Dhammapada: O Caminho do Buda, Vol 2. Cap 2, OSHO

O Dhammapada: O Caminho do Buda, Vol 2

Capítulo #2

Título do Capítulo: Beba-o totalmente e dance

2 de Julho de 1979 na Sala Buda

A primeira questão:

Questão 1

AMADO MESTRE,

VOCÊ PODERIA, POR FAVOR, FALAR MAIS SOBRE A NOVA FASE DO SEU TRABALHO? SRI RAMAKRISHNA, SRI RAMAN, E MESMO J. KRISHNAMURTI, PARECEM UNIDIMENSIONAIS. GURDJIEFF TENTOU UMA ABORDAGEM MULTIDIMENSIONAL? ESSA FOI A CAUSA DELE TER SIDO TÃO INCOMPREENDIDO?

Ajit Saraswati, é natural ser incompreendido se você realmente quer ajudar as pessoas. Se você não quer ajudá-las, você nunca será incompreendido – elas irão idolatrá-lo, irão louvá-lo. Se você apenas falar, se você apenas filosofar, então elas não terão medo de você. Então você não tocará a vida delas.

E é belo conhecer teorias complexas, sistemas de pensamentos. Isso ajuda o ego, isso alimenta o ego delas – elas se tornam mais instruídas. E todo mundo gosta de ser mais instruído. É o mais sutil alimento para o ego.

Mas se você realmente quer ajudá-las, então surge o problema. Então você começa a mudar as suas vidas, então você começa a transpassar o ego delas; então você começa a interferir com séculos e séculos de velhos hábitos e mecanismos. Então você cria antagonismo: elas têm medo de você, elas são inimigas. E elas tentarão, de toda maneira possível, lhe entender mal, deturpar-lhe.

As pessoas unidimensionais são belas flores, mas sem muito uso. Krishnamurti tem falado por quarenta ou mais anos, e as pessoas ouvem. As mesmas pessoas o têm ouvido por quarenta anos… E praticamente nada mudou na consciência delas. Certamente elas se tornaram muito instruídas, argumentativas, lógicas. Se você discutir com elas – elas são as melhores pessoas para discutir algo – elas vão aos mundos mais sutis e delicados do pensamento. Elas podem analisar tudo: a vigilância, a meditação, a consciência… Elas tornaram-se muito eficientes, muito espertas, mas elas permanecem tão medíocres e tão estúpidas como sempre, com apenas uma diferença: agora a estupidez delas é camuflada por detrás do seu assim chamado conhecimento que elas recolheram de J. Krishnamurti. Krishnamurti permanece apenas um fenômeno intelectual, porque ele nunca se importou em entrar na vida das pessoas. É perigoso entrar na vida das pessoas – você está brincando com fogo.

Sri Raman é perfeitamente ok: sentando-se silencioso em seu templo, as pessoas podem vir, oferecer flores, adorar, e ele simplesmente observará. E, é claro, ele tem uma beleza e uma graça, mas é unidimensional, não afeta a vida em sua totalidade. No máximo as pessoas podem ser tocadas emocionalmente. Assim como J. Krishnamurti toca as pessoas intelectualmente, Sri Raman toca as pessoas emocionalmente.

E o mesmo acontecia com Ramakrishna. As emoções de muitas pessoas foram tocadas, e elas choraram de alegria. Mas isso não o transformará. Essas lágrimas de alegria são momentâneas; em casa você será o mesmo.

Gurdjieff certamente é um pioneiro. Com Gurdjieff inicia-se um conceito totalmente novo de vida espiritual. Ele chamou o seu caminho de “o quarto caminho” – assim como eu chamo o meu caminho de “o quarto caminho” ele também chama o seu caminho de “o quarto caminho.” Ele foi imensamente incompreendido, porque não estava interessado em transmitir o conhecimento para você, ele não estava interessado em consolá-lo. Ele não estava interessado em lhe dar belas teorias, visões, alucinações. Ele não estava interessado nas suas lágrimas, em suas emoções e sentimentos. Ele não estava interessado em ser adorado por você, ele estava interessado em transformar-lhe.

E transformar uma pessoa significa que você tem que tomar um martelo em suas mãos, porque muitos pedaços do ser daquela pessoa devem ser despedaçados. A pessoa está tão de pernas para o ar que tudo está errado do jeito que ela está e deve ser colocado da maneira correta. E a pessoa investiu tanto nessa maneira errada de viver que qualquer um que queira alterar o seu estilo de vida – não apenas a circunferência, mas o centro também – ela tem medo, assusta-se. Apenas algumas poucas pessoas corajosas podem entrar no mundo de um homem como Gurdjieff. Uma tremenda coragem é necessária, uma coragem para morrer, porque só assim é possível renascer.

Gurdjieff era um parteiro. Ele não era um professor, era um mestre. Krishnamurti permaneceu um professor. Raman permaneceu um belo indivíduo – iluminado, mas uma estrela distante, apartada. Você poderia observar e apreciar, e poderia escrever poesias sobre ele, mas isso é tudo. Ele permanecia um fenômeno distante. Você nunca poderia ter a esperança de alcançá-lo, a distância era gigante. E não havia nenhum esforço do lado dele em fazer uma ponte. E o que você poderia fazer? Como você poderia fazer a ponte? Se você fosse capaz de fazer a ponte com um homem como Raman, não haveria necessidade de fazer a ponte. Um homem dessa capacidade seria capaz de transformar a si mesmo por si só; ele não precisaria de um mestre. A menos que Raman tentasse fazer a ponte, a ponte não seria possível.

E ele era arredio, distante, frio. Ele não estava envolvido. Ele sabia que toda a miséria é falsa. E, certamente, isso está correto – mas não para aqueles que estão na miséria. O ser humano que está acordado sabe que a pessoa que está chorando em seu sono está vendo um sonho, verdade. De acordo com o ser humano que está acordado, é perfeitamente verdade. Mas mesmo que seja um sonho, um pesadelo, para a pessoa que está totalmente dormindo é uma verdade. E o ser humano que está totalmente dormindo não pode fazer qualquer esforço para conectar-se com o ser humano iluminado. Obviamente é impossível. Ele não pode nem mesmo conceber que alguém esteja acordado; ele está muito absorto em seu pesadelo. Apenas o ser iluminado pode fazer o esforço. Mas perturbar o sono de alguém, mesmo que essa pessoa esteja em um pesadelo, é perigoso. Ninguém quer ser perturbado, ninguém quer sofrer interferência.

As pessoas têm ideias estranhas – pessoas dormentes, idiotas, mas elas têm ideia estranhas de liberdade. Elas não têm liberdade; elas não podem ter. Elas não podem se dar ao luxo enquanto dormem. Como um ser humano dormente pode ter qualquer liberdade? Mas ele tem ideias, grandes ideias de liberdade, e um homem como Gurdjieff interfere. A sua compaixão é muito maior do que a compaixão de J. Krishnamurti, Raman e Ramakrishna.

Ramakrishna é belo – cantando o louvor a Deus, orando, adorando, dançando. Ele é algo do além. Ele lhe relembra que muito mais é possível na vida do que está acontecendo com você – mas isso é tudo. Através dele apenas uma pequena lembrança pode lhe alcançar. Mas a sua vida é tal que aquela lembrança não criará qualquer mutação; ela será esquecida. Você a desfrutará. Repetidas vezes você gostaria de ir até o homem e vê-lo dançando, cantando e orando… e você se sentirá bem.

Isso é o que Buda chama “contar as ovelhas dos outros.” Ele é uma bela flor, mas ao olhar a rosa você não pode se tornar a rosa; você também não pode se tornar Ramakrishna ao olhar para Ramakrishna. Um grande esforço é necessário. Você tem que subir a montanha contra todos os riscos.

A menos que um mestre tente se aproximar de você em seu sono pesado, a não ser que ele incite o seu ser, segure você forte e te leve para fora da sua ignorância, é impossível, é quase impossível. Mas você ficará bravo com esse ser humano – quem quer ser perturbado? Alguém tornou-se acostumado com uma certa forma de vida; a mente sempre gosta do velho, do conhecido, do familiar. Mesmo que seja miserável, ainda assim a mente teme o novo, porque com o novo você tem que aprender novamente como se comportar, como ser. E quem quer aprender? Você é tão eficiente com o velho, o seu ego está tão satisfeito com o velho – quem se importa?

E quando você cruza com um homem como Gurdjieff, ele destrói todo o disparate que você recolheu. Ele destrói impiedosamente! Às vezes ele terá que dizer coisas que não são realmente verdadeiras, mas ele as tem que dizer apenas para destruir as suas ideias.

Um amigo perguntou, “Como foi possível a um homem como Gurdjieff, um homem de um entendimento tão grande, não entender a ideia de energia kundalini?”

Ele a chamava de kundabuffer. Ele era muito contra a ideia de kundalini. Ele dizia frequentemente que a pior coisa que poderia acontecer a uma pessoa na vida é o despertar da kundalini. O questionador, naturalmente, fica desnorteado.

Mas você não pode entender o significado real de Gurdjieff. Ele a chamou de kundabuffer por causa da tolice que os teosofistas criaram no mundo. Eles falavam muito sobre kundalini, o poder da serpente, e era tudo bobagem; eles não sabiam nada sobre ela. Eles estavam apenas fabricando, apenas inventando teorias e ideias. Era tudo suposição.

De fato, a cada cem livros que são escritos sobre kundalini, noventa e nove são pura bobagem. E as pessoas que se reuniam em torno de Gurdjieff passaram pela filosofia teosófica, hipóteses, doutrinas. Ele estava destruindo o conhecimento delas; ele não estava dizendo nada contra a kundalini. Como ele poderia? Ele sabia bem melhor do que Blavatsky, Annie Besant, Alcott, Leadbeater – ele sabia bem melhor do que essas pessoas. Essas pessoas eram apenas especialistas em criar doutrinas, e realmente elas foram grandes especialistas. Elas criaram um movimento quase mundial – sobre auras, cores e kundalini… novas palavras do conhecimento espiritual antigo. E elas criaram mundos, mundos imaginários, em torno dessas palavras.

Gurdjieff está certo em chamá-la kundabuffer. E Gurdjieff está certo em dizer que a pior coisa que pode acontecer com um ser humano é o despertar da kundalini. Mas lembre-se sempre que ele estava falando com seus discípulos, em um contexto particular. Ele estava destruindo o conhecimento dos seus discípulos em relação ao poder da kundalini – porque o primeiro passo de um mestre é destruir o seu conhecimento, porque o seu conhecimento é basicamente falso, emprestado.

Antes de você poder familiarizar-se com a verdade, o falso deve ser levado. Às vezes o mestre tem que ser muito impiedoso, outras vezes o mestre tem que dizer coisas que não são realmente assim. Kundalini não é uma ideia errada, mas para noventa e nove porcento das pessoas, Gurdjieff está certo.

Agora há novamente pessoas como Gopi Krishna, que estão escrevendo livros sobre a kundalini e o poder da serpente, e o grande gênio que ocorre através dela. Não ocorreu nem mesmo com Gopi Krishna! Que tipo de gênio ele tem? No máximo, a única prova que ele deu de seu gênio é alguma poesia absolutamente sem valor, assim como a poesia que crianças pequenas escrevem. Ele foi um clérigo por toda a sua vida. A sua poesia cheira a toda a sua vida eclesiástica – ela fede! Não há beleza, não há grandeza – não há nada de esplêndido.

E agora ele está propondo ao redor do mundo que quando a kundalini desperta o seu poder latente de gênio manifesta-se. Quantos iogues ganharam o Prêmio Nobel? E quantos iogues contribuíram para o conhecimento científico do mundo, arte, poesia, pintura, escultura? Quantas pessoas cuja kundalini despertou contribuíram de qualquer forma para a riqueza do mundo?

O que Gopi Krishna está falando não é de kundalini, e sim de kundabuffer. Gurdjieff o teria corrigido com um único golpe. Mas ele atrai as pessoas. As pessoas são muito atraídas pelo disparate místico, pela estupidez oculta, pela besteira esotérica. Apenas comece a falar passando por elas de chakras, centros de energia e kundalini, e todas elas ficam atentas. Tente! Não há necessidade de saber nada sobre isso – invente apenas… porque os místicos Jainas não falaram da kundalini, os místicos Budistas não falaram da kundalini, os místicos Cristãos nunca souberam nada sobre ela, os Sufis estão absolutamente inconscientes dessa energia chamada kundalini. Apenas a yoga Hindu fala sobre ela. Há algo nela, mas não exatamente da maneira que as pessoas falam. O conhecimento que flutua em torno da kundalini é tudo bobagem, e Gurdjieff estava certo em condená-la. Ele estava condenando todo o movimento teosófico. Os teosofistas eram muito contra Gurdjieff. Eles não sabiam de nada, mas eles criaram um grande movimento. Eles eram mais ou menos pessoas políticas, eruditos, ‘i-lógicos’, mas de maneira alguma almas realizadas.

Gurdjieff destruiu muitas crenças. Ele destruiu uma das mais fundamentais crenças de toda humanidade. ele disse, “não há alma. Você não nasce com uma alma – a alma tem que ser criada através de um grande esforço. E apenas pouquíssimas pessoas foram capazes de criá-la. As milhões de pessoas que andam na terra são todas sem alma.”

Ora, você pode criar um choque maior? – Apenas dizer às pessoas, “Você não tem uma alma. Não há nada no seu interior – oco, ninguém dentro de você. Você ainda não nasceu; você é apenas um corpo, um mecanismo. Sim, você tem uma possibilidade, uma potencialidade de tornar-se uma alma, mas você tem que trabalhar muito para alcançá-la, terá que realizar um grande trabalho por ela, e somente então é possível ter uma alma. É a luxúria última ter uma alma.”

Ora, ao longo das eras os sacerdotes têm dito a você que você nasce com uma alma. Isso criou uma situação muito inconveniente. Porque todos disseram que ele nasceu com uma alma, ele pensa, “então por que me preocupar? Eu já sou uma alma. Sou imortal. O corpo morrerá mas eu viverei.” Gurdjieff diz, “Você não é nada exceto o corpo, e quando o corpo morrer você morrerá. Apenas raramente uma pessoa sobrevive – alguém que criou a alma em sua vida sobrevive a morte – não todos. Um Buda sobrevive, um Jesus sobrevive, mas não você! Você simplesmente morrerá, nem mesmo um traço restará.”

O que Gurdjieff estava tentando fazer? Ele estava lhe chocando até as raízes; ele estava tentando retirar todas as suas consolações e teorias tolas que seguem lhe ajudando a postergar o trabalho sobre si próprio. Ora, dizer às pessoas, “Vocês não têm nenhuma alma, vocês são apenas vegetais, apenas uma couve ou, talvez, uma couve-flor.” Uma couve-flor é uma couve com educação superior – “Mas nada mais do que isso.” Ele era um mestre por excelência. Ele estava retirando a própria terra debaixo dos seus pés. Ele lhe dava tamanho choque que você teria que repensar toda a situação: você irá permanecer uma couve? Ele estava criando uma situação em torno de você, em que você teria que buscar pela alma, por que quem quer morrer?

E a ideia de que a alma é imortal ajudou as pessoas a consolarem a si mesmas que elas não morrerão, que a morte é apenas uma aparência, apenas um grande sono, um sono sossegado, e você nascerá novamente. Gurdjieff diz, “tudo bobagem. Isso é tudo bobagem! Morto, você estará morto para sempre – a não ser que você tenha criado uma alma…”

Agora veja a diferença: foi-lhe dito que você já era uma alma, e Gurdjieff altera isso totalmente. Ele diz, “você ainda não é uma alma, mas apenas uma oportunidade. Você pode usá-la, você pode perdê-la.”

E eu gostaria de dizer a vocês que Gurdjieff estava apenas usando uma estratégia. Não é verdade. Todos nascem com uma alma. Mas o que fazer com as pessoas que têm utilizado verdades como consolações? Um grande mestre às vezes tem que mentir – e apenas um grande mestre tem o direito de mentir – apenas para lhe tirar do seu sono.

Por exemplo, você está dormindo completamente e eu o chacoalho e você não acorda. Então começo a gritar, “Fogo! Fogo!” e você começa a correr pela casa. Lá fora nós iremos resolver o assunto. Eu direi que não existia fogo… mas essa foi a única maneira de fazê-lo acordar.

Uma vez que você tenha conhecido a alma, Gurdjieff vai sussurrar em seu ouvido, “agora não se preocupe. Esqueça tudo o que eu estava dizendo a você. Mas era necessário. Era uma estratégia. Eu tive que gritar ‘Fogo!’ caso contrário você não sairia do seu sono.”

Mas estas pessoas serão incompreendidas. Compreender um homem como Gurdjieff é uma tarefa quase impossível. Você pode compreendê-lo apenas se for com ele, se seguir com ele. E o trabalho que Gurdjieff fez foi um trabalho muito secreto – não poderia ser de outra forma. O trabalho real pode ser feito apenas em uma escola de mistério. Está escondida, subterrânea. Não é pública e não pode ser pública.

Na Idade Média os místicos desapareceram por detrás do manto da alquimia; eles tinham que desaparecer por causa dos Cristãos. Os Cristãos estavam destruindo todos os tipos de fontes que estavam, de qualquer maneira, em conflito com a ideologia Cristã. Eles não permitiam que ninguém praticasse nada diferente; mesmo falar sobre algo diferente não era permitido: “o Cristianismo e apenas o Cristianismo é o caminho.”

Os místicos tinham que desaparecer. Eles criaram um belo embuste, eles criaram a ideia de alquimia. Eles começaram a dizer, “nós somos alquimistas; nós não temos nada a ver com espiritualidade. Tudo isso é podre. Nós estamos buscando o segredo da vida imortal, da eterna juventude. Nós estamos tentando encontrar os caminhos e os meios para transformar os metais básicos em ouro.” E apenas para enganar o público eles fizeram laboratórios químicos. Se você entrasse no mundo de um alquimista você encontraria jarras e medicamentos, ervas e tubos de ensaio… e você veria um laboratório onde muito trabalho químico estava ocorrendo. Mas isso era apenas uma fachada; este não era o trabalho real – o trabalho real estava acontecendo em algum ponto mais profundo da escola.

O trabalho real era criar seres humanos integrais, cristalizados, criar vigilância. O trabalho real era a meditação. Mas o Cristianismo não permite a meditação. Ele diz que a oração é suficiente. Ele não permite a busca interior. Ele diz que adorar a Deus é suficiente, ir todo domingo a igreja é suficiente, ler a Bíblia é suficiente. Ele deu-lhe brinquedos – e assim ocorreu nos outros países também.

Na Índia também os místicos viveram disfarçados.

Outro dia eu estava lendo uma história Sufi – e Gurdjieff está basicamente enraizado na tradição Sufi. Ele é um Sufi. Ele aprendeu os seus segredos dos Sufis.

Eu estava lendo uma história Sufi:

Um discípulo veio até o mestre e disse, “Tenho um problema. O problema é que o homem mais rico da cidade vai sair em peregrinação. Ele tem uma bela filha e eu tenho uma grande reputação por causa de toda a disciplina que tive e o caráter que cultivei. Tenho uma reputação tal na cidade que ele quer que eu cuide de sua bela filha enquanto peregrina. E estou com medo – conheço minhas tentações. E a garota é realmente bela; de fato, eu sempre fui apaixonado por ela. Estive evitando…! Isso é demais: por seis ou nove meses ela viverá comigo. Não posso confiar em mim mesmo. O que eu deveria fazer?”

O mestre disse, “Conheço um homem que conhece o segredo. Vá até ele.”

E ele lhe disse para ir para outra vila onde um louco vivia. Ele disse, “Mas o que aquele louco pode fazer? Eu conheço aquele louco, ouvi muito sobre aquele louco. Ele é totalmente louco! Como ele poderá me ajudar?

O mestre disse, “Apenas vá, mas vá muito vigilante. Observe tudo que estiver acontecendo ali.”

Ele foi até o louco. Um jovem muito bonito estava vertendo vinho e o louco estava tomando.

Ora, os países Islâmicos têm sido homossexuais ao longo das eras, muito – tanto que apenas o paraíso Islâmico é gay. É muito mais avançado do que qualquer outro paraíso. No paraíso Hindu não há lugar para uma pessoa gay. No paraíso Cristão também não, de maneira alguma. Mesmo o Deus Judeu é muito contra a homossexualidade, muito bravo. Mas o Deus Islâmico é muito leniente. Não apenas belas mulheres são fornecidas para os virtuosos, mas belos garotos também.

Esse jovem belo homem vertendo vinho e o louco bebendo – o homem sentiu muito ódio, condenação. Mas porque o mestre havia dito, “Observe e peça conselhos para ele…” ele esqueceu tudo sobre o seu problema. Primeiro ele perguntou, “Por favor me diga o que está acontecendo. O que você está fazendo?”

O louco riu e disse, “Esse garoto é meu filho. E, venha mais perto – os meus óculos contêm apenas água. O que ele está vertendo não é vinho.”

O homem perguntou, “Então por que você está fingindo beber vinho? Ninguém dá goles em água como você está dando esses goles. O frasco do qual ele está vertendo água não é utilizado para manter água – então por quê?”

O louco riu e disse, “Para que ninguém confie a sua bela filha a mim quando sair em peregrinação. Esse é um conselho!”

Ele deve ter lido o pensamento, deve ter sido telepático. Ele deve ter visto esse homem dos pés à cabeça. “…para que ninguém confie a sua bela filha a mim, para ninguém estorvar. Para que eu fique sozinho. Mas, por favor, não conte o meu segredo para ninguém; caso contrário terei que mudar dessa cidade para outra cidade. A minha loucura é um rumor criado por mim. Minha habilidade de não ter caráter é um rumor criado por mim. E se você realmente quer trabalhar em si próprio,” disse o louco, “você deveria fazer a mesma coisa. Volte. Comece a comportar-se ridiculamente, estupidamente, loucamente, imoralmente – pelo menos finja! – e ninguém lhe estorvará.”

Gurdjieff viveu uma vida muito misteriosa; não era pública. A sua escola foi uma escola secreta. O que acontecia lá, as pessoas simplesmente conjeturam.

E é isso o que acontecerá na nova fase do meu trabalho. A minha comuna tornar-se-á oculta, subterrânea. Ela terá uma fachada na parte externa: os tecelões, os carpinteiros e os oleiros… esta será a fachada. As pessoas virão como visitantes, teremos belos salões de exibições para elas; elas poderão comprar coisas. Elas poderão ver a criatividade dos sannyasins: pinturas, livros, trabalhos em madeira… elas poderão conhecer o lugar – um belo lago, piscinas, um hotel cinco estrelas à disposição – mas elas não saberão o que está realmente ocorrendo. Aquilo que ocorrerá será quase que inteiramente subterrâneo. Deve ser subterrâneo, caso contrário não pode ocorrer.

Tenho alguns segredos para transmitir a vocês, e eu não gostaria de morrer antes de transmiti-los para vocês – porque não conheço ninguém mais vivo agora no mundo que pode fazer esse trabalho. Tenho segredos do Taoísmo, do Tantra, do Yoga, segredos dos Sufis, segredos do Zen. Vivi em praticamente todas as tradições do mundo; fui um errante por muitas vidas. Reuni muito mel de muitas flores.

E o momento da minha partida virá, cedo ou tarde – e eu não serei capaz de entrar novamente no corpo. Esta será a minha última vida. Todo o mel que reuni eu gostaria de compartilhar com vocês, para que vocês possam compartilhar com os outros, para que ele não desapareça da Terra.

Este será um trabalho muito secreto; por isso, Ajit Saraswati, não posso falar sobre ele. Penso que já falei muito! Eu não deveria ter falado nem isso. O trabalho será apenas para aqueles que são totalmente devotos.

Nesse momento, temos um grande escritório de conferência para fazer o maior número de pessoas possível conscientes do fenômeno que está acontecendo aqui. Mas na nova comuna o trabalho real simplesmente desaparecerá dos olhos do mundo. O escritório funcionará – funcionará para outros propósitos. As pessoas continuarão chegando, porque temos que escolhê-las; temos que convidar pessoas que podem ser participantes, que podem dissolverem-se na comuna. Mas o trabalho real será absolutamente secreto. Será apenas entre eu e você.

E também não haverá muita conversa entre eu e você. Cada vez mais eu me tornarei silencioso, porque a comunhão real é através da energia, não através das palavras. Conforme você se prepara para receber a energia em silêncio, eu me tornarei cada vez mais silencioso. Mas eu guardo um grande segredo para você. Seja receptivo…

E conforme o meu trabalho se torna subterrâneo, mais secreto e misterioso, cada vez mais rumores e fofocas devem se espalhar por todo o mundo. As pessoas desconfiam muito de qualquer segredo, e, porque não encontram nenhuma pista, elas começam a inventar as suas próprias ideias sobre o que está acontecendo ali. Então esteja pronto para isso também.

Mas não se preocupe com isso. Será uma escola de mistério. Essas escolas existem desde que Zaratustra estava vivo; ele criou uma escola dessa. Essas escolas existiram no Egito, na Índia, no Tibete. Quando Pitágoras veio e visitou este país ele notou o fato das escolas de mistério. Ele foi iniciado em muitas escolas de mistério no Egito e na Índia. Jesus foi treinado pelos Essenos, uma escola de mistério muito secreta.

Tudo o que é belo e tudo o que é grande na história da humanidade apenas aconteceu por causa de poucas pessoas que juntaram as suas próprias energias para a exploração interior. A minha comuna será uma escola de mistério para a exploração interior. É a maior aventura que existe, e a maior dança também.

A segunda questão:

Questão 2

AMADO MESTRE,

QUAL É A CHAVE DESSE QUEBRA-CABEÇA?

O BUDA DIZ, FALE MENOS: E O SILÊNCIO É BELO,

POIS O QUE TENHO PARA FALAR?

ESTÓRIAS DO PASSADO, SONHOS DO FUTURO,

UMA FOFOCA TONTA OU UM ARGUMENTO ARRAZOADO,

TODOS TÊM O GOSTO DO FALSO NA LÍNGUA.

O SILÊNCIO É BELO,

E, ENTRETANTO…

O SOM DO BATE-PAPO SOBRE AS XÍCARAS DE CHÁ

ECOANDO O DESPREOCUPADO GORJEIO DOS PÁSSAROS –

A ENERGIA FLUINDO EM UM CÓSMOS ALEGRE.

AMADO MESTRE, DIGA-ME,

QUAL É A CHAVE DESSE QUEBRA-CABEÇA?

Nirgun, não leve Gautama o Buda muito a sério. O silêncio é belo, certamente é belo. Mas quem lhe disse que fofocar não é belo? De fato, quanto mais você desfrutar da fofoca, mais profundo será o seu silêncio.

Esses são opostos polares e harmonizam-se um ao outro. Se você trabalha duro de dia, você dormirá um sono profundo à noite. Opostos polares; trabalhar duro simplesmente traz um sono profundo. Ilógico! A coisa lógica seria que você descansasse o dia todo, praticasse o descanso todo o dia, e então dormisse um sono profundo à noite, um intenso sono à noite. Isso seria lógico – mas Deus é ilógico.

Isso parece perfeitamente certo: de dia você praticou o descanso – naturalmente você deveria ter mais descanso à noite do que qualquer um que não o praticou! E o homem que tem feito o oposto – trabalho duro, arando o solo, pela noite ele está totalmente cansado. Logicamente ele não deveria ser capaz de dormir de maneira alguma porque ele praticou o oposto. Mas não é dessa forma que a vida funciona.

A vida funciona através de opostos polares. A vida não é lógica, a vida é dialética. É uma dialética: tese, antítese, e ambas harmonizam-se e tornam-se uma síntese. Então a síntese funciona novamente como uma tese e cria uma antítese… e assim por diante. A vida não é Aristotélica, mas Hegeliana.

É perfeitamente certo fofocar. E quando você fofoca, fofoque totalmente – permita que isso seja uma meditação! Sabendo perfeitamente bem que é uma fofoca, ainda assim ela pode ser desfrutada. De fato, ela pode ser desfrutada ainda mais porque é apenas uma fofoca! E então silencie.

O gorjeio dos pássaros é belo, mas você observou que quando de repente ele para há um grande silêncio? O silêncio é aprofundado pelo som dos pássaros. O silêncio que segue a tempestade é o mais intenso, o mais profundo.

Nirgun, não leve Buda muito a sério. Ele pode ser tomado muito seriamente – ele é um homem unidimensional. O que estou dizendo… se você tivesse feito a mesma questão a Buda, ele não falaria a mesma coisa. Ele falaria, “Nirgun, você está chegando ao ponto correto. Pare de fofocar e comece a falar. Diga apenas o mínimo, o absolutamente necessário.” Ele sugeriria ser muito telegráfico. Se isso pode ser feito em dez palavras, então não o faça em onze. Se você puder cortar cada vez mais as palavras, quanto mais cortar, melhor.

Mas a minha própria experiência é que se você cortar toda a fofoca, todo o seu falar, o seu silêncio será superficial, o seu silêncio será somente um tipo de tristeza. Não terá profundidade. De onde ele tira profundidade? Ele pode tirar profundidade apenas do seu oposto polar.

Se você quer realmente descansar, primeiro dance – dance para abandonar. Permita que toda a fibra do seu corpo e ser dance, e então segue-se um relaxamento, um descanso, que é total. Você não precisa fazê-lo, ele acontece por si só.

Não estou lhe dizendo que a fofoca deve ser feita para ferir alguém. Então não é mais fofoca, é violência: então não é mais uma fofoca, é algo a mais camuflado de fofoca. A fofoca deve ser uma arte pura, sem motivação – fazer piadas por fazer, fofocar por fofocar. E então manter-se-á animada. E quando ela para… e por quanto tempo você pode fofocar? Há um limite natural para tudo. “O som do bate-papo sobre as xícaras de chá” não pode continuar para sempre. Em breve as xícaras de chá estarão vazias e o bate-papo desaparecerá… e então há um profundo silêncio.

É bom que os pássaros não tenham ouvido o Buda, que as árvores não tenham ouvido o Buda.

Nirgun, eu não gostaria que você se tornasse um Budista. Eu conheço os monges Budistas: eles se tornaram muito sérios, muito sérios, tanto que a sua seriedade é um tipo de doença. Eles não podem sorrir, não podem fazer piadas. De fato, se eles lessem os meus discursos sobre o Buda e cruzassem com algumas piadas interessantes, eles fechariam os seus olhos. Eles não seriam nem capazes de lê-los. Todo o seu ser iria recolher-se, eles se encolheriam. Eles não seriam capazes de me perdoar.

Não seja sério de maneira alguma. A minha mensagem é a do jubilar-se. É nisso que sou diferente de Buda. Buda é uma pessoa séria; não existe uma única estátua do Buda em que ele seja mostrado gargalhando, ou mesmo sorrindo. Sim, existem estátuas Chinesas e Japonesas do Buda em que ele é retratado sorrindo e gargalhando às vezes – às vezes mesmo um riso de ventre, com sua barriga tremulando. Mas esses são budas Chineses e Japoneses.

De fato, se você ver uma estátua Chinesa do Buda e uma estátua Indiana do Buda você não será capaz de conceber qualquer relacionamento entre as duas; elas são totalmente diferentes. O Buda Indiano é muito sério. O seu corpo é atlético: com um peitoral grande e uma barriga muito reduzida – nenhuma barriga. E se você ver um Buda Chinês é o oposto. Você não encontrará o peitoral grande de maneira alguma, ele não existe porque a barriga é muito grande. E você pode ver mesmo nas estátuas de mármore que a barriga treme por causa da risada. A sua face é totalmente diferente, é redonda e dá a sensação de ser uma criança. O Buda Indiano é muito Romano – ele foi feito depois de Alexandre ter visitado a Índia – é Grego e Romano. As feições não são Indianas. Olhe novamente para uma estátua Indiana de Buda, as feições não são Indianas. Alexandre e sua beleza impressionaram tanto as pessoas que elas impuseram a face de Alexandre no corpo de Buda.

E ele é muito sério, totalmente sério. Você não pode concebê-lo sorrindo. Mas quando o Budismo alcançou a China ele encontrou uma filosofia muito profunda – o oposto polar. A dialética ocorreu ali. O Budismo tornou-se a tese e o Taoísmo tornou-se a antítese: o encontro de Buda com Lao Tsé. A estátua Chinesa de Buda é uma cruz, é metade Gautama o Buda e metade Lao Tsé – eles estão misturados um com o outro. Aquela barriga pertence a Lao Tsé, aquele sorriso pertence a Lao Tsé, e o silêncio pertence a Buda. Foi o maior encontro que já ocorreu no mundo. Dele nasceu o fenômeno mais profundo e mais significante de toda a história: o Zen.

O Zen não é nem Budista, nem Taoista, ou é ambos juntos. É um encontro estranho. De fato, Lao Tsé e Buda, se eles tivessem se encontrado fisicamente, não concordariam em qualquer ponto. Lao Tsé era um homem do riso. Ele costumava se mover de uma vila até a outra sentado em seu búfalo – deveria parecer um palhaço. E ele estava quase sempre sorrindo, rolando no chão – de todo o ridículo da existência, o absurdo da vida. Buda e Lao Tsé são opostos polares. Talvez seja por isso que essas duas filosofias tornaram-se atraídas uma pela outra. Ambas são incompletas – o encontro as tornou mais completas. Nem Lao Tsé concordaria com o Zen, nem Buda concordaria com o Zen.

Ouvi uma história:

No céu, em um café, Buda, Confúcio e Lao Tsé estavam sentados, batendo papo. A mulher dona do café, uma bela mulher, aproximou-se. Ela trouxe o néctar da vida. Buda imediatamente fechou os seus olhos. Ele disse, “Não posso olhar para ele! Não vale a pena olhá-lo – a vida é miséria. O nascimento é miséria, a vida é miséria, a morte é miséria. Retire-o da minha frente; caso contrário não poderei abrir os olhos!”

Confúcio fechou os olhos pela metade – ele acredita no aurea mediocritas, no caminho do meio, apenas a metade – observou com os olhos semicerrados e disse, “Não posso evitá-lo sem prová-lo.” Ele é um homem de inclinações mais científicas. “Como você pode dizer algo a não ser que experimente? Você não pode declarar tais coisas sem ter a experiência. Então,” ele disse, “dê-me apenas um gole.” Ele provou e disse: “Buda está certo: a vida é amarga, miserável, e eu concordo completamente e sou testemunha do Buda. Mas eu direi novamente que Buda está errado – sem prová-la, nada deve ser dito. Embora ele esteja certo – posso aprová-lo, de acordo com o meu testemunho ele está certo – mas de acordo com o dele ele não está certo.”

Lao Tsé pegou o frasco e, antes que a dona pudesse falar qualquer coisa, ele o tomou inteiro em uma golada. Ele bebeu todo o frasco e ficou tão embriagado que começou a dançar. Ele não disse uma palavra – amargo ou doce, miséria ou bem-aventurança. Quando voltou um pouco aos seus sentidos, Buda e Confúcio o perguntaram, “O que você diz?”

Ele disse, “Não há nada para dizer. A vida deve ser bebida em sua totalidade, apenas então é possível saber. E quando se sabe, não há nada a se dizer. Não pode ser posto em qualquer categoria. Miséria e bem-aventurança são categorias – a vida está além de todas as categorias. Mas é preciso conhecê-la em sua totalidade, e apenas eu a conheço em sua totalidade. Você nem provou dela. Confúcio apenas provou dela, mas não se pode decidir sobre o todo pela parte. Apenas eu posso dizer o que ela é, mas não vou dizê-lo porque não é dizível. Se vocês querem realmente saber, posso comprar outro frasco. Beba-o totalmente e dance – este é o único caminho!”

Esta é a única forma de conhecer alguma coisa.

O encontro do Budismo com o Taoísmo é o fenômeno mais estranho do mundo. Mas, estava fadado a acontecer; havia uma certa inevitabilidade nele porque tais opostos polares atraem um ao outro, assim com os polos negativo e positivo do magnetismo ou a eletricidade negativa e positiva atraem uma à outra.

O Budismo viajou da Índia para a China. O Taoísmo nunca viajou para a Índia, porque o Taoísmo estava tão totalmente embriagado de êxtase, de alegria – quem se importa? O Budismo viajou, teve que viajar. A seriedade tornou-se muito, muito pesada. Uma vez que Buda se foi, uma vez que a luz se foi, então era apenas como uma rocha no peito dos seguidores – ela se tornou muito pesada. Eles tinham que se mover para encontrar algo não-sério para harmonizar com ela.

Nirgun, não seja sério em relação a ela. Desfrute a sua fofoca, desfrute as pequenas coisas da vida, as pequenas alegrias da vida. Todas elas contribuem ao enriquecimento do seu ser. E lembre-se sempre: a não-seriedade é uma das mais fundamentais qualidades de uma pessoa realmente religiosa.

Um jovem sincero foi até um velho e entendido rabino em busca de um conselho. “O problema é meu apetite sexual. Quando dou as mãos para uma mulher ele surge – até mesmo quando passo por uma mulher bonita na rua ele surge. Isso me perturba porque amo muito minha esposa.”

“Não se preocupe, filho,” disse o rabino. “Não interessa onde você aguça o paladar, conquanto que você jante em casa.”

Este rabino é um homem sábio, não-sério, levando a vida alegremente. Os meus sannyasins devem levar a vida muito alegremente – então eles poderão ter ambos os mundos. Você pode ter o bolo e comê-lo também. E essa é a arte real. Este mundo e aquele, som e silêncio, amor e meditação, estar com as pessoas, relacionar-se e estar sozinho. Todas essas coisas devem ser vividas juntas em um tipo de simultaneidade; apenas assim você conhecerá a profundeza maior do seu ser e a altura maior do seu ser.

A terceira questão:

Questão 3

AMADO MESTRE,

O QUE VOCÊ DIZ SOBRE A FAMOSA DECLARAÇÃO DE FRIEDRICH NIETZSCHE QUE DEUS ESTÁ MORTO?

Neeraj, Friedrich Nietzsche diz que Deus está morto – isso significa que este estava vivo antes. Até onde eu sei, ele nunca esteve vivo. Como pode Deus estar morto se ele nunca esteve vivo? Deus não é uma pessoa, então ele não pode estar vivo e não pode estar morto. Para mim, Deus é a própria vida! Deus é sinônimo de existência; por isso você não pode dizer que Deus está vivo ou Deus está morto. Deus é a vida! E a vida é para sempre… é um contínuo, é eterna, sem começo, sem fim.

Nietzsche estava realmente dizendo que o Deus que as pessoas adoravam até aquele momento tornou-se irrelevante. Mas ele estava muito acostumado em fazer declarações dramáticas. Em vez de dizer: “O Deus que as pessoas têm adorado até agora não é mais relevante,” ele diz: “Deus está morto.” E, de uma forma, as declarações dramáticas penetram mais na consciência das pessoas. Se ele tivesse dito de uma maneira filosófica poderia ter errado o alvo, mas ela tornou-se a declaração mais importante feita nos últimos cem anos. Nenhuma outra declaração teve muita significância, ou teve algum impacto no pensamento humano, no comportamento, na vida.

O Deus Cristão está morto, o Deus Judeu está morto – é isso que Nietzsche estava dizendo. Mas existiram tantos deuses e todos foram ralo abaixo. Se você fizer uma lista de quantos deuses foram adorados você ficará surpreso. Um homem fez uma lista. Eu estava lendo a lista – nem mesmo um nome mencionado é conhecido. Ele menciona em torno de cinquenta nomes. Os deuses Egípcios não estão mais lá – nem mesmo no Egito ninguém sabe algo sobre eles. Houve um tempo em que até mesmo os seres humanos foram sacrificados para esses deuses, guerras foram travadas, cruzadas, assassinatos, estupros; vilas foram incendiadas em nome desses deuses. Agora até mesmo os nomes são desconhecidos. Li toda a lista; dos cinquenta nem mesmo um é conhecido. Houve muitos deuses inventados pelas pessoas, e quando essas pessoas cansaram-se desses deuses, elas inventaram novos brinquedos e jogaram fora os velhos.

Esses deuses seguem nascendo e morrendo, mas esses não são o verdadeiro Deus. ‘Verdadeiro Deus’ simplesmente significa vida – AES DHAMMO SANANTANO – a lei inexaurível da existência. Como ela pode morrer? Não é possível. As formas mudam…

Parece que Deus visitou o metrô de Nova Iorque recentemente. Alguém tinha rabiscado na parede: “Deus está morto – assinado Nietzsche,” e abaixo estava escrito: “Nietzsche está morto – assinado Deus.”

Isso parece ser muito mais verdadeiro. Mas uma mensagem ainda melhor para você:

Um metrô de Londres tinha essa animada mensagem: “Deus está morto, mas não se preocupe – Maria está grávida novamente!”

A última questão:

Questão 4

AMADO MESTRE,

VOCÊ PODE DIZER ALGO SOBRE A CULPA E O MEDO?

Latifa, o medo é natural, a culpa é uma criação dos sacerdotes. A culpa é criada pelos seres humanos. O medo é inerente e muito essencial. Sem medo você não seria capaz de sobreviver de maneira alguma. O medo é normal. É por causa do medo que você não coloca a sua mão no fogo. É por causa do medo que você dirigirá na direita ou na esquerda, qualquer que seja a lei do país. É por causa do medo que você vai evitar venenos. É por causa do medo que, quando um caminhoneiro soa sua buzina, você sai do caminho correndo.

Se a criança não tiver medo não há possibilidade de sobrevivência. O seu medo é uma medida protetora da vida. Mas por causa dessa tendência natural de proteger a si mesmo… e nada está errado nela – você tem o direito de proteger a si mesmo. Você tem uma vida preciosa para proteger e o medo simplesmente lhe ajuda. Medo é inteligência. Apenas idiotas não têm medo, imbecis; por isso você tem que proteger os idiotas, caso contrário eles se queimariam a si próprios, ou pulariam de um prédio, ou iriam até o mar sem saber como nadar, ou comeriam uma cobra… qualquer coisa que pudessem fazer!

O medo é inteligência – então, quando você vê uma cobra cruzando o caminho, você salta para longe. Não é covardice, é simplesmente inteligência. Mas há duas possibilidades…

O medo pode tornar-se anormal, patológico. Então você tem medo de coisas que não é necessário temer – embora você possa encontrar argumentos mesmo para o seu medo anormal. Por exemplo, alguém tem medo de entrar em uma casa. Logicamente você não pode provar que esta pessoa está errada. Ela diz, “Qual é a garantia que a casa não cairá?” Ora, as casas caem, então, essa casa também pode cair. As pessoas têm sido esmagadas pela queda de casas. Ninguém pode dar uma garantia absoluta que essa casa não cairá – um terremoto pode ocorrer… qualquer coisa é possível! Outro homem está com medo – ele não pode viajar porque os acidentes de trem ocorrem. Outrem está com medo – não consegue entrar em um carro, porque os carros se acidentam. E uma outra pessoa está com medo de avião…

Se você se tornar com medo dessa forma, isso não é inteligência. Então você deve temer a sua cama também, porque quase noventa e sete por cento das pessoas morrem em suas camas – então este é o local mais perigoso para se estar. Logicamente você deve permanecer o mais longe da cama possível, nunca chegar perto dela. Mas então você tornará a sua vida impossível.

O medo pode tornar-se anormal, então é patologia. E, por causa dessa possibilidade, os sacerdotes o têm utilizado, os políticos o têm utilizado. Todos os tipos de opressores utilizaram o medo. Eles o tornam patológico, e, então, torna-se muito fácil explorar você. O sacerdote faz com que você tenha medo do inferno. Apenas olhe para as escrituras – com que felicidade elas descrevem todas as torturas, com uma grande satisfação. As escrituras descrevem em detalhe, em grande detalhe, todas as torturas.

Adolf Hitler deve ter lido essas escrituras; ele deve ter encontrado grandes ideias dessas escrituras descrevendo o inferno. Ele próprio não tinha tal gênio criativo para inventar campos de concentração e todos os tipos de torturas. Ele deve tê-las encontrado nas escrituras religiosas – elas já existiam, os sacerdotes já faziam o trabalho. Ele apenas praticou o que os sacerdotes pregavam. Ele era um homem realmente religioso!

Os sacerdotes falaram apenas de um inferno que está esperando você depois da morte. Ele disse, “Por que esperar tanto? Vou criar um inferno aqui e agora. Você pode prová-lo.”

Ouvi dizer que uma vez um homem morreu, chegou no inferno e bateu na porta. O Diabo olhou para ele – ele parecia Alemão – ele o perguntou, “De onde você vem?”

O homem disse, “Da Alemanha.”

Ele disse, “Então não há necessidade de entrar aqui – você já o viveu! Agora você pode ir para o céu. E você descobrirá que aqui é muito maçante porque vocês têm uma versão muito mais aprimorada do inferno. Ainda estamos vivendo em uma era de carros-de-boi – torturas velhas. Vocês conhecem instrumentos muito mais sofisticados, formas, meios.”

As câmaras de gás ainda não são conhecidas no inferno. Em uma simples câmara de gás, dez mil pessoas, dentro de segundos, tornam-se fumaça. E você se surpreenderá em saber que embora nós estejamos vivendo no Século XX, o ser humano ainda é um animal. Milhares de pessoas costumavam ir assistir. Vidros eram colocados, fixados, apenas se via de um lado. Você podia ver o que ocorria dentro, mas os que estavam dentro não podiam ver quem estava olhando de fora.

Milhares de pessoas ficavam assistindo através do vidro: as pessoas desaparecendo como fumaça – simplesmente desaparecendo como fumaça – milhares de pessoas morrendo em segundos. E as pessoas que estavam desfrutando do lado de fora, você pode chamá-las de seres humanos? Mas lembre-se, não tinha nada a ver com a Alemanha, isso é assim no mundo inteiro. O ser humano é exatamente o mesmo em toda parte.

Os sacerdotes se conscientizaram muito cedo que o instinto do medo no ser humano pode ser explorado. Ele pode ter tanto medo que cairá aos pés dos sacerdotes e falará, “Nos salve! Apenas você pode nos salvar.” E o sacerdote aceitará salvá-lo se ele o seguir. E por medo as pessoas têm seguido os sacerdotes, e todos os tipos de estupidez, superstições.

O político, também, logo tornou-se consciente que as pessoas podem tornar-se muito temerosas. E se você as tornar temerosas, você pode dominá-las. É por causa do medo que uma nação existe. O medo da América mantém os Russos escravos dos comunistas, e o medo da Rússia mantém os Americanos escravos do governo. Um tem medo do outro… Os Indianos têm medo dos Paquistaneses, e os Paquistaneses têm medo dos Indianos. É um mundo estúpido! Temos medo uns dos outros, e por causa do nosso medo os políticos se tornam importantes. Eles dizem, “Nós vamos salvar vocês aqui, neste mundo,” e os sacerdotes diz, “Nós vamos salvar vocês no outro mundo.” E eles conspiram juntos.

É o medo que cria a culpa – mas não somente o medo. O medo cria a culpa via os sacerdotes e os políticos. Os sacerdotes e os políticos criam uma patologia em você, um tremor. E, naturalmente, o ser humano é tão delicado e tão frágil, ele fica com medo. Então você pode falar para ele fazer qualquer coisa e ele o fará – sabendo perfeitamente bem que isso é estúpido, sabendo perfeitamente bem, lá no fundo, que isso é tudo bobagem, mas, quem sabe…? Apartir do medo, o ser humano pode ser forçado a fazer qualquer coisa.

Uma jovem mulher que não parava de tossir e espirrar em um teatro pede um remédio para o doutor antes de ir para uma abertura. “Aqui, beba isso,” ele disse, oferecendo um copo. Ela bebe-o, entortando a boca, e pergunta o que é, imaginando ser algum tipo de remédio para tosse com gosto ruim.

“É uma dose dupla de água de Plutão,” ele responde. “Agora você não ousaria espirrar ou tossir.”

… Você não entendeu. Você nunca provou água de Plutão – tente, e você não vai ousar nem espirrar nem tossir. Faça um experimento: você pode pedir água de Plutão para Ajit Saraswati, somente então você entenderá a piada. É muito existencial. Porque você não a entendeu eu vou ter que contar outra:

Em uma manhã, uma grande ursa invadiu a cabine de Joe, destruiu tudo, comeu tudo, rasgou tudo e fugiu.

Joe a perseguiu, atirou nela, e, então, notando quanto ela parecia com uma mulher, satisfez a sua paixão com a sua carcaça. Nesse momento ele percebeu outro caçador escondido entre os galhos de uma árvore próxima. Dando-se conta que seu feito fora observado, Joe apontou a sua arma para o homem, pediu para ele descer e disse, “Você nunca fez amor com um urso?” E o caçador disse, “Não, mas estou pronto para tentar.”

O ser humano pode ser forçado a fazer qualquer coisa – apenas para se salvar. E, porque a patologia que os sacerdotes criaram em você é artificial, a sua natureza se rebela contra ela, e, às vezes, você faz algo que vai contra ela – você faz algo natural – então surge a culpa.

Latifa, a culpa significa que você tem uma ideia artificial em sua mente de como a vida deveria ser, o que deveria ser feito, e então um dia você seguirá a natureza e fará a coisa natural. Você vai contra a ideologia. Porque você vai contra a ideologia, a culpa surge, você se envergonha. Você se sente muito inferior, sem valor.

Mas, ao dar às pessoas ideias artificiais você não pode transformá-las. Por isso os sacerdotes têm sido capazes de explorar as pessoas, mas eles não têm sido capazes de transformá-las. Eles não estão interessados em transformar ninguém; toda a ideia deles é mantê-los sempre escravos. Eles criam uma consciência em você. A sua consciência não é realmente a sua consciência – ela é criada pelos sacerdotes. Eles dizem, “Isso é errado.” Você pode saber do núcleo mais profundo do seu ser que nada parece errado, mas eles dizem que é errado. E eles seguem hipnotizando você desde a sua infância. A hipnose vai fundo, infiltra-se fundo, penetra-se, torna-se quase parte do seu ser. Ela te refreia.

Eles falaram para você que o sexo é errado – mas o sexo é um fenômeno tão natural que você é atraído por ele. E nada está errado em ser atraído por uma mulher ou um homem. É apenas parte da natureza. Mas a sua consciência diz, “Isso está errado.” Então você se segura. Metade de você vai até a mulher, metade puxa você de volta. Você não pode tomar nenhuma decisão; você está sempre dividido, separado. Se você decidir ir com a mulher, a sua consciência irá torturá-lo: “Você cometeu um pecado.” Se você não for com a mulher, a sua natureza irá torturá-lo: “Você está me matando de fome.”

Agora você está comprometido com ambas as partes. Qualquer coisa que você fizer, você sofrerá. E é isso o que o sacerdote sempre quis – que você sofresse, porque quanto mais você sofre, mais você irá até ele em busca de seu conselho. Quanto mais você sofre, mais você busca salvação.

Bertrand Russell está absolutamente certo que se a um homem fosse dada uma liberdade total, natural – a liberdade dessas supostas consciência e moralidade – e se o homem fosse ajudado a tornar-se um ser integral, natural – inteligente, compreensível, vivendo a sua vida de acordo com a sua própria luz, não de acordo com o conselho de outrem – as assim chamadas religiões desapareceriam do mundo.

Eu concordo perfeitamente com ele. As assim chamadas religiões certamente despareceriam do mundo se as pessoas não estivessem sofrendo; elas não buscariam a salvação. Mas Bertrand Russell segue dizendo que a própria religião desaparecerá da Terra. Aqui eu não concordo com ele. As assim chamadas religiões vão desaparecer, e, porque as assim chamadas religiões vão desaparecer haverá, pela primeira vez no mundo, uma oportunidade para a religião existir. Os Cristãos não existirão, os Hindus não existirão, os Islâmicos não existirão – somente assim um novo tipo de religiosidade irá espalhar-se sobre a Terra. As pessoas vão viver de acordo com suas próprias consciências. Não haverá culpa, não haverá arrependimento, porque essas coisas nunca mudam as pessoas. As pessoas permanecem as mesmas; elas seguem mudando somente as suas vestes externas, a forma destas. Substancialmente, nada muda através da culpa, através do medo, através do céu, através do inferno. Todas essas ideias falharam totalmente.

Agora é o momento de reconhecer que todas as religiões antigas falharam. Sim, elas criaram algumas pessoas belas – um Buda aqui e um Jesus ali – mas entre milhões e milhões de pessoas, apenas raramente alguém floresceu. É uma exceção, não pode ser contada. Não deve ser levada em conta. Os Budas podem ser contados nos dedos.

Se um jardineiro planta dez mil árvores e apenas uma árvore floresce na primavera, você o chamará de jardineiro? E as outras nove mil novecentas e noventa e nove árvores? Se uma árvore floriu, ela deve ter florido independentemente do jardineiro. O crédito não pode ir para ele – ele deve ter errado de alguma forma.

Nós vivemos em um tipo muito errado de mundo; nós criamos um tipo errado de situação. As pessoas seguem mudando apenas superficialmente – o Hindu se torna um Cristão, um Cristão se torna um Hindu e nada muda. Tudo permanece o mesmo.

A prostituta reformada está dando testemunho no Exército da Salvação na esquina, em uma noite de sábado, pontuando o seu discurso batendo em um grande bumbo de latão.

“Eu era uma pecadora!” ela gritou (bum!) “Eu era uma mulher má (bum!) Eu bebia! (bum!) Jogava! (bum!) Me prostituia! (bum! bum!) Costumava sair aos sábados à noite e conjurar o inferno! (bum! bum! bum!) Agora o que eu faço aos sábados à noite? Eu fico nessa esquina, batendo nesse bumbo filho da mãe!”

Por hoje é só.

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