Dhammapada: O Caminho do Buda, Vol 2. Cap 5, OSHO

O Dhammapada: O Caminho do Buda, Vol 2

Capítulo #5

Título do Capítulo: Na lixeira à beira do caminho

5 de Julho de 1979 na Sala Buda

 

O PERFUME DO SÂNDALO,

DO RODODENDRO OU DO JASMIM,

NÃO PODE VIAJAR CONTRA O VENTO.

 

MAS A FRAGRÂNCIA DA VIRTUDE

VIAJA ATÉ MESMO CONTRA O VENTO,

ATÉ O FIM DO MUNDO.

 

QUÃO MAIS FINA É

A FRAGRÂNCIA DA VIRTUDE

DO QUE A FRAGRÂNCIA DO SÂNDALO, RODODENDRO,

DO LÓTUS AZUL, OU DO JASMIM!

 

A FRAGRÂNCIA DO SÂNDALO OU DO RODODENDRO

NÃO VIAJA PARA LONGE.

MAS A FRAGRÂNCIA DA VIRTUDE

ELEVA-SE AOS CÉUS.

 

O DESEJO NUNCA CRUZA O CAMINHO DOS

SERES HUMANOS VIRTUOSOS E VIGILANTES.

O BRILHO DELES OS LIBERTA.

 

QUÃO DOCEMENTE O LÓTUS CRESCE

NA LIXEIRA À BEIRA DO CAMINHO.

A SUA FRAGRÂNCIA PURA ENCANTA O CORAÇÃO.

 

SIGA OS ACORDADOS

E ENTRE OS CEGOS

A LUZ DA SUA SABEDORIA

RESPLANDECERÁ PURAMENTE.

 

O ser humano não é um ser, mas apenas um vir-a-ser. O ser humano é um processo, uma possibilidade, uma potencialidade. O ser humano ainda não é atual. O ser humano deve ser, ainda tem que chegar. O ser humano não nasce como uma essência, mas apenas como uma existência… um grande espaço onde muito pode ocorrer, ou nada pode ocorrer – tudo depende de você.

O ser humano tem que criar a si mesmo. Ele não é pré-fabricado, não é óbvio. E a criação tem que ser autocriação – ninguém pode construí-lo. Você não é uma coisa, uma mercadoria; você não pode ser produzido ou manufaturado. Você tem que se autocriar, deve acordar por si próprio, ninguém pode acordá-lo.

Essa é a grandeza do ser humano, a sua glória, que ele é o único ser na Terra que não é um ser, mas uma liberdade de ser. Todos os outros seres já estão fixados, padronizados. Eles trazem um desígnio, e eles simplesmente seguem o desígnio. O papagaio tornar-se-á um papagaio, o cão tornar-se-á um cão, o leão um leão; não há questão do leão tornar-se-á outra coisa. Mas com o ser humano é relevante perguntar se ele realmente é um ser humano.

Todo leão é realmente um leão, e todo elefante é um elefante também, mas o ser humano é uma interrogação. Um ser humano pode ser um ser humano, pode não ser. Um ser humano pode cair abaixo dos animais, ou pode elevar-se acima dos deuses. Este estado último, acima dos deuses, é a budidade – o despertar, o despertar último, a realização do seu potencial em sua totalidade.

O buda está acima dos deuses. Essa foi uma das razões que os Hindus não puderam perdoar Gautama o Buda, porque ele diz que o buda está acima dos deuses. Os deuses também estão dormindo; é claro, os seus sonhos são belos, os seus sonhos não são pesadelos, eles vivem no paraíso. As suas vidas são de prazer apenas. O paraíso não é nada além de puro hedonismo, a própria ideia é hedonista. O inferno é o oposto. O inferno é dor, o paraíso é prazer; o inferno é um pesadelo, o paraíso um sonho doce. Mas sonhos são sonhos; doces ou amargos, não importa.

Os deuses também estão dormindo e sonhando belos sonhos. O buda está acordado, não sonha mais. As escrituras Budistas dizem: No dia em que Sidarta Gautama tornou-se um buda, os deuses vieram do céu para venerá-lo, para lavar os seus pés. Os Hindus não puderam perdoar essa ideia, porque para eles os deuses no céu – Indra e os outros deuses – são os supremos. E veja a arrogância dos Budistas que dizem que os deuses vieram do céu para lavar os pés de um ser humano.

O Budismo elevou a humanidade ao seu mais alto pináculo. Nenhuma outra religião fez isso. O ser humano torna-se o centro da existência. Os deuses não são o centro da existência de acordo com Buda, mas o homem que tornou-se iluminado. A periferia consiste naqueles que estão dormindo e cegos, e o centro consiste naqueles que têm olhos, que estão acordados. Os deuses são simplesmente abandonados; eles não são mais relevantes. O que Nietzsche fez depois de dois mil anos, Buda já havia feito.

Um grande poeta, Chandidas, ficou muito impressionado com Gautama o Buda – e quem não ficaria impressionado com esse homem? Ele disse: SABAR UPAR MANUS SATYA, TAHAR UPAR NAHIN – a verdade do ser humano é a mais alta verdade, não há outra verdade mais alta do que esta. Mas permita-me relembrá-lo novamente: quando Buda fala sobre o ser humano, ele fala sobre o ser realizado, não sobre você – você está apenas no caminho, você está sempre no processo. Você é uma semente.

Uma semente pode ter quatro possibilidades. A semente pode tornar-se uma semente para sempre, fechada, sem janelas, em dissonância com a existência, morta, porque vida significa comunhão com a existência. A semente está morta, ela ainda não se comunicou com a Terra, com o céu, com o ar, com o vento, com o sol, com as estrelas. Ela ainda não fez nenhuma tentativa de ter um diálogo com tudo o que existe. Ela está totalmente a sós, contida, encapsulada em si, cercada por uma Muralha da China. A semente vive em seu próprio túmulo.

A primeira possibilidade é que a semente permaneça uma semente. O que é muito lamentável – um ser humano pode permanecer simplesmente uma semente. Com todo o potencial à sua disposição, com todas as bênçãos prontas para se derramarem sobre você, você pode nunca abrir as suas portas.

A segunda possibilidade é que a semente seja suficientemente corajosa, mergulhe fundo no solo, morra como um ego, abandone a sua armadura, comece uma comunhão com a existência, transforme-se em uma com a Terra. Uma grande coragem é necessária, quem sabe? Esta morte pode ser a última, pode ser que não haja um novo nascimento. Qual é a garantia? Não há garantia; é uma aposta. Apenas poucos seres humanos tem a coragem necessária para apostar, para arriscar.

Ser um sannyasin é o início da aposta. Você está arriscando a sua vida, você está arriscando o seu ego. Você está arriscando porque você está abandonando todas as suas seguranças, todos os seus arranjos de segurança. Você está abrindo as janelas… ninguém sabe quem entrará – o amigo ou o inimigo? Quem sabe? Você está se tornando vulnerável. É isso o que Buda ensinou por toda a sua vida. Quarenta e dois anos continuamente, transformando as sementes em plantas – esta foi a sua obra – transformar seres humanos ordinários em sannyasins.

Um sannyasin é a planta, um broto – suave, delicado. A semente nunca está em perigo, lembre-se. Que perigo pode existir para a semente? Ela está absolutamente protegida. Mas a planta está sempre em perigo, a planta é muito suave. A semente é como uma pedra, dura, escondida por trás de uma crosta dura. Mas a planta tem que passar por mil e um perigos. Este é o segundo estágio: a semente dissolvendo-se no solo, o ser humano desaparecendo como um ego, desaparecendo como uma personalidade, tornando-se uma planta.

A terceira possibilidade, que é ainda mais rara, porque nem todas as plantas alcançarão à altura para desabrochar em flor, mil e uma flores… Pouquíssimos seres humanos atingiram o segundo nível, e muito poucos daqueles que atingiram o segundo nível atingiram o terceiro, o estágio da flor. Por que eles não podem atingir o terceiro nível, o estágio da flor? Por causa da ambição, por causa da avareza, elas não estão prontas para compartilhar… por causa do estado de falta de amor.

A coragem é necessária para tornar-se uma planta, e o amor é necessário para tornar-se uma flor. Uma flor significa que a árvore está abrindo o seu coração, liberando o seu perfume, dando a sua alma, vertendo o seu ser na existência. A semente pode tornar-se uma planta embora seja difícil abandonar a armadura, porém de uma forma é simples. A semente coletará cada vez mais, acumulará cada vez mais; a semente apenas retira do solo. Somente a árvore retira da água, do ar, do sol; a sua ambição não é perturbada, pelo contrário, a sua ambição é satisfeita. Ela segue tornando-se cada vez maior. Mas chega um momento que você retirou tanto que agora você tem que compartilhar. Você se beneficiou tanto, agora você tem que servir. Deus lhe deu tanto, agora você tem que agradecer, ser grato – e a única forma de ser grato é derramar os seus tesouros, dá-los de volta à existência, ser tão abundante quanto a existência tem sido para você. Então a árvore cresce em flores, floresce.

E o quarto estágio é o da fragrância. A flor ainda é grosseira, ainda é material, mas a fragrância é sutil, é quase algo imaterial. Você não pode vê-la, é invisível. Você pode apenas cheirá-la, não pode apanhá-la, não pode segurá-la. Um entendimento muito sensível é necessário para ter um diálogo com a fragrância. E além da fragrância não há nada. A fragrância desaparece no universo, torna-se uma com ele.

Esses são os quatro estágios da semente, e esses são os quatro estágios do ser humano também. Não permaneça uma semente. Acumule coragem – coragem de abandonar o ego, coragem de abandonar as seguranças, coragem de ser vulnerável. Mas então não permaneça uma árvore, porque uma árvore sem flores é pobre. Uma árvore sem flores é vazia, uma árvore sem flores está perdendo algo muito essencial. Ela não tem beleza – sem amor não há beleza. E é apenas através das flores que a árvore mostra o seu amor. Ela retirou muito do sol e da lua e da terra; agora é o tempo do doar!

A vida sempre alcança um equilíbrio. Você retirou tanto, agora dê. Torne-se uma flor! Apenas quando você se torna uma flor existe a possibilidade de desaparecer como uma fragrância. Mas então também, lembre-se, não permaneça uma flor fechada, não permaneça um broto; caso contrário a fragrância não será liberada. E a menos que a sua fragrância seja liberada, você não é livre, você está na servidão.

Esta servidão Buda chama de samsara – o mundo. E ele chama a liberdade, a liberdade da fragrância, de nirvana: cessação total, desaparecimento, dissolução. A parte desaparece no todo, a gota de orvalho escorrega no oceano e torna-se o oceano. O dia que você desaparece e se torna o oceano é o dia que, por um lado, você não existe mais, e, por outro, você existe pela primeira vez – você atingiu o ser.

Este ser é divino. Este ser, esta experiência cristalizada, oceânica, é liberação, salvação, moksha, kaivalya, nirvana. Você pode utilizar a palavra que você quiser, mas todas elas significam o mesmo: liberdade absoluta da alma, sem limites, sem limitações.

Os sutras:

O PERFUME DO SÂNDALO,

DO RODODENDRO OU DO JASMIM,

NÃO PODE VIAJAR CONTRA O VENTO.

Obviamente! A fragrância do sândalo, do rododendro ou do jasmim é parte do mundo material. Ela pode viajar apenas a favor do vento, não contra o vento. Ela tem que seguir as leis da matéria. Ela é matéria. Porque tem que seguir as leis da matéria ela não é realmente livre – é livre apenas em um sentido relativo. A fragrância é mais livre que a flor, a flor é mais livre que a árvore, a árvore é mais livre do que a semente. Mas essas liberdades são apenas relativas, não absolutas.

E Buda diz, lembre-se: o alvo é a liberdade absoluta, transcendência de todas as leis. É apenas na transcendência de todas as leis que você se torna parte da lei última: AES DHAMMO SANANTANO. É apenas transcendendo todas as limitações da matéria grosseira que você será capaz de tornar-se infinito como o céu.

A menos que você se torne universal você não atingiu o seu potencial. Você foi feito para tornar-se universal, você tornou-se uma pessoa pequena, confinada, quase como se você vivesse em uma cela de prisão, sombria e lúgubre, sem portas, sem janelas, uma existência feia, cercada por todos os tipos de patologias – ego, ambição, raiva, luxúria, inveja, possessividade. Esses são seus companheiros. Qual fragrância você experienciou na vida?

Você ainda não conheceu o amor sem luxúria. Você ainda não conheceu qualquer estado que em não existe nenhuma limitação. Você está atado a certas leis muito grosseiras. Você é parte da gravitação, você ainda não conheceu nada da graça. Você pode ir cada vez mais para baixo, porque essas leis da gravitação seguem puxando-lhe para baixo. Você não sabe como elevar-se, como pairar às alturas. Você não sabe nada sobre a levitação.

Na ciência, eles não falam da levitação, eles falam apenas da gravitação, da atração para baixo. Mas esse é um fenômeno simples de entender, que na natureza tudo é balanceado pelo seu oposto polar. Se existe uma atração para baixo, a gravitação, então deve existir uma atração para cima para balanceá-la – isso é levitação. Em uma linguagem mais poética ela é chamada de graça.

Há duas leis: a lei da gravitação, a lei mundana, grosseira, material; e a lei da graça, a lei divina, o que buda chama de lei divina – AES DHAMMO SANANTANO – a lei eterna, inexaurível, divina, que lhe atrai para cima.

O PERFUME DO SÂNDALO, DO RODODENDRO OU DO JASMIM, NÃO PODE VIAJAR CONTRA O VENTO.

O perfume tem uma certa limitação absoluta, ele pode viajar apenas a favor do vento. Ele não pode ter a sua própria vontade, não é realmente livre. A menos que você possa existir em total liberdade, algo está faltando. Se você tem que seguir as leis, então você é um prisioneiro. As leis podem lhe dar alguma corda, mas você ainda é um prisioneiro.

É assim que as coisas são: se lhe é dado corda o suficiente, você esquece da prisão. Por exemplo, as assim chamadas nações – Índia, Paquistão, Japão, Alemanha – essas são todas grandes prisões, mas elas são tão grandes que você não pode ver os limites da sua própria prisão. Atravesse os limites da sua nação e você verá que você era um prisioneiro. Mas a prisão é suficientemente grande; você pode mover-se na prisão para qualquer lugar que você queira. Mas mova-se para fora da prisão, tente entrar em outra prisão, e então você verá a limitação.

Essas são prisões feitas pelos seres humanos; suficientemente grandes para que possam lhe dar um falso sentimento de liberdade, mas não há liberdade. A menos que todas as nações desapareçam do mundo, a Terra permanecerá uma escrava, a humanidade permanecerá em prisões, pequenas e grandes. Mas não faz diferença se uma prisão é muito grande e você não pode ver o muro que a circunda… Os muros podem ser muito sutis – passaportes e vistos – os muros podem ser muito sutis, você pode não vê-los, mas eles estão ali. Você não é livre para mover-se.

Quase todas as constituições do mundo dizem que a liberdade de movimento é direito de nascença de todo o ser humano, mas isso está apenas escrito nos livros, não é verdade. Você não pode se mover livremente. Se você quiser ir para a Rússia, impossível; se você quiser entrar na China, impossível.

As nações tornaram-se grandes prisões e os seus presidentes e primeiros-ministros não são nada além de carcereiros. Aqueles que falam sobre liberdade são apenas policiais. Eles dizem que estão lhe guardando para sua própria segurança, mas, de fato, eles são agentes penitenciários observando para que você não escape.

Ouvi dizer:

Um velho Russo estava morrendo, e ele ouviu uma batida na porta. Ele perguntou, “Quem está aí?” E uma voz assustadora respondeu, “A morte.”

O velho Russo disse, “Obrigado Deus! Eu pensei que era a polícia secreta.”

E há prisões dentro de prisões como as caixas chinesas – caixas dentro de caixas – a Índia é uma grande prisão; então existem os Hindus, os Islâmicos, Cristãos e Sikhs, Jainas e Budistas – ora, essas são pequenas prisões. O Cristão pode ir para a igreja, ele não pode ir ao templo; o Hindu pode ir ao templo, ele não pode ir à igreja. Ele foi ensinado e condicionado que a igreja não é um lugar religioso; ao Cristão foi dito que a igreja é o único lugar certo para ir – todas as outras religiões são falsas e todas as outras religiões fazem-no extraviar-se. A menos que você seja um Cristão você não pode ser salvo. E então dentro da Cristandade existem os Católicos e os Protestantes, e então entre os Protestantes e os Católicos há sub-seitas cada vez menores. E as prisões tornam-se cada vez menores.

Então há prisões políticas: alguém é comunista, outro é socialista, ainda outro é capitalista… e assim por diante. E você ainda não está satisfeito: então você cria Rotarys Clubes, Lions Clubes… A sua sede em ser um prisioneiro é tal que você não pode ser simplesmente um ser humano. Você tem que ser um Rotariano e você declara orgulhosamente, “Eu sou um Rotariano,” “Eu sou um Leão.” Você não está satisfeito em ser simplesmente um ser humano, você tem que ser um Leão. E então há confinamentos cada vez menores.

Em vez de sair dessas celas de prisão, você segue decorando-as, tornamo-las cada vez mais confortáveis. Estamos vivendo sob a lei da gravitação, estamos vivendo como prisioneiros. Não podemos ir contra o vento – a nossa vida é grosseira. Buda diz: tenha consciência disso: o que você está fazendo com a sua vida? Reconsidere, medite sobre ela, o que você fez consigo mesmo.

MAS A FRAGRÂNCIA DA VIRTUDE

VIAJA ATÉ MESMO CONTRA O VENTO,

ATÉ O FIM DO MUNDO.

Buda diz: mas há um florescimento do seu ser interior, que é muito mais belo do que o sândalo, que o rododendro ou o jasmim. A sua beleza é a sua absoluta liberdade. Ela pode ir contra o vento. O ser humano realmente virtuoso vive em liberdade; ele não segue nenhum mandamento, não segue nenhuma escritura, não segue a ninguém mais, apenas a sua própria luz interior. Ele vive de acordo com seu coração – ele é um rebelde.

Mas Buda está falando sobre a fragrância da virtude real. Ele não está falando sobre a suposta retidão, não está falando sobre as supostas “pessoas de caráter,” os seus supostos santos e mahatmas – ele não está falando sobre eles. Eles não são pessoas livres. De fato, a fragrância do sândalo, rododendro ou jasmim é muito mais livre do que os seus supostos santos. Estes vivem de acordo com as leis dos homens. A fragrância da rosa, a fragrância do sândalo, a fragrância das outras flores pelo menos seguem as leis da natureza. Mas os seus santos, as suas supostas pessoas virtuosas, elas seguem leis criadas pelos homens – leis feitas por pessoas cegas, leis criadas por pessoas ignorantes, por pessoas que ainda não estão despertas, que não sabem nada de vigilância.

Quem faz as suas leis? Quem faz as suas Constituições? Quem é responsável por administrar a sociedade, arranjá-la e geri-la? Pessoas tão cegas quanto você, talvez mais instruídas, talvez mais informadas. Mas não faz diferença se um cego é mais informado sobre a luz ou menos informado sobre a luz – um homem cego é um homem cego. Somente observe os seus santos e você ficará surpreso! – eles vivem em uma servidão muito mais profunda do que as pessoas ordinárias.

Um monge Jaina queria vir ver-me. Ele enviou uma mensagem dizendo que ansiou ver-me por muitos anos e que agora ele estaria na cidade e queria ver-me. Mas os seus seguidores não permitiram, os Jainas não deixaram que ele viesse para essa comuna. Ora, que tipo de santo é esse homem cujo seguidores decidem para onde ele deve ir e onde ele não deve ir? Mas há um arranjo mútuo: os seguidores chamam-lhe de santo, veneram-lhe, então ele concedia, fazia concessões. Ele tinha que seguir os seguidores.

Os seus supostos santos e líderes são seguidores de seus próprios seguidores. É um mundo tão estúpido, tão ridículo, toda essa situação. À primeira vista parece que o santo é o fator decisivo; ele aconselha às pessoas a seguirem-no. Mas, se você olhar um pouco mais profundamente, você ficará surpreso – o santo está seguindo os seus próprios seguidores. De fato, eles decidem. E eles têm o poder decisivo porque podem venerá-lo e insultá-lo. Eles podem venerá-lo se você os segue, se você seguir de acordo com suas ideias, preconceitos que carregam em suas mentes; caso contrário você não é mais um santo. Eles podem degradá-lo – eles têm o poder de elevá-lo até a santidade ou de degradá-lo como um pecador. Se você quer ser um santo você tem que seguir todos os tipos de estupidez. Você pode saber lá no fundo que isso é estúpido.

Enviei-lhe uma mensagem dizendo, “Isso é estúpido, ridículo! Por que você deveria pedir para os seus seguidores? Quem é o seguidor, você ou eles? Por que você deveria pedir para eles?”

Ele disse, “Você está certo, mas eu dependo deles. Na minha idade não posso deixá-los porque nunca trabalhei na minha vida. Eu dependo deles para a minha alimentação, para as minhas roupas, dependo deles para tudo.”

Agora você vê o arranjo. Isso é chamado espiritualidade, e o arranjo é financeiro!

Um ser humano realmente virtuoso é certamente livre, e é tão livre que ele pode ir contra o vento, ele pode ir contra toda a sociedade, ele pode ir contra todo o passado, ele pode ir contra todas as convenções. De fato, ele vai contra – porque ao ir contra todas as convenções e o passado morto ele assevera a sua liberdade.

É por causa disso que estou sendo condenado por todo esse país e, agora, vagarosamente, por todo o mundo. A única razão é que eles queriam que eu fosse com o vento, eles queriam que eu fosse convencional, ortodoxo. Eles estavam prontos para venerar-me, eles vieram várias vezes até mim dizendo que se eu pudesse simplesmente seguir a religião tradicional eles me adorariam como um santo. Eu disse, “Não estou interessado em ser adorado ou em ser um santo. Eu quero apenas ser eu mesmo. E não vou me comprometer com ninguém, quem quer que seja. O comprometimento não é o meu caminho.”

Porque estou indo contra os ventos eles ficam ofendidos. Mas se você é virtuoso… e o que é a virtude? Não é algum caráter cultivado de fora. A virtude é a fragrância da meditação, a virtude é a fragrância da flor da meditação; por isso, digo que não é moralidade, não é moralista.

Ouvi dizer:

A meretriz da cidade de Jerusalém estava sendo apedrejada. Quando Jesus disse, “Quem dentre vós não tiver pecado, que atire a primeira pedra,” uma velha senhora luta com uma pedra enorme, joga-a sobre a cabeça da meretriz da cidade e a finaliza.

Jesus olha para baixo e diz, “Sabe, mãe, às vezes você me irrita.”

O justo, o moralista e o puritano estão sempre prontos… de fato, toda sua alegria é como condenar, como enviar cada vez mais pessoas para o inferno, como crucificar as pessoas, como matar e destruir. Eles estão prontos para sofrerem, estão prontos para serem masoquistas, estão prontos para passarem por todos os tipos de austeridades tolas, apenas para desfrutarem do sentimento de superioridade, o sentimento de serem mais sagrados que você, o sentimento de “Vocês todos são pecadores e eu sou um santo.”

O santo real tem uma qualidade totalmente diferente. Ele não é moralista; ele sabe como perdoar, porque ele sabe que Deus o perdoou muito. Ele conhece as limitações humanas, porque ele próprio sofreu com essas limitações humanas. Ele pode perdoar. Ele é compreensível.

O moralista nunca é compreensível, ele nunca perdoa; ele não pode perdoar porque foi muito duro consigo mesmo. Ele alcançou o seu suposto caráter com tanta dificuldade que a única alegria, o único prazer que pode ter é o de ser mais sagrado que você. Como ele pode perdoar? Se perdoasse, então não poderia desfrutar da viagem egoica que ele se encontra.

O asceta é a pessoa mais egoísta do mundo. A pessoa virtuosa não é um asceta.

Diz-se do próprio Buda:

Por seis anos, depois de deixar o seu palácio, Buda viveu em grandes austeridades – este era o caminho tradicional da busca pela verdade. Ele torturou o seu corpo, jejuou, conta-se que jejuou tanto que ficou extremamente fino, apenas ossos; você poderia contar suas costelas. Ele tornou-se tão fino que o seu estômago tocava sua coluna – não sobrava nada entre o estômago e a coluna. Ele ficou tão fraco que não podia cruzar um pequeno rio, o Niranjana. Estive no local apenas para vê-lo. O Niranjana é um rio bem pequeno, e não era a estação chuvosa, mas ele não podia cruzar, ele não podia nadar o rio. Ele devia estar totalmente fraco.

Naquele dia uma grande revelação ocorreu-lhe: “Eu estou fazendo toda essa violência desnecessária comigo mesmo.” Ele tinha cinco seguidores; todos eles eram ascetas e tornaram-se seguidores do Buda porque ele estava muito mais longe que eles. Naquela noite Buda decidiu, “É estúpido torturar o corpo, e como você pode alcançar a alma ao torturar o corpo? Parece não haver relação lógica.” E ele viu, “Se eu não posso nem cruzar o rio, o pobre rio Niranjana, como eu poderia cruzar este grande oceano do mundo? O corpo precisa de alimento, o corpo precisa de sustento, o corpo precisa de força, para que eu possa meditar, para que eu possa contemplar, para que eu possa inquirir com animação, entusiasmo, energia.” Ele decidiu abandonar todas as austeridades. Os seus cinco discípulos imediatamente abandonaram-no. Eles disseram, “Gautama decaiu de seu estado sagrado, ele não é mais um santo.” Eles o deixaram imediatamente; eles não estavam com ele. Eles estavam com ele somente por causa de seu estilo de vida masoquista – eles próprios deviam ser masoquistas.

E Gautama o Buda iluminou-se no próximo dia. Abandonando todas as austeridades, abandonando todos os conflitos interiores desnecessários, aquela guerra civil, ele ficou tão quieto, tão silencioso, que na próxima manhã ele pôde ver, ele tornou-se perceptivo. Em seu silêncio todos os tumultos foram dissolvidos, todas as trepidações foram dissolvidas. No início da manhã, ao nascer do sol, ele começou a nascer no interior do seu ser. Ele despertou, tornou-se um buda.

A virtude vem do silêncio, da meditação, do relaxamento – não do esforço, não da tensão, não do conflito. Ele saiu em busca dos seus velhos seguidores para transmitir-lhes a mensagem: “Não se torturem mais. Isso não tem nada a ver com santidade. Isso não tem nada a ver com religião.”

A meditação tem que ocorrer antes, então o caráter vem como uma sombra dela. E se a meditação não ocorre, então o seu caráter é apenas uma hipocrisia e nada mais. Os seus santos são grandes hipócritas; eles falam uma coisa e pensam em outra, talvez o exato oposto. Eles fazem uma coisa, mas eles querem fazer exatamente o oposto. Na superfície eles mostram uma coisa, mas no fundo eles são o exato contrário.

Uma garota confessa que ela deixou o seu namorado colocar a mão em seu joelho. “E isso é tudo o que ele fez?” perguntou o sacerdote.

“Não. Ele deslizou o seu dedo debaixo do elástico da minha calcinha também.”

“E então?”

“E então ele abriu minha penugem e a começou a excitar meu brinquedinho.”

“E então? E então?

“E então a minha mãe entrou no quarto.”

“Ah! Merda!” disse o sacerdote.

Esses sacerdotes, esses santos, eles são muito mais feios do que você é, muito mais feios do que você poderia ser, porque eles são muito mais desunidos, divididos. Eles reprimiram tanto que as suas partes conscientes e inconscientes caíram. Eles pregam uma coisa e praticam outra. Na porta da frente você encontrará uma pessoa, na porta de trás você encontrará uma pessoa totalmente diferente. Você não será nem capaz de reconhecê-lo – eles usam máscaras. Essas não são pessoas virtuosas. Buda não está falando sobre virtude, ele está falando de dhyana – meditação. Esta é a sua contribuição básica ao mundo. A sua abordagem mais fundamental é que primeiro você tem que iluminar-se no centro, então a sua circunferência será cheia de luz – por conta própria, não vice-versa.

O sacerdote disse-lhe para primeiro praticar o caráter e, então, o seu centro alterar-se-á. Isso é um disparate. O centro nunca pode seguir a circunferência, porque o centro é muito mais importante, muito mais básico – é o centro, ele não pode seguir a circunferência. Mas a circunferência sempre segue o centro. Transforme o centro primeiro, e não se preocupe com a circunferência. Essa é também a minha insistência, aqui eu concordo absolutamente com Buda. A meditação primeiro e, então, todo o resto seguirá por conta própria.

Jesus diz: busque primeiro o reino de Deus e tudo o mais lhe será fornecido.

O que Jesus diz com “reino de Deus” Buda diz com “meditação.” As palavras de Buda são muito mais científicas do que as de Jesus. Jesus é muito mais poético do que Buda; Jesus fala mais em parábolas do que Buda. Buda fala de forma precisa, lógica, matemática. Ele é um homem que não quer falar nada de uma forma que pode ser interpretado de muitas maneiras. Ele não quer utilizar a poesia, porque a poesia é vaga, pode ter muitas interpretações. Ele fala como um matemático, ele fala como um lógico, para que cada palavra tenha um significado fixo e uma conotação fixa.

… A FRAGRÂNCIA DA VIRTUDE VIAJA ATÉ MESMO CONTRA O VENTO, ATÉ O FIM DO MUNDO.

QUÃO MAIS FINA É

A FRAGRÂNCIA DA VIRTUDE

DO QUE A FRAGRÂNCIA DO SÂNDALO, RODODENDRO,

DO LÓTUS AZUL, OU DO JASMIM!

A fragrância de um lótus azul ou do sândalo é fina, sutil, mas comparada com a fragrância da virtude ela é muito grosseira. A virtude realmente tem uma fragrância e ela viaja aos cantos mais longínquos do mundo.

Como vocês vieram até mim? De muitas partes do mundo vocês viajaram, às vezes sem nem mesmo saber exatamente o porquê; mas algo os puxou, alguma força desconhecida moveu o seu coração, algo foi sentido no núcleo mais profundo dos seus seres. Às vezes vocês vieram até contra a própria vontade. A sua mente dizia, “Não vá! Não há necessidade de ir a lugar algum.” Ainda assim você veio. Você deve ter sentido um perfume – um perfume que não tem nada a ver com o visível. É um fenômeno invisível.

Muitas outras pessoas chegarão em breve. A fragrância está atingindo-as, necessariamente as atingirá. Qualquer pessoa em qualquer lugar que está realmente em busca da verdade terá que vir. É irresistível, deve ocorrer. É assim que sempre ocorreu ao longo das eras. Milhares de pessoas viajaram até Buda, milhares de pessoas viajaram até Mahavira, Lao Tsé, Zaratustra – por nenhuma razão, porque tudo o que elas falavam estava disponível nas escrituras.

O que estou falando aqui você pode ler no Bhagavadgita, na Bíblia, no Alcorão, no Dhammapada, o que estou falando você pode encontrar facilmente nos Upanishads, no Tao Te Ching – mas você não encontrará a fragrância. Essas escrituras são flores – velhas, mortas, secas. Você pode manter uma rosa em sua Bíblia; em breve ela secará, a fragrância acabará, ela será apenas um cadáver, uma lembrança da flor real. Assim são as escrituras. Elas têm que nascerem novamente em outro buda; caso contrário não podem respirar.

É por isso que estou falando sobre o Dhammapada, sobre o Gita, sobre a Bíblia – para fazê-las respirar novamente. Posso soprar a vida nelas. Posso compartilhar a minha fragrância com elas, posso verter minha fragrância nelas. Por isso, o Cristão que é realmente um Cristão, não apenas por condicionamento social, mas por causa de um grande amor por Cristo, ele encontrará Cristo novamente vivo em minhas palavras. Ou, se alguém é Budista, verá nas minhas palavras Buda falando novamente – na linguagem do século XX, com pessoas do século XX.

QUÃO MAIS FINA É A FRAGRÂNCIA DA VIRTUDE DO QUE A FRAGRÂNCIA DO SÂNDALO, RODODENDRO, DO LÓTUS AZUL, OU DO JASMIM! É tão fina que pode viajar contra o vento, ela pode viajar contra todas as leis. Ela pode ir contra a gravitação, pode elevar-se, pode alcançar os céus mais longínquos.

A FRAGRÂNCIA DO SÂNDALO OU DO RODODENDRO

NÃO VIAJA PARA LONGE.

MAS A FRAGRÂNCIA DA VIRTUDE

ELEVA-SE AOS CÉUS.

A fragrância das flores não pode viajar muito longe. É momentânea, é finita; ela pode ir até um ponto e então ela desaparece. Mas a fragrância da budidade pode viajar aos próprios confins do mundo porque ela é infinita, e é algo além do tempo, além do espaço. De fato, até mesmo quando o corpo de um buda se for, a fragrância continua a viajar.

Aqueles que são realmente perceptivos, sensíveis, podem senti-la até mesmo quando um buda se foi há séculos. É possível ser contemporâneo de Buda agora, ter uma comunhão com Jesus agora. A flor não existe mais, mas a fragrância tornou-se uma parte do universo – as árvores a tem, os ventos a tem, as nuvens a tem. Agora Jesus não está no corpo físico, mas Jesus tornou-se universal. Se você souber como beber do universal, se você souber como contatar o universal, você ficará surpreso: todos os budas tornam-se vivos porque eles são todos contemporâneos, o tempo não faz diferença.

Este é todo o meu esforço aqui: fazê-los contemporâneos de Jesus, de Buda, de Zaratustra, de Lao Tsé. Se vocês puderem ser contemporâneos dessas almas iluminadas, qual é o ponto de permanecer contemporâneo do mundo ordinário e seus cidadãos ordinários, os assim chamados seres humanos, que não têm nada de humanidade neles, que não se tornaram ainda seres, que são apenas ocos, vazios, sem sentido? Qual é o ponto de viver na vizinhança de células vazias quando você pode ser um vizinho de Gautama o Buda?

Sim, isso é possível – é possível ao transcender tempo e espaço. E na meditação você transcende ambos. Em meditação você não sabe onde você está, você não sabe o tempo, você não conhece o espaço. Em meditação, tempo e espaço desaparecem ambos – você simplesmente é.

Naquele momento, quando você simplesmente é, Buda está justamente do seu lado; você é cercado pelos budas de todas as eras. Você está vivendo pela primeira vez uma vida que vale a pena ser vivida, uma vida de significância: quando você pode dar as mãos aos budas e krishnas, quando você pode dançar com Krishna e cantar com Meera e sentar-se com Kabir. É possível – porque apenas as flores desapareceram, mas a fragrância é eterna. Ela não pode desaparecer.

E então todas as escrituras tornam-se vivas para você. Então, lendo a Bíblia, você não estão apenas lendo um livro – então Moisés fala com você. Abraão fala com você, Jesus fala com você, face a face:

O DESEJO NUNCA CRUZA O CAMINHO DOS

SERES HUMANOS VIRTUOSOS E VIGILANTES.

O BRILHANTISMO DELES OS LIBERTA.

O desejo significa ambição por mais e mais. Desejo significa descontentamento, descontentamento com o que é, descontentamento com o presente; por isso você busca contentamento em suas esperanças de futuro. O hoje é vazio; você pode viver apenas ao esperar pelo amanhã. O amanhã pode trazer algo… embora muitos amanhãs tenham vindo e ido e o esperado nunca ocorrer, você segue com esperança. Apenas a morte virá.

Os desejos nunca são realizados. Na própria natureza das coisas eles não podem ser realizados. A pessoa desperta olha para a mente desejosa e ri. A mente desejosa é a mente mais estúpida, porque o desejo é algo que não pode ser realizado na própria natureza das coisas. Assim como você não pode obter óleo através da areia – você pode seguir trabalhando na areia, mas você não vai retirar óleo dela, o óleo não existe na areia, é impossível – exatamente como isso, o desejo é apenas uma fraude.

O desejo mantém-lhe ocupado – obviamente, este é todo o seu propósito – ele mantém-lhe ocupado, mantém-lhe esperando, continua a prometer-lhe. O desejo é um político: ele segue prometendo-lhe, “Espere – apenas mais cinco anos e tudo ficará absolutamente certo. Apenas mais cinco anos e o mundo tornar-se-á um paraíso.” E os políticos têm dito isso por milhares de anos. E olhe para a não-inteligente humanidade: ela segue acreditando nos políticos. A humanidade troca os políticos; quando ela se cansa de um, ela começa a ouvir outro. Mas essa não é uma mudança de maneira alguma. Um político é substituído por outro; por isso as democracias vivem como sistemas de dois partidos.

Um partido permanece no poder por cinco anos; de acordo com as promessas você vive esperando, então você se frustra – nada acontece. As coisas estão piores do que estavam antes. Mas, nesse momento, o outro partido que não está no poder começa a prometer para você. E a estupidez é tal que você começa a acreditar no outro partido. Você leva o outro partido ao poder; por cinco anos eles vão enganá-lo. Nessa altura, o primeiro partido que o enganou antes torna-se novamente confiável; outra vez ele ganhou crédito, novamente ele critica o partido governante e novamente ele ganhou respeito a seus olhos. E novamente ele mexeu com a sua mente esperançosa. E a memória das pessoas é muito curta; por isso os políticos seguem enganando.

O desejo é um político. Um desejo mantém-lhe ocupado por muitos anos; então, com a frustração em suas mãos, você está cansado dele, exaurido dele, você o abandona – mas imediatamente você entra em outro desejo. Outro político está lhe aguardando. Você está buscando dinheiro; então, cansado, você esquece totalmente do dinheiro e você começa a correr atrás de poder ou fama.

O desejo é tão astuto que pode até mesmo tomar a forma da religião, ele pode tornar-se religioso. Ele está pronto para ter qualquer máscara. Ele pode começar a pensar no céu e nos prazeres do céu. Ele pode lhe dar a ideia que essa vida não é possível, mas que na próxima vida você estará no paraíso, e no paraíso todos os tipos de realizações… árvores que realizam sonhos. Você apenas se senta debaixo de uma árvore, você deseja e o desejo é realizado. O que você vai desejar? Os seus desejos serão estúpidos porque eles sairão da sua mente. Quais prazeres você buscará no paraíso? Pense por um dia que você chegou às portas do paraíso: agora, o que você quer? Você começará a pedir um hotel, um cinema, uma mulher, um homem… o que mais? As mesmas coisas! E as mesmas frustrações seguirão.

O DESEJO NUNCA CRUZA O CAMINHO DOS SERES HUMANOS VIRTUOSOS E VIGILANTES. Buda diz: chamo de virtuoso aquele que se tornou totalmente consciente da enganação do desejo e, por isso, o desejo nunca cruza a sua mente. Sua mente permanece sem desejo. A única maneira de ser sem desejo é estar desperto, vigilante. A vigilância cria uma luz em você, e, naquela luz, a escuridão do desejo não pode entrar.

O BRILHO DELES OS LIBERTA. E quando você está desperto há uma luminosidade em seu ser; uma grande inteligência surge em você. O homem ordinário vive na estupidez; o homem ordinário vive de forma muito tola. No momento em que você se torna afinado com sua música interior, no momento em que você se torna afinado com a meditação, uma grande inteligência é liberada. Nesta inteligência é impossível você ser enganado pelo desejo. Nesta inteligência pela primeira vez você começa a entender as coisas como elas são, você deixa de entender mal. Ordinariamente todo o seu entendimento não é nada além de mal entendimento. Você pode pensar que você é muito inteligente, mas apenas as pessoas estúpidas pensam que elas são inteligentes. A inteligência ela própria é muito inconsciente sobre si mesma. Ela funciona, funciona perfeitamente, mas não cria a autoconsciência, não traz ideia de ego, nenhuma superioridade. É muito humildade, muito simples.

Mas assim como o ser humano ordinário existe, ele segue entendendo mal. Você lê a Bíblia e você entende mal. Mesmo aqueles discípulos mais próximos de Jesus nunca o entenderam. Digo repetidas vezes que Jesus foi um dos mestres menos afortunados que já andaram sobre a Terra – não apenas porque ele foi crucificado e teve apenas três anos para trabalhar, mas porque ele tinha um grupo muito estúpido de seguidores.

No dia em que Jesus seria pego e tornou-se absolutamente certo que ele seria traído por um dos seus discípulos, Judas, ele perguntou a seus outros onze apóstolos, “Vocês têm algo para perguntar-me?” E você sabe o que eles perguntaram? Eles perguntaram coisas tolas. Jesus deve ter chorado. Ele pode ter orado lá no fundo do seu coração, conforme ele fez novamente na cruz: “Pai, perdoe-os, porque eles não sabem o que estão perguntando.”

O que eles estavam perguntando? Coisas do tipo, “Mestre, agora você está partindo, algumas coisas ficaram claras. No mundo de Deus, no reino de Deus, que você falou muitas vezes, você certamente será a mão direita de Deus; então, quem será a sua mão direita? Entre nós quem deve ser o segundo, o terceiro e o quarto? Qual será a hierarquia?”

Veja a questão! O mestre será crucificado amanhã e essa pessoas tolas estão preocupadas com a hierarquia, quem será o mais alto. Eles estão prontos para conceder a Jesus, “Ok, isso aceitamos, que você será o segundo depois de Deus, mas quem será o terceiro, o quarto e o quinto? Que isso fique decidido claramente, porque agora você está partindo e podemos não nos ver novamente em breve, então tudo tem que estar certo!”

A mente desejosa, a mente ambiciosa – eles não entenderam Jesus de maneira alguma. Diz-se que Jesus ajoelhou-se e orou e as lágrimas rolavam de suas bochechas. Ninguém sabe o que ele orou, mas ele devia estar orando: “Perdoe essas pessoas, elas não sabem o que estão perguntando.” E ele devia estar chorando porque esse foi o trabalho de toda a sua vida, essas pessoas. E ele falou para eles não desejarem, não serem ambiciosos. Ele dizia-lhes, “Aqueles que são os primeiros nesse mundo serão os últimos no meu reino de Deus e aqueles que são os últimos serão os primeiros.” Mas eles não entenderam que Jesus estava falando para eles não serem ambiciosos.

Há alguns dias Premgeet enviou-me uma pequena anedota sobre a má-interpretação:

A enfermeira frenética corre atrás de um paciente que grita no corredor da enfermaria, carregando uma bacia. Ela foi parada pelo cirurgião que disse, “Enfermeira! Enfermeira! Eu disse para você furar-lhe o furúnculo. (NT. trocadilho: prick his boil e não boil his prick)

Entendeu? Ela estava fervendo o pênis dele! Mas é isso exatamente o que está acontecendo – a mente da multidão não pode entender. A má interpretação é inevitável porque a mente das massas é surda. Enquanto você está falando com as pessoas elas não estão realmente ouvindo, elas fingem estar ouvindo. Mil e um pensamentos estão cruzando através das mentes delas; elas não estão realmente ali, elas sempre estão em outro lugar. Quando elas estão em Puna, elas estão em Pequim; quando elas estão em Pequim elas estão em Puna. Pessoas estranhas! Em qualquer lugar que elas estiverem você pode ter certeza que elas não estão; elas podem estar em qualquer lugar do mundo. Como elas podem entender?

E elas ouvem apenas as palavras, elas nunca ouvem o significado – porque o significado pode ser ouvido apenas pelo coração. As palavras podem ser ouvidas pela cabeça. Ora, elas não sabem como ouvir pelo coração. Ouvir pelo coração é o significado de ser um discípulo; ouvir pelo coração quer dizer com amor, confiança, em profunda simpatia, e finalmente em profunda empatia. Ouvir pelo coração significa ouvir como se você se tornasse um com o que lhe está sendo dito – quando o discípulo se torna tão afinado com o mestre que mesmo antes das palavras serem declaradas ele as ouve, e não apenas as palavras, mas o significado, a fragrância que é carregada pelas palavras. Mas é muito invisível. A cabeça é grosseira.

O invisível pode ser pego apenas na rede do coração.

As pessoas até seguem, mas então, também, elas seguem a partir da má-interpretação. Apenas tornar-se um seguidor não mudará nada em sua vida. Não é uma questão de seguir alguém: é uma questão de entender alguém que está desperto. Por isso não os chamarei de meus seguidores, mas meus amigos. Se vocês podem ser meus amigos, se vocês podem amar profundamente e confiar aqui na minha presença, se vocês podem estar presentes à minha presença, se vocês podem encarar um ao outro e espelhar um ao outro, coisas tremendamente importantes começarão a acontecer naturalmente – porque o seu coração entenderá, e quando o coração entender, imediatamente a transformação ocorre.

Quando a cabeça entende, então ela pergunta, “Como? Sim, está certo; agora, como pode ser feito?” Lembre-se dessa diferença: na cabeça, o conhecimento e a ação são duas coisas diferentes; no coração, o conhecimento é ação.

Sócrates diz: o conhecimento é virtude – e ele não foi entendido ao longo das eras. Nem mesmo os seus próprios discípulos, Platão e Aristóteles entenderam-no corretamente. Quando ele diz que o conhecimento é virtude ele quer dizer que há uma maneira de ouvir e entender na qual no momento que você entende algo isso não poderia ser outra coisa. Quando você vê que isso é uma porta, então você não pode tentar sair pela parede, você terá que sair pela porta. Ver significa agir, ver traz a ação.

Se quando eu digo para vocês, “Esta é a porta. Sempre que você quiser sair, por favor saia por essa porta, porque vocês já machucaram muito suas cabeças tentando sair pela parede,” vocês dizem, “Sim, senhor, entendemos perfeitamente bem, mas como sair pela porta?” a sua questão mostrará que o coração não escutou, apenas a cabeça. A cabeça sempre pergunta “Como?”

A cabeça sempre faz questões que parecem ser muito pertinentes à primeira vista, mas que são absolutamente ridículas. O coração nunca pergunta – ele ouve e age. O ouvir e a ação são um só no coração; o amor sabe e age de acordo. Ele nunca pergunta “Como?” O coração tem uma inteligência própria. A cabeça é intelectual, o coração é inteligência.

QUÃO DOCEMENTE O LÓTUS CRESCE

NA LIXEIRA À BEIRA DO CAMINHO.

A SUA FRAGRÂNCIA PURA ENCANTA O CORAÇÃO.

Lembre-se sempre porque você esquecerá sempre que é uma questão do coração. Se o coração se encanta por algo, então você pode estar certo que a sua vida está crescendo, expandindo; que a sua consciência está se tornando mais clara, a sua inteligência está sendo liberta da sua servidão.

QUÃO DOCEMENTE O LÓTUS CRESCE NA LIXEIRA À BEIRA DO CAMINHO. A palavra para lótus que Buda utiliza é pankaj; é uma das palavras mais belas. Pankaj significa aquilo que nasce da lama, a partir da lama suja. O lótus é um dos fenômenos mais miraculosos da existência; por isso no Oriente ele se tornou o símbolo da transformação espiritual. Buda está sentado no lótus, Vishnu está em pé em um lótus. Por que um lótus? – Porque o lótus tem uma significância muito simbólica: ela nasce da lama suja. É um símbolo de transformação, é uma metamorfose. A lama é suja, talvez até cheire mal; o lótus tem fragrância e nasceu da lama suja.

Buda está dizendo: exatamente da mesma forma, a vida ordinária é uma lama fedorenta – mas a possibilidade de tornar-se um lótus está escondida ali. A lama pode ser transformada, você pode tornar-se um lótus. O sexo pode ser transformado e pode tornar-se samadhi. A raiva pode ser transformada e tornar-se compaixão. O ódio pode ser transformado e tornar-se amor. Tudo o que você tem que parece negativo agora, enlameado, pode ser transformado. A sua mente barulhenta pode ser esvaziada e transformada, ela pode tornar-se música celestial.

SIGA OS ACORDADOS

E ENTRE OS CEGOS

A LUZ DA SUA SABEDORIA

RESPLANDECERÁ PURAMENTE.

Mas o único caminho possível para fora da sujeira é estar afinado com alguém que já está acordado. Você está dormindo; apenas alguém que está acordado pode te sacudir para fora do seu sono, pode ajudar você a sair dele.

Gurdjieff dizia: se você está em uma prisão, apenas alguém que está fora da prisão pode conseguir, pode arranjar para que você escape da prisão; caso contrário é impossível. Você não está somente em uma prisão – você foi hipnotizado e falaram-lhe que isso não é uma prisão, que isso é a sua casa. Você não está apenas em uma prisão – você acredita que é sua casa e você está decorando-a. Toda a sua vida não é nada além de decorar a sua prisão e você está competindo com outros prisioneiros que estão decorando as suas celas sombrias.

Apenas alguém que está livre, que saiu da prisão e não está mais na prisão, pode conseguir acordá-lo, pode fazer com que você tenha consciência da realidade. Ele pode desipnotizá-lo, ele pode ajudá-lo a sair do condicionamento, e ele pode inventar métodos e meios para que você escape da prisão. Ele pode subornar o carcereiro; ele pode trazer uma escada próxima ao muro, ele pode jogar uma corda lá dentro. Ele pode fazer um buraco na parede do lado de fora… mil e uma possibilidades.

Mas a única esperança para você é estar em profundo contato com alguém que está desperto. O desperto é chamado de mestre – satguru. Se você puder encontrar um mestre, não perca a oportunidade – entregue-se, relaxe em seu ser, absorva a sua vigilância, permita que a fragrância dele esteja ao seu redor. E não está longe o dia em que você também acordará, você também será um buda.

Lembre-se sempre que a menos que você seja um buda, a sua vida é um desperdício. Apenas ao ser um buda a vida de alguém tem graça, beleza, inteligência, significância, benção.

Por hoje é só.

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