Dhammapada: O Caminho do Buda, Vol 1. Cap 9 e 10, OSHO

O Dhammapada: O Caminho do Buda, Vol 1

Capítulo #9

Título do Capítulo: Assentado na caverna do coração

29 de Junho de 1979 na Sala Buda

 

COMO O FLECHEIRO ENTALHA

E ENDIREITA ÀS SUAS FLECHAS,

IGUALMENTE O MESTRE DIRECIONA

OS SEUS PENSAMENTOS ERRANTES.

 

COMO UM PEIXE FORA DA ÁGUA,

ENCALHADO NA PRAIA,

OS PENSAMENTOS AÇOITAM E TREMULAM.

POIS COMO PODEM SE LIVRAR DO DESEJO?

 

ELES TREMEM, SÃO INSTÁVEIS,

PERAMBULAM À VONTADE.

É BOM CONTROLÁ-LOS.

E AO MESTRE ELES TRAZEM FELICIDADE.

 

MAS QUÃO SUTIS ELES SÃO,

QUÃO ELUSIVOS!

A TAREFA É AQUIETÁ-LOS,

E AO CONTROLÁ-LOS ENCONTRAR FELICIDADE.

 

COM DETERMINAÇÃO

O MESTRE AMAINA SEUS PENSAMENTOS.

ELE TERMINA A SUA PERAMBULAÇÃO.

ASSENTADO NA CAVERNA DO CORAÇÃO,

ELE ENCONTRA A LIBERDADE.

 

A liberdade é a meta da vida. Sem liberdade, a vida não tem nenhum significado. Por “liberdade” não quero dizer de nenhuma liberdade política, social ou econômica. Por “liberdade” quero dizer liberdade do tempo, liberdade da mente, liberdade do desejo. No momento em que a mente não existe mais, você é uno com o universo, você é tão vasto como o próprio universo.

A mente é a barreira entre você e a realidade e, por causa dessa barreira, você permanece confinado na cela escura onde nenhuma luz nunca alcança e onde nenhuma alegria pode algum dia penetrar. Você vive na miséria porque não está destinado a viver em um espaço tão confinado, pequeno. O seu ser quer expandir-se até a própria fonte última da existência.

O seu ser deseja ser oceânico, e você tornou-se uma gota de orvalho. Como você pode ser feliz? Como pode ser bem-aventurado? O ser humano vive na miséria porque vive aprisionado.

E Gautama o Buda diz que tanha – desejo – é a causa raiz de toda a nossa miséria, porque o desejo cria a mente. Desejo significa criar o futuro, projetar a si mesmo no futuro, trazer o amanhã para o agora. Traga o amanhã e o hoje desaparece, você não pode vê-lo mais; os seus olhos ficam enublados com o amanhã. Traga o amanhã para o agora e você terá que carregar o peso de todos os seus ontens, porque o amanhã só pode existir se os ontens seguirem alimentando-o.

Cada desejo nasce do passado e cada desejo é projetado no futuro. O passado e o futuro, eles constituem toda a sua mente. Analise à mente, disseque-a, e você encontrará apenas duas coisas: o passado e o futuro. Você não encontrará nem mesmo uma partícula do presente, nem mesmo um único átomo. E o presente é a única realidade, a única existência, a única dança que existe.

O presente pode ser encontrado apenas quando a mente cessou totalmente. Quando o passado não te subjuga mais e o futuro não te possui mais, quando você está desconectado das memórias e das imaginações, neste momento onde você está? quem é você? Neste momento você é apenas um ninguém. E ninguém pode te machucar quando você é um ninguém, você não pode ser ferido – porque o ego está muito preparado para receber ferimentos. O ego está quase que buscando ser ferido; ele existe através dos ferimentos. Toda a sua existência depende da miséria, da dor.

Quando você é um ninguém, a angústia é impossível, a ansiedade simplesmente é inimaginável. Quando você é um ninguém há um grande silêncio, quietude, nenhum barulho dentro. O passado se foi, o futuro desapareceu, o que está lá para criar barulho? E o silêncio que se ouve é celestial, é sagrado. Pela primeira vez, nesses espaços da não-mente, você tomou ciência da celebração eterna que ocorre ininterruptamente. É disso que a existência é feita.

Exceto o ser humano, toda a existência é bem-aventurada. Apenas o ser humano caiu para fora dela, perdeu-se. Apenas o ser humano poderia fazê-lo, pois é o único que tem consciência.

Ora, a consciência tem duas possibilidades: ou pode tornar-se uma luz brilhante em você, tão brilhante que mesmo o sol parecerá pálido comparado a ela… Buda diz que é como se mil sóis acendessem de repente – quando você olha para dentro sem mente tudo é luz, luz eterna. Tudo é alegria, pura, descontaminada, despoluída. É pura bem-aventurança, inocente. É um maravilhamento. A sua majestade é indescritível, sua beleza inexpressível, e sua bênção inexaurível. Aes dhammo sanantano: assim é a lei última.

Se você puder pôr a sua mente de lado você se tornará consciente do jogo cósmico. Então você será somente energia, e a energia é sempre aqui-agora, nunca deixa o aqui-agora. Essa é uma possibilidade: se você se tornar uma pura consciência.

A outra possibilidade é: você pode transformar-se em uma consciência de si. Então você cairá. Então você se torna uma entidade separada do mundo. Então você se torna uma ilha, definida, bem definida. Então você está confinado, porque todas as definições confinam-se. Então você está em uma cela de prisão e esta é escura, totalmente escura. Não há luz, nenhuma possibilidade de luz. E a cela de prisão te aleija, paralisa.

A consciência de si torna-se uma servidão; o si é a servidão. E apenas a consciência torna-se liberdade.

Abandone o si e torne-se consciente! Esta é toda a mensagem – a mensagem de todos os budas de todas as eras, passadas, presente e futuras. O núcleo essencial da mensagem é muito simples: abandone o eu, o ego, a mente, e seja.

No momento em que o silêncio penetra… quem é você? Um ninguém, uma não-entidade. Você não tem um nome, não tem uma forma. Você não é nem um homem nem uma mulher, nem Hindu nem Islâmico. Você não pertence a nenhum país, nenhuma nação, nenhuma raça. Você não é o corpo e não é a mente.    

Então o que você é? Nesse silêncio, qual é o seu gosto? Como poderia ser este gosto? Apenas uma paz, apenas um silêncio… e daquela paz e silêncio uma grande alegria começa a vir à tona, brotar, sem nenhuma razão. É a sua natureza espontânea.

A arte de colocar a mente de lado é todo o segredo da religião, porque quando você coloca a mente de lado o seu ser explode em mil e uma cores. Você se torna um arco-íris, um lótus, um lótus de mil pétalas. De repente você se abre, e então toda a beleza da existência – que é infinita! – é sua. Então todas as estrelas no céu estão dentro de você. Então até mesmo o céu não é seu limite; você não tem mais limites.

O silêncio lhe dá uma chance de fundir-se, unir-se, desaparecer, evaporar. E quando você não é, você é – pela primeira vez você é. Quando você não é, Deus é, o nirvana é, a iluminação é. Quando você não é, tudo é encontrado – e quando você é, tudo é perdido.

O ser humano tornou-se uma consciência de si; é isso o que lhe faz perder, esta é a queda original. Todas as religiões falam sobre a queda original de uma maneira ou outra, mas a melhor história está contida no Cristianismo. A queda original ocorre porque o ser humano come da árvore do conhecimento. Quando você come da árvore do conhecimento, os frutos do conhecimento, isso cria a consciência de si.

Quanto mais bem informado você é, mais egoísta você é – por isso o ego dos eruditos, pânditas, maulvis. O ego torna-se decorado com grande conhecimento, escrituras, sistemas de pensamento. Mas esses não o tornam inocente; eles não lhe trazem à qualidade infantil da abertura, da confiança, do amor, da graça. Confiança, amor, graça, maravilha, tudo desaparece quando você se torna muito bem informado.

E somos ensinados a nos tornarmos bem informados. Não somos ensinados a sermos inocentes, não somos ensinados a sentir as maravilhas da existência. Ensinam-nos os nomes das flores, mas não nos ensinam à dançar em torno das flores. Dizem-nos os nomes das montanhas, mas não nos ensinam como comungar com as montanhas, como comungar com as estrelas, como comungar com as árvores, como estarmos afinados com a existência.

Fora do tom, como você pode ser feliz? Fora do tom você necessariamente permanecerá na angústia, em grande miséria, na dor. Você pode ser feliz apenas quando você está dançando com a dança do todo, quando você é apenas uma parte da dança, quando você é apenas uma parte dessa grande orquestra, quando você não está cantando a sua música separadamente. Somente então, nesta fusão, o ser humano é livre.

Isso é liberdade. Não é política, não é econômica, não é social. A liberdade é espiritual. A liberdade social, a econômica e a política são liberdades apenas se ajudam às pessoas a serem livres espiritualmente. Se não ajudam às pessoas a tornarem-se livres, então são simuladas. Então, em nome da liberdade, o ser humano se torna cada vez mais escravo.

Belos nomes tornam-se fachadas escondendo realidades feias. Se você não é espiritualmente livre você não é livre de maneira alguma. Então todas as suas liberdades são enganosas, falsas, pseudo. Então você foi ludibriado. Então deram-lhe brinquedos para que você brinque.

Buda está falando sobre a realidade – a liberdade real. Ele a chama nirvana. A palavra ‘nirvana’ é muito bela; ela quer dizer cessão da consciência de si, total cessação do eu, o estado sem ego puro. Ela traz grandes êxtases, grandes colheitas; ela traz tesouros inexauríveis.

Por isso Buda segue repetindo… duas expressões ele repete no O DHAMMAPADA. Uma é: aes dhammo sanantano. Esta é a lei última da vida: que você desaparece e você se encontra. Muito paradoxal – que apenas ao desaparecer alguém encontra. Ao abandonar o si o ser humano transforma-se no si último. Ao desaparecer como uma gota de orvalho alguém se torna o oceano.

E a outra expressão que repete várias vezes é: aes dhammo visuddhya – assim é a lei da pureza, do tornar-se inocente, puro. O que é a lei da pureza? Uma lei simples: torne-se não identificado com a mente, não pense em si mesmo como uma mente. Não que Buda seja contra a mente, nem que ele não quer que você a utilize – ele quer que você a utilize, mas não que você seja utilizado por ela. E usualmente o segundo é o caso: a mente está utilizando você. Você tornou-se um escravo. O mestre tornou-se o escravo e o escravo tornou-se o mestre. Tudo está de pernas para o ar.

Você está pousado sobre sua cabeça! Agora como você pode andar, como pode se mover, dançar? Você já viu alguém dançando pousado sobre a cabeça? A sua vida não será mais uma vida de movimento se você está pousado sobre a sua cabeça. A sua vida estará estagnada, tornar-se-á uma piscina de água suja. Você começará a afundar logo. Pousado sobre a cabeça você está aleijado, paralisado.

Se você apenas voltar a andar com suas pernas novamente – uma pequena mudança, uma mudança muito pequena, mas que traz uma revolução radical – imediatamente você é capaz de movimentar-se, e movimento é vida. Não se mover é morte.

Como você define a morte? Quando uma pessoa não pode mover-se de maneira alguma. Ela não pode respirar – este é um tipo de movimento; não pode ver – outro tipo de movimento; não pode andar, não pode falar – esses são todos tipos de movimento, dimensões diferentes de movimento. Porque todo o movimento cessou-se dizemos que uma pessoa está morta.

Quanto mais movimento você tiver, mais vida, mais vivacidade você tem. Tenha um movimento multidimensional! Mas isso é possível apenas se você parar de fazer pouso de cabeça. Você tem que ser colocado corretamente.

No dia em que você chegou até mim, você chegou de pernas para o ar. A iniciação em sannyas não significa nada além de eu persuadir você a ficar sobre os seus pés e não seguir fazendo sirshasana – o pouso de cabeça – por toda a sua vida.

Seja natural, seja parte da natureza. Não se vanglorie. Não siga inchando os seus egos. Somos partes muito diminutas – imensamente belas se funcionamos com o todo, mas absolutamente feias se funcionamos contra ele.

Mas as suas sociedades lhe disseram para lutar, para esforçar-se, porque a vida é uma luta pela sobrevivência, porque se você não lutar você será vencido. E você tem que ser vitorioso, tem que ser famoso. Deram-lhe grandes ambições e todas essas ambições tornam-se correntes, elas o mantém acorrentado. Todas essas ambições tornam-se a causa raiz da sua mente; elas criam à mente.

A palavra ‘tanha’ de Buda contém todos os significados de desejo, cobiça, realização. Esses são todos os alimentos da mente. Se você continuar alimentando à mente você estará se envenenando. E a mente tornar-se-á cada vez maior e você tornar-se-á cada vez menor. A mente torna-se quase um crescimento cancerígeno.

Sannyas significa uma operação. Buda transformou milhares de pessoas através de sannyas, através da iniciação. Ele foi um grande cirurgião.

E uma vez que você adquire ciência que você é a causa da sua própria miséria as coisas começam a mudar. Você não ajuda mais a sua própria miséria, você não a alimenta mais. E uma vez que você se tornou consciente de que você não é a sua mente, mas uma testemunha dela, você começa a elevar-se acima da mente, você não está mais agrilhoado. Você começa a desenvolver asas, começa a pairar cada vez mais alto. A mente permanece sempre tateando nos vales sombrios da vida, mas você pode tornar-se uma águia, você pode pairar alto. Você pode ser o mestre e então você pode usar a mente – e ela pode ser usada muito propositadamente.

Esses sutras mostram como tornar-se mestre da sua mente. Eles contêm a ciência do tornar-se mestre.

O Buda diz:

 

COMO O FLECHEIRO ENTALHA

E ENDIREITA ÀS SUAS FLECHAS,

IGUALMENTE O MESTRE DIRECIONA

OS SEUS PENSAMENTOS ERRANTES.

 

Agora medite: os seus pensamentos estão te dirigindo, ou você dirige os seus pensamentos? – porque muito depende dessa compreensão. Você está sendo dominado pelos seus pensamentos? Eles seguem te empurrando para lá e para cá? Eles sugerem, fascinam, atormentam? Eles puxam às suas cordas e você é simplesmente um escravo? Ou você é o mestre e pode dizer aos seus pensamentos “Parem!” e eles têm que parar – você pode ligá-los ou desligá-los?

As pessoas nunca meditam sobre isso porque elas se sentem humilhadas. Isso mostra a sua própria impotência: elas não podem nem parar os pensamentos, os seus próprios pensamentos.

 

Há uma famosa parábola Tibetana:

Um homem serviu um mestre por muitos anos. O serviço não era puro; havia uma motivação nele. Ele queria algum segredo do mestre. Ele ouviu que o mestre tinha o segredo – o segredo para fazer milagres. Com esse desejo oculto ele serviu o mestre dia após dia, mas tinha medo de dizer alguma coisa. Mas o mestre estava continuamente observando a sua motivação.

Um dia o mestre perguntou, “É melhor você dizer, por favor, o que pensa, porque estou continuamente observando um motivo em todos os serviços que você faz para mim. Não é por amor, certamente não é por amor. Não vejo nenhum amor e não vejo humildade neles. É um tipo de suborno. Então, por favor, apenas me diga, o que você quer?”

O homem estava esperando por essa oportunidade. Ele disse, “Eu quero o segredo de fazer milagres.”

O mestre disse, “Então por que você gastou tanto tempo? Você poderia ter dito no primeiro dia que chegou. Você se torturou e me torturou também, porque não gosto que as pessoas ao meu redor tenham motivos. Eles são feios. Eles são basicamente cobiça, esta os torna feios. O segredo é simples – por que você não me perguntou no primeiro dia? Este é o segredo…”

Ele escreveu um mantra em um pedaço de papel, possivelmente apenas três linhas: “Buddham sharanam gachchhami, sangham sharanam gachchhami, dhammam sharanam gachchhami – Vou aos pés do Buda, vou aos pés da sanga de Buda, vou aos pés do darma, a lei última.”

E o mestre disse ao homem, “Você leva esse pequeno mantra consigo, repita-o cinco vezes, apenas cinco vezes. É um processo simples. Apenas lembre-se de uma condição: enquanto você o repete, tome um banho, feche a porta, sente-se em silêncio – e enquanto você o repete, por favor não se lembre de macacos.”

O homem disse, “Que bobagem é essa que você está falando? Por que eu me lembraria de macacos em primeiro lugar? Eu nunca me lembrei deles em toda a minha vida!”

O mestre disse, “Isso é com você, mas eu tenho que dizer a condição. Foi assim que o mantra me foi dado, com essa condição. Se você nunca se lembrou de macaco, ótimo. Agora vá para casa e, por favor, nunca mais volte a ter comigo. Você tem o segredo, você conhece a condição. Satisfaça a condição e você terá poderes milagrosos e qualquer coisa que quiser você poderá fazer: voar no céu, ler o pensamento das pessoas, materializar as coisas e assim por diante.”

O homem foi correndo para casa; ele até se esqueceu de agradecer o mestre. É assim que a cobiça funciona: ela não conhece o agradecimento, não conhece a gratidão. A cobiça é totalmente ignorante em relação à gratidão; a cobiça nunca cruzou com a gratidão. A cobiça é um ladrão e o ladrão não agradece.

O homem apressou-se, mas ele estava muito intrigado: até mesmo no caminho até a sua casa macacos começaram a aparecer em sua cabeça. Ele viu muitos tipos de macacos: pequenos e grandes, com bocas vermelhas e pretas, e ele estava muito intrigado – “O que está acontecendo?” De fato ele não pensava em mais nada, exceto em macacos. E ficavam cada vez maiores e povoavam tudo em volta.

Ele foi para a casa, tomou um banho, mas os macacos não o deixavam. Agora suspeitava que não o deixariam enquanto não cantasse o mantra. Ele não havia nem cantado o mantra ainda, ele estava apenas se preparando. E quando fechou as portas, o quarto estava cheio de macacos. O quarto estava tão cheio que não havia espaço para ele próprio! Ele fechou os olhos e havia macacos, abriu os olhos e havia macacos. Ele não podia acreditar no que estava ocorrendo! Por toda a noite ele tentou. Repetidas vezes tomava um banho e repetidas vezes tentava e falhava, falhava completamente.

Na manhã seguinte foi ver o mestre, devolveu o mantra e disse, “Fique com esse mantra para você. Isso está me deixando louco! Não quero fazer milagre algum, mas por favor, ajude-me a livrar-me desses macacos!”

É tão impossível abandonar um único pensamento! E se você quiser abandoná-lo, torna-se ainda mais difícil, porque quando você quer abandonar um pensamento há uma questão – um momento muito decisivo – de quem é o mestre: a mente ou você? A mente tentará de todas as formas provar que é a mestra e não você.

O mestre tem sido escravo por séculos e o escravo tem sido o mestre por milhões de vidas. Agora o escravo não pode abandonar todos os seus privilégios, prioridades, tão facilmente. Ele lhe fará grande resistência.

Tente! Tome um banho hoje, feche as suas portas, repita esse simples mantra: Buddham sharanam gachchhami, sangham sharanam gachchhami, dhammam sharanam gachchhami – e não deixe que os macacos cheguem até você…

Você ri do pobre homem. Você ficará surpreso: você é aquele homem.

 

Sigmund Freud costumava contar outra história:

Aconteceu uma vez em um grande hotel que um homem chegou para ficar. O gerente estava um pouco hesitante em lhe dar um quarto apesar de existir um quarto vazio. O homem disse, “Por que você está hesitando tanto?”

O gerente disse, “A razão é que, logo abaixo daquele quarto há um político, um homem muito famoso e muito poderoso, um figurão. E ele é perturbado por pequenas coisas, então mantivemos o quarto acima do dele vazio por três dias depois que ele chegou aqui – porque se alguém anda algum barulho é criado, se você se move algum barulho é criado, e ele se torna tão irritado e tão furioso que cria um grande rebuliço.”

O estranho disse, “Não se preocupe! Eu serei muito cuidadoso. Ademais, ficarei apenas esta noite. Chegarei por volta da meia-noite porque tenho que fazer muito trabalho na cidade, e sairei bem cedo de manhã, às 5 da manhã. Não há muita possibilidade de que entre à meia-noite e às cinco eu faça algo que irá irritar o grande homem. No máximo estarei dormindo e sonhando, e não acho que meus sonhos o perturbarão.”

O gerente foi convencido: “Se ele ficar apenas algumas horas não há problema.” O homem deu a entrada no hotel.

À meia-noite o homem chegou em seu quarto exausto: o dia todo de trabalho, mil e uma coisas clamando em sua cabeça. Ele esqueceu completamente do político. Ele entrou em seu quarto. Ele estava muito cansado. Ele sentou-se na sua cama, tirou um dos seus sapatos e o jogou no canto do quarto. Então, de repente, o barulho do sapato o fez relembrar que talvez o político, o grande líder, ficaria perturbado, talvez acordasse. Então colocou o outro sapato no chão muito silenciosamente.

Depois de uma hora o político bateu em sua porta. Ele acordou, abriu a porta e disse, “Eu fiz algo? – porque estou dormindo há uma hora.”

O político estava vermelho de raiva. Ele disse: “Sim! Onde está o outro sapato? Não consigo dormir. Esse outro sapato continua pairando, uma contínua questão na minha mente – onde foi o outro sapato? Esse homem está dormindo usando um sapato? Um eu sabia que você tinha jogado, mas o que aconteceu com o outro? Tentei de todas as maneiras me livrar da ideia – que isso não me dizia respeito. Como posso preocupar-me com o seu sapato? Mas quanto mais tentava abandonar a ideia mais tornei-me possuído por ela. Agora só há um caminho possível para que eu possa dormir: vir aqui, acordá-lo e perguntá-lo o que aconteceu. A menos que eu saiba não poderei dormir.”

 

É muito difícil abandonar até mesmo um pensamento absurdo, totalmente insignificante para você, sem propósito, algo acidental, algo que não é da sua conta. Mas ainda assim ele pode te perseguir, assombrar, torturar. Ele pode tornar-se uma coisa tão poderosa que pode te deixar louco.

As pessoas não olham para dentro. Elas sabem que é melhor não olhar porque é muito humilhante. Ver a si mesmo como um escravo é muito humilhante. E a mente está no trono por tanto tempo, ela se acostumou a ser a mestra. E ela não é a mestra.

 

Você nasceu como uma consciência, não como uma mente. O seu núcleo mais interno é a consciência, não a mente. A mente não é nada além de pensamentos acumulados, lixos do passado. Você é totalmente diferente dela.

Observando-a, vagarosamente você verá a distância. Um pensamento nasce em você, observe-o. Observe-o sem quaisquer julgamentos. Não seja a favor ou contra, apenas olhe-o, veja-o, assim como um espelho refletindo-o. E uma coisa ficará certa: que o pensamento é separado de você. Ele vem e vai e você continua para sempre. A reflexão no espelho não é o espelho. Muitas reflexões vêm e vão, o espelho permanece. O espelho é apenas uma capacidade de espelhar. Um pensamento está lá – raiva, cobiça, inveja – algum pensamento, algum tipo de pensamento está lá. Ele não é você!

Mas todo o nosso treinamento, todo o nosso condicionamento, está basicamente errado. As nossas linguagens estão basicamente erradas porque nos dão noções erradas. Quando você vê o pensamento da fome surgir na sua mente você imediatamente diz, “Estou com fome,” o que é um disparate. Você nunca esteve com fome e não pode estar com fome, porque a consciência não tem nada a ver com a fome, o alimento, a saciedade. O que acontece de fato é: o corpo está com fome – você está ciente disso. Você está simplesmente refletindo a situação do corpo.

Para ser exatamente preciso você deve dizer, “Estou ciente que meu corpo está com fome, estou vendo que meu corpo precisa de alimento.”

Mas toda linguagem diz, “Estou com fome, estou com sede.” Eu sei que é mais simples dizer, “Estou com sede,” do que repetir, “Estou ciente que meu corpo está com sede.”

 

Um dos grandes místicos Indianos visitou a América – o seu nome era Swami Ram. Ele costumava falar de si mesmo na terceira pessoa, ele nunca usava a palavra ‘eu’. Ele se chamava apenas de Ram. Ele diria, “Ram está com fome. Ram está com sede. Agora Ram está se sentindo sonolento.” É muito estranho porque não estamos acostumados a isso.

Quando foi para a América pela primeira vez, as pessoas não podiam entendê-lo ou entendiam-no apenas erradamente, entendiam-no mal. Ele disse, “Ram está com fome.” Todos olharam em volta – onde está Ram? E então mostrava a todos: “Este corpo é Ram, este corpo está com fome.”

E disseram, “Então por que você não diz ‘Estou com fome’? Por que você faz tantos desvios, por que seguir em círculos? ‘Ram está com fome.’ Então temos que perguntar, ‘Quem é Ram?’ Então você tem que dizer, ‘Este corpo é Ram.’

Mas Ram disse, “Não posso asseverar algo que não é verdade. Não posso dizer ‘Estou com fome’ porque não estou.”

Uma vez ocorreu dele estar sentado em um parque, um parque público, e algumas pessoas ao seu redor faziam perguntas. Um homem perguntou, “Ouvimos falar sobre Krishna, que quando tocava a sua flauta as pessoas esqueciam as suas tarefas e apenas corriam atrás dele encantadas, como se possuídas. Qual era o seu segredo?”

Ram usava apenas uma peça de roupa, ele tinha enrolado um cobertor em volta de si. Ele jogou fora o cobertor – em vez de responder ele criou uma situação. É assim que os grandes místicos trabalham. Ele jogou fora o cobertor, ele estava completamente nu, e começou a correr. Todas as pessoas correram com ele! Não apenas aquelas pessoas que estavam ao seu redor, mas também as outras que estavam por perto ou que saíram para uma caminhada matinal, e as pessoas que estavam sentadas nos bancos lendo os seus jornais, elas jogaram seus jornais. Uma grande multidão o seguia, e ele gargalhava e dava risadinhas, e toda a multidão o seguia. E então ele parou sob uma árvore e disse, “Por que vocês estão me seguindo? Para que? Eu ainda nem toquei flauta! E você me perguntou porque as pessoas tornavam-se possuídas pela flauta de Krishna.”

Sempre que algo do além ocorre, as pessoas tornam-se encantadas. “Vocês estão encantadas,” ele disse. “E Ram não fez nada de especial. Ram só ficou nu e estava correndo como uma criança no sol da manhã.”

Alguém que não sabia da sua forma de falar perguntou, “Quem é esse Ram?” E novamente ele disse, “Este corpo é Ram, esta mente é Ram, e eu sou um observador assim como você é um observador. Assim como você observou esse corpo correndo nu ao sol da manhã, eu também estava observando. Você está observando de fora, eu estou observando de dentro. Somos ambos observadores.”

Esta é a forma de tornar-se desassociado da mente: ser um observador.

Buda diz: COMO O FLECHEIRO ENTALHA E ENDIREITA ÀS SUAS FLECHAS, IGUALMENTE O MESTRE DIRECIONA OS SEUS PENSAMENTOS ERRANTES. Somente então será possível: quando você se tornar um observador, quando você reduzir os seus pensamentos aos objetos observados, o conteúdo da mente não é mais poderoso. Você escapou do seu poder, você está à parte. Você é um espectador, uma testemunha. Quando você se tornou uma testemunha, você será capaz de dirigir os seus pensamentos. Então os pensamentos podem ser utilizados, então os pensamentos são belos.

A mente é o mecanismo mais sofisticado de toda a existência e a mente humana é ainda mais que qualquer outra. É a máquina mais evoluída, ela pode ser utilizada para grandes coisas. Mas você tem que ser o mestre, somente então você pode utilizá-la.

Mas a situação é tal que o carro está dirigindo o motorista.

O motorista tornou-se totalmente ignorante em relação a si próprio; talvez esteja embriagado. Ele simplesmente move-se para qualquer lugar que o carro o levar. Ora, ele cairá em uma vala, sofrerá um acidente! E se há muitos acidentes em sua vida, eles não são acidentes de maneira alguma – isso deve ser assim.

Você está seguindo uma máquina. É um biocomputador, a sua mente; bela se você pode usá-la como um mestre, perigosa se ela te usar. Isto é escravidão. Ser livre desta é conhecer algo da liberdade.

E o primeiro esforço deve ser como o flecheiro que endireita às suas flechas.

As suas mentes não estão em um estado de harmonia; as suas mentes estão confusas, nada está direito ali. Tudo se tornou um labirinto muito complicado, um enigma. Você não sabe o que é ‘a’ e o que é ‘b’. Você não sabe o que está fazendo e o porquê. E em um momento um pensamento te possui, em outro momento outro pensamento te possui, e ambos podem ser contraditórios. Então, com uma mão você faz algo e com a outra você o desfaz. Daí a falha total da vida, um desperdício total de energia, tempo e oportunidade.

Veja quão contraditórios os seus pensamentos são. Uma parte diz sim, outra parte imediatamente diz não, nunca perde a oportunidade de dizer não. Ora, dizer sim e não ao mesmo tempo é gastar a sua energia. Ou você diz sim e é total, então o seu pensamento é direto; ou diz não e é total, então o seu pensamento é direto. Mas dizer sim e não juntos, ou alternadamente – em um momento sim, em outro momento não – onde você alcançará? Você toma um passo em uma direção, outro passo em outra. Você permanecerá preso no mesmo lugar, ou, no máximo, você mover-se-á em círculos, mas a sua vida não será uma vida de crescimento, você não crescerá. Você pode certamente ficar mais velho, mas nunca crescerá, nunca alcançará à maturidade.

Endireite os seus pensamentos! A sua mente é quase uma floresta completa – todos os caminhos estão perdidos. Você não sabe o que ocorre. Você também não pode parar, porque parar te deixa assustado. Todo mundo está fazendo tanto, todo mundo está realizando, alcançando, satisfazendo às suas ambições, como você poderia parar? Você tem que continuar, e você tem que ir com grande velocidade, grande garra e entusiasmo. E você não sabe para onde está indo, qual é o objetivo. O que você realmente quer alcançar na vida? Dinheiro? E mesmo se você alcançar muito dinheiro, o que fará com ele?

Você pode comprar mais miséria, é claro, quando você tem mais dinheiro; é isso que você fará. Você seguirá comprando as mesmas coisas que você está comprando agora. É claro, você poderá comprá-las em maiores quantidades, isso é tudo. Você viverá em casas maiores, mas você viverá; a casa não vai viver. Se você está ansioso em uma casa pequena, você poderá ficar mais ansioso em uma casa grande, porque você terá mais espaço para estar ansioso. Se você é ignorante, totalmente ignorante sobre si próprio, como o dinheiro ajudará? Como ser famoso ajudará? Você pode tornar-se uma pessoa mundialmente renomada, mas isso não mudará nada. A sua escuridão interior permanecerá a mesma; ela poderá até mesmo ficar mais escura.

A primeira coisa que Buda diz é: … O MESTRE DIRECIONA OS SEUS PENSAMENTOS ERRANTES. Ele não permite que os pensamentos sigam em trajetórias contraditórias. Ele não permite que um pensamento seja destruído por outro. O mestre não permite que os pensamentos o dirijam – ele é o diretor. Ele os conquista; ele os utiliza como belos implementos, instrumentos. E então, certamente, ele alcança à realização, porque sabe onde está indo e sabe o que está fazendo.

Em cada passo da sua jornada ele está perfeitamente consciente do seu paradeiro; ele tem um certo senso de direção. Ele não segue correndo em todas as direções simultaneamente; ele tem uma direção. Naturalmente torna-se integrado, torna-se um grande poder. Sem alcançar qualquer poder político ele tornou-se um grande poder. O seu poder vem do seu próprio ser, por si só. Ninguém pode tomá-lo; ele não depende de ninguém. Mesmo a morte não pode retirá-lo, mesmo a morte é impotente.

Mas as pessoas estão vivendo em tal estado insano. Este estado é insano! As pessoas se ofendem quando digo que toda a humanidade está insana, mas o que posso fazer? – é assim. O fato tem que ser declarado, seja quão doloroso for. Também estou aflito, sinto muito pela humanidade, mas isso tem que ser dito: que toda a humanidade está louca. O que vocês chamam de seres humanos normais não são de maneira alguma normais. Eles são normalmente loucos, certamente; a loucura deles é quase a mesma, por isso eles são normais. Mas eles não são a norma, não são o princípio, não são o critério da saúde. Toda a Terra é um grande hospício.

 

Kahlil Gibran tem uma bela história:

Um homem tornou-se insano; ele foi colocado em um asilo para insanos. Um amigo foi visitá-lo. O amigo era um professor, um professor de filosofia, havia escrito vários livros, um erudito muito conhecido, e também um psicólogo. O homem louco estava sentado em um banco sob uma árvore no jardim, cercado por um grande muro. O professor veio, sentou-se do seu lado e lhe perguntou, “Como você está se sentindo nesse lugar?”

O louco riu. Ele disse, “Estou me sentindo muito bem – como nunca me senti antes.”

O professor ficou intrigado. Ele disse, “Por quê? Por que você está se sentindo tão feliz em estar nesse manicômio?”

O louco disse, “Manicômio? Você chama isso de manicômio? Eu deixei o manicômio lá fora – este é o lugar mais são do mundo! O manicômio está lá fora; estas paredes nos protegem das pessoas loucas. Se algum dia você se cansar das pessoas loucas lá fora, você será sempre bem-vindo aqui. Venha! É muito pacífico aqui – ninguém interfere no trabalho de ninguém. É muito silencioso aqui. Pouquíssimas pessoas estão aqui, e eu nunca vi pessoas tão sãs em toda a minha vida – elas são todas como eu!”

 

Esta é a sua definição de sanidade: ele está são e os outros internos estão como ele. As pessoas que estão lá fora estão insanas.

Mas o mesmo critério é seguido pelas pessoas lá fora: você pensa que é são porque você é exatamente como os seus vizinhos. Mas, quem sabe? – os vizinhos podem estar insanos também.

Toda a história da humanidade prova que esta é uma humanidade insana; algo está basicamente errado com ela. Em três mil anos o ser humano travou cinco mil guerras. Você chamaria esta humanidade de sã? Todos são gananciosos, invejosos, possessivos – e você chama esta humanidade de sã? Todo mundo está na garganta de todo mundo – e você chama esta humanidade de sã? Normal é claro – normal no sentido de que todos são parecidos.

Uma vez Mark Twain colocou um anúncio, um embuste, que tinha perdido um gato tão preto que não poderia ser visto pela luz ordinária, e o queria de volta. Aproximadamente mil pessoas o contataram alegando tê-lo visto.

 

Apenas olhe em volta, observe as pessoas e você ficará surpreso em ver o estado totalmente insano conhecido como normal. O que é normal? Qual é a definição de um ser humano normal?

Ele deve ser cheio de amor, deve ser cheio de bem-aventurança. Ele deve ser destemido. Ele deve ser alegre e extático. Ele deve ser capaz de cantar, rir e dançar. Ele deve ser capaz de apreciar as pequenas coisas da vida. Ele deve ser total em qualquer coisa que estiver fazendo. Os seus pensamentos serão diretos; se diz não ele quer dizer não, se diz sim ele quer dizer sim. Ele não será diplomático, não será um político no sentido que diz algo, quer dizer outra coisa e faz uma terceira. Você não pode entendê-la, nunca pode ter certeza o que a pessoa política fará. Ela tem uma face exterior e outra realidade interior. Ela é dupla-face, está duplamente atada. Ela sorri para você, te cumprimenta – e te odeia, te amaldiçoa por dentro. O político é seu inimigo, apesar de fingir ser um amigo.

Isso é insanidade! Esta hipocrisia é insanidade, esta separação é insanidade. Essa atmosfera esquizofrênica é insana. Não fomos capazes de produzir um ser humano saudável. Até agora nós falhamos… e agora temos que fazer algo muito drástico, senão a humanidade estará condenada. Agora as pessoas insanas têm muito poder destrutivo em suas mãos, a tal ponto que mais uma guerra e a humanidade está acabada e este planeta está acabado.

Algo tremendamente drástico é necessário, um salto quântico é necessário. Mas isso só é possível através daquelas pessoas que ouvem os budas.

…O MESTRE DIRECIONA OS SEUS PENSAMENTOS ERRANTES.

 

COMO UM PEIXE FORA DA ÁGUA,

ENCALHADO NA PRAIA,

OS PENSAMENTOS AÇOITAM E TREMULAM.

POIS COMO PODEM SE LIVRAR DO DESEJO?

 

Os pensamentos não podem viver fora do desejo, assim como um peixe não pode viver fora do mar. Os pensamentos não podem viver fora do mar do desejo: os pensamentos são basicamente instrumentos de um estado desejoso. E estamos continuamente desejando, desejando isso e aquilo. Não podemos parar de pensar se continuamos desejando. Primeiro o desejo, a própria raiz, deve ser cortada.

O que existe para desejar na vida? Aqueles que conheceram, aqueles que realizaram a vida, dizem que não há nada que vale a pena desejar na vida. Viva-a! viva-a o mais inteiramente possível e viva cada momento em seu máximo. Esprema-o totalmente. Mas não há nada para desejar. O desejo te desvia porque ele te leva para o futuro.

Beba o momento presente, porque o momento presente é a porta para Deus. Deus tem apenas um tempo: o presente. Ele não conhece o passado e o futuro. Se você quer ser parte de Deus… e esta é a única forma de ser são, de ser saudável. Apenas uma pessoa religiosa é sã e saudável. Se você quer ser parte de Deus, você terá que aprender a relaxar no momento presente.

Morra para o passado e morra para o futuro e viva no presente. Não se permita mover-se para longe do presente, nem mesmo uma única polegada para lá ou para cá; senão você sempre perderá o trem.

E a mente está continuamente correndo de um objeto para outro, de uma pessoa para outra. Você tem uma esposa, mas a mente está correndo atrás das esposas de outras pessoas. Você tem crianças, mas elas nunca parecem tão belas quanto as crianças dos outros. A grama é sempre mais verde do outro lado da sebe. Todo mundo parece ser mais feliz do que você.

E então, é claro, você deduz logicamente: “Eles têm casa maiores, crianças melhores, uma mulher melhor, mais dinheiro, mais poder, mais prestígio, então essas são as coisas que eu preciso também. A menos que eu tenha todas essas coisas, como posso ser feliz?” Você torna a sua felicidade condicional. E no momento que um ser humano torna a sua felicidade condicional ele está amaldiçoado; ele permanecerá infeliz por toda a sua vida.

A felicidade não é condicional; nada é necessário para ser feliz. Apenas estar vivo é necessário – e isso vivo você está, você já está vivo. Apenas estar consciente é necessário – e isso você já é. Por isso os místicos e os budas dizem que a bem-aventurança é a sua própria natureza. Mas a mente é uma corredora e continua te arrastando.

 

O sultão chamou o seu eunuco. “Estou com vontade,” ele disse. “Busque a minha esposa 256.”

Então o eunuco correu do palácio ao harém. Ele correu através do jardim, depois do pomar, e subiu os degraus. Ele logo retornou com a esposa 256. Um pouco depois o sultão chamou o eunuco novamente e disse, “Quero mais. Busque minha esposa 87.” O eunuco correu e a trouxe. Então o rei queria a esposa 68, e logo depois, a esposa 92.

Quando retornou com a esposa número 92 o eunuco estava muito ofegante. Então ele de repente colapsou e morreu.

Moral: Não é o amor que te mata, é o correr em torno.

 

A mente continuamente corre em torno. Ela nunca se senta, não pode se sentar. Sentar-se parece a morte para ela, e, de uma maneira, o é. É por isso que as pessoas Zen dizem que se você puder sentar-se em silêncio por apenas algumas horas todo dia, sem fazer nada, nem mesmo cantando um mantra, porque isso é novamente um correr da mente, a mesma mente… ela pode cantar músicas, pode cantar mantras religiosos, não faz diferença. Ela quer algum trabalho, quer atividade, quer ocupação, quer correr. A sua vida é correr.

As pessoas Zen dizem apenas sente-se, não faça nada. A coisa mais difícil no mundo é apenas sentar-se sem fazer nada. Mas uma vez que você pega o jeito… se você continuar sentando-se por alguns meses sem fazer nada por algumas poucas horas por dia, vagarosamente, muitas coisas ocorrerão. Você sentir-se-á sonolento, você sonhará. Muitos pensamentos povoarão à sua mente, muitas coisas. A mente dirá, “Por que você está gastando o seu tempo? Você poderia ter ganho um pouco de dinheiro. Pelo menos você poderia ter ido ver um filme, ter-se entretido, ou você poderia relaxar e fofocar. Você poderia ter visto TV ou ouvido o rádio, ou pelo menos você poderia ter lido o jornal. Por que você está gastando o seu tempo?”

A mente te dará mil e um argumentos, mas se você seguir ouvindo-os sem se preocupar com a mente… Ela fará todos os tipos de truques: alucinará, sonhará, tornar-se-á sonolenta. Ela fará tudo o que for possível para empurrar-te para longe do sentar-se. Mas se você continuar, se você perseverar, um dia o sol nasce.

Um dia ocorre, você não está se sentindo sonolento, a mente cansou-se de você, está farta de você, abandonou a ideia de que você pode se prender, simplesmente terminou com você! Não há sono, não há alucinação, nenhum sonho, nenhum pensamento. Você está apenas sentado ali sem fazer nada… e tudo é silêncio, paz e bem-aventurança. Você entrou em Deus, você entrou na verdade.

 

ELES TREMEM, SÃO INSTÁVEIS,

PERAMBULAM À VONTADE.

É BOM CONTROLÁ-LOS.

E AO MESTRE ELES TRAZEM FELICIDADE.

 

Observe e você verá a mente tremendo, os pensamentos vacilantes buscando um ao outro, correndo em toda a direção possível, consistentes, inconsistentes, significantes, insignificantes.

Sente-se um dia em seu quarto, feche as portas e comece a escrever os pensamentos que lhe ocorrem. Isso o ajudará a tornar-se consciente. Siga escrevendo qualquer coisa que esteja acontecendo. Não edite, não os faça parecer consistentes, belos. Não é para mostrá-los para ninguém, é apenas para a sua observação. Por quinze minutos siga escrevendo, então leia-os, e você ficará perplexo: você está louco ou algo do tipo? Que tipos de coisas estão passando pela sua cabeça? Todos os tipos de coisas, tão irrelevantes que você não pode conceber qualquer relacionamento possível com elas. Qualquer coisa leva a qualquer outra coisa acidentalmente.

O cão começa a latir em sua vizinhança e sua mente começa a funcionar. Você se lembra de um cão que você tinha em sua infância e, de repente, a mente pula do cão para um amigo que também era conhecido na infância… e do amigo à escola e ao professor. E, dessa maneira, a mente segue saltitando, e você pousará ninguém sabe onde. E tudo foi iniciado pelo latido de um cão que não sabe nada sobre você, que não está de forma alguma interessado em você, mas desencadeou um processo. Você pode chegar em qualquer lugar! E toda vez que isso ocorre você chegará em um outro local.

A mente segue pulando de um local a outro e a mente tem tanta informação que ela pode produzir todos os tipos de mundos.

Observando-a você verá a verdade da declaração de Buda: ELES TREMEM, SÃO INSTÁVEIS, PERAMBULAM À VONTADE. Eles não lhe ouvem, eles têm a sua própria vontade. Cada pensamento tem a sua própria vontade e insiste em permanecer em si mesmo. Ele não quer ser mexido, não quer você interfira nele. Se você interfere, ele resiste, protesta. Todo pensamento quer a sua própria individualidade. E esses milhões de pensamentos em sua cabeça destroem a sua individualidade, porque todos eles clamam pela sua própria individualidade e todos clamam por autonomia e liberdade. E se você diz algo, eles perguntam, “Quem é você?” E toda vez eles mostrar-te-ão o seu lugar, eles reduzir-te-ão à nada.

A menos que sejam controlados, Buda diz, não há possibilidade da bem-aventurança ocorrer em você. Você permanecerá uma bagunça, permanecerá uma confusão.

 

Interno: “Tenho um desejo louco, insano, de esmagar você em meus braços.”

Psiquiatra: “Agora você está falando coisas com sentido!”

 

Depende de que você chama de sentido e do que você chama de sem sentido. Existem filósofos no mundo que dizem que tudo é sem sentido, e há filósofos no mundo que dizem que tudo faz sentido, tudo é sensato. Este é o mais racional dos mundos, dizem, muito lógico. Tudo depende de você, do que você atribui sentido e o que você pensa que é sensato. Depende do seu treinamento, da sua criação, seu condicionamento, da forma que você foi hipnotizado.

Ora, comer carne é sensato se você foi criado em uma casa em que ninguém nunca pensou no vegetarianismo; se falaram sobre, falaram apenas para rir dos vegetarianos: “Esses tolos que pensam que ao tornarem-se vegetarianos eles tornar-se-ão religiosos.” Se você nasce em uma casa vegetariana, em uma família vegetariana, então as pessoas que comem carne são monstros. Elas não são pessoas de maneira alguma; elas são intocáveis, não são seres humanos, são animais.

Você mesmo nunca soube o que é certo, o que é errado; você sabe apenas de acordo com que os outros lhe disseram. Esse não é o caminho que pode levá-lo à sanidade. Você terá que tornar-se mais consciente, mais alerta, mais vigilante. Você terá que decidir por si próprio. Você tem vivido uma vida emprestada. Você terá que refletir – você se torna um ser humano apenas quando você começa a refletir as coisas por si próprio. Quando você observa cuidadosamente, precisamente, quando você julga, avalia, pesa as coisas e começa a viver cada vez mais de acordo com a sua própria consciência, você alcançará à liberdade. E a liberdade traz bem-aventurança.

A liberdade significa que você tem controle da mente, da assim chamada sua mente, que não é sua de maneira alguma porque lhe foi dada pelos outros, em fragmentos. Uma parte dela pertence a sua mãe, outra parte ao seu pai, outra parte pertence ao seu tio, e assim por diante… ao padre, professor, vizinho… Você coletou fragmentos do mundo inteiro – dos livros que leu e dos filmes que viu.

Se você olhá-los ficará surpreso – você não tem nenhuma mente própria. Tudo é emprestado! Como você pode ser autêntico? Você é apenas um fenômeno acumulado, fragmentos de tantas fontes diferentes que elas nunca podem fundir-se e transformar-se em um. Mas uma coisa não é emprestada em você, a sua consciência, a sua vigilância. Isso você trouxe consigo, isso é parte do núcleo interior. Dependa desta e nunca dependa da mente. Torne-se independente da mente e absolutamente dependente da consciência, e você estará dando o maior passo da sua vida.

 

MAS QUÃO SUTIS ELES SÃO,

QUÃO ELUSIVOS!

A TAREFA É AQUIETÁ-LOS,

E AO CONTROLÁ-LOS ENCONTRAR FELICIDADE.

 

E não será uma tarefa fácil. É árdua, porque a mente é muito astuta e os pensamentos são muito sutis.

 

Um soldado está explicando a transmigração das almas a outro e diz que se ele fosse morto o seu corpo degradaria no campo de batalha e finalmente penetraria o solo. Na primavera uma bela flor nasceria no local.

“E eu serei esta flor, não serei? perguntou o outro soldado.

“Não, espera um pouco. Então vem uma vaca e come a flor e deixa para trás uma grande pilha de esterco. Então eu vou vir passear com minha mulher, eu verei aquela grande pilha de esterco e eu a tocarei com meu bastão de caminhada e direi, ‘Oi, Bill! Você não mudou nada!’”

 

A mente é muito astuta – ela sempre pode encontrar caminhos para continuar a mesma. Ela pode encontrar novos caminhos para que possa permanecer antiga. Pode encontrar novas vestes para poder esconder-se atrás delas; pode encontrar belas racionalizações.

Cuidado! A mente não é um fenômeno simples, é complexo, sutil, muito elusivo. Se você tentar agarrá-la você terá dificuldade. Se você a empurrar pela porta da frente, ela voltará pela de trás. Se você quer controlá-la e reprimi-la, ela começa a funcionar do seu inconsciente – que é muito mais perigoso porque ela ainda te controlará, embora agora você esteja absolutamente inconsciente de seu controle. O inimigo não é mais visível, isso é tudo, mas o inimigo está ali. E quando o inimigo é invisível o inimigo é mais poderoso.

 

…MAS QUÃO SUTIS ELES SÃO, e QUÃO ELUSIVOS! A TAREFA É AQUIETÁ-LOS… Por isso lembre-se, eles não devem ser reprimidos, não devem ser presos. A TAREFA É AQUIETÁ-LOS, E AO CONTROLÁ-LOS ENCONTRAR FELICIDADE.

É através da sua aquietação que alguém torna-se um governante, não ao governá-los que alguém os aquieta. Lembre-se desse processo: ele parece similar, não é. É muito diferente, de fato, diametralmente oposto. Você tem que aquietá-los primeiro, amansá-los primeiro.

E a forma de aquietá-los é apenas observá-los silenciosamente sem julgamento, sem dizer isso é bom, isso é mau. No momento que você diz bem ou mal você pulou no atoleiro. A mente já te prendeu, você já está na armadilha.

Simplesmente observe! Os seus professores de moral não permitem que você observe. Você senta e apenas olha…um pensamento de assassinato surge. A sua mente está contemplando o pensamento de matar alguém. Esta é apenas uma parte. Outra parte da mente diz, “Isso é muito mau, isso é um pecado. Você não deveria nem ter esse pensamento, mesmo pensar é um pecado.” Esta é outra parte da mente. Você se torna identificado com a outra parte, a parte moral. Você diz, “Esta é minha consciência.” Não é a sua consciência: isso foi colocado em você. É a sociedade te controlando de dentro; é uma estratégia da sociedade para controlá-lo. Você não sabe o que é certo e o que é errado.

Seja inocente! Apenas observe, observe ambas. Uma parte da mente está dizendo, “Mate aquele homem – ele te insultou!” Outra parte da mente está dizendo, “Isso é mau, isso é imoral. Você vai terminar no inferno, você sofrerá em seu próximo nascimento, você será punido por isso.”

Entenda bem, o segundo também é mente e não há escolha entre os dois fragmentos da mente. Observe ambos, aprecie ambos. Veja a contradição da mente – não se torne identificado com qualquer parte.

Lembre-se, o ego quer que você se identifique com a parte boa, a parte moral. Ele se sente belo: “Sou contra o assassinato, olhe! Não sou a favor disso.” Você está sendo aprisionado pela outra parte da mente. Você ainda é um escravo. Os seus pecadores e os seus santos, ambos são escravos.

O ser humano realmente livre está livre tanto do bem quanto do mal. Ele está além do bem e do mal. É apenas consciência e nada mais. Ele sempre observa. E se você pode apenas observar sem identificar-se, vagarosamente a mente aquieta, e nesse aquietar está o seu poder. Um dia, quando a mente se for para sempre, tornar-se totalmente silenciosa, você é o soberano.

 

COM DETERMINAÇÃO

O MESTRE AMAINA SEUS PENSAMENTOS.

ELE TERMINA A SUA PERAMBULAÇÃO.

ASSENTADO NA CAVERNA DO CORAÇÃO,

ELE ENCONTRA A LIBERDADE.

 

E quando a mente não existe mais, para onde você vai? De repente, quando a mente não existe mais, você entra no coração. Você escorrega para fora da mente, fora do controle da cabeça. E então o coração, a caverna do coração é o seu palácio. A mente é um subproduto da sociedade: o coração é uma extensão de Deus.

Isso é possível apenas se você trabalhar com determinação para aquietar a mente, estar consciente da mente, ser totalmente vigilante, sem qualquer julgamento e sem qualquer identificação.

O MESTRE AMAINA SEUS PENSAMENTOS. ELE TERMINA A SUA PERAMBULAÇÃO. ASSENTADO NA CAVERNA DO CORAÇÃO, ELE ENCONTRA A LIBERDADE.

A cabeça é um escravo, o coração a liberdade. A cabeça é uma miséria, o coração a bem-aventurança última.

AES DHAMMO SANANTANO.

Por hoje é só.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Dhammapada: O Caminho do Buda, Vol 1

Capítulo #10:

Título do Capítulo: Nem isso nem aquilo

30 de Junho de 1979 na Sala Buda

 

A primeira questão:

Questão 1

AMADO MESTRE,

QUAL É A DIFERENÇA ENTRE VOCÊ E OS OUTROS HOMENS DIVINOS?

 

Sunil Sethi, não sou um homem divino, sou simplesmente Deus – assim como você é, as árvores são, os pássaros, as pedras. Não pertenço a nenhuma categoria. ‘Homem divino’ é uma categoria inventada pelos jornalistas. Simplesmente não pertenço a nenhuma categoria. Você não pertence a nenhuma categoria também. Todas as categorias são falsas. Quanto mais fundo você adentra a si próprio, mais você descobre que você simplesmente é – nem isso, nem aquilo. Os videntes dos Upanishads dizem: neti, neti – nem isso, nem aquilo. Nenhuma categoria é aplicável.

 

Há uma bela história sobre Buda:

Buda estava sentado sob uma árvore. Um astrólogo se aproximou – o astrólogo estava muito intrigado, porque viu as pegadas de um Buda na areia molhada e simplesmente não podia acreditar. Todas as escrituras que havia estudado durante toda a sua vida diziam-lhe sobre certos signos que existem nos pés de um homem que governa o mundo – um chakravartin – um governador de todos os seis continentes, de toda a Terra. E ele viu nas pegadas na areia molhada à beira rio todos os símbolos tão claramente que não podia acreditar em seus olhos! Ou todas as suas escrituras estavam erradas e ele estava desperdiçando a sua vida na astrologia… ou, pelo contrário, como seria possível em uma tarde quente, em uma pequena vila, suja, um chakravartin andando a pé, na areia ardente?

Ele seguiu as pegadas, em busca do seu detentor. Ele encontrou o Buda sentado sob uma árvore. Ele ficou ainda mais intrigado. A face era a de um chakravartin – a graça, a beleza, o poder, a aura – mas o homem era um mendigo, com uma tigela de mendicância!

O astrólogo tocou os pés de Buda e perguntou-lhe, “Quem é você, senhor? O senhor intrigou-me. O senhor deve ser um chakravartin, um governador do mundo. O que o senhor está fazendo aqui, sentado sob essa árvore? Ou todos os meus livros de astrologia estão errados, ou estou alucinando e o senhor realmente não está aqui.”

Buda disse, “Os seus livros estão absolutamente corretos – mas há algo que não pertence a nenhuma categoria, nem mesma à categoria de um chakravartin. Sou um chakravartin, mas não sou ninguém em particular.”

O astrólogo disse, “O senhor me intriga ainda mais. Como o senhor pode ser sem ser alguém em particular? O senhor deve ser um deus que veio visitar a Terra – posso vê-lo em seus olhos!”

Buda disse, “Não sou um deus.”

O astrólogo disse, “Então o senhor deve ser um gandharva – um músico celeste.”

Buda disse, “Não, também não sou um gandharva.”

E o astrólogo continuou perguntando, “Então o senhor é um rei disfarçado? Quem é o senhor? O senhor não pode ser um animal, não pode ser uma árvore, não pode ser uma rocha – quem é o senhor, exatamente?”

E é imensamente importante entender a resposta que Buda deu. Ele disse, “Sou apenas um buda – sou apenas consciência e nada mais. Não pertenço a qualquer categoria. Toda categoria é uma identificação e não tenho qualquer identidade.”

 

Sunil Sethi, a minha resposta é exatamente a mesma: Não pertenço a qualquer categoria, e homem divino é uma categoria. Sou simples consciência. Sou simplesmente uma vigilância. E isso não é algo especial; isso também é parte do núcleo mais interno. Você é tão divino quanto qualquer outro – um Buda, um Krishna, um Cristo. Você é tão divino quanto qualquer um. O mais alto e o mais baixo, todos são divinos, porque só Deus existe.

Essa é a primeira coisa a ser lembrada: que não pertenço a nenhuma categoria. Nem você pertence a alguma categoria. Você é Hindu, Islâmico, Cristão? Você é branco ou negro? Essas são coisas externas – você não é essas coisas. A consciência não pode ser negra e não pode ser branca; a consciência não pode ter nenhuma cor. Você é rico ou pobre? A consciência também não pode ser rica ou pobre. Você é um homem ou uma mulher? A consciência não é nem um homem nem uma mulher.

A consciência é simplesmente consciência! Realizar isso é declarar, “aham brahmasmi! – Sou Deus!” Não é uma nova categoria. Quando alguém declara “Sou Deus!” não é uma nova categoria, é o simples desaparecimento de todas as categorias. Este é exatamente o significado da palavra ‘Deus’.

Quando Mansoor diz, “ana’l haq! – Sou a verdade!” eles está dizendo a mesma coisa. Ele está dizendo, “Sou consciência.”

Não clamo ser um homem divino – não sou.

A segunda coisa: entre mim e os supostos homens divinos há muitas diferenças. A mais básica é que sou um afirmador da vida e eles renegam à vida. Eu amo a vida; eles odeiam a vida. Eu quero que você vá cada vez mais para dentro da vida; eles querem que você se recolha, que você se retire. Eles são totalmente a favor da renúncia, sou totalmente a favor da celebração. Para mim “Celebre!” é a única mensagem. “Renuncie!” é um escapismo. Renunciar é cometer um crime lento. Celebre! e celebre tremendamente. Somente então você será capaz de saber o que Deus realmente é.

No ótimo do seu ser, quando a intensidade é total, quando você não está retendo nada, quando você dança com entrega, quando canta tão totalmente que o cantor desaparece no cantar… quando você ama tão infinitamente que não sobra nenhum amante para trás, você simplesmente se torna a energia chamada amor, então você afirma à vida. E a vida É Deus.

Sou afirmador da vida; os seus supostos homens divinos são negadores da vida. E porque basicamente a vida não pode ser negada – você é vida, como pode negá-la? – eles criam a hipocrisia. Está fadado a acontecer. Eles não permitem que você seja autêntico. Eles não permitem que você seja natural – como poderiam permitir que você seja autêntico? Eles criam uma divisão em você.

Eles são a causa raiz de toda esquizofrenia, e toda a humanidade sofre de esquizofrenia. As diferenças entre a esquizofrenia de uma pessoa e outra são apenas de graus. Você está dividido! Quem fez isso com você? Os seus supostos homens divinos, os supostos santos, mahatmas. Eles estão na raiz de toda a sua miséria porque o próprio ensinamentos deles é “Negue a natureza! Lute contra a natureza! Vá contra a corrente; suba o rio!” E você é parte da natureza, apenas uma onda no rio – como você pode lutar contra a sua natureza? Lute e você perderá. Se você for uma pessoa sincera, você ficará louco; se você ainda não está louco, isso simplesmente mostra que você não é uma pessoa sincera. Você diz uma coisa e faz outra.

 

Ouvi dizer:

Um funcionário deu um quarto de hotel a um sodomita com outro homem e assegurou-lhe que este não era avesso a um ataque, mas que apenas encenaria uma luta. “Mas não ligue para ele. Vá em frente – ele gosta.”

Na manhã seguinte, o sodomita desceu e o funcionário perguntou-o como ele havia se saído. “Foi muito fácil,” ele respondeu. “Ele não lutou de maneira alguma.”

“Meu Deus!” disse o funcionário, “Coloquei você no quarto errado. Este era o arcebispo!”

 

Está fadado a ocorrer. A hipocrisia é um subproduto natural de todos os homens divinos falsos. E eles só podem ser falsos! Se alguém realizou Deus, ele não é um homem divino – ele é simplesmente Deus! Por que ‘homem divino’? E ele sabe que não é só ele que é Deus, mas todo mundo é Deus. Quando diz “Sou Deus,” ele não está utilizando a palavra em um sentido comparativo. Ele não está dizendo, “Sou mais sagrado que você.” Ele está apenas dizendo, “Sou o que você é, mas estou consciente e você não está consciente ainda. A diferença não está em nossas qualidades, em nossos seres, mas apenas em nossa consciência. Você tem o mesmo tesouro que tenho, mas eu cruzei com ele e você continua procurando e tateando. Mais cedo ou mais tarde você o encontrará. Se você seguir procurando, você está fadado a encontrá-lo – porque está ali. Por quanto tempo você pode seguir deixando escapar? Mesmo na escuridão mais profunda, se buscá-lo está fadado a encontrá-lo.

Quando digo que sou Deus, estou simplesmente declarando que toda a humanidade é divina. Estou simplesmente declarando que todos os seres humanos são divinos; estou simplesmente declarando que tudo o que existe é divino. Um homem divino, um suposto homem divino, declara que é Deus e vocês são pecadores. Ele cria um novo tipo de superioridade, uma nova hierarquia. E todo o seu segredo está em fazê-lo sentir-se culpado. E quanto mais culpa você sente, mais está sob o seu controle.

Como fazê-lo sentir-se culpado? Apenas condene as coisas naturais e isso começa a ocorrer. Condene o sexo – você terá desejos sexuais e você se sentirá culpado. Condene a comida… condene tudo o que é uma inclinação natural em você.

 

A festa de troca de casais é invadida por um pastor em campanha, que planeja pôr um fim nessas atividades. Quando tocou a campainha, o homem da casa veio atender e não parecia nem um pouco envergonhado.

O pastor disse, “Me disseram que há uma festa aqui essa noite.”

“Temos sim,” disse o homem. “Estamos jogando adivinha agora. As mulheres estão de olhos vendados tentando descobrir os nomes dos homens pelos seus pênis. Você deve entrar, Reverendo, o seu nome já apareceu oito vezes!”

 

Todo o sacerdócio ao longo das eras provou uma coisa: que você não pode lutar contra a natureza. Apesar de haver uma maneira de superá-la – mas a maneira não vai contra a natureza; vai através dela.

Esta é a minha primeira e fundamental diferença: Eu afirmo a vida como ela é. Isso não significa que não há crescimento possível além da vida – há uma imensa possibilidade de crescimento – mas todo crescimento deve ser encontrado em um amor profundo e ardente com a vida. É apenas através da experiência da vida que a transcendência ocorre.

Eu gostaria que você fosse além do sexo, mas não condeno o sexo. O sexo é um desejo natural, e é bom em seu lugar próprio. Mas não se deve parar no sexo; este é apenas o começo, um vislumbre – um vislumbre do além. Em profundo orgasmo sexual você se torna consciente pela primeira vez de algo que não é o ego, de algo que não é a mente, de algo que não é o tempo. Em orgasmo profundo, a mente, o tempo, tudo desaparece; todo o mundo para por um momento. Por um momento você não é mais parte de um mundo material; você é somente um espaço puro.

Mas isso é apenas um vislumbre – e a um custo alto. Você deve mover-se à frente. Você deve procurar os caminhos e meios para que esse vislumbre se torne o seu próprio estado. Isso é o que chamo de realização, iluminação. Uma pessoa iluminada está em um estado orgástico vinte e quatro horas por dia. O que uma pessoa sexual atinge apenas de vez em quando, com grande esforço, o ser humano espiritual alcança sem qualquer esforço e sem qualquer desperdício. O ser humano espiritual vive ali; a sua morada está nos picos últimos. Você só vê esses picos de longe, a milhares de quilômetros de distância.

Não sou contra o sexo, porque o sexo é a primeira janela da existência espiritual. Não sou contra a comida, porque não sou contra nenhum prazer. Existem todos os tipos de experiências que você passará ao desfrutar das coisas – comida, amor, música, dança, natureza… é apenas ao desfrutar de todas essas coisas que você, vagarosamente, vai se tornando consciente do invisível.

É por isso que os Upanishads dizem: annam brahma – o alimento é Deus. Uma declaração tremendamente significante: o alimento, e Deus? sinônimos? – annam Brahma. O alimento é Deus? O que eles estão falando? Essas pessoas sabiam, sabiam o que estavam falando – o gosto da comida é o gosto de Deus. O gosto de qualquer alegria é o gosto de Deus – por mais longe que esteja, por mais que seja uma reflexão.

A lua refletida no lago ainda é uma reflexão da lua, apesar de você não a encontrar no lago. Se você pular no lago você apenas perturbará a reflexão e não encontrará a lua ali. A reflexão não é a lua, a reflexão reflete à lua. E se você for um pouco inteligente você não pulará no lago, você olhará para o céu onde a lua real está.

Deus é refletido quando você aprecia o alimento. Deus é refletido quando você aprecia o sexo. Deus é refletido em mil e um lagos da vida. Pegue a chave da reflexão; pegue a indicação, a pista, e comece a mover-se em direção ao original.

Esta é a minha diferença fundamental. Não sou contra a vida ou contra nada que a vida implica – nem sexo, nem alimento, nem o corpo, nem os prazeres do corpo. Não sou avesso ao conforto, não sou contra as luxúrias também.

Há alguns dias alguém fez uma questão. Alguém perguntou – ele deveria ser um novato e Indiano – ele perguntou, “Você não é um hipócrita? Por que você vive no luxo?” Ele não sabe o significado da palavra ‘hipócrita’. Posso ser a única pessoa no mundo que não é um hipócrita.

Um hipócrita é alguém que diz uma coisa e faz outra. Um hipócrita é alguém cujas vidas interior e exterior são diferentes – não apenas diferentes, mas diametralmente opostas. Não sou contra o luxo, então por que eu seria um hipócrita? Não sou contra o conforto – não sou masoquista, isso é tudo. Não acredito na tortura contra mim ou contra qualquer outra pessoa. Não acredito na tortura.

Eu gostaria que toda a Terra vivesse no luxo. Certamente, sei que hoje isso não ocorre. Toda a Terra não está recebendo nem as necessidades mínimas da vida. Mas não vou torturar-me apenas por causa disso, porque isso não ajudará a ninguém. Se existem mil pessoas na miséria, haverá mil e uma pessoas na miséria – isso é tudo.

Não acredito na miséria. Não estou vivendo uma vida dupla. A minha vida é muito simples – simples no sentido que ela tem um tipo de integridade. Estou fazendo o que falo. Acredito no luxo; para mim a religião é a forma mais elevada de luxo. Se não posso fazer com que todos vivam no luxo, pelo menos posso viver eu mesmo. Caso contrário as pessoas dirão para mim, “Médico, primeiro cure a si próprio.”

Mas esses supostos homens divinos, todos eles vivem no luxo e todos são contra o luxo. Esses são hipócritas! Eles falam sobre a pobreza e a espiritualidade da pobreza, e todos eles vivem no luxo – eles são hipócritas.

Eu odeio a pobreza! Não respeito a pobreza, não aprecio a pobreza. É por causa da estupidez que as pessoas são pobres; é por causa das mentes supersticiosas que as pessoas são pobres. As pessoas não precisam ser pobres. É por causa de milhares de anos de ensinamentos que a pobreza tem algo de espiritual em si que as pessoas são pobres.

Um pensador Alemão muito famoso, Conde Keyserling, veio a Índia. Ele escreveu um diário enquanto viajava pela Índia. Em seu diário notou coisas muito significantes. Uma coisa que ele escreveu foi, “Fiquei ciente, visitando a Índia, de duas coisas. Uma: que ser pobre é ser espiritual; e a outra: que ser doente, faminto, feio é ser sagrado.”

Não estou ensinando essas coisas. Eu gostaria que toda a minha comuna vivesse no maior conforto possível. A comuna deve tornar-se um modelo – um modelo para o mundo todo. Os meus sannyasins devem viver com o máximo possível de alegria: física, psicológica, espiritual. As alegrias do corpo, as alegrias da mente e as alegrias do espírito – todas devem viver em harmonia tal que o quarto ser humano nasça a partir desta harmonia.

É por isso que digo: seja científico, seja estético e seja religioso. A partir dessas três dimensões, do encontro desses três rios, o quarto será criado. E o quarto é o meu caminho.

Qualquer tipo de abordagem não natural em relação à vida cria complexidades, cria patologias. Não torna as pessoas sanas; torna-as insanas.

Um paciente no escritório do psiquiatra: “Doutor, você tem que me ajudar. Continuo sonhando com comida, continuamente sonhando com comida.”

Doutor: “Você nunca sonha com garotas?”

Paciente: “Sim, mas sempre coloco ketchup nelas.”

 

Ora, se você fizer alguém se sentir culpado em relação à comida – é isso o que as pessoas supostamente religiosas estão fazendo – então ela começará a sonhar com comida; e comer é saudável, nutritivo, bom; apenas sonhar com isso é feio e patológico. Sonhar com comida simplesmente diz que você está, de alguma forma, privando o seu corpo do que ele necessita.

Quem sonha com comida? Apenas uma pessoa que reprime o seu desejo por comida. Você pode tentar: jejue por um dia e então veja o que ocorre… Todo o dia você pensará em comida; em todo lugar a mente virá novamente com a ideia da comida. E a noite você está fadado a sonhar com comida.

Reprima o sexo e você sonhará com sexo. Reprima qualquer coisa e você começa a tornar-se patológico. Um ser humano realmente saudável não tem sonhos – ele não tem nada com que sonhar. Ele vive cada momento totalmente; ele nunca reprime nada. Por isso o seu inconsciente permanece totalmente vazio e limpo. Reprima, e o seu inconsciente torna-se obstruído com mobília desnecessária. E nos sonhos você está fadado a encarar o seu inconsciente. Você deve encará-lo; no sono profundo você deverá passar por ele. Isso cria uma turbulência ao longo de toda a sua vida.

Sou afirmador da vida. Amo tremendamente a vida e esse é meu ensinamento. Os supostos homens divinos são todos contra a vida; eles estão criando uma humanidade patológica.

Em segundo lugar, eles são todos de outro mundo; Eu sou deste mundo. Não que eu não acredite no outro mundo – não é uma questão de acreditar nele; Sei que existe – mas não é necessário se preocupar com ele. Preocupar-se não ajudará. O outro mundo nascerá a partir desse mundo. Torne essa vida bela, viva essa vida da maneira mais sensível e o outro mundo nascerá a partir desse mundo. O outro mundo será muito mais belo do que este se você puder tornar este mundo belo.

Buda diz nos primeiros sutras que se essa vida é bela, a outra será ainda mais bela. Mas se você pensar na outra vida, se você projetar a outra vida, se você sonhar com a outra vida, a vida após a morte, você tornará essa vida tão feia, tão desconfortável, que a outra vida tornar-se-á mais feia.

Você não precisa pensar no amanhã, o hoje é suficiente em si. Viva este dia com tamanha alegria e êxtase… de onde virá o amanhã? Ele nascerá desse êxtase, ele será mais extático. E então você tem a chave – a chave destrava todas as portas da vida.

Viva o momento! Eu acredito no momento. Esses homens divinos, eles falam sobre a outra vida, a vida após a morte, céu e inferno – tudo que é absolutamente desnecessário. As pessoas já estão muito confusas; não as confunda ainda mais.

O meu ensinamento é muito simples, direto ao ponto: viva cada momento, morrendo para o passado, sem projetar qualquer futuro… desfrutando o silêncio, a alegria, a beleza desse momento. E a partir disto, aquilo nascerá. Ele vem naturalmente. Como Buda diz: assim como a sombra te segue, o futuro te segue. Se o seu presente for feio, o futuro será o inferno; se o seu presente é belo, o futuro será o paraíso.

Em terceiro lugar, até agora, esses supostos homens divinos têm dividido a humanidade em Hindus e Cristãos, Islâmicos e Jainas, Sikhs e Parsis… existem trezentas religiões na Terra e pelo menos três mil seitas dentro dessas trezentas religiões. Esses homens divinos têm criado ódio entre as pessoas. Eles falam de amor mas criam um contexto tal que só a guerra ocorre. As religiões têm lutado uma contra a outra, destruindo uma à outra, assassinando uma à outra, massacrando uma à outra. Mais sangue foi derramado em nome da religião do que em nome de qualquer outra coisa. Nem mesmo a política é tão criminal do que as suas supostas religiões.

Ora, todos esses homens divinos são Hindus ou Islâmicos ou Cristãos. Não sou um Hindu nem um Cristão – não sou ninguém. E eu ajudo as pessoas a transformarem-se em ninguéns. Ajudo as pessoas a descarregarem toda essa bobagem. É suficiente ser – não é necessário ser um Islâmico ou um Hindu ou um Cristão. Não há necessidade de ir a nenhum templo, mesquita ou igreja. Toda a existência é seu templo e as árvores estão continuamente em adoração, as nuvens estão orando, as montanhas estão meditando… apenas comece a olhar em volta.

Olhe corretamente! Olhe sem crença em seus olhos, olhe sem preconceitos, e você encontrará Deus. Você não pode perdê-lo porque ele está em todos os lugares! Ele não é como um alvo que você pode errar; acerte em qualquer lugar e você o encontrará, porque ele está em todos os lugares. É impossível errá-lo. Tudo o que você precisa é de um coração inocente. Mas um Hindu não pode ser inocente, um Islâmico não pode ser inocente. Ele está cheio de lixo: cheio de teorias, teologias, cheio de conhecimento emprestado – isso é o que chamo de lixo.

Não estou dizendo que Maomé não está certo, não estou dizendo que Buda não está certo; caso contrário, por que eu falaria sobre Buda, Maomé ou Cristo? Eles são verdadeiros, mas a verdade deles não pode ser a sua verdade – você terá que encontrá-la por si só. A verdade não pode ser emprestada, a verdade é intransferível; ela nunca se torna parte da sua herança. Você terá que buscar por si mesmo; tem que ser sempre individual.

A minha verdade é a minha verdade. É a minha experiência. Eu posso falar sobre ela, posso cantar músicas em seu louvor, posso dançá-la. Posso mostrar a você o meu êxtase – mas ainda assim, aquilo que foi experienciado permanece inexprimível. Nenhuma escritura foi capaz de expressá-lo. Todas as escrituras são esforços para expressar, mas todos os esforços falharam: a verdade é inexprimível.

As escrituras apenas mostram a compaixão das pessoas que atingiram, mas elas não provam que a compaixão foi bem-sucedida em expressar a verdade.

 

Rabindranath estava morrendo e alguém lhe perguntou, “Você deve estar muito contente e grato a Deus – você é o maior poeta que a Terra já conheceu. Você escreveu seis mil poemas; ninguém mais fez isso. Mesmo Shelley, que é tido como o maior poeta do Ocidente, escreveu apenas duas mil músicas. Você é três vezes maior!”

Porém as lágrimas começaram a rolar dos olhos de Rabindranath. O homem ficou perplexo; ele não podia entender porque Rabindranath estava chorando. Ele disse, “Por que você está chorando? Sinta-se grato a Deus! Ele preencheu a sua vida. Você alcançou tudo o que alguém aspira alcançar.”

Rabindranath disse, “Não alcancei nada! Essas seis mil músicas são a prova do meu fracasso.” Ouça atentamente. Rabindranath disse, “Essas seis mil músicas são a prova do meu fracasso. Eu estava tentando dizer algo, mas não fui capaz de dizê-lo. Toda vez que tentava, eu fracassava. Tentei muitas vezes, seis mil vezes eu tentei, e falhei. A música que vim para cantar permanece não cantada. Levá-la-ei comigo.”

 

Isto ocorre com um Buda, um Maomé, um Zaratustra – com todos aqueles que conheceram.  Você não pode ser um crente e religioso ao mesmo tempo. Se você quer ser religioso, você tem que abandonar todas as crenças. Essa é a minha terceira diferença básica.

Eu lhes ensino a serem religiosos, mas não crentes. Vocês têm que ser inquiridores, exploradores. Vocês não podem tomar nada como certo: porque muitas pessoas dizem, então deve ser verdade. A verdade tem que vir da sua própria experiência – você tem que ser uma testemunha dela. E no momento que você é uma testemunha dela, você não será capaz de dizer que você é um Hindu, Islâmico ou Cristão. Essas são todas filosofias, adivinhações, teologias, lógica, cálculo, engenho – mas falta a experiência.

Toda a minha abordagem é existencial, experiencial. Não estou te dando um dogma; Não estou tentando te dar uma certa doutrina. Pelo contrário, estou tentando jogar todas as doutrinas fora. Eu gostaria que você fosse totalmente vazio de doutrinas, crenças e preconceitos.

Nessa vacuidade você é Deus – assim como eu sou, assim como Buda é. Essa vacuidade abre as portas da sua divindade.

Não sou um homem divino. Sou tão ordinário como vocês são, como todos são; tão ordinário ou tão extraordinário – significa o mesmo. Não sou superior a ninguém e não sou inferior a ninguém. Ninguém é superior e ninguém é inferior. Pertencemos a uma realidade – como podemos ser inferiores ou superiores?

 

A segunda questão:

Questão 2

AMADO MESTRE,

HÁ UMA QUESTÃO QUE NUNCA CONSEGUI OBTER UMA RESPOSTA. É UMA QUESTÃO ESTÚPIDA, MESMO ASSIM SINTO QUE QUERO MUITO SABER A RESPOSTA.

VOCÊ PODE NOS DIZER QUAL É O PROPÓSITO DA CRIAÇÃO, POR QUE A VIDA EXISTE, POR QUE TUDO EXISTE? NÃO ACREDITO EM ACIDENTES.

 

Prem Patrick, a questão é certamente estúpida, você está absolutamente certo sobre isso. E a questão não é respondível. Qualquer um que respondê-la apenas criará outras questões em você. Você não foi capaz de obter nem uma resposta porque não há nenhuma. A vida é um mistério – por isso essa questão não pode ser respondida. Você pode perguntar “Por quê?” Se o “Por quê” for respondido, a vida não será mais um mistério.

Esse é todo o esforço da ciência: destruir o mistério da vida. E a forma é encontrar a resposta para cada porquê. E a ciência acredita – é claro, arrogante e ignorantemente – que um dia ela será capaz de responder a todos os porquês. Não é possível. Mesmo se respondermos todos os porquês, o porquê último permanecerá: Por que a vida existe? Qual o significado da existência? Qual é o propósito de tudo isso? Essa questão é a última – ela não pode ser respondida.

Se alguém te der uma resposta, isso simplesmente criará outra questão. Se alguém disser… por exemplo, essas respostas foram dadas – poucas pessoas acreditam que Deus criou o mundo porque ele queria ajudar a humanidade. Ora, que tipo de resposta é essa? Ele criou a humanidade para ajudar a humanidade. Qual era a necessidade de criar? Outros dizem que Deus criou o mundo porque ele estava se sentindo muito só. Se Deus também se sente muito só, então não haveria possibilidade de alguém um dia tornar-se um buda.

E de repente Deus começa a sentir-se só – o que ele estava fazendo antes de criar o mundo? Pela eternidade ele permaneceu só… então de repente, um dia, em uma manhã, ele ficou louco, ou o quê? De repente ele começou a se sentir só depois do café da manhã! E qual era a necessidade de criar todo o mundo? Apenas uma mulher seria o suficiente!

E como ele se sente hoje? Muito lotado? Muita gente no mercado? Deve estar planejando destruir o mundo em breve. De que tipo de Deus você está falando? O seu Deus é uma pessoa que pode se sentir só?

Essas são respostas tolas para questões tolas.

Então há poucas pessoas que dizem que é o jogo de Deus – a sua lila. Ele não pode sentar-se quieto? E que tipo de jogo é esse? Adolf Hitler e Mussolini, Joseph Stalin e Mao Tsé-Tung, Genghis Khan, Tamerlane, Nadirshah… jogo de Deus? Milhões de pessoas estão sendo massacradas e é um jogo de Deus? Seis milhões de Judeus foram mortos por Adolf Hitler e Deus está jogando? Por que ele não joga golf? ou xadrez? Por que torturar as pessoas? Tanta miséria no mundo, e esses tolos seguem dizendo que é um jogo de Deus? As crianças estão nascendo paralíticas, surdas, mudas… jogo de Deus? Que tipo de Deus é esse? Ou ele está louco ou não é Deus de maneira alguma, pelo menos não é divino. Deve ser muito mau.

Ora, essas respostas não ajudam – elas criam ainda mais questões. Patrick, só posso dizer isso: que a vida não tem propósito, não pode ter nenhum propósito.

Todos os propósitos estão dentro da vida. Sim, um carro tem um propósito; ele pode te levar de um lugar a outro. E o alimento tem um propósito; ele pode te nutrir, pode manter-te vivo. Uma casa tem um propósito; ela pode te dar abrigo quando chove e quando está calor. E as vestes têm um propósito… Todos os propósitos estão dentro da vida, mas a vida ela própria não pode ter qualquer propósito porque ela não é um meio para algum fim. Um carro é um meio, uma casa é um meio.

A vida não tem nenhum objetivo, a vida não está indo para lugar algum. A vida está simplesmente aqui! Ela nunca foi criada – esqueça esta ideia de criação. Isso cria muitas questões estúpidas na mente. Ela nunca foi criada, sempre esteve aqui, e sempre estará aqui – de formas diferentes, em caminhos diferentes, a dança continuará. É eterna. Aes dhammo sanantano – assim é a lei última.

Não há propósito – esta é a beleza da vida! Se houvesse algum propósito, então a vida não seria tão bela. Então haveria uma motivação, então ela seria como um negócio, então ela seria muito séria. Olhe para as rosas, os lótus e os lírios – qual o propósito? O lótus no sol do começo da manhã abrindo-se, e o cuco começando a chamar… qual propósito? Não é intrinsicamente belo? Tudo precisa de um propósito externo a si?

A vida é intrinsicamente bela. Ela não tem um propósito extrínseco, ela não é proposital. É como uma música de um pássaro na escuridão da noite, ou o som da água, ou o som do vento passando entre os pinheiros…

O ser humano busca metas porque a sua mente busca metas. Ela cria questões como essa: “Qual é o objetivo da vida?” Deve haver algum objetivo. Mas se alguém disser, “Este é o objetivo da vida,” então você perguntará, “Qual o objetivo desse objetivo? Por que devemos alcançá-lo? Qual propósito ele servirá?” E então alguém diz, “Este é o objetivo desse objetivo.” A mesma questão surge novamente, e você cai em uma regressão, ad infinitum.

Você pode perguntar-me, “Você pode nos dizer qual é o propósito da criação?”

O mundo nunca foi criado. A palavra ‘criação’ não está correta. Ele sempre esteve aqui, é eterno. Não há criador. Deus não é o criador do mundo: Deus é a própria energia criativa da existência – criatividade em vez de criador. Ele não é o poeta, mas a poesia, não é o dançarino, mas a dança, não a flor, mas a fragrância.

Você me pergunta, “Por que a vida existe?”

Essas questões parecem muito filosóficas e podem te torturar muito, mas são absurdas. É como perguntar, “Qual é o sabor da cor verde?” Ora, é irrelevante. A cor verde não tem sabor; cor e sabor não são relacionadas de forma alguma. “Por que a vida existe?” Apenas olhe para as palavras: ‘vida’ e ‘existência’ querem dizer a mesma coisa; é uma tautologia. Se você estivesse perguntando: Por que a vida é vida? então seria claro para você. Mas quando você pergunta, “Por que a vida existe?” a linguagem te engana.

Você está perguntando: Por que a vida é vida? Você está perguntando: Por que a rosa é uma rosa? Você ficaria satisfeito se a rosa fosse um cravo-de-defunto? Então você perguntaria: Por que um cravo-de-defunto é um cravo-de-defunto? Como você ficaria satisfeito?

Se a vida não existisse, você ficaria satisfeito? Apenas imagine você sem corpo, sem mente, um fantasma, fazendo a questão: Por que a vida não existe? O que aconteceu com a vida? Por que desapareci? A mesma questão persistirá e perseguirá você.

A vida é um mistério. Não há porquês, não há propósito, não há razão. Ela está simplesmente aqui. Tome-a ou deixe-a, mas ela está simplesmente aqui. E quando ela está aqui, por que não tomá-la? Por que gastar o seu tempo filosofando? Por que não dançar, cantar, amar e meditar? Por que não ir cada vez mais fundo nessa coisa chamada “vida”? Talvez no núcleo último você conhecerá a resposta. Mas a resposta vem de uma forma que não pode ser expressa. É como o gosto do açúcar em um homem mudo. É doce – ele sabe que é doce, mas não pode dizê-lo.

Os budas sabem, mas não podem dizer. E os idiotas não sabem e seguem falando e te dando respostas. Os idiotas são muito hábeis nisso – em encontrar, fabricar, manufaturar respostas. Pergunte qualquer questão e eles o responderão.

 

Quando Gautama o Buda movia-se nesse país de um local para outro, alguns discípulos seguiam na sua frente e declaravam na cidade: “Buda está chegando, mas por favor não façam essas onze questões.” E uma dessas onze questões era: Por que a vida existe? e outra era: Quem criou o mundo? Nessas onze questões toda a filosofia estava contida. De fato, se você abandonar essas onze questões nada permanece a ser perguntado.

Buda dizia que essas questões eram inúteis. Elas não são respondíveis – não são porque ninguém sabe as respostas. Elas não são respondíveis de acordo com a própria natureza das coisas.

 

Um grande filósofo, Maulingaputta, foi até Buda e começou a fazer questões… uma questão atrás da outra. Deve ter sido uma encarnação de Patrick! Buda ouviu silenciosamente por meia hora. Maulingaputta começou a se sentir um pouco constrangido, porque Buda não respondia, estava apenas sentado sorrindo, como se nada estivesse acontecendo, e Maulingaputta fez questões importantes, significantes.

Finalmente Buda disse, “Você quer realmente saber a resposta?”

Maulingaputta disse, “Do contrário por que eu teria vindo até você? Eu viajei pelo menos mil milhas para ver-te.” E lembre-se, naquela época, mil milhas era realmente mil milhas! Não era subir em um avião e chegar em alguns minutos ou horas. Mil milhas era mil milhas. Ele chegou com muita ânsia, com muita esperança. Ele estava cansado, fatigado da viagem, e devia ter seguido Buda porque o próprio Buda estava continuamente viajando.

Maulingaputta chegava em um lugar e as pessoas diziam, “Buda partiu ontem de manhã; deve estar na próxima vila. Se você se apressar, se você correr, você será capaz de alcançá-lo.” E então um dia ele o alcançou, e estava tão feliz que esqueceu toda a sua árdua jornada e começou a fazer todas as questões que havia planejado por todo o caminho e Buda sorriu sentado ali e perguntou, “Você quer realmente saber a resposta?”

Maulingaputta disse, “Então por que eu viajaria tanto? Foi um longo sofrimento – parece que viajei por toda a minha vida, e você me pergunta, “Você realmente quer saber a resposta?”

Buda disse, “Vou perguntar novamente: você realmente quer saber a resposta? Diga sim ou não, porque muito dependerá disso.”

Maulingaputta disse, “Sim!”

Então Buda disse, “Por dois anos sente-se silenciosamente ao meu lado – sem perguntas, sem questões, sem conversa. Apenas sente-se silenciosamente ao meu lado por dois anos. E, depois de dois anos, você poderá perguntar qualquer coisa que quiser, e prometo responder-lhe.”

Um discípulo, um grande discípulo de Buda, Manjusri, que estava sentado debaixo de outra árvore, começou a rir muito alto, quase rolando no chão. Maulingaputta disse, “O que ocorre com esse homem? Subitamente, você está falando comigo, você não disse nenhuma palavra a ele, ninguém disse nada a ele – ele está fazendo piadas com si próprio?”

Buda, “Vai até lá e pergunte a ele.”

Maulingaputta perguntou para Manjusri. Manjusri disse, “Senhor, se você quer fazer a questão, faça agora – essa é a forma dele enganar as pessoas. Ele me enganou. Eu era um filósofo tolo como você. A resposta dele foi a mesma quando eu cheguei; você viajou mil milhas, eu viajei duas mil milhas.”

Manjusri certamente era um grande filósofo, mais conhecido no país. Ele tinha milhares de discípulos. Quando chegou haviam com ele mil discípulos – um grande filósofo chegando juntamente com seus seguidores.

“E Buda disse, ‘Sente-se silenciosamente por dois anos.’ E eu me sentei silenciosamente por dois anos, mas então eu não podia fazer uma única questão. Aqueles dias de silêncio… vagarosamente todas as questões secaram e caíram. E vou te dizer uma coisa: ele manteve sua promessa, ele é um homem de palavra. Depois de exatos dois anos – eu havia me esquecido completamente, perdido a noção do tempo, por que quem se preocupa em lembrar? Conforme o silêncio se aprofundava eu perdi a noção de todo o tempo.

“Quando dois anos se passaram, eu nem havia me dado conta. Eu estava desfrutando o silêncio e sua presença. Eu estava me embebendo dele. Era tão incrível! De fato, no fundo do meu coração eu não queria que estes dois anos acabassem, porque uma vez que eles acabassem ele diria, ‘Agora dê o seu lugar para outrem sentar ao meu lado, você se afasta um pouco. Agora você é capaz de ficar sozinho, você não precisa tanto de mim.’ Assim como a mãe afasta a criança quando esta pode comer e digerir e não precisa mais ser alimentada no peito. Então,” Manjusri disse, “Eu estava simplesmente esperando que ele esquecesse totalmente aqueles dois anos, mas ele lembrou – exatamente depois de dois anos ele me perguntou, ‘Manjusri, agora você pode fazer as suas questões.’ Eu olhei para dentro; não havia questão e nem aquele que questiona – um silêncio total. Eu ri, ele riu, deu um tapinha nas minhas costas e disse, ‘Agora, afaste-se um pouco.’

“Então, Maulingaputta, é por isso que comecei a rir, porque agora ele está utilizando o mesmo truque novamente. E esse pobre Maulingaputta sentar-se-á por dois anos silenciosamente e perder-se-á para sempre, nunca mais será capaz de fazer uma única questão. Por isso insisto, Maulingaputta, se você realmente quer saber, PERGUNTE AGORA!”

Mas Buda disse, “As minhas condições devem ser preenchidas.”

 

E, Patrick, a minha resposta é a mesma para você: preencha a minha condição – medite, sente-se silenciosamente, esteja apenas aqui, e todas as questões desaparecerão. Não estou interessado em responder a você, estou interessado em dissolver as suas questões. E quando todas as questões desaparecem, aquele que questiona também desaparece – ele não pode existir sem questões. Quando não existem questões nem questionador, que bem-aventurança, que êxtase! Você não pode imaginar, você não pode sonhar, você não pode compreender agora. Então todo o mistério da vida abre-se, mistérios atrás de mistérios… não há fim para isso.

 

A terceira questão:

Questão 3

AMADO MESTRE,

OUVI MUITOS SANTOS ESPIRITUAIS NA MINHA VIDA – POR QUE TODOS FALAM UMA LINGUAGEM MUITO DIFÍCIL?

 

Kamla Kant, eles têm que falar difícil, porque eles não sabem nada. Se eles falam uma linguagem simples como eu estou falando com você, a linguagem do dia a dia, eles não seriam capazes de esconder a sua ignorância. Por trás da camuflagem de grandes palavras eles escondem sua ignorância; esse é um dos seus segredos comerciais. E as pessoas são tão tolas que se elas não podem entender o que está sendo dito, elas pensam que deve ser algo grande.

O incompreensível parece algo profundo para elas. O compreensível parece superficial. Por isso, ao longo dos anos, os seus supostos santos usaram uma linguagem muito complicada, complexa, difícil, com grandes palavras, com línguas mortas, para que ninguém entenda. Latim, Sânscrito, Árabe – seus supostos santos utilizaram isso.

Quando os ouve você não entende, o que é tudo isso, e, naturalmente, você não pode dizer, “Eu não entendo a sua linguagem” – isso é humilhante. Então você começa a acenar com a cabeça, “Sim, isso é verdade.” Eles estão escondendo a ignorância deles, você está escondendo a sua ignorância – isso é uma conspiração mútua. Você sabe disso perfeitamente bem.

Quando você vai a um médico, ele escreve a receita em Latim ou Grego. Por que ele não escreve em simples Inglês ou Hindi ou Marathi? Se ele escrever em simples Inglês que você entende, você pensará que ele é um tolo, porque ele está escrevendo essas coisas – como tais coisas simples podem ajudar a sua grande e complexa doença? E se ele escreve em uma linguagem simples, você não dará ao químico cinquenta rúpias por isso; você irá ao mercado e comprará as mesmas coisas por duas rúpias.

O médico escreve a receita com aquela linguagem… e é sempre ilegível. Mesmo se você voltar ao doutor e perguntar o que ele escreveu, ele terá dificuldade.

 

Ouvi dizer que Mulla Nasruddin estava utilizando uma receita de um doutor para muitas coisas: ele a utilizou como passagem em um trem, porque o condutor não podia lê-la; ele a utilizou em uma casa de filmes, porque o verificador dos bilhetes não podia lê-la – ele a utilizou de diversas maneiras. Ele a utilizou como um passe para ver um certo ministro. Ele me disse, “Por dois meses essa receita ajudou muito – sempre que eu queria entrar e qualquer coisa que eu queria fazer, eu apenas apresentava essa receita porque eles não a conseguem ler e não podem admitir que não a conseguem ler. Eles simplesmente me autorizam, eles têm que me autorizar.”

 

Esse é um segredo bem conhecido, que os falsos santos têm que usar uma linguagem muito difícil; de outra forma você será capaz de ver que eles são tão ignorantes quanto você é, ou, às vezes, ainda mais ignorantes do que você. Eles criam uma grande camuflagem, uma fachada, de grandes palavras de línguas mortas. Eles citam escrituras, palavras vibrantes e você fica simplesmente perdido em relação ao que fazer. Ou aceitar a sua ignorância e perguntá-los o que eles estão falando, ou simplesmente dizer que aquilo deve ser algo muito profundo – como pode um homem como você, um pecador, ignorante, sem conhecimento, irreligioso, compreendê-lo?

 

Um sacerdote foi incumbido de conduzir uma renovação em uma pequena cidade do sul. Não havia hotel, então ele ficou em uma das irmãs da igreja, uma jovem viúva. Depois da renovação, de saída, ele disse à anfitriã, “Irmã Jones, nunca em toda a minha carreira eclesiástica encontrei uma manifestação tão abundante, satisfatória e duradoura de um exemplo meticuloso, completo e agradável de gratidão, graça, apreciação e hospitalidade como a que você demonstrou.”

A irmã Jones deu um sorriso afetado e respondeu, “Parson, não sei o que todas essas grandes palavras significam, mas quero dizer que você é um campeão real, um forte repetidor, e que você faz mais agradável, mais doce, mais completo e com menos cansaço que qualquer outra pessoa que tive aqui!”

 

Você pode utilizar uma linguagem muito complexa, mas você não pode enganar àqueles que conhecem – você pode enganar apenas aqueles que não conhecem. Se você ler os livros de Hegel você encontrará sentenças que continuam por páginas. Quando você alcançar o fim da sentença, você já esqueceu o início. É quase impossível retirar qualquer sentido dela. Por isso, quando Hegel estava vivo, ele era considerado o maior filósofo que já viveu na Terra. Porém, conforme as pessoas leram os seus livros mais detidamente – eruditos trabalharam, surraram e descobriram as coisas – viu-se que ele não estava dizendo nada muito especial. Muito era absoluto disparate – mas com grandes palavras. As grandes palavras atraem as pessoas, as grandes palavras fascinam as pessoas, as hipnotizam.

Você me pergunta, “Por que todos falam uma linguagem muito difícil?”

… Caso contrário, quem os ouvirá? Para quê?

 

Uma vez um lavrador com dois filhos preguiçosos ordenou que eles limpassem o buraco da latrina. Eles simplesmente cavaram uma nova fossa e moveram o sanitário poucos passos adiante. Um dia o velho homem teve um chamado da natureza e correu o conhecido caminho, caindo no buraco. Até o seu pescoço na merda, ele começou a berrar “Fogo! Fogo!”

As pessoas vieram correndo, retiraram-no e limparam-no, então perguntaram por que ele tinha gritado “Fogo!”

“Você acha que alguém viria se eu gritasse ‘Merda?’”

A razão pela qual eles usam linguagem difícil é simples; de outra forma, quem viria? Eles não podem falar como eu – estou simplesmente utilizando a linguagem que você utiliza. Estou simplesmente falando com você! Isso não é um sermão, apenas um diálogo entre amigos, fofoca – não é um evangelho.

E você pode usar palavras simples, palavras ordinárias, apenas se você realmente tem algo para transmitir, senão não. Se você não tem nada para transmitir, então você terá que usar palavras grandes por necessidade.

 

A última questão:

Questão 4

AMADO MESTRE,

TODOS OS SACERDOTES NÃO SÃO OS PIORES INIMIGOS DE DEUS?

 

Deepesh, nem todos os sacerdotes, apenas alguns – o papa, os shankaracharyas. Essas são as pessoas que são inimigas de Deus; de outra maneira, os pobres sacerdotes estão simplesmente tentando de alguma forma ganhar o seu pão com manteiga. Eles não têm nada a ver com Deus – eles não são amigos, não são inimigos. Eles não têm nenhum tempo para Deus. É apenas uma profissão, e uma profissão pobre. E o pobre sacerdote não ganha mais dinheiro do que o mais baixo sacristão, e ele corre o dia inteiro de um templo a outro, de uma casa a outra – ele é quase um mendigo! Não, ele não é inimigo de Deus. Ele simplesmente não conhece qualquer outra forma de ganhar o seu pão, particularmente na Índia.

Na Índia os sacerdotes são brâmanes e os brâmanes são as pessoas mais pobres. Eles não sabem mais nada, e eles não podem fazer outra coisa – a mente tradicional não os permite. Eles não podem ser sapateiros, não podem ser carpinteiros, não podem ser varredores… Os brâmanes ao longo das eras viveram apenas para uma coisa: orar aos deuses. Mas se você simplesmente continua orando a Deus, você morrerá, morrerá de fome. O dinheiro não vai cair em você dos céus; nunca ocorreu. Então você tem que usar a sua capacidade de orar, o seu conhecimento escritural, como uma profissão.

Mas o pobre sacerdote não é um inimigo ou algo do tipo. Ele não sabe nada sobre Deus, ele nem está realmente interessado em Deus de maneira alguma.

 

Lembro-me:

Um sacerdote vivia atrás da minha casa quando eu era criança. Eu costumava torturá-lo com grandes questões: “Deus existe? A alma é imortal? Qual é a filosofia do carma?” Um dia ele disse para mim, “Você por favor não me importune. Eu te digo a verdade: não sei de nada. E você é um incômodo! Ninguém me pergunta essas questões – sou simplesmente um sacerdote. As pessoas me pedem para fazer puja – adoração – então eu a faço, e elas me pagam duas rúpias, três rúpias por dia. De alguma forma eu sobrevivo. Tenho três crianças, um pai velho, mãe, esposa, e também tenho que fingir que vivo perfeitamente bem, porque é dessa forma que um brâmane deve fingir. O brâmane é de alta casta, então tenho que fingir que tudo está indo bem.

“E então depois de todo o dia de trabalho, quando chego em casa, você está sentado aí! Ganhei apenas três rúpias o dia todo, e nós estamos simplesmente famintos. Ora, quem se importa se Deus existe ou não! E eu não sei de nada. Só sei como adorar, e posso adorar qualquer deus – apenas me dê o dinheiro.”

 

Então por favor, Deepesh, não pense que todos os sacerdotes… nem todos os sacerdotes, apenas alguns sagazes são contra Deus. Eles adoram o Demônio, por sua causa pouquíssimas pessoas foram capazes de se transformarem em budas. Mas os outros sacerdotes, noventa e nove por cento deles, são apenas pessoas pobres que não sabem o que fazer. Tradicionalmente, conhecendo apenas uma coisa, elas podem mendigar. Mas elas são de casta alta, então mendigam com um método. Este método é o seu ritual de adoração.

 

Um homem vê placas na estrada dizendo UMA MILHA PARA O PROSTÍBULO DA VOVÓ. Tomado pela curiosidade e surpreso que alguém teve o descaramento de anunciar com tamanha franqueza, ele entrou.

Uma velha senhora o recebeu e falou rispidamente. “Dois dólares, por favor, e você pode entrar por aquela porta à sua frente no final do saguão.”

Ele pagou, foi até a porta, que bateu com força atrás dele, e encontrou-se em um jardim cheio de caixas de madeira com frentes de arame, dentro das caixas havia alguns gatos sarnentos. Em cima havia uma placa pequena escrita à mão: “Você foi enganado pela vovó. Por favor não conte o segredo – sou apenas uma velha senhora tentando fechar as contas.”

Por hoje é só.

 

 

 

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2 comentários em “Dhammapada: O Caminho do Buda, Vol 1. Cap 9 e 10, OSHO

  1. Olá, haverá continuação dos capítulos?

    1. Olá Daniele, muito obrigado por visitar o blog. Haverá sim, são 12 livros, cada um vai até o Cap. 10. Espero começar o próximo livro daqui alguns dias 🙂

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