Dhammapada: O Caminho do Buda, Vol 2. Cap 4, OSHO

O Dhammapada: O Caminho do Buda, Vol 2

Capítulo #4

Título do Capítulo: Espalhe o rumor!

4 de Julho de 1979 na Sala Buda

A primeira questão:

Questão 1

AMADO MESTRE,

TUDO PARECE SER MUITO PARADOXAL: TER QUE SER TOTAL E, ENTRETANTO, PERMANECER UMA TESTEMUNHA, UM OBSERVADOR; TER QUE ESTAR INUNDADO DE AMOR E, ENTRETANTO, SER SÓ. PARECE MUITO MISTERIOSO, E ME SINTO TOTALMENTE PERDIDO E CONFUSO. ESTOU SENDO ENGANADO?

Prem Urja, a vida é bela porque ela é paradoxal. Ela tem sal porque é paradoxal – não é apenas doce, ela também tem sal. Se fosse apenas doce, ela tornar-se-ia muito açucarada, com muita sacarina.

A vida tem um tremendo mistério em si porque é baseada em um paradoxo. Você está se sentindo confuso porque você tem uma ideia fixa de como a vida deveria ser – você não permite que a vida seja como ela deve ser. Você quer impor um certo conceito nela, uma certa lógica nela. A confusão é sua criação própria.

Tente impor algum padrão lógico à vida e você ficará muito confuso, porque a vida não tem nenhuma obrigação de satisfazer a sua lógica. A vida é como ela é. Você deve ouvi-la. Ela tem todas as cores, todo o espectro – é um arco-íris. Mas você tem uma certa ideia que ela deveria ser apenas azul, apenas verde ou apenas vermelha – mas ela tem todas as sete cores. Então o que você fará com as seis outras cores que não fazem parte da sua concepção? Ou você vai ignorá-las, bloqueá-las, para que você não fique consciente delas; reprimi-las, simplesmente evitá-las… Mas, não importa o que você faça, a vida não abandonará as suas cores; elas estarão lá – evitadas, rejeitadas, reprimidas, elas estarão lá, esperando pelo momento certo de explodirem em sua consciência.

E sempre que elas explodem você ficará confuso. Você é responsável pela confusão. A vida não é confusa de maneira alguma. A vida é misteriosa, mas nunca confusa. Porque você não a quer misteriosa, você a quer matemática, você a quer muito inequívoca para que você possa calculá-la e mensurá-la – daí a dificuldade. Não é criada pela vida. Abandone as suas concepções e então olhe… então você descobrirá que a tempestade que vem traz um silêncio consigo – que é ilógico! O silêncio que é sentido depois da tempestade é o mais profundo. Se não houvesse tempestade o silêncio permaneceria superficial, o silêncio permaneceria enfadonho, não teria profundidade. Depois da tempestade… quanto maior a tempestade, mais profundo o silêncio. Ora, isso é paradoxal.

É paradoxal somente porque você quer impor uma certa lógica. A tempestade, criando silêncio? Não se adequa à sua ideia – então você fica confuso. Mas por que a realidade tem que adequar-se à sua ideia? A vida tem que ser percebida – não concebida. Veja qual é o caso, não tenha respostas pré-fabricadas. Não siga na vida com preconceitos, com uma mente preconceituosa, não tenha concepções a priori. Siga inocente, nu, siga ignorante. Funcione a partir do estado de não-conhecimento. E então… então a vida não é confusa. É uma tremenda alegria, é um êxtase. Então o que aparece hoje como confuso, você se sentirá agradecido por isso, grato por isso, que seja assim, que não seja lógico.

A vida seria totalmente chata se Deus tivesse seguido Aristóteles. É um grande alívio Ele não ser aristotélico; é um grande alívio Deus não saber nada de Aristóteles, não ter lido os seus livros, que Ele não acredite em lógica, que acredite na dialética. Por isso esses paradoxos.

É possível estar profundamente apaixonado e entretanto estar só. De fato, somente é possível estar totalmente só quando se está profundamente apaixonado. A profundidade do amor cria um oceano ao seu redor, um oceano profundo, e você se torna uma ilha, totalmente só. Sim, o oceano segue jogando suas ondas em sua praia, mas quanto mais o oceano rebenta com suas ondas em sua praia, mais integral você se torna, e mais enraizado, cada vez mais centrado você fica.

O amor tem valor apenas porque ele lhe dá a solidão. Ele lhe dá o espaço suficiente para estar a sós.

Mas você tem uma ideia de amor; esta ideia está criando problemas – não o amor, mas a ideia. A ideia é que, no amor, os amantes desaparecem um no outro, dissolvem-se um no outro. Sim, existem momentos de dissolução – mas essa é a beleza da vida e de tudo o que é existencial: que quando os amantes dissolvem-se um no outro, simultaneamente eles se tornam muito conscientes, muito alertas. Essa dissolução não é um tipo de embriaguez, essa dissolução não é inconsciente. Ela traz grande consciência, ela libera uma grande consciência. Por um lado, eles são dissolvidos – por outro, pela primeira vez, eles veem a beleza total de estarem sozinhos. Um define a solidão do outro. E eles ficam agradecidos um com o outro. É por causa do outro que foram capazes de ver os seus próprios seres; o outro tornou-se um espelho onde eles são refletidos. Os amantes são espelhos um para o outro. O amor lhe torna consciente da sua face original.

Por isso parece muito contraditório, paradoxal, quando colocado dessa maneira: “O amor traz solidão.” Você estava sempre pensando que o amor traria união. Não estou dizendo que ele não traz união, mas a menos que você esteja sozinho você não poderá estar junto. Quem estará junto? Duas pessoas são necessárias para estar-se junto, duas pessoas independentes são necessárias para estar-se junto. Uma união será rica, infinitamente rica, se duas pessoas são totalmente independentes. Se elas são dependentes uma da outra, não é uma união – é escravidão, servidão.

Se elas são dependentes uma da outra, apegadas, possessivas, se não permitem a solidão de cada um, se a relação não permite que cada um tenha espaço para crescer, elas são inimigas, não amantes; elas são destrutivas uma com a outra, elas não estão se ajudando a encontrarem suas próprias almas, os seus seres. Que tipo de amor é esse? Deve ser apenas medo de ficar sozinho; por isso estão apegadas uma a outra. Mas o amor real não conhece o medo. O amor real é capaz de estar sozinho, totalmente sozinho, e a partir dessa solidão cresce uma união.

Khalil Gibran diz: dois amantes são como dois pilares de um templo – eles suportam o mesmo teto, mas estão separados; juntos em relação a suportar o teto, mas totalmente separados em relação ao próprio ser de cada um. Sejam pilares de um templo, suportando o mesmo templo do amor, o mesmo teto do amor, entretanto enraizados em seus próprios seres, sem distraírem-se do seu próprio ser. E então vocês conhecerão tanto a beleza, a pureza, a limpeza, a saúde, a inteireza da solidão, quanto também a alegria, a dança, a música do estar junto.

Há uma beleza quando alguém está tocando um instrumento a sós – um flautista solo – há uma tremenda beleza nisso. E também há beleza em uma orquestra. E o amor conhece ambos simultaneamente: ele sabe como ser um flautista solo e ele também sabe como estar no ritmo, em harmonia com o outro.

Não há contradição na realidade – a contradição aparece apenas porque você tem uma certa ideia. Abandone a ideia e, então, onde está a confusão? A confusão aparece apenas a partir das conclusões. Se você já tem uma conclusão e então a vida aparece de outra forma, você fica confuso. Em vez de tentar consertar a vida, abandone as suas conclusões.

Nunca funcione a partir de conclusões! – é isso o que eu estou repetindo todos os dias para vocês: não funcionem a partir de um estado de conhecimento. O conhecimento significa conclusões, e todas as conclusões são emprestadas. A vida é tão vasta que ela não pode ser condensada em uma conclusão. Todas as conclusões são parciais. E sempre que a parte clama ser o todo ele cria um tipo de fanatismo, ortodoxia; ela cria uma mente enfadonha e estúpida.

Urja, você diz, “Ter que ser total e, entretanto, permanecer uma testemunha, um observador… parece muito paradoxal.”

Apenas parece, o paradoxo é apenas aparente; pelo contrário, ser total é ser uma testemunha. Sempre que você está totalmente em algo, uma grande consciência é liberada em você – você se torna uma testemunha. Repentinamente! Não é que você pratica o testemunhar. Se você estiver totalmente… um dia, dance totalmente e veja o que eu estou falando.

Não estou lhe dando conclusões lógicas: são indicações existenciais, pistas. Dance totalmente! – e então você ficará surpreso. Algo novo será sentido. Quando a dança torna-se total e o dançarino é quase que totalmente dissolvido na dança, haverá um novo tipo de consciência surgindo em você. Você ficará totalmente perdido na dança: o dançarino se foi, apenas a dança permanece. E, entretanto, você não está inconsciente, de maneira alguma – justamente o oposto. Você está muito consciente, mais consciente do que nunca.

Mas se você começar a pensar, então o paradoxo virá. Então você não será capaz de gerir, e você ficará muito confuso.

Experiencie isso. Qualquer coisa que estiver sendo dita aqui é para ajudá-lo a experienciar. Não estou entregando-lhe nenhum conhecimento, nenhuma informação – apenas algumas dicas para que você saboreie as qualidades multidimensionais da vida.

Você diz, “Parece paradoxal… ter que estar inundado de amor e, entretanto, ser só.” Não é paradoxal – apenas parece. Mas você parece estar muito apegado às suas conclusões; por isso surge a ideia: “Estou sendo enganado?”

De uma forma, sim, os seus preconceitos estão lhe enganando, as suas conclusões, todo o seu conhecimento. Estou tentando levá-lo para o mundo da inocência novamente. Estou tentando dar-lhe um novo nascimento, para que você possa tornar-se criança novamente – cheia de fascínio e maravilhamento.

A criança nunca vê qualquer paradoxo em lugar algum – e essa é a beleza da criança. A criança pode ter um amor tremendo por você e dizer, “Não posso viver sem você nem mesmo um momento,” e no próximo momento ela está brava e dizendo, “Nunca vou ver sua face novamente.” Ela é total em ambas as suas declarações, e depois de poucos momentos ela está novamente no seu colo com muita alegria – e isso também é total.

A criança é total a todo o momento, e a criança nunca vê qualquer contradição. Quando ela está brava, ela está realmente brava; e quando ela está amando, ela está realmente amando. Ela se move de um momento para o outro sem criar qualquer confusão para si própria. Ela nunca fica confusa. Ela nunca traz esse paradoxo, porque ela ainda não chegou às conclusões. Ela não sabe como um ser humano deve ser. Ela simplesmente permite-se ser qualquer coisa adequada ao momento – ela flui com a vida.

Urja, você tornou-se estagnado em algum lugar. Você tem muito conhecimento e isso está funcionando como barreira. O seu conhecimento não permite que você flua comigo e não permitirá que você flua com o meu povo. Ele não permitirá que você flua com a vida, não permitirá que você flua com Deus.

Deus é tanto o dia quanto a noite, verão e inverno, nascimento e morte… e você deve ser capaz de absorver todos esses supostos paradoxos. Se você pode absorver todos esses supostos paradoxos sem ficar confuso, a iluminação não está longe.

A iluminação é um estado em que todos os paradoxos desaparecem. Nota-se a vida como ela é. Não se tem conclusões para comparar, nenhuma ideia para julgá-la. Então, como você pode ficar confuso? Você não pode me confundir – é impossível – porque não tenho conclusões. Sem conclusões, sem conhecimento, apenas saboreando a vida como ela é. É um mistério, não um paradoxo.

A segunda questão:

Questão 2

AMADO MESTRE,

NÃO ACREDITO EM NADA EM RELAÇÃO A ESSE MISTÉRIO. NÃO EXISTE NADA DISSO! MEU PALPITE É QUE VOCÊ ESTÁ PROMOVENDO A SUA COMUNIDADE PORQUE O ESCRITÓRIO DE IMPRENSA É MUITO DESLEIXADO, E NÃO TÃO INTELIGENTE COMO VOCÊ É.

Sarjano, não é uma questão de acreditar ou desacreditar – é assim. A questão da crença surge apenas porque você não está consciente. A crença é significante e a descrença também – quando você não está consciente da realidade. Então ou você crê ou descrê.

Não estou falando acredite no mistério que estou expressando. Também não estou falando desacredite – estou falando: Venha comigo! É assim! Permita-me acordar-lhe, é assim.

Você diz, “Não acredito em nada em relação a esse mistério.” Ótimo. Por favor, não acredite em nada, porque se você começa a acreditar você não será capaz de experienciar. Não estou interessado em crentes, estou interessado em buscadores. Mas, por favor, não comece a dar palpites também, porque um palpite é um palpite. Um palpite não ajudará. Ele tornar-se-á uma crença – se você continuar palpitando por um longo tempo, e se você repetir o mesmo palpite muitas vezes, ele se torna uma crença. Você cria a sua própria crença então, e isso tornar-se-á uma barreira.

E crenças são barreiras tão sutis e as descrenças também. Lembre-se, sempre que eu disser crença eu sempre incluo a descrença nela – porque é o outro lado da mesma moeda. A crença e a descrença, ambas são barreiras. Uma vez que você criou um sistema de crença ao seu redor – ou emprestado dos outros ou palpitado por você mesmo; ou emprestado da Bíblia, Mein Kampf, Das Kapital, Bhagavadgita, ou palpitado por você mesmo, original, não interessa – uma crença torna-se uma barreira, uma barreira invisível. E, uma vez que a crença se estabelece, ela não permite que você veja mais nada que vá contra ela.

Há poucos dias eu estava lendo sobre um experimento. Sarjano, medite sobre ele. Um certo naturalista fez o seguinte experimento: um aquário foi dividido em duas metades por uma divisória perfeitamente transparente de vidro. De um lado da divisória eles colocaram um peixe lúcio; do outro lado colocaram alguns peixes pequenos, que podiam ser caça para o lúcio.

O lúcio não percebeu a divisória e lançou-se sobre as suas presas, o que resultou, é claro, apenas em um nariz machucado. O mesmo aconteceu várias vezes e sempre com o mesmo resultado. Finalmente, vendo que todos os seus esforços terminaram tão dolorosamente, o lúcio abandonou a caça; então, em poucos dias, quando a divisória foi removida, ele continuou a nadar em torno do pequeno aquário sem ousar atacá-los… o mesmo não ocorre conosco?

Agora a divisória não está mais lá – ela foi removida – mas um sistema de crença surgiu na mente do lúcio. Agora ele acredita que há uma divisória transparente. Agora a crença basta; ele nunca vai além da divisória que não está mais lá. Agora ele pode ir! Agora não há nada para impedi-lo, exceto a sua crença… ele criou uma crença. E, é claro, a partir da sua experiência, Sarjano – nem mesmo um palpite – era a experiência dele, uma experiência repetida. Ele tentou muitas vezes e todas as vezes acabava com o nariz machucado e dor – é claro, uma crença surgiu.

Você tem que perdoá-lo – um pobre lúcio tinha que concluir que era fútil: “Existe uma barreira transparente, não eu não posso ir…” e ele nunca tentou novamente. Ele nunca mais vai tentar durante toda a sua vida. Agora ele pode ir e comer os peixes, eles estão disponíveis, mas ele irá até uma certa linha, e naquela linha ele voltará.

Essa é a situação dos seres humanos também. Um Hindu tem uma barreira à sua volta, um Islâmico outra, um Jaina ainda outra – todas as pessoas vivem escondidas atrás de barreiras transparentes e, por causa dessas barreiras, elas não podem ver além.

A vida é um mistério, Sarjano. E a minha comuna será apenas um experimento no viver total, um experimento em mover-se na vida além de todas as barreiras – barreiras de crença, barreiras de ideologias, barreiras do Catolicismo e do comunismo… em ir além das palavras.

O ser humano não é o que ele parecer ser: ele é muito mais. Nem as flores são o que elas parecem ser – depende de você. Quando um cientista vai até uma flor, ele vê apenas uma parte dela, a sua parte científica; ele tem uma barreira, uma barreira transparente. Ele nunca vai para além dessa barreira. Ele verá a parte científica, a parte material da flor. A rosa não é mais bela, porque a beleza não é seu conceito. Ele pesará, medirá, ele olhará para os elementos da flor, quanta cor, quanta água, quanta terra etc. Mas ele nunca pensará na beleza.

Quando o poeta vai até a flor, ele nunca se preocupa com o peso, medida, terra, água e com os outros elementos que constituem a rosa. Para ele, a rosa é constituída de pura beleza; é algo do além que desceu sobre a Terra. Ele tem um tipo diferente de visão, muito maior do que a do cientista, muito mais significante do que a do cientista.

Mas quando um místico vai até a mesma flor, ele dança – ele dança em tremenda alegria, porque uma rosa é Deus. Uma rosa contém todo o universo em si – todas as estrelas e todos os sóis e todas as luas, todos os mundos possíveis e impossíveis estão contidos em uma pequena rosa. É equivalente a Deus – nem menos nem mais – exatamente equivalente a Deus. O místico pode orar, ele pode curvar-se.

O cientista dará risada, o poeta ficará um pouco intrigado… O cientista rirá da estupidez do místico: “O que ele está fazendo? – orando para uma rosa, orando para uma árvore, um rio, uma montanha? Disparate total, superstição!” Ele rejeita isso. Ele simplesmente rejeita o mundo do místico.

O poeta ficará um pouco intrigado. Apreciar a beleza da rosa ele pode entender, mas orar para a rosa, curvar-se para a rosa, gritando “Aleluia!” para a rosa? Isso ele não pode entender. Isso é além da sua perspectiva. Ele se sente um pouco intrigado. Ele achará que esse místico está um pouco louco.

O cientista pensará que o místico é supersticioso, ignorante. O poeta pensará que ele é um pouco excêntrico, um pouco louco – porque ele está além da sua barreira, o místico está indo além da barreira do poeta. O místico está indo além de todas as barreiras – é por isso que ele é chamado de místico, porque ele vive no misterioso.

Sarjano, o que estou dizendo sobre a nova comuna é absolutamente verdade. E não estou falando muito sobre ela, porque é perigoso dizer muito sobre ela. Não quero atrair o tipo errado de pessoa. Então apenas algumas dicas para aqueles que são capazes de entender as dicas. Estou falando em um código especial que pode ser entendido apenas por aqueles que estão procurando pelo misterioso e o miraculoso. Os outros serão barrados – não por mim, pelo próprio preconceito deles, pela própria barreira transparente deles.

Você pode ver isso acontecendo aqui! As pessoas estão vindo de todo o mundo – quem está barrando as pessoas de Puna? Elas são bem-vindas, mas elas não virão por vontade própria – as barreiras transparentes delas são suficientes. E é bom que elas não estejam vindo, porque elas seriam apenas um incômodo aqui. Somente umas poucas pessoas de Puna que são capazes de entender o além, o incompreensível, que são capazes de compreenderem algo do incompreensível virão.

Mas se você acredita nisso ou não, ouça a essa anedota:

Dois homossexuais estão conversando. O primeiro homossexual: “Você ouviu a última descoberta científica? O sexo normal causa câncer.”

O segundo homossexual: “É mesmo?”

O primeiro homossexual: “Não, claro que não! Mas espalhe o rumor.”

Sarjano, você acreditando ou não, por favor espalhe o rumor. O rumor deve chegar aos cantos mais longínquos da Terra. Deixe-o ser um rumor! Não se preocupe. Cabe a mim torná-lo uma verdade ou não. Se eu encontrar as pessoas certas – e estou encontrando-as – materializar-se-á.

Esse mistério que estou falando aqui materializar-se-á. Mas materializar-se-á apenas para aqueles que estão prontos a arriscar todos os seus preconceitos, que estão prontos para sacrificar todas as suas conclusões. Sarjano é uma dessas pessoas. Eu confio nele. Ele não fez essa questão para si próprio, ele a fez para os outros – porque eu sei que ele é perfeitamente louco. Ele não é apenas um poeta, ele está no limite de tornar-se um místico. Ele fez essa questão para os outros, não é uma questão no coração dele. O seu coração concorda totalmente comigo.

Você não pode esconder o seu coração de mim. No momento que você chega próximo de mim, a única coisa que estou interessado é no seu coração. Falo com sua cabeça e tenho que seguir olhando para o seu coração. Mesmo no primeiro encontro comigo, sei o que é possível e impossível em relação a você.

Eu amei Sarjano desde o primeiro momento. Em sua cabeça ele pode ter muitas teorias, muito conhecimento e informação – isso não é preocupação minha de maneira alguma. A minha preocupação é que ele tem um belo coração – o coração que pode ser transformado no coração de um místico.

A terceira questão:

Questão 3

AMADO MESTRE,

O QUE ENTENDO DE MIM MESMO É QUE TODAS AS MINHAS AÇÕES SURGEM A PARTIR DE UM DESEJO DE COMUNICAR. MESMO O MAIS SUTIL PENSAMENTO É UMA CONVERSAÇÃO, UMA TENTATIVA DE FAZER COM QUE OS OUTROS EXPERIENCIEM E VERIFIQUEM A MINHA EXISTÊNCIA.

COM A REALIZAÇÃO QUE EU SOU O ÚNICO QUE PODE EXPERIENCIAR AS MINHAS EXPERIÊNCIAS E DÁ-LAS VALIDADE, TUDO ISSO DEVERIA DESAPARECER. É TÃO SIMPLES E ÓBVIO. POR QUE ESSA REALIZAÇÃO NÃO ALCANÇA O MEU NÚCLEO MAIS PROFUNDO?

Prem Steven, ainda não é uma realização – ainda é informação, ainda é palpite, ainda é pensamento; no caminho certo, certamente, na direção correta, verdade, mas ainda não é uma realização. ‘Realização’ é uma grande palavra. É preciso utilizá-la com muita cautela. Você pode pensar grandes pensamentos, mas eles não se tornam a sua realização pelo pensamento. Você pode pensar sobre Deus e você pode chegar a conclusão que Deus existe, e você pode sentir que agora não há dúvida em sua mente sobre a existência de Deus – ainda assim não é uma realização.

Realização significa precisamente realização – ela deve tornar-se uma realidade para você, não apenas uma ideia! Mesmo se existe uma boa ideia, ainda assim é uma ideia. A ideia não lhe pode transformar e a ideia não pode alcançar o núcleo mais profundo do seu ser. Ela permanece na circunferência.

Todas as ideias são periféricas – assim como todas as ondas permanecem na superfície. A onda não pode penetrar o oceano; isso não é possível. No núcleo mais profundo não há ondas. Na superfície uma tempestade pode estar furiosa, mas no núcleo mais profundo, o oceano é calmo e quieto – sempre. Apenas a superfície pode ser perturbada.

Todos os pensamentos são perturbações na circunferência do seu ser. Ideias ruins, ideias boas, todas são periféricas. As pessoas creem que as ideias ruins são periféricas e as ideias boas são centrais – não é assim. Boas ou ruins, não faz diferença. Uma ideia é uma ideia e a ideia permanece periférica.

Apenas testemunhando você pode estar no centro.

Então a primeira coisa é realizar que você nunca o realizou. Uma vez que algo é realizado, necessariamente o transformará – instantaneamente o transformará. Então a questão não pode surgir: “É tão simples e óbvio. Por que essa realização não alcança o meu núcleo mais profundo?” Este “por que” não seria possível. Se você realiza algo, o seu caráter imediatamente muda. O seu caráter é a sombra da sua consciência. Uma vez que a consciência é nova, todo o caráter torna-se novo.

Se você pergunta o porquê, se você pergunta como mudar, então a realização é apenas uma ideia – e não confie em nenhuma ideia. As ideias enganam você, elas são grandes enganadoras, elas são moedas falsas. Você pode seguir acumulando-as acreditando que você está ficando rico, mas um dia você ficará exausto. O arrependimento e a miséria serão grandes, porque todo o tempo que você ficou acumulando essas moedas falsas foi simplesmente perdido. E ele não pode ser recuperado – ele se foi para sempre.

A segunda coisa… você diz, Steven, “O que entendo de mim mesmo é que todas as minhas ações surgem a partir de um desejo de comunicar. Mesmo o mais sutil pensamento é uma conversação, uma tentativa de fazer com que os outros experienciem e verifiquem a minha existência.”

Por quê? Por que você deveria querer que os outros verifiquem a sua existência, deem validade à sua existência? Porque você está desconfiado em relação a ela, você está em dúvida em relação à sua existência. Você realmente não sabe que você existe; você sabe apenas quando os outros dizem que você é. Você depende da opinião dos outros.

Se eles dizem que você é belo, você pensa que é belo. Se eles dizem que você é inteligente, você pensa que é inteligente. Por isso, você quer impressionar as pessoas – com sua inteligência, com sua beleza, com todos os tipos de coisas você quer impressioná-las, porque se você pode ver algo nos olhos delas, isso torna-se válido para você.

É por isso que você se enfurece tanto quando alguém te insulta, machuca tanto a imagem quando alguém te chama de idiota; caso contrário, por que você se preocuparia? Não é da sua conta. Se alguém te chama de idiota, isso é problema dele. Apenas porque alguém te chama de idiota, você não se torna um idiota. Mas você se torna, porque você depende da opinião dos outros.

É assim que vivemos em sociedade. Estamos continuamente tentando impressionar uns aos outros. É por isso que vivemos como escravos, porque se você quer impressionar outras pessoas você tem que seguir a ideia delas; apenas assim elas são impressionadas. Você tem que ser bom da forma que elas querem que você seja bom. Se elas são vegetarianas, você tem que ser vegetariano, então elas ficarão impressionadas – elas dirão que você é um santo. Se elas estão vivendo um de estilo de vida, você tem que vivê-lo também; somente então eles vão te reconhecer.

Você pode ganhar respeitabilidade apenas se você seguir as ideias das pessoas. É um entendimento mútuo que você suporta a ideia delas para que elas se sintam bem pois as suas ideias estão corretas; por isso elas estão certas. E então elas te suportam e te respeitam porque você está seguindo as ideias corretas, você é uma pessoa correta. Elas o apreciam, elas o cobrem de honras, elas o chamam de santo, um sábio… é muito gratificante para você. É gratificante para elas porque você respeita a ideologia delas, e elas respeitam a sua personalidade. É um arranjo mútuo. E ambos estão na ilusão. Você está suportando a ilusão delas, elas estão suportando a sua ilusão. Vocês são sócios no mesmo negócio alucinatório.

Por que você quer ser verificado, validado pelos outros? Se você conhece por si próprio, se você experienciou o seu ser, a sua beleza, todas as suas alegrias, sua grandeza e sua glória, o que importa o que os outros dizem?

Buda estava passando por uma vila e as pessoas daquela vila eram muito contra Buda. Por que elas eram contra Buda? – porque Buda nasceu naquela vila, Buda viveu naquela vila por muitos anos, e os moradores não podiam acreditar que um homem que nasceu entre eles tornou-se iluminado. Era ofensivo para os seus egos!

É por isso que Jesus diz: um profeta não é respeitado, não é amado pela sua própria gente. O próprio Jesus foi expulso do seu local de nascimento. Ele foi apenas uma vez – depois de iluminar-se, ele foi apenas uma vez. E as pessoas estavam tão enfurecidas pela sua declaração, “Tornei-me realizado, sou o Filho de Deus,” que elas o levaram para as colinas para arremessá-lo de lá. Elas queriam matá-lo. Ele teve que escapar de alguma maneira das suas garras, das suas mãos. E ele nunca mais voltou lá.

Buda estava passando pela vila que ele tinha nascido, em algum lugar na borda da Índia e do Nepal, e as pessoas se reuniram e começaram a insultá-lo, abusá-lo, ofendê-lo. E ele ouviu silenciosamente por meia hora, e então disse, “Está ficando quente aqui e tenho que chegar na outra vila, as pessoas estão esperando por mim. Não posso dar-lhes mais tempo dessa vez. Se vocês tiverem mais coisas para me dizer, por favor esperem. Quando eu voltar, então terei um pouco mais de tempo. Vocês podem reunirem-se, e vocês podem comunicar qualquer coisa que quiserem comunicar. Mas dessa vez, desculpe-me. Tenho que ir.”

Tão frio, tão calmo, e eles estavam realmente o ofendendo. Eles não conseguiam acreditar. Eles disseram, “Não estamos falando algo para você – estamos insultando você, estão abusando de você! Você não entende o que estamos falando?”

Buda disse, “Posso ouvir, posso entender tudo o que vocês estão falando – mas isso não é meu problema! Se vocês estão bravos, isso é problema de vocês. Não é da minha conta interferir na sua vida. Se vocês querem ficar bravos, se vocês estão apreciando isso, aproveitem! Mas não vou retirar nenhum disparate de vocês.

De fato, vocês chegaram um pouco tarde. Se vocês realmente quisessem me perturbar, vocês deveriam ter vindo há dez anos atrás. Então eu teria ficado realmente bravo com vocês. Eu reagiria, eu bateria em vocês! Mas agora uma grande realização ocorreu e meu ser não depende mais da opinião das pessoas. O que vocês pensam de mim mostra apenas algo sobre vocês, não sobre mim! Eu conheço a mim mesmo; por isso eu não dependo das opiniões de ninguém sobre mim. As pessoas que são ignorantes dos seus próprios seres, elas dependem dos outros.”

Steven, toda essa mente de comunicação com as pessoas tentando ser verificada por elas simplesmente mostra uma profunda escuridão interior; caso contrário, não há necessidade. E não estou dizendo que quando um ser humano torna-se cheio de luz ele para de comunicar-se – não. Apenas ele pode comunicar-se, porque ele tem algo para comunicar. O que você tem para comunicar? O que existe aí que você pode compartilhar com as pessoas? Você é um mendigo, você está mendigando. Quando você quer ser verificado, validado, certificado, você está mendigando. Você está dizendo para as pessoas, “Por favor diga algo bom para mim, algo belo, então eu poderei sentir-me bem comigo mesmo. Estou muito para baixo, estou me sentindo muito inútil – dê-me algum valor! Faça-me sentir-me significante.” Você está mendigando, não é comunicação.

A comunicação é possível apenas quando uma música irrompeu em seu ser, quando uma alegria surgiu, quando uma bem-aventurança foi experienciada – então você pode compartilhar. Então não apenas a comunicação, não apenas a comunicação verbal, mas em um nível muito mais profundo, a comunhão também começará a ocorrer. Mas quando você não é um mendigo, você é um imperador.

Apenas os budas podem comungar e comunicar. Os outros não têm nada para dizer, nada para dar. De fato, o que você está fazendo quando fala com as pessoas… e as pessoas estão continuamente falando, fofocando, se não de fato, então em suas mentes – assim como você diz que no fundo da sua mente você também está sempre falando com alguém, alguma pessoa imaginária… Você está dizendo algo de um lado, e você está responde algo do outro lado; uma contínua fofoca, um diálogo dentro de você.

Este é um estado de não-sanidade. Eu não o chamo de insanidade, mas não-sanidade. Toda a humanidade existe em um estado de não-sanidade. A pessoa insana foi para além do limite normal. A pessoa não-sana é também insana, mas dentro dos limites. Ela permanece insana dentro, mas fora ela segue se comportando de uma maneira sana. Então para ela eu tenho essa palavra, ‘não-sanidade’.

A sanidade acontece apenas quando você se torna totalmente silencioso para que toda a tagarelice interior desapareça. Quando a mente não existe mais, você está são. A mente é não-sana – normalmente insana, ou insana – ou seja, anormalmente insana. A não-mente é sanidade. E na não-mente você entende, você realiza, não apenas o seu próprio ser mas o ser – o próprio ser – da existência. Então você tem algo para compartilhar, comunicar, comungar, dançar, celebrar.

Antes disso, é um esforço desesperado coletar, de alguma forma, uma imagem de si próprio das opiniões dos outros. E a sua imagem permanecerá uma bagunça pois você coletará opiniões de muitas fontes – elas permanecerão contraditórias.

Uma pessoa acha que você é feio, te odeia, te repulsa; outra pessoa pensa que você é tão belo, tão gracioso, que não há ninguém que pode ser comparado a você – você é incomparável. Ora, o que você fará com essas duas opiniões? Você não sabe quem você é; agora essas dois opiniões estão aí – como você pode julgar qual é a certa? Você gostaria que a opinião correta é a que diz que você é belo; você não gosta da opinião que diz que você é feio. Mas não é uma questão de gostar ou desgostar. Você não pode ser surdo em relação a outra opinião, ela também está ali. Você pode reprimi-la no inconsciente, mas ela permanecerá ali.

Você coletará opiniões dos seus pais, da sua família, seus vizinhos, das pessoas que trabalham com você, dos professores, dos sacerdotes… milhares de opiniões clamando dentro de si. E é assim que você criará uma imagem de próprio. Será uma bagunça. Não terá face, não terá forma, será um caos. É isso que todos são, um caos. Nenhuma ordem é possível, porque falta o próprio centro que pode criar a ordem.

Este centro eu chamo vigilância – meditação – AES DHAMMO SANANTANO. Essa é a lei inexaurível, a lei última, que apenas aqueles que se tornaram vigilantes sabem quem eles são. E quando eles sabem, então ninguém pode abalar o conhecimento deles. Ninguém pode! Todo o mundo pode dizer uma coisa, mas se você sabe, se você realizou a si, isso não interessa.

Todo o mundo estava dizendo que Jesus era louco. No dia em que ele foi crucificado, não havia nenhuma pessoa… milhares reuniram-se – nenhuma pessoa ficou a favor dele. Todas pensavam que ele estava louco.

Era costume naqueles dias que em feriados particulares um criminoso poderia ser perdoado. Aquele dia era um feriado e três pessoas seriam crucificadas: dois ladrões e Jesus. Pôncio Pilatos perguntou às pessoas, “Podemos perdoar uma pessoa dentre as três. Quem vocês querem perdoar?” Ele pensava que as pessoas pediriam para que Jesus fosse perdoado, mas elas não pediram por Jesus. Elas pediram que um ladrão fosse perdoado – não Jesus mas um ladrão, um ladrão bem conhecido – toda a cidade o conhecia. Mas as pessoas não puderam perdoar um homem inocente, Jesus. Por quê?

Mas Jesus não se abala. Todo o mundo pode estar contra ele; ele sabe que Deus está com ele. Ele morre com uma mente calma e quieta, imperturbável, com uma oração em seus lábios – uma oração que é única. As últimas palavras de Jesus foram: “Pais, perdoe-os, porque eles não sabem o que fazem. Amém…” Perdoe-os, porque eles não sabem o que fazem! Eles o estão crucificando, mas o seu coração está tão cheio de compaixão por todas aquelas pessoas.

Quando você conhece, você conhece absolutamente. Quando a realização ocorre, é tão extremo que mesmo que todo o mundo esteja contra, isso não faz diferença de maneira alguma. Você não precisa da validação de ninguém.

A última questão:

Questão 4

AMADO MESTRE,

POR QUE SEMPRE SENTI QUE O SEXO E O DINHEIRO ESTÃO, DE CERTA FORMA, PROFUNDAMENTE CONECTADOS UM COM O OUTRO?

Nirmal, eles estão conectados. Dinheiro é poder, por isso ele pode ser utilizado de muitas maneiras. O dinheiro pode comprar sexo e isso tem ocorrido ao longo dos anos. Os reis têm mantido milhares de esposas. Neste próprio século, o século XX, há apenas trinta anos atrás, quarenta anos, o nizam de Hyderabad tinha quinhentas esposas!

Diz-se que Krishna tinha dezesseis mil esposas. Eu pensava que isso era muito, mas quando fiquei sabendo que o nizam de Hyderabad tinha quinhentas esposas há apenas quarenta anos atrás, então não parece muito – apenas trinta e duas vezes mais! Parece humanamente possível. Se você pode lidar com quinhentas, por que não com dezesseis mil?

Todos os reis do mundo estão fazendo isso. As mulheres foram utilizadas como gado. No palácio dos grandes reis as mulheres eram numeradas. Era difícil lembrar os nomes, então o rei podia dizer aos seus servos, “Traga a número quatrocentos e um” – pois como lembrar-se de quinhentos nomes? Números… assim como os soldados são numerados; elas não têm nomes, apenas números. E isso faz muita diferença.

Os números são absolutamente matemáticos. Os números não respiram, eles não têm nenhum coração. Os números não têm qualquer alma. Quando um soldado morre na guerra, no quadro de notícias você lê simplesmente, “Número 15 morreu.” Ora, “Número 15 morreu” é uma coisa; se você disser exatamente o nome da pessoa, é uma coisa totalmente diferente. Então ele era o marido e a esposa será uma viúva agora; ele era um pai e as crianças ficarão órfãs agora; ele era o único suporte de seus pais velhos, agora não haverá suporte. Uma família é devastada, a luz da família desapareceu. Mas quando o número quinze morre, o número quinze não tem esposa, lembre-se; o número quinze não tem filhos, o número quinze não tem pais velhos. O número quinze é apenas o número quinze! E o número quinze é substituível – outra pessoa virá e tornar-se-á o número quinze. Mas nenhum ser humano individual é substituível. É um truque, um truque psicológico, dar número aos soldados. Isso ajuda… ninguém nota quaisquer números desaparecendo; novos números seguem vindo e substituindo os velhos números.

As esposas eram numeradas, e dependia de quanto dinheiro você tinha. De fato, nos tempos antigos, essa era a única forma de saber quão rico era um homem; era um tipo de medição. Quantas esposas ele tem?

Ora, os Hindus, particularmente os Arya Samajis, criticam muito Hazrat Maomé por ter nove esposas – e eles não acreditam que Krishna tinha dezesseis mil esposas. E ele não é uma exceção, ele é a regra. Neste país, como em outros países, ao longo das eras, a mulher foi explorada – e o meio de exploração é o dinheiro! Todo o mundo sofre com a prostituição, ela degrada os seres humanos. E o que é uma prostituta? Ela foi reduzida a um mecanismo, e você pode comprá-la com dinheiro.

Mas lembre-se perfeitamente bem que as suas esposas não são muito diferentes também. Uma prostituta é como um taxi, e a sua esposa é como o seu próprio carro, é um arranjo permanente. As pessoas pobres não podem fazer arranjos permanentes, elas têm que usar taxis. As pessoas ricas podem fazer arranjos permanentes – elas podem ter os seus próprios carros. E quanto mais ricas elas são, mais carros elas podem ter.

Eu sei de uma pessoa que tem trezentos e sessenta e cinco carros – um carro para cada dia. E ele tem um carro feito de ouro maciço…

O dinheiro é poder, e poder pode comprar qualquer coisa. Então, Nirmal, você não está errado que há alguma conexão entre sexo e dinheiro.

Mais uma coisa tem que ser entendida. A pessoa que reprime o sexo se torna cada vez mais ambiciosa, porque o dinheiro se torna um substituto para o sexo. O dinheiro se torna o seu amor. Veja a pessoa ambiciosa, o maníaco por dinheiro: a forma que ele toca a nota de cem – ele a toca como acaricia o amado; a forma que ele olha para o ouro, olhe para os seus olhos – tão românticos. Mesmo os grandes poetas sentir-se-iam inferiores. O dinheiro tornou-se o seu amor, a sua deusa. Na Índia, as pessoas até mesmo veneram o dinheiro. Há um dia particular para venerar o dinheiro – dinheiro real – notas e moedas, rúpias, eles veneram. Pessoas inteligentes fazendo tais coisas estúpidas!

O sexo pode ser desviado de várias maneiras. Ele pode tornar-se raiva se reprimido. Por isso o soldado tem que ser privado do sexo, para que a energia do sexo se torne a sua raiva, a sua irritação, a sua destrutibilidade, para que ele possa ser o mais violento possível. O sexo pode ser desviado em ambição. Reprima o sexo: uma vez que o sexo é reprimido, você tem energia disponível, você pode direcioná-la para qualquer direção. Pode ser a busca por poder político, a busca por mais dinheiro, a busca por fama, nome, respeitabilidade, ascetismo, etc.

O ser humano tem apenas uma energia – a energia do sexo. Não há muitas energias em seu interior. E apenas uma energia tem sido utilizada para todos os tipos de empreitadas. É uma energia tremendamente potencial.

As pessoas estão em busca de dinheiro na esperança que quando elas tiverem mais dinheiro elas poderão ter mais sexo. Elas poderão ter muito mais homens belos e mulheres belas, elas poderão ter muito mais variedade. O dinheiro lhe dá liberdade de escolha.

A pessoa que está livre da sexualidade, cuja sexualidade tornou-se um fenômeno transformado, também está livre do dinheiro, também está livre da ambição, também está livre do desejo de ser famoso. Imediatamente todas essas coisas desaparecem da sua vida. No momento em que a energia do sexo começa a elevar-se, no momento em que a energia do sexo começa a tornar-se amor, oração, meditação, então todas as manifestações inferiores desaparecem.

Mas o sexo e o dinheiro estão profundamente associados. A sua ideia, Nirmal, tem alguma verdade em si.

Um encarquilhado cliente de um prostíbulo ouve gritos no andar de cima:

“Não! Não desse jeito! Quero do meu jeito, da forma que fazemos no Brooklyn. Então saia! Faça do meu jeito ou esqueça!”

A madame sobe as escadas e irrompe na porta da garota. “O que está acontecendo com você, Zelda?” ela diz. “Dê-lhe à maneira dele.”

Ela sai, a garota deita, e o homem faz amor com ela de uma maneira perfeitamente rotineira. Ela se senta, veste o roupão, acende um cigarro e diz, “Essa é a sua maneira, Hymie, né?”

“Sim,” ele diz orgulhosamente da cama.

“É assim que você faz no Brooklyn?”

“Com certeza!”

“Então qual a diferença?”

“No Brooklyn é grátis.”

As pessoas podem ser tão obcecadas por dinheiro quanto são obcecadas por sexo. A obsessão pode ser alterada na direção do dinheiro. Mas o dinheiro lhe dá poder de compra e você pode comprar qualquer coisa. Você não pode comprar amor, é claro, mas você pode comprar o sexo. O sexo é uma mercadoria, o amor não é.

Você não pode comprar uma oração, mas você pode comprar os sacerdotes. Os sacerdotes são mercadorias – a oração não é uma mercadoria. E aquilo que pode ser comprado é ordinário, mundano. Aquilo que não pode ser comprado é sagrado. Lembre-se: o sagrado está além do dinheiro, o mundano está sempre no alcance do poder do dinheiro.

E o sexo é a coisa mais mundana do mundo.

Um homem entra em uma moderna casa noturna e bordel de Chicago gerenciada pelo crime organizado, que está tentando melhorar a imagem da casa. O bordel toma vários andares de um hotel arranha-céu e ele é recebido por uma bela e jovem recepcionista em um uniforme sexy, que o acomoda em uma mesa de entrevistas de madeira teca e pergunta-o quanto dinheiro ele quer gastar. Ela explica que o preço parte de cinco dólares até mil dólares, dependendo da qualidade e do número de meninas. Tudo é mostrado em uma televisão. Os preços mais caros são para os andares mais baixos, com tetos mais amplos, espelhos sobre as camas, três ou quatro garotas na cama com o cliente ao mesmo tempo etc. Os preços mais baixos são para deleites menores, terminando com cinco dólares por uma “uma mãe negra com narinas grandes,” conforme a bela e jovem recepcionista explica.

O cliente pensa. “Vocês não tem nada mais barato que cinco?” ele finalmente pergunta.

“Claro,” disse a recepcionista. “Sétimo andar – o jardim no teto. Um dólar a dose. Self-service.”

O dinheiro é certamente associado com o sexo, porque o sexo pode ser comprado. E qualquer coisa que possa ser comprada é parte do mundo do dinheiro.

Lembre-se de uma coisa: a sua vida permanecerá vazia se você conhecer apenas as coisas que podem ser compradas, se você conhecer apenas as coisas que podem ser vendidas. A sua vida permanecerá totalmente fútil se você se familiarizar apenas com mercadorias. Torne-se familiarizado com as coisas que não podem ser compradas e não podem ser vendidas – então, pela primeira vez, as suas asas começam a crescer, você começa a pairar alto.

Um grande rei, Bimbisara, foi até Mahavira. Ele tinha ouvido falar que Mahavira tinha atingido dhyana – meditação, samadhi. Na terminologia Jaina ela é chamada samayik – o estado último de oração ou meditação. Bimbisara tinha tudo desse mundo. Ele se preocupou: “O que é esse samayik? O que é esse samadhi?” Ele não podia descansar, porque agora, pela primeira vez, ele estava consciente de que havia uma coisa que ele não tinha – e ele não era um homem que permanecia contente sem ter qualquer coisa que parecia chique.

Ele viajou até as montanhas, encontrou Mahavira e falou, “Quanto você quer pelo seu samayik? Eu vim para comprá-lo. Posso dar-lhe qualquer coisa que desejar, mas dê-me esse samayik, esse samadhi, essa meditação – o que é isso? Onde ela está? Primeiro deixe-me olhar para ela!”

Mahavira ficou surpreso com toda a estupidez do rei, mas ele era um homem muito respeitoso, suave, gracioso. Ele disse, “Você não precisava viajar tanto. Na sua própria capital eu tenho um seguidor que alcançou o mesmo estado, e ele é tão pobre que pode ser que queira vendê-lo. Eu não quero vendê-lo, porque não preciso de dinheiro algum. Como você pode ver estou nu, não preciso de nenhuma roupa, estou totalmente satisfeito – não tenho nenhuma necessidade, então o que eu faria com o seu dinheiro? Mesmo se você me der todo o seu reino eu não irei aceitá-lo. Eu tenho o meu próprio reino – que renunciei. Eu tive tudo o que você tem!”

E Bimbisara sabia que Mahavira tinha tido tudo e renunciara, então era difícil persuadi-lo a vender. Certamente o dinheiro não significava nada para ele. Então ele disse, “Certo, quem é esse homem? Dê-me seu endereço.”

E Mahavira disse-lhe, “Ele é muito pobre, vive na parte mais pobre da sua cidade. Talvez você nunca tenha visitado essa parte. Este é o endereço… vá e pergunte para ele. Ele é seu súdito, ele pode vendê-lo para você, e ele está passando necessidade. Ele tem uma esposa, crianças, uma grande família e é realmente pobre.”

Era uma piada. Bimbisara retornou feliz, foi diretamente até as partes pobres da capital onde ele nunca havia ido. As pessoas não podiam acreditar – a sua charrete dourada e milhares de soldados seguindo-o.

Eles pararam na frente da cabana do pobre homem. O pobre homem veio, tocou os pés do rei e disse, “O que posso fazer? Ordene-me.”

O rei disse, “Vim para comprar a coisa chamada samadhi, meditação, e estou pronto para pagar qualquer preço que você pedir.”

O pobre homem começou a chorar, as lágrimas desciam por suas bochechas, e ele falou, “Desculpe-me. Posso dar-lhe a minha vida, posso morrer por você agora, posso cortar a minha cabeça – mas como eu poderia dar-lhe o meu samadhi? Não é vendável, não é comprável – não é uma mercadoria de forma alguma. É um estado de consciência. Mahavira deve ter feito uma piada com você.”

A menos que você conheça algo que não possa ser vendido e não possa ser comprado, a menos que você conheça algo que está além do dinheiro, você não conheceu a vida real. O sexo não está além do dinheiro – o amor está. Transforme o seu sexo em amor, e transforme o seu amor em oração – então, um dia, mesmo os reis como Bimbisara podem sentir inveja de você. Torne-se um Mahavira, um Buda, um Cristo, um Zaratustra, um Lao Tsé. Somente assim você viveu, somente assim você conheceu os mistérios da vida!

O dinheiro e o sexo são os mais baixos, e as pessoas estão vivendo apenas no mundo do dinheiro e do sexo – e elas pensam que estão vivendo. Elas não estão vivendo, estão apenas vegetando, estão apenas morrendo. Isso não é vida. A vida tem muito mais reinos a serem revelados, um tesouro infinito que não é desse mundo. Nem o sexo pode lhe dar, nem o dinheiro. Mas você pode alcançá-lo.

Você pode usar a sua energia sexual para alcançá-lo, e você pode usar o poder do seu dinheiro para alcançá-lo. É claro, ele não pode ser alcançado pelo dinheiro ou pelo sexo, mas você pode utilizar a sua energia sexual, o poder do seu dinheiro, de uma maneira tão habilidosa que você cria um espaço no qual o além pode descer.

Não sou contra o sexo, não sou contra o dinheiro, lembre-se. Lembre-se sempre! Mas eu certamente quero ajudá-lo a ir além deles – estou certamente a favor de ir além.

Use tudo como um degrau. Não evite nada. Se você tem dinheiro, você pode meditar mais facilmente do que uma pessoa pobre. Você pode ter mais tempo para si próprio. Você pode ter um pequeno templo em sua casa; você pode ter um jardim, roseiras, onde a meditação será mais fácil. Você pode permitir-se alguns feriados nas montanhas, você pode isolar-se e viver sem preocupação. Se você tem dinheiro, utilize-o em algo que o dinheiro não pode comprar, em algo que o dinheiro pode criar um espaço.

A energia sexual é um desperdício se permanecer apenas confinada ao sexo, mas ela pode tornar-se uma grande bênção se transformar a sua qualidade: o sexo não pelo sexo – utilize o sexo como uma comunhão do amor. Utilize o sexo como um encontro de duas almas, não apenas de dois corpos. Utilize o sexo como uma dança meditativa das energias de duas pessoas. E a dança é muito mais rica quando o homem e a mulher estão dançando juntos – e o sexo é o máximo da dança: duas energias encontrando-se, fundindo-se, dançando, celebrando.

Mas utilize-o como um degrau, como um trampolim. E quando você alcança o clímax do seu orgasmo sexual, torne-se consciente do que está ocorrendo, e você ficará surpreso – o tempo desapareceu, a mente desapareceu, o ego desapareceu. Por um momento há um silêncio total. Este silêncio é a coisa real!

Este silêncio pode ser alcançado por outros meios, também, e com menos desperdício de energia. Este silêncio, esta não-mente, este não-tempo, pode ser alcançado pela meditação. De fato, se uma pessoa vai conscientemente para sua experiência sexual, ela necessariamente tornar-se-á uma meditadora mais cedo ou mais tarde. A sua consciência da experiência sexual fará com que ela se torne consciente que o mesmo pode ocorrer sem qualquer sexualidade envolvida. O mesmo pode ocorrer apenas sentando-se silenciosamente consigo mesmo, sem fazer nada. A mente pode ser abandonada, o tempo pode ser abandonado, e no momento em que você abandona a mente, o tempo e o ego, você é orgástico.

O orgasmo sexual é muito momentâneo e qualquer coisa momentânea traz frustração na sequência, traz miséria e infelicidade, tristeza e arrependimento. Mas a qualidade de ser orgástico pode tornar-se uma continuidade em você, um contínuo – ela pode tornar-se o seu próprio aroma. Mas é possível apenas através da meditação, não somente através do sexo.

Use o sexo, use o dinheiro, use o corpo, use o mundo, mas temos que alcançar Deus. Deixe Deus permanecer sempre como a meta.

Por hoje é só.

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