Dhammapada: O Caminho do Buda, Vol 1. Cap 7 e 8, OSHO

O Dhammapada: O Caminho do Buda, Vol 1

Capítulo #7

Título do Capítulo: Seja vigilante

27 de Junho de 1979 na Sala Buda

 

O TOLO É NEGLIGENTE.

MAS O MESTRE GUARDA SUA VIGILÂNCIA.
É SEU TESOURO MAIS PRECIOSO.

 

ELE NUNCA CEDE AO DESEJO.

ELE MEDITA.

E NA FORÇA DA SUA DETERMINAÇÃO

DESCOBRE A VERDADEIRA FELICIDADE

 

ELE SUPERA O DESEJO –

E DA TORRE DA SABEDORIA

OLHA PARA BAIXO COM DESAPEGO

PARA A MULTIDÃO QUE SOFRE.

DO TOPO DA MONTANHA

OLHA PARA BAIXO PARA AQUELES

QUE VIVEM PRÓXIMO AO SOLO.

 

ATENTO ENTRE OS DESATENTOS,

ACORDADO ENQUANTO OS OUTROS SONHAM,

TÃO RÁPIDO QUANTO UM CAVALO DE CORRIDA

ELE ULTRAPASSA O CAMPO.

 

ATRAVÉS DO OBSERVAR

INDRA TORNOU-SE O REI DOS DEUSES.

QUÃO MARAVILHOSO É OBSERVAR,

QUÃO TOLO É DORMIR.

 

O BIKKHU QUE GUARDA A SUA MENTE

E TEME A TEIMOSIA DOS SEUS PENSAMENTOS

QUEIMA TODAS AS AMARRAS

COM O FOGO DA SUA VIGILÂNCIA.

 

O BIKKHU QUE GUARDA A SUA MENTE

E TEME A SUA PRÓPRIA CONFUSÃO

NÃO PODE CAIR.

ELE ENCONTROU O CAMINHO PARA A PAZ.

A vida é tridimensional e o ser humano é livre para escolher. A liberdade que o ser humano tem é tanto uma maldição quanto uma benção. Ele pode escolher subir, ele pode escolher cair. Ele pode escolher o caminho da escuridão ou o caminho da luz.

Nenhum outro ser tem a liberdade de escolher. As suas vidas são predeterminadas. Porque eles são predeterminados não podem extraviar-se – esta é a sua beleza. Mas porque são predeterminados eles são mecânicos – esta é a sua feiura.

O ser humano ainda não é um ser no verdadeiro sentido. Ele é apenas um vir a ser, está no caminho. Ele está buscando, procurando, tateando; ele ainda não está cristalizado. É por isso que ele não sabe quem é – porque ele ainda não é; como poderia saber? Antes de saber, o ser tem que ocorrer. E o ser só é possível se você escolher corretamente, conscientemente, com total vigilância.

Jean-Paul Sartre está certo quando diz que o ser humano é um projeto, que o ser humano cria a si mesmo por seu próprio esforço, que o ser humano nasce apenas como uma oportunidade, uma possibilidade, não como uma atualidade. Ele deve tornar-se atual – e existe muita possibilidade de ele errar o alvo; é muito raro uma pessoa encontrar o seu ser. Quando uma pessoa encontra o seu ser, ela é um buda.

Mas o requerimento básico é: escolha a sua vida com vigilância. Você tem que escolher de qualquer forma – se você vai escolher com ou sem vigilância não faz diferença, a escolha tem que ser feita. Você não é livre no sentido que se você não quiser escolher isso será permitido. Você não é livre para não escolher – mesmo não escolher será uma escolha.

Os milhões que perdem, eles perdem porque não escolheram. Eles simplesmente esperam; eles seguem como se algo fosse ocorrer. Nada nunca ocorre dessa maneira. Você deve criar o contexto, o espaço, para que algo valioso ocorra com você, para que algo essencial ocorra com você.

Há duas escolas de filósofos no mundo. Uma acredita que o ser humano nasce com uma essência: a escola essencialista. Ela diz que o ser humano já nasce pronto. Esta é a ideia de todos os fatalistas. A outra escola é a dos existencialistas. Eles acreditam que o ser humano nasce não como uma essência, mas apenas como uma existência.

E qual é a diferença? A essência é predeterminada; você a traz com sua vida, você a traz como uma planta arquitetônica. Você tem apenas de desdobrá-la. Você já foi feito. Você não tem escolha em como fazer a si mesmo, em como criar a si mesmo. É um ponto de vista muito desimaginativo; ele reduz o ser humano a uma máquina.

A outra escola acredita que o ser humano nasce apenas como uma existência. A essência deve ser criada; não está lá de antemão. Você tem que criar-se, tem que encontrar formas e meios para vir a ser, para ser. Você tem que tornar-se um útero para o seu próprio ser, você tem que dar à luz a si mesmo. O nascimento físico não é o verdadeiro nascimento; você terá que nascer novamente.

Jesus diz a Nicodemos, “A menos que você nasça novamente, você não entrará no reino de meu Deus.” O que ele quer dizer? Nicodemos deve primeiro morrer fisicamente? Não. Jesus significa algo totalmente diferente: ele tem que morrer como um ego, tem que morrer como uma personalidade. Ele tem que morrer como um passado. Ele tem que morrer como mente. Apenas quando você morre como mente você nasce como ser.

No Oriente chamamos os budas de duplamente nascidos – dwij. As outras pessoas nasceram apenas uma vez; um buda nasceu duas vezes. O primeiro presente da vida é através dos pais; o segundo presente você tem que dar a si mesmo.

Você pode escolher entre essas três dimensões. Se você escolher uma dimensão você alcançará uma certa integridade, mas, porque é unidimensional, não será total e não será inteira. A primeira dimensão é a dimensão da ciência, do mundo objetivo, dos objetos, coisas, o outro. A segunda dimensão é a da estética: o mundo da música, poesia, pintura, escultura, o mundo da imaginação. E a terceira dimensão é a da religião – subjetiva, interior.

A ciência e a religião são opostas polares: a ciência é extrovertida, a religião é introvertida. E entre as duas está o mundo da estética. Esta é a ponte; ao mesmo tempo ambas e nenhuma. O mundo da estética, o mundo do artista, por um lado, é objetivo – apenas por um lado. Ele pinta, e então uma pintura nasce como um objeto. É também subjetivo, porque antes de pintar ele tem que criar a pintura em sua interioridade, em sua subjetividade. Antes de um poeta poder cantar a sua música, ele a canta nas reentrâncias mais profundas do seu ser. Primeiro a canta ali, e somente então ela se move para o mundo externo.

A estética é científica no sentido em que a arte cria objetos, e é religiosa no sentido que qualquer coisa que a arte cria é, primeiramente, antevista no próprio ser interior de alguém. É uma ponte entre a ciência e a religião. A religião é absoluta interioridade. É mover-se para o seu núcleo mais interior, é subjetividade.

Essas são as três dimensões.

Se você se tornar um cientista e perder contato com a estética e a religião, você será um ser humano unidimensional. Você será apenas um terço; você não será inteiro. Você pode alcançar uma certa integridade que é possível ver em um homem como Albert Einstein – uma certa individualidade, uma beleza, uma verdade, mas apenas parcial.

Você pode escolher ser um artista: você pode ser um Picasso, um Van Gogh, um Beethoven, um Rabindranath, mas então também… você será um pouco melhor porque a estética é o mundo intermediário, o mundo do crepúsculo. Você terá algo da religião. Todo poeta tem algo de religião consigo – ele pode estar consciente disso, pode não estar consciente, mas não existe nenhum poeta que não tem algum sabor de religião. É impossível. Mesmo o artista mais ateu deve ter algum tipo de religiosidade. Sem esta ele não será um gênio. Sem a religião ele permanecerá apenas um técnico, um artesão, mas não um artista.

Mesmo um homem com Jean-Paul Sartre – que é um ateu determinado, que nunca concederia que é religioso – mesmo ele é, de algum modo, religioso. E criou grandes romances, e estes romances e os personagens destes romances têm grande interioridade. Esta interioridade foi vivida por este homem, senão ele não poderia escrever sobre ela. Esta interioridade é experienciada.

E o homem que se move para a estética deve ter algumas qualidades científicas ao seu redor também. Ele será mais lógico do que a pessoa religiosa, mais orientado aos objetos do que a pessoa religiosa – menos orientado aos objetos do que o cientista, é claro, menos lógico do que o cientista, mas mais lógico do que a pessoa religiosa. Ele estará em um estado mais harmonioso.

É melhor mover-se no mundo da arte porque, de alguma forma, ela tem algo de todas as três dimensões – mas apenas algo, ainda não é total.

O ser humano religioso é novamente unidimensional, assim como o cientista. Albert Einstein é unidimensional, Gautama o Buda também o é. E porque o Oriente tornou-se religioso de maneira unidimensional, o Oriente sofreu muito. E agora o Ocidente está sofrendo muito, e a causa é a qualidade unidimensional. O Ocidente está falido em relação ao mundo interior e o Oriente está falido em relação ao mundo exterior.

O Oriente não é pobre e faminto acidentalmente. Ele escolheu ser assim. O Oriente evitou a ciência; evitou até mesmo o mundo da realidade objetiva. Diz-se que o mundo é ilusório. Se o mundo é ilusório, como criar a ciência? O primeiro requerimento está faltando. Você não pode criar ciência a partir de maya, ilusão. Como você pode criar ciência de algo que não é, que nem existe? Se você nega o mundo, você nega completamente a dimensão da ciência.

Esta é a razão do Oriente ser pobre e faminto. E a menos que o gênio Oriental entenda isso, podemos seguir importando ciência do Ocidente, porém, ela não se enraizará em nossos seres. Se a sua abordagem permanece a mesma de cinco mil anos atrás, a ciência será apenas algo estranho. É isso o que ocorre.

Na Índia você pode encontrar um cientista, famoso mundialmente em sua área, que ainda vive uma vida muito não-científica. Ele pode estar consultando o quiromante e o astrólogo. Ele pode ir tomar um banho no Ganges, para que seus pecados de muitas vidas sejam lavados. Ele ainda pode acreditar em mil e uma coisas que são simplesmente supersticiosas – e ainda assim ele é um cientista! A ciência permanece periférica; a sua alma ainda permanece enraizada no passado antigo do Oriente, que é não-científico.

O Oriente sofreu muito porque é unidimensional. E agora o Ocidente está sofrendo novamente pela mesma razão: unidimensionalidade. O Ocidente escolheu ser científico em vez de religioso. Agora Deus é negado, a alma é negada. O ser humano foi reduzido primeiro a um animal e agora a uma máquina. O ser humano perdeu toda glória, toda a grandeza. Perdeu toda a esperança, todo o futuro. No momento em que o ser humano perde a sua interioridade ele perde profundidade, torna-se superficial. O homem Ocidental é rico em relação às coisas, mas é muito pobre em relação à alma – interiormente pobre, exteriormente rico.

Esta é a situação atual.

E entre esses dois extremos existem poucos artistas que têm algo de ambas as dimensões. Mas mesmo o artista não está satisfeito, porque tem algo de ambas, mas não é nem um cientista nem uma pessoa religiosa – tem apenas alguns vislumbres de ambos os mundos. Ele permanece em um tipo de limbo; ele nunca se tranquiliza, ele permanece um vagabundo. Ele se move como uma espaçonave entre esses dois mundos. Ele não contribui muito: porque não é um cientista não pode contribuir cientificamente e não é religioso então não pode contribuir religiosamente. No máximo a sua arte permanece decorativa; no máximo essa pode fazer a vida um pouco mais bela, um pouco mais confortável, conveniente. Mas isso não é muito.

Proponho o quarto caminho. O verdadeiro ser humano será as três simultaneamente: ele será um cientista, um artista e religioso. E chamo o quarto ser humano de espiritual. É aqui que sou diferente de Albert Einstein, Gautama o Buda e Picasso – de todos eles. Você deve lembrar-se das minhas diferenças.

Buda é unidimensional – tremendamente belo! Em relação ao seu mundo interior ele é o maior mestre, o mestre do interior, insuperado, mas permanece unidimensional. Ele alcança imensa paz, silêncio, bem-aventurança, mas não contribui ao mundo de maneira objetiva.

Albert Einstein contribui ao mundo de uma maneira muito objetiva, mas não pode contribuir com nada interior – por isso a sua contribuição torna-se uma maldição. Ele sofreu toda a sua vida porque ele foi o homem que propôs que as bombas atômicas fossem feitas. Ele escreveu uma carta para o presidente Americano: “Agora é hora – a menos que as bombas atômicas sejam feitas a guerra continuará por anos e será muito destrutiva. Apenas fazer as bombas atômicas, a sua própria ameaça, cessará a guerra.”

Mas uma vez que o poder – qualquer tipo de poder – alcança às mãos dos políticos, você não pode controlá-los, você não pode preveni-los de usá-lo. Os políticos são as pessoas mais estúpidas – amacacados, loucos pelo poder.

Uma vez que a bomba atômica caiu nas mãos dos políticos Americanos ela tinha que ser lançada em algum lugar. Hiroshima, Nagasaki, era inevitável. E quando ocorreu foi um ferimento, um grande ferimento para Albert Einstein. Ele se arrependeu por toda a vida.

Em seus últimos momentos, quando alguém o perguntou, “Você gostaria de ser novamente um cientista se Deus lhe desse uma oportunidade de nascer nesse mundo novamente?”

Ele disse, “Não, certamente não, absolutamente não! Eu preferiria ser um encanador do que um físico, um cientista. Chega! Eu não fui uma benção ao mundo, fui uma maldição.”

Ele enriqueceu o mundo externo, mas sem crescimento interior, o crescimento exterior cria um desequilíbrio. Você possui muitas coisas, mas você não possui a si mesmo. Você tem tudo o que poderia lhe fazer feliz, mas você não é feliz, porque a felicidade não pode ser derivada das suas possessões. A felicidade é um bombeamento interno; é um despertar das suas próprias energias. É um acordar da sua alma.

Buda contribuiu tremendamente para a dimensão subjetiva. É um mestre por excelência. Qualquer coisa que ele diz é absolutamente verdadeiro, mas é unidimensional – nunca esqueça.

O meu esforço aqui é para criar o quarto caminho: um ser humano que una todas as três dimensões da vida em si próprio, que se torna uma trindade, um trimurti, que tem todas essas três faces de Deus em si. Que tem uma mente tão lógica quanto a necessária para a ciência e que também é tão poético quanto é necessário na estética, e que também é tão meditativo e vigilante quanto é proposto pelos budas.

O quarto ser humano é a esperança do mundo. O quarto caminho é a única possibilidade de sobrevivência do ser humano. Se o ser humano deve continuar a existir nessa Terra, temos que encontrar uma grande síntese entre essas três dimensões. E se todas essas três dimensões estão se encontrando, misturando, fundindo em uma, é claro que essa síntese é a quarta.

Estou falando de Buda, Mahavira, Jesus, Patanjali, Lao Tsé e muitos mais. Mas sempre relembre-se que todas essas pessoas são unidimensionais. Quero enriquecer a sua vida através dos ensinamentos deles, mas não termino com eles. Eu gostaria que você fosse um pouco mais profundo em outras dimensões também.

Por isso a nova comuna será um local de encontro do Ocidente com o Oriente, do subjetivo com o objetivo. Na nova comuna teremos cientistas, artistas, poetas, pintores, cantores, músicos, meditadores, iogues, místicos – todos os tipos de pessoas vertendo suas energias em um grande rio. E é assim que eu gostaria que todo o mundo fosse.

Buda deve ser incorporado na comuna, é por isso que estou falando sobre ele. E, é claro, a terceira dimensão, a religiosa, é uma das mais importantes, a dimensão mais importante. Sem ela tudo é sem alma.

Os sutras de hoje:

O TOLO É NEGLIGENTE.

MAS O MESTRE GUARDA SUA VIGILÂNCIA.
É SEU TESOURO MAIS PRECIOSO.

Buda chama alguém de tolo, não porque esse alguém é ignorante, não porque não é instruído. De acordo com Buda, um ser humano é tolo se está inconsciente, se se comporta inconscientemente, se vive no sono, se é um sonambulo. Se ele segue comportando-se sem qualquer atenção plena, então é um tolo. A palavra tem um significado especial, lembre-se: inconsciência, alheamento, desatenção – essa é a definição de tolo de Buda.

Ele se move na vida como uma madeira à deriva, à mercê dos ventos. Ele não sabe quem é, não sabe de onde veio, não sabe para onde vai. Ele é acidental; ele vive simplesmente por acidente. Não tem consciência, nenhuma busca deliberada pelo ser, pela verdade, pela realidade. Ele segue à multidão; permanece uma parte da psicologia da turba. Não é um indivíduo. Não tem inteligência autêntica própria; simplesmente segue os outros. Os pais disseram algo, os professores, os sacerdotes, os políticos, e ele segue todos os tipos de conselhos. Ele não tem ideia porque está aqui, para que, o que está fazendo, e o porquê. Ele nunca levanta essas questões.

Essas questões são muito desconfortáveis para ele. Elas criam ansiedade nele; ele renega essas questões. Simplesmente acredita nas respostas que lhe são entregues; nunca duvida dessas respostas. Não que ele atingiu à confiança – não, ele não tem confiança também – mas simplesmente reprime a sua dúvida porque a dúvida cria desconforto.

Ele permanece um Hindu, um Islâmico, um Cristão. Ele nunca investiga e nunca arrisca nada pela sua investigação. Nunca explora. Não é um aventureiro, sua vida não é uma aventura. Ele está preso, dormente, estagnado. Você não pode separá-lo do seu grupo; ele é uma ovelha, Buda o chama de tolo.

O tolo pode ser muito instruído – de fato quase sempre o é. Ele pode ser um pândita, um erudito, um grande professor – é dessa forma que ele esconde sua tolice. Ao ganhar conhecimento na circunferência ele esconde a ignorância que existe no centro.

Há dois tipos de pessoas: primeiro, pessoas muito instruídas – instruídas, mas não sabem nada. Elas têm um tipo de conhecimento ignorante. E há uma segunda categoria: as pessoas que não são instruídas – mas sabem. Elas têm um tipo de ignorância inteligente.

Quando Buda usa a palavra ‘tolo’ ele não está falando da segunda categoria – porque o próprio Buda não é muito instruído, nem Jesus o é, nem Maomé. Eles são pessoas inocentes, pessoas simples, mas sua simplicidade é tal, são inocência é tal, sua qualidade infantil é tal que eles foram capazes de penetrar no núcleo mais interior de seus seres. Eles foram capazes de conhecer a sua verdade; eles foram capazes de alcançar o próprio núcleo de sua existência. Eles sabem, mas não são instruídos. O conhecimento deles não é através das escrituras. O conhecimento deles aconteceu através da vigilância. Lembre-se da fonte: o conhecimento real vem através da meditação, consciência, atenção plena, vigilância, do testemunhar. E o conhecimento irreal vem através das escrituras. Você pode aprender o conhecimento irreal muito facilmente e você pode vangloriar-se dele, mas você permanecerá um tolo – um tolo instruído, mas mesmo assim um tolo.

Se você quer realmente saber você tem que abandonar todo o seu conhecimento, você tem que desaprendê-lo. Você tem que tornar-se ignorante novamente, como uma criança pequena, com olhos surpresos, com vigilância. Você será capaz de conhecer não apenas o seu ser mas também o ser que existe no mundo… o ser que existe nas árvores e nos pássaros, nos animais, nas rochas e nas estrelas. Se você for capaz de conhecer a si mesmo, você será capaz de conhecer tudo isso.

Deus é outro nome para tudo isso.

O TOLO É NEGLIGENTE. Por “negligente” Buda quer dizer que ele se comporta inconscientemente. Ele não sabe o que está fazendo. Ele simplesmente segue fazendo as coisas porque não pode permanecer desocupado; ele quer uma ocupação constante. Ele não pode permanecer sozinho; ele quer companhia constante.  Ele não pode permanecer tranquilo nem um por único momento, porque sempre que ele está tranquilo, desocupado, sozinho, ele começa a encarar a si próprio – e ele tem muito medo disso.

Ele não quer ir até o abismo do seu próprio ser. Tudo o que sabe é sem sentido ali. Tudo o que sabe, não pode carregá-lo até lá. Todo o seu conhecimento, toda a sua eficiência, todas as suas escrituras, todas as suas teorias são totalmente fúteis no mundo interior. Ele se apega ao externo porque ali ele é alguém. No mundo interior ele não é ninguém.

Apenas observe as pessoas! De fato, é o maior entretenimento: fique à margem da estrada e apenas observe as pessoas. O que elas estão fazendo? Por que elas o estão fazendo? E então observe a si próprio – o que você está fazendo? e por quê?

Um homem encontra uma jovem mulher no saguão do hotel e vão juntos até o apartamento dela. Ambos tiram as roupas, mas então ela diz, “Primeiro me persiga! Quero ficar inflamada, excitada!”

Ele a persegue por duas horas, mas não consegue pegá-la e sai com desgosto.

Na próxima noite ele a vê com outra vítima no mesmo saguão e se move sorrateiramente pela saída de incêndio para ver o vexame do novo otário através da janela. Conforme observa as pernas nuas cintilando por debaixo da sombra da janela parcialmente fechada, ele diz para si mesmo em voz alta, “A, irmão, olhe só isso!”

“Você diz isso!” sussurra a voz de um homem em seu ouvido, “mas você deveria ter visto o filho da mãe que estava aqui na última noite!”

Apenas observe as pessoas – o que elas estão fazendo? Perseguindo sombras, perseguindo coisas que não precisam, fazendo um grande esforço para conseguir algo que uma vez conquistado elas não saberão o que fazer com ele. É assim que as pessoas correm atrás de dinheiro, de poder político. Uma vez que você os têm você não saberá o que fazer com eles.

Uma mulher falava para outra, “Você não está preocupada com seu marido? Ele continuamente corre atrás das mulheres, qualquer mulher – e você sabe disso!”

E a outra mulher riu. Ela disse, “Não há nada para se preocupar: ele correr atrás das mulheres é igual os cães que correm atrás dos carros.”

A outra mulher disse, “Não entendo. O que você quer dizer, cães correndo atrás dos carros?”

Ela disse, “Sim, cães correndo atrás dos carros – uma vez que conseguem alcançá-los eles não sabem o que fazer com o carro, exatamente igual o meu marido. Ele vai correr atrás de uma mulher, ele vai segurá-la. Então ele não saberá o que fazer com ela. Eu o conheço! É por isso que não estou preocupada.”

Esta é a situação. Alguém quer ser muito famoso, então gastará toda a sua vida para tornar-se famoso e então não saberá o que fazer com a fama. De fato, uma vez que você se torna famoso, você quererá tornar-se não-famoso novamente, porque é um peso. Você não pode relaxar. Você não pode ir para lugar algum sem ser vigiado pelas multidões. Você não tem mais privacidade, não pode viver qualquer vida pessoal. Todos estão olhando, observando, investigando a sua vida. Você não pode rir, não pode falar com facilidade… tudo torna-se difícil.

Há alguns dias atrás Jimmy Carter disse que se Kennedy ficasse contra ele nas eleições presidenciais ele “chicotearia sua bunda.” Agora ele está sendo condenado por todo o mundo por usar essa palavra. Você não pode nem usar uma palavra inocente. Agora ele deve estar muito arrependido pelo que fez. Ele cometeu um crime.

Você não tem vida privada quando é famoso – quando você é um presidente de um país, um ganhador de Prêmio Nobel, você é uma coisa pública. Você está sempre em exposição, na janela da exposição; você tem que manter-se sempre vestido. Você não pode fazer um simples gesto em liberdade.

As pessoas têm dinheiro… e então elas não sabem o que fazer com ele.

O ser humano acidental é tolo. O ser humano sábio move-se deliberadamente, toma cada passo conscientemente. A sua vida é uma investigação constante pela verdade. Ele não se extravia. Ele permanece alerta em todos os seus atos – não por causa dos outros. Ele permanece alerta porque é apenas ao ficar alerta que ele se torna integrado, cristalizado.

O TOLO É NEGLIGENTE. O ser humano sábio cuida – cuida de si próprio, cuida da sua vida, e cuida dos outros também. Ele cuida de tudo, porque valoriza a sua vida. Ele sabe que a vida é muito preciosa, que é uma oportunidade de crescimento dada por Deus, que não deve perder-se em um tipo de embriaguez.

Uma prostituta reformada juntou-se ao Exército da Salvação e estava se confessando em uma esquina. “Eu me jogava nos braços dos homens,” ela confessava, “homens brancos, homens negros, Chineses. Mas agora eu me jogo nos braços de Jesus.”

“Tá certo, irmã,” grita um bêbado na parte de trás da fila, “fode todos eles!”

Apenas observe as pessoas e a si mesmo e você ficará surpreso quão inconsciente, quão bêbadas elas estão. Quão descuidadas! Não ouvimos o que é dito, não vemos o que vemos. Os nossos olhos estão enublados, as nossas mentes confusas, nossos seres não têm claridade. Não somos perceptivos, não somos sensíveis.

Seguimos declarando coisas que não queremos dizer, e então sofremos por elas. Seguimos dizendo coisas que nunca quisemos dizer. Seguimos fazendo coisas – que até mesmo quando estamos fazendo-as sabemos que não as queremos, ainda assim seguimos fazendo-as. Alguma força inconsciente segue nos dirigindo. Às vezes nós até decidimos não fazer tal coisa, ou não dizer tal coisa – e mesmo assim nós a fazemos e falamos, até mesmo contra as nossas próprias decisões. Não temos qualquer determinação, qualquer decisão, não temos nenhuma vontade.

Ela sabia que aquelas seriam as últimas horas dela na Terra, então chamou seu marido para seu lado e com uma voz hesitante disse-lhe o seu último desejo.

“Eu sei,” ela disse, “que você e sua mãe nunca se deram bem. Mas você poderia, como um favor especial para mim, ir com ela até o cemitério no mesmo carro?”

“Tudo bem,” replicou o infeliz marido. “Mas isso vai arruinar todo o meu dia.”

Isso não é realmente uma piada – isso acontece todo dia. Você diz coisas que você deveria saber que não são certas. Mas você fica sabendo só depois, quando o dano foi feito. Declarações inconscientes.

Ora, esse homem estava chorando e dizendo para sua esposa, “Sem você será impossível viver. Permanecerei sempre vazio sem você, uma parte da minha alma morrerá com você…” e outras coisas como essas. Mas agora, nesse momento, ele esqueceu tudo.

O TOLO É NEGLIGENTE. MAS O MESTRE GUARDA SUA VIGILÂNCIA. É SEU TESOURO MAIS PRECIOSO. O tolo permanece um escravo – um escravo dos instintos, um escravo dos desejos inconscientes, um escravo dos caprichos, um escravo da sociedade onde nasceu, um escravo das tendências – um escravo de qualquer coisa que ocorra ao seu redor. Ele simplesmente coleta. Se o vizinho está comprando um carro novo, ele tem que comprar um carro novo também. Ele não precisa do carro novo. Se o vizinho comprou uma casa nas montanhas, ele a tem que comprar. Pode ser difícil e árduo conseguir o dinheiro. Talvez ele tenha que emprestar, pode levar anos para que pague, mas ele tem que a comprar. Seu ego está ferido. As pessoas estão vivendo imitativamente, muito desatentamente.

Entre os Esquimós há uma tradição, uma tradição muito bela, todo ano, no primeiro dia do ano, todas as famílias olham na casa o que é desnecessário e o que é necessário – elas arrumam as coisas. E apenas o que é absolutamente necessário é salvo; tudo que é desnecessário é dado às pessoas como presentes.

E você ficará surpreso em saber que a casa dos Esquimós é a casa mais limpa do mundo, há uma pureza nela – nenhum lixo, nada acumula. Espaçosa – pequena mas espaçosa; apenas o que é necessário, absolutamente necessário…

Apenas pense em todas as coisas que você segue acumulando: elas são todas necessárias? você realmente precisa delas? Ou é apenas porque as pessoas estão acumulando que você também tornou-se acumulativo?

O ser humano vigilante se torna o mestre da sua vida. Ele vive de acordo com sua luz, não de acordo com a vida dos outros. Ele vive de acordo com suas próprias necessidades. E lembre-se, as suas necessidades não são muitas. Se você for sábio, vigilante, você terá uma vida muito contente e muito simples e com coisas pequenas.

Mas se você for imitativo, então a sua vida tornar-se-á muito complexa, desnecessariamente complexa. E não estou dando a você direções particulares sobre o que você deve ter e o que você não deve ter. Estou simplesmente dizendo: siga observando… qualquer coisa que é necessária para você, possua-a; e qualquer coisa que não é necessária para você, esqueça-a. Este é o caminho do sannyasin.

Não sou a favor do renunciar das coisas, mas certamente sou a favor de renunciar do lixo desnecessário. E você não apenas coleta coisas desnecessárias – você deseja coisas desnecessárias e você nunca medita se essas coisas são realmente necessárias. Elas vão ajudar de alguma forma? Elas tornar-te-ão mais feliz, mais bem-aventurado?

Antes de começar a desejar uma coisa, repense três vezes… e você se surpreenderá. Entre uma centena de desejos, noventa e nove são absolutamente inúteis. Eles simplesmente o mantém ocupado; esta é sua única função. Eles mantêm-te afastado de si mesmo; essa é a sua única utilidade. Eles não lhe dão espaço e tempo. Eles são perigosos. É por causa das coisas desnecessárias que você desperdiça a sua vida e você morrerá na falência.

… O MESTRE GUARDA A SUA VIGILÂNCIA.

Eu ouvi:

O marido e a esposa estavam ficando loucos pela persistente presença do irmão da esposa, que veio para ficar um final de semana, mas ainda estava por ali seis meses depois. Eles decidem que a esposa vai cozinhar um frango e o marido fingirá que está excessivamente cozido. Eles colocarão a questão ao irmão da esposa. Se ele disser que o frango está bom, o marido vai colocá-lo para fora; se disser que o frango está mal a esposa vai colocá-lo para fora. Não poderia dar errado!

A cena estava pronta conforme planejada, com muita recriminação e gritaria simuladas, enquanto o irmão silenciosamente arrumava sua comida. De repente o marido e a esposa pararam de gritar e olharam para ele.

“Harry,” disse o marido, “o que você acha?”

“Eu?” disse Harry, mordendo a asa do frango. “Acho que vou ficar por mais três meses.”

Deve ter sido um homem muito vigilante. Deve ter sido muito cuidadoso, alerta. Ele não caiu na armadilha. A armadilha certamente era muito sutil. A menos que estivesse muito alerta, certamente o prenderia. Ele não dá nenhuma opinião. Ele simplesmente declara um fato, que “Vou ficar por mais três meses.”

Viva com vigilância e você não cairá na armadilha. Viva inconscientemente e em cada passo você ficará preso; a sua vida torna-se cada vez mais emprisionada. E ninguém é responsável exceto você.

MAS O MESTRE GUARDA SUA VIGILÂNCIA. É SEU TESOURO MAIS PRECIOSO. Qualquer coisa que ele faz, faz com total consciência. Qualquer coisa que você faz, você faz quase mecanicamente. Você tem que desautomatizar-se. A meditação é isso: o processo de des-automatização.

Você tornou-se automático. Você segue dirigindo o carro, fumando um cigarro, falando com um amigo e pensando mil e um pensamentos dentro. A maioria dos acidentes ocorrem por causa disso. Mais seres humanos morrem todos os anos nos carros, trens, aviões e acidentes similares do que nas guerras. Adolf Hitler pode não ter matado tantas pessoas quanto as que são mortas todos os anos por causa do comportamento mecânico do ser humano ao redor do mundo.

Mas o que você pode fazer? Essa é toda a sua forma de vida, é como você vive. Você come – você simplesmente se estufa, você não presta atenção no que você está comendo. Você faz amor com sua esposa ou marido – você nem vê a face da mulher. Você tornou-se muito insensível; você apenas segue movendo-se por gestos vazios, sem significância. Eles não podem ter qualquer significância a menos que você esteja totalmente alerta.

É a luz da vigilância que torna as coisas preciosas, extraordinárias. Então as coisas pequenas não são mais pequenas. Quando um ser humano com vigilância, com sensibilidade, amor, toca um pedregulho ordinário na praia, esse pedregulho torna-se um Koh-í-noor. E se você tocar um Koh-í-noor em seu estado inconsciente, ele será apenas um pedregulho ordinário – nem mesmo isso. A sua vida terá profundidade e significado proporcionais à sua vigilância.

Agora as pessoas têm se perguntado por todo o mundo, “Qual o significado da vida?” É claro que o significado está perdido, porque você perdeu o caminho para encontrar o significado – e o caminho é a vigilância. É SEU MAIS PRECIOSO TESOURO.

ELE NUNCA CEDE AO DESEJO.

O que Buda quer dizer por “desejo”? Desejo significa toda a sua mente. Desejo significa não estar no aqui-agora. Desejo significa mover-se para algum lugar no futuro que ainda não existe. Desejo significa mil e uma formas de escapar do presente. O desejo é equivalente à mente. Na terminologia de Buda, o desejo é a mente.

E o desejo é o tempo também. Quando digo que o desejo é o tempo também, não quero dizer o tempo do relógio, quero dizer o tempo psicológico. Como você cria o futuro na sua mente? – através do desejo. Você quer fazer algo amanhã, você criou o amanhã; do contrário o amanhã ainda não existe, ainda não veio. Mas você quer fazer algo amanhã, e porque você quer fazer algo amanhã você criou um amanhã psicológico.

E as pessoas estão criando os anos à frente, as vidas à frente. Elas estão até pensando o que fazer na além-vida, depois da morte. Elas estão até se preparando para isso! E achamos que essas pessoas são religiosas; elas não são religiosas de maneira alguma. O desejo te retira do aqui-agora, e o aqui-agora é a única realidade.

Por isso Buda diz: ELE NUNCA CEDE AO DESEJO. Ele nunca se move para o futuro, ele vive no presente. Viver no futuro é viver uma vida falsa, uma pseudo-vida.

Uma elegante atriz recusa um jovem que lhe pede favores, alegando que ele era Judeu, e rindo da sua oferta de cem mil francos. Ela lhe diz que, para mostrá-lo quão pouco ela se importa com seu dinheiro, ele poderia fazer amor com ela contanto que os cem mil francos fossem queimados.

Ele voltou no próximo dia com o dinheiro, colocou dez notas em uma linha com as extremidades sobrepondo-se, acendeu a primeira e pulou na cama com ela. Quando a última nota queimou-se, ela o empurrou para longe de si.

“Bem, eu consegui você” ele diz triunfantemente.

“Sim”, ela sorri, “e seus cem mil francos estão queimados em cinzas.”

“O que importa?” ele disse, acendendo um cigarro. “Eles são falsificados.”

O ser humano vive no futuro, vive uma vida falsificada. Ele não vive realmente, ele finge viver. Ele espera viver, deseja viver, mas nunca vive. E o amanhã nunca chega, é sempre hoje. E qualquer coisa que venha será sempre aqui e agora, e ele não sabe como viver no aqui-agora; ele sabe apenas como escapar do aqui-agora. A forma de escapar é chamada “desejo,” tanha – é a palavra de Buda para o escapar do presente, do real para o irreal.

O homem que deseja é um escapista.

Ora, isso é muito estranho, pensa-se que os meditadores são escapistas. Isso é puro disparate. Apenas o meditador não é um escapista – todas as outras pessoas o são. Meditação significa sair do desejo, sair dos pensamentos, sair da mente. A meditação significa relaxar no momento, no presente. A meditação é a única coisa no mundo que não é escapista, apesar das pessoas pensarem que é a coisa mais escapista. As pessoas que condenam à meditação sempre a condenam com o argumento de que é uma fuga, uma fuga da vida. Elas estão simplesmente falando bobagens; elas não entendem o que estão dizendo.

A meditação não é escapar da vida: é escapar na vida. A mente está escapando da vida, o desejo está escapando da vida.

ELE NUNCA CEDE AO DESEJO…

ELE MEDITA.

Ele traz a si próprio ao presente repetidamente. Repetidamente a mente começa a funcionar e ele a traz de volta para o presente. Vagarosamente começa a ocorrer: a janela abre-se e pela primeira vez você vê o céu como ele é. E pela primeira vez você sente o vento e a chuva e o sol, em sua imediatez, porque você se torna meditativo. Você começa a tocar a vida. Então a vida não é mais uma palavra, mas uma realidade tangível; então o amor não é mais uma palavra, mas uma energia transbordante. Então a benção não é apenas mais um desejo, uma esperança – você a sente, você a tem, você é a benção.

ELE MEDITA… Buda não é a favor da oração, ele é a favor da meditação, porque a oração é, novamente, de algum modo, um tipo de desejo. Quando você ora, você deseja. A oração é sempre para o futuro; orar significa que você está pedindo algo. Você pode não estar pedindo dinheiro, você pode estar clamando por Deus, mas é o mesmo. Peça, e você se afastou. A meditação é um estado de não-indagação, não-questionamento, não-pensamento. A oração é ainda parte pensamento – um pensamento belo, mas pensamento é pensamento; uma bela prisão, mas uma prisão ainda é uma prisão.

E a mente que ora é ambiciosa e a mente que ora não sofre transformação. Ela permanece a mesma mente. E a oração nasce da mesma mente; ela não pode ter uma qualidade muito diferente. Como você pode orar por algo que é diferente de você? – será a sua oração. Refletirá a sua mente, sairá da sua mente, brotará da sua mente. Como ela pode te levar para além da mente? A oração não pode te levar além da mente. Apenas a meditação pode te levar para além da mente.

A meditação é um estado de não-mente. A oração é um estado da mente religiosa, mas a mente está lá. E quando detém as vestes da religiosidade ao seu redor ela se torna ainda mais perigosa.

Um garoto em um piquenique afasta-se da sua família e, de repente, percebe que está perdido e a noite está caindo. Assustando-se depois de vagar sem rumo por algum tempo e gritando por seus pais sem receber resposta alguma ele ajoelha e ora com as mãos levantadas. “Querido Deus,” ele diz, “por favor me ajude a encontrar meu papai e minha mamãe, e não baterei mais na minha irmã pequena, honestamente não o farei!”

Enquanto ele ajoelha e reza, um pássaro voa e caga em suas palmas abertas. O menino a analisa e retorna o seu olhar para o céu.

“Por favor, Deus,” ele implora, “não me dê esta merda. Estou realmente e verdadeiramente perdido!”

A sua oração é a sua oração; ela é parte de você, uma extensão de você. Ela não pode te ajudar a superar-se. A meditação é a única forma de superar-se, a única maneira de transcender-se.

E o que é meditação? Não significa meditar sobre algo; a palavra Inglesa é enganosa. Em Inglês não há nenhuma palavra suficientemente adequada para traduzir a palavra de Buda sammasati. Ela foi traduzida como meditação, como consciência plena correta, como vigilância, consciência, precaução, testemunho – mas não há realmente uma única palavra que tem a qualidade de sammasati.

Sammasati significa: a consciência existe, mas sem nenhum conteúdo. Não há pensamento, não há desejo, nada se mexe em você. Você não está contemplando Deus ou grandes coisas… a natureza e sua beleza, a Bíblia, o Alcorão, os Vedas, e suas declarações imensamente significantes. Você não está contemplando! Você não está se concentrando também em nenhum objeto especial. Você não está cantando um mantra, porque essas são as coisas da mente, esses são todos conteúdos da mente. Você não está fazendo nada! A mente está totalmente vazia, e você está simplesmente ali naquela vacuidade. Um tipo de presença, uma presença pura, sem lugar algum para ir – totalmente relaxada em si própria, em repouso, em casa. Esse é o significado da meditação de Buda.

E ninguém nunca mais alcançou uma expressão tão bela da meditação quanto Buda. Muitas pessoas alcançaram, mas ninguém foi tão expressivo, tão capaz de expressar a mensagem, como Buda. ELE NUNCA CEDE AO DESEJO. ELE MEDITA.

E NA FORÇA DA SUA DETERMINAÇÃO

DESCOBRE A VERDADEIRA FELICIDADE

A bem-aventurança é a verdadeira felicidade. O que você chama de felicidade é apenas miséria disfarçada. O que você chama de felicidade não é nada além de entretenimento, prazer. É momentânea – não pode ser verdadeira. A verdade deve ter uma qualidade e a qualidade é a eternidade. Se algo é verdade este algo é eterno; se não é verdade é momentâneo.

A verdadeira felicidade é encontrada apenas quando a mente cessa completamente de funcionar. Ela não vem de fora. Ela jorra de dentro do seu ser, ela começa a transbordar de você. Você se torna luminoso. Você se torna uma fonte de bem-aventurança.

ELE SUPERA O DESEJO –

E DA TORRE DA SABEDORIA

OLHA PARA BAIXO COM DESAPEGO

PARA A MULTIDÃO QUE SOFRE.

DO TOPO DA MONTANHA

OLHA PARA BAIXO PARA AQUELES

QUE VIVEM PRÓXIMO AO SOLO.

Quando alguém se torna um buda – desejo superado, mente superada, tempo superado, o ego transcendido – este alguém não é mais parte dessa Terra. Ele ainda vive na Terra, mas sua alma eleva-se tanto que dos topos ensolarados do seu ser ele pode ver as multidões que sofrem nos vales negros da vida, tropeçando, bêbadas, lutando, ambiciosas, gananciosas, raivosas, violentas… um desperdício total de grandes oportunidades. Uma grande compaixão surge em seu ser. Toda a sua paixão passa pelo desapego e se torna compaixão.

A paixão significa utilizar os outros como meio – e este é o fundamento da imoralidade. Utilizar os outros como meio é o ato mais imoral do mundo, porque toda pessoa é um fim em si mesma. Usá-la como meio é explorar. E é isso que chamamos de amor: o marido usando a esposa, a esposa usando o marido; a criança usando os seus pais, e os pais posteriormente usando as suas crianças – é isso que chamamos de amor!

Não é amor. É uma estratégia da mente; é veneno revestido de açúcar. Esse amor é realmente repugnante. É por isso que você vê todo o mundo com tal repugnância. Esse amor é doentio. Ele adoeceu toda a alma da humanidade porque isso não é amor. É paixão, lascívia, usando os outros como meios.

Conforme você começa a meditar você se move para o segundo estágio, desapego – o amor desaparece. Você chega em uma fase neutra; da mesma maneira que você troca as marchas do carro, e toda vez que você troca, a marcha tem que mover-se primeiro para o neutro, da mesma maneira a paixão se move para uma fase neutra – ela se torna desapego. O amor desaparece. Provisoriamente, no intervalo, o ser humano que está se movendo para a budidade torna-se totalmente frio, impassível.

E então o terceiro estágio é alcançado. Quando atinge a budidade ele encontrou a bem-aventurança e as fontes inexauríveis de bem-aventurança – aes dhammo sanantano – quando encontrou o princípio da eternidade, quando encontrou o tesouro inexaurível da vida, ele começa a transbordar. O amor volta – de fato, o amor vem pela primeira vez. É compaixão. Agora ele derrama a sua compaixão em todos; qualquer pessoa que vier até ele, ele compartilha a sua bem-aventurança, ele compartilha o caminho, compartilha o seu insight.

ATENTO ENTRE OS DESATENTOS,

ACORDADO ENQUANTO OS OUTROS SONHAM,

TÃO RÁPIDO QUANTO UM CAVALO DE CORRIDA

ELE ULTRAPASSA O CAMPO.

E quando você se torna estabelecido na meditação e na compaixão você não é mais vítima do sono e do sonho. Você permanece acordado – mesmo quando dorme. E então a sua vida se torna uma flecha reta, movendo-se com uma tremenda velocidade, na velocidade da luz, até o objetivo. Você se tornou, pela primeira vez, um ser.

TÃO RÁPIDO QUANTO UM CAVALO DE CORRIDA ELE ULTRAPASSA O CAMPO. ATENTO ENTRE OS DESATENTOS, ACORDADO ENQUANTO OS OUTROS SONHAM. Esta é a diferença entre Buda e os outros. Os outros estão apenas dormindo, não realmente vivendo; esperando viver um dia, preparando para viver, mas não vivendo. E esse dia nunca chega – antes desse dia a morte chega.

Um buda está acordado. Mesmo enquanto dorme ele não sonha. Quando o desejo desaparece, os sonhos desaparecem também. Os sonhos são desejos traduzidos na linguagem do sono. Um buda dorme com absoluta vigilância. A luz segue brilhando dentro dele. O corpo precisa de descanso, por isso o corpo dorme, mas ele não precisa de descanso – a energia é inexaurível. Ali, no centro do seu ser, uma pequena luz segue brilhando. Toda a circunferência dorme, mas aquela luz está alerta, acordada.

Nós dormimos mesmo enquanto estamos acordados: ele está acordado mesmo enquanto está dormindo.

ATRAVÉS DO OBSERVAR

INDRA TORNOU-SE O REI DOS DEUSES.

QUÃO MARAVILHOSO É OBSERVAR,

QUÃO TOLO É DORMIR.

O BIKKHU QUE GUARDA A SUA MENTE

E TEME A TEIMOSIA DOS SEUS PENSAMENTOS

QUEIMA TODAS AS AMARRAS

COM O FOGO DA SUA VIGILÂNCIA.

‘Bhikkhu’ é a palavra de Buda para sannyasin. ‘Sannyasin’ é a minha palavra para bhikkhu. Não escolhi a palavra de Buda – por uma certa razão. Bhikkhu significa literalmente mendigo.

Buda renunciou o seu reino e tornou-se um mendigo. É claro, mesmo enquanto era um mendigo ele andava como um imperador; é claro, ele é muito mais gracioso do que antes e muito mais rico do que antes. Mas porque renunciou ao reino, as pessoas começaram a chamá-lo de bhikkhu, um mendigo. E, vagarosamente, o nome foi adotado pelos seus seguidores também.

Eu não quero que vocês sejam mendigos, quero que vocês sejam mestres. Por isso escolhi a palavra ‘sannyasin’. Um sannyasin significa alguém que sabe como viver corretamente. Não é renúncia; pelo contrário, é regozijo, é celebração.

O BIKKHU QUE GUARDA A SUA MENTE E TEME A TEIMOSIA DOS SEUS PENSAMENTOS

QUEIMA TODAS AS AMARRAS COM O FOGO DA SUA VIGILÂNCIA.

Sim, a meditação é fogo – ela queima os seus pensamentos, seus desejos, suas memórias; ela queima o passado e o futuro. Ela queima a sua mente e o ego. Ela leva embora tudo que você pensa que você é. É uma morte e um renascimento, uma crucificação e uma ressurreição. Você renasce. Você perde a sua própria identidade totalmente e você alcança uma nova visão da vida.

Esta visão da vida é o que se entender por deus, dhamma, tao, logos. Você pode escolher o seu nome para isso porque ele não tem nome próprio. De fato, ele não é expressivo de maneira alguma; ele pode ser apenas indicado, insinuado.

O BIKKHU QUE GUARDA A SUA MENTE

E TEME A SUA PRÓPRIA CONFUSÃO

NÃO PODE CAIR.

ELE ENCONTROU O CAMINHO PARA A PAZ.

A mente é confusão. Pensamentos e pensamentos – milhares de pensamentos clamando, colidindo, lutando um contra o outro, lutando por atenção. Milhares de pensamentos te arrastando para milhares de direções. É um milagre como você continua unido. De alguma forma você conduz essa unidade – é apenas de alguma forma, é apenas uma fachada. Bem atrás há uma multidão clamando, uma guerra civil, uma contínua guerra civil. Pensamentos lutando um contra o outro, pensamentos querendo que você os satisfaça. É uma grande confusão, o que você chama de mente.

Mas se você está ciente que a mente é confusão, e você não se identifica com a mente, você nunca cairá. Você tornar-se-á à prova de quedas! A mente tornar-se-á impotente. E porque você estará observando continuamente, as suas energias vagarosamente serão retiradas para longe da mente; esta não será mais nutrida.

E uma vez que a mente morre, você nasce como uma não-mente. Este nascimento é a iluminação. Este nascimento o traz pela primeira vez para a terra da paz, o paraíso do lótus. Ele te traz para o mundo da bem-aventurança, da bênção. Caso contrário você permanecerá no inferno. Agora você está no inferno. Mas se você resolver, se você decidir, se você escolher a consciência, agora você pode dar um pulo, um salto do inferno para o paraíso.

Cabe a você: você pode escolher o inferno, você pode escolher o paraíso. O inferno é barato. O paraíso necessita de grande esforço, perseverança, determinação. O inferno significa que você pode permanecer inconsciente, você pode permanecer como você está. O paraíso significa que você terá que ascender acima de si próprio, você terá que transcender. Você tem que mover-se dos vales até os picos.

E esses picos são seus, mas você tem que pagar por eles. Escalar até esses picos é um esforço árduo. Seja vigilante, meditativo e um dia você se encontrará nos picos ensolarados. Isso é liberação, moksha. Isso é nirvana – cessação do ego e o nascimento de Deus.

Você tem direito de ser deus. Se você não é, apenas você é responsável e ninguém mais. Ouça o Buda. Não apenas ouça o Buda – aja, empenhe-se à vida da consciência, se envolva.

Mas deixe-me lembrá-lo novamente: esta é apenas uma dimensão da vida – imensamente rica, mas ainda assim uma dimensão. Você tem que fazer algo a mais. Estou lhe dando uma tarefa mais árdua que Buda deu. Buda lhe deu uma dimensão; quero que você tenha todas as três dimensões e uma síntese.

Um novo ser humano é necessário na Terra. O velho está podre e acabado, ele não tem futuro, não pode sobreviver. Ele chegou até o final da sua corrente. Ele está em seu leito de morte. A menos que um novo ser humano nasça – Oriente e Ocidente encontrando-se, todas as três dimensões juntas – a humanidade estará amaldiçoada.

Este experimento que estou fazendo aqui é apenas para criar a primeira espécie de novo ser humano. Você está participando de um grande experimento de tremenda importância. Sinta-se abençoado. Sinta-se afortunado. Você pode não estar consciente do que você está participando, mas você pode fazer história! Tudo depende de quão empenhado, quão envolvido você se torna comigo e com meu experimento.

Esta é a maior síntese possível, isso nunca foi tentado antes…

Por hoje é só.

O Dhammapada: O Caminho do Buda, Vol 1

Capítulo #8

Título do Capítulo: O início de uma nova fase

28 de Junho de 1979 na Sala Buda

A primeira questão:

Questão 1

AMADO MESTRE,

EU NUNCA FUI TOCADO PELA MÚSICA CLÁSSICA E AS GALERIAS DE ARTE ME IRRITAM. ENTÃO, É POSSÍVEL IR DA PRIMEIRA CAMADA, A CABEÇA, PARA A TERCEIRA CAMADA, O CENTRO, E EVITAR TODO ESSE LIXO ESTÉTICO?

Nirgun, sim, é verdade: existe muito lixo em nome da estética. Mas quando uso a palavra ‘estética’ não quero dizer do lixo coletado nos museus e galerias de arte.

Quando uso a palavra ‘estética’ quero dizer de uma qualidade em você. Não tem nada a ver com objetos – pinturas, música, poesia – tem algo a ver com a qualidade do seu ser, uma sensibilidade, um amor pela beleza, uma sensibilidade pela textura e pelo sabor das coisas, pela dança eterna que ocorre por todos os lados, uma consciência disso, um silêncio para escutar este cuco chamando distante…

Não é lixo: é o próprio núcleo da existência.

Mas posso entender que você se cansou da assim chamada música clássica e das pinturas coletadas nas galerias de arte. E você deve estar um pouco desorientado do porquê que as pessoas seguem falando de toda essa bobagem.

A estética é apenas uma abordagem artística da vida, uma visão poética. Ver as cores tão totalmente que cada árvore se torna uma pintura, que cada nuvem traga a presença de Deus, as cores se tornem mais coloridas, que você não siga ignorando o resplendor das coisas, que você permaneça alerta, consciente, amando, que você permaneça receptivo, acolhedor, aberto. Isso é o que quero dizer por atitude estética, a abordagem estética.

A música deve estar em seu coração, o seu próprio ser deve ser musical, ele deve tornar-se uma harmonia. Um ser humano pode existir como um caos ou como um cosmos. A música é o caminho do caos ao cosmos. Um ser humano pode existir como uma desordem, uma dissonância, apenas barulho, um mercado, ou um ser humano pode viver como um templo, um silêncio sagrado, onde a música celeste é ouvida em si mesmo, a música não criada é ouvida em si mesmo.

As pessoas Zen o chamaram o som de uma mão batendo palmas. Na Índia, por séculos os místicos têm falado sobre anahat nad – o som sem batida. Ele está no interior do seu próprio ser; você não precisa ir a lugar algum para ouvi-la. É a música mais antiga e a mais recente também. É tanto a mais velha quanto a mais nova. E é a música do seu próprio ser, o murmúrio da sua própria existência. E se você não pode ouvi-la, você está surdo.

E não há como evitá-la, Nirgun. Os museus você pode evitar, as galerias de arte você pode evitar – de fato, você deve evitá-las. Você não precisa se preocupar com arte e a crítica de arte – esqueça tudo sobre isso. Mas você deve tornar-se um artista da própria vida.

Eu digo que Buda é um poeta, apesar dele nunca ter composto um único poema. Ainda assim insisto que ele é um dos maiores poetas que já viveram. Ele não foi um Shakespeare, um Milton, um Kalidas, um Rabindranath – não, de maneira alguma. Mas ainda assim digo: Shakespeare, Milton, Kalidas, Rabindranath não são nada comparados com sua poesia. A sua vida foi a sua poesia – a maneira que caminhava, a maneira que olhava para as coisas…

Há algumas noites me deparei com uma das mais belas declarações de Santa Teresa de Ávila. Ela disse: Tudo que você precisa é ver. Toda a sua mensagem está contida nessa simples declaração: Tudo que você precisa é ver. A capacidade de ver – e você encontrará Deus. A capacidade de ouvir – e você encontrará a sua música. A capacidade de tocar – e toda textura vai tornar-se a sua textura. Toque a rocha e você encontrará Deus.

Não é uma questão de objetos de arte: é uma questão de enfoque interior, uma visão – de ver as coisas artisticamente. E, Nirgun, você tem esta qualidade! De fato, por causa dessa qualidade você cansou-se da música clássica e das galerias – porque, de uma maneira inconsciente, de uma maneira tateante, você sentiu algo muito superior dentro de você. Mas você ainda não está totalmente consciente disso.

Evite as galerias de arte e você não perderá nada. Mas você não pode evitar a camada estética do seu ser: você tem que passar por ela. De outra maneira você permanecerá para sempre empobrecido; algo lhe faltará, algo de imenso valor. A sua iluminação nunca será total. Uma parte do seu ser permanecerá não iluminada; um canto da sua alma permanecerá escuro – e aquele canto ficará pesado para você. É preciso tornar-se totalmente iluminado. Nada deve ser evitado, nenhum atalho deve ser inventado. É preciso mover-se muito naturalmente por todas as camadas, porque todas essas camadas são oportunidades de crescimento.

Lembre-se: sempre que utilizo as palavras ‘música’ ou ‘poesia’ ou ‘pintura’ ou ‘escultura’, tenho o meu próprio significado.

Quando Helen Keller, a mulher cega, veio para a Índia ela visitou Jawaharlal Nehru. Ela era cega, surda. Ela tocou a face de Nehru; com ambas as mãos ela sentiu a face de Nehru, e ela ficou imensamente encantada. Ela expressou grande alegria. Ela declarou, “Senti a mesma qualidade na face de Nehru quando toquei as belas estátuas Romanas – o mesmo frescor, a mesma proporção e a mesma forma.”

Ora, essa mulher tem o coração de um escultor – cega, surda, mas tem o gênio de um grande artista. Porque era surda e cega ela teve que encontrar outras formas de sentir a vida. E, às vezes, as maldições provam-se bênçãos. Ela toca a água, ela sente o seu frescor, a sua vida, a sua vibração. Você nunca o sentirá, porque você pode ver a água; você pode dizer, “O que está lá?” Porque ela não podia ver, ela podia apenas sentir a textura da rocha… você pode ver e você perderá – você não sentirá a sua textura.

Às vezes é tremendamente significante fechar os seus olhos e apenas tocar a rocha, e sentir como se você fosse cego e você tivesse apenas as suas mãos, utilizando-as como os seus olhos. E você ficará surpreso – você experimentará uma surpresa. Pela primeira vez você verá que a textura tem a sua própria dimensão.

Porque ela não tinha olhos e ouvidos, o seu sentido de cheiro era ótimo. Ela podia sentir o perfume das coisas, das pessoas. Ela podia discriminar entre uma árvore e outra apenas pela fragrância. Ela podia até mesmo distinguir as pessoas apenas pelo cheiro.

Ora, ela é tão estética quanto qualquer Picasso, Dali, Van Gogh – ou até mais.

Nirgun, o lixo estético certamente está lá, porque qualquer coisa que o ser humano cria em sua inconsciência deve ser lixo. As pinturas de Picasso representam a mente de Picasso. Ora, esse homem parece ser insano em algum lugar lá no fundo. De fato, as suas pinturas são uma forma de permanecer saudável; as suas pinturas são catárticas. O que você faz em sua Meditação Dinâmica ele está fazendo através de seus quadros: colocando para fora as tensões, pesadelos, toda a feiura que está em sua mente. Ela deve ser jogada para fora do sistema, e isso pode ser feito através da pintura muito facilmente.

Carl Gustav Jung frequentemente dizia para seus pacientes pintarem. E muitas pessoas insanas pintaram quadros realmente belos. Mas, certamente, esses quadros são insanos! Como poderia uma pessoa insana pintar um quadro são? Ele pode ter uma certa beleza própria – a beleza da insanidade – pode ter uma certa proporção, um certo arranjo de cores, ou até mesmo uma certa visão, mas algo da sua insanidade deve estar à espreita em seu entorno. E Jung compreendeu, vagarosamente, que através da pintura as pessoas insanas podem ser imensamente ajudadas – a pintura pode tornar-se uma terapia. E, certamente, ele está certo. Se você pode pintar os seus pesadelos, você libertar-se-á deles. É uma expressão! A expressão sempre traz liberdade. A repressão traz servidão, a expressão traz liberdade. E esta é uma das mais belas formas de expressar, a pintura.

Se você tem medo da morte, é torturado pela ideia da morte, se tem pesadelos com a morte e você pode pintar muitos quadros sobre a morte, você abandonará essas ideias. Você tem que trazê-las do inconsciente para o consciente. Você se liberta de qualquer coisa que é trazida do inconsciente ao consciente.

Mas a humanidade tem feito justamente o oposto. Disseram-nos por séculos para jogar as coisas do consciente para o inconsciente – isso é repressão. Sim, de certo modo você parece ter se libertado das repressões, mas não realmente. De fato, elas foram para uma camada mais profunda de você, elas afundaram mais em você. Elas vão te incomodar ainda mais. Agora elas vão te controlar a partir do inconsciente e você nem se dará conta delas.

Toda a abordagem da psicanálise é contra a repressão: traga tudo o que está reprimido no inconsciente para o consciente. Isso pode ser feito de muitas maneiras. A psicanálise é a rota mais longa; ela leva três anos, seis, até mesmo dez anos. Além disso, também, a análise nunca está completa. Não existe uma única pessoa em todo o mundo cuja psicanálise esteja completa e finalizada.

Ela não pode ser finalizada, porque o processo é lento. Duas vezes por semana, ou três, você vê o seu psicanalista; deitado no divã do psicanalista você joga fora o seu lixo por uma hora. Ele ouve pacientemente – pelo menos finge que está ouvindo pacientemente. E porque ele está ouvindo você continua trazendo para fora. Ele lhe dá encorajamento, então você segue escavando cada vez mais profundo e você traz as coisas do inconsciente para o consciente. A sua presença, sua competência, seu nome, sua autoridade, te encoraja. Você não tem medo de trazer as coisas à tona, que te assustariam se você as trouxesse a sós – porque você veria a si mesmo à beira da loucura. Mas a sua autoridade e presença… e isso pode estar apenas na sua crença, porque ele próprio pode ser mais insano do que você. Mas você pode ter apenas a crença de que ele sabe, que ele será capaz de ajudar-te, que ele está ali, então você não precisa temer; você pode seguir escavando cada vez mais profundo em seu inconsciente.

Quanto mais você trouxer ao consciente, mais você estará livre – alivia muito. Mas uma vez, duas ou três vezes na semana você alivia, e todo o restante da semana você segue acumulando novamente. As três horas na terapia são desfeitas; você permanece o mesmo. Torna-se um círculo vicioso. Na sociedade, em família, você novamente acumula repressões, e você vai ao analista e expressa essas supressões. Um pouco mais aliviado, você volta para a sociedade – a mesma sociedade, as mesmas pessoas. Você ouve o mesmo padre, lê o mesmo jornal, vai ao mesmo comício político. Você permanece comunista ou Católico. A mesma esposa, o mesmo marido, as mesmas crianças, as mesmas pessoas para se associar… novamente as repressões ocorrem.

Esse é um alivio muito temporário.

Muitas outras formas são encontradas. A pintura é apenas uma maneira – muito mais significante, pois o inconsciente conhece a linguagem das figuras e não a linguagem das palavras. O inconsciente expressa-se por figuras. É por isso que, em seus sonhos, o seu inconsciente expressa-se mais adequadamente. Por isso que o psicanalista quer saber sobre os seus sonhos cada vez mais. Os sonhos são uma linguagem pictórica, primitiva, não-sofisticada, mais inocente. E é exatamente isso o que ocorre quando você pinta.

Pintar é trazer os seus sonhos à luz – pode ajudar tremendamente. Meu próprio sentimento é que se Picasso fosse prevenido de pintar ele ficaria louco. Foi a sua pintura que o salvou – apesar dele estar inconsciente que era a pintura que estava salvando-o. Porém sua pintura tem a qualidade da loucura em si.

Se você olha para uma pintura de Picasso e medita sobre ela você sentir-se-á zonzo, você sentir-se-á desconfortável, tenso, não se sentirá relaxado. E se você viver em um quarto onde em todas as paredes existem pinturas de Picasso, haverá todo o perigo de você ter pesadelos, ou você poderá ficar louco. Essas pinturas provocarão a sua insanidade.

Então, Nirgun, você pode evitar as galerias de arte, você pode evitar os Picassos, mas você não pode evitar a camada estética do seu ser. Você não pode evitar a dimensão estética; caso contrário você permanecerá empobrecido, assimétrico, algo ficará faltando em você. E eu não gostaria que nada faltasse em meus sannyasins. Eles têm que ser os mais científicos possíveis. Não quero dizer – novamente lembre-se – que você tem que tornar-se um físico ou químico ou um biólogo ou fisiologista. Não quero dizer isso! Quando digo que você tem que ser um cientista, quero dizer que você tem que ser científico – é uma metáfora. Lembre-se sempre: estou falando por metáforas, símiles e parábolas.

Você tem que ser científico. Para acessar o mundo corretamente, o mundo objetivo, o único caminho é a ciência. Se a Bíblia diz que a Terra não é redonda e sim plana, não acredite nela – seja científico. A Terra é redonda e não plana. A Bíblia não tem direito de dizer qualquer coisa sobre algo objetivo. A Bíblia é um livro religioso; ela tem a sua própria dimensão. Não confunda essas dimensões.

Por causa dessa confusão um grande conflito surgiu entre a ciência e a religião. Não é necessário de maneira alguma. A ciência tem o seu próprio reino, o seu próprio território. Primeiro os sacerdotes começaram a interferir na ciência; agora, toda a história está sendo repetida novamente na ordem oposta. Agora os cientistas estão tentando interferir no mundo da religião.

O cientista não pergunta se Deus existe ou não – isso não é da sua alçada. O que ele sabe sobre Deus? Esta não é a sua dimensão. E tudo o que ele disser sobre Deus é estúpido; qualquer coisa que disser está errado.

É como perguntar para um grande doutor sobre poesia – ele pode ser um grande doutor, um grande médico, mas perguntá-lo sobre poesia apenas porque ele é um grande médico é tolice. Ou perguntar para um grande poeta sobre a sua doença porque ele é um grande poeta… você pode ver a estupidez. Você não vai a um grande poeta para ser diagnosticado apenas porque ele é um grande poeta. Você irá a um doutor – ele pode simplesmente não ser um poeta.

O cientista não tem o direito de dizer qualquer coisa sobre a interioridade da humanidade – não é o seu mundo. Mas agora ele está interferindo. Ele está fazendo o mesmo erro que os padres fizeram por séculos.

Galileu foi chamado pelo papa, forçado em sua velhice a pedir desculpas porque disse que não era o sol que girava em torno da Terra, mas a Terra que girava em torno do sol. Ora, isso é contra a Bíblia. Os sacerdotes ficaram muito irritados: “Como você pode negar a Bíblia? Quem é você?” Em sua velhice – ele tinha setenta anos, doente, acamado – ele foi forçado a ir até a corte, ele foi forçado a ajoelhar-se diante do papa, e lhe foi pedido que se desculpasse.

Ele deve ter sido um homem bem-humorado, ele devia ter um grande senso de humor. Ele disse, “Sim, senhor, eu me desculpo. Declaro que a Bíblia está certa, que a Terra não gira em torno do Sol mas que o Sol gira em torno da Terra. Você está satisfeito, senhor?”

E todos ficaram muito felizes. Eles disseram, “Estamos satisfeitos.”

E então Galileu riu. Ele disse, “Mas qualquer coisa que eu disser não faz diferença – a Terra gira em torno do sol. As minhas declarações, o que elas significam? O que elas podem fazer? O que posso fazer? O que digo não importa – a Terra não ouvirá. Mas eu peço perdão, estou errado e a Bíblia está correta. Mas lembre-se bem: a Terra gira em torno do Sol – ela não tem obrigação de satisfazer o meu desejo. Eu gostaria que fosse de acordo com a Bíblia e de acordo com vocês, mas sou impotente, totalmente impotente.”

A Bíblia contém muitas declarações não-científicas, os Vedas contêm muitas declarações não-científicas. Todas as escrituras antigas contêm muitas declarações não-científicas, por uma razão: porque naqueles dias não havia a ciência como um fenômeno separado. A escritura religiosa era a única escritura disponível. Então era comum que ela coletasse de tudo; qualquer conhecimento que estivesse disponível era coletado na escritura. Ela contém arte, matemática, geografia, história e ciência – ela contém tudo o que estava disponível. E o conhecimento era tão pequeno que este poderia estar contido em uma única escritura.

Mas agora, séculos se passaram, o ser humano cresceu, atingiu a maioridade. Agora a ciência tem o seu próprio mundo. Devemos abandonar tudo o que é científico das escrituras religiosas – elas não têm nada a ver com o científico. Nem a ciência tem algo a ver com as escrituras religiosas ou com a dimensão religiosa. Mas é dessa forma que as mentes estúpidas seguem discutindo.

Eu gostaria que você fosse científico – no que diz respeito ao mundo, seja científico. No que diz respeito à sua realidade interior, seja religioso. E há um mundo entre os dois, o mundo intermediário, o mundo do crepúsculo, onde o objetivo e o subjetivo encontram-se. Este é o mundo da estética. Sobre este, seja um artista, um poeta, um músico.

Se todas essas dimensões forem satisfeitas você tornar-se-á espiritual; todas essas dimensões enriquecidas tornar-te-ão o quarto ser humano, o ser humano espiritual. Os meus sannyasins devem ser o quarto ser humano – integrado, inteiro. Nada deve ser evitado, Nirgun. Tudo tem que ser vivido, amado, experienciado. Tudo deve ser absorvido, para que você se torne tão rico quanto é possível ser.

A segunda questão:

Questão 2

AMADO MESTRE,

VOCÊ FALARÁ ALGO A MAIS SOBRE RELAXAMENTO? ESTOU CONSCIENTE DE UMA TENSÃO PROFUNDA EM MEU ÂMAGO E SUSPEITO QUE PROVAVELMENTE NUNCA RELAXEI TOTALMENTE.

QUANDO VOCÊ DISSE OUTRO DIA QUE RELAXAR É UM DOS FENÔMENOS MAIS COMPLEXOS POSSÍVEIS, VISLUMBREI UMA RICA TAPEÇARIA NA QUAL OS FIOS DO RELAXAMENTO E DO DEIXAR ACONTECER ESTAVAM PROFUNDAMENTE ENTRELAÇADOS COM CONFIANÇA E ENTÃO O AMOR VEM, E A ACEITAÇÃO, O SEGUIR COM O FLUXO, A UNIÃO E O ÊXTASE…

Anurag, total relaxamento é o objetivo final. É o momento quando alguém se torna um buda. É o momento da realização, iluminação, da consciência crística. Você não pode estar totalmente relaxado agora. No núcleo mais interior a tensão persistirá.

Mas comece a relaxar. Comece da circunferência – é onde nós estamos e podemos começar apenas de onde estamos. Relaxe a circunferência do seu ser – relaxe seu corpo, relaxe seu comportamento, relaxe os seus atos. Ande de forma relaxada, coma de forma relaxada, fale e ouça de maneira relaxada. Desacelere todos os processos. Não tenha pressa nem afobação. Mova-se como se toda a eternidade estivesse disponível para você – de fato, ela está disponível para você. Estamos aqui desde o início e estaremos aqui no fim, se houve um início e existir um fim. De fato, não há início e nem fim. Sempre estivemos aqui e estaremos aqui para sempre. As formas seguem se alterando, mas não a substância; as vestes seguem mudando, mas não a alma.

Tensão significa pressa, medo, dúvida. Tensão significa um constante esforço para proteger, para estar seguro, em segurança. Tensão significa preparar-se para o amanhã agora, ou para a vida após a morte – com medo de amanhã você não ser capaz de encarar a realidade, então esteja preparado. A tensão significa o passado que você não viveu realmente, mas apenas, de alguma forma, evitou; ele paira, é uma ressaca, ele o cerca.

Lembre-se de uma coisa muito fundamental sobre a vida: qualquer experiência que não foi vivida paira em torno de você, persiste: “Termine-me! Viva-me! Complete-me!” Há uma qualidade intrínseca em toda experiência que ela tende e quer ser finalizada, completada. Uma vez completada, ela evapora; incompleta ela persiste, ela te tortura, te assombra, atrai a sua atenção. Ela diz, “O que você vai fazer em relação a mim? Ainda estou incompleta – realize-me!”

Todo o seu passado paira em torno de você incompleto – porque nada foi realmente vivido, tudo foi de alguma forma contornado, parcialmente vivido, apenas mais ou menos, de forma morna. Não houve intensidade, não houve paixão. Você tem se movido como um sonambulista, um sonâmbulo. Por isso o passado paira, e o futuro cria medo. E entre o passado e o futuro está esmagado o seu presente, a única realidade.

Você terá que relaxar a partir da circunferência. O primeiro passo no relaxamento é o corpo. Lembre-se sempre que for possível de olhar para o corpo, se você está carregando alguma tensão em algum lugar do corpo – no pescoço, cabeça, nas pernas. Relaxe-a conscientemente. Vá até aquela parte do corpo e a persuada, diga a ela amavelmente “Relaxe!”

E você ficará surpreso quando você aborda qualquer parte do corpo, ele ouve, ele te segue – é o seu corpo! Com os olhos fechados, vá para dentro do corpo, dos dedos do pé até a cabeça, procurando por qualquer lugar onde haja tensão. E então fale à parte como você fala com um amigo; deixe haver um diálogo entre você e seu corpo. Diga-lhe para relaxar e fale, “Não há nada a temer. Não tenha medo. Estou aqui para cuidar – você pode relaxar.” Vagarosamente, você aprenderá o seu truque. Então o corpo se torna relaxado.

Então dê outro passo, um pouco mais profundo; fale para a mente relaxar. E se o corpo ouve, a mente também ouve, mas você não pode começar com a mente – você tem que começar do começo. Você não pode começar do meio. Muitas pessoas começam com a mente e falham; elas falham porque começam a partir do lugar errado. Tudo deve ser feito na ordem correta.

Se você tornar-se capaz de relaxar o corpo voluntariamente, então você será capaz de ajudar a sua mente a relaxar voluntariamente. A mente é um fenômeno mais complexo. Uma vez que você tornou-se seguro que o corpo te ouve, você terá uma nova confiança em si. Agora até mesmo a mente pode te ouvir. Levará um pouco mais de tempo com a mente, mas ocorrerá.

Quando a mente está relaxada, então comece a relaxar o seu coração, o mundo dos seus sentimentos, emoções – que é ainda mais complexo, mais sutil. Mas agora você se moverá com confiança, com grande confiança em si próprio. Agora você saberá que é possível. Se é possível com o corpo e possível com a mente, é possível com o coração também. E somente então, quando você passou por esses três passos, você pode dar o quarto. Agora você pode ir até o núcleo mais interior do seu ser, que está além do corpo, mente e coração: o próprio centro da sua existência. E você será capaz de relaxá-lo também.

E esse relaxamento certamente trará a maior alegria possível, o êxtase último, aceitação. Você estará cheio de bem-aventurança e regozijo. A sua vida terá a qualidade da dança.

Toda a existência está dançando, exceto o ser humano. Toda a existência está em um movimento muito relaxado; o movimento existe, certamente, mas é totalmente relaxado. As árvores crescem, os pássaros gorjeiam, os rios fluem e as estrelas se movem: tudo segue de maneira muito relaxada. Sem pressa, sem ímpeto, sem preocupação e sem desperdício. Exceto o ser humano. O ser humano tornou-se vítima da sua mente.

O ser humano pode elevar-se acima dos deuses ou decair abaixo dos animais. O ser humano tem um grande espectro. Do mais baixo ao mais alto, o ser humano é uma escada.

Anurag, comece do corpo, e então siga, vagarosamente, cada vez mais profundo. E não comece com nada a mais a não ser que você tenha primeiro resolvido o primário. Se o seu corpo está tenso, não comece com a mente. Espere. Trabalhe no corpo. E até mesmo as coisas pequenas são de imensa ajuda.

Você anda em um certo passo; isso tornou-se habitual, automático. Agora tente andar mais devagar. Buda frequentemente dizia aos seus discípulos, “Caminhe muito devagar, e dê cada passo muito conscientemente.” Se você der cada passo muito conscientemente, você terá que caminhar muito devagar. Se você está correndo, apressando-se, você se esquecerá de lembrar. Por isso Buda caminha muito vagarosamente.

Tente andar muito vagarosamente e você se surpreenderá – uma nova qualidade de consciência começará a ocorrer no corpo. Coma devagar e você se surpreenderá – haverá um grande relaxamento. Faça tudo devagar… apenas para mudar o velho padrão, apenas para abandonar os antigos hábitos.

Primeiro o corpo tem que estar completamente relaxado, como uma criança pequena, somente então comece com a mente. Mova-se cientificamente: primeiro o mais simples, então o complexo, então o mais complexo. E somente então você pode relaxar no núcleo último.

Você me pergunta, Anurag, “Você falará algo a mais sobre relaxamento? Estou consciente de uma tensão profunda em meu âmago e suspeito que provavelmente nunca relaxei totalmente.”

Esta é a situação de todo ser humano. É bom que você esteja consciente – milhões não têm consciência disso. Você é abençoado por estar consciente, porque se você está consciente então algo pode ser feito. Se você não está consciente, então nada é possível. A consciência é o início da transformação.

E você diz, “Quando você disse outro dia que relaxar é um dos fenômenos mais complexos possíveis, vislumbrei uma rica tapeçaria na qual os fios do relaxamento e do deixar acontecer estavam profundamente entrelaçados com confiança e então o amor vem, e a aceitação, o seguir com o fluxo, a união e o êxtase…

Sim, Anurag, o relaxamento é um dos fenômenos mais complexos… muito rico, multidimensional. Todas essas coisas são partes dele: deixar acontecer, confiança, entrega, amor, aceitação, ir com o fluxo, união com a existência, ausência de ego, êxtase. Todos são partes do relaxamento e todos começam a ocorrer quando você aprende os caminhos do relaxamento.

As suas assim chamadas religiões deixaram-no muito tenso, porque elas criaram a culpa em você. O meu esforço aqui é ajudá-lo a abandonar toda a culpa e todo o medo. Eu gostaria de dizer a você: não há inferno e não há paraíso. Então não tenha medo do inferno e não ambicione pelo paraíso.

Tudo o que existe é este momento. Você pode fazer desse momento um inferno ou um paraíso – isso certamente é possível – não há paraíso ou inferno em algum outro lugar. O inferno é quando você está todo tenso, e o paraíso é quando você está todo relaxado. O relaxamento total é o paraíso.

A terceira questão:

Questão 3

AMADO MESTRE,

TODA VEZ QUE VOCÊ FALA SOBRE UM MESTRE, SINTO QUE VOCÊ AMA AQUELE MESTRE E FLUI ATRAVÉS DOS SEUS SUTRAS. NESSA SÉRIE, NO ENTANTO, SINTO QUE VOCÊ SE MANTÉM À PARTE DE BUDA E NÃO AMA REALMENTE A SUA OBRA.

ALGO ESTÁ MUDANDO OU ESTOU IMAGINANDO COISAS?

Nishant, você não está imaginando coisas. Comigo, você deve estar sempre se movendo – as coisas estarão mudando. Conforme você cresce eu te direi coisas que eu não lhe disse antes. Não é que meu amor por Buda é menor – meu amor não pode ser menos ou mais; meu amor é apenas amor, é uma qualidade, não há dimensão quantitativa nele. Nunca pode ser menos ou mais – ele simplesmente é.

Eu amo Buda, amo Jesus, amo Zaratustra, amo Lao Tsé, amo Patanjali – PORQUE amo… porque te amo, porque amo as árvores, porque amo os pássaros. Meu amor não é menor.

E você está perfeitamente correto que eu me mantenho à parte – estarei cada vez mais à parte no futuro. Estou preparando a nova fase. O trabalho tem que dar um salto quântico e muita preparação é necessária. O trabalho deve assumir uma qualidade totalmente diferente agora. Agora tenho pessoas de grande confiança comigo, de amor, pessoas que estão comprometidas e entregues.

No começo eu falava para as massas. Era um tipo totalmente diferente de trabalho: eu estava em busca de discípulos. Falando para as massas eu utilizava a linguagem delas; falando para as massas eu falava para a primeira classe. Você não pode ir muito fundo; você deve falar superficialmente. Você deve olhar para quem você está falando.

Então, vagarosamente, poucos estudantes transformaram-se em discípulos. Então minha abordagem mudou. Agora era possível comunicar-se em níveis mais elevados. Então os discípulos começaram a transformar-se em sannyasins – eles começaram a se comprometer, eles começaram a se envolver comigo, com o meu destino. A minha vida tornou-se a vida deles, o meu ser tornou-se o ser deles. Agora a comunicação dá um salto: torna-se comunhão.

Agora tenho sannyasins suficientes… o trabalho deve mover-se para um nível mais profundo.

Eu falava sobre Buda antes e falava como se apenas permitisse que ele falasse através de mim. Agora isso não será o caso. Essa série é o início de uma nova fase.

Nishant, você suspeitou corretamente. Agora terei que deixar claro quais os pontos que difiro de Buda, de Jesus, de Krishna. Tenho que deixar claro onde difiro deles.

Vinte e cinco séculos passaram desde Buda. Muito aconteceu desde então – muita água desceu pelo Ganges. Tudo mudou! Se Buda viesse para o mundo ele não seria capaz de reconhecê-lo que é o mesmo mundo que ele deixou. Eu pertenço a este século. Nesses vinte e cinco séculos muitas coisas novas foram adicionadas. Por exemplo, Buda não sabia nada sobre ciência – ele não poderia. Não estou dizendo que ele deveria saber – ele não poderia! Era impossível. Albert Einstein não tinha ocorrido ainda. Buda não estava ciente de muitas coisas que nós estamos cientes, eu estou ciente. Tenho que incorporar todas essas coisas. Sigmund Freud, Karl Marx e Albert Einstein e muitos mais devem ser incorporados. A religião tem que tornar-se cada vez mais rica a cada dia.

Tenho que deixar claro onde difiro. Tenho que deixar claro o que MAIS estou tentando adicionar à herança religiosa. Não serei mais apenas um veículo. Aquela fase está completa. Ela foi necessária até agora, porque eu queria… as pessoas que amam Buda, eu queria me aproximar delas; as pessoas que amam Mahavira, eu queria me aproximar delas; as pessoas que amam Jesus, eu queria me aproximar delas.

A humanidade está dividida: poucos estão com Jesus, poucos estão com Buda, poucos estão com Krishna… e assim por diante. Não há seres humanos livres disponíveis. Eu tive que selecionar e escolher de diferentes seitas, de diferentes comunidades, de diferentes religiões. A única forma era: falar da forma que Buda falava, então apenas alguns poucos Budistas tornavam-se envolvidos comigo; caso contrário seria impossível para eles, eles não me entenderiam. Agora que eles se tornaram envolvidos comigo será totalmente diferente. Agora que o amor deles por mim surgiu é fácil dizer onde difiro de Buda e eles serão capazes de entender. Não criará nenhum problema para eles, não será confuso para eles.

Mas lembre-se, o meu amor não é menor porque eu estou ficando à parte: o meu amor é o mesmo. O meu amor não vai mudar; não é algo que possa mudar. Mas cada vez mais acontecerá: ficarei à parte e separado.

Agora tenho a minha gente. Tenho que deixar bem claro onde difiro, onde estou tentando dar algo novo, algo a mais; onde estou tentando enriquecer a herança, onde estou contribuindo. E, às vezes, terei que criticar também – mas amo tanto que posso criticar.

Às vezes criticarei Buda, Mahavira, Jesus. Não é que não os amo – eu os amo, caso contrário por que eu falaria deles? Mesmo se os critico, isso significa que o meu amor é tanto que posso até importuná-los, criticá-los.

Buda deu muito à humanidade, mas a humanidade é um processo em andamento. E tudo que acontece à humanidade traz as suas vantagens e também as suas desvantagens.

Nesse mundo, nada pode permanecer absolutamente puro. Quando chove a água é pura. No momento que ela toca a terra… de fato mesmo antes disso: no momento que entra na atmosfera, o ar poluído começa a contaminá-la. A terra é cercada por uma espessa camada de ar; quando a água entra nessa camada de ar, ela começa a poluir-se. E quando ela cai na terra ela torna-se barrenta, suja. Ainda é água, mas não é mais pura.

Isso ocorre com toda verdade. Quando Buda declarou algo, era absolutamente pura. No momento em que foi ouvida pelas pessoas tornou-se impura. Quando foi escrita – e lembre-se que foi escrita depois de muitos anos, depois de trezentos anos… agora você pode imaginar que as pessoas escreveram exatamente a mesma coisa que Buda falou, trezentos anos depois? É impossível! As pessoas são pessoas; elas automaticamente a destruirão, a distorcerão – elas darão as suas próprias cores às palavras.

No dia em que Buda morreu, os seus seguidores foram divididos em trinta e seis escolas – imediatamente! Trinta e seis interpretações. Ninguém concordava com o que ele disse, ou mesmo se concordassem em relação às palavras, não concordariam sobre o significado atribuídos às palavras.

Recordo-me:

No último ano de sua vida Sigmund Freud chamou todos os seus discípulos – os importantes, os principais. Ele sentia que a morte estava próxima, ele deve ter ouvido os primeiros passos da morte e gostaria de ter um último encontro.

Eles sentavam-se em uma mesa, cerca de trinta pessoas de todo o mundo – todos os principais discípulos – e eles começaram a discutir sobre algo que Freud havia dito há poucos dias atrás. Freud estava ali! Ele era o anfitrião, mas eles esqueceram-se completamente de Freud. Eles envolveram-se no argumento: alguém dizia uma coisa, outrem dizia outra e um terceiro os contradizia. E eles argumentavam o que Freud realmente queria dizer… e Freud observou, ouviu, e então bradou, “Pare todo esse disparate! Vocês pensam que estou morto? Estou aqui, presente – por que vocês não me perguntam o significado? E se vocês podem fazer isso para mim enquanto estou vivo, o que vocês farão quando eu estiver morto? Vocês nem se preocuparam em perguntar para mim e vocês gastaram uma hora discutindo um com o outro, lutando, irritando-se, aborrecendo-se, gritando um com o outro… e o mestre está presente!”

E Freud não é um homem iluminado. Se isso pode ocorrer com uma pessoa não-iluminada, o que dizer de Buda, que fala do pico mais alto da existência? No momento que ele declara algo este já não é mais o mesmo que estava em seu coração. Quando é ouvido, não é mais o mesmo de quando foi declarado. Quando é interpretado é algo totalmente diferente.

Muitas vezes criticarei. Muitas vezes direi a vocês sobre as vantagens e as desvantagens que ocorreram. Buda é a dimensão religiosa mais pura, a mais pura possível, mas como posso evitar dizer que ele é um homem unidimensional? Se não o disser, seria falso. Se não o disser, então o meu amor pela verdade não é total. Tenho que dizê-lo, que ele é unidimensional – o mais puro em sua dimensão, mas lhe falta as outras dimensões.

Ele não aprecia a beleza, de maneira alguma. Ele não aprecia a música, de maneira alguma. Ele não aprecia o amor, de maneira alguma. Falta a dimensão estética, ele a evitou. E ele não tem uma abordagem científica; não podia tê-la – a ciência ainda não havia se desenvolvido o suficiente. Ele é uma pureza unidimensional, mas unidimensional.

E porque ele é unidimensional, todo este país permaneceu unidimensional. Buda é unidimensional, Mahavira é unidimensional, Patanjali é unidimensional.

Todos os grandes mestres religiosos desse país foram pessoas religiosas. Eles alcançaram a experiência religiosa mais pura e tentaram converter todo o país às suas visões. Mas a desvantagem foi que o país se tornou pobre. Sem ciência nenhum país pode tornar-se rico. O país torna-se externamente feio, faminto, doente. Sem ciência e tecnologia nenhum país pode ser externamente belo, saudável, afluente.

Ora, não posso deixar de mencionar isso – não seria verdade e também não seria certo. Seria enganar vocês! Seria um crime contra a humanidade. Está na hora de alguém ter coragem para dizer! Ninguém em todo o mundo está fazendo isso e a hora é propícia para alguém gritar e dizer que Buda, Mahavira, Patanjali, Lao Tsé, são pessoas imensamente belas e contribuíram muito – a humanidade não seria o que é sem eles – eles são a nossa alma, isso é absolutamente correto, mas há uma desvantagem porque todos são unidimensionais. As outras dimensões permaneceram paralisadas, prejudicadas. E agora chegou o momento: as outras dimensões devem ser satisfeitas também.

Eu gostaria que este país se tornasse rico, científico, tecnológico, saudável, bem nutrido – não apenas esse país, mas toda a humanidade. E não vejo que isso é contra a religião. Pelo contrário: quanto mais rico um país é, mas religioso se torna – porque a riqueza lhe dá uma oportunidade, a riqueza lhe dá facilidade, a riqueza lhe dá tempo, espaço e energia, para mover-se para dentro. Se você não se mover, essa responsabilidade é sua. Nada está errado em ser rico. Se uma pessoa rica não é religiosa ela é simplesmente medíocre, estúpida; não é nada contra a riqueza: é simplesmente uma indicação que ela é tola.

Se uma pessoa rica não é religiosa, a chamo de estúpida; e se uma pessoa pobre é religiosa, a chamo de inteligente, realmente inteligente. Uma inteligência rara é necessária para um ser humano pobre tornar-se religioso. Quando um Kabir se torna religioso ele mostra mais inteligência do que o próprio Buda – porque é impossível, quase impossível tornar-se religioso quando você é pobre. Quando você não conheceu o que são as riquezas, como você pode ir além destas? Alguém pode ir além de uma certa coisa apenas quando ela foi experimentada; é apenas através da experiência que alguém ultrapassa e transcende. Se uma pessoa transcende sem experimentar algo, isso simplesmente significa que ela tem tamanha inteligência que aprende a partir da experiência dos outros; ela própria não precisa passar por todas essas coisas.

Kabir deve ter olhado para as pessoas ricas e visto a futilidade de tudo. Por isso ele abandonou aquela ambição, aquele desejo. Buda era filho de um rei; ele viveu ricamente e através da experiência entendeu que tudo é fútil e tudo é vaidade. Ele atravessou a sua própria experiência: Kabir atingiu ao observar a experiências dos outros. Certamente, Kabir necessitou de mais inteligência.

As pessoas pobres podem tornar-se religiosas, mas sociedades pobres não podem se tornar religiosas. As pessoas ricas podem evitar à religião, mas as sociedades ricas não podem evitar à religião.

Ora, essa nova dimensão tem que ser adicionada. A religião não pode venerar à pobreza.

A religião não deve consolar às pessoas pobres dizendo coisas falsas a elas, confortando-as, dando-as teorias inventadas de vidas passadas e vidas futuras e destino, etc. Toda a Terra é agora capaz de tornar-se afluente. A ciência liberou muito poder – mas este deve ser utilizado corretamente!

Por isso não sou a favor da abordagem Ocidental. O Ocidente está perdendo a alma, a própria alma – é apenas um corpo. E o perigo é que os estúpidos políticos no Oriente imitem o Ocidente.

Agora todo país quer criar energia atômica – até a Índia. Países pobres como a Índia ou o Paquistão, eles querem criar bombas atômicas. Por quê? As pessoas estão pobres e famintas.

Há poucos dias atrás, a Índia lançou um satélite ao céu, Bhaskar, para estudo… As indústrias não têm eletricidade; cinco dias por semana as indústrias ficam fechadas. Você não tem eletricidade, mas envia um satélite para estudar as possibilidades do céu – competição, tola competição.

Agora há quinhentos satélites feitos pelo homem ao redor da Terra. Um deles, o American Skylab, cairá porque saiu do controle. Ele pode criar grande perigo. Puna está em sua rota; de Bombai até Puna, e de Puna até Kannada, em algum ponto ele cairá. E ele não cairá em uma peça em um lugar – pelo menos quinhentas peças, e cada peça será como uma bomba. Ele pode cair em um gerador atômico e destruir toda a Terra.

E todos esses quinhentos satélites, mais cedo ou mais tarde, sairão do controle. Se o satélite Americano pode sair do controle, o que dizer sobre o Indiano? Há apenas dois anos atrás a Índia lançou o seu primeiro satélite. Agora ele funciona quase como um Indiano – o nome do satélite era Aryabhatta – agora ele segue fornecendo informações errôneas. É um incômodo! Você não pode acreditar nele. No começo eles acreditavam, mas então descobriram que ele estava dando uma informação absolutamente falsa. Quão próximo da mente Indiana! Quão representativo! Agora eles querem livrar-se dele, querem que ele cale a boca, mas não irá… ele continua a enviar informação. Você não pode o fazer calar.

Países pobres imitando o Ocidente – tudo é tão tolo. Os países pobres certamente necessitam de mais entendimento científico, mas não necessitam de instrumentos científicos sofisticados – esta não é sua necessidade.

E agora a ciência liberou suficiente energia para toda a Terra ser transformada em um paraíso.

Buda contribuiu imensamente, mas, como um efeito colateral, ele foi uma das causas da pobreza Indiana. Não posso ignorar este fato. Tenho que declará-lo. Não o declarei até agora, mas agora tenho a minha gente que entenderá.

Mahavira contribuiu tremendamente para o enriquecimento espiritual Indiano, mas o subproduto dos seus ensinamentos foi a escravidão por mil anos; por causa do seu ensinamento da não-violência, a Índia tornou-se um dos países mais covardes do mundo. Ora, Krishna está certo em dizer para deixar tudo com Deus – na dimensão religiosa é assim que as coisas devem ser: confie em Deus. Mas agora na dimensão científica – há um mecanismo que funciona totalmente diferente: duvide, não confie. A confiança é a fundação do mundo espiritual, a dúvida é a fundação do mundo científico.

Krishna está perfeitamente correto quando diz a Arjuna, “Confie em Deus! Submeta-se a Deus. Confie que qualquer coisa que ele faz é certo.” Ora, qual foi o efeito colateral? O efeito colateral foi: “Se você é pobre, confie em Deus; se você está doente, confie em Deus. Qualquer coisa que ele faz é certo.” Este é o efeito colateral. Na dimensão religiosa está perfeitamente correto, mas quando você traz para a dimensão científica é perfeitamente errado.

Agora tenho que dizê-lo. E sei que vou sofrer muito por causa dessas declarações, porque na Índia as pessoas não estão acostumadas em ouvir qualquer crítica a Krishna, Mahavira ou Buda – não, de maneira alguma.

Primeiro vou deixar claro para você onde difiro. E em breve começarei a criticar os efeitos colaterais também.

Nishant, aguarde um pouco mais, porque tenho que dizer-lhe toda a verdade – toda a verdade como ela é, quaisquer que sejam as consequências. Apreciarei qualquer coisa que valha a pena ser apreciada e condenarei qualquer coisa que necessite ser condenada.

A pobreza e escravidão da Índia, um longo sofrimento, não pode ser simplesmente tolerado, ignorado. E Krishna, Mahavira e Buda não podem ser perdoados – eles são responsáveis. Se eles devem ser louvados pelo que contribuíram ao espiritual, eles devem ser criticados também porque foram a causa raiz da queda da Índia.

E agora chegou a hora em que tudo deve ser posto corretamente. E não é apenas uma questão da Índia: é uma questão do mundo inteiro. Assim como os tolos Indianos podem imitar o Ocidente, existem tolos Ocidentais que podem imitar à Índia e seguirem cometendo os mesmos tipos de enganos que a Índia cometeu no passado.

Temos que colocar as coisas absolutamente às claras. Temos que ser muito impassíveis. É por isso, Nishant, que você está sentindo que existe uma certa diferença – existe. Você não está imaginando coisas. O meu trabalho está entrando em uma nova fase, estou entrando em uma nova fase. Antes da minha nova comuna ocorrer, estou me preparando para isso…

A última questão:

Questão 4

AMADO MESTRE,

POR QUE ESTOU CANSADO DO SEXO?

Sandhan, o sexo é cansativo – e é por isso que lhe digo: Não o evite. A menos que você conheça a sua estupidez você não será capaz de livrar-se dele. A menos que você saiba do seu total desperdício, você não será capaz de transcendê-lo.

É bom que você começou a sentir-se cansado – isso é natural. O sexo simplesmente significa que a energia está sendo dissipada para baixo. A energia tem que mover-se para cima, então é nutritiva. Então abre tesouros inexauríveis em você – aes dhammo sanantano. Mas se você continua no sexo como um maníaco, em breve você se verá totalmente exausto, desgastado.

Um casal recém-casado foi até as Cataratas do Niágara em sua lua de mel. Quando chegaram imediatamente deram entrada em um hotel e não foram ouvidos por três dias, nem serviço de quarto, nada. Depois de um tempo o gerente ficou um pouco preocupado, então decidiu dar uma olhada.

Ele bateu na porta, escutou uma pequena corrida no quarto, e então um homem pálido abriu a porta apenas de bermuda. “Estamos preocupados,” disse o gerente.

“Bem, nós nos casamos agora,” replicou o homem.

“Entendo,” disse o gerente, “mas temos uma das maiores maravilhas do mundo…”

Naquilo uma voz tímida no fundo do quarto interrompeu, “Se você me mostrar aquela coisa mais uma vez, eu vou pular da janela.”

Você não entendeu! …três dias continuamente – a mulher é obrigada a pular da janela.

O ser humano pode seguir vivendo estupidamente apenas até um certo ponto – para além deste ele deve tornar-se consciente do que está fazendo consigo próprio. Sandhan, agora é a hora. Há coisas muito mais importantes na vida do que o sexo. O sexo não é tudo. É significante, mas não é tudo. Se você permanecer preso a ele, você perderá as glórias da vida.

E não sou contra o sexo, lembre-se. É por isso que meu ensinamento tornou-se um pouco contraditório. Sou um paradoxo. Não posso fazer nada em relação a isso porque a verdade ela própria é um paradoxo. Não sou contra o sexo, porque aqueles que são contra o sexo, eles sempre permanecerão sexuais. Sou a favor do sexo, porque se você for fundo nele você sairá rapidamente. Quanto mais conscientemente você for até ele, mais brevemente você sairá dele. E no dia em que uma pessoa sai do sexo totalmente é um dia de grande bênção.

É bom que você se sinta cansado. Agora não vá a um médico em busca de um remédio – isso não ajudará, ou isso apenas prorrogará o seu cansaço um pouco mais. Se você está se sentindo cansado isso simplesmente mostra que você chegou ao ponto em que você pode pular para fora dele.

Qual é a razão para permanecer nele se você está se sentindo cansado? Saia dele! E não estou dizendo reprima-o. Quando você sente muita energia pelo sexo e tenta sair, haverá repressão. Mas quando você está exausto e cansado e vê a sua futilidade, você sai dele sem repressão. E sair do sexo sem repressão é livrar-se dele.

A liberdade do sexo é uma grande experiência. A liberdade do sexo torna as suas energias disponíveis para a meditação, para o samadhi.

Por hoje é só.

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