Dhammapada: O Caminho do Buda, Vol 2. Cap 8, OSHO

O Dhammapada: O Caminho do Buda, Vol 2

Capítulo #8

Título do Capítulo: Deus ama o riso

9 de Julho de 1979 na Sala Buda

A primeira questão:

Questão 1

AMADO MESTRE,

NO OCIDENTE FUI TREINADO COMO UM ASSISTENTE SOCIAL. FUI ENSINADO QUE É IMPORTANTE QUE UMA PESSOA RESPEITE E AME A SI PRÓPRIA E SINTA-SE DIGNA. FUI ENSINADO QUE É IMPORTANTE DAR SUPORTE PARA AJUDAR A FORTALECER O EGO. VOCÊ DIZ: MATE O EGO. ESTOU CONFUSO.

Prem Aradhana, o ego é necessário porque o verdadeiro eu não é conhecido. O ego é um substituto, é uma pseudo-entidade. Porque você não conhece a si mesmo você tem que criar um centro artificial; caso contrário funcionar na vida seria impossível. Porque você não conhece a sua face real, você tem que vestir uma máscara. Sem conhecer o essencial, você tem que confiar na sombra.

Há apenas duas formas de viver na vida. Uma é viver a partir do próprio núcleo do seu ser – este é o caminho dos místicos. A meditação não é nada além de uma estratégia para torná-lo consciente do seu eu real – que não é criado por você, que não precisa ser criado por você, que você já é. Você nasce com ele, você é isso! Ele precisa ser descoberto. Se isso não for possível, ou se a sociedade não permitir que isso ocorra… e nenhuma sociedade permite que isso ocorra, porque o eu real é perigoso – perigoso para a igreja estabelecida, perigoso para o estado, perigoso para o público, perigoso para a tradição – porque uma vez que um ser humano conhece o seu eu real, ele torna-se um indivíduo. Ele não pertence mais à psicologia da multidão; ele não será supersticioso e não pode ser explorado. Ele não pode ser conduzido como gado, não pode ser ordenado nem comandado. Ele viverá de acordo com sua luz, ele viverá a partir da sua própria interioridade. A sua vida terá uma tremenda beleza, integridade. Mas esse é o medo da sociedade.

Pessoas integradas tornam-se indivíduos e a sociedade quer que você seja não-individual. Em vez da individualidade, a sociedade te ensina a personalidade. A palavra ‘personalidade’ tem que ser entendida. Ela vem da raiz ‘persona’ – persona significa uma máscara. A sociedade te dá uma falsa ideia de quem você é; ela te dá apenas um brinquedo e você segue apegado ao brinquedo por toda a sua vida.

O outro caminho é viver através da meditação – então você vive uma vida de rebelião, de aventura, de coragem. Então você realmente vive! A outra forma de viver, ou de fingir viver, é o caminho do ego – fortalecer o ego, nutrir o ego; para que você não precise olhar para o ser, apegue-se ao ego. O ego é um artefato criado pela sociedade para enganá-lo, para distraí-lo.

O ego é criado pelo ser humano, é manufaturado por nós. E porque é manufaturado pela sociedade, a sociedade tem poder sobre ele. Porque é manufaturado pelo estado, pela igreja e por aqueles que estão no poder, eles podem destruí-lo a qualquer momento; o ego depende deles. Você tem que estar constantemente com medo, tem que constantemente obedecê-los, conformar-se a eles, então o seu ego permanece intacto. A sociedade te dá respeito se você não é um indivíduo. A sociedade te honra se você não é um Jesus, não é um Sócrates, não é um Buda. Ela te respeita apenas se você for uma ovelha, não um ser humano.

O Ocidente esqueceu completamente como meditar – e o Cristianismo é a razão. O Cristianismo criou uma religião muito falsa, que não conhece nada de meditação. O Cristianismo é muito formal; é um ritual. É parte da sociedade e da estrutura política da sociedade. Karl Marx está perfeitamente certo em relação à religião, que ela é o ópio das pessoas. Por causa do Cristianismo, o Ocidente perdeu a trilha do seu próprio ser. E não é possível viver sem alguma ideia de si próprio – e se você não pode descobrir, então crie algo. Será falso, mas algo é melhor do que nada.

Aradhana, o que lhe disseram é pura bobagem. Não importa quem falou isso – as universidades, os políticos, os sacerdotes. Certamente você se sente confuso, porque estou dizendo a você exatamente o oposto: estou dizendo para você abandonar o ego, porque se você abandonar o ego, você abandonará a rocha que está prevenindo o fluxo da sua consciência.

A sua consciência está ali, logo atrás da rocha; ela não tem que ser trazida de outro lugar. Remova a rocha – a religião real consiste apenas na remoção do que é desnecessário, e então o necessário começa a fluir. Aquilo que é desnecessário deve ser removido. E o essencial já está ali, ele já existe! Você remove a rocha e ficará surpreso: você não precisa criar o eu real – ele se revela para você.

E o real tem beleza, o real é imortal. Porque é imortal não teme. O irreal está constantemente tremendo. O ego está sempre em perigo – qualquer um pode destruí-lo. Porque ele te foi dado pelos outros, eles podem pegá-lo de volta. Hoje eles te respeitam, amanhã eles podem não respeitá-lo. Se você não seguir a ideia de vida deles, se você não confirmar o estilo de ser deles, eles retirarão o seu respeito. E você cairá por terra… você não saberá quem você é.

Borges escreveu:

“Sonhei que estava acordando de outro sonho – cheio de cataclismos e agitações – e que eu acordava em um quarto irreconhecível. Amanhecia: uma fraca luz difusa delineava o pé de ferro da cabeceira, a mesa. Pensei temeroso ‘Onde estou?’ e realizei que não sabia. Pensei ‘Quem sou eu?’ e não podia reconhecer a mim mesmo. O medo cresceu dentro de mim. Pensei, ‘Este despertar angustiante já é o inferno, este despertar sem um futuro será minha eternidade.’ Então realmente acordei, tremendo.”

Não conhecer a si mesmo, não conhecer o próprio destino, isso certamente é o inferno real. E o ser humano não conhece a si mesmo. Ora, o caminho mais fácil é criar o ego, e o Ocidente seguiu o caminho mais fácil. E não apenas o Ocidente: a maioria das pessoas no Oriente, também, tem feito o mesmo. Tire algumas pessoas iluminadas e todo o mundo está fazendo o mesmo.

O Ocidente consiste de noventa e nove ponto noventa e nove por cento do mundo; o Oriente consiste apenas de algumas pessoas, elas podem ser contadas nos dedos. Para mim, o Oriente e o Ocidente não são geográficos – eles são dimensões espirituais. Gautama o Buda, Lao Tsé, Zaratustra, Abraão, Moisés, Cristo, São Francisco – o Oriente consiste dessas pessoas. Onde elas nasceram é imaterial, é irrelevante. Certamente São Francisco não nasceu no Oriente, mas conto-o como parte do Oriente.

A dimensão espiritual, a dimensão onde o sol interior se eleva, é o Oriente. E a noite escura da alma, que não conhece nada do nascer do sol, é o Ocidente. Você não se torna religioso apenas ao nascer na Índia. A religião não é tão barata. É a coisa mais custosa da existência, porque é a mais preciosa. Não há atalho para ela e aqueles que buscam atalhos necessariamente serão enganados por alguém. Brinquedos lhe serão dados e você pode seguir acreditando em brinquedos porque não quer arriscar uma aventura no desconhecido.

O maior desconhecido existe no seu interior. O maior oceano inexplorado é a sua consciência e o mais perigoso também, porque quando você começa a mover-se para dentro, você começa a cair na vacuidade e um grande medo surge, o medo de ficar louco, o medo de perder a sua identidade… porque você conheceu a si próprio como um nome, você conheceu a si próprio como uma pessoa particular – você conheceu a si próprio como um doutor, como um engenheiro, como um empresário; você conheceu a si próprio como um Indiano, um Alemão, um Chinês; você conheceu a si próprio como negro ou branco; você conheceu a si próprio como homem ou mulher; você conheceu a si próprio como educado ou sem instrução – todas essas categorias começam a desaparecer.

Conforme você se move para dentro, você não é nem homem nem mulher: neti, neti – nem isso nem aquilo, nem branco nem negro, nem Hindu nem Islâmico, nem Indiano nem Paquistanês. Conforme você se move para dentro, todas essas categorias começam a escorrer das suas mãos. Então quem você é? Você começa a perder a noção do seu ego e surge um grande medo – o medo da não-existência. Você está caindo na infinitude. Quem sabe se você será capaz de voltar ou não? E quem sabe qual será o resultado dessa exploração? O covarde apega-se à praia e esquece tudo sobre o oceano. É o que está acontecendo por todo o mundo. As pessoas apegam-se ao ego porque o ego lhe dá uma certa ideia de quem você é, lhe dá uma certa claridade. Mas o ego é falso e a claridade é falsa.

É melhor estar confuso com a realidade do que claro com a irrealidade.

Aradhana, você está certo: comigo uma grande confusão necessariamente ocorrerá – porque todo o seu conhecimento, vagarosamente, provar-se-á simples ignorância e nada mais. Escondido por detrás do seu conhecimento está a sua ignorância. Escondido por detrás da sua argúcia está a sua mente estúpida. E por detrás do ego não há nada – ele é uma sombra.

Uma vez que isso fique claro para você, que você esteve apegado a uma sombra, um grande medo e uma grande confusão, um grande caos inevitavelmente ocorrerão. Mas as estrelas nascem do caos. É preciso passar pelo caos – isso é parte do crescimento espiritual. Você tem que perder o falso para ganhar o verdadeiro. Mas entre os dois haverá um intervalo quando o falso se foi e o verdadeiro ainda não chegou. Esses são os momentos, os momentos mais críticos… esses são os momentos em que você precisa de um mestre ou um amigo.

Há alguns dias atrás Buda estava dizendo, “Um mestre ou um amigo é necessário.” Esses são os momentos em que você precisa da mão de alguém que pode segurá-lo, que pode suportá-lo, que pode dizer, “Não tenha medo. Esse vazio desaparecerá. Em breve você estará transbordante – apenas um pouco mais de espera, um pouco mais de paciência.” O mestre não pode lhe dar nada, mas ele pode lhe dar coragem. Ele pode lhe dar a sua mão nesses momentos críticos quando a sua mente gostaria de recuar, de voltar-se para trás, de apegar-se novamente à praia.

A alegria do mestre, a sua confiança, a sua autoridade… lembre-se, quando digo “sua autoridade” não quero dizer que o mestre é um autoritário. Um mestre nunca é autoritário, mas ele tem autoridade, porque é uma testemunha do seu próprio ser. Ele conhece a outra margem, ele esteve na outra margem. Você apenas ouviu falar da outra margem, você leu sobre ela; você conhece somente esta margem, o conforto, a segurança e a proteção desta margem. E quando as tempestades assolam e você começa a perder a visão desta margem, você não é capaz de ver a outra margem, a sua mente dirá, “Volte! Volte o mais rápido possível! A velha margem está desaparecendo e a nova não está aparecendo. Talvez não haja nada na outra margem, talvez não há outra margem de forma nenhuma. E a tempestade é grande!”

Nesses momentos, se você está com um mestre e alguém está sentado silenciosamente no barco, totalmente calmo e quieto, dando risada e dizendo, “Não se preocupe,” tocando sua flauta, cantando uma música ou contando uma piada, e ele diz, “Não se preocupe. A outra margem existe – eu sei, eu já estive lá. Apenas um pouco de paciência…”

Olhando para os seus olhos… em sua absoluta confiança estará a única ajuda. Vendo a sua calma, a sua quietude, a sua integridade… Ele não está olhando para trás, ele não tem medo: ele deve ter visto a outra margem, ele já deve ter estado lá. Todo o seu ser está dizendo isso, todo o seu ser é a prova disso. E quando ele segura a sua mão você pode sentir que a sua mão não está tremendo; você pode sentir que qualquer coisa que ele diz, ele diz a partir da sua própria experiência, não porque está escrito na Bíblia, na Gita, no Dhammapada. Ele sabe por si próprio! – esta é a sua autoridade.

Uma vez que a confidência dele, a sua confiança, torna-se contagiosa em você, você também começará a rir. Você pode começar a cantar com ele, talvez apenas para evitar o medo, assim como as pessoas assoviam no escuro. Você pode juntar-se à sua dança, apenas para esquecer tudo o que está ocorrendo. Você não quer ver a tempestade ao seu redor, não quer relembrar o passado e não quer pensar sobre o futuro. Eles parecem sombrios e lúgubres. Você pode juntar-se à sua dança…

Dançando com ele, mesmo que a partir do medo, cantando com ele, mesmo que o seu cantar seja necessariamente nervoso, rindo com ele embora seu riso não seja total, a tempestade logo passará. Quanto maior for a sua paciência, mais cedo acontecerá – você será capaz de ver a outra margem, porque quando os olhos não estão perturbados, quando os olhos não estão cheios de medo, eles se tornam perceptivos. Uma visão surge em você – você se torna um vidente.

A outra margem não está longe; apenas os seus olhos estão tão cheios de fumaça que você não pode ver. De fato, esta própria margem é a outra margem. Se os seus olhos estão claros, se a sua percepção não estiver nublada, se o seu discernimento surgiu em seu ser, se você ver e ouvir, esta própria margem é a outra margem. Quando uma pessoa sabe ela rirá de todo o ridículo da vida – porque nós já temos aquilo que ansiamos. O tesouro está conosco e estamos correndo de um lado para outro.

O ego não deve ser criado, porque você tem o ser supremo no seu interior.

Mas posso entender a sua confusão. Permaneça confuso. Não volte para a sua antiga claridade – ela é enganosa. Esteja nessa confusão, esteja comigo um pouco mais, e, em breve, a confusão dispersará e desaparecerá. E então chegará um tipo totalmente novo de claridade. Existem dois tipos de claridade – uma, que é simplesmente intelectual, que a qualquer momento pode ser retirada, a dúvida pode ser criada a qualquer momento… o intelecto está cheio de dúvida. Qualquer coisa que você já ouviu e qualquer coisa que já te falaram foram retiradas facilmente por mim; não era de muito valor. Todo o treinamento da sua vida e eu tirei a terra debaixo dos seus pés tão facilmente… e você está confuso. Qual valor tal claridade tem? Se posso confundi-lo tão facilmente, isso quer dizer que não era uma claridade real. Dar-te-ei um novo tipo de claridade que não pode ser confundida.

Certa vez um grande filósofo foi ver Ramakrishna. O filósofo argumentou contra Deus, e argumentou realmente bem. Seu nome era Keshav Chandra Sen. Ramakrishna era totalmente ignorante; ele não sabia nada de filosofia, ele nunca foi à universidade, ele cursou apenas até a segunda série. Ele podia escrever e ler o Bengali um pouco.

O filósofo era muito bem-educado, mundialmente famoso, ele havia escrito muitos livros. Ele argumentou e Ramakrishna riu. E toda vez que o filósofo dava um belo e profundo argumento contra Deus, Ramakrishna pulava e o abraçava. Uma grande multidão reuniu-se para ver a cena, o que estava ocorrendo. O filósofo ficou muito envergonhado, porque ele veio para debater, e que tipo de argumento era esse?

Este homem ri, dança – às vezes abraça.

O filósofo disse, “Você não está perturbado pelos meus argumentos?”

Ramakrishna disse, “Como eu poderia me perturbar? Estou realmente desfrutando dos seus argumentos. Você é esperto, inteligente, os seus argumentos são belos – mas o que posso fazer? Eu conheço Deus! Não é uma questão de argumento, não é que eu acredito em Deus. Se eu acreditasse, você teria me perturbado, você teria retirado toda a minha clareza e você teria me confundido. Mas eu sei que ele existe!”

Se você sabe, você sabe – não há forma de distraí-lo. Eu lhe darei esse tipo de clareza – que sabe e não é dependente de qualquer argumento, mas surge da experiência existencial. Então você não precisa ser ensinado a respeitar a si mesmo ou amar a si mesmo ou sentir-se digno. Conhecendo a si próprio um ser sabe-se Deus. Agora, qual respeito maior você poderia dar a si próprio? Quando esta experiência surge em você – “AHAM BRAHMASMI! Eu sou Deus!” – qual respeito maior você poderia dar a si próprio?

E quem está lá para dar respeito? Apenas Deus existe. Quando nos recessos mais profundos do seu ser a realização ocorre: “ANA’L HAQ! – Eu sou a verdade!” que dignidade maior você precisa sentir? Você chegou ao máximo e você conheceu o máximo em seu ser mais interior, em sua interioridade.

Sim, disseram-lhe para ser respeitoso para consigo mesmo porque você não sabe quem você é. Disseram-lhe para sentir-se digno porque você se sente desprezível. Disseram-lhe para amar a si próprio porque você se odeia. E a coisa estranha é, a ironia é que as mesmas pessoas estão fazendo essas mesmas coisas com você.

As mesmas pessoas primeiro fazem-no sentir-se desprezível; este é o segredo comercial de todas as igrejas, das supostas religiões, de todas as ideologias políticas, de todas as sociedades, civilizações e culturas que existiram até agora. Este é o segredo comercial: primeiro elas fazem-no sentir-se desprezível – toda criança deve sentir-se desprezível. À criança é dito, “A menos que você se torne isso ou aquilo, você não tem valor.” Quando ela começa a sentir-se desprezível, então começamos a falar para ela, “Sinta-se digna, sinta algum valor. Se você não puder sentir-se digna, a sua vida será desperdiçada.”

Primeiro falamos para ela odiar e condenar a si própria; tudo o que ela faz é errado, por isso ela começa a odiar-se porque não é uma pessoa bela. Os pais, os professores, os sacerdotes, todos estão unidos na conspiração. Toda criança é reduzida a um estado tão condenável que ela começa a sentir, “Devo ser a pessoa mais feia do mundo porque faço coisas que não deveriam ser feitas e não faço as coisas que deveriam ser feitas.” E, então, um dia começamos a dizer à criança, “Por que você não se ama? Caso contrário, como você sobreviverá?”

Tiramos todo o respeito da criança, e, quando ela se torna desrespeitosa em relação a si mesma, começamos a dizê-la para criar respeito. Essa é uma situação absurda. Toda criança nasce com um grande respeito por si própria. Toda criança sabe do seu valor, seu valor intrínseco. Ela tem valor porque ela é como Buda, ou Krishna, ou Cristo – ela simplesmente sabe que tem valor porque ela existe, por causa da sua existência. Isso é suficiente! E toda criança ama a si própria, respeita-se.

É você que ensina a ela o oposto. Primeiro você destrói tudo o que é belo nela, e então você começa a pintar uma figura falsa. Destrói a beleza natural e então pinta a sua face, torna-a absolutamente falsa. Mas, por que isso é feito? – porque apenas pessoas falsas podem ser escravas, apenas pessoas falsas podem seguir os políticos estúpidos, apenas as pessoas falsas podem ser vítimas dos sacerdotes totalmente ignorantes. Se as pessoas são reais, elas não podem ser exploradas e não podem ser oprimidas.

Aradhana, permaneça confuso – isso é bom. É bom que você chegou a esse ponto onde uma grande confusão surge em você. Você não pode mais confiar no seu ego – bom! É tremendamente importante, porque agora um segundo passo tornou-se possível. Vou dar a você a sua infância de volta, o seu valor interior, que não é um fenômeno criado; o seu amor natural, que não é cultivado; o seu respeito espontâneo, que surge apenas quando você começa a sentir que é parte de Deus, que você é divino.

Lembre-se, o ego é comparativo – ele sempre se compara com os outros – e o ser é não-comparativo. Quando você conhece a si mesmo, não é nem inferior nem superior em comparação a ninguém, é simplesmente o si próprio. Mas o ego é comparativo. E lembre-se, se você sentir-se superior a alguém, você necessariamente sentir-se-á inferior a outrem. Então o ego é um fenômeno muito astuto: por um lado ele faz você sentir-se superior, por outro lado ele faz você sentir-se inferior. Ele mantém você em uma ligação dupla, ele segue lhe separando. Ele te leva à loucura.

Por um lado, você sabe que é superior ao seu servo, mas e em relação ao seu patrão? Você força o seu servo a submeter-se a você, e você submete-se ao seu patrão. Você força o seu servo, a sua esposa ou os seus filhos a serem seus escravos. E em relação ao seu patrão? Você abana o seu rabo.

Como você pode ser bem-aventurado? Ambas as coisas estão erradas. Fazer os outros sentirem-se inferiores é violento, é um crime contra Deus; e inferiorizar-se perante alguém é novamente um crime contra Deus. Quando você conhece o eu real, ambas as coisas desaparecem. Então você é você, e o outro é o outro, e não há comparação – ninguém é superior e ninguém é inferior.

Isso é o que chamo de comunismo espiritual real, mas isso é possível apenas quando o autoconhecimento ocorreu. Karl Marx ou Friedrich Engels, Joseph Stalin ou Mao Tsé-tung, esses não são comunistas reais. Eles vivem no ego. Os comunistas reais são Gautama o Buda, Jesus, Lao Tsé – ninguém os conhece como comunistas, mas eles são comunistas reais, porque se você entender a visão deles, toda a comparação desaparece. E quando não há comparação, o comunismo existe. A igualdade é possível apenas quando a comparação desaparece do mundo.

Não conhecendo a si próprio, você está quase totalmente dormindo; não conhecendo a si próprio, você é como um bêbado que pergunta para os outros, “Onde é a minha casa?” O bêbado às vezes até pergunta, “Você pode me dizer, senhor, quem sou eu?”

Uma vez um bêbado voltou-se para o garçom e perguntou, “Você viu meu amigo? Ele estava aqui?”

O garçom disse, “Sim, ele estava aqui há apenas alguns minutos.”

E o bêbado perguntou, “Você faria a gentileza de me dizer, eu estava com ele também?”

Um dia havia um bêbado no bar. Ele virou-se para o homem à sua direita e disse, “Você derramou cerveja no meu bolso?”

“Certamente não,” disse o homem.

Então o bêbado virou-se para o homem à sua esquerda e disse, “Você derramou cerveja no meu bolso?”

O homem disse, “Com absoluta certeza não derramei cerveja no seu bolso.”

O bêbado disse, “Exatamente como eu pensava – um trabalho interno.”

A segunda questão:

Questão 2

AMADO MESTRE,

QUAL É A SUA VISÃO PARA A NOVA COMUNA?

Krishna Prem, a nova comuna é um experimento no comunismo espiritual. A palavra ‘comunismo’ vem de ‘comuna’. Há apenas uma possibilidade do comunismo no mundo e essa possibilidade é através da meditação. O comunismo não é possível através da mudança das estruturas econômicas das sociedades.

A mudança das estruturas econômicas das sociedades trará apenas novas classes; ela não pode trazer uma sociedade sem classes. O proletariado e a burguesia podem desaparecer, mas o governante e o governado… é isso o que ocorreu na Rússia Soviética, é isso o que ocorreu na China. Novas distinções, novas classes surgiram.

O comunismo é basicamente uma visão espiritual. Não é uma questão de alterar as estruturas econômicas da sociedade, mas alterar a visão espiritual das pessoas. A nova comuna será um espaço onde poderemos criar seres humanos que não estão obcecados com a comparação, que não estão obcecados com o ego, que não estão obcecados com a personalidade.

A nova comuna será um contexto no qual um novo tipo de ser humano pode tornar-se possível. Sócrates diz que o mestre é uma parteira e ele está certo: todos os mestres são parteiras. Eles sempre trazem novas humanidades para a existência. Através deles os novos seres humanos nascem.

O velho ser humano está liquidado. O velho ser humano não é mais válido. E com o velho ser humano, tudo o que pertencia ao velho ser humano também tornar-se-á inválido, irrelevante. O velho ser humano era negativo em relação à vida. A nova comuna criará uma religiosidade afirmadora da vida. O mote da nova comuna é: Este próprio corpo o Buda, esta própria Terra o Paraíso do Lótus.

A nova comuna santificará a Terra, tornará tudo sagrado. Não vamos dividir a existência nesse mundo e naquele mundo: viveremos a existência em sua totalidade. Viveremos como cientistas, poetas, místicos – todos juntos!

O cientista é parcial. Ele acredita apenas no corpo, ele não pode ir além deste; a sua visão é muito limitada, míope. O poeta apega-se a outro aspecto da humanidade, a parte sentimental. Ele pode ver a beleza, mas a sua beleza é muito momentânea. Ele não tem ideia do eterno. O místico vive no ser, ele vive no imortal, no estado atemporal. Porque ele vive no imortal, no estado atemporal, ele se torna indiferente ao mundo do tempo e do espaço. Ele torna-se indiferente tanto à ciência quanto à poesia. Estes são os três aspectos da realidade, as três faces de Deus, a trindade, trimurti.

O meu esforço na nova comuna é criar um ser humano que não é parcial…que é total, inteiro, sagrado. Um ser humano deve ser todas as três dimensões. Ele deve ser tão preciso e objetivo quanto um cientista; e ele deve ser tão sensível, tão cheio de coração quanto o poeta; e ele deve ser tão enraizado nas profundezas do seu ser quanto o místico. Ele não deve escolher. Ele deve permitir que todas essas três dimensões existam juntas.

O Oriente sofreu porque tornamo-nos muitos preocupados com o ser; perdemos a trilha da ciência, perdemos a trilha da arte. O Ocidente sofreu, está sofrendo, porque perdeu a trilha do seu ser. O Oriente tornou-se rico internamente mas pobre externamente; o Oriente tornou-se rico externamente e pobre internamente. A nova comuna será rica de ambas as formas.

Eu acredito na riqueza. Não reverencio a pobreza. Isso é simplesmente estúpido. Eu gostaria que a humanidade fosse rica de todas as formas possíveis: rica em ciência, rica em tecnologia, rica em poesia, rica em música, rica em meditação, rica em misticismo. A vida deveria ser vivida em sua multidimensionalidade. Deus deveria ser aproximado de todas as maneiras possíveis. Por que empobrecer a sua alma?

A nova comuna criará um espaço, um contexto para esse ser humano multidimensional nascer. E o futuro pertence a esse novo ser humano.

O velho ser humano acredita na renúncia; o velho ser humano acreditava que se você quisesse aproximar-se de Deus você teria que afastar-se do mundo, como se houvesse um conflito entre Deus e o mundo. Isso é obviamente errado. O mundo existe através de Deus! O mundo é o corpo de Deus – não pode haver nenhum conflito! Se algum conflito existisse, então o mundo teria desaparecido há muito tempo atrás.

O mundo respira, está vivo, e a vida é Deus. A árvore é divina porque está viva e a rocha é divina porque a rocha também está viva da sua própria maneira, a rocha também cresce. Toda a existência está cheia de vida, transbordando de vida. Deus não está contra o mundo – como o pintor pode estar contra a sua pintura? E como o poeta pode ser contra a sua poesia? E como o músico poderia estar contra a sua música? O mundo é sua poesia, sua pintura, sua música – é a sua dança.

O velho ser humano vivia na renúncia, escapava do mundo para as cavernas, para os monastérios, para os Himalaias. O velho ser humano era um escapista, o velho homem tinha medo de viver, ele estava mais preparado para morrer. O velho ser humano era, de algum modo, suicida.

Meu novo ser humano estará profundamente apaixonado pela vida. E a minha religião não é a da renúncia, mas da celebração. A nova comuna criará toda a oportunidade possível para a celebração, para o canto e a dança.

A nova comuna será de um tipo totalmente novo de religiosidade, de espiritualidade. Ninguém será um Hindu ou Islâmico, Cristão ou Jaina, mas todos serão religiosos – apenas religiosos. Para mim, a religião não precisa de adjetivos. E no momento que uma religião se torna apegada a um adjetivo, ela não é mais religião – ela torna-se política.

Bayazid não é Islâmico. O próprio Maomé não é Islâmico, não pode ser. Cristo não é Cristão e Buda não é Budista. Eles são simplesmente religiosos. Eles têm um certo aroma, um certo silêncio, uma certa graça, em torno deles. Eles são janelas para o além. Através deles você pode ver o além, através deles Deus segue cantando mil e uma músicas.

A nova comuna não será de nenhuma religião. Ela será religiosa. Mas a religião não será sobrenatural, ela será muito terrena; por isso ela será criativa, ela explorará todas as possibilidades da criatividade. Todos os tipos de criatividade serão suportadas, nutridas.

O ser humano realmente religioso deve contribuir com o mundo. Ele tem que torná-lo um pouco mais belo do que o encontrou quando ele chegou no mundo. Ele tem que torná-lo um pouco mais alegre. Ele tem que torná-lo um pouco mais perfumado. Ele tem que torná-lo um pouco mais harmonioso. Essas serão as suas contribuições.

No passado respeitávamos as pessoas pelas razões erradas. Respeitávamos alguém porque ela jejuava. Ora, o jejum não contribui em nada para o mundo. E o ser humano que faz longos jejuns está simplesmente sendo violento consigo mesmo. Respeitá-lo é respeitar a violência, respeitá-lo é respeitar instintos suicidas, respeitá-lo é respeitar o masoquismo. Ele está mentalmente doente! Ele não é natural, é anormal. Ele precisa de tratamento psicológico, precisa de ajuda. Mas você o respeita, e, por causa do seu respeito, o ego dele inchou; então se ele fosse jejuar por um mês, agora ele jejuará por três meses. E quanto mais ele jejua, mais tortura seu corpo, mais respeito você dá a ele.

A nova comuna não respeitará quaisquer tendências masoquistas. Ela não respeitará qualquer ascetismo, não respeitará quaisquer tendências anormais, desnaturais – ela respeitará o ser humano natural. Ela respeitará a criança no ser humano, respeitará a inocência, respeitará a criatividade. Ela respeitará o ser humano que pinta um belo quadro, respeitará o ser humano que toca lindamente a flauta. O flautista será religioso, o pintor será religioso e o dançarino será religioso; não o ser humano que faz longos jejuns, que tortura o seu corpo, que se deita em uma cama de pregos, que mutila a si mesmo.

Será o início de uma nova humanidade. Isso é necessário, absolutamente necessário. Se não pudermos criar o novo ser humano nos próximos vinte anos – ao final desse século – então a humanidade não terá futuro. O velho ser humano chegou ao fim da sua corrente. O velho ser humano está pronto para cometer suicídio global. A terceira guerra mundial será suicídio global. Ela pode ser evitada apenas se um novo tipo de ser humano for criado.

Será um experimento, um grande experimento. Muita coisa dependerá disso. Ele terá implicações tremendas para o futuro. Esteja pronto. Esteja preparado. Este ashram é apenas uma plataforma de lançamento… Estou experimentando em uma escala pequena. A nova comuna será em grande escala: dez mil sannyasins vivendo juntos como um corpo, um ser. Ninguém possuirá nada; todos usarão tudo, todos desfrutarão. Todos viverão tão confortavelmente, tão ricamente quanto possível. Mas ninguém possuirá nada. Não só as coisas não serão possuídas, mas as pessoas também não serão possuídas na nova comuna. Se você ama uma mulher, viva com ela – a partir do amor puro, da alegria pura – mas você não se torna o seu marido, você não pode. Você não pode tornar-se uma esposa. Tornar-se uma “esposa” ou um “marido” é feio porque isso traz a posse; então o outro é reduzido a uma propriedade.

A nova comuna será não-possessiva, cheia de amor – vivendo no amor, mas sem nenhuma possessividade; compartilhando todos os tipos de amor, criando uma piscina de todas as alegrias… Quando dez mil pessoas contribuem pode tornar-se explosivo. A celebração será grande.

Jesus diz repetidas vezes: Celebre! Celebre! Celebre! Mas ele ainda não foi ouvido. Os Cristãos parecem tão sérios e eles também pintaram Jesus de uma forma que ele próprio parece não ter celebrado. Os Cristãos dizem que Jesus nunca riu! Isso é ridículo. O homem que estava falando “Celebre!” o homem que amava uma boa comida, um bom vinho, o homem que costumava fazer banquetes e participar de festivais, o homem que em torno de si sempre ocorriam festividades – ele nunca riu? Os Cristãos deram um falso Cristo ao mundo.

Na minha comuna, Buda rirá e dançará, Cristo rirá e dançará. Pobres sujeitos, ninguém permitiu que eles assim o fizessem até agora! Tenham compaixão com eles – permitam que eles dancem, cantem e brinquem. A minha nova comuna transformará o trabalho em brincadeira, transformará a vida em amor e riso.

Lembre-se novamente do lema – santificar a Terra, tornar tudo sagrado, transformar as coisas ordinárias e mundanas em coisas extraordinárias, espirituais. Toda a vida deve ser seu templo; o trabalho deve ser sua devoção, o amor deve ser sua oração.

Este próprio corpo o Buda, esta própria Terra o Paraíso do Lótus.

A terceira questão:

Questão 3

AMADO MESTRE,

SOU UM PSICOLÓGO. EU ESPERAVA QUE ESTUDAR PSICOLOGIA ME AJUDARIA A MUDAR A MINHA VIDA, MAS NADA DISSO OCORREU. O QUE DEVO FAZER AGORA?

A psicologia ainda é uma ciência muito imatura. Ela é muito rudimentar, está somente no início. Ela ainda não é um caminho de vida – ela não pode transformá-lo. Ela pode certamente dar-lhe alguns insights sobre a mente, mas esses insights não serão transformadores. Por quê? – porque a transformação sempre acontece de um plano mais alto. A transformação nunca significa resolver problemas – permanecendo no mesmo plano – isso significa ajustamento. A psicologia ainda está tentando ajudá-lo a ajustar-se – ajustar-se a uma sociedade que é, ela própria, insana, ajustar-se à família, ajustar-se às ideias que são dominantes em torno de você. Mas todas essas ideias – a sua família, a sua sociedade – elas próprias estão enfermas, doentes, e ajustar-se a elas vai lhe dar uma certa normalidade, pelo menos uma aparência superficial de saúde, mas não o transformará.

Transformação significa mudar o plano do seu entendimento. Ela vem através da transcendência. Se você quer mudar a sua mente, você tem que ir ao estado de não-mente. Apenas a partir dessa altura você será capaz de mudar a sua mente, porque nessa altura você será o mestre. Permanecendo na mente e tentando mudá-la através da própria mente é um processo fútil. É como tentar elevar-se puxando-se pelos cadarços dos sapatos. É como os cães tentando pegar o próprio rabo; às vezes eles conseguem, às vezes eles comportam-se de uma maneira muito humana. O cão está sentado no sol quente da manhã e ele olha para o rabo descansando do seu lado – naturalmente a curiosidade surge: Por que não pegá-lo? Ele tenta, falha, sente-se ofendido, irritado; tenta muito, falha muito, fica doido, louco. Mas ele nunca será capaz de pegar o rabo – é o seu próprio rabo. Quanto mais ele pular, mas o rabo pulará.

A psicologia pode dar-lhe alguns insights sobre a mente, mas porque não pode levar-te para além da mente ela não pode ajudar de maneira alguma.

Sam tornou-se um psiquiatra e começou a prosperar. Ele comprou uma limusine grande e cara e dirigiu-a pela primeira fez. Depois de andar por alguns momentos, outro carro bateu nele. Ele pulou para fora do seu Cadillac batido, foi até o carro que tinha batido no seu, deu com os punhos no vidro e gritou, “Idiota! Burro! Rato podre! Filho da…!” Então ele de repente lembrou-se que era um psiquiatra, abaixou a sua voz e suavemente perguntou, “Por que você odeia a sua mãe?”

A psicologia não pode ajudar. Eu ouvi outra estória do mesmo Sam – uma estória de quando ele não estava mais no mundo, ele tinha morrido.

A viúva estava cuidando das plantas em torno do túmulo do marido. Conforme ela abaixou-se algumas lâminas de grama fizeram cócegas na pele descoberta debaixo da saia. Surpresa, ela olhou rapidamente em volta, mas não havia ninguém à vista. Suspirando, ela virou-se novamente para o túmulo e sussurrou, “Sam, comporte-se! E lembre-se, você supostamente está morto.”

Nem na vida nem na morte a psicologia lhe ajudará muito. Você pode ser ajudado apenas pela religião.

Agora o psicólogo está tentando fazer o papel do mestre, o que é totalmente pretencioso. O psicólogo, o psicanalista e o psiquiatra não são mestres! Eles não conhecem a si mesmos. Sim, eles entenderam um pouco sobre o mecanismo da mente, eles estudaram, eles são bem informados. Mas a informação nunca muda ninguém, ela nunca traz qualquer revolução. No fundo a pessoa permanece a mesma. Eles podem falar lindamente, eles podem te dar um bom conselho, mas eles não podem seguir nem sequer o próprio conselho.

O psicanalista não pode ser o mestre. Mas no Ocidente particularmente ele tornou-se tão bem-sucedido profissionalmente que até mesmo o sacerdote está tremendamente estarrecido. Mesmo os padres – os Católicos e os Protestantes – estão estudando psicanálise e outras escolas de psicologia, porque eles veem que as pessoas não estão vindo até o sacerdote mais, elas estão indo ao psicanalista. O sacerdote está ficando com medo de perder o seu emprego.

O sacerdote dominou as pessoas por centenas de anos. Ele era o homem sábio – ele perdeu sua atração. E as pessoas não podem viver sem conselheiros; elas precisam de alguém para dizê-las o que fazer porque elas nunca amadurecem. Elas são como crianças pequenas, sempre necessitando que alguém diga o que fazer e o que não fazer. Até agora o sacerdote fazia isso; agora o sacerdote perdeu o seu charme, a sua validade. Ele não é um contemporâneo, ele ficou ultrapassado. Agora o psicanalista tomou o seu lugar, ele é o sacerdote agora.

Porém, da mesma forma que sacerdote era falso, assim também o é o psicanalista. O sacerdote estava usando o jargão religioso para explorar as pessoas; o psicólogo está usando o jargão científico para explorar as mesmas pessoas. Nem o sacerdote nem o psicanalista estão despertos.

O ser humano pode ser ajudado apenas por alguém que já é um buda; caso contrário ele não pode ser ajudado.

Todos os seus conselheiros tornar-te-ão, cada vez mais, uma bagunça. Quanto mais você ouve os conselheiros, mais você tornar-se-á uma bagunça – porque eles não sabem o que estão falando! Eles não concordam nem entre eles próprios. Freud diz uma coisa, Adler diz outra, Jung fala uma terceira. E agora existem mil e uma escolas. E toda escola é fanática em relação à sua filosofia – que ela contém a verdade, toda a verdade e nada exceto a verdade. Ela não diz apenas que tem a verdade; ela diz que tem a verdade e todo mundo está mentindo, enganando.

Se você ouvir a esses psicanalistas, se você ir de um psicanalista para outro, você tornar-se-á mais intrigado. A única ajuda que eles podem lhe dar é que, se você for suficientemente inteligente, você tornar-se-á tão farto deles, tão entediado com eles, que você simplesmente vai abandonar a ideia de ser transformado, e você pode começar a viver a sua vida normalmente, sem preocupar-se muito com a transformação – se você é inteligente, o que é muito raro, porque a inteligência é esmagada desde o início. Vocês são feitos medíocres. Desde o início a inteligência é destruída. Apenas algumas poucas pessoas, de alguma forma, escapam da sociedade e permanecem inteligentes.

Nagesh, você me pergunta, “O que devo fazer agora?”

A minha sugestão é: você já fez o suficiente. Agora aprenda algo que não é um fazer, mas um não-fazer. Esteja aqui e aprenda – não a fazer, mas a ser. Sente-se silenciosamente, sem fazer nada. Dentro de três a nove meses, se alguém for suficientemente paciente e se puder simplesmente sentar-se em grupo todos os dias – sempre que houver tempo apenas sentar-se… No início uma grande agitação surgirá em sua mente; tudo do inconsciente vai começar a vir à tona. Você verá isso como se estivesse ficando louco. Siga observando – não se preocupe. Você não pode ficar louco porque você já está louco, então não há nada a perder e nada a temer.

Um político, um grande político, estava consultando um psicanalista. O político estava sofrendo de um complexo de inferioridade – todos os políticos sofrem de complexos de inferioridade. Se eles não sofressem de complexos de inferioridade eles não seriam políticos em primeiro lugar. Ser um político significa batalhar para ser superior, para estar no poder, para que se possa provar para os outros e para si próprio, “Não sou inferior. Olhe! Sou o primeiro ministro. Olhe! Somente eu sou o primeiro ministro do país e ninguém mais – como posso ser inferior?”

A política surge a partir do complexo de inferioridade – toda política de poder surge do complexo de inferioridade. Então não é algo raro que o político estava sofrendo de um complexo de inferioridade.

O psicanalista trabalhou no político por vários anos. Depois de dois ou três anos, ouvindo toda a sua bobagem sem nexo… por que o que um político pode dizer? Por horas ele se deitava no divã e falava disparates.

Depois de três anos, um dia, quando ele chegou, o psicanalista o recebeu com grande alegria e falou, “Estou feliz em declarar, depois de três anos de pesquisa com você, que você não sofre de um complexo de inferioridade. Cheguei a essa conclusão depois de um longo esforço que não pode estar errado. Você não sofre de um complexo de inferioridade – simplesmente esqueça-o totalmente.”

O político ficou muito feliz e disse, “Sou grato a você, mas você pode me dizer como chegou a essa conclusão?”

O psicanalista disse, “Porque você é simplesmente inferior – como você pode sofrer de um complexo de inferioridade?”

Nagesh, você não precisa se preocupar. Se ao sentar-se silenciosamente você sentir a loucura surgindo, não se preocupe – você não pode ficar mais louco do que você já é. O ser humano não pode descer mais. Ele desceu até o fundo do poço. Agora não é possível descer mais.

Sentando-se silenciosamente você verá a loucura surgindo em você, porque ela permaneceu reprimida. E você mantém-se ocupado com as coisas – psicologia, etc. – agora você mantém-se ocupado com meditação e sannyas, mas todas essas são ocupações e você não está permitindo que o seu inconsciente se revele para você. É assustador.

A minha sugestão para você é, apenas sente-se silenciosamente sempre que você tiver tempo. As pessoas do Zen sentam-se silenciosamente pelo menos de seis a oitos horas por dia. No início é realmente enlouquecedor. A mente faz muitos truques com você, tenta te levar à loucura, cria medos imaginários, alucinações. O corpo começa a fazer truques com você… todos os tipos de coisas ocorrerão. Mas se você seguir testemunhando, de três a nove meses tudo estabelece-se, e estabelece-se por si só – não porque você fez algo. Sem o seu fazer, ele simplesmente estabelece-se, e quando uma quietude surge, inculta, não praticada, é algo soberbo, algo tremendamente gracioso, esquisito. Você nunca experimentou algo como isso antes – é o puro néctar…

Você transcendeu a mente! Todos os problemas da mente estão resolvidos. Não que você tenha encontrado uma solução, mas simplesmente eles caíram por si sós – através do testemunho, apenas pelo testemunho.

Você já é muito instruído. Nenhum conhecimento a mais é necessário; você precisa desaprender. As pessoas instruídas são pessoas muito astutas – elas podem sempre seguir encontrando desculpas para permanecerem as mesmas.

Um professor de filosofia e psicologia estava viciado em um whisky artesanal. Uma noite, depois de dar um bom gole, ele foi até o seu quarto, despiu-se para dormir e tentou apagar a vela. O seu hálito alcóolico explodiu em chamas.

Tristemente chocado pela experiência, ele chamou a sua mulher, “Traga-me a Bíblia, Martha. Isso foi uma lição terrível para mim. Vou fazer um juramento.”

A feliz esposa rapidamente trouxe a Bíblia, ficando ao lado enquanto seu marido colocava a mão sobre a Bíblia e olhava para os céus: “Juro por tudo o que é sagrado,” ele entoou, “que eu nunca mais vou assoprar uma vela.”

A mente é ardilosa. Você tem que ir além da mente – é isso o que significa meditação.

A última questão:

Questão 4

AMADO MESTRE,

VOCÊ PARECE SER O PRIMEIRO MESTRE ILUMINADO QUE CONTA PIADAS – POR QUE ISSO OCORRE?

Garima, vou contar-lhe uma estória. A seguinte estória do Talmud era particularmente estimada pelo grande mestre Hassídico, Baal Shem.

O Rabino Baruch costumava visitar a feira onde o Profeta Elijah frequentemente aparecia para ele. Acreditava-se que ele aparecia para alguns homens sagrados para oferecê-los orientação espiritual.

Certa vez Baruch perguntou ao profeta, “Há alguém aqui que tem uma parte do mundo que virá?”

Ele replicou, “Não.”

Enquanto conversavam, dois homens passaram e Elijah comentou, “Esses dois homens terão uma parte no mundo que virá;”

O Rabino Baruch então aproximou-se e perguntou para eles, “Qual a ocupação de vocês?”

Eles replicaram, “Somos bufões. Quando vemos os seres deprimidos nós os encorajamos.”

Deus ama o riso, Deus ama as pessoas animadas. Deus não está interessado em vê-los com faces tristes.

Quando Baal Shem estava morrendo, alguém perguntou, “Você está preparado para encontrar o Senhor?”

Ele disse, “Sempre estive preparado. Não é uma questão de estar pronto agora – sempre estive pronto. A qualquer momento ele poderia ter me chamado!”

O homem perguntou, “O que é essa sua prontidão?”

Baal Shem disse, “Conheço algumas belas piadas – vou contar para ele essas piadas. E sei que ele gostará delas e rirá comigo. E o que mais posso oferecer a ele? Todo o mundo é seu, todo o universo é seu, eu sou dele, então, o que posso oferecer? Apenas algumas piadas!”

Baal Shem é um dos grandes budas da tradição Judaica, um dos mais amados pelos seus discípulos. Ele foi o fundador do Hassidismo.

E lembre-se, não sou o primeiro que contou piadas para vocês. Houve vários… Mas as pessoas estão tão tristes que elas esqueceram-se das pessoas que foram fontes de riso e alegria – elas lembram-se apenas das pessoas tristes – mesmo se elas não foram tristes, vocês as tornam tristes. Na sua mente você fabrica estórias, você manufatura ideias e você as faz parecer tristes.

Ora, um Jaina ficará muito ofendido se eu disser que Mahavira riu. O riso parece ser algo mundano, tão mundano. Como Mahavira poderia ter dado risada? Se eu disser que Buda riu, os Budistas, particularmente os Budistas Hinayanas ficarão bravos. Eu tenho um amor tremendo por Buda; penso que não há nenhum outro homem na Terra hoje que ama tanto Buda quanto eu. Porém, há alguns dias atrás, eu estava lendo nos jornais: o presidente da Sociedade Budista da Índia fará questões para mim no parlamento na próxima sessão. Posso entender, essas pessoas devem estar se sentindo muito ofendidas porque estou dando uma nova cor a Buda – a cor dele, a cor de Buda. Estou tentando trazer a realidade dele para vocês. E essas pessoas distorceram a imagem dele totalmente; elas fizeram-no parecer tão triste, não permitiriam que ele risse. Se ele rir, elas farão questões contra ele no parlamento.

Estou ofendendo as pessoas porque estou tentando viver a religião em desacordo com suas ideias. Digo a vocês, em privado é claro, que Jesus costumava contar piadas – mas não fale isso para os Cristãos, eles não entenderão. Eles podem entender apenas o Jesus que foi crucificado. De fato, eles estão venerando a morte, não Jesus; eles estão venerando a cruz, não Cristo. Por isso chamo a Cristandade de Cruz-idade* [NT. Crossianity] – não tem nada a ver com Cristo. Eu conheço o homem, conheço pessoalmente o homem!

Ele costumava amar todas as coisas boas da vida. Como ele poderia evitar as piadas? Ele amava fofocar* e dizem que ele estava apenas proferindo os evangelhos* [NT. Trocadilho entre gossip (fofoca) e gospels (evangelhos).] Ele era um homem muito enraizado na terra. Ele movia-se com os jogadores, com os bêbados, com as prostitutas também. Ele não tinha medo de todos esses tolos – é por isso que ele teve que sofrer.

É por isso que tenho que sofrer…

Por hoje é só.

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