Dhammapada: O Caminho do Buda, Vol 2. Cap 6, OSHO

O Dhammapada: O Caminho do Buda, Vol 2

Capítulo #6

Título do Capítulo: É isso

6 de Julho de 1979 na Sala Buda

A primeira questão:

Questão 1

AMADO MESTRE,

VOCÊ SEMPRE APONTOU QUE A MAIORIA DAS COISAS E ESTADOS SÃO DUAS EXTREMIDADES DE UM ESTADO, OPOSTOS POLARES, ENTÃO O ÓDIO É A OUTRA PONTA DO AMOR. ISSO QUER DIZER QUE É TÃO FÁCIL ODIAR QUANTO AMAR? O AMOR É TÃO BELO. O ÓDIO É TÃO FEIO, E, ENTRETANTO, ELE TAMBÉM OCORRE.

Zareen, o amor é um estado natural de consciência. E não é nem fácil nem difícil. Estas palavras não se aplicam ao amor de maneira alguma. Não é um esforço; por isso, ele não pode ser nem fácil nem difícil. É como a respiração! É como a batida de seu coração, é como o sangue circulando em seu corpo.

O amor é seu próprio ser… mas este amor tornou-se quase impossível. A sociedade não o permite. A sociedade lhe condiciona de tal maneira que o amor torna-se impossível e o ódio se torna a única coisa possível. Então o ódio é fácil e o amor não é apenas difícil, mas impossível. O ser humano foi distorcido. O ser humano não pode ser reduzido à servidão se ele não for distorcido em primeiro lugar. O político e o sacerdote estão em uma profunda conspiração ao longo das eras. Eles têm reduzido a humanidade a uma multidão de escravos. Eles estão destruindo toda a possibilidade de rebelião no ser humano – e o amor é rebelião, porque o amor ouve apenas ao coração e não liga nem um pouco para nada mais.

O amor é perigoso porque ele lhe torna um indivíduo, e o estado e a igreja não querem indivíduos, de maneira alguma. Eles não querem seres humanos – eles querem ovelhas. Eles querem pessoas que apenas pareçam seres humanos, mas cujas almas tenham sido tão esmagadas, tão profundamente danificadas, que pareçam quase irreparáveis.

E o melhor caminho para destruir o ser humano é destruir a sua espontaneidade no amor. Se o ser humano ama, não podem existir nações; as nações existem no ódio. Os Indianos odeiam os Paquistaneses e os Paquistaneses odeiam os Indianos – somente então esses dois países podem existir. Se o amor aparece as fronteiras desaparecem. Se o amor aparece, então quem será um Cristão e quem será um Judeu? Se o amor aparece as religiões desaparecem.

Se o amor aparece, quem irá ao templo? Para quê? É por causa da falta de amor que você está buscando por Deus. Deus não é nada além de um substituto para a sua falta de amor. Porque você não está em bem-aventurança, porque você não está pacífico, porque você não está extático, por isso você está procurando por Deus – caso contrário, quem liga? Quem se importa? Se a sua vida é uma dança, Deus já foi alcançado. O coração que ama está pleno de Deus. Não há necessidade de qualquer busca, não há necessidade de nenhuma oração, não há necessidade de ir a qualquer templo, a qualquer sacerdote.

Por isso o sacerdote e o político são os inimigos da humanidade. E eles estão em uma conspiração, porque o político quer governar o corpo e o sacerdote quer governar a alma. E o segredo é o mesmo: destrua o amor. Então o ser humano não é nada além de uma lacuna, um vazio, uma existência sem significado. Então você pode fazer qualquer coisa que queira com a humanidade e ninguém se rebelará, ninguém terá a coragem de rebelar-se. O amor dá coragem e o amor leva todo o medo embora – e os opressores dependem do seu medo. Eles criam o medo em você, mil e um tipos de medos. Você está cercado por medos, toda a sua psicologia está cheia de medos. No fundo você está tremendo. Apenas na superfície você mantém uma certa fachada; por outro lado, no seu interior há várias camadas de medo.

Um ser humano cheio de medo só pode odiar – o ódio é o resultado natural do medo. Um ser humano cheio de medo está também cheio de raiva, e um ser humano cheio de medo é mais contra a vida do que a favor da vida. A morte parece ser um estado tranquilo para o ser humano cheio de medo. O ser humano cheio de medo é suicida, ele é negativo em relação à vida. A vida parece ser perigosa para ele, porque viver significa que você terá que amar – como você pode viver? Assim como o corpo precisa da respiração para viver, a alma precisa de amor para viver. E o amor é totalmente envenenado.

Ao envenenar a energia do seu amor eles criaram uma cisão em você, eles criaram um inimigo dentro de você, eles dividiram-no em dois. Eles criaram uma guerra civil e você está sempre em conflito. E em conflito a sua energia é dissipada; por isso a sua vida não tem entusiasmo, contentamento. Ela não está transbordando de energia, ela é embotada, insípida, desinteligente.

O amor aguça a inteligência, o medo a embota. Quem quer que você seja inteligente? Não as pessoas que estão no poder. Como elas podem querer que você seja inteligente? – porque se você for inteligente você começará a ver toda a estratégia, os jogos delas. Elas querem que você seja estúpido e medíocre. Elas certamente querem que você seja eficiente no que diz respeito ao trabalho, mas não inteligente; por isso a humanidade vive no nível mais baixo, no mínimo do seu potencial.

Os pesquisadores dizem que o ser humano ordinário usa apenas cinco por cento da sua inteligência potencial em toda a sua vida. O ser humano ordinário, apenas cinco por cento – e os extraordinários? E um Albert Einstein, um Mozart, um Beethoven? Os pesquisadores dizem que mesmo aqueles que são muito talentosos não usam mais de dez por cento. E aqueles que chamamos de gênios, eles usam apenas quinze por cento.

Pense em um mundo onde todos estão usando cem por cento do seu potencial… então os deuses teriam inveja da Terra, então os deuses gostariam de nascer na Terra. Então a Terra seria o paraíso, um super-paraíso. Agora ela é um inferno.

Zareen, você diz que deve ser mais fácil amar do que odiar. Se o ser humano for deixado sozinho, sem ser envenenado, então o amor será simples, muito simples. Não haverá problema. Ele será apenas como a água correndo para baixo, ou o vapor elevando-se, árvores florescendo, pássaros cantando. Ele será tão natural e espontâneo!

Mas o ser humano não é deixado a sós. Conforme a criança nasce, os opressores estão prontos para pularem por cima dela, esmagando a sua energia, distorcendo-a tanto, distorcendo-a tão profundamente que a pessoa nunca ficará consciente que está vivendo uma vida falsa, uma pseudo-vida, que não está vivendo como deveria viver, como ela nasceu para viver; que está vivendo algo sintético, plástico, que isso não é a alma real. É por isso que milhões de pessoas estão na miséria – porque elas sentem, em algum lugar, que foram distraídas, que elas não são elas próprias, que algo está basicamente errado…

O amor é simples se à criança for permitido crescer, se ela for ajudada a crescer, de maneira natural – da maneira de dhamma. Se a criança é ajudada a estar em harmonia com a natureza e em harmonia consigo mesma, se a criança é apoiada de todas as formas, nutrida, encorajada a ser natural e a ser ela própria, uma luz para si própria, então o amor é simples. Ela será somente amor!

O ódio será quase impossível, porque antes que você possa odiar outrem, primeiro você tem que criar o veneno dentro de si. Você pode dar algo para alguém apenas se você o tiver. Antes que você possa ferir alguém, você tem que ferir a si próprio. O outro pode não se machucar, dependerá do outro. Mas uma coisa é absolutamente certa: que antes de odiar você tem que passar por um longo sofrimento e miséria. O outro pode não aceitar o seu ódio, pode rejeitá-lo. O outro pode ser um buda – ele pode simplesmente rir dele. Ele pode perdoá-lo, ele pode não reagir. Você pode não ser capaz de feri-lo se ele não está pronto para reagir. Se você não pode perturbá-lo, o que você pode fazer? Você se sentirá impotente na frente dele.

Então não é necessariamente assim, que o outro será ferido. Mas uma coisa é absolutamente certa, que se você odeia alguém, primeiro você tem que ferir a sua própria alma de muitas maneiras; você tem que estar muito cheio de veneno para você poder jogar o veneno nos outros.

O ódio é antinatural. O amor é um estado saudável; o ódio é doença. Assim como a doença ele é antinatural. Ele ocorre apenas quando você se perde da natureza, quando você não está mais em harmonia com a existência, está em desarmonia com o seu ser, com o seu núcleo mais profundo; então você está doente, psicologicamente, espiritualmente doente. O ódio é apenas um símbolo da doença e o amor um símbolo da saúde, integridade e santidade.

Zareen, o amor deve ser uma das coisas mais naturais, mas ele não o é. Pelo contrário, ele tornou-se a coisa mais difícil – uma coisa quase impossível. O ódio tornou-se fácil; você é treinado, você é preparado para o ódio. Ser um Hindu é estar cheio de ódio pelos Islâmicos, pelos Cristãos, pelos Judeus; ser um Cristão é estar cheio de ódio pelas outras religiões. Ser um nacionalista é estar cheio de ódio em relação às outras nações.

Você só sabe uma forma de amar: isto é, odiar os outros. Você só pode mostrar o seu amor pelo seu país se você odiar os outros países e você só pode mostrar o seu amor pela sua igreja se você odiar as outras igrejas. Você é uma bagunça!

Essas supostas religiões seguem falando sobre amor e tudo o que elas fazem no mundo é criar cada vez mais ódio. Os Cristãos falam sobre amor e eles têm criado guerras, crusadas. Os Islâmicos falam sobre amor e eles têm criado jihads – guerras religiosas. Os Hindus falam sobre amor, mas você pode olhar em suas escrituras – elas estão cheias de ódio, ódio pelas outras religiões. Você pode estudar o supost grande livro de Dayanand, Satyarth Prakash e você encontrará ódio em cada página, em cada sentença. E esses livros teoricamente são espirituais.

E aceitamos todo esse disparate! E aceitamos sem nenhuma resistência, porque fomos condicionados a aceitar essas coisas, fomos ensinados que as coisas são assim. E então você segue renegando a sua natureza.

Outro dia eu estava lendo uma piada:

Uma mulher estava confessando – ela era freira – ela estava confessando para a madre superiora, chorando, as lágrimas rolando; ela parecia tremendamente perturbada. E ela estava dizendo, “Cometi um pecado – algo imperdoável. Esse homem entrou em meu quarto ontem à noite e eu estava sozinha. E ele fez amor comigo, com o revólver apontado. Ele me deu apenas duas alternativas: ‘Ou morra ou faça amor comigo’ Estou arruinada!” ela dizia. “Toda a minha vida foi arruinada!”

A madre superiora disse, “Não fique tão transtornada, não se preocupe tanto – a compaixão de Deus é infinita. Diz-se nas escrituras que um ser humano pode fazer qualquer coisa se é uma questão de sobrevivência – exceto cuspir na Bíblia. Um ser humano pode fazer qualquer coisa se é uma questão de sobrevivência, e era uma questão de sobrevivência para você. Então não se preocupe – você está perdoada!”

Mas a mulher permaneceu perturbada e começou a chorar novamente e disse, “Não. Isso não ajuda!”

A madre superiora disse, “Por que não ajuda?”

E a freira olhou para cima e disse, “Porque eu gostei.”

Você pode evitar a natureza mas não pode destruí-la. Ela permanece em algum lugar nos recessos mais profundos do seu ser, viva. E essa é a única esperança.

O amor foi envenenado, mas não destruído. O veneno pode ser jogado fora, fora do seu sistema – você pode ser purificado. Você pode vomitar tudo o que a sociedade forçou em você. Você pode abandonar todas as suas crenças e todos os seus condicionamentos – você pode ser livre. A sociedade não pode mantê-lo escravo para sempre se você decidir ser livre.

Isso é sannyas.

Zareen, é a hora – torne-se um sannyasin agora. É a hora de abandonar todos os antigos padrões e começar uma nova forma de vida, uma forma natural de vida, uma forma de vida não-repressiva, uma vida não de renúncia, mas de celebração.

Ordinariamente, se você olhar para os seres humanos, o amor é impossível, apenas o ódio é possível. Mas o espaço que estou criando aqui é totalmente diferente: aqui o amor é a única possibilidade. O ódio tornar-se cada vez mais impossível. O ódio é o oposto polar do amor – no sentido que a doença é o oposto polar da saúde. Mas você não precisa escolher a doença.

A doença tem algumas vantagens que a saúde não pode ter; não se apegue a essas vantagens. O ódio também tem algumas vantagens que o amor não pode ter. E você tem que ser muito vigilante. A pessoa doente tem a simpatia de todo mundo; ninguém a fere, todos permanecem cuidadosos com o que dizem para ela, que está tão doente. Ela permanece o foco, o centro de todos – da família, dos amigos – ela torna-se a pessoa central. Ela tornar-se importante. Ora, se ela se apega muito a essa importância, a essa gratificação do ego, ela nunca vai querer ficar saudável novamente. Ela própria vai apegar-se à doença. E os psicólogos dizem que há muitas pessoas que estão apegadas à doença por causa das vantagens que a doença traz. E elas investiram tanto em suas doenças, por tanto tempo, que se esqueceram completamente que estão se apegando a essas doenças. Elas temem ser saudáveis e tornarem-se novamente ninguéns.

Você ensina isso também. Quando uma criança pequena fica doente, toda a família é tão atenciosa. Isso é absolutamente incientífico. Quando uma criança está doente, cuide do seu corpo, mas não dê muita atenção. É perigoso, porque se a doença e a sua atenção tornam-se associadas… o que acontecerá se ocorrer muitas vezes. Sempre que a criança está doente ela se torna o centro de toda a família: o pai vem e senta-se do seu lado e pergunta sobre sua saúde, e o doutor vem, e os vizinhos começam a vir, os amigos perguntam e as pessoas trazem presentes… Agora ela pode tornar-se muito apegada a tudo isso; esse cenário pode nutrir tanto o seu ego que ela pode não querer ficar boa de novo.

E se isso acontecer, então é impossível ser saudável. Nenhum medicamento pode ajudar agora. A pessoa tornou-se decisivamente comprometida com a doença. E é isso o que acontece com muitas pessoas – a maioria.

Quando você odeia, o seu ego é satisfeito. O ego pode existir apenas se você odeia, porque no odiar você se sente superior, no ódio você se torna separado, no ódio você se torna definido, no ódio você alcança uma certa identidade. No amor o ego tem que desaparecer. No amor você não está mais separado – o amor lhe ajuda a dissolver-se com os outros. É um encontro e uma fusão.

Se você está muito apegado ao ego, então o ódio é fácil e o amor é o mais difícil. Esteja alerta, vigilante: o ódio é a sombra do ego, e o amor necessita de grande coragem. Coragem é necessária porque é necessário o sacrifício do ego. Apenas aqueles que estão prontos para tornarem-se ninguéns são capazes de amar. Apenas aqueles que estão prontos para tornarem-se nada, totalmente vazios de si próprios, são capazes de receber do além o presente do amor.

Se você está vigilante, Zareen, o amor tornar-se-á muito simples e o ódio tornar-se-á impossível. E no dia em que o ódio tornar-se impossível e o amor tornar-se natural, você chegou em casa. Então não há lugar algum para ir – Deus foi alcançado.

Ser absolutamente natural é tudo o que se entende por encontrar Deus.

A segunda questão:

Questão 2

AMADO MESTRE,

O QUE É?

Prabhati, há dois tipos de coisas na existência: uma, aquilo que pode ser explicado; e a outra, aquilo que pode ser apenas experienciado. As coisas que podem ser explicadas são mundanas, ordinárias, não tem nenhum valor intrínseco nelas. E as coisas que não podem ser explicadas são realmente significantes, elas têm valor intrínseco.

Por exemplo, o sexo pode ser explicado, o amor não pode ser explicado. Por isso, o sexo tornou-se uma mercadoria – pode ser vendido, pode ser comprado. O amor não é uma mercadoria; você não pode vendê-lo, você não pode comprá-lo – não há formas. O sexo pode ser explicado porque é parte da fisiologia. O amor não pode ser explicado – é parte do seu mistério interior.

A menos que a sua sexualidade se eleve e alcance o amor ela é mundana, ela não tem nada de sagrada em si. Quando o seu sexo torna-se amor, então ele entra em uma dimensão totalmente diferente – a dimensão do misterioso e miraculoso. Agora ele se torna religioso, sagrado, não é mais profano.

E há um estágio ainda maior de amor – chamo-o oração – que é absolutamente inexplicável, que é absolutamente inefável. Nada pode ser dito sobre.

Quando um discípulo perguntou a Jesus, “O que é a oração?” Jesus ajoelhou-se e começou a orar. O que mais você pode fazer? A oração não pode ser explicada, nada pode ser dito sobre ela, mas ela pode ser mostrada. O que você pode dizer sobre a morte, o que você pode falar sobre a vida? Qualquer coisa que você disser ficará aquém; não poderia pairar às alturas da vida e da morte. Ambas são experiências.

O que você pode dizer sobre a beleza? Mesmo se o lago está cheio de belos lótus e é noite de lua cheia, e tudo é uma bênção, alguém pode perguntar, “O que é a beleza?” O que você pode dizer? Você pode mostrar! Você pode dizer, “É isso!” Mas a pessoa dirá, “Estou pedindo uma definição.”

Rabindranath, um dos maiores poetas desse país, estava vivendo em uma pequena casa flutuante. Ele costumava viver meses naquela casa-barco; ele amava viver naquela casa-barco. Era noite de lua cheia e ele estava lendo em seu quarto, uma pequena cabine, apenas com a luz de uma vela, e ele estava lendo sobre estética – o que é a beleza? E a lua cheia lá fora, e o cuco cantando em uma orla distante, e a lua refletindo por todo o lago, e todo o lago estava prateado…! Era uma noite tremendamente silenciosa, ninguém em volta, apenas o cuco chamando. De vez em quando um pássaro voava sobre o barco, ou um peixe saltava no lago – e aqueles sons aprofundavam ainda mais o silêncio. E ele ponderava nos grandes livros de estética o que era a beleza.

Cansado, exausto, no meio da noite, ele apagou a vela… e ele ficou chocado, surpreso. Conforme ele apagou a vela, os raios da lua entraram pela janela, pela porta, na cabine. Aquela luz tênue da vela estava mantendo a lua fora. De repente, ele escutou o cuco chamando em uma orla distante. De repente, ele ficou consciente do tremendo silêncio, a profundidade do silêncio em torno do barco. Um peixe pulou e ele saiu… Ele nunca tinha visto uma noite tão bela. Algumas nuvens brancas flutuavam no céu e a lua, o lago, o cuco chamando… ele foi transportado para outro mundo.

Ele escreveu em seu diário, “Eu sou tolo! Estive buscando nos livros o que é a beleza, e a beleza estava do lado de fora da minha porta, batendo na minha porta! Eu estava procurando a beleza, buscando a beleza com uma pequena vela, e a pequena vela estava mantendo a luz da lua lá fora.” Ele escreveu em seu diário, “Parece que meu pequeno eu tem mantido Deus fora – o pequeno ego, como uma tênue luz de vela, mantendo a luz de Deus lá fora. E ele está esperando lá fora. Tudo o que preciso fazer é fechar os livros, apagar a lâmpada e sair – e ver!”

Prabhati, você me pergunta, “O que é?”

Isso… talidade… neste momento você está cercado pelo que é. Está dentro e fora de você. O gorjeio dos pássaros… e esse silêncio… e você me pergunta o que é?

Não é uma questão que possa ser respondida. É uma questão perigosa também, perigosa no sentido que você pode encontrar algumas pessoas tolas que a respondam, e então você pode apegar-se à resposta. Alguém dirá, “Deus é,” e você se apegará a esta resposta. E então outra questão surgirá: “O que é Deus?” E agora você está pronto para cair em uma regressão infinita.

Um homem que certa vez fez um favor a Deus recebeu como recompensa a promessa de uma resposta a uma questão, qualquer questão. Mas Deus o advertiu que algumas coisas só poderiam ser experienciadas e não explicadas. Conforme ele ponderava e começava a fazer a sua única questão cósmica, Deus o avisou novamente sobre a experiência em oposição às explicações.

O homem não podia mais conter a sua questão e desejou saber, “O que há depois da morte?” e Deus o assassinou no mesmo local.

O que mais Deus poderia fazer? Ele o assassinou no mesmo local, imediatamente o matou, porque se você quer conhecer o que há depois da morte, você tem que morrer! Seja muito cuidadoso. A você podem ser dadas explicações sobre coisas que pertencem ao mundo, ao mundo objetivo. Pois isso você deve perguntar ao cientista; ele sabe, isso é da sua alçada. Não pergunte ao místico sobre as coisas que podem ser explicadas; isso não é da sua alçada. A sua alçada é com as coisas que podem ser experienciadas.

Não me pergunte qualquer questão que não pode ser explicada. Esteja em minha presença, sinta a minha presença, esteja aberto e vulnerável. Estamos aqui para experimentar alguma coisa. Todas as explicações sobre os mistérios da vida minimizam e desprezam esses mistérios.

O significado básico, raiz, da palavra ‘explicação’ é ‘aplainar uma coisa’ – mas aplainar uma coisa é destruí-la. Se alguém pode responder, “O que é Deus? O que é o amor? O que é a oração? O que é?” esse alguém aplainou uma experiência bela, tremendamente bela, uma experiência incrível, em palavras feias. Todas as palavras são inadequadas.

Seja e conheça! Fique em silêncio e conheça! Você está aqui não para aprender mais palavras; você está aqui para aprofundar-se no silêncio. Utilize as minhas palavras como pistas na direção de uma existência sem palavras.

É isso! O que você está perguntando? Sinta esse momento… em sua totalidade, em toda a sua dimensionalidade, e uma grande beleza descerá, uma grande beatitude, uma grande bênção o cercará; uma graça, um êxtase muito silencioso começará a nascer em você. Você se sentir-se-á embriagado de existência.

Esteja embriagado de existência – esta é a única forma de conhecê-la.

A terceira questão:

Questão 3

AMADO MESTRE,

QUAL A SUA OPINIÃO SOBRE A CIENTOLOGIA?

Aida, ela é fantástica… quero dizer, um disparate, total disparate! Esteja consciente dessas coisas estúpidas. Elas movem-se no mundo em nome da ciência porque a ciência tem crédito, então qualquer tipo de estupidez pode fingir-se científica. E as pessoas são muito impressionadas pelas palavras: ‘cientologia’. As pessoas ficam muito impressionadas por bugigangas brilhantes, instrumentos… O ser humano está tão inconsciente e tão inconsciente de si próprio que se torna vítima de qualquer coisa! Você só precisa propagá-las, anunciá-las – e o nosso século tem a mídia mais eficiente para anunciar, propagar as coisas.

A cientologia não é nada além de um tipo de hipnose – ela pode hipnotizar você. E a religião real é o oposto: é desipnose. Você já está hipnotizado, você não precisa de mais qualquer cientologia. Você precisa de um processo de desipnose, você precisa de descondicionamento, você precisa sair de todos os tipos de ideologias. A cientologia é uma ideologia. Ela fala nos termos da ciência e a ciência tem um grande apelo. A ciência é a superstição moderna.

O ser humano moderno é imediatamente impressionado se você traz a ciência. Então qualquer coisa e tudo tem que ser provado cientificamente. E existem charlatões que provam até Deus cientificamente e que estão tentando medir estados de meditação – como se a meditação pudesse ser mensurada. Qualquer coisa que você pode mensurar será mente; a não-mente não pode ser mensurada. Todas as suas ondas alfas, etc. não ajudarão. Elas podem ir até uma certa extensão na mente. Mas a meditação começa apenas onde a mente termina.

A mente é mensurável, porque a mente é uma máquina. Mas a não-mente é imensurável, ela não tem limites. Então toda a tolice da mensuração… e as pessoas ficam muito impressionadas. Elas estão sentadas em frente de bugigangas muito brilhantes – dá uma impressão de ciência – fios ligados à cabeça, nas mãos, assim como um cardiograma. Elas estão tentando entender o silêncio interior. É impossível! Qualquer coisa que você consiga gravar é mente. Todas as ondas são da mente.

A meditação é sem ondas porque é sem pensamentos. A meditação não pode ser registrada; não há cardiograma, não há máquina que pode registrá-la. Ela é muito elusiva, muito subjetiva, não pode ser reduzida a um objeto. Mas porque a mente Ocidental é muito objetiva, é treinada na ciência, agora há charlatões que estão lucrando com essa atração e esse treinamento.

A cientologia é uma dessas religiões falsas. A religião real não tem necessidade de quaisquer dessas coisas. E a cientologia está destruindo a mente de muitas pessoas.

O ser humano moderno está em uma situação especial: as religiões antigas perderam o seu domínio, a sua credibilidade, e uma nova religião ainda não chegou – há um lapso. E o ser humano não pode viver sem religião, é impossível; a religião é uma necessidade. Então, se o verdadeiro não está disponível, o falso torna-se prevalente, o falso torna-se um substituto. A cientologia é uma religião falsa, e há várias como a cientologia.

A religião real consiste em tornar-se totalmente silencioso, incondicionado, desipnotizado. É ir além da mente, além da ideologia; é ir além da escritura e além do conhecimento. É simplesmente cair em sua própria interioridade, tornando-se totalmente silencioso, não conhecendo nada, e funcionando a partir de um estado de não conhecimento, a partir da inocência. Quando você funciona a partir da inocência, as suas ações têm uma beleza própria. Isso é virtude – AES DHAMMO SANANTANO.

A quarta questão:

Questão 4

AMADO MESTRE,

A PSICANÁLISE NÃO PODE RESOLVER MUITOS PROBLEMAS? A RELIGIÃO É REALMENTE NECESSÁRIA?

Neelima, a psicanálise é uma coisa superficial – útil, mas muito superficial. Ela analisa apenas os resmungos superficiais da sua mente. É muito melhor que a cientologia, certamente, porque pelo menos ela analisa a verdadeira realidade. Ela lida com a sua mente. Ela tenta penetrar em seu inconsciente, na parte reprimida da sua mente. Ela pode te ajudar, mas não pode resolver todos os seus problemas porque o seu alcance é muito limitado. Por isso Freud não poderia satisfazer plenamente, ele tocou uma parte da sua mente. Adler tocou outra parte da sua mente – ele também não poderia satisfazer plenamente. Jung tocou ainda outra parte da sua mente – ele também não poderia satisfazer plenamente, porque partes são partes e o problema pertence ao todo.

Assagioli vai um pouco mais fundo do que os três. Ele abandona a psicanálise e começa a chamar o seu esforço de “psicossíntese.” Isso é um pouco melhor – ele sintetiza. Freud é um fanático; ele reivindica a verdade, a única verdade, toda a verdade. E qualquer um que estivesse contra ela estaria contra a verdade. Não pode haver outra possibilidade – esse é o único caminho. O fanático sempre clama, “Este é o único caminho.” O fanático não permite a riqueza da vida, a sua variedade.

E assim também Adler. Todos eles foram basicamente discípulos de Freud, embora rejeitassem o seu conhecimento. Mas eles nunca puderam rejeitam o seu fanatismo básico. Eles rejeitaram o que ele disse, mas nunca puderam rejeitar a impressão que ele deixou em seus seres.

Jung também era um seguidor, um discípulo, em seguida rebelou-se contra Freud. Mas mesmo em sua rebelião ele permaneceu, no fundo, a mesma pessoa – a mesma ênfase no reivindicar o todo, de conhecer o todo.

Assagioli é muito melhor, porque ele diz que tudo o que essas três pessoas estão falando faz sentido, mas elas são parciais – elas têm que ser sintetizadas. Uma abordagem sintética que combina todos os esforços é necessária. Mas Assagioli comete um erro muito fundamental. Você pode dissecar um corpo humano para saber o que existe em seu interior; uma vez que você o dissecou você não encontrará nenhuma alma – essa não é a forma de se encontrar a alma. Você encontrará mãos e pernas, cabeça, olhos, coração e rins, encontrará mil coisas, você pode fazer uma longa lista… mas você não encontrará a alma. E naturalmente você concluirá que a alma não existe.

E isso foi feito por Freud, Adler e Jung. Então veio Assagioli. Ele disse, “Isso não está certo. A dissecação não é o caminho, a análise não é o caminho – tentarei a síntese.” Então ele uniu todas as partes novamente, costurou-as juntas; fez um bom trabalho de costura, mas ainda assim o ser humano não está vivo, a alma não está lá. Uma vez que a alma saiu, apenas ao unir o corpo você não pode trazê-la de volta. Então é um cadáver – melhor que Freud, Adler e Jung, porque eles são como os homens cegos proverbiais, os cinco cegos que vão ver o elefante. Cada um reivindicava, “A minha experiência do elefante é o elefante.” Aquele que tocou a perna do elefante dizia que o elefante não é nada além de um pilar… e assim por diante. Freud, Jung e Adler são todos cegos, sentindo as partes do elefante. E o elefante da vida é realmente imenso, enorme.

Ora, o que Assagioli fez foi coletar as opiniões dos cinco homens cegos, colocá-las todas juntas e dizer, “Essa é a coisa correta. Eu fiz a síntese, esta é a verdade.” Esta não é a forma de encontrar a verdade. Ao colocar a opinião de cinco homens cegos juntas, você não chega no elefante real.

Para ver o elefante real olhos são necessários. A psicanálise é cega, e assim também o é a psicossíntese – um pouco mais sábia, mas cega da mesma maneira. Elas não podem resolver os problemas humanos porque o problema humano básico não é psicológico, mas espiritual, não é psicológico, mas existencial. O ser humano não é apenas o corpo; caso contrário o fisiologista resolveria todos os seus próprios problemas. E o ser humano não é apenas uma psique; caso contrário o psicólogo resolveria todos os seus próprios problemas. O ser humano é muito mais: o ser humano é uma unidade orgânica – corpo, mente, alma… esses três mais algo misterioso: o quarto. Os místicos na Índia chamaram-no apenas de quarto – turiya. Eles não o nomeiam porque nenhum nome pode ser dado a ele.

Corpo, mente, alma, esses três são nomeáveis. O corpo está disponível para a observação objetiva. A mente está disponível tanto para a observação objetiva quanto subjetiva – você pode observá-la de fora como comportamento e de dentro como ideias, pensamento, imaginação, memória, instinto, sentimento e assim por diante. A alma está disponível apenas como uma experiência subjetiva. E para além desses três está um quarto que mantém todos juntos: turiya – o quarto, inominável. Este quarto foi chamado de Deus, o quarto foi chamado de nirvana, o quarto foi chamado de iluminação.

O problema humano é complexo. Se ele fosse apenas o corpo, as coisas seriam simples; a ciência resolveria tudo. Se ele fosse apenas a mente, a psicologia seria suficiente. Mas é um fenômeno muito complexo, quadridimensional. E a menos que você conheça o quarto, a menos que você entre no quarto, você não conhece o ser humano em sua totalidade. E sem conhecê-lo em sua totalidade, o problema não pode ser resolvido.

A psicanálise pode te dar uma abordagem filosófica, mas não uma transformação existencial.

Durante os últimos dias da convenção psiquiátrica, um dos doutores presentes na palestra de encerramento percebeu uma atraente mulher Ph.D. sendo tratada grosseiramente pelo homem sentado ao seu lado.

“Ele está te incomodando?” o cortês observador perguntou à mulher.

“Por que eu me incomodaria?” ela replicou. “O problema é dele.”

A psicanálise, a psiquiatria, a psicologia pode lhe dar uma abordagem filosófica em relação à vida. Elas podem dar-lhe a qualidade de manter-se distante dos problemas da vida, mas os problemas não são resolvidos. E o psiquiatra não resolveu nem mesmo os seus próprios problemas – como ele pode ajudar os outros a resolver os deles?

Mesmo Sigmund Freud não é um buda, está cheio de problemas – de fato, ele tem mais problemas do que os seres humanos comuns. Ele tinha muito medo da morte, um medo terrível da morte – tanto que mesmo a palavra ‘morte’ não era pronunciada na sua frente pelos seus discípulos, porque uma vez ou outra, apenas ao ouvir a palavra ‘morte’ ele desmaiava. Apenas a palavra ‘morte’ era suficiente! Ele desmaiava, ficava inconsciente, ele caía da sua cadeira.

Freud trouxe o sexo à luz. Ele fez um grande trabalho: ele destruiu um tabu, um tabu que permaneceu por séculos. O sexo era um assunto tabu, que não deveria ser falado. Ele o trouxe à luz. Ele fez um grande trabalho pioneiro – ele deve ser respeitado por isso. Mas a morte era um tabu para ele; ele não podia nem ouvir a palavra. Parece haver uma conexão.

Esta é a minha observação: que houve dois tipos de sociedade no mundo – uma sociedade que torna o sexo tabu, então ela não tem medo da morte; e a outra sociedade que abandona o tabu contra o sexo, então imediatamente o tabu torna-se o medo da morte. Ainda não fomos capazes de criar uma sociedade na qual nem o sexo nem a morte sejam tabus.

Os meus sannyasins devem fazer isso.

Por que isso ocorre?

Por exemplo, na Índia, o sexo é tabu – você não pode falar sobre isso – mas a morte não é um tabu. Você pode falar sobre isso; de fato, todos os professores religiosos falam sobre a morte. Eles fazem as pessoas temerem muito a morte, falando repetidas vezes sobre ela. Eles criam tanto medo nas pessoas que a partir do medo as pessoas tornam-se religiosas. Todas as escrituras Indianas estão cheias de descrições da morte. A morte parece ser o assunto mais falado na Índia – não o sexo. O sexo é tabu. O sexo é vida, e se você escolheu a morte você não pode escolher o sexo – e vice-versa.

Freud fez um grande serviço à humanidade; ele trouxe o sexo dos cantos escuros da alma para o mundo aberto. Mas imediatamente a morte tornou-se tabu; ele próprio ficou com medo da morte. Eles são opostos polares, e o ser humano total será capaz de entender ambos.

E o ser humano total, o ser humano inteiro é a minha definição de ser humano sagrado. Ele será capaz de falar sobre sexo, observar, analisar, dissecar, de entrar nisso, meditar – e ele será capaz de fazer o mesmo com a morte. Porque você não é nem sexo nem morte: você é a testemunha de ambos. Você não é nem vida nem morte: você é uma testemunha de ambas. Este testemunhar trará você para a quarta – turiya. E apenas quando você entrar na quarta todos os problemas desaparecem, dissolvem-se. Antes disso os problemas permanecem.

Você pode tornar-se muito especialista na análise de problemas – isso não ajudará.

Uma bela mulher visita um psicanalista. “Tire suas roupas,” diz o psicanalista assim que ela entra.

“Mas realmente eu…”

“Estou te dizendo para tirar as suas roupas,” insiste o psicanalista, sem dar tempo para que ela respondesse.

“Mas, doutor, eu vim porque eu tenho um problema e pensei…”

“Não pense. Tire as suas roupas e não desperdice meu tempo,” insistiu o doutor ainda mais rudemente.

A embaraçada e pasma mulher tira as suas roupas e imediatamente o psicanalista pula sobre ela.

Depois de meia hora, o doutor, fechando o zíper das suas calças, olha para a mulher que ainda não entende o que está acontecendo e diz mais calmamente, “Bem, agora que eu resolvi o meu problema, vamos ver se posso resolver o seu.”

Apenas um buda pode ajudá-lo a resolver os seus problemas – alguém que não tem problemas próprios.

A religião não pode ser abandonada, nunca pode ser abandonada. A religião não é algo superficial e acidental: é uma necessidade intrínseca, absolutamente necessária.

Neelima, você me pergunta, “Os psicanalistas não podem solucionar os problemas humanos?” Não. Eles podem ajudá-la a entender um pouco mais os seus problemas, e ao entender os seus problemas você pode controlar a sua vida de certa forma, até um certo ponto. A psicanálise pode ajudá-la a tornar-se um pouco mais normal do que você é; ela pode reduzir a sua anormalidade acalorada, excitada, a um espaço mais calmo e mais frio – isso é tudo. Ela pode reduzir um pouco a sua temperatura, mas não pode resolver. Ela pode apenas ajudar, a psicanálise pode consolar.

Ouvi falar de um homem que fumava três cigarros de uma vez – essa era a sua obsessão. Ora, era muito embaraçoso; as pessoas olhavam para ele, o que ele estava fazendo, e ele sentia-se muito acanhado e envergonhado. Mas era impossível, ele não podia fazer nada, ele tinha que fazer aquilo; caso contrário ficaria muito insatisfeito.

Ele tentou todos os caminhos possíveis, tudo o que lhe sugerido. Nada ajudava.

Então alguém sugeriu, “Vá a um psicanalista.”

Depois de um ano de psicanálise e milhares de dólares gastos, um amigo lhe perguntou, “A psicanálise te ajudou?”

Ele disse, “Certamente!”

Mas o homem não podia acreditar, porque ele viu que o amigo ainda fumava os três cigarros. Então perguntou, “Mas você ainda está fumando três cigarros, então não entendo como a psicanálise te ajudou.”

Ele disse, “Agora eu não tenho mais vergonha! O meu psicanalista ajudou-me a entender que isso é normal. O que há de errado nisso? Algumas pessoas fumam um, ouvi falar de uma pessoa que fuma dois, eu fumo três! A diferença é apenas de quantidade – e o que há de errado em fumar três cigarros? Por um ano o meu psicanalista disse persistentemente que não há nada de errado nisso; agora eu não me sinto envergonhado. De fato, sou a única pessoa no mundo que fuma três cigarros simultaneamente! Agora sinto-me muito superior.”

A psicanálise pode lhe dar muitas consolações. Ela pode ajudar-te a racionalizar, pode ajudar-te a normalizar, pode ajudar-te a não se sentir envergonhada – mas ela não resolve. Ela não pode resolver. Os problemas nunca são resolvidos se você permanece no mesmo plano de existência. Isso é algo muito fundamental a ser entendido.

Se você quer resolver um problema você tem que elevar-se a um plano acima. Ele não pode ser resolvido no mesmo plano. No momento em que você alcança um plano mais alto, os problemas de um plano mais baixo simplesmente desaparecem. Esse é o caminho da religião: ajudá-lo a ir cada vez mais alto. No momento que você alcançar o quarto estado, turiya, todos os problemas desaparecem, dissolvem-se, perdem significado. Não é que você encontrou as soluções, não, de maneira alguma – a religião não está interessada nas soluções. Nenhuma solução pode resolver um problema; uma solução pode ajudá-lo a resolver um problema, mas ela vai criar outro. A própria solução pode tornar-se o problema. Você pode ficar muito apegado e dependente da solução…

Acontece quase todos os dias da sua vida: você está doente, você toma um certo remédio, ele ajuda, e então você se torna dependente do remédio; então você fica viciado, então você não pode abandonar o remédio. Ora, o remédio tem os seus próprios efeitos colaterais – agora eles começam a torturar você. Agora você precisa de outros remédios… e assim por diante. Não há fim para isso.

Nenhuma solução pode realmente tornar-se uma solução. A religião tem uma abordagem totalmente diferente. Ela não dá uma solução, ela simplesmente te ajuda a elevar o nível da sua consciência. A religião eleva a consciência. Ela eleva você a um plano mais alto do que o problema, ela lhe dá uma visão de olho de pássaro. Agora você está no topo de uma colina olhando para o vale… e os problemas do vale são simplesmente insignificantes. Eles não têm qualquer significância para o ser humano que está no topo ensolarado. Eles simplesmente perderam toda a relevância.

A quinta questão:

Questão 5

AMADO MESTRE,

ESTOU HÁ NOVE MESES AQUI E ESTOU DANDO A LUZ À MINHA PRIMEIRA QUESTÃO.

HOJE NA PALESTRA VOCÊ DISSE, “O SEXO É CANSATIVO…” PARA MIM, O SEXO É A EXPLOSÃO MAIS DOCE DE MÚSICA, COR, LUZ, TRANSBORDANDO E IRROMPENDO TODAS AS CÉLULAS DO MEU SER. É DESATAR A REDE DA MINHA PELE, FUNDIR-SE COM AMOR NOS BRAÇOS DE DEUS, ESTAR ESQUISITAMENTE PERDIDO, FORA DO TEMPO, FORA DA MENTE – SER DEUS. E AQUELAS PALAVRAS NÃO DIZIAM ISSO. SÃO ESSAS EXPERIÊNCIAS QUE ME TROUXERAM ATÉ VOCÊ. EU NEM MESMO TENHO UM VISLUMBRE DA “ESTUPIDEZ DO SEXO.” O SEXO É A MINHA FONTE DO MAIS PROFUNDO RELAXAMENTO E ENERGIA ILIMITADA, ASSIM COMO DA MAIOR BEM-AVENTURANÇA: O OPOSTO DO CANSAÇO. OS HOMENS ACHAM O SEXO MAIS CANSATIVO DO QUE AS MULHERES, OU EU APENAS TENHO QUE PERCORRER UM LONGO CAMINHO PARA ABANDONÁ-LO? OU O QUÊ?

POR FAVOR COMENTE.

Apurna, a sua experiência é perfeitamente válida, mas sendo um êxtase tão grande, uma excitação tão grande, por quanto tempo você poderá repeti-la? Mais cedo ou mais tarde chega um momento que ele se torna repetitivo, o mesmo, e então começará a perder a sua alegria. Neste momento ele tornar-se-á cansativo.

A sua experiência é perfeitamente válida, mas muito limitada. A vida é muito mais. Ela começa no sexo, mas não termina nele. Estou perfeitamente feliz que você esteja apreciando o seu sexo – aprecie o máximo possível enquanto ele durar. E, quanto mais você apreciá-lo, mais cedo você se cansará dele.

Mas não é necessário preocupar-se com isso. Eu estava respondendo a questão de outra pessoa, que está cansada do sexo. Ela viveu todas essas alegrias, brincou com todos esses brinquedos. Você está dando grandes nomes para esses brinquedos – eles são todos ursinhos de pelúcia.  Você pode chamar o seu ursinho de “Deus,” e nada está errado… Quando uma criança está carregando o seu ursinho e chamando-o de “Deus” e não pode dormir sem ele, isso é muito relaxante, e se você tirar o ursinho ela fica muito tensa! Mesmo ursinhos sujos…a criança o carrega. Os pais ficam até envergonhados porque se eles viajarem em um feriado a criança carregará o seu ursinho – sujo, fedorento… mas a criança não pode viver sem ele. É sua própria vida. Mas um dia, tomara, ela se cansará dele e o jogará em uma esquina e se esquecerá dele para sempre.

É realmente difícil responder às suas questões, porque a questão de uma pessoa é relevante apenas para ela, e a resposta que dou é relevante apenas para ela. Pode não ser a sua experiência.

Um dia eu disse que a homossexualidade é uma perversão. Imediatamente algumas cartas chegaram – muito zangadas, porque existem alguns homossexuais aqui. E eles disseram, “O que você está falando? Viemos aqui apenas porque pensávamos que você aceitava tudo, que você não rejeitava, não condenava nada.” Eu não condenei. Mas a questão e a resposta eram para uma pessoa particular. Você não precisa ficar preocupado com isso; ela pode não ser relevante para você.

Para um homossexual a homossexualidade é religião – a sua religião – ele não acredita na heterossexualidade. Ele pensa que os heterossexuais são um pouco pervertidos, ou, no mínimo, muito ortodoxos, pessoas antiquadas… não deveriam existir mais, não são mais contemporâneas – que absurdo elas estão falando?

Para o heterossexual,  o homossexual parece ser muito pervertido, animalesco, até mesmo abaixo dos animais. E para o homossexual, o heterossexual é animalesco, porque a homossexualidade é uma invenção humana, dos humanos superiores. Os animais não são homossexuais – pelo menos não em seu estado selvagem. Nos zoológicos às vezes, sim, mas ali eles tornaram-se afetados pelos seres humanos, eles aprenderam com os seres humanos. Mas na selva eles não são homossexuais.

Então a homossexualidade é algo especial que os humanos descobriram. É um fenômeno determinante. Assim como Aristóteles disse que o ser humano é um ser racional, o homossexual diz que o ser humano é um ser homossexual – apenas o ser humano tem a capacidade de elevar-se a tais alturas. A heterossexualidade é apenas ordinária: os cães praticam-na e… não é nada especial! Ninguém pode vangloriar-se dela.

Dois camelos aproximam-se vagarosamente um do outro em um deserto, os seus condutores identicamente vestidos com bermudas e capacetes topi. Eles param e os condutores falam – com um sotaque exageradamente britânico:

“Inglês?”

“É claro.”

“Assuntos Exteriores?”

“Fotografia de Cinema.”

“Oxford?”

“Cambridge.”

“Homossexual?”

“Certamente não!”

“Pena!”

E os dois camelos continuam os seus caminhos separadamente no deserto.

Eu tenho que falar para muitos tipos de pessoas – os camelos estão ali. Então, se não é a sua questão, não se preocupe com a resposta, esqueça-a. Ela diz respeito a outra pessoa, que é mais madura que você…

A última questão:

Questão 6

AMADO MESTRE,

QUAIS SERÃO AS SUAS ÚLTIMAS PALAVRAS PARA O MUNDO?

Relembro-me de uma história que George Gurdjieff costumava contar para seus discípulos mais próximos. A história é sobre um grande mestre do passado, um buda, que tinha um autointitulado braço-direito que foi um fiel seguidor por muitos anos. Quando o mestre estava em seu quarto no leito de morte, todos os seguidores silenciosamente esperavam na porta sem saber o que fazer e incapazes de acreditar que seu mítico mestre estava realmente morrendo.

Finalmente, através da angustiante quietude, a voz do mestre foi fracamente ouvida chamando o nome do braço direito, e todos os seguidores olharam para este atentamente conforme ele chegava até a porta do mestre. Ao alcançar a maçaneta ele vislumbrou as faces dos companheiros ao seu redor e imaginou a inveja e o respeito deles por si, pois era o único a ser chamado ao lado do mestre durante os seus momentos finais. Ele já imaginava como vagarosamente emergiria do quarto, depois da morte do mestre, como a nova cabeça do sistema, um verdadeiro Pedro a Rocha.

Silenciosamente ele entrou no quarto escuro e vagarosamente ajoelhou-se ao lado da cama. O velho mestre acenou para que ele chegasse mais perto, e ele inclinou-se com seu ouvindo esperançoso até a boca do velho homem, e o mestre sussurrou, “Vá se foder.”

Por hoje é só.

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