Dhammapada: O Caminho do Buda, Vol 2. Cap 7, OSHO

O Dhammapada: O Caminho do Buda, Vol 2

Capítulo #7

Título do Capítulo: A colher saboreia a sopa?

7 de Julho de 1979 na Sala Buda

 

QUÃO LONGA É A NOITE PARA A SENTINELA,

QUÃO LONGA É A ESTRADA PARA O EXAURIDO VIAJANTE,

QUÃO LONGA É A PERAMBULAÇÃO DE MUITAS VIDAS

PARA O TOLO QUE ERRA O CAMINHO.

 

SE O VIAJANTE NÃO PODE ENCONTRAR

UM MESTRE OU AMIGO PARA IR CONSIGO,

É MELHOR VIAJAR SOZINHO

DO QUE NA COMPANHIA DE UM TOLO.

 

“OS MEUS FILHOS, A MINHA RIQUEZA!”

ASSIM O TOLO CRIA PROBLEMAS PARA SI PRÓPRIO.

MAS COMO ELE TERIA FILHOS OU RIQUEZA?

ELE NÃO É NEM MESTRE DE SI PRÓPRIO.

 

O TOLO QUE SE SABE TOLO

É MUITO MAIS SÁBIO.

O TOLO QUE SE PENSA SÁBIO

É UM TOLO REALMENTE.

 

A COLHER SABOREIA A SOPA?

UM TOLO PODE VIVER TODA A SUA VIDA

NA COMPANHIA DE UM MESTRE

E AINDA ASSIM ERRAR O CAMINHO.

 

A LÍNGUA SABOREIA A SOPA.

SE VOCÊ ESTÁ ACORDADO NA PRESENÇA DE UM MESTRE

ESSE MOMENTO MOSTRAR-TE-Á O CAMINHO.

 

O TOLO É SEU PRÓPRIO INIMIGO.

O DANO QUE FAZ É A SUA DESTRUIÇÃO.

QUÃO AMARGAMENTE ELE SOFRE!

 

POR QUE FAZER ALGO QUE VOCÊ SE ARREPENDERÁ?

PARA QUE TRAZER LÁGRIMAS PARA SI PRÓPRIO?

FAÇA APENAS AQUILO QUE VOCÊ NÃO SE ARREPENDERÁ,

E PREENCHA-SE DE ALEGRIA.

 

O ser humano é uma ponte entre o conhecido e o desconhecido. Permanecer confinado no conhecido é ser um tolo. Seguir em busca do desconhecido é o início da sabedoria. Tornar-se um com o desconhecido é tornar-se o desperto, o buda.

Lembre-se sempre que o ser humano ainda não é um ser – ele está a caminho, é um viajante, um peregrino. Ele ainda não está em casa, ele está procurando a casa. Aquele que pensa estar em casa é um tolo, porque a busca para, então a procura não está mais ali. E, no momento em que você para de buscar e procurar você se torna uma poça estagnada de energia, você começa a feder. Então você morre apenas, então você não vive de maneira alguma.

A vida é um fluxo, a vida está no permanecer um rio – porque apenas o rio alcançará o oceano. Se você se tornar uma poça estagnada então você não irá a lugar algum. Então você não está realmente vivo. O tolo não vive, apenas finge viver. Ele não conhece, apenas finge conhecer. Ele não ama, apenas finge amar. O tolo é uma pretensão.

O sábio vive, ama, o sábio indaga. O sábio está pronto, sempre pronto, para viajar rumo aos mares inexplorados. O sábio é aventureiro. O tolo tem medo.

Quando Buda usa a palavra ‘tolo’ você tem que lembrar todos os significados da palavra. Não é o significado ordinário que Buda dá a palavra ‘tolo’. Para ele, tolo significa alguém que vive na mente e não sabe nada da não-mente; alguém que vive na informação, conhecimento, mas que não conhece nada que surge em seu próprio ser.

Por “o tolo” Buda denota aquele que conhece bem as escrituras, mas que não saboreou um único momento de verdade. Pode ser um grande erudito, muito culto – de fato, os tolos são eruditos; eles têm que ser porque é a única forma de esconder a sua tolice. Os tolos são pessoas muito eruditas; eles têm que ser, porque é apenas através do aprendizado de palavras, teorias, filosofias, que eles podem esconder a sua ignorância interior, que podem esconder o seu vazio, que podem crer que também sabem.

Se você quer encontrar os tolos, vá as universidades, vá as academias. Ali você os encontrará – em sua total ignorância, mas fingindo saber. Eles certamente sabem o que os outros disseram, mas isso não é o conhecimento real. Um homem cego pode coletar toda a informação que existe sobre a luz, porém permanecerá cego. Ele pode falar sobre a luz, pode escrever tratados sobre a luz; ele pode ser muito hábil na conjetura, em fabricar teorias, mas ainda assim permanece cego e não sabe nada da luz. Mas a informação que ele coleta pode não apenas enganar os outros, ele pode enganar a si mesmo também. Ele pode pensar que sabe, que não é mais cego.

Quando Buda usa a palavra ‘tolo’ ele não quer dizer simplesmente ignorante, porque se a pessoa ignorante tiver consciência que é ignorante, ela não é mais tola. E é mais possível que a pessoa ignorante esteja consciente da sua ignorância do que as supostas pessoas cultas. Os seus egos estão tão inchados; é muito difícil elas verem – vai contra o investimento delas. Elas devotaram suas vidas ao conhecimento, e agora, reconhecer o fato que todo este conhecimento é insignificante, fútil, porque elas não saborearam a verdade elas próprias, é difícil, é duro.

A pessoa ignorante pode lembrar-se que ela é ignorante – ela não tem nada a perder; mas a pessoa culta não pode reconhecer que é ignorante – ela tem muito a perder. A pessoa instruída é realmente tola. A pessoa ignorante é inocente; ela sabe que não sabe, e, porque sabe que não sabe, porque é ignorante, ela está no limiar da sabedoria. Porque ela sabe que não sabe, ela pode inquirir, e sua investigação será pura, sem preconceitos. Ela inquirirá sem quaisquer conclusões. Ela inquirirá sem ser Cristã, Islâmica ou Hindu. Ela simplesmente buscará como um buscador. A sua busca não vai sair de respostas prontas, a sua busca sairá de seu próprio coração. A sua busca não será um subproduto do conhecimento, a sua busca será existencial. Ela busca porque é uma questão de vida ou morte para si. Ela busca porque realmente quer saber. Ela sabe que não sabe – é por isso que busca. A sua busca tem uma beleza própria. Ela não é tola, é simplesmente ignorante. O tolo real é aquele que pensa que sabe sem saber de maneira alguma.

Sócrates estava tentando fazer a mesma coisa em Atenas: ele estava tentando tornar esses tolos instruídos conscientes que todo o conhecimento deles era falso, que eles eram realmente tolos, fingidores, hipócritas. Naturalmente, todos os professores, todos os filósofos e todos os supostos pensadores… e Atenas estava cheia deles. Atenas era a capital do conhecimento naqueles dias. Assim como hoje as pessoas olham para Oxford e Cambridge, as pessoas olhavam para Atenas. Ela estava cheia de tolos instruídos, e Sócrates estava tentando trazê-los para a Terra, estava destruindo o conhecimento deles, estava colocando questões – simples por um lado, mas difíceis de serem respondidas por aqueles que apenas adquiriram o conhecimento dos outros.

Atenas ficou muito irritada com Sócrates. Eles envenenaram este homem. Sócrates é um dos maiores seres humanos que já andaram sobre a Terra; e o que ele fez apenas algumas poucas pessoas fizeram. O seu método é um método básico. O método Socrático de investigação é tal que expõe os tolos como tolos. Expor um tolo como tolo é perigoso, é claro, porque ele se vingará. Sócrates foi envenenado, Jesus foi crucificado, Buda foi condenado. No dia em que Buda morreu, o Budismo foi colocado para fora do país, expulso do país. Os estudiosos, os pânditas, os brâmanes, não podiam permitir que o Budismo permanecesse. Era muito desconfortável para eles. É um ataque básico aos brâmanes, os tolos instruídos, e naturalmente eles ficaram ofendidos. Eles não puderam encarar Buda, eles não puderam encontrá-lo. Eles esperaram pela oportunidade de maneira astuciosa: quando Buda morreu, então eles começaram a lutar contra os seguidores. Quando a luz se foi, então era momento das corujas, os tolos instruídos, reinarem novamente sobre o país. E eles reinaram desde aquele tempo até agora – eles ainda estão no poder. Os mesmos tolos!

O mundo sofreu muito. O ser humano poderia ter se tornado a glória da Terra, mas, por causa desses tolos… e porque são poderosos eles podem causar dano, e porque são poderosos eles podem destruir qualquer possibilidade, qualquer oportunidade de evolução humana. O ser humano moveu-se em círculos, e esses tolos não quiseram que o ser humano se tornasse sábio, porque se o ser humano tornar-se sábio esses tolos não existirão. Eles não estarão mais no poder – religioso, político, social, financeiro, todo o poder deles acabará. Eles podem permanecer no poder apenas se seguirem destruindo todas as possibilidades de os seres humanos terem sabedoria.

O meu esforço aqui é criar uma investigação Socrática novamente, fazer novamente as questões fundamentais que Buda colocou.

Na nova comuna teremos sete círculos concêntricos de pessoas. O primeiro, o círculo mais superficial, consistirá naqueles que vêm apenas por curiosidade infantil, ou por preconceitos já acumulados, que são, no fundo, antagonistas – os jornalistas, etc.

Eles poderão ver apenas a parte superficial da comuna – não é que as coisas serão escondidas, mas por causa da sua abordagem eles não serão capazes de ver nada além do superficial. Eles verão apenas as vestes. Aqui, também, o mesmo continua ocorrendo. Eles chegam e veem apenas o superficial.

Há poucos dias eu estava lendo o relato de um jornalista; ele esteve aqui por cinco dias. Ele escreveu, “por cinco dias,” como se fosse muito tempo de estadia, como se ele estivesse aqui por cinco vidas! Porque ficou aqui por cinco dias ele tornou-se uma autoridade. Agora ele sabe o que está acontecendo aqui porque viu as pessoas meditando. Como você pode ver as pessoas meditando? Ou você pode meditar ou não, mas você não pode ver as pessoas meditando. Sim, você pode observar os gestos físicos das pessoas, os movimentos, a dança, ou o sentar-se silencioso delas sob as árvores, mas você não pode ver a meditação! Você pode ver a postura física do meditador, mas você não pode ver a sua experiência interior. Para isso você tem que meditar, você tem que tornar-se um participante.

E a condição básica para ser um participante é que você tem que abandonar essa ideia de ser um observador. Mesmo se você participa, se você dançar com os meditadores, com essa ideia que você está participando apenas para ver o que ocorre, então nada ocorrerá. E, é claro, você chegará à conclusão que isso é tudo uma besteira – nada ocorre. E você sentir-se-á perfeitamente bem em seu interior que nada ocorreu, porque você até participou e nada ocorreu.

Aquele homem escreveu que ele estava no darshan e muito estava ocorrendo com os sannyasins – ocorria tanto que, depois de um contato energético profundo comigo, eles não eram capazes nem de voltar para os seus lugares – eles tinham que ser carregados. E então ele menciona, “Mas nada aconteceu comigo.” Esta é uma prova suficiente que tudo o que estava ocorrendo era hipnose, ou as pessoas estavam fingindo somente porque o jornalista estava ali, ou era um show arranjado, alguma coisa criada – porque nada ocorreu com ele.

O jornalista escreve novamente, “As pessoas que vão lá, elas deixam as suas mentes onde elas deixam os seus sapatos – mas eu não pude fazer isso. É claro”, ele diz, “se eu deixasse a minha mente para trás, então eu também ficaria impressionado.” Mas ele pensa que a mente dele tem algum valor – como poderia deixá-la para trás? Ele sente-se muito hábil porque não deixou a sua mente para trás.

A mente é a barreira, não a ponte. Na nova comuna, o primeiro círculo concêntrico será para aqueles que vêm como jornalistas – pessoas preconceituosas, que já sabem que sabem. Em resumo, para os tolos.

O segundo círculo concêntrico será para aqueles que são buscadores – sem preconceitos, nem Hindus, nem Islâmicos, nem Cristãos, que chegam sem qualquer conclusão, que chegam com uma mente aberta. Eles serão capazes de ver um pouco mais profundo. Algo do misterioso tocará os seus corações. Eles cruzarão a barreira da mente. Eles ficarão conscientes que algo de imensa importância está ocorrendo – o que é exatamente eles não serão capazes de descobrir imediatamente, mas ficarão vagamente conscientes que algo de valor está ocorrendo. Eles podem não ser suficientemente corajosos para participar; a busca deles pode ser mais intelectual do que existencial, eles podem não ser capazes de tornarem-se parte, mas ficarão conscientes – é claro, de uma forma muito vaga e confusa, mas certamente conscientes – que algo a mais está ocorrendo do que aquilo que aparenta.

O terceiro círculo será para os simpatizantes, aqueles que estão em profunda simpatia, que estão prontos para mover-se um pouco com a comuna, que estão prontos para dançar, cantar e participar, que não são apenas buscadores, mas estão prontos para mudarem a si próprios se a busca assim requerer. Eles vão ficar mais claramente conscientes dos reinos mais profundos.

O quarto círculo será o da empatia. Simpatia quer dizer que alguém está amigável, alguém não está antagonista. Empatia quer dizer que alguém não está apenas amigável; há o sentimento de um tipo de unidade, unicidade. Empatia significa sentir com a comuna, com as pessoas, com o que está ocorrendo. É um encontro, uma fusão, um dissolver-se, tornar-se um.

O quinto círculo será para os iniciados, os sannyasins – alguém que não está apenas sentindo em seu coração, mas que está pronto para comprometer-se, para envolver-se. Alguém que está pronto para arriscar. Alguém que está pronto para comprometer-se, porque sente um amor grande, um amor louco – louco, amor louco – surgindo em si. O sannyasin, o iniciado.

E o sexto será para aqueles que começaram a alcançar – os adeptos. Aqueles cujas jornadas estão se aproximando do fim, que não são mais sannyasins apenas, mas estão tornando-se siddhas, cujas jornadas estão se aproximando do ponto final, cada vez mais próximas das suas conclusões. A casa não está longe, apenas mais alguns passos. De certa forma, eles já alcançaram.

E o sétimo círculo compreenderá os arhatas e bodhisattvas. Os arhatas são aqueles sannyasins que alcançam mas não estão interessados em ajudar os outros a chegar. O Budismo tem um nome especial para eles: arhata – o viajante solitário que alcança e, então, desaparece no todo.  E os boddhisattvas são aqueles que alcançaram mas sentem uma grande compaixão por aqueles que ainda não alcançaram. O bodhisattva é um arhata com compaixão. Eles seguram-se, seguem olhando para trás chamando aqueles que ainda tropeçam no escuro. Ele é um ajudante, um servo da humanidade.

Há dois tipos de pessoas. Uma que está tranquila apenas quando está sozinha; ela sente-se um pouco desconfortável em um relacionamento, sente-se um pouco perturbada, distraída, em um relacionamento. Este tipo de pessoa torna-se um arhata. Quando ela alcança, ela termina com tudo. Agora ela não olha para trás.

O bodhisattva é o segundo tipo de pessoa: alguém que sente-se tranquilo em um relacionamento, de fato, muito mais confortável quando está em relação do que quando está sozinho. Ele se inclina mais na direção do amor. O arhata inclina-se mais na direção da meditação. O caminho do arhata é o da meditação pura, e o caminho do bodhisattva é do amor puro. O amor puro contém a meditação, e a meditação pura contém o amor – mas a meditação pura contém o amor apenas como um aroma, um perfume; não é a força central nela. E o amor puro contém a meditação como um perfume; não é o centro dele. Esses dois tipos existem no mundo. O segundo tipo – o seguidor do caminho do amor – torna-se um bodhisattva. O sétimo círculo consistirá de arhatas e bodhisattvas.

Ora, o sétimo círculo estará consciente de todos os seis outros círculos e o sexto círculo estará consciente dos outros cinco círculos – o mais alto estará consciente do mais baixo, mas o mais baixo não estará consciente do mais alto. O primeiro círculo não estará consciente de nada além do primeiro círculo. Eles verão as construções, o hotel, a piscina, o shopping center, a tecelagem, a cerâmica e a carpintaria. Eles verão as árvores, toda a paisagem… eles verão todas essas coisas. Eles verão milhares de sannyasins e darão de ombros: “O que estas pessoas estão fazendo aqui?” Eles ficarão um pouco intrigados, porque eles não pensavam que tantas pessoas loucas poderiam ser encontradas em um único lugar: “Todos estão hipnotizados!” Eles encontrarão explicações. Eles seguirão completamente satisfeitos, pensando conhecer a comuna. Eles não estarão conscientes dos círculos superiores – o mais baixo não pode estar consciente do mais alto. Essa é uma das leis mais fundamentais da vida – AES DHAMMO SANANTANO – apenas o mais alto conhece o mais baixo, porque ele passou pelo menor.

Quando você está de pé em um pico ensolarado, você conhece tudo o que está embaixo no vale. As pessoas do vale podem não estar conscientes de você de maneira alguma, não é possível para elas. O vale tem as suas próprias ocupações, os seus próprios problemas. O vale está preocupado com a sua própria escuridão.

O tolo pode vir até um mestre, porém permanece sem ser beneficiado porque vê apenas o externo. Ele não será capaz de ver o essencial, não será capaz de ver o núcleo. O tolo vem até aqui também, mas ele ouve apenas as palavras – e ele segue interpretando essas palavras de acordo com as suas próprias ideias. Ele segue perfeitamente satisfeito achando saber o que está acontecendo.

Há muitos tolos que não vêm até aqui – eles não sentem a necessidade. Eles simplesmente dependem do relato de outros tolos. Isso é suficiente. Apenas um tolo pode convencer milhares de tolos, porque a linguagem deles é a mesma, os preconceitos deles são os mesmos, as suas concepções são as mesmas… não há problema! Um tolo viu e todos os outros tolos são convencidos. Um tolo relatou nos jornais e todos os outros tolos leram-no de manhã cedo, e são convencidos.

 

Os sutras:

QUÃO LONGA É A NOITE PARA A SENTINELA,

QUÃO LONGA É A ESTRADA PARA O EXAURIDO VIAJANTE,

QUÃO LONGA É A PERAMBULAÇÃO DE MUITAS VIDAS

PARA O TOLO QUE ERRA O CAMINHO.

 

A noite é muito longa para a sentinela – por quê? Ela não pode relaxar, ela tem que manter-se, de alguma forma, acordada. É uma luta. Ela tem que manter-se acordada contra a natureza, porque a noite é feita para relaxar, descansar e dormir. Ela está lutando contra a natureza – portanto ela é tola. O tolo segue lutando contra a natureza. Ele tenta nadar contra a correnteza; assim, a sua miséria é longa, desnecessariamente longa. Ele a multiplica por mil porque não pode desconsiderar, não pode relaxar.

A primeira indicação da mente tola é que ela não pode relaxar, está sempre tensa, está sempre em guarda, sempre com medo.

QUÃO LONGA É A NOITE PARA A SENTINELA… Não é tão longa para aqueles que estão descansando, relaxando e estão em um sono profundo. A noite passa rápido! Em um momento você estava acordado, então você dorme… e no próximo momento você está acordado, é manhã. Você não pode acreditar que a noite voou tão depressa. Se você está realmente sossegado… quanto mais você descansa, mais rápida a noite voa. Se o seu descanso é total, o tempo desaparece. Isso é algo a ser entendido.

O tempo é um fenômeno psicológico. Não estou falando do tempo que você vê no relógio, estou falando do tempo psicológico. Quando você está feliz, relaxado, pacífico, o tempo voa rápido. Quando você está na dor, na miséria, na angústia, o tempo passa muito vagarosamente; parece eterno.

Você já se sentou à noite aos pés de um ser humano que está morrendo? Parece que a manhã nunca virá. A noite parece tão longa… é a mesma noite. Na mesma noite você pode sentar-se com seu amado e ela voa tão rápida que você não pode acreditar – porque você estava feliz, relaxado, apreciando e movendo-se com a natureza, sem lutar. O amor significa entregar-se, o amor significa relaxamento.

Albert Einstein foi perguntado repetidas vezes, “O que é a teoria da relatividade?” É uma teoria complicada e não pode explicada facilmente para pessoas que desconhecem a matemática superior. De fato, diz-se que apenas doze pessoas na Terra entendiam exatamente o que Einstein quis dizer pela teoria da relatividade. Como explicá-la para um leigo?

Então ele criou essa bela explicação. Ele diria, “Sente-se em um fogão quente e um segundo parece quase como a eternidade, eterno – está tão quente, é tão doloroso. E então você segura a mão do seu amado e senta-se ao seu lado nas margens de um rio em uma noite de lua cheia e as horas passam como momentos.” É isso, ele costumava dizer, a teoria da relatividade.

Tudo depende de você, de seu estado psicológico. O tempo não é um fenômeno físico, material; é psicológico. Por isso, em meditação profunda o tempo desaparece totalmente. E isso não é algo novo, os místicos sabiam disso ao longo das eras. Eles disseram, todos os místicos de todos os países, que o tempo para quando a meditação realmente ocorre. Jesus foi perguntado, “Você fala tanto do reino de Deus – o que haverá de tão especial nele, algo que não conhecemos de maneira alguma? Diga-nos algo sobre o reino de Deus que será absolutamente especial.”

E vocês sabem o que ele falou? Uma resposta muito estranha – ele disse, “Não haverá mais tempo.”

Sim, no reino de Deus não pode haver mais tempo, porque o tempo existe apenas na proporção da dor, angústia, ansiedade. Se toda a ansiedade, toda a dor, todos os pesadelos desaparecerem, o tempo desaparece. O tempo é um fenômeno da mente: se não houver mente, não haverá tempo. E você também sabe disso. Esta relatividade você já sentiu.

Vivek estava falando há alguns dias, e muitas vezes ela falou, que o tempo voa tão rápido aqui que ela não consegue acreditar que está aqui há sete anos. Parece que faz sete dias que ela chegou.

E, ainda assim, estamos no meio do mundo! Uma vez que você se moveu para longe do mundo, uma vez que você tenha o seu pequeno mundo, uma vez que baixamos todas as pontes, o tempo começa a desaparecer. O meu esforço é dar-lhe uma amostra da intemporalidade. Uma vez que você a saboreou, então você pode voltar ao mundo e ela permanecerá com você. A coisa mais importante é saboreá-lo pelo menos uma vez – o não-tempo – e, de repente, você é transportado para o outro mundo.

Este mundo consiste de tempo e espaço. É assim que Albert Einstein o definiu: espaço-tempo. Ele faz um mundo de dois, porque ele diz que o tempo nada é nada exceto a quarta dimensão do espaço. Então este mundo consiste de espaço e tempo, e na meditação você desaparece de ambos, ou ambos desaparecem do seu ser. Você não sabe onde está. Você é, certamente, mais do que sempre foi; você está totalmente ali, porém não há espaço confinando-o nem tempo definindo-o. Uma pura existência. Uma vez provada, toda a tolice desaparece.

O tolo vive no tempo, o homem sábio vive na intemporalidade.

O tolo vive na mente, o homem sábio vive na não-mente.

QUÃO LONGA É A NOITE PARA A SENTINELA, QUÃO LONGA É A ESTRADA PARA O EXAURIDO VIAJANTE… Apenas olhe para as faces das pessoas – quão cansadas, exauridas, totalmente frustradas elas parecem. E não parecem somente, elas são. A alma delas está cansada, todo o seu ser tornou-se um tipo de enfado. Elas estão se arrastando – sem alegria, sem dança em seus passos, nenhuma música em seus corações, sem gratidão, sem agradecimento por serem… pelo contrário, muitas queixas.

Um dos personagens do livro Os Irmãos Karamazov de Dostoievsky diz, “Eu gostaria de devolver essa vida a Deus se eu o encontrasse. Não quero viver mais. A vida é de uma angústia tamanha!” Ele queria devolver o ingresso. Como ele poderia ser agradecido?

Pense: se você encontrar Deus um dia, o que você dirá a ele? Será difícil dizer até “Olá!” Você estará tão bravo com ele, totalmente aborrecido, irritado, que este é o homem que o criou, este é o homem que criou o mundo! É simplesmente por isso que Deus segue escondendo-se; caso contrário as pessoas seriam obrigadas a matá-lo. Elas não o deixariam vivo; ele tem que se esconder, apenas para sobreviver.

QUÃO LONGA É A ESTRADA PARA O EXAURIDO VIAJANTE, QUÃO LONGA É A PERAMBULAÇÃO DE MUITAS VIDAS PARA O TOLO QUE ERRA O CAMINHO. E o tolo está predestinado a errar o caminho. Por quê? Porque ele pensa que já conhece o caminho, porque ele pensa que está no caminho. Todos os outros estão errados, ele está certo. Ele acredita que se todos o seguirem, tudo estaria certo no mundo. Ele é um fanático. Ele tem a Bíblia, o Alcorão, os Vedas – o que mais é necessário? Ele conhece todos os belos dogmas de todas as religiões – o que mais é necessário? Ele conhece o caminho!

Mas quando Buda usa a palavra ‘caminho’, ele quer dizer dhamma – AES DHAMMO SANANTANO.  Ele quer dizer o caminho que o tira do ego, o caminho que o tira da sua mente, o caminho que o tira das suas identidades, o caminho que o torna uma vacuidade absoluta… o caminho que o ajuda a dissolver-se no todo.

Ele não está falando sobre religiões, não está falando sobre supostas técnicas, dispositivos, métodos. Quando usa a palavra ‘caminho’, ele quer dizer exatamente o que Lao Tsé quer dizer por ‘tao’. Tao significa exatamente “o caminho” – o caminho para que? O caminho para além de si próprio, o caminho que te leva para fora de seu confinamento, do seu estado de encarceramento, para o aberto.

QUÃO LONGA É A PERAMBULAÇÃO DE MUITAS VIDAS… E é realmente uma perambulação muito longa – não de um dia ou uma vida, mas de muitas vidas, de milhões de vidas. E se as pessoas estão cansadas não é surpreendente. Se os olhos delas parecem cheios de areia, não é surpreendente. Se as suas almas estão cobertas por várias camadas de poeira, não é surpreendente. Se elas não refletem mais, se os seus espelhos estão perdidos, não é um acidente – é entendível, embora imperdoável, porque ninguém mais é responsável por essa situação além delas próprias. Se você decidir você pode abandonar todas as camadas de poeira nesse próprio momento, e, no momento em que você abandona toda a poeira dos seus pensamentos, você está no caminho. Você é o caminho!

Jesus diz, “Eu sou o caminho, a verdade, a porta.” Os Cristãos seguem interpretando-o como se Jesus fosse o caminho; não é verdade, isso é falsificar totalmente Jesus. Quando Jesus diz, “Eu sou o caminho,” ele está dizendo, “Qualquer um que puder dizer ‘eu sou’, ali estará o caminho.” Ele não está falando de Jesus, o filho de José e Maria; ele está falando sobre essa “individualidade. [NT. I-amness.]”

Em profunda meditação silenciosa, no momento em que você cruzar com essa individualidade, você estará no caminho. Não é uma questão de ser um Cristão. Não é o que os Cristãos seguem falando para todo o mundo, “A menos que você venha até Jesus, você não encontrará o caminho para Deus.” Isso é puro disparate! – porque Buda descobriu sem ser Cristão, e Maomé encontrou sem ser um Cristão, e Mahavira encontrou, Krishna encontrou, Lao Tsé encontrou… eu encontrei sem ser um Cristão. Isso é um disparate.

Mas o que Jesus realmente significa é verdade.

Moisés perguntou a Deus quando o encontrou… uma bela estória; lembre-se que é uma estória, não uma história. A história é uma coisa muito ordinária; a história consiste de Tamerlão, Genghis Khan, Adolf Hitler, Joseph Stalin e Mao Tsé-Tung – a história é muito ordinária. Ela consiste de tudo o que é feio. Não é história, é uma parábola, uma metáfora, de uma tremenda poesia e beleza.

Diz-se que quando Moisés encontrou Deus ele perguntou, “Quem é você?” E os relatos dizem que Deus disse, “Sou o que sou.”

É isso o que Jesus quer dizer quando diz, “Sou o caminho.”

Se você pode sentir o seu próprio ser, a sua própria “identidade”, você encontrará o caminho. O tolo não pode encontrá-lo. Ele segue repetindo… vivendo os mesmos desejos, os mesmos pensamentos estúpidos, as mesmas memórias. O tolo é repetitivo; ele repete apenas o que conhece – ele nunca se empenha para ir além do seu conhecimento. E a verdade é desconhecida.

Somente observe a sua mente e você será capaz de entender o que estou tentando expressar para você. A sua mente é repetitiva! Ela diz, “Ontem a comida estava muito boa, vamos ao mesmo hotel novamente… ontem aquele homem foi muito amigável, vamos encontrá-lo novamente.” Ela quer repetir os ontens e não permite que o hoje tenha o seu próprio ser. Ela também não permite que o amanhã tenha o seu próprio ser; também para os amanhãs ela tem planos para repetir exatamente o que foi conhecido no passado. E o que você conheceu no passado com exceção da miséria? Mas você tornou-se familiar com a miséria e segue repetindo-a.

O tolo é repetitivo: o sábio vive cada momento como um momento novo.

 

Todos os soldados do regimento Americano na Coréia colocam um dólar cada e sorteiam quem ganha o dinheiro resultante para ser gasto em uma noite no melhor bordel do Oriente.

Hymie Kaplowitz, o terror do Brooklyn, naturalmente ganha e, em seu retorno do lendário bordel, descreve aos seus companheiros de beliches o que aconteceu: as cortinas douradas suspensas, a música oriental sensual, a comida exótica afrodisíaca servida antecipadamente por garotas nuas de doze anos, etc., terminando todas as passagens com “… nada como o Brooklyn!”

Finalmente descreve a mulher mais bela que já viu descendo vagarosamente a escada ornamentada, vestindo apenas uma tiara na forma de pagode arrastando véus de renda brancos, levando-o escada acima pela mão para sua cama perfumada “… nada como o Brooklyn!”

“E então?” todos os outros soldados perguntam febrilmente.

“E então?” responde Hymie. “Ó, então foi exatamente como no Brooklyn.”

 

A mente do tolo segue repetitivamente fazendo a mesma coisa. A mente do tolo é um círculo vicioso – ela se move em círculos. O ser humano sábio não é repetitivo de maneira alguma. Ele vive todos os momentos como novos, ele nasce novamente a cada momento. Ele morre para o passado a cada momento e nasce novamente.

Toda a vida do ser humano sábio é um processo de renascimento. O ser humano sábio não nasce uma vez, ele nasce a todo momento. O velho nunca toma possa dele. Mas o tolo nasce apenas uma vez e então segue repetindo.

Se você seguir repetindo você errará o caminho, porque a sua identidade, o seu ser, é absolutamente fresco e sempre jovem. Nunca fica velho. A mente envelhece, o corpo envelhece, mas o ser não conhece nada do tempo – como ele poderia envelhecer? Ele está sempre jovem, sempre juvenil. Ele é tão fresco quanto as gotas de orvalho no sol da manhã, tão fresco quanto as pétalas do lótus no lago.

 

SE O VIAJANTE NÃO PODE ENCONTRAR

UM MESTRE OU AMIGO PARA IR CONSIGO,

É MELHOR VIAJAR SOZINHO

DO QUE NA COMPANHIA DE UM TOLO.

 

A melhor coisa é encontrar um mestre, porque o mestre é o maior amigo possível; por isso Buda diz MESTRE OU AMIGO.

SE O VIAJANTE NÃO PODE ENCONTRAR UM MESTRE OU AMIGO PARA IR CONSIGO, É MELHOR VIAJAR SOZINHO DO QUE NA COMPANHIA DE UM TOLO. Mas evite os tolos. E é isso o que você nunca faz. Você coleciona tolos ao seu redor. Há algum segredo nisso: quando você está cercado de tolos, você parece superior. É muito gratificante para o ego; por isso ninguém quer viver com alguém que é superior. As pessoas querem viver com os seus inferiores, porque os seus inferiores dão a ideia que você é excepcional.

Estando com um mestre você terá que abandonar a ideia que você é excepcional, você terá que abandonar toda essa bobagem, você terá que abandonar todo o ego, você terá que entregar-se. Você terá que dissolver-se no mestre; por isso as pessoas evitam os mestres. Quantas pessoas foram até Jesus? Muito poucas, elas podem ser contadas nos dedos. Quantas pessoas foram até Buda? Muito poucas… isso sempre foi assim. Mas as pessoas estão muito felizes no Rotary Clube. É muito bom quando você está cercado de tolos – é muito bom: todos os tolos elegantemente vestidos, cada tolo sentindo-se melhor do que os outros, cada tolo gabando-se de si próprio e sendo ajudado pelos outros tolos.

As pessoas amam estar em grupo, porque em grupo você pode esquecer a sua inferioridade. É por isso que elas não deixam os grupos. Um grupo é formado por Hindus, outro por Islâmicos, o terceiro é de Cristãos e assim por diante. Ninguém quer abandonar o grupo.

E mesmo se às vezes as pessoas abandonam um grupo, elas imediatamente entram em outro. Elas escapam de uma prisão apenas para entrar em outra – elas não conseguem viver sozinhas. Buda diz que é melhor viver sozinho do que com tolos. Se você pode encontrar um mestre ou um amigo, bom; se você não consegue, então é melhor estar sozinho. É claro, será difícil ficar sozinho, será difícil porque o grupo criará muitas dificuldades para você. O grupo não ama indivíduos, ele não quer que ninguém seja independente; o grupo quer que todos dependam do grupo. Ele criará problemas para você. Mas todos esses problemas são purificadores, todos esses problemas são desafios. Eles aguçam a sua inteligência, eles o tornam mais sábio.

 

“OS MEUS FILHOS, A MINHA RIQUEZA!”

ASSIM O TOLO CRIA PROBLEMAS PARA SI PRÓPRIO.

MAS COMO ELE TERIA FILHOS OU RIQUEZA?

ELE NÃO É NEM MESTRE DE SI PRÓPRIO.

 

O tolo vive em torno da ideia de “meu” e “minha”; minha nação, minha religião, minha raça, minha família, minha riqueza, meus filhos, meus pais… ele vive em torno das noções de “meu” e “minha”. E ele veio sozinho e partirá sozinho; ninguém traz nada ao mundo e ninguém leva nada do mundo. Sozinhos, de mãos vazias nós viemos; sozinhos, de mãos vazias nós partimos. O sábio sabe disso; por isso o sábio não clama nada como “meu”. Ele usa as coisas, mas não as possui. Usar é perfeitamente correto – utilize todas as coisas do mundo, elas existem para você. O mundo é um presente de Deus – use-o, mas não o possua. No momento em que você se torna um possuidor, de fato você é possuído por muitas coisas, você se torna um escravo. E a própria ideia de possuir é estúpida. Como você pode possuir algo? Você não possui nem mesmo o seu próprio ser. O que mais você pode possuir? Você não é nem mestre de si próprio.

Buda diz: “OS MEUS FILHOS, A MINHA RIQUEZA!” ASSIM O TOLO CRIA PROBLEMAS PARA SI PRÓPRIO. E quantas ansiedades surgem desse negócio de “meu” e “minha? Totalmente falso! Basicamente falso, mas pode criar muitas misérias. É como quando em uma noite escura você vê uma corda e pensa ser uma cobra. Agora você está correndo, gritando, tremendo, você pode ter um ataque cardíaco. E não havia cobra nenhuma – havia apenas uma corda! Mas o ataque cardíaco será real, lembre-se: uma cobra irreal pode criar um ataque cardíaco real.

Esses são problemas irreais. Clamar “meu” – qualquer coisa! País, igreja, filhos, riquezas, qualquer coisa – quando você clama “Isso é meu!” você está criando uma grande fonte de ansiedade, de angústia para si próprio. Você está criando um inferno ao seu redor.

MAS COMO ELE TERIA FILHOS OU RIQUEZA? Buda pergunta. ELE NÃO É NEM MESTRE DE SI PRÓPRIO.

 

Um tolo caiu da janela do sexto andar. Ele jaz no chão com uma multidão ao seu redor. Um policial surge e pergunta, “O que aconteceu?”

O tolo fala, “Não sei. Eu acabei de chegar aqui.”

 

O que você sabe sobre como você chegou até aqui? O que você sabe sobre de onde você veio? O que você sabe sobre para onde você deve ir? O que você sabe sobre quem você é? As questões mais fundamentais permanecem na escuridão, e ainda assim você segue clamando, “Essa é minha casa…”

 

Quando Buda iluminou-se ele voltou para casa. O pai estava muito bravo, obviamente – este era o seu único filho e ele tornou-se um renunciante. O pai estava ficando velho e ele controlava um grande reino. Ele estava muito preocupado: “Quem o possuirá? Quem o governará? Aquele tolo, o meu filho, escapou.”

Muitos esforços foram feitos para persuadir Buda a voltar, mas todos os esforços falharam. Quando iluminou-se ele voltou por si próprio – este encontro é um dos mais belos encontros da história da humanidade.

O velho pai de Buda estava muito bravo, tão bravo que de tanta raiva as lágrimas começaram a surgir em seus velhos olhos. Ele gritou, berrou, maltratou, e Buda ficou ali, totalmente calmo e quieto, como se nada estivesse ocorrendo. Talvez por meia hora, ou por uma hora… então o pai, o velho homem, ficou exausto. Então ele ficou consciente que o filho não pronunciara nem mesmo uma palavra, ele não reagira de forma alguma. “E ele está tão calmo e quieto! O que está acontecendo? Ele está surdo ou algo do tipo? Ele ficou louco ou algo do tipo?” Ele perguntou, “Por que você não me responde?”

Buda disse, “O homem que te deixou não existe mais. Você está falando comigo – você está falando com seu filho, que não existe mais. Muita água correu pelo Ganges desde então. Doze anos se passaram. Sou uma pessoa totalmente diferente.”

Buda está falando metaforicamente, é claro. Ele quer dizer, “Não sou mais a mesma consciência, não sou mais a mesma mente. As minhas atitudes desapareceram, os meus preconceitos se foram. Sou um ser totalmente fresco. Agora sei quem sou. Aquela época eu era um tolo. Agora há luz no interior da minha alma. É por isso,” ele disse, “que não sou mais o mesmo.”

Novamente o pai de Buda enfureceu-se. Ele disse, “O que você quer dizer com não ser mais o mesmo? Eu não posso reconhecer o meu filho? Não te conheço? Eu te dei à luz, o meu sangue flui em suas veias, você foi feito do meu sangue e dos meus ossos – e eu não te conheço? Você é insolente ao dizer isso!”

E Buda disse novamente, “Desculpe-me, mas digo novamente que o meu corpo pode ser uma parte do seu corpo – eu não sou. Agora sei que não sou meu corpo, não sou minha mente. Agora sei quem sou. E você não tem nada a ver com o meu ser; você não criou o meu ser, você não deu à luz ao meu ser. Eu existia antes do meu nascimento e eu existirei depois da minha morte. Por favor tente entender-me; não fique irritado, não fique aborrecido. Eu vim apenas para compartilhar a alegria que encontrei.”

Mas os pais pensam que seus filhos são seus, os filhos pensam que seus pais são seus. Nesse mundo, o seu ser está absolutamente a sós. Sim, compartilhe a sua alegria com os outros; mas nunca possua. Apenas o tolo possui, o homem sábio não tem possessividade.

 

O TOLO QUE SE SABE TOLO

É MUITO MAIS SÁBIO.

O TOLO QUE SE PENSA SÁBIO

É UM TOLO REALMENTE.

 

Pondere sobre isso: o que você pensa sobre si mesmo? Será doloroso ver a sua tolice. É fácil ver os outros como tolos – de fato, todo mundo sabe que todas as outras pessoas são tolas – mas ver a própria tolice é um grande passo no sentido da sabedoria. Ver a sua própria tolice é já transformar o seu ser, a sua consciência.

 

Um homem está visitando a França. Passeia um pouco na primeira noite. Faz amor com a mulher do anfitrião, a sua filha, a cozinheira, com a segunda empregada, etc. O anfitrião o repreende de manhã.

“Qual é a grande ideia? Aqui você é meu convidado. Recebo-o como um amigo. E o que você faz? Você faz amor com a minha mulher, a minha filha e metade dos criados – e para mim, nada?”

 

O tolo preocupa-se sempre com apenas uma coisa – o seu ego. Qualquer coisa que é para si é boa – qualquer coisa. E está pronto para apegar-se. O tolo apega-se até à miséria, porque é a sua miséria. Ele segue acumulando qualquer coisa que possua, porque o tolo não tem ideia do seu reino interior, de seus tesouros interiores; ele segue acumulando lixo porque pensa que isso é tudo o que pode ser possuído. Lixo fora e lixo dentro; é isso o que as pessoas seguem coletando – coletam coisas e coletam pensamentos. As coisas são lixos externos, os pensamentos são os lixos internos e você se afoga em seu lixo.

Olhe para sua vida de forma desprendida, impassível, o que você tem feito com ela e o que você ganhou com isso. E não tente se enganar, porque a mente assim o faz. Ela diz, “Olhe o tanto que você ganhou! Muito dinheiro no banco, tantas pessoas conhecem-no, respeitam-no, honram-no; você tem um ótimo cargo, politicamente você é poderoso… o que mais? O que mais alguém pode esperar? A vida deu tudo o que se pode esperar.”

Mas dinheiro ou poder ou prestígio não são nada, porque a morte virá e todas as suas grandes cidadelas da riqueza, poder, prestígio, respeitabilidade, vão logo começar a ruir como se você as tivesse feito de cartas de baralho. Somente um sopro da morte e tudo destrói-se.

A menos que você tenha algo que possa levar além da morte, lembre-se, você não tem nada de maneira alguma – as suas mãos estão vazias. A menos que você tenha algo imortal, eterno, você é um tolo. O Buda chama de sábio aquele que alcançou algum tesouro real – da meditação, da compaixão, da iluminação.

 

A COLHER SABOREIA A SOPA?

UM TOLO PODE VIVER TODA A SUA VIDA

NA COMPANHIA DE UM MESTRE

E AINDA ASSIM ERRAR O CAMINHO.

 

A colher não pode provar a sopa, a colher está morta – assim como o tolo. Ele apenas parece estar vivo; o seu coração está morto, quase morto, porque o seu coração não está funcionando. Ele vive apenas através da cabeça e a cabeça é apenas uma colher.

Através da cabeça você não pode saborear qualquer alegria da vida. Você pode ver a beleza pela cabeça? Você pode ver a flor, mas você perderá a beleza; você verá a lua, mas você perderá a beleza; você verá o pôr do sol, mas perderá a beleza. A sua cabeça não pode conhecer nada da beleza.

A sua cabeça pode conhecer alguma coisa sobre sexo, mas não pode conhecer nada sobre o amor. A sua cabeça pode entender a parte da prosa da vida, a sua cabeça é uma máquina calculadora – mas ela não pode conhecer a poesia da existência. E a poesia da existência contém a verdade. A música da existência contém a bênção real. Ela pode ser conhecida apenas pelo coração. Apenas o coração pode experienciá-la.

Lembre-se, a cabeça é eficiente com tudo o que é insignificante; e apenas o coração é capaz de tudo o que é significante. E todos nós estamos vivendo na cabeça. As nossas escolas, colégios, universidades, existem apenas por um propósito único, existem apenas para um crime: desviar a energia das pessoas do coração para a cabeça para que todo o mundo se torne uma máquina calculadora, vendedores eficientes e fiscais da receita, chefes de estação… Mas o sistema educacional não permite que você se torne um amante, um poeta, um cantor. Ele não permite que você saiba a real significância da vida. Ele não permite que você entre no templo, ele te mantém do lado de fora.

A cabeça é superficial, o coração é o centro. E se o coração não está funcionando, você é uma colher, uma colher de pau. Você não provará a sopa. UM TOLO PODE VIVER TODA A SUA VIDA NA COMPANHIA DE UM MESTRE E AINDA ASSIM ERRAR O CAMINHO.

Estar na companhia de um mestre é a maior bênção possível, porque estando na companhia de alguém que está desperto a possibilidade se abre para que você também desperte. Aquele que está acordado pode fazer com que você acorde, porque o despertar é contagioso. Ele pode te chacoalhar para fora dos seus sonhos e pesadelos. Mas o tolo pode viver na companhia do mestre toda a sua vida e perder a possibilidade. Como ele a perde? Porque também com o mestre ele está conectado pela cabeça – essa é a forma de perder o mestre.

Ora, há poucas pessoas aqui que estão perdendo e que seguirão perdendo se permanecerem orientadas pela mente. Esse não é um lugar para se viver na cabeça. Seja sem cabeça! Um verdadeiro sannyasin será sem cabeça. Ele será genuíno, porque é apenas através do coração que posso penetrá-lo. É apenas através do coração que há qualquer possibilidade de comunhão. Caso contrário você ouvirá as minhas palavras, você coletará as minhas palavras e será como um papagaio repetindo as minhas palavras – e isso é totalmente fútil… a não ser que você experimente, a não ser que você beba a mim.

A LÍNGUA SABOREIA A SOPA. Por favor não seja uma colher, seja uma língua. Quando você está em torno de um buda, não seja uma colher, seja uma língua – esteja vivo, esteja sensível, seja genuíno, seja amoroso, seja confiante.

 

SE VOCÊ ESTÁ ACORDADO NA PRESENÇA DE UM MESTRE

ESSE MOMENTO MOSTRAR-TE-Á O CAMINHO.

 

Um único momento é suficiente! Não é uma questão de estar com um mestre por um longo tempo; o tempo não entra. Não é uma questão de quantidade, de quanto tempo você viveu com o mestre. A questão é quão fundo você amou o mestre, não quanto tempo você viveu com o mestre – quão intensamente, apaixonadamente você tornou-se envolvido com o mestre… não a duração do tempo, mas a profundidade do seu sentimento. Então um único momento de consciência, de despertar do coração, um único momento de silêncio… e a transmissão, a transmissão para além de todas as escrituras.

 

O TOLO É SEU PRÓPRIO INIMIGO.

O DANO QUE FAZ É A SUA DESTRUIÇÃO.

QUÃO AMARGAMENTE ELE SOFRE!

 

O TOLO É SEU PRÓPRIO INIMIGO, diz Buda. Por quê? – porque é simplesmente por sua própria vontade que ele segue perdendo tudo o que é significante na existência. Ninguém está bloqueando o caminho. A poesia da vida está disponível para todos. O tolo permanece surdo, ele mantém os seus ouvidos tampados. A vida é cheia de luz, mas o tolo mantém os seus olhos fechados. A vida está continuamente jorrando a alegria divina, as flores seguem derramando-se, mas o tolo permanece completamente indiferente. Mesmo se ele, a despeito de si mesmo, cruza com uma flor, ele não acredita nela. Ele diz, “Eu devo estar enganado.”

Acontece quase todos os dias. As pessoas escrevem para mim que em suas meditações algo estranho está ocorrendo: elas estão se sentindo muito felizes – não pode ser verdade! Ninguém nunca escreve para mim, “Estou me sentindo infeliz – não pode ser verdade!” Mas sempre que a felicidade é sentida, a alegria surge, elas ficam com medo, elas não podem acreditar. Elas começam a suspeitar. Começam a suspeitar e a teorizar que aquilo deve ser a hipnose do local, deve ser as muitas pessoas de laranja ao seu redor, é por isso que elas estão sendo afetadas. Como elas podem estar felizes?! Em suas vidas elas conheceram apenas a miséria, elas ficaram acostumadas com a miséria, a miséria tornou-se o seu próprio ser. Ora, êxtase? Não, essas flores não podem ser verdadeiras – algo está errado.

Em quase todas as linguagens do mundo existem provérbios como esse em Inglês: você diz, “Não pode ser verdade porque é tão bom.” O bom não pode ser verdade? Ninguém acredita no bom. “Muito bom para ser verdade,” você diz. Ninguém diz, “Muito mau para ser verdade.” Nenhum provérbio como esse existe em qualquer língua do mundo: “Muito mau para ser verdade.” O mal é aceito, o feio é aceito, o mundano é aceito – e o sagrado é negado.

E mesmo se você aceita o sagrado, você o aceita apenas formalmente. Você vai ao templo e a igreja como uma formalidade social; você não acredita realmente em Deus, você não acredita realmente no templo. O templo é bom, mantém as coisas tranquilas, ele é como um lubrificante. Se você vai ao templo e a igreja as pessoas pensam que você é um ser humano bom, honesto, religioso; e se as pessoas pensam que você é religioso, honesto e bom, você pode enganá-las melhor do que se pensassem diferente. Elas confiarão em você, e você pode enganá-las e iludi-las apenas se elas confiam em você. É uma formalidade social, talvez uma estratégia social para enganar e iludir as pessoas. Mas você não acredita.

Sempre que algo imenso, gigante, maior que você, desce até você, você simplesmente encolhe, fecha os seus olhos, você se torna um avestruz. Você simplesmente o evita! Não pode ser assim. Não é que Deus não cruzou com o seu caminho – ele o fez várias vezes, ele bateu nas suas portas muitas vezes, mas você não abriu as portas. Pelo contrário, você segue buscando racionalizações. Às vezes você diz, “deve ser o vento, deve ser a chuva, deve ser alguma criança vizinha brincando nos degraus, batendo na porta.” Você segue explicando para si próprio… mas você nunca abre a porta e vê quem está ali.

O TOLO É SEU PRÓPRIO INIMIGO. O DANO QUE FAZ É A SUA DESTRUIÇÃO.

QUÃO AMARGAMENTE ELE SOFRE!

 

POR QUE FAZER ALGO QUE VOCÊ SE ARREPENDERÁ?

PARA QUE TRAZER LÁGRIMAS PARA SI PRÓPRIO?

 

A partir da sua grande compaixão ele faz essa questão – ele está falando com você – POR QUE FAZER ALGO QUE VOCÊ SE ARREPENDERÁ?

 

FAÇA APENAS AQUILO QUE VOCÊ NÃO SE ARREPENDERÁ,

E PREENCHA-SE DE ALEGRIA.

 

Lembre-se, permita que isso seja o critério: qualquer coisa que traz alegria, bem-aventurança e bênção é verdade – porque a bem-aventurança é a natureza de Deus. Verdade é outro nome para bem-aventurança. A inverdade traz miséria. Se você vive na mentira, você viverá na miséria. Retire-se dessas mentiras. Não desperdice tempo e não adie. Retire-se imediatamente. Chamo sannyas este retirar-se.

Não é retirar-se do mundo, é retirar-se das mentiras que você tem vivido até agora. Não é renunciar ao mundo, é renunciar às mentiras que você baseou a sua vida. No momento em que você se retira das mentiras, elas começam a cair, começam a morrer, porque elas dependem de você, elas se alimentam de você – elas não podem viver sem o seu suporte. Retire a sua cooperação e todas as mentiras desaparecem. E quando todas as mentiras desaparecem, o que sobra é a verdade.

A verdade é a sua natureza mais interna. A verdade não deve ser buscada em nenhum outro lugar. AES DHAMMO SANANTANO – esta é a lei última, a lei inexaurível, a lei máxima, que está dentro de você. Você não precisa ir a lugar algum. Você pode encontrá-la dentro de si se você puder preencher uma condição: retire as mentiras as quais você investiu tanto – retire-se delas. Renuncie a tudo o que é falso. A miséria é uma indicação do falso.

Sempre que alguma bem-aventurança acontece, confie nela e vá em sua direção… e você mover-se-á na direção de Deus. A bem-aventurança é uma fragrância. Se você puder seguir a bem-aventurança, você nunca se desviará. Se você seguir a bem-aventurança, você estará seguindo a natureza. E se você é natural, bem-aventurado, relaxado, a sabedoria surge.

A sabedoria é um estado muito relaxado de ser. A sabedoria não é conhecimento, não é informação; sabedoria é o seu ser interior desperto, alerta, vigilante, testemunhando, cheio de luz. Esteja cheio de luz – é o seu direito de nascença. Se você falhar, você é um tolo. E você já falhou por muitas vidas – dessa vez, por favor, seja um pouco mais compassivo em relação a si próprio.

Por hoje é só.

 

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