrou Mohammed Subud, o fundador do movimento chamado Subud. Subud é uma forma curta de sushil-buda-darma; é apenas as primeiras letras dessas três palavras. Que tolice! Bennett começou a apresentar Mohammed Subud, um homem muito bom, mas não um mestre… nada comparado com Shivpuri Baba; nenhuma questão surge em relação a Gurdjieff. Bennett trouxe Mohammed Subud ao Ocidente e começou a apresentá-lo como sucessor de Gurdjieff. Agora isso é total estupidez!

Mas Bennett escrevia lindamente, matematicamente, sistematicamente. O seu melhor livro é Shivpuri Baba. Embora Bennett fosse um tolo, mesmo se você permitir que um macaco sente-se em uma máquina de escrever de vez em quando ele pode surgir com algo belo – talvez uma declaração que apenas um buda poderia fazer – apenas ao tocar as teclas da máquina de escrever aqui e ali. Mas ele não entenderá o que escreveu.

Bennett continuou seu caminho. Logo ele ficou desiludido com Mohammed Subud e começou a buscar ainda outro mestre. Pobre sujeito, toda a sua vida ele buscou e buscou desnecessariamente. Ele já tinha encontrado o homem certo em Gurdjieff. Ele escreveu sobre Gurdjieff, e o que diz é belo, eficiente, mas seu coração é sombrio, não há luz nele. Ainda assim conto o seu livro como um dos melhores. Vocês podem ver que sou imparcial.

Segundo: um livro estranho, ninguém o lê. Vocês podem nunca ter ouvido falar dele, apesar de ter sido escrito na América. O livro é Escuta, Zé Ninguém de Wilhelm Reich. É um livro muito pequeno, mas ele me lembra do Sermão da Montanha, do Tao Te Ching, Assim Falou Zaratustra, O Profeta. Em realidade Reich não tinha o nível para escrever tal livro, mas ele deve ter sido possuído por algum espírito desconhecido.

Escuta, Zé Ninguém criou muito antagonismo em relação a Reich, particularmente entre os psicanalistas profissionais, seus colegas, porque ele estava chamando todo mundo de ‘zé ninguém’ – e ele pensava que era grande? Quero dizer para vocês: ele era! Não no sentido de um buda, mas no mesmo sentido de Sigmund Freud, Carl Gustav Jung, Assagioli. Ele pertence a mesma categoria. Ele foi um grande homem – é claro que ainda um homem, não um super-homem, mas excelente. E não foi a partir do seu egoísmo que esse livro nasceu; ele não podia fazer nada, ele teve que escrevê-lo. É quase como uma mulher que está grávida, ela tem que parir a criança. Ele carregou esse pequeno livro consigo por anos, resistindo à ideia de escrevê-lo porque sabia perfeitamente bem que criaria um inferno para si. E assim o fez. Depois desse livro ele foi condenado em todos os lugares.

Criar algo grande nesse mundo é um crime. O ser humano não mudou de maneira alguma. Sócrates é morto, Reich é morto. Nenhuma mudança. Reich foi condenado como louco e encarcerado. Ele morreu na prisão, condenado, reduzido a um louco. Ele tinha a capacidade de elevar-se sobre as nuvens, mas não teve permissão. A América ainda tem que aprender a viver com pessoas como Sócrates, Jesus, Buda.

Esse livro deve ser meditado por todos os meus sannyasins. Eu o recomendo sem nenhuma condição.

O terceiro é um livro escrito por Bertrand Russell e Whitehead conjuntamente. Ninguém o lê. O título é Principia Mathematica. Apenas o nome é suficiente para que as pessoas tenham medo, e o livro deve ser o mais difícil que existe. Por isso trabalho com esse livro o máximo possível. Qualquer coisa difícil sempre me seduz. O livro é encantador e desafiador, mas não o recomendo para os meus sannyasins. Evite-o! Passei por essas milhares de páginas e não encontrei nada exceto matemática. A menos que você esteja interessado em matemática, particularmente a matemática superior… isso é outra questão. Quero inclui-lo porque é uma obra-prima – da matemática.

Quarto… é esse o número?

“Sim, Osho.”

Vocês ficarão surpresos que a minha quarta escolha seja a Poética de Aristóteles. Eu já nasci inimigo de Aristóteles. Eu chamo o homem de Aristot-ilitis… um tipo de doença, incurável. Devaraj, não há remédio para ela. Asheesh, sua enxaqueca não é nada! Obrigado Deus que você não esteja sofrendo de Aristotilitis; isso é um câncer real.

Pensa-se que Aristóteles é o pai da filosofia Ocidental e da lógica. Ele certamente o é, mas apenas da filosofia e da lógica, não da coisa real. A coisa real vem de Sócrates, Pitágoras, Plotino, Diógenes e Dionísio, mas não de Aristóteles. Mas é estranho: ele escreveu um livro belo – e esse é um dos livros que não é estudado pelos eruditos aristotélicos – A Poética. Tive que procurar entre seus muitos livros. Eu estava procurando para ver se eu poderia encontrar algo belo nesse homem também e quando encontrei A Poética, um livro de apenas algumas páginas, fiquei excitado. O homem também tinha um coração. Ele escreveu todo o resto a partir da sua cabeça, mas esse livro foi do coração. É claro que ele é sobre a essência da poesia – a poética – e a essência da poesia não pode ser outra coisa do que a essência do amor. É a fragrância não do intelecto, mas da intuição. Recomendo esse livro.

Quinto. Há tantos livros na minha frente que é muito difícil escolher, mas escolho Os Três Pilares do Zen de Ross. Muitas pessoas escreveram sobre o Zen – incluindo Suzuki, que sabe mais que todos – mas Os Três Pilares do Zen é o mais belo livro escrito sobre o Zen. Lembre-se da minha ênfase, sobre, porque Ross não tinha experiência com ele. De fato, isso o fez ainda mais maravilhoso: que sem qualquer experiência, apenas de estudar livros e visitar monastérios no Japão ela escreveu uma obra-prima.

Há apenas uma coisa que eu gostaria de dizer para Ross: no Zen não existem três pilares, nem mesmo um único pilar. O Zen não tem pilar. Não é um templo, é pura não-coisidade. Ele não precisa de pilares de maneira alguma. Se ela publicar o livro novamente ela deve alterar o título. Os Três Pilares do Zen parece bom, mas não é verdadeiro ao espírito do Zen. Mas o livro é escrito de uma maneira muito científica. Aqueles que querem entender o Zen intelectualmente não podem encontrar um livro melhor.

Sexto: A minha escolha para o sexto é o livro de um homem estranho. Ele chama a si próprio de ‘M’. Eu sei o seu nome real, mas ele nunca permitiu que ninguém o soubesse. O seu nome é Mahendranath. Ele foi um Bengali, um discípulo de Ramakrishna.

Mahendranath sentou-se aos pés de Ramakrishna por muitos anos e seguiu escrevendo qualquer coisa que acontecesse em torno do seu mestre. O livro é conhecido como O Evangelho de Ramakrishna, mas escrito por M. Ele nunca quis revelar o seu nome, ele queria permanecer anônimo. Esta é a forma de um discípulo verdadeiro. Ele eclipsa a si mesmo totalmente.

No dia em que Ramakrishna morreu, vocês ficarão surpresos, M também morreu. Não havia mais motivos para ele viver. Eu posso entender… depois de Ramakrishna seria muito mais difícil viver do que morrer. A morte era mais bem-aventurada do que viver sem o seu mestre.

Muitos mestres já existiram, mas nunca houve um discípulo como M para reportar sobre o mestre. Ele não aparece nunca. Ele estava apenas reportando – não sobre si próprio e Ramakrishna, mas apenas sobre Ramakrishna. Ele não existe mais na frente do mestre. Amo esse homem e seu livro, e seu tremendo esforço de obliterar-se. É raro encontrar um discípulo como M. Ramakrishna foi muito mais afortunado do que Jesus. Eu sei o seu nome real porque viajei para Bengala e Ramakrishna estava vivo no final do último século, então pude descobrir o nome desse homem Mahendranath.

Sétimo. Houve um místico Indiano no início desse século. Não acho que ele foi um homem iluminado, porque ele cometeu três erros: caso contrário as suas obras coletadas são belas, pura poesia… mas esses três erros devem ser lembrados. Até um homem como Rama Tirtha também pode cometer tais erros estúpidos.

Ele estava na América. Ele era um homem de carisma e era venerado. Quando ele voltou para a Índia ele pensou em ir primeiro para Varanasi, a cidadela da religião Hindu, a Jerusalém, a Mecca dos Hindus. Ele estava certo que se os Americanos o veneravam tanto, então certamente os brâmanes de Varanasi o venerariam como um deus. Ele estava errado. Quando ele falou em Varanasi um brâmane levantou-se e disse, “Antes de você prosseguir, por favor, responda a minha questão. Você sabe Sânscrito?”

Rama Tirtha estava falando sobre a realidade suprema e esse brâmane lhe perguntou, “Você sabe Sânscrito? Se você não sabe então não tem o direito de falar sobre a realidade suprema. Primeiro vá estudar Sânscrito.”

Não havia nada errado com o brâmane; em todo o mundo os brâmanes são assim. O que me surpreende é que Rama Tirtha começou a estudar Sânscrito. Isso me choca. Ele deveria ter dito ao brâmane, “Sai fora, juntamente com todos os seus Vedas e seu Sânscrito! Eu não ligo. Eu conheço a verdade, por que preocupar-me-ia com o Sânscrito?”

Rama Tirtha não sabia Sânscrito, isso é verdade, e não há necessidade também – mas ele sentiu a necessidade. Essa é a primeira coisa que quero que vocês se lembrem. Os seus livros são muito poéticos, estimulantes, extáticos, mas o homem estava perdido em algum lugar.

Segundo: quando sua esposa veio vê-lo do distante Punjabi ele recusou. Ele nunca recusou nenhuma mulher, por que recusaria a sua própria esposa? Porque ele tinha medo. Ele ainda está apegado. Sinto muito por ele: renunciar à sua esposa, ainda com medo.

Terceiro, ele cometeu suicídio – embora os Hindus não o chamem assim, eles o chamam ‘dissolver-se no Ganges.’ Belos nomes podem ser dados para coisas feias.

Exceto por essas três coisas os livros de Rama Tirtha são valiosos, mas se vocês esquecerem essas três coisas poderão pensar que ele é iluminado. Ele fala como se fosse um homem iluminado, mas é apenas ‘como se’.

Oitavo: Principia Ethica de G.E.Moore. Eu amei esse livro. É um grande exercício de lógica. Ele gasta duzentas ou mais páginas apenas considerando uma questão: O que é o bem? – e chega à conclusão que ‘bem’ é indefinível. Ótimo! Mas ele fez sua lição de casa, ele não pulou para a conclusão como os místicos o fazem. Ele era um filósofo. Ele foi passo a passo, gradualmente, mas ele chegou a mesma conclusão que os místicos.

O bem, a beleza e Deus são indefiníveis. De fato, tudo aquilo que tem qualquer valor é indefinível. Note: se qualquer coisa pode ser definida isso significa que é sem valor. A menos que você chegue ao indefinível, você não chegou a nada de valioso.

Nono… Deixei As Canções de Rahim de fora da minha lista, mas não posso mais. Ele era Islâmico, mas as suas canções são escritas em Hindi, por isso os Islâmicos não gostam dele, eles nem ligam para ele. Os Hindus não gostam dele porque ele era Islâmico. Talvez eu seja a única pessoa que o respeita. O seu nome completo é Rahim Khan Khana. As suas canções são do mesmo nível e mesma profundidade de Kabir, Meera, Sahajo ou Chaitanya. Por que ele escreveu em Hindi? Sendo um Islâmico ele poderia ter escrito em Urdu, e o Urdu é uma linguagem muito mais bela que o Hindi. Mas ele escolheu conscientemente; ele queria lutar contra a ortodoxia Islâmica.

Décimo, Mirza Ghalib, o maior poeta Urdu – e não apenas o maior poeta Urdu, mas talvez não haja outro poeta em qualquer língua do mundo que possa ser comparado a ele. O seu livro é chamado Divan. Divan simplesmente significa uma coleção de poemas. Ele é difícil de ler, mas se vocês puderem fazer um mínimo de esforço ele retribui imensamente. É como se cada linha contivesse um livro inteiro. E essa é a beleza do Urdu. Penso que nenhuma outra língua contém tanto em um espaço tão pequeno. Apenas duas sentenças são suficientes para conter todo um livro. É mágico! Mirza Ghalib é o mago dessa língua.

Décimo primeiro e o último – O Livro de Alan Watts. Eu tenho dito. Alan Watts não foi um buda, mas ele poderá ser um dia. Ele se moveu mais perto disso. O Livro é tremendamente importante. É o seu testamento, toda a sua experiência com os mestres Zen, com os clássicos Zen. E ele é um homem de uma tremenda inteligência; ele também era um alcoólatra. A inteligência mais o vinho criou realmente um livro suculento. Eu amei O Livro e o guardei para o último lugar.

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