Dhammapada: O Caminho do Buda, Vol 1. Cap 3 e 4, OSHO

O Dhammapada: O Caminho do Buda, Vol 1

Capítulo #3

Título do Capítulo: Verdadeiro ou Falso

23 de Junho de 1979 na Sala Buda

 

CONFUNDINDO O FALSO PELO VERDADEIRO

E O VERDADEIRO PELO FALSO,

VOCÊ SUBESTIMA O CORAÇÃO

E PREENCHE-SE DE DESEJO.

 

VEJA O FALSO COMO FALSO,

O VERDADEIRO COMO VERDADEIRO

OLHE PARA SEU CORAÇÃO

SIGA SUA NATUREZA.

 

UMA MENTE NÃO REFLETORA É UM TELHADO POBRE.

A PAIXÃO, COMO A CHUVA, INUNDA A CASA.

MAS SE O TETO É FORTE, HÁ ABRIGO.

 

TODO AQUELE QUE SEGUIR PENSAMENTOS IMPUROS

SOFRERÁ NESTE MUNDO E NO PRÓXIMO.

EM AMBOS OS MUNDOS SOFRERÁ,

E EXTREMAMENTE,

QUANDO VER OS EQUÍVOCOS QUE FEZ.

 

MAS TODO AQUELE QUE SEGUIR A LEI

É FELIZ AQUI E FELIZ LÁ.

REGOZIJA-SE EM AMBOS OS MUNDOS,

E EXTREMAMENTE,

QUANDO VER O BEM QUE FEZ.

 

NÃO IMPORTA QUANTAS PALAVRAS SAGRADAS VOCÊ LÊ.

NÃO IMPORTA QUANTAS VOCÊ FALA,

 

QUAL O BEM QUE ELAS LHE FARÃO

SE VOCÊ NÃO AGIR DE ACORDO COM ELAS?

VOCÊ É UM PASTOR

QUE CONTA AS OVELHAS DE OUTREM,

NUNCA COMPARTILHANDO O CAMINHO?

LEIA O MÍNIMO POSSÍVEL

E FALE AINDA MENOS.

MAS AJA DE ACORDO COM A LEI.

 

ABANDONE OS CAMINHOS ANTIGOS –

PAIXÃO, INIMIZADE, LOUCURA.

CONHEÇA A VERDADE E ENCONTRE A PAZ.

COMPARTILHE O CAMINHO.

 

A verdade existe. Ela não precisa de esforço da sua parte para inventá-la. A verdade tem que ser descoberta, não inventada. E o que nos impede de descobri-la? Aprendemos muitas mentiras, montanhas de mentiras. São elas as barreiras que seguem falsificando a verdade, que não permitem que nossos corações reflitam aquilo que é.

A verdade não é uma conclusão lógica. A verdade é existência, realidade. Já está aqui – sempre esteve. Apenas a verdade existe. Então por que nós não podemos encontrá-la? Como conseguimos não a encontrar? Porque desde criança nos ensinaram falsidades, preconceitos, ideologias, religiões, filosofias… tudo isso lhe desvia.

A verdade não é uma ideia. Você não precisa ser Hindu para conhecê-la, nem Islâmico, nem Cristão. Se você é Hindu você nunca a conhecerá; o fato de você ser um Hindu lhe manterá cego. O que queremos dizer quando falamos, “Sou um Hindu, ou um Islâmico, ou um Judeu?” Queremos dizer, “Já tenho algumas ideias sobre a verdade – ideias da Bíblia ou do Alcorão ou do Gita, mas já tenho ideias. Não conheço a verdade, mas sei muito sobre ela.” E este saber muito sobre ela é o único problema que deve ser resolvido.

Uma vez que você abandonar as suas ideias em relação à verdade você as confrontará, tanto no interior quanto no exterior. Você irá encará-las – porque não há mais nada!

Mas os pais, a sociedade, o estado, a igreja, o sistema educacional, todos eles dependem das mentiras. Quando uma criança nasce eles começam a enredá-la em mentiras. E a criança é indefesa. Ela não pode escapar dos seus pais, ela é totalmente dependente. Você pode explorar a dependência dela… ela foi explorada ao longo das eras.

Ninguém foi tão explorado quanto uma criança – nem o proletariado nem as mulheres, ninguém foi explorado tanto e tão profundamente e destrutivamente como as inocentes crianças. Porque elas são inocentes e dependentes elas têm que aprender qualquer coisa que vocês ensinarem a elas. Elas têm que absorver todas as falsidades que você segue forçando nelas. É uma questão de sobrevivência – elas não podem sobreviver sem você. É uma questão de vida e morte! Elas têm que ser Hindus, têm que ser Islâmicas, Jainas, Budistas, comunistas. Quaisquer coisas que vocês estejam interessados em colocar na mente delas, vocês seguem colocando.

Em vez de torná-las mais alertas, mais atentas, mais vivas, mais refletivas, em vez de torná-las mais como um espelho, puras, vocês as tornam cheias de ideias… camadas e camadas de poeira. E então se torna impossível para elas ver aquilo que é. Elas começam a ver o que não é e elas param de ver o que é.

Por isso, ser religioso significa um renascimento: torne-se novamente como uma criança, abandonando tudo o que a sociedade lhe deu.

A religião é uma rebelião – uma rebelião contra tudo o que foi forçado em você, uma rebelião contra ser reduzido a um computador. Apenas olhe para dentro! Qualquer coisa que você sabe, foi-lhe dito; não é conhecimento, não é autêntico. Como pode ser autêntico se não é seu? Você não é testemunha disso, você é apenas uma vítima – uma vítima das circunstâncias.

É apenas um acidente ter nascido na Índia ou na Inglaterra. É apenas um acidente ter nascido em uma família Hindu ou uma Cristã. Por causa desses acidentes a sua natureza essencial foi perdida – você foi forçado a perdê-la. Se você quer reganhá-la você terá que renascer.

Este é precisamente o significado quanto Jesus diz a Nicodemos, “Ao menos que você nasça novamente você não entrará no Reino de Deus.” Ele não quer dizer que você tem que de fato morrer, cometer suicídio, e então nascer novamente. Isso não ajudará, porque mais uma vez você nascerá em alguns pais, em uma certa sociedade, com uma certa igreja e novamente a mesma estupidez lhe será imposta.

Jesus quer dizer com ‘renascimento’ que deliberadamente, conscientemente, agora você é capaz de abandonar tudo o que lhe foi ensinado. Abandone o seu conhecimento e torne-se inocente. E este é o único caminho para se tornar inocente. O conhecimento é uma contaminação. Estar em um estado de não-conhecimento, e funcionar a partir deste estado é o único caminho para conhecer a verdade. Medite sobre esses sutras tremendamente significantes de Gautama o Buda. Ele diz:

CONFUNDINDO O FALSO PELO VERDADEIRO

E O VERDADEIRO PELO FALSO,

VOCÊ SUBESTIMA O CORAÇÃO

E PREENCHE-SE DE DESEJO.

A mente não é nada além do desejo. O coração não conhece o desejo. Você ficará surpreso em ouvir que todos os desejos pertencem à cabeça. O coração vive no presente; ele pulsa no aqui e agora. Ele não sabe nada do passado e nada do futuro. Ele está sempre no agora, no aqui.

E não estou falando de uma certa filosofia. Estou simplesmente declarando um fato tão simples que você pode observá-lo dentro de si mesmo: o seu coração está batendo agora. Ele não pode bater no passo, ele não pode bater no futuro. O coração só conhece o presente, por isso é totalmente puro. Ele não é poluído pelas memórias passadas, pelo conhecimento, pela experiência, por tudo o que lhe falaram e ensinaram, pelas escrituras, pelas tradições. Ele não sabe nada de toda essa tolice! E ele não sabe nada do futuro, do dia seguinte. Para ele, o passado não existe mais e o futuro ainda não existe. Ele está totalmente aqui. É imediato.

Mas a mente é totalmente o oposto do coração: a mente nunca está no agora, no aqui. Ou ela pensa em belas experiências do passado ou ela deseja as mesmas belas experiências no futuro. Ela segue se deslocando entre o passado e o presente, ela nunca para no presente. Ela está totalmente inconsciente do presente. Para a mente o presente não existe. Veja o ponto: o presente é a única coisa que existe, mas para a mente o presente é a única coisa que não existe. O passado é não-existencial, o futuro é não-existencial, mas essas são as coisas que são existenciais para a mente.

A cabeça é o problema… e o coração é a solução. A criança funciona a partir do coração. Quando você começa a crescer, você começa a mover-se do coração para a cabeça. Quando você se gradua em uma universidade você esqueceu-se completamente do coração. Você está paranoico pela cabeça, toda a sua energia moveu-se para a cabeça. Agora você não sabe nada da realidade. Você está cheio de lixo – lixo erudito, disparates acadêmicos. Você pode ser um Ph.D, um D.Litt. Você sabe muito, sem saber nada! – porque o conhecimento real acontece no coração, não na cabeça. E as universidades existem para distrair as suas energias do coração para a cabeça.

Todas as universidades do mundo foram inimigas da humanidade até agora. Toda a sua função é servir o estado e a igreja. Elas são agentes do status quo, elas são agentes dos interesses particulares. Elas não servem a você, elas servem os poderes, os mestres, os opressores, os exploradores. As universidades servem a qualquer um que estiver no poder. Elas ainda não estão a serviço da humanidade.

Se realmente estivesse a serviço da humanidade, então a universidade seria o lugar de se aprender a rebelião. A universidade criaria revolucionários. A universidade não criaria convencionalistas, conformistas; a universidade criaria não conformistas, pessoas não convencionais. Ela criaria rebeldes – aventureiros, prontos para arriscarem suas vidas pela verdade. Isso ainda não ocorreu.

É um fato triste que em nome da educação algo feio continue, algo muito feio. Por trás de uma fachada, algo muito criminoso continua. E este é o crime: que elas desviam as suas energias do coração para a mente, elas destroem a sua capacidade de amar e elas o forçam a aprender lógica. A lógica é mais importante do que o amor para elas, o pensamento é mais importante do que a sensibilidade. Isso é colocar os carros na frente dos bois. Isso está totalmente de ponta cabeça.

É por isso que a humanidade está essa bagunça: o falso parece verdade e a verdade parece falsa. As universidades foram bem-sucedidas em distorcer a sua visão. Os budas lutaram contra todos esses interesses particulares.

Buda diz: CONFUNDINDO O FALSO PELO VERDADEIRO E O VERDADEIRO PELO FALSO, VOCÊ SUBESTIMA O CORAÇÃO E PREENCHE-SE DE DESEJO.

A mente é desejo, e você segue se preenchendo cada vez mais de desejo, cada vez mais ambição, cada vez mais anseio por poder, prestígio, riqueza. E você se esquece completamente que há um coração batendo em seu interior que já vive em Deus, que já é parte da lei última – aes dhammo sanantano – que já é parte da lei eterna, inexaurível. Você está unido com o coração de Deus. Os seus corações são as raízes no solo de Deus.

O seu coração ainda é nutrido por Deus, pela verdade, mas você não está aí. Você desocupou o lugar. Você vive na sua cabeça. Entra dia, sai dia, você vive na sua cabeça; você nunca desce de lá. Mesmo de noite enquanto dorme você segue resmungando na cabeça… sonhos, sonhos sobre sonhos. De dia pensamento, de noite sonhos. Eles não são diferentes.

O sonho é apenas uma tradução do pensamento na linguagem do sono e vice-versa: o pensamento não é nada além da tradução do sonho na linguagem do dia. Você pode mover-se entre esses dois: sonho e pensamento. Ambos são desejo. O que você pensa? O que existe para pensar exceto o desejo? E o que você sonha exceto o desejo?

Buda diz que o falso parece ser verdade porque você se tornou falso à sua própria verdade, ao seu próprio coração. Volte ao coração e então você será capaz de conhecer a verdade como verdade e o falso como falso. Isso é iluminação, isso é vir para casa.

VEJA O FALSO COMO FALSO

Mas de onde começar? Comece vendo o falso como falso. É por isso que todos os budas parecem ser negativos, todos os budas parecem ser destrutivos. Eles negam. Jesus nega. Ele repetidamente diz: Foi-lhe dito no passado, mas eu digo a você… e ele altera todo o ponto de vista.

Por exemplo, ele diz: Foi-lhe dito no passado que o olho por olho é a lei. Se alguém joga um tijolo em você, reaja jogando uma pedra. Mas eu digo a você, se alguém te bater em uma face, dê a outra também. E se alguém roubar o seu casado, dê-lhe a sua camisa também. E se alguém forçar-lhe a andar uma milha, ande duas.

Maomé é contra todos os tipos de imagens de Deus, porque a sua gente as adorava por séculos; eles tinham trezentos e sessenta e cinco deuses – um deus para cada dia do ano. A Kaaba nos dias de Maomé era um dos maiores templos da terra – dedicado a trezentos e sessenta e cinco deuses! Maomé destruiu todos esses ídolos. Parece negativo…

Buda diz: Não há verdade nos Vedas, nas Upanishads. Cuidado com palavras bonitas, cuido com a especulação filosófica. Não gaste o seu tempo com ninharias, com a lógica. Fique em silêncio! Atire os Vedas para fora da sua cabeça, só então você poderá ficar em silêncio. Ele parece negativo, parece niilista, parece perigoso – mas essa é a única maneira que você pode ser ajudado.

É necessário lhe dizer que o falso é falso. Você tem que começar com isso: neti, neti – nem isso nem aquilo. O mestre tem que dizer-lhe, “Isso é falso, aquilo é falso.” Ele tem que primeiro seguir apontando para você o que é falso, porque quando você sabe tudo o que é falso, de repente uma transformação acontece em sua consciência. Quando você se tornou consciente do falso, você começa a tornar-se consciente do verdadeiro.

A verdade não lhe pode ser ensinada, mas certamente o que não é verdade pode lhe ser ensinado. Você foi condicionado, você pode ser descondicionado. Você foi hipnotizado – como Hindus, Islâmicos, Cristãos, Jainas… a função de um mestre é deshipnotizar você. Uma vez que você for deshipnotizado, de repente você será capaz de ver a verdade. A verdade não precisa ser ensinada.

VEJA O FALSO COMO FALSO, O VERDADEIRO COMO VERDADEIRO.

OLHE PARA SEU CORAÇÃO

SIGA SUA NATUREZA

Uma das declarações mais significantes: OLHE PARA SEU CORAÇÃO. SIGA SUA NATUREZA. Ele não diz siga as escrituras. Ele não diz siga-me. Ele não diz siga certas regras de conduta. Ele não está lhe ensinando qualquer moralidade. Ele não está tentando criar um certo caráter em torno de você, porque todos os caráteres são belas celas de prisão. Ele não está lhe dando um certo modo de vida. Em vez disso ele lhe dá coragem, encorajamento, para seguir sua própria natureza. Ele quer que você seja bravo o bastante para ouvir o seu próprio coração e seguir em harmonia.

“Siga a sua natureza” quer dizer flua consigo mesmo. Você é a escritura… e escondido lá no fundo de você há uma voz tranquila, pequena. Se ficar em silêncio você será guiado a partir daí.

O mestre é necessário apenas para tornar-lhe consciente do seu mestre interior. Então a sua função é cumprida. Então ele pode deixar-lhe consigo mesmo; ele pode lançar-lhe de volta para si. Um mestre não deve escravizar o discípulo; um mestre deve libertá-lo, dá-lo total liberdade. E essa é a única possibilidade de atingir liberdade total: SIGA SUA NATUREZA. Por “natureza” Buda quer dizer dhamma. Assim como é da natureza da água fluir para baixo e da natureza do fogo subir, da mesma forma há uma certa natureza oculta em você. Se todos os condicionamentos que foram colocados em você pela sociedade são removidos, de repente você descobrirá a sua natureza. A sua natureza tornou-se Deus. Aes dhammo sanantano – esta é a lei eterna, inexaurível: a sua natureza deve tornar-se Deus.

O ser humano é um deus em potencial – um bodisatva. O ser humano deve tornar-se um deus. Menos do que isso não lhe satisfará, menos que isso não servirá. Você pode ter todo o dinheiro do mundo, todo o poder, todo o prestígio possível e ainda assim permanecer vazio – a menos que sua natureza divina floresça, abra seus botões, a menos que você se torne um lótus, um lótus de mil pétalas, a menos que a sua divindade seja revelada a você, você nunca ficará satisfeito.

À pessoa religiosa ordinária é dito para que permaneça satisfeita, contente, qualquer que seja o caso. Os assim chamados santos seguem ensinando às pessoas: Fiquem satisfeitas. A satisfação é um dos seus ensinamentos fundamentais. Esta não é a maneira dos verdadeiros mestres.

O verdadeiro mestre cria descontentamento em você – e descontentamento tal que nada nesse mundo pode um dia satisfazê-lo. Ele cria um anseio tal, que a menos que você alcance o máximo você continuará incendiado, em chamas. Ele cria dor em seu coração, ele cria angústia… porque a vida desaparece a cada momento, e cada momento passado passou para sempre, e você ainda não alcançou Deus, e um dia se passou.

Ele cria um anseio profundo em você, tamanha dor no coração! Ele cria lágrimas nos seus olhos, porque apenas através desse descontentamento divino você mover-se-á, você dará o salto quântico, o salto último no desconhecido. É apenas através desse descontentamento divino que você unirá todas as suas energias, e arriscará, e seguirá na aventura máxima de descobrir quem você é.

Siga a sua própria natureza. A sua natureza é a consciência. Mas os sacerdotes lhe disseram: siga certas regras de conduta, os dez mandamentos, siga certos princípios – não a sua natureza. Os sacerdotes têm muito medo da sua natureza, porque se você seguir a sua natureza você sairá do controle deles, você não será mais um escravo. Você não irá a igrejas e templos e mesquitas, não ouvirá a seus estúpidos sacerdotes, políticos, os assim chamados líderes. Denomino-os “assim chamados líderes” porque o que está realmente acontecendo é que as pessoas cegas estão liderando outras pessoas cegas.

Você não os ouvirá mais se você ouvir a sua própria natureza. Se você conhecer a sua própria voz interior você se libertará. A sua voz interior esmagada, destruída, totalmente destruída – no mínimo tão distorcida que mesmo que você a escutar você não poderá entendê-la. E eles conseguiram. A menos que você lute duro contra elas não há possibilidade de sucesso. Sua exploração é tão velha, sua opressão tão antiga, suas estratégias tão astutas… e eles têm poder infinito em suas mãos. E o que você é contra eles como um indivíduo?

Mas se você for para dentro, se você ouvir o seu coração, você alcançará poder tal que poder nenhum na Terra poderá lhe escravizar novamente.

SIGA SUA NATUREZA… Mas como você segue sua natureza se você não sabe o que ela é? E não lhe é permitido conhecê-la! Você recebeu instruções precisas do que fazer: o que comer, quando acordar de manhã, quando ir para a cama. Você recebeu instruções precisas. Estas instruções, se seguidas, tornam-lhe um escravo. Se não seguidas, tornam-lhe um criminoso. Se seguidas, você se torna um santo – mas um escravo. As pessoas te adorarão, respeitarão, mas todo este respeito é um entendimento mútuo: “Se você seguir as nossas instruções, nós te respeitaremos. Se você não seguir, será jogado na cadeia.”

Ou você se torna um escravo espiritualmente ou um prisioneiro fisicamente: essas são as duas alternativas que a sociedade lhe dá. E esta nunca o deixa tornar-se consciente que há uma fonte de orientação divina no seu interior, de onde Deus fala.

Deus ainda fala, não parou de falar. Ele não é parcial – não é que ele falou com Maomé e com Moisés mas não falou com você. Ele está falando com você tanto quanto ele falava com Maomé. A única diferença é que Maomé estava pronto para ouvir e você não está pronto para ouvir. Maomé estava disponível e você não está disponível.

Tornar-se disponível para a sua natureza interior é o que chamo meditação.

Lembre-se dessas duas palavras. ‘Caráter’ é uma invenção dos políticos e dos sacerdotes; é uma conspiração contra você. A consciência é a sua natureza. Sim, um homem de consciência tem um certo caráter, mas este caráter segue a sua consciência. Não é imposto por ninguém sobre ele; é a sua própria decisão. E ele não está engaiolado no caráter; está totalmente livre para mudá-lo a qualquer momento. Conforme as circunstâncias mudam, sua consciência lhe dá direções diferentes e ele muda seu caráter.

O homem de caráter – o assim chamado homem de caráter – está engaiolado. Mesmo se as circunstâncias mudarem ele segue repetindo o mesmo caráter, apesar de não ser mais relevante, não se adequar. O contexto no qual era significativo desapareceu, mas ele segue repetindo o mesmo disparate. Ele é como um papagaio. Ele é uma máquina: não responde, apenas reage.

Um homem de consciência responde e suas respostas são espontâneas. Ele é como um espelho: reflete qualquer coisa que o confrontá-lo. E dessa espontaneidade, dessa consciência, nasce um novo tipo de ação. Esta ação nunca cria nenhuma servidão, qualquer karma. Essa ação te liberta. Você permanece uma liberdade se ouvir à sua natureza.

Mas esse simples conselho parece ser muito difícil para as pessoas. Ele deve ser a coisa mais simples do mundo. Toda criança nasce seguindo a sua natureza, mas conforme você cresce, aos poucos você perde contato com ela – você é forçado a perder o contato com ela. O contato pode ser reconquistado, pode ser redescoberto. Depois, quando você se torna muito instruído, engaiolado em um certo caráter, totalmente cego quanto ao seu coração e natureza, você começa a fazer questões.

Outro dia Prem Vijen perguntou:

“Amado Mestre, o que significa quando você diz ‘Vá para dentro?’” Uma declaração simples – “Vá para dentro” – e você me pergunta, “O que significa?” Você não entende essas simples palavras, “vá para dentro”? Sei que você entende as palavras, mas ir para dentro tornou-se tão difícil porque lhe ensinaram apenas como ir para fora. Você pode apenas ir para fora, você só sabe como ir para fora. A sua consciência voltou-se para os outros; ela se esqueceu do caminho até si mesma. Você segue batendo nas portas dos outros, e sempre que lhe dizem, “Vá para casa,” você diz, “O que você significa por ‘vá para casa’?” Você conhece apenas a casa dos outros, mas você não conhece a sua própria casa. E você a carrega em seu interior. Vocês foram forçados a serem extrovertidos. É preciso aprender novamente o caminho da introspecção.

Soren Kierkegaard disse: A religião significa introspecção – ir até a sua própria interioridade. Mas as simples palavras ‘ir para dentro’ tornaram-se tão difíceis de entender. A mente sabe apenas como ir para fora; ela não tem marcha a ré.

Ouvi dizer que quando Ford fez os seus primeiros carros eles não tinham marcha a ré. Foi uma adição posterior. Sem uma marcha a ré era realmente um problema: sempre que você queria voltar você teria que andar algumas milhas desnecessariamente, você teria que fazer um círculo. Mesmo se você quisesse andar apenas alguns passos para trás, você teria que fazer uma volta de milhas. Então Ford tornou-se consciente que uma marcha a ré era necessária.

Ensino-lhe aqui que há uma marcha a ré embutida, você apenas esqueceu-se dela. Você sabe como ir para fora. Ninguém pergunta, “O que significa quando você diz ‘vá para fora’?” Mas todos querem perguntar, “O que significa quando você diz ‘vá para dentro’?” Palavras simples!

Pensar é ir para fora: não-pensar é ir para dentro. Pense, e você começou a se mover para longe de si. O pensamento é o caminho que te leva para fora. O pensamento é um projeto. Não-pense… e de repente você está dentro. Sem pensamento você não pode ir para fora, sem desejo você não pode ir para fora. Você precisa do combustível do desejo e do veículo do pensamento para ir para fora.

Sentado silenciosamente, sem fazer nada… nem mesmo pensando, nem mesmo desejando… e onde você estará?

Ir para dentro não é realmente ir para dentro. É simplesmente parar de ir para fora… e de repente você se encontra dentro.

Prem Vijen, você não precisa ir para dentro porque se você for você sempre irá para fora. Ir significa ir para fora. Pare de ir! Pare de ir a qualquer lugar! Você não consegue sentar-se silenciosamente sem ir a algum lugar? Sim, fisicamente você pode sentar-se, isso não é muito difícil. Você pode aprender uma postura de yoga e você pode tornar o seu corpo quase uma estátua, mas o problema é – o que você está fazendo dentro? Desejos, pensamentos, memórias, imaginação, todos os tipos de projetos? – pare-os também.

Como pará-los? Torne-se indiferente a eles, despreocupado. Mesmo se eles estiverem lá, não preste atenção neles. Mesmo se eles estiverem lá, não lhes dê nenhuma importância. Mesmo se eles estiverem lá, deixe-os estar. Você se senta silenciosamente dentro – assistindo. Lembre-se dessa palavra ‘assistindo’ – testemunhando, apenas estando alerta.

E conforme o assistir cresce, torna-se profundo, a mesma energia que estava tornando-se desejos e pensamentos e memórias e imaginação – a mesma energia é absorvida na nova profundidade. A mesma energia é utilizada por essa introspecção mais profunda. E você conhecerá o que eu digo quando falo “vá para dentro.”

Não comece a olhar nos dicionários ou na Enciclopédia Britânica. Não é uma questão de palavras! As palavras são simples de entender; quando digo “vá para dentro,” é exatamente isso o que quero dizer – vá para dentro! Não comece a pensar nas palavras – ouça à mensagem oculta; de outra maneira você perderá o trem. O que quero dizer por ‘perder o trem’?

Permita-me contar-lhes uma história:

Uma inocente esposa de lavrador chegou na Estação Paddington para pegar um trem e tendo algum tempo para gastar antes do trem chegar ela pensou em checar o seu peso em uma balança próxima.

Ela subiu, colocou um centavo e retirou uma carta que diz, “Você pesa setenta quilos e em cinco minutos a partir de agora você peidará.” Vermelha de vergonha e sentindo-se um pouco indignada ela desceu da balança e apressou-se. Cinco minutos depois, para seu total espanto, ela peidou alto e longamente.

Muito embaraçada, mas intrigada, ela voltou à máquina para ver o que ela diria dessa vez. Entrou o centavo – saiu a carta: “Você ainda pesa setenta quilos e em cinco minutos a partir de agora você será estuprada.” Ela pulou da máquina com desgosto e caminhou firmemente para longe.

Um vendedor de jornais, que estava tendo uma manhã particularmente folgada, viu essa caipira e pensou em ter alguma diversão, então, antes de ela saber o que estava acontecendo, foi puxada para trás do balcão e estuprada. Emergindo alguns minutos depois em um estado terrível, com seu chapéu de um lado, o salto do seu sapato quebrado, e em total estado de choque, ela cambaleou de volta para a máquina e colocou um centavo às cegas. A carta dizia: “Você ainda tem setenta quilos, e com todo esses peidos e fodas, você perdeu o trem!”

Se você se tornar muito interessado em palavras – “O que significa ir para dentro? O que significa, verbalmente, linguisticamente?” – Vijen, você perderá o trem. Não perca tempo com palavras!

E é particularmente um novo tipo de doença que prendeu os intelectuais do mundo. Por pelo menos cinquenta anos o mundo filosófico tornou-se muito interessado nas palavras, em análise linguística. Eles não perguntam mais o que Deus é. Eles não perguntam mais se Deus existe ou não. O filósofo contemporâneo pergunta, “O que significa quando você usa a palavra ‘Deus’?” Não é uma questão se Deus existe ou não. Não é uma questão de qual Deus existe. Não é uma questão de como atingir Deus. Agora a questão tomou uma guinada muito nova: “O que você quer dizer quando usa a palavra ‘Deus’?”

O que você quer dizer quando usa a palavra ‘rosa’? Agora é fácil: você pode pegar o filósofo, forçá-lo a ir ao jardim, e você pode mostrá-lo a rosa: “É isso o que quero dizer quando uso a palavra ‘rosa’. Mas isso não pode ser feito com a palavra ‘Deus’ – e isso não pode ser feito com a palavra ‘meditação’ e isso não pode ser feito com as palavras ‘ir para dentro’. Esses são fenômenos sutis. Não se torne linguisticamente interessado. Não estou aqui para lhe ensinar análise linguística.

Toda a minha abordagem é existencial. Se você realmente quiser saber o que significar ir para dentro, vá para dentro! E o caminho é: assista seus pensamentos e não se identifique com eles. Permaneça apenas um observador, totalmente indiferente, nem a favor nem contra. Não julgue, porque todo julgamento traz identificação. Não diga, “Esses pensamentos estão errados,” e não diga, “Esses pensamentos são bons.” Não comente os pensamentos. Apenas deixe-os passar como se fosse apenas o tráfego passando, e você estando do lado da rua despreocupado, olhando para o tráfego.

Não importa o que passa – um ônibus, um caminhão, uma bicicleta. Se você puder observar o processo de pensamento da sua mente com tal indiferença, com tal desapego, este momento não estará muito distante do dia em que todo o tráfego desaparecerá… porque o tráfego pode existir apenas se você seguir dando energia a ele. Se você para de dar energia a ele…

E é isso o observar: pare de dar energia, pare a energia que se move até o tráfego. É a sua energia que faz esses pensamentos moverem-se. Quando a sua energia não vem eles começam a cair; eles não podem permanecer por si próprios.

E quando a estrada da mente está totalmente vazia, você está dentro. É isso o que quero dizer, Vijen, quando digo “vá para dentro.” E é isso o que Buda quer dizer quando diz: SIGA SUA NATUREZA

UMA MENTE NÃO REFLETORA É UM TELHADO POBRE.

A PAIXÃO, COMO A CHUVA, INUNDA A CASA.

MAS SE O TETO É FORTE, HÁ ABRIGO.

UMA MENTE NÃO REFLETORA… Buda não quer dizer por “reflexão” o pensamento, note. Por “reflexão” ele simplesmente significa reflexão, não pensamento – reflexão no sentido de um espelho que reflete.

Basta pensar em uma criança: uma criança nasce, pela primeira vez a criança abre os olhos – ela verá as árvores, mas não será capaz de dizer a si mesma, “Essas são árvores.” Ela verá a luz, mas não será capaz de dizer em seu interior, “Isso é luz elétrica.” Ela verá a vermelhidão da rosa, mas não será capaz de dizer, “Isso é uma rosa e a cor é vermelha.” Ela verá tudo, mas não fará nada dentro. Isso é espelhamento: ele será um simples espelho. As árvores ainda serão verdes, de fato, muito mais verdes do que elas jamais serão novamente, porque o espelho está completamente puro, cristalino. O espelho não tem poeira… os pensamentos empoeiram.

Quando você vai ao jardim e diz, “A rosa é bela,” você pode nem mesmo estar vendo a rosa. Você pode estar simplesmente repetindo um clichê. Porque você ouviu falar que as rosas são belas você está dizendo. Vendo um belo pôr do sol, você pode não o estar vendo, você pode não estar atento, pode não estar consciente… mas inconscientemente, automaticamente, você declara, “É um belo pôr do sol.” Não há significado algum; você está simplesmente dizendo porque lhe disseram. Você está repetindo a declaração de outra pessoa. Se você observar profundamente, você pode ser capaz de encontrar de quem é essa declaração – da sua mãe, seu pai, professor, amigos. Se você observar mais cuidadosamente você será capaz de escutar a voz exata de quem disse pela primeira vez que o pôr do sol é belo… você está simplesmente repetindo-o. Você não viu esse pôr do sol. Você não viu a talidade, o presente, a sua beleza imediata.

Buda diz: UMA MENTE NÃO REFLETORA É UM TELHADO POBRE. A PAIXÃO, COMO A CHUVA, INUNDA A CASA.

Uma mente que se esqueceu como espelhar a verdade é sempre vítima do desejo – uma vítima da cabeça, uma vítima do futuro, uma vítima do constante desejo por isso e por aquilo. E nenhum desejo pode ser saciado. No momento em que um desejo é realizado ele cria mais dez desejos.

E isso segue acontecendo… e a vida é tão curta, e a morte pode bater a qualquer momento.

Você veio ao mundo para ser realizado, mas você vai embora de mãos vazias, você vai irrealizado. Por isso você terá que vir novamente. A menos que você aprenda a lição você terá que ser jogado repetidamente em algum útero, você terá que renascer. Você será mandado de volta para a escola. Milhões de vezes você foi mandado, e se você não prestar atenção, nessa vida você também perderá o trem.

Esteja consciente! Comece limpando o espelho para que você possa refletir. A PAIXÃO, COMO A CHUVA, INUNDA A CASA. MAS SE O TETO É FORTE, HÁ ABRIGO. Se você souber como refletir a realidade há abrigo. Você está seguro porque você está em Deus, porque você é parte da verdade.

TODO AQUELE QUE SEGUIR PENSAMENTOS IMPUROS

SOFRERÁ NESTE MUNDO E NO PRÓXIMO.

EM AMBOS OS MUNDOS SOFRERÁ,

E EXTREMAMENTE,

QUANDO VER OS EQUÍVOCOS QUE FEZ.

Todos os pensamentos são impuros. Um pensamento não pode ser puro. Então deixe-me lembrá-lo novamente: sempre que Buda diz “pensamentos impuros” ele quer dizer pensamentos. Ele usa o adjetivo ‘impuro’ para enfatizá-lo, porque se simplesmente disser “pensamentos” você pode não entender corretamente. Então ele diz “pensamentos impuros”, mas ele sempre quer dizer pensamentos. Todos os pensamentos são impuros, porque um pensamento significa que você pensa no outro, um desejo surgiu. E sempre que ele diz “um pensamento puro” ele quer dizer não-pensamento.

Apenas um não-pensamento é puro, porque então você é totalmente você mesmo, sozinho, sem nada interferindo.

Jean-Paul Sartre diz: O inferno são os outros. E ele por um lado está certo, porque sempre que você pensa no outro você está no inferno. E todos os pensamentos são endereçados aos outros. Quando você está em um estado de não-pensamento você está sozinho, e solidão é pureza. E naquela solidão acontece tudo o que vale a pena acontecer.

MAS TODO AQUELE QUE SEGUIR A LEI

É FELIZ AQUI E FELIZ LÁ.

REGOZIJA-SE EM AMBOS OS MUNDOS,

E EXTREMAMENTE,

QUANDO VER O BEM QUE FEZ.

Retrospectivamente, quando vê que criou um inferno para si próprio – ninguém mais é responsável além de você – quando você ver isso você sofrerá muito, terrivelmente. Não há nem mesmo uma desculpa, você não pode jogar a responsabilidade nos ombros de ninguém: a responsabilidade é sua.

O sofrimento estará lá e ficará mais forte, ainda mais intenso, porque você também sentirá, “Tenho sido tolo. Ninguém me fez sofrer. Era por causa dos meus pensamentos. Sofri porque me tornei cada vez mais extrovertido, cada vez mais interessado nas coisas de fora. Sou o único responsável.”

Isso lhe dará muita angústia – e vice-versa. Se você seguir a lei, dhamma, tao, se você seguir o seu núcleo mais interior, a sua natureza, você estará alegre aqui e lá.

Buda não se preocupa muito com o “lá.” Mas ele diz que se você está alegre aqui com certeza você estará alegre lá. Se nesse momento você está satisfeito, o próximo momento você estará mais satisfeito, porque o próximo momento nasce desse momento.

E sua bem-aventurança coleta momentum, é acumulativa. Se nesse momento você está sofrendo, no próximo momento você sofrerá mais, porque você aprende os modos do sofrimento, você se torna habituado com o sofrimento. Você criará mais sofrimento no próximo momento porque você se torna mais eficiente ao criá-lo. Então, qualquer que seja a natureza deste momento, ela será fortalecida, aprofundada, no próximo.

Mas Buda não está preocupado com o próximo momento de forma alguma. Ele simplesmente declara um fato.

Não se preocupe com o próximo momento, ou a próxima vida, ou o próximo mundo. Contente-se neste momento, torne este momento um momento de bem-aventurança e o próximo lhe seguirá, e a próxima vida, o próximo mundo. E tudo que você é neste momento será aprofundado cada vez mais. E quando você ver que é responsável pela sua bem-aventurança, esta será muito maior. Quando você ver que ninguém a deu a você, que você não foi um mendigo, que não é um presente de outrem – porque ninguém a deu, ninguém pode retirá-la – quando você ver isso você estará muito mais feliz.

POIS GRANDE É A COLHEITA NESSE MUNDO,

E AINDA MAIOR NO PRÓXIMO.

NÃO IMPORTA QUANTAS PALAVRAS SAGRADAS VOCÊ LÊ.

NÃO IMPORTA QUANTAS VOCÊ FALA,

QUAL O BEM QUE ELAS LHE FARÃO

SE VOCÊ NÃO AGIR DE ACORDO COM ELAS?

Mas tudo depende da ação. Não é uma questão apenas de pensar pensamentos belos. Não é uma questão de belos desejos – de Deus, paraíso, moksha. Não é uma questão de pensar na meditação, mas agir, fazer algo em relação a isso. Apenas a ação pode ajudar. Você tem que se envolver, tem que dedicar-se.

Muitas pessoas vêm até mim e dizem, “Amamos os seus discursos, mas não queremos meditar e não queremos nos tornar sannyasins. Não é suficiente” eles perguntam, “ouvir apenas os seus belos discursos?” É totalmente fútil!

Apenas ouvir os meus discursos é muito estúpido. Se você não vai agir, não gaste tempo – é um exercício em futilidade! Se você continua a me ouvir e nunca age, as minhas palavras podem ser tranquilizantes, as minhas palavras podem ser consoladoras, as minhas palavras podem ser convincentes, você pode desfrutar intelectualmente o que estou falando, você pode apreciar o espaço que é criado pela minha presença, mas isso não o ajudará. A ação é absolutamente necessária.

Se você está convencido de uma verdade, aja na direção dela, aja imediatamente! – porque a mente é muito esperta, e a maior esperteza da mente é o adiamento. Ela diz, “Amanhã…” e o amanhã nunca vem. Ela diz, “Sim, vamos meditar um dia. Deixe-nos primeiro entender o que é a meditação.” E então você pode seguir entendendo o que é a meditação por toda a vida, e você nunca agirá. E a menos que você aja nada nunca acontecerá, nenhuma transformação acontecerá.

Sannyas é um compromisso. É um mostrar ativo do seu amor por mim. É tornar-se envolvido com o meu destino. É entrar no meu barco. É perigoso – é mais fácil ficar na margem e ouvir. Então é um tipo de entretenimento – um entretenimento espiritual! – mas totalmente inútil, apenas um passatempo.

E é isso o que as pessoas fazem nas chamadas reuniões espirituais – satsangs. Eles vão ao sermão de Domingo e ouvem com atenção e muito seriamente, mas fora da igreja aquilo não tem efeito em suas vidas. De fato, mesmo o sacerdote não é afetado pelo que diz. É o seu negócio dizer essas coisas, ele é pago para isso. Ele é um profissional. E é uma formalidade para os ouvintes – apenas para ter uma boa reputação na comunidade, que eles são religiosos, que eles vão às missas todos os Domingos. É também um belo encontro social – encontrar pessoas, falar com pessoas, fofocar. Dá uma boa oportunidade – em nome da religião. Um encontro social! É um tipo mais antigo de Rotary Club, Lions Club, etc. Não conta, não muda a vida deles.

Uma vez morei na vizinhança de um padre Cristão, um orador muito eloquente. Um dia ele me mostrava o seu jardim e começamos a falar disso e daquilo. E ele disse, “Você pode ajudar o meu filho?”

Eu disse, “O que ocorre com seu filho?”

Ele disse, “Ele começou a levar os meus sermões muito a sério. Tenho que pregar e tenho que falar sobre coisas grandes. Ele vem ouvir e começou a levá-las muito a sério. Agora ele não quer casar; ele quer tornar-se um homem sagrado. Você não pode ajudá-lo?”

“Eu posso – esse é o meu negócio! Posso ajudar – ajudo pessoas sagradas a tornarem-se novamente profanas. Mande-o para mim. Vou puxá-lo para baixo.”

“Mas ouça,” o padre disse, “ele está levando as minhas palavras muito a sério.” Mesmo o padre não quer que ninguém leve suas palavras muito a sério – e ninguém o faz, exceto poucas pessoas tolas.

Mas quando você está em torno de um Buda, um Jesus, um Krishna, um Maomé, não é uma questão de levar as palavras deles muito a sério. É uma questão de ver a autenticidade das suas palavras e então agir de acordo com elas. Se elas mexem com o seu coração, se um sino começa a tocar em seu coração, então não o pare. Então siga, então vá cada vez mais fundo, porque essa é a única maneira de ser transformado. Este é o único caminho para conhecer o eterno – aes dhammo sanantano. É o único caminho para conhecer a harmonia eterna da existência.

E conhecer a harmonia eterna é conhecer a bem-aventurança, é conhecer Deus, é ir além do tempo, além da morte, é ir além da miséria.

Duas mulheres conversam em uma sala de chá às quatro da tarde, ambas com grandes sundaes grudentos e pequenos bolos açucarados. Elas não se encontram desde os dias do colegial, e uma está se gabando de seu casamento muito vantajoso.

“Meu marido compra conjuntos novos de diamantes para mim quando o meu conjunto fica sujo,” Ela diz. “Eu nem preciso incomodar-me em limpá-lo.”

“Fantástico!” diz a outra mulher.

“Sim,” diz a primeira, “temos um carro novo a cada dois meses. E nada a prestação! Meu marido os compra completamente, e os damos ao jardineiro Negro e aos caseiros como presente.”

“Fantástico!” diz a outra.

“E nossa casa,” segue a primeira, “bem, o qual o utilidade de falar disso? É apenas…”

“Fantástico!” terminou a outra.

“Sim, e me diga, como você vai?” disse a primeira mulher.

“Vou para a Escola do Charme,” disse a outra.

“Escola do Charme? Por quê, que exótico! O você aprende lá?”

“Bem, aprendemos a dizer ‘Fantástico’ em vez de ‘Que merda!”

Você pode começar a chamar papos furados “fantásticos,” mas não faz diferença. Você pode aprender lixo religioso, espiritual.

Há muitas pessoas aqui que são especialistas no assim chamado jargão esotérico. Elas sempre falam de muitos planos, muitos corpos, muitos centros… e elas falam tão seriamente que parece que sabem o que estão falando. Evite o lixo esotérico! Evite o conhecimento esotérico! Não é conhecimento, é apenas para enganar as pessoas. Se você se interessa por essas coisas você deveria ler a grande literatura que foi criada pelos teosofistas.

Tudo funciona, você só deve falar de uma forma que pareça de outro mundo. Não pode ser provado nem refutado. Ora, como você pode provar quantos planos existem? Sete ou treze?

Um homem veio até mim. Sua seita religiosa acreditava em catorze planos, e ele tinha um mapa, ele trouxe o mapa. Mahavira havia alcançado apenas o quinto plano, Buda o sexto, Kabir e Nanak, o nono – porque era do Punjabi ele foi um pouco generoso com Nanak e Kabir. Porém o seu próprio Radhaswami guru, ele alcançou o décimo quarto! Mesmo Buda está apenas no sexto! E Maomé, sabe onde ele está? – apenas no terceiro! Um Hindu e um Punjabi, como você pode permitir que Maomé vá além do terceiro? Ele permanecia inferior. Com Jesus ele foi um pouco mais generoso – na quarta; ele colocou Jesus na quarta. Mas o seu próprio guru – ninguém sabe sobre seu guru – ele alcançou a décima quarta! A décima quarta é chama satch-khand – o plano da verdade.

Então perguntei a ele, “E os outros treze?”

Ele disse, “Eles estão se aproximando cada vez mais da verdade, apenas aproximadamente verdadeiro.”

Ora, pode existir algo aproximadamente verdadeiro? Ou algo é verdadeiro ou algo não é verdadeiro. Ou estou aqui na cadeira ou não estou na cadeira – não posso estar aproximadamente na cadeira. Então “aproximadamente verdadeiro” é um belo nome para uma mentira.

Ele veio para perguntar-me qual a minha opinião sobre os catorze planos. Eu disse, “Alcancei o décimo quinto. E assim como você me pergunta sobre os planos, o seu Radhaswami guru me pergunta repetidas vezes como entrar no décimo quinto.”

Ele ficou muito bravo. Ele disse, “Nunca ouvi sobre o décimo quinto plano!”

Eu disse, “Como você poderia? O seu guru alcançou apenas o décimo quarto, então você ouviu sobre o décimo quarto. Mas eu alcancei o décimo quinto!”

Puro disparate! Mas pode ser apresentado de tal maneira que pareça muito espiritual. Evite!

Buda diz: NÃO IMPORTA QUANTAS PALAVRAS SAGRADAS VOCÊ LÊ. NÃO IMPORTA QUANTAS VOCÊ FALA, QUAL O BEM QUE ELAS LHE FARÃO SE VOCÊ NÃO AGIR DE ACORDO COM ELAS?

A crença permanece no mundo das palavras. É a confiança, uma profunda confiança, que te leva para a ação. A ação é arriscada. Falar sobre a outra margem é simples, mas nadar até a outra margem é perigoso, porque nenhum mapa existe. De fato, ninguém pode ter certeza sobre a outra margem, se ela existe ou não.

Apenas a crença ordinária não basta. A menos que você tenha uma tremenda confiança na vida, a menos que você tenha uma tremenda confiança em sua própria voz interior, você não pode seguir a viagem do oceano não mapeado.

Mas apenas a ação provará que você confia, e apenas a ação pode transformá-lo.

VOCÊ É UM PASTOR

QUE CONTA AS OVELHAS DE OUTREM,

NUNCA COMPARTILHANDO O CAMINHO?

Buda costumava dizer isso repetidamente: que há pessoas tolas que seguem contando as vacas de outras pessoas – que este homem tem quinze vacas, este homem tem treze vacas – e elas próprias não têm nenhuma! Para que contar as vacas e ovelhas de outras pessoas? Não te alimentará, não te nutrirá. É um puro gasto de tempo!

Mas isso é o que ocorre em nome da religião. O que os Vedas dizem… as pessoas gastam suas vidas inteiras tentando decifrar o significado dos Vedas. Existem pessoas que gastaram suas vidas inteiras buscando o verdadeiro significado da Bíblia. Isso é contar as ovelhas dos outros!

Você pode ir para dentro e você poderá ouvir a Bíblia surgindo ali – como Jesus a ouviu. Jesus não tem privilégio sobre você. Ninguém é privilegiado! Ante a lei eterna, ante dhamma, todos são iguais. Neste mundo todos são desiguais e nunca poderão ser iguais. Neste mundo o comunismo é impossível.

Mas no mundo interior todos são iguais – apenas o comunismo é possível. O comunismo é um fenômeno interior. Os esforços que estão sendo feitos para fazer do mundo externo um mundo comunista são fúteis; não pode ocorrer na própria natureza das coisas.

Agora na União Soviética as classes antigas não estão lá, mas há novas classes surgindo. As classes antigas são substituídas pelas novas classes. Primeiro havia o proletariado e a burguesia; agora há pessoas que governam, os governantes, os membros do Partido Comunista, e as pessoas que são governadas. É o mesmo jogo jogado com nomes diferentes.

No mundo externo o comunismo é impossível. A iniquidade é a lei; todos são desiguais no mundo externo. Alguém é mais forte que você, outrem mais inteligente, mais belo, talentoso, genial… As pessoas são diferentes e elas não podem ser forçadas a serem iguais; isso seria destruir a humanidade. Elas permanecerão desiguais.

Mas no interior, quando você se move para dentro, a desigualdade começa a desaparecer. No núcleo mais interno há uma igualdade absoluta. O comunismo é um fenômeno interior.

É por isso que chamarei o meu novo ashram de comuna. O comunismo vem da palavra ‘comuna’. Será uma qualidade interior. As pessoas permanecerão diferentes, tanto quanto possível; de fato, em relação ao mundo externo, todos devem ter sua individualidade única, seu próprio sabor, sua própria assinatura. Do lado de fora todos devem ter liberdade absoluta de serem si mesmos. No interior, o ego desaparece, a personalidade desaparece, existe apenas a pura consciência. E duas consciências não são maior ou menor. Não há hierarquia.

Não continue a contar as ovelhas dos outros. Vá para dentro! Não siga lendo escrituras. Vá para dentro! Não continue a ouvir as palavras dos outros. Compartilhe o caminho! Se você encontrar um buda você será afortunado. Se você apaixonar-se por um buda você é abençoado. Não ouça apenas às suas palavras. Siga o caminho, compartilhe o caminho! Olhe para onde ele está apontando, não comece a adorar o seu dedo. Olhe para a lua!

LEIA O MÍNIMO POSSÍVEL

E FALE AINDA MENOS.

MAS AJA DE ACORDO COM A LEI

Permita-me lembra-los novamente, porque a palavra ‘lei’ em Inglês tem associações errôneas. É uma tradução de dhamma: a lei eterna, a lei cósmica, logos. AJA DE ACORDO COM A LEI não significa agir de acordo com o Código Penal Indiano. Agir de acordo com a lei significa agir de acordo com sua natureza interior.

ABANDONE OS CAMINHOS ANTIGOS –

PAIXÃO, INIMIZADE, LOUCURA.

CONHEÇA A VERDADE E ENCONTRE A PAZ.

COMPARTILHE O CAMINHO.

ABANDONE OS CAMINHOS ANTIGOS… Você tem que ser descontínuo em relação ao passado. Você tem que existir de uma forma nova. Você tem que cortar a si próprio do passado com um golpe único. E é isso o que sannyas é: cortar a si próprio do passado com um golpe único da espada.

Quais são os caminhos antigos? – o caminho do desejo, o caminho do ódio e o caminho da estupidez. Não funcione a partir do ódio e não deseje as coisas, posses. E não seja supersticioso, tolo. Se você puder fazer isso, se você puder dar esse salto no desconhecido… porque o passado é conhecido e você está acostumado a fazer as coisas de certa maneira. Quando você abandona o passado você ficará perdido por alguns dias, desorientado, sem saber o que fazer, como fazê-lo. Você ficará em um vácuo. Você deve atravessá-lo. É doloroso – este é o preço que devemos pagar pela verdade.

Uma vez que você encontrar aquele vácuo: CONHEÇA A VERDADE E ENCONTRE A PAZ. Então a verdade é conhecida e a verdade segue a paz como uma sombra.

COMPARTILHE O CAMINHO, Buda insiste novamente. Mas isso não pode acontecer somente ao ouvir, apenas ao ler as obras dos mestres.

COMPARTILHE O CAMINHO.

AES DHAMMO SANANTANO.

Por hoje é só.

 
 
 

O Dhammapada: O Caminho do Buda, Vol 1

Capítulo #4

Título do Capítulo: Apenas sorte, acho!

24 de Junho de 1979 na Sala Buda

 

A primeira questão:

AMADO MESTRE,

AO RETORNAR À HOLANDA NO ANO PASSADO COMECEI A COMUNICAR SOBRE VOCÊ COM UM IMENSO SENSO DE URGÊNCIA. SENTI QUE VOCÊ TRANSMITIU ESSA URGÊNCIA PARA MIM, MAS PARECIA TAMBÉM SER PARTE DA MINHA NATUREZA.

ESSE SENTIMENTO DE NÃO HAVER UM SEGUNDO PARA PERDER, O DESEJO DE TRAZER MAIS HOLANDESES PARA TORNAREM-SE SANNYASINS O MAIS RÁPIDO POSSÍVEL, DISTANCIOU-ME DE SER BRINCALHÃO. A SERIEDADE LEVOU A MUITA ANGÚSTIA PORQUE FUI CONFRONTADO COM A INDIFERENÇA, O RIDÍCULO E O DESPREZO, ESPECIALMENTE DOS JORNALISTAS. OBJETIVAMENTE NÃO FALHEI – LONGE DISSO – MAS EM TERMOS DO SER, A MINHA VIAGEM NÃO FOI EXATAMENTE wu-wei. SIMPLESMENTE NÃO CONSIGO COMBINAR ESSA URGÊNCIA COM ALEGRIA E RELAXAMENTO.

VOCÊ DIRIA ALGUMAS PALAVRAS SOBRE ESSA URGÊNCIA, MESMO DEPOIS DE VOCÊ JÁ TER ME DADO TANTO?

 

Deva Amrito, a graça que eu falo vem muito lentamente. Você não pode simplesmente pular para fora da sua seriedade que você acumulou por vidas. Agora ela tem uma força própria.

Relaxar não é uma coisa simples; é um dos fenômenos mais complexos possíveis, porque tudo o que nos ensinam é tensão, ansiedade, angústia. A seriedade é o próprio núcleo em que a sociedade é construída ao redor. A graça é para as crianças pequenas, não para adultos. E estou te ensinando como ser criança novamente, como ser brincalhão novamente. É um salto quântico, um pulo… mas leva tempo para entender.

Em relação a mim, você foi imensamente bem-sucedido: objetivamente, com certeza, mas subjetivamente também. Inesperadamente você foi bem-sucedido. Qualquer outra pessoa em seu lugar estaria em um hospício.

Você estava excitado e é natural ser excitado. Quando alguém me entende, sente-me, este alguém imediatamente começa a sentir uma urgência – nem um único momento a perder. E a palavra deve ser espalhada. Um tipo de tremenda imediatez toma conta.  É natural! É verdade que não há nenhum momento a perder. E se você me ama, você gostaria que todas aquelas pessoas viessem até mim, porque elas podem não ter uma oportunidade novamente – por séculos, por vidas.

Quando você ama, você encontrou um tesouro, você quer compartilhá-lo. E se o tesouro é tal que pode desaparecer a qualquer momento, como você pode evitar o sentimento de imensa urgência? Você terá que gritar dos topos das casas.

E a resposta que você terá é absolutamente certa e fixa. Quanto mais você quiser que as pessoas venham até mim, mais elas escaparão – de você, da própria ideia de vir até mim. E a única forma de escapar é ridicularizá-lo, rir de você, chamá-lo de louco. Essa é a maneira deles se defenderem. Se eles te ouvirem compreensivamente, se eles permitirem que você os engolfe, transborde em seus seres, inunde os seus seres, então eles estarão sob o mesmo poder. E será muito difícil para eles evitarem.

Por isso, desde o início eles o ridicularizarão, criticarão, farão oposição, rirão de você. Eles farão todo o possível para criar em você o sentimento que você está errado. Eles não podem criar esse sentimento em você. Quanto mais eles o ridicularizam, quanto mais riem, quanto mais criticam, mais você tentou convencê-los.

E você foi objetivamente bem-sucedido – você convenceu milhares de pessoas. Desde que você foi para a Holanda, muitos holandeses chegaram e outros mais estão chegando, mais pessoas continuarão chegando. E foi uma grande experiência para o seu crescimento interior também.

O impacto que você criou ainda não entrou na sua cabeça; ele não te fez mais egoísta. De fato, tornou-te mais humilde. Pode não ter sido exatamente wu-wei, mas foi próximo. E eu não esperava que fosse absolutamente wu-wei, mas foi mais do que eu esperava.

Eu estava com um pouco de medo, Amrito, que você ficasse louco. A urgência era tanta, o seu êxtase era tanto, você estava tão apaixonado por mim, que lá no fundo eu estava com medo. Eu te enviei com todos os tipos de apreensões. Mas você sobreviveu ao teste. Você voltou. O tumulto que foi criado ao seu redor porque você falava de mim – nos jornais, no rádio, na TV – a forma que você falava, deu o sentido do seu imenso amor, deu o sentido que você encontrou a casa.

Muitos foram convencidos. E muitos que não foram convencidos também começaram a pensar nisso. E mesmo aqueles que te ridicularizaram e se opuseram a você estão impressionados; caso contrário, quem liga? Por que você deve opor-se a alguém se você não se impressionou? Por que você deve ridicularizar e rir se você está simplesmente alerta que ele é louco? Ninguém ri de um louco, ninguém ridiculariza um louco. É suficiente saber que é louco e tudo está acabado!

Você criou uma corrente que continuará. E eu gostaria que muitos dos meus sannyasins estivessem tão excitados, sentissem a urgência, de ir para seus países e espalhar a palavra. E vocês terão que gritar dos topos das casas.

E sempre que você está amando você parece louco – você está louco. O amor é loucura… mas muito superior do que a assim chamada sanidade, a sanidade medíocre, mundana. E o amor é cegueira, mas uma cegueira que é capaz de ver o invisível.

O amor não é parte do mundo ordinário que criamos. Expelimos o amor dele. Então sempre que você ama – e amar um mestre, amar um buda, é o amor último – te leva à loucura. Ele te torna uma parte do além. Ninguém pode acreditar nele.

Como os seus amigos poderiam acreditar, Amrito, que este amor ocorreu com você e não ocorreu com eles? É muito contra os seus egos que você encontrou e eles ainda não encontraram, e eles ainda estão lutando. Não, o caminho mais fácil para eles é negar, dizer que você não encontrou, que está em uma ilusão, que foi hipnotizado, que você está alucinando, que você tem se drogado. Isso dá a eles um consolo, dá a eles um certo conforto. Se você realmente encontrou, então eles ficarão muito desconfortáveis – então as suas vidas são fracassos.

Foi uma bela experiência. Eu sabia que você não poderia ser muito divertido. Foi difícil. A próxima vez que eu te enviar, você será mais divertido. Agora não fique com medo! Eu sei que você não quer voltar novamente. Já chega… mas uma vez mais. Da próxima vez todo o projeto será divertido. Então as pessoas rirão mais e elas pensarão que você ficou ainda mais louco. Mas ria… dance, cante. Desta vez você estava argumentando. Na próxima nenhuma argumentação – canto, dança e abraços.

Mas estou absolutamente feliz. Qualquer coisa que tenha acontecido foi boa objetivamente, foi boa para os outros, foi boa para você. É um recurso: mandá-lo para um propósito particular é um dispositivo para o seu crescimento interior. E você foi bem-sucedido.

Havia toda a possibilidade de ser uma falha.

Lembro-me:

Uma vez George Gurdjeff pediu a P. D. Ouspensky, seu principal discípulo naqueles dias, que fosse de Londres para um lugar longínquo em alguma parte do Cáucaso. Era muito difícil. Financeiramente Ouspensky estava falido. Ele não tinha dinheiro, nenhuma casa para viver, ninguém para ajudá-lo. E uma viagem tão grande! E os tempos eram perigosos. Naquelas partes do mundo era perigoso mover-se, porque a revolução Russa estava ocorrendo. As pessoas estavam sendo massacradas, mortas, assassinadas. Não havia paz. Mesmo Gurdjeff teve que deixar a Rússia e se esconder nas montanhas do Cáucaso.

Não era o momento certo para ir até lá; era muito perigoso. A jornada não era fácil: todos os trens foram desarranjados, as estradas foram destruídas, pontes foram derrubadas. Era o caos! Mas quando o mestre chama, o discípulo tem que ir. Quaisquer coisas que tinha, Ouspensky as vendeu. Ele emprestou dinheiro das pessoas e viajou milhares de quilômetros. Levou quase trinta dias para que alcançasse Gurdjeff. Cansado, maltrapilho, pensando muitas vezes, “O que estou fazendo? As pessoas estão escapando da Rússia e eu estou entrando!” E ele estava na lista negra dos comunistas, porque era uma figura muito conhecida – o principal discípulo de George Gurdjeff, um matemático muito conhecido, um grande autor, um dos maiores que o mundo já conheceu. Os seus livros foram traduzidos em quase todas as línguas do mundo. Voltar à Rússia era perigoso. Ele poderia ser pego, aprisionado, assassinado. Ele era anticomunista – nenhuma pessoa sensata pode ser comunista, porque toda a ideia é um disparate. Mas ele viajou… e quando alcançou Gurdjeff, Gurdjeff olhou para ele e a primeira coisa que disse foi, “Volte para Londres e comece a trabalhar novamente.”

Isso era demais. Ouspensky falhou. Ele não podia confiar nesse homem. Que tipo de piada era essa? Jogando com a vida de alguém dessa maneira… e imediatamente ele disse, “Volte agora! Não tenho mais nada a dizer.”

Ouspensky voltou – voltou-se contra Gurdjeff, tornou-se um inimigo. Aquele foi um grande artifício de um grande mestre. Se tivesse confiado, ele poderia ter-se iluminado. Ele perdeu a oportunidade. Ele morreu como uma pessoa não iluminada.

Quando as coisas seguem suaves e fáceis, a confiança é fácil – mas é sem valor. Quando as coisas tornam-se difíceis, árduas, impossíveis e você ainda pode confiar, quando torna-se absolutamente ilógico confiar e você ainda confia, apenas esta confiança se torna uma força transformadora.

Amrito, vou te enviar mais uma vez. E lembre-se, não sou um homem muito consistente: pode ser duas, três vezes… depende. Mas por ora, vou enviá-lo mais uma vez – isso é certo.

E dessa vez o projeto será divertido.

 

A segunda questão:

Questão 2

AMADO MESTRE,

POR QUE EXISTEM TANTAS RELIGIÕES NO MUNDO, E POR QUE ESSAS RELIGIÕES BRIGAM CONTINUAMENTE UMAS COM AS OUTRAS?

 

Geetam, é natural que haja tantas religiões. De fato, mais são necessárias. Como vejo, cada indivíduo deve ter a sua própria religião; deve haver tantas religiões quanto o número de pessoas. O número não é alto: existem apenas trezentas religiões – e quantas pessoas existem na Terra?

Cada indivíduo deve ter a sua própria religião, porque cada indivíduo é único, muito diferente de qualquer outro. Como pode duas pessoas ter a mesma religião? É impossível. Mas estamos pedindo o impossível. Cada indivíduo deve alcançar Deus em seu próprio caminho, e esse caminho nunca será novamente trilhado por mais ninguém.

Por isso, os budas podem apenas indicar, podem apenas dar dicas. Eles não podem fornecer-lhe mapas certos, absolutamente certos – apenas dicas, poucas dicas.  E essas dicas não devem ser levadas a sério – muito divertidamente. Você não deve tornar-se um fanático. Se você é fanático você não é mais religioso.

Uma pessoa religiosa é humilde, disponível para todos os tipos de dicas; ela é uma buscadora, uma investigadora, exploradora, e aprenderá de todas as fontes possíveis. Ela aprenderá da Bíblia, aprenderá dos Vedas e aprenderá do DHAMMAPADA. Ela ouvirá o Buda, Jesus, Zaratustra. Ela aprenderá de todas as fontes possíveis, mas ainda assim permanecerá ela própria. Ela não se tornará uma imitação, não se tornará uma cópia em carbono. Ela manterá sua autenticidade. Ela será humilde, sincera, autêntica; ela não se tornará pseudo. Ela não será uma seguidora, será uma amante.

Ela amará o buda, não o seguirá; não o seguirá nos detalhes. Como você pode seguir um buda nos detalhes? Ele é um tipo totalmente diferente de pessoa. Você nunca foi antes, não houve ninguém como você antes, e ninguém exatamente como você estará aqui novamente. Por isso a sua religião tem que ser a sua religião, a sua verdade tem que ser a sua verdade.

E essa é a beleza da verdade, que ela sempre vem de uma forma tão única que se pode dizer, “Este é um presente especial de Deus para mim.” Por isso há tantas religiões. E é belo! – deveria existir muitas mais. Muitas pessoas tentaram fazer uma religião; isso é uma total estupidez. Você não pode criar uma religião. Você pode forçar uma religião nas pessoas, mas isso destruirá o espírito delas, a sua liberdade; isso vai aleijá-las e paralisar o seu crescimento.

Da mesma forma que há muitas línguas, há muitas religiões. A variedade é bela, a variedade torna possível para você escolher de acordo com seu tipo. A religião não é e não pode ser decidida pelo nascimento, e aqueles que decidem sua religião pelo nascimento são tolos completos. Você não pode nascer Hindu e você não pode nascer Cristão; o nascimento não tem nada a ver com a sua religião. A religião é uma investigação. Você pode nascer de pais Hindus – isso é uma coisa – mas se seus pais realmente te amam eles não te converterão ao Hinduísmo. É claro que eles dirão tudo que sabem e experienciaram, mas eles o deixarão livre. E eles te falarão, “Torne-se mais alerta, vigilante, maduro e quando você tiver maduro o suficiente e você quiser decidir, escolha a sua própria religião.”

Vá à mesquita, vá à igreja, ao tempo, ao gurudwara. Ouça a todos os tipos de coisas, veja todos os tipos de flores: o jardim de Deus é tão cheio de variedade, é tão rico por causa da sua variedade. Há rosas e lótus e mil e uma outras flores. Vá e escolha o seu próprio perfume, a sua própria fragrância, porque a menos que você mesmo escolha você não será dedicado a ela, você não se submeterá a ela.

O mundo não é religioso porque a religião foi imposta em nós. Os pais estão com pressa em impor; a igreja, o estado, o país – todos têm pressa em impor uma certa religião à criança. Que tolice! Que estupidez! A religião necessita de maturidade, grande entendimento, antes que alguém possa escolher.

Ninguém nasce Hindu ou Islâmico ou um Parsi. Todos nascem limpos, inocentes, uma TABULA RASA, e então todos têm que inquirir e buscar. Esta é a beleza da vida porque a vida é uma investigação. E não decida muito cedo; não há necessidade. É possível que nenhuma religião existente te satisfaça. Mas isso é bom; isso significa que uma nova religião nasce em você. O mundo se torna mais rico: uma religião a mais, uma flor a mais, uma árvore a mais – um novo fenômeno.

Buda traz uma nova religião ao mundo; o mundo era mais pobre antes de Buda porque lhe faltava o Budismo. Buda poderia ter seguido a religião dos seus pais; então o mundo continuaria pobre. O mundo teria perdido algo de imenso valor, uma nova porta para Deus. Buda abriu uma nova porta, uma nova visão, um novo insight. Ele não foi convencido pela religião de seus pais; caso contrário ele teria permanecido um Hindu. Ele rebelou-se. Todas as pessoas religiosas são pessoas rebeldes.

Ele saiu em uma busca individual – todas as pessoas religiosas são exploradoras, todas as pessoas religiosas são aventureiras. Seria fácil, conveniente e confortável acreditar na religião que foi acreditada pelos pais e pelos avós, por séculos. Seria mais conveniente porque você não precisa inquirir, você não precisa passar por todo o esforço de encontrar a verdade. Ela foi encontrada por algum vidente do passado – você pode apenas emprestá-la. Mas uma verdade emprestada não é uma verdade de forma alguma. Uma verdade emprestada é uma mentira.

Buda foi procurar; árdua foi a investigação. Ele arriscou tudo – seu reino, sua vida. Mas quando você arrisca tanto, a vida derrama novos tesouros em você. Uma nova religião, um novo insight, uma nova visão, nasceu no mundo.

Maomé poderia ter seguido a religião dos seus pais. Jesus poderia ter seguido o Judaísmo. Torne-se um Jesus, torne-se um Buda, torne-se um Maomé! Não seja um Islâmico e não seja Budista e não seja Cristão – explore! Não gaste a vida imitando, porque então você permanecerá pseudo. E uma pessoa pseudo não pode ser religiosa. É necessária grande autenticidade, grande sinceridade.

Então, Geetam, é bom que haja trezentas religiões – devem existir ainda mais! Sou sempre a favor da variedade. Quero o mundo mais rico de todas as maneiras possíveis. Você gostaria que o mundo tivesse apenas um tipo de flor – apenas rosas, ou apenas lótus? Não seria um mundo empobrecido, muito pobre? Você gostaria que o mundo tivesse apenas uma língua? Então as diferentes nuances das diferentes línguas desapareceriam.

Há coisas que só podem ser ditas em Árabe e não podem ser ditas em nenhuma outra língua; e há coisas que só podem ser ditas em Hebraico e não podem ser ditas em nenhuma outra língua. Há coisas que só podem ser ditas em Chinês e não podem ser ditas em outra língua. Se o mundo tiver apenas uma língua, muitas coisas belas permanecerão não ditas.

Lao Tzé pode falar apenas Chinês. Você pode não ter ponderado sobre o problema: apenas pense em Lao Tzé escrevendo o seu TAO TEH CHING em Inglês… e o livro seria totalmente diferente. Ele perderia algo de imenso valor; ele teria algo diferente, uma cor totalmente nova, mas perderia o sabor que tem em Chinês.

Ora, o Chinês não tem alfabeto; é escrito em símbolos. Porque não há alfabeto os símbolos podem ser interpretados de mil e uma maneiras; os símbolos são mais fluidos, menos fixos, mais poéticos, menos prosaicos. Um símbolo pode significar muitas coisas. Não é científico; é muito difícil escrever tratados científicos em Chinês. Para isso, o Inglês é uma linguagem muito mais adequada.

Mas o que Lao Tzé deu ao mundo não seria possível sem o Chinês. Cada símbolo tem muitos significados, uma multiplicidade de significados. Você pode escolher o seu próprio significado de acordo com o estado da sua mente. Cada símbolo tem muitas camadas de significado. Conforme você aumenta o seu entendimento, os significados dos símbolos mudam.

Por isso, no Oriente, existe um tipo totalmente diferente de leitura que não existe no Ocidente. Você não leria o mesmo livro de Bernard Shaw várias vezes, leria? A menos que você seja insano você não o leria repetidamente. Qual é o ponto? Uma vez que você o leu, está acabado! É por isso que a brochura nasceu: leia-o e jogue-o. Mas no Oriente um tipo diferente de leitura existe: o mesmo livro é lido repetidamente ao longo de toda a vida.

O TAO TEH CHING não é um livro que possa ser publicado em brochura – eles estão fazendo isso agora. Ele não deve ser publicado em brochura – não pode ser, porque é um tipo totalmente diferente de livro. Ele tem várias camadas de significado. Quando você o lê pela primeira vez, é um livro porque você só conhece um significado, é superficial. Depois de meditar por alguns meses e lê-lo novamente; outro significado revela-se; depois de meditar por mais alguns meses e lê-lo novamente… um terceiro significado. Isso tem que seguir, tem que tornar-se um estudo de vida.

E você continuará encontrando os significados – eles são inexauríveis. Aes dhammo sanantano: o fundamento é eterno e inexaurível. Não é uma ficção; você não pode apenas lê-lo e terminá-lo. Uma leitura não ajudará de maneira alguma; ela simplesmente o introduz, não te dá o seu núcleo. Leva toda uma vida para chegar ao seu núcleo.

Ora, precisamos de todos os tipos de linguagens. O Inglês é necessário por sua definição, for sua certeza. Cada palavra tem uma definição. A ciência não pode se desenvolver sem tal linguagem. A ciência não poderia ter nascido na Índia por causa da sua linguagem; O Sânscrito é uma língua poética. Você pode cantá-lo – ele tem esta qualidade – pode entoá-lo, mas você não pode fazer um silogismo com ele. Muitas músicas, certamente, mas não é argumentativo; expressivo, mas não argumentativo.

O Árabe tem uma qualidade muito assombrosa. Se você o cantar, ele se tornará um assombro em seu coração. Pare de cantá-lo e o cântico continua no coração. O Árabe tem esta qualidade porque é uma língua do deserto; as línguas do deserto têm a qualidade do assombro. Quando você está chamando alguém no deserto, muito longe, se você chamar de uma certa forma – e no deserto você pode chamar pessoas que estão muito longe; se você as chamar de forma rítmica o seu som irá alcançá-las.

Daí a beleza do Alcorão. Não é um livro para ser lido – aqueles que leem o Alcorão perderão o seu significado – é um livro para ser cantado. Não é um livro para ser estudado: é um livro para ser dançado, somente então você alcançará o seu espírito interior.

É belo que existam tantas línguas porque há muitas coisas para serem ditas, expressadas, comunicadas. E conforme o mundo cresce, muitas outras linguagens serão necessárias, porque conforme o mundo cresce, muito mais coisas as pessoas estão sentindo, estão passando, estão alcançando.

A religião não é nada além de uma linguagem para expressar o fundamento último. Geetam, não há nada errado em existir muitas religiões. Há certamente algo errado no constante conflito entre elas, é claro. Isso mostra que as assim chamadas religiões perderam a sua qualidade religiosa, elas tornaram-se políticas; que essas assim chamadas religiões não têm mais mestres vivos mas apenas sacerdotes mortos, tolos e medíocres. Elas seguem brigando, elas seguem tentando converter, porque os números criam poder. Se existirem mais Cristãos então o Cristianismo tem mais poder e o papa no Vaticano se torna mais poderoso. Se os Hindus são mais em número, é claro que eles estão mais no poder.

Os números dão poder. Por isso que o Cristianismo quer que todos se tornem Cristãos, e os Islâmicos gostariam que todos fossem Islâmicos. Suas maneiras e meios podem ser diferentes, mas o esforço e o desejo é o mesmo, um desejo político muito profundo – é a política do poder. Então, naturalmente, a discussão surgirá. A política é discussão; ela não tem nada a ver com religião.

Devem existir tantas religiões quanto possível. E não deve haver nenhum conflito: é uma questão de gostar e desgostar. Se gosto de rosas, você não tenta vir até mim e me convencer que eu deveria gostar de cravo de defunto – você simplesmente aceita o meu gosto. E se você gostar de cravo de defunto está tudo perfeitamente bem; não há necessidade de argumentar, discutir. Não precisamos brigar um com o outro – de fato ou intelectualmente. Posso deixar-te com tua escolha, e não me sinto ofendido porque você gosta de cravo de defunto e eu não gosto.

Gostos e desgostos são questões individuais. Alguém pode gostar do Bhagavad gita, outro pode gostar do Alcorão, outrem pode gostar do DHAMMAPADA – está tudo bem, absolutamente bem. Devemos compartilhar os nossos gostos, mas não devemos tentar converter o outro, forçar o outro para o nosso lado. Sim, compartilhe de todas as maneiras, porque o compartilhar mostra o seu amor. Se você encontrou uma fonte, compartilhe! Mas o compartilhar tem que ser por amor, não pela política do poder. Não é para convencer o outro e arrastá-lo para o seu lado. As religiões têm feito essas coisas feias. As pessoas têm sido convertidas à ponta de baioneta; as pessoas estão sendo convencidas por dinheiro, por suborno… de qualquer maneira, certa ou errada. Torne-se um Cristão! Torne-se um Islâmico! Torne-se um Hindu! Traga cada vez mais pessoas porque assim você se torna mais poderoso, e não permita que mais ninguém abandone as suas linhas.

O filho de Mulla Nasruddin perguntava a seu pai, “Papai, quando um Cristão se torna um Islâmico, como o chamaria?”

Nasruddin sorriu e disse, “Ele caiu em si, ele é um homem de entendimento, sabedoria. Entendeu o que é falso como falso e o que é verdade como verdade.”

O garoto perguntou novamente, “E papai, se um Islâmico se tornasse Cristão, como o chamaria?”

Nasruddin ficou muito zangado e disse: “Ele é um traidor! Ele atraiçoou. Ele é estúpido!”

Ora, se um Cristão torna-se Islâmico ele é um homem de inteligência, um homem sábio; e se um Islâmico torna-se Cristão ele é um traidor, estúpido. E a situação é a mesma se você perguntar para o Cristão.

Um Hindu torna-se Cristão. Todos os Hindus ficam contra ele, naturalmente – ele os traiu! Mas os Cristãos fazem dele um santo. Sadhu Sunder Singh era seu nome. Eles quase o adoraram como uma encarnação de Jesus, porque ele provou a verdade da Cristandade. E os Hindus? – eles ficaram tão bravos que queriam matá-lo. E muito possivelmente o mataram, porque um dia ele desapareceu e seu corpo não foi encontrado até agora. Ainda é um mistério o que aconteceu com Sadhu Sunder Singh.

Conheço um homem que era Hindu e tornou-se Jaina. Os Hindus estavam muito contra ele, naturalmente, obviamente. Eles tentaram de toda forma destruí-lo, mas ele se tornou o mais famoso santo Jaina. Ganesh Varni era o seu nome. Ele derrotou todos os outros santos Jainas; ele alcançou o mais elevado ápice. Qual era a sua qualidade real? Por que ele alcançou o mais elevado ápice? Porque basicamente ele era um Hindu e tornou-se Jaina. “Ele provou que o Jainismo é muito superior ao Hinduísmo; caso contrário, por que esse homem, um homem tão sábio, viria para o nosso lado?”

Geetam, essas religiões discutem porque elas não são religiosas; eles se tornaram cada vez mais políticas. E quando você discute, então tudo é certo – no amor e na guerra tudo é certo.

Um Católico estava tentando converter um Judeu e disse que se ele se tornasse Católico as suas preces seriam certamente realizadas – porque o padre as daria para o bispo, que as daria ao cardeal, que as daria ao papa, que as enfiaria no céu através de um buraco no topo do Vaticano, que corresponde apenas a um buraco no chão do céu por onde São Pedro as levaria até a Virgem Maria, que intercederia em nome deles a Jesus, que diria uma boa palavra por elas a Deus.

O Judeu repetiu todo o itinerário com um ar impressionado, terminando, “Sabe, deve ser verdade, porque sempre me perguntei o que eles fazem com toda a merda do céu. Eles devem tacá-la para baixo naquele pequeno buraco no Vaticano, por onde o papa dá ao cardeal, que dá ao bispo, que dá ao padre, que dá a você – e você está tentando dá-la a mim?”

As Religiões são boas – muitas mais são necessárias – mas as religiões que discutem não são religiosas. A própria atitude da discussão as torna políticas. E o sacerdote e o político estão em uma conspiração muito sutil através das eras – porque o político pode dominar as pessoas através do sacerdote muito facilmente. O sacerdote possui as almas das pessoas e os políticos possuem os corpos das pessoas. Ambos são opressores, exploradores. Ambos estão no mesmo negócio, ambos são parceiros. Um pode ajudar o outro. O político pode ajudar o sacerdote porque tem poder temporal, e o sacerdote pode ajudar o político porque as pessoas o ouvem, o adoram, tomam suas palavras como divinas.

Você sabia, o Budismo não se tornou uma grande religião por causa de Buda; o Budismo se tornou uma grande religião por causa do imperador Ashoka. Não foi por causa de Buda que milhões de pessoas se tornaram Budistas, não. Enquanto Buda estava vivo, apenas alguns poucos, algumas pessoas escolhidas eram corajosas o suficiente para andar com ele em sua luz, comungar com ele. E eles foram corajosos – porque tinham que sofrer, tinham que sofrer muito ridículo, oposição, porque a igreja Hindu estabelecida era contra este homem Buda.

O Budismo se tornou uma religião mundial não por causa de Buda mas por causa do imperador Ashoka. Quando os sacerdotes Budistas uniram forças com o imperador Ashoka, então a religião tornou-se uma religião mundial. Toda a Ásia foi convertida. Agora os sacerdotes podiam ajudar Ashoka a manter o seu poder e Ashoka ajudaria os sacerdotes a tornarem-se cada vez mais poderosos.

O Cristianismo tornou-se uma religião mundial não por causa de Jesus. Jesus foi muito só – apenas alguns discípulos, doze discípulos, e algumas centenas de simpatizantes, isso era tudo. E mesmo aqueles discípulos desapareceram quando Jesus estava sendo crucificado, e os simpatizantes simplesmente esqueceram-se dele; eles pararam de falar no homem porque era perigoso até mesmo mostrar simpatia.

Diz-se que as pessoas que simpatizaram com Jesus vieram cuspir em sua face enquanto ele morria para que as pessoas vissem, “Somos contra ele, não a favor dele.” Para provar às pessoas…porque este homem está morrendo – agora elas teriam problemas. Elas teriam que viver, ainda teriam que viver. Elas teriam que dar provas que estavam contra esse homem.

Elas negaram Jesus enquanto ele morria. Elas jogaram lama, pedras, cuspiram em sua face, apenas para mostrar às massas, “Veja, essa não é uma prova suficiente que os rumores que você ouviu que nós somos simpatizantes estão absolutamente errados, infundados? Somos contra ele tanto quanto você é – de fato, somos mais contra ele do que você.”

Os inimigos não cuspiam nele, e sim os amigos. Jesus tornou-se uma força mundial não por causa de si próprio mas apenas quando os imperadores Romanos e os sacerdotes Cristãos uniram forças. Ora, isso é uma ironia. Jesus foi crucificado pelo imperador Romano – veja como a história muda! Pôncio Pilatos era apenas um representante do poder Romano, do imperador Romano; ele simplesmente seguiu às ordens de Roma. Quem pensaria que Roma tornar-se-ia o lugar central do Cristianismo? Quem pensaria, enquanto Jesus estava sendo crucificado, que Roma seria a residência do papa? Mas é isso o que ocorreu. Quando os sacerdotes uniram forças com o Imperador Constantino e outros imperadores Romanos, o Cristianismo tornou-se uma força mundial.

O Cristianismo, o Budismo, o Hinduísmo e o Jainismo – todos dependeram da política. Elas não são mais religiões verdadeiras, e sim jogos políticos jogados em nome da religião. Eu gostaria que o mundo tivesse mais religiões, tantas que cada indivíduo teria a sua própria religião – então nenhum sacerdote seria necessário. Esta é a única forma de descartar os sacerdotes. Se você tiver a sua própria religião, nenhum sacerdote é necessário – você é o sacerdote e você é o seguidor e você é tudo.

Você tem que ouvir à sua voz interior. Buda diz: Siga a sua natureza; não é necessário que ninguém interceda em seu nome.

Mas não sou a favor de criar uma religião; chega deste disparate! No passado tentamos fazer isso: criar uma religião para que a discussão pudesse terminar. Mas não é possível. Mesmo se você puder forçar uma religião, se todo o mundo tornar-se Cristão, então novamente existirão Protestantes e Católicos e mil e uma seitas. E o mesmo jogo começa novamente: as pessoas começam a discutir – porque as suas necessidades são diferentes, os seus entendimentos são diferentes.

Eu ouvi:

Uma bela mulher jovem chegou em casa vinda de Londres. Ela pertencia a um pequeno vilarejo, era de uma família Católica. Depois de três ou quatro anos vivendo em Londres tornou-se muito rica; ela voltou para ver os seus pais. A mãe não podia crer em seus olhos. Ela perguntou, “Como você conseguiu?” Você tornou-se tão rica – roupas tão belas, um anel de diamante, um belo carro!”

E a garota disse, “Mãe, virei uma prostituta.”

Apenas de ouvir isso sua mãe desmaiou, ficou inconsciente. Quando ela voltou perguntou mais uma vez, “O que você disse?”

A garota disse, “Mãe, eu disse que virei uma prostituta.”

E a mãe começou a rir e disse: “Eu te entendi errado – pensei que você tivesse dito que você virou Protestante.”

Ser prostituta tudo bem, mas tornar-se Protestante? A mesma discussão iniciará. Mesmo pequenas religiões – por exemplo, o Jainismo, uma das menores religiões do mundo – tem tantas seitas, seitas dentro de seitas. De fato, ainda não estamos conscientes da grande necessidade de que cada indivíduo tenha sua própria versão de Deus, e que cada indivíduo tenha a sua própria maneira de aproximar-se de Deus.

Um homem capturado por uma prostituta em um bar está maravilhado com a quantidade de troféus e diplomas ornamentando as paredes do quarto dela.

“Esses diplomas são seus?” ele pergunta.

“Claro,” ela responde aereamente. “Tenho Mestrado em Artes em Colúmbia, e PH.D. em Shakespeare em Oxford.”

O homem estava incrédulo. “Mas como uma mulher como você entrou em uma profissão como esta?”

“Eu não sei,” ela disse. “Sorte apenas, eu acho.”

As pessoas têm diferentes entendimentos, diferentes formas de olhar para as coisas, diferentes interpretações. E elas devem ter essa liberdade.

 

A terceira questão:

Questão 3

AMADO MESTRE,

OS MEUS PAIS FORAM MISSIONÁRIOS CRISTÃOS NA ÍNDIA POR VINTE E CINCO ANOS. O MEU IRMÃO ERA UM DROGADO, A MINHA IRMÃ UMA MENTIROSA COMPULSIVA. QUANTO A MIM, SOU TÃO SÉRIO QUE SE EU SORRIR A MIM BOCA DÓI. COMO EU ACABEI AQUI?

 

Prem Parijat, sorte apenas, eu acho! Você viverá em êxtase e morrerá em êxtase.

Você ouviu falar de um homem de oitenta e sete anos que casou-se com uma mulher de dezenove?

Ele morreu de uma nova doença chamada êxtase. Demorou três dias para que o sorriso saísse da sua face.

Ora, isso acontecerá com você também: viver a sua vida será um riso; na morte o seu sorriso será difícil de sair.

Pode ser apenas porque os seus pais eram missionários Cristãos que você chegou aqui, porque nascer de qualquer tipo de missionários – Cristãos, Hindus ou Islâmicos – é ser alimentado com todo aquele disparate. Ser filho de um sacerdote é saber de uma coisa com certeza: que os sacerdotes não acreditam em Deus. É o negócio deles; eles fingem.

É uma oportunidade rara nascer na casa de um sacerdote, porque as crianças são muito perceptivas e elas podem ver através de todos aqueles disparates que o que estão pregando é apenas pregação – eles não querem dizer a sério, porque eles nunca praticam. As crianças de sacerdotes serão conscientes da hipocrisia das pessoas assim chamadas religiosas.

Talvez seja por causa que é quase impossível estar na casa de um sacerdote e não saber que ele é a pessoa mais irreligiosa no mundo.

Os sacerdotes estão explorando a religião. Eles estão explorando a confiança das pessoas. Eles são os maiores enganadores do mundo, porque explorar a confiança das pessoas é o maior crime. Vocês estão destruindo a confiança delas. Mas eles vivem nesse tipo de enganação; este é o grande segredo do seu negócio.

O bispo estava muito orgulhoso da elegante mansão que construiu como sua residência oficial. Um dia, um amigo e o bispo conversavam e o bispo seguia uma linha de pensamento aparentemente ateísta…

Este tipo de pensamento está se tornando muito prevalente nos círculos Cristãos: religião sem religião, Cristandade sem Deus – isso está sendo falado, discutido. Depois de Friedrich Nietzsche, que declarou que Deus estava morto, o Cristianismo está em um tumulto – o que fazer agora? Eles têm tentado de todas as formas criar um Cristianismo que não precisa mais de Deus, para que a profissão possa expandir-se novamente.

Agora Deus tornou-se uma barreira; no momento que você assevera a palavra ‘Deus’, você coloca as pessoas de fora. Então os teólogos Cristãos estão discutindo, pensando, meditando, como criar um Cristianismo que não precisa de Deus de forma alguma. E é possível! – porque o Budismo existe sem nenhum Deus, e o Jainismo existe sem nenhum Deus, então por que não pode haver um Cristianismo sem Deus?

Este bispo seguia uma linha de pensamento aparentemente ateísta. O amigo lhe perguntou, “Bispo, você acredita em Deus ou não? Diga exatamente, diga brevemente. Não dê voltas e voltas. Diga simplesmente sim ou não – você acredita em Deus?”

Depois de uma longa hesitação o bispo respondeu, “Claro que sim! Quem você pensa que paga por essa casa?”

Ora, a casa que ele construiu, uma bela mansão, foi possível apenas porque as pessoas ainda acreditam em Deus; e porque elas acreditam em Deus, elas acreditam no bispo. Ele não pode declarar publicamente que Deus não existe. Se você abandonar Deus, então Jesus não é mais o filho de Deus, então o papa não é mais o representante de Jesus, e assim por diante. E eles vão todos para o ralo. É necessária uma hierarquia; Deus no topo e o sacerdote na base, toda a escada.

E o sacerdote certamente sabe que Deus não existe. Se ele estivesse consciente da existência de Deus ele não seria um sacerdote em primeiro lugar – ele seria um Jesus, ele seria um Buda, mas não um sacerdote. Ele seria um profeta, não um sacerdote. Ele traria algo do desconhecido para a vida das pessoas, mas ele não seria parte do status quo, não faria parte da igreja estabelecida. Nenhum homem de entendimento, nenhum homem que tem alguma consciência religiosa e experiências, pode ser parte de qualquer igreja estabelecida. Nunca aconteceu. Buda teve que deixar os seus, Jesus teve que deixar os seus, Maomé teve que deixar os seus – isso sempre ocorreu. Sempre que nasce um ser humano religioso, ele deve deixar os seus, porque os seus já está nas mãos dos políticos e dos sacerdotes, cujo puro interesse é explorar as pessoas.

Anand Moksha escreveu-me:

Durante os grandes terremotos na Guatemala em 1976, o bispo Católico do Lago Atitlan fez amizade comigo e permitiu que eu ficasse em seu jardim por um tempo.

Alguns meses se passaram e os tremores pós-choque ainda eram comuns. Naquele momento descobri que uma bela casa em uma encosta estava para alugar bem barato. A razão era que um ameaçador rochedo pendia sobre a casa e as pessoas estavam com medo.

Senti as vibrações e parecia ótimo para mim – então aluguei a casa.

Quando eu disse para o bispo, ele reagiu com um desânimo nervoso e brandindo seus braços, disse, “Você não está preocupado que aquela rocha desabe na casa?”

Respondi, “Se o Senhor quiser me levar, ele irá.”

O bispo deu de ombros e disse, “Você não acredita nisso, né?”

Pode ser simplesmente, Parijat, que justamente porque você nasceu de missionários Cristão é que foi possível para você estar aqui. Missionários Cristãos, e vinte e cinco anos na Índia! – isso é muito. Em primeiro lugar, missionários Cristãos e, em segundo lugar, vinte e cinco anos na Índia… isso é o suficiente, mais do que suficiente, para convencer a criança que seus pais são pseudo, que eles tratam de negócios, que eles não acreditam.

Não é uma questão de crença de forma alguma.

Ouvi uma pequena história:

Em uma escola, uma escola de missionários Cristãos, a professora perguntou às crianças: “Quem é o maior homem da história?”

Um garoto Americano disse, “Abraham Lincoln.”

Um garoto Islâmico disse, “Hazrat Maomé.”

Uma garota Hindu disse, “o Senhor Krishna.”

E assim por diante… e finalmente, o pequeno garoto Judeu levantou-se e disse, “Jesus Cristo.”

A professora não podia acreditar – o Judeu e dizendo Jesus Cristo? Ela perguntou, “Você realmente quis dizer isso?”

Ele disse, “Esta não é a questão; No fundo do meu coração eu sei que foi Moisés – mas negócio é negócio.

Ficar com missionários Cristãos por vinte e cinco anos, e na Índia, e ver o que eles estão fazendo, é suficiente para desiludir você. Todo o crédito vai para os seus pais e seus vinte e cinco anos na Índia. Eles o trouxeram aqui – agradeça a eles.

 

A quarta questão:

Questão 4

AMADO MESTRE,

SINTO QUE SOU UMA PESSOA MUITO ESPECIAL. SOU TÃO ESPECIAL QUE QUERO APENAS SER ORDINÁRIO. POR FAVOR, VOCÊ PODE FALAR ALGO SOBRE ISSO?

 

Anand Sangito, todo mundo aqui pensa exatamente o mesmo. E não apenas aqui, mas em todo o lugar. Todo mundo no fundo do coração sabe que é especial. Essa é uma piada que Deus faz com as pessoas. Quando faz um novo ser humano e o empurra em direção à Terra, ele sussurra em seu ouvido, “Você é especial. Você é incomparável, único!”

Mas isso ele faz com todos e todos seguem carregando em seu coração, embora as pessoas não digam em voz alta como você está fazendo, porque elas têm medo que os outros fiquem ofendidos. E ninguém será convencido, então, qual é ponto de dizê-lo? Se você diz a alguém, “Sou especial,” você não pode convence-lo porque ele próprio sabe que é especial. Como você pode convencer alguém? Sim, talvez às vezes alguém pode ser convencido, pelo menos fingir ser convencido. Se ele tem algum trabalho com você, como um suborno ele pode dizer, “Sim, você é especial, você é importante.” Mas no fundo ele sabe que negócios são negócios.

Um arrogante está contando a seu amigo sobre seus três carros, etc. Quando mencionou que mantinha também duas amantes em Nova Iorque, mas que engravidou a belíssima e tremendamente fogosa secretária, e, portanto, deveria levar a sua deslumbrante estenógrafa loira consigo em sua viagem a trabalho ao Rio de Janeiro para ver o carnaval, o ouvinte de repente começou a arfar, segurou na sua própria gravata borboleta e teve um ataque cardíaco.

O arrogante interrompeu a sua estória, pegou água, deu tapinhas nas costas da vítima, etc. e perguntou solicitamente qual era o problema. “Posso ajudar?” o homem suspirou. “Sou alérgico a bobagens.”

É melhor manter tais bobagens escondidas nas suas profundezas, porque as pessoas são alérgicas. Mas de um lado é bom que você expôs a sua mente.

Se você pensa que é especial então necessariamente você criará miséria para si próprio. Se você pensa que você é superior aos outros, mais sábio que os outros, então você alcançará um ego muito forte. E o ego é veneno, puro veneno. E quanto mais egoísta você se torna, mais dói, porque é um ferimento. Quanto mais egoísta você se torna, mais você ficará ilhado da vida. Você acaba separado da vida; você não está mais no fluxo da existência, você se tornou uma rocha no rio. Você se tornou frio como o gelo, perdeu todo o calor, todo o amor. Uma pessoa especial não pode amar, pois onde você encontrará outra pessoa especial?

Ouvi dizer sobre um homem que permaneceu sem casar toda a sua vida, e quando ele estava morrendo, noventa anos, alguém lhe perguntou, “Você permaneceu solteiro a sua vida toda, mas você nunca disse qual foi a razão. Agora você está morrendo, sacie, pelo menos, a nossa curiosidade. Se houver algum segredo, agora você pode contá-lo, porque você está morrendo; você está indo embora. Mesmo se o segredo for conhecido, não pode te causar dano agora.”

O homem disse, “Sim, existe um segredo. Não é que sou contra o casamento, mas eu estava esperando pela mulher perfeita. Procurei muito e minha vida passou-se.”

O inquiridor perguntou, “Mas sobre esta grande Terra, tantas milhões de pessoas, metade delas mulheres, você não pode encontrar uma mulher perfeita?”

Uma lágrima escorreu do olho do moribundo. Ele disse, “Sim, encontrei uma.”

O inquiridor ficou absolutamente chocado. Ele disse, “Então o que aconteceu? Por que você não se casou?”

E o velho homem disse, “Mas a mulher estava procurando por um marido perfeito.”

A sua vida será muito difícil se você viver com tais ideias. E sim, o ego é tão astuto, tão esperto, ele pode dar-lhe, Sangito, um novo projeto: “Você é tão especial, torne-se ordinário.” Mas em sua ordinariedade você saberá que você é o mais extraordinário homem ordinário. Ninguém é mais ordinário que você! Será o mesmo jogo, camuflado.

É isso o que as pessoas assim chamadas humildes seguem fazendo. Elas dizem, “Eu sou a pessoa mais humilde. Sou apenas a poeira em seu sapato.” Mas elas não quiseram dizer isso! Não diga, “Sim, eu sei que você é,” senão elas nunca serão capazes de te perdoar. Elas estão esperando você dizer, “Você é a pessoa mais humilde que já vi, você é a pessoa mais piedosa que já vi.” Então elas ficarão satisfeitas, contentes. É o ego escondido detrás da humildade. Você não pode abandonar o ego dessa forma.

Você pergunta, “Sinto que sou uma pessoa muito especial. Sou tão especial que quero só ser ordinário. Por favor, você pode falar algo sobre isso?”

Ninguém é especial, ou, todos são especiais. Ninguém é ordinário, ou todos são ordinários. Qualquer coisa que você pensar de si próprio, por favor pense o mesmo sobre todas as outras pessoas, e o problema será resolvido. Você pode escolher. Se você quer a palavra ‘especial’, você pode pensar que é especial – mas então todos serão especiais. Não apenas as pessoas, também as árvores, pássaros, animais, rochas – toda a existência é especial, porque você surgiu dessa existência e você se dissolverá nessa existência. Mas se você amar a palavra ‘ordinário’ – que é uma palavra bela, mais relaxada – então saiba que todos são ordinários. Então toda a existência é ordinária.

Uma coisa a ser lembrada: qualquer coisa que você pensar sobre si próprio, pense o mesmo de todas as outras pessoas e o ego desaparecerá. O ego é a ilusão que é criada ao pensar em si próprio de uma maneira e nos outros de uma outra maneira. É um pensamento duplo. Se você abandonar o pensamento duplo o ego morre por si só.

A última questão:

 

Questão 5

AMADO MESTRE,

QUANDO CHEGUEI AQUI SENTI QUE DEUS ESTAVA MUITO PRÓXIMO – A QUALQUER MOMENTO EU ESTARIA COM ELE – MAS CONFORME O TEMPO PASSAVA ISSO PARECEU IMPOSSÍVEL. ELE NÃO ESTÁ POR AQUI; É DIFÍCIL VÊ-LO.

POR QUE ISSO OCORRE? POR FAVOR DIGA ALGO SOBRE ISSO.

 

Vedant Bharti, você deve estar carregando uma certa imagem de Deus em sua mente; por isso você está perdendo. E a menos que você abandone àquela imagem você perderá. Deus não tem obrigação de satisfazer a sua ideia dele. Você deve estar carregando uma certa ideia que “Deus é desse jeito, se comporta dessa maneira…” É por isso que está se tornando impossível: você está tornando-o impossível.

Deus pode ser conhecido apenas por aqueles que são capazes de abandonar todas as ideias sobre Deus. Qualquer ideia que você acumulou em si mesmo em sua ignorância é um impedimento. Abandone todas as ideias sobre Deus e você ficará surpreso, ficará chocado, não conseguirá acreditar em seus olhos… porque só Deus existe! Então você nunca perguntará, “Onde está Deus?” Você perguntará, “Há algum lugar em que Deus não esteja?”

Então na própria ordinariedade das coisas você verá algo tremendamente extraordinário. Então simples pedregulhos são transformados em diamantes. Então a humanidade ordinária não será mais ordinária – então algo luminoso estará no coração de todos. Então o ser humano se aproxima do divino e o divino se aproxima do ser humano; o humano e o divino desaparecem um no outro, o mundo e Deus desaparecem um no outro. Então você não buscará por um Deus que está separado lá no alto e longe, vivendo no sétimo céu; então ele viverá na sua vizinhança como seu vizinho. Então ele será humano, animal, vegetal, mineral…ele será tudo.

E quando você pode ver que ele está em seu entorno, não como uma pessoa mas como uma presença, então apenas assim a sua investigação é satisfeita. Deus não está se escondendo, mas você mantém os seus olhos fechados por causa dos seus muitos preconceitos. Alguém tem uma ideia Hindu de Deus e outrem tem uma ideia Cristã de Deus e outrem uma ideia Islâmica de Deus. Ora, Deus não é nem Islâmico, nem Cristão, nem Hindu, então todas essas pessoas que carregam essas ideias são obrigadas a seguir tropeçando cada vez mais na escuridão. A jornada delas será de escuridão em escuridão, de morte a morte elas mover-se-ão. Elas nunca conhecerão a luz.

Um Hindu não pode conhecer Deus, um Islâmico não pode conhecer Deus. Primeiro você tem que limpar a mente completamente de todo o Hinduísmo, de todo o Islamismo, todo o Budismo. Quando você está totalmente sem pensamento, alerta apenas, consciente, vigilante, então Deus explode. E ele explode em todos os lugares.

Vedant Barthi, você diz, “Quando cheguei aqui senti que Deus estava muito próximo.” Isso era a sua imaginação.

“… E qualquer momento eu estaria com ele.” Este era o seu desejo.

“… Mas conforme o tempo passava isso pareceu impossível” – porque nenhuma imaginação não pode nunca tornar-se real. Nenhum dos seus sonhos pode ser realizado. A realidade tem que ser descoberta, não imaginada.

Agora você diz, “Ele não está por aqui; é difícil vê-lo.”

Apenas ele está no entorno. É difícil vê-lo porque os seus olhos estão muito sobrecarregados com os seus próprios preconceitos, conceitos, sistemas de pensamento. Seja um pouco mais infantil, seja um pouco mais inocente. Deus vem apenas quando o coração é inocente. Deus vem apenas quando você está totalmente vazio de todas as ideias. Ele está sempre pronto para vir, ele está na porta, mas você não pode ouvi-lo porque a sua mente está cheia de confusão, cheia de pensamentos, milhões de pensamentos clamando. A sua mente está tão barulhenta que você não pode ouvir a batida silenciosa na porta.

Fique silencioso, seja inocente. Deus existe. Apenas Deus existe.

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