A Arte do Pranayama, B. K. S. Iyengar

Luz Sobre o Pranayama – Seção II

A Arte do Prāṇāyāma

Capítulo 10

Dicas e Cuidados

  1. Assim como Ādi Śeṣa, o Senhor das serpentes, é o suporte da Yoga (Haṭha Yoga Pradīpikā, III I), da mesma forma o Prāṇāyāma é o coração da Yoga. A Yoga é sem vida sem o Prāṇāyāma.
  2. A taxa normal de respiração é de quinze vezes a cada minuto e 21.600 vezes a cada 24 horas. Entretanto, o número varia de acordo com a forma de vida, saúde e estado emocional. Uma vez que o prāṇāyāma alonga o tempo de cada inspiração e expiração, desse modo retardando o processo de envelhecimento, a sua prática leva a uma vida mais longa.
  3. Na velhice, a função respiratória decresce, devido à contração das células de ar dos pulmões, que assimilam menos oxigênio. O prāṇāyāma ajudará a normalizar o tamanho dessas células e fará com que os corpúsculos vermelhos circulem em todas as partes do corpo, infundindo vida e vigor. Através de sua prática mesmo os idosos podem retardar o processo de envelhecimento.
  4. O corpo é o campo (kṣetra) da justiça (dharma) e também do tormento (kuru). É aquele quando utilizado para o bem e este quando para o mal. É o campo e o Si é o conhecedor (kṣetrajña) do campo. O prāṇāyāma é o vínculo entre os dois.
  5. A respiração no prāṇāyāma deve sempre ser pelo nariz, exceto quando indicado diferentemente, como no Cap. 24.

Qualificação para Aptidão

  1. O domínio do alfabeto conduz ao domínio da linguagem. Prāṇāyāma é a raiz do conhecimento espiritual, conhecimento do Si (Ātma jñāna).
  2. O domínio do prāṇāyāma é o próximo passo depois que os āsanas foram dominados. Não há atalho.
  3. Os āsanas trazem elasticidade às fibras dos pulmões para uma melhor performance do prāṇāyāma.
  4. O comprimento total dos nervos do corpo é em torno de 9650 kilômetros. Sendo as suas funções extremamente delicadas, um cuidado extra e atenção são necessários para mantê-los limpos e puros. A realização repetida, com maior duração de cada āsana em diversas variedades, mantém o sistema nervoso limpo e puro, assim contribuindo para um fluxo ininterrupto de energia (prāṇa) enquanto realiza o prāṇāyāma.
  5. As posturas má executadas conduzem à uma respiração superficial e uma baixa resistência.
  6. Se o corpo é negligenciado ou mimado, ele se torna um aliado traiçoeiro. Discipline o corpo pelos āsanas e a mente pelo prāṇāyāma. Esse é um passo claro rumo à auto-realização, que o liberta da dicotomia do prazer e dor
  7. Assim como o alimento é essencial para sustentar o corpo, o influxo de ar adequado deve ser fornecido para que os pulmões mantenham à força da vida (prāṇa).
  8. Antes de tentar o prāṇāyāma, aprenda como mover os músculos intercostais corretamente, assim como o diafragma pélvico e torácico, pela prática dos āsanas relevantes.
  9. Esvazie a bexiga e o intestino antes de começar o prāṇāyāma. Pessoas constipadas podem praticar prāṇāyāma, porque os intestinos não podem ser danificados da mesma forma que a bexiga.
  10. Um treinador de tigres, leões e elefantes estuda os seus hábitos e humores e então testa-os vagarosa e constantemente. Ele os trata com bondade e consideração senão eles voltam contra ele e o mutilam. É o mesmo com o sādhaka. Uma ferramenta pneumática pode cortar através da rocha mais dura. Se não utilizada adequadamente pode destruir tanto a ferramenta quanto seu usuário. Estude a sua respiração cuidadosamente e proceda passo a passo, pois se você praticar prāṇāyāma precipitadamente ou com muita força, você também pode machucar-se.
  11. Pratique numa hora fixa de cada dia numa mesma postura. Ocasionalmente, o mesmo arranjo de prāṇāyāma cria inquietação. Seja rápido para mudar para um padrão respiratório mais propício para o corpo e a mente, e tranquilizante para os nervos e o cérebro, para que eles sejam rejuvenescidos e revigorados. O prāṇāyāma não pode tornar-se uma rotina cega.
  12. Analise e molde a respiração com entendimento total, clareza e sabedoria.

Local

  1. Escolha um local isolado, limpo, arejado, livre de insetos e pratique durante as horas quietas.
  2. O barulho cria inquietação, perturbação e raiva. Evite o prāṇāyāma nesses momentos.

Higiene

  1. Não se adentra um templo com o corpo ou a mente poluída. Antes de adentrar o templo de seu próprio corpo, o iogue observa as regras de higiene.

Tempo

  1. Os textos da Yoga insistem que é necessário completar oitenta ciclos de prāṇāyāma, quatro vezes ao dia no início da manhã, ao meio-dia, à noite e à meia-noite, o que nem todos podem fazer. Entretanto, um mínimo de quinze minutos por dia é essencial, mas isso não é o bastante para um sādhaka devoto. (Um ciclo de prāṇāyāma consiste de inalação, retenção interna, exalação e retenção externa.)
  2. A melhor hora para a prática é de manhã bem cedo, preferivelmente antes do nascer do sol, quando a poluição industrial está no mínimo e o corpo e o cérebro ainda estão frescos. Se as manhãs são inviáveis, o prāṇāyāma pode ser praticado depois do pôr do sol, quando o ar está frio e aprazível.

Postura

  1. O prāṇāyāma é melhor praticado sentando-se no chão num cobertor dobrado. Estude o Cap. 11 sobre a arte de sentar-se. As posturas adequadas são siddhāsana, swastikāsana, bhadrāsana, vīrāsana, baddhakoṇāsana e padmāsana (grav. 3 a grav. 14). Entretanto, qualquer outra postura o é, contanto que a coluna seja mantida ereta da base da espinha até o pescoço e perpendicular ao solo.

Corpo

  1. Assim como um vaso de barro deve ser cozido numa fornalha antes de ser utilizado para guardar água, da mesma maneira o corpo deve ser cozido pelo fogo dos āsanas para experienciar o verdadeiro esplendor do prāṇāyāma.
  2. O corpo é tamásico, a mente rajástica e o Si sátvico. Desenvolva a inteligência corporal ao nível da mente através dos āsanas. Então eleve ambos o corpo e a mente ao nível do Si através do prāṇāyāma para o prāṇa se mover ao longo de todo corpo. Isso torna, por sua vez, o corpo ágil, a mente inabalável e o Si vigilante.
  3. O corpo é como uma toca na qual a respiração, como uma serpente, adentra e sai. A chitta é a encantadora de serpentes que seduz à respiração e adquire controle sobre esta.

Coluna

  1. A coluna do ser humano pode ser comparada a um alaúde Indiano (vīṇa). A cabaça é a cabeça a partir da qual o som é produzido. O nariz é a ponte que controla as vibrações sonoras causadas pela inalação e exalação. A ressonância depende da tensão das cordas. Se elas estão frouxas nenhum som é produzido; se elas estão muito tensionadas não há vibração e elas podem até mesmo quebrar. A tensão da corda é ajustada para produzir a ressonância exigida, a intensidade e o tom. Da mesma forma, os nāḍīs e os nervos na coluna espinhal devem ser posicionados para que a respiração possa se mover com ritmo e harmonia.
  2. Ajuste a coluna a partir da base, vértebra por vértebra, como se você estivesse construindo uma parede de tijolos. Mantenha os lados direito e esquerdo da coluna espinhal paralelos ao movê-los independente e ritmicamente alinhados com a coluna central. No prāṇāyāma à frente da espinha é mais dinâmica que as costas.

Costelas

  1. Mova simultaneamente as costelas traseiras, as laterais para a frente e as frontais para cima.

Pernas e Ombros

  1. Mantenha os braços passivos. Não os enrijeça, não os levante nem os posicione para trás. Se eles estão tensos, formigamentos e dormência resultam. Isso também acontece no começo em qualquer postura que não se esteja acostumado e desaparece quando você se estabiliza nela.

Unhas

  1. Corte as unhas para que elas não machuquem a delicada pele nasal enquanto pratica o prāṇāyāma digital.

Saliva

  1. A saliva flui no início do prāṇāyāma. Engula-a depois de exalar, porém antes de inalar, e nunca enquanto retém a respiração. Não enrijeça ou pressione a língua contra o dente e o palato, mantenha-a passiva, juntamente com a garganta.

Olhos e Ouvidos

  1. O prāṇāyāma deve ser praticado com os olhos fechados e os āsanas com os olhos abertos.
  2. Feche os olhos suavemente e olhe para dentro, para o coração, sem endurecer os glóbulos oculares. Essa observação interior ou sentimento é extremamente revelador.
  3. Se os olhos são mantidos abertos, ocorre uma sensação de queimação, você se sente irritado e inquieto e a mente distrai-se.
  4. Abra seus olhos por um breve momento de vez em quando para checar a sua postura e corrigir qualquer desequilíbrio.
  5. Mantenha os ouvidos interiores alertas mas não passivos. Eles são as janelas da mente. Afine-os às vibrações da inalação e exalação e ao estado silencioso da retenção.

Pele

  1. A pele realiza duas funções importantes, absorção e eliminação. Ela absorve e distribui calor, atuando como um termostato para manter a temperatura do corpo constante. Ela também ajuda a eliminar os sais orgânicos e inorgânicos.
  2. A pele é a fonte da percepção. Mantenha uma constante e coerente comunicação entre os seus movimentos e a consciência interna ao longo de suas práticas.
  3. Mantenha a pele do tórax ativa e dinâmica e a do esqueleto, face, pernas e braços suave e passiva.
  4. A transpiração aparece no início, mas desaparece em seu devido momento.

Cérebro

  1. Mantenha o cérebro receptivo e observador. Utilize-o para induzir os pulmões a agirem sem se tornarem envolvidos com a ação; pois se assim o fizerem não poderão, ao mesmo tempo, assistir o processo de respiração.
  2. O prāṇāyāma é tamásico quando o tórax e a coluna estão embotados e rajástico quando o cérebro está envolvido. Apenas quando o tórax está firme, o cérebro receptivo e o si vigilante, o prāṇāyāma é sátvico.
  3. A memória é uma amiga se você a usar para o progresso e o refinamento da sua prática. É um obstáculo quando você remói e repete experiências passadas. Veja uma nova luz a cada vez que pratica.
  4. A prática e a submissão do desejo são as asas do prāṇāyāma que levam o sādhaka às esferas mais altas do conhecimento e à realização do Si (Ātmā).
  5. Domine samavṛtti prāṇāyāma (igual duração da inalação, exalação e retenção) antes de tentar viṣamavṛtti (respirar com proporções e durações diferentes dos três tipos). Veja o Cap. 18 para detalhes.
  6. Nunca faça āsanas imediatamente após o prāṇāyāma. Não há dano em praticar prāṇāyāma depois dos āsanas. O prāṇāyāma, entretanto, não pode ser realizado logo depois de āsanas vigorosos. É recomendável praticá-los em momentos diferentes. As manhãs para o prāṇāyāma e as noites para os āsanas é o ideal.
  7. Não pratique quando a mente e o corpo estão embotados ou depressivos. Para aflições ou perturbações mentais realize os āsanas descritos em Luz sobre a Yoga e śavāsana para exaustão física (veja Cap. 30). Então retome o prāṇāyāma.
  8. Não realize retenção interna (antara kumbhaka) quando o cérebro está muito sensível, pois este pode sofrer lesões de perturbações súbitas, nem antes de você ir dormir, pois a retenção o mantém acordado. Em vez disso, realize o prāṇāyāma sem retenção da respiração ou com retenção externa contemplativa (bāhya kumbhaka), pois ambas induzem o sono, a última sendo uma cura para a insônia (veja os Caps. 19, 20: Estágio II nas posições deitadas, e 21).
  9. Não realize prāṇāyāma com pressa ou quando os pulmões estão congestionados.
  10. Não fale ou ande imediatamente depois do prāṇāyāma, mas relaxe em śavāsana por um tempo antes de executar outras atividades.
  11. Não pratique logo após as refeições ou quando com fome, neste caso um copo de chá ou leite é o suficiente. Um intervalo de quatro a seis horas é necessário entre as refeições e o prāṇāyāma, porém você poderá comer em meia hora após a prática.
  12. Não permita que os erros se enraízem profundamente, mas atente para eles e erradique-os através do treinamento e a experiência.
  13. Não tente a retenção (kumbhaka) em tenra idade, comece com dezesseis ou dezoito anos, senão sua face tornar-se-á prematuramente velha.
  14. Interrompa o prāṇāyāma até o próximo dia no momento em que o abatimento e o retesamento são sentidos nos pulmões ou quando o som da sua respiração se torna grosseiro ou brusco.
  15. A prática deficiente enrijece os músculos faciais, agita a mente e convida à doença. A irritabilidade, o abatimento e a inquietação são os sintomas.
  16. O prāṇāyāma ajuda a regular a conduta e a energia perfeitamente.
  17. Quando o prāṇāyāma é realizado adequadamente a doença desaparece e um estado radiante de bem-estar, iluminação e serenidade são experienciados.
  18. A prática correta reduz o anseio por prazeres mundanos e conduz à realização do si, libertando o sādhaka do domínio dos sentidos.

Prāṇāyāma para a Mulher

  1. Durante a gravidez as mulheres podem fazer todos os prāṇāyāmas exceto o kapāla-bhāti, bhastrikā, viṣamavṛtti prāṇāyāma, antara kumbhaka com duração longa e bāhya kumbhaka com uḍḍīyāna. Os seguintes prāṇāyāmas são, entretanto, muito benéficos: ujjayī, viloma, sūrya bhedana, chandra bhedana e nāḍī śodhana.
  2. Um mês depois de dar à luz comece tantos os āsanas quanto o prāṇāyāma como um iniciante e gradualmente aumente o tempo e as variações.
  3. A prática de prāṇāyāma é segura durante o período menstrual. Porém uḍḍīyāna deve ser evitado.

Nota

  1. Quando o calor é gerado no corpo devido à prática de āsanas e prāṇāyāma suspenda a prática. Aplique óleo no corpo, cabeça, calcanhares e solas dos pés e massageie. Depois de um tempo, tome um banho quente e então faça śavāsana por cerca de quinze minutos. O corpo estará então frio e apto para a prática do dia seguinte.

Capítulo 11

A Arte de Sentar-se em Prāṇāyāma

Como sentar

  1. No Bhagavad Gītā (VI 10-15) Kṛṣṇa explica a Arjuna como um iogue deve praticar para purificar-se:

’10. Num local secreto, em solidão, permita que o iogue esteja constantemente em harmonia com sua alma, mestre de si mesmo, livre da esperança e das posses mundanas.

’11. Que ele encontre um local limpo e puro para sentar-se num assento firme, nem tão alto nem tão baixo, coberto com camadas de tecido, pele de cervo e com a grama sagrada (kuśa).

’12. Sentado ali, deixe-o praticar Yoga para a autopurificação, com uma mente concentrada e com os seus órgãos da percepção e ação sob controle.

’13. Com seu corpo, pescoço e cabeça eretos, imóvel e quieto, com sua visão voltada para dentro, seu olhar fixo como se estivesse na ponta de seu nariz.

’14. Com a alma em paz e destemida, firme no voto do Brahmacharya, deixe-o descansar, com uma mente controlada e vigilante absorta em Mim como o Supremo.

’15. O iogue cuja mente está sempre sob seu controle, sempre esforçando-se para se unir com o Si, alcança a paz do Nirvāṇa – a Paz Suprema que repousa em Mim.’

  1. Sem dar detalhes anatômicos, a citação acima descreve o método tradicional de sentar-se em meditação (dhyāna). O Si (Ātmā) está sem dúvida para além da pureza e impureza, porém é enredado pelos desejos e pela mente. O Senhor Kṛṣṇa diz, ‘Como o fogo é coberto por fumaça e um espelho pelo pó, como um embrião é envolto pelo útero, da mesma forma o Si (Ātmā) é engolfado nos desejos gerados pelos sentidos e pela mente’. (Bhagavad Gītā, III 38.) Então mantenha o corpo firme como o pico de uma montanha e a mente quieta e constante como um oceano, para a meditação (dhyāna). No momento em que o corpo perde seu própria inteligência e firmeza, a inteligência do cérebro perde o seu poder de clareza, tanto na ação quanto na receptividade. Quando o corpo e o cérebro estão bem equilibrados, a pura iluminação intelectual (prajña sátvico) é experienciada.
  2. Em meditação, a cabeça e o pescoço são mantidos eretos e perpendiculares ao solo, ao passo que no prāṇāyāma a trava de queixo (jālandhara bandha) é realizada. Isso previne a tensão no coração, mantém o cérebro passivo e permite que a mente experiencie o silêncio interior (veja o Cap. 13)
  3. Na arte do sentar-se para a meditação (dhyāna) o objetivo é sentar-se reto, com a coluna vertical, as costelas e os músculos das costas firmes e alertas. Portanto, posicione o corpo como se houvesse uma linha vertical desenhada do centro da cabeça até o chão, então o centro da coroa, a ponte do nariz, o queixo, o espaço oco entre as clavículas, o esterno, o umbigo e a sínfise púbica estarão alinhados (grav. 15).
  4. Por outro lado, as sobrancelhas, ouvidos, topo dos ombros, clavículas, mamilos, costelas flutuantes e ossos pélvicos nas articulações do quadril devem ser mantidos paralelos (grav. 16). Finalmente mantenha o ponto médio entre o topo das omoplatas perpendicular ao sacro para evitar a inclinação do corpo.
  5. No início do prāṇāyāma o essencial é aprender como sentar-se corretamente com a cabeça baixa, para que o corpo permaneça reto e firme e como inspirar a quantidade máxima de ar aos pulmões para oxigenar o sangue. Mantenha a altura da coluna espinhal a mesma ao longo de toda a prática.
  6. Esteja continuamente alerta e ajuste o corpo para um correto alinhamento ao longo da prática, seja na inalação (pūraka), exalação (rechaka) ou retenção da respiração (kumbhaka).
  7. Assim como um decorador de interiores arranja uma sala para torná-la espaçosa, da mesma forma o faz o sādhaka para criar um espaço máximo em seu tórax para permitir que seus pulmões se expandam plenamente no prāṇāyāma. Sua capacidade para tal aumenta com a prática.
  8. De acordo com o Bhagavad Gīta o corpo é chamado campo (kṣetra) ou morada do Si (Ātmā) e o Si como Conhecedor do Corpo (kṣetrajña), que assiste o que acontece quando o corpo foi cultivado pelo prāṇāyāma. O prāṇāyāma é a ponte entre o corpo e o Si.
  9. Para cultivar o campo necessário no tórax, a primeira coisa a ter em mente é como sentar-se. A menos que o sentar-se seja firme, a coluna afundará e cederá, o diafragma não funcionará adequadamente e o tórax desmoronará, tornando difícil preencher os pulmões com o vivificante ar.
  10. Aqui faz-se uma tentativa de descrever em detalhes a técnica do sentar em prāṇāyāma dividindo o corpo em quatro áreas, a saber: (a) os membros inferiores, isto é, as nádegas e pélvis, as ancas, coxas, joelhos, canelas, tornozelos e pés; (b) o tórax; (c) os braços, mãos, punhos e dedos; (d) o pescoço, garganta e cabeça; mantenha-se firme nas áreas das nádegas e pélvis, que são a fundação de um correto sentar.
  11. Quando pratica prāṇāyāma uma pessoa normalmente senta no chão numa postura tal como siddhāsana, swastikāsana, bhadrāsana, vīrāsana, baddhakoṇāsana ou padmāsana (grav. 3 a grav. 14). Em todas essas veja se a coluna e as costelas assemelham-se com a porção mais ampla de uma folha de banana (veja a grav. 2), a coluna sendo o caule e as costelas igualmente espaçadas os veios. O cóccix é como o final da folha. Essas posturas foram descritas no Luz sobre a Yoga.
  12. Apesar de várias posturas serem utilizadas, na minha experiência padmāsana é a rainha entre todas para a prática de prāṇāyāma ou meditação (dhyāna). Ela é a chave para o sucesso em ambos os casos. Nela, todas as quatro áreas do corpo mencionadas acima estão igualmente equilibradas (como no Parágrafo 11) e o cérebro descansa correta e igualmente na coluna vertebral, dando equilíbrio psicossomático.
  13. O cordão espinhal passa através da coluna espinhal. Em padmāsana o ajustamento e alinhamento da coluna espinhal e das extremidades de cada lado movem-se uniforme, rítmica e simultaneamente. A energia prāṇica flue igualmente, com distribuição adequada por todo o corpo.
  14. Em siddhāsana a parte do topo da coluna é mais alongada do que as outras partes, enquanto que em vīrāsana é a parte lombar que é mais alongada. Algumas dessas posturas podem ser mais confortáveis, porém para precisão e eficácia padmāsana é a melhor de todas. Em padmāsana as coxas estão mais baixas do que a virilha, o baixo abdômen é mantido alongado, com espaço máximo entre o púbis e o diafragma, permitindo que os pulmões se alonguem completamente. Para aqueles que usam padmāsana, uma atenção particular deve ser tomada em relação aos três importantes ligamentos do baixo corpo – os quadris, joelhos e tornozelos – que devem se mover sem esforço.

PADMĀSANA

  1. Sente na base da pélvis depois de fazer padmāsana. Apoie ambas as nádegas igualmente no chão. Se você sentar mais sobre uma, a coluna ficará desnivelada. Pressione as coxas contra o chão, trazendo os ossos das coxas mais profundamente para dentro dos soquetes do quadril. Alongue a pele dos quadríceps na direção dos joelhos. Isso cria liberdade ao redor dos joelhos para moverem-se diagonalmente e circularmente do topo do joelho exterior à base do joelho interior. Aproxime os músculos isquiotibiais para diminuir a distância entre as coxas. Então o ânus e os genitais não se apoiarão no chão (grav. 13). A linha da gravidade aqui é uma pequena área do períneo entre o ânus e os genitais. O alongamento para cima da coluna começa daqui e o corpo é simultaneamente levantado para cima e nas laterais a partir da estrutura interior da pélvis. Tente e mantenha o topo e a parte inferior das áreas púbicas perpendiculares. Se isso for difícil, sente-se com as nádegas apoiadas numa manta enrolada (grav. 17-18). Em padmāsana ambos os joelhos não descansam igualmente no chão (grav. 13).
  2. Não vire as solas dos pés para cima, mantenha-as voltadas para as paredes laterais (grav. incorreta 19 e correta 20). Alongue os metatarsos (o peito do pé), virando os hálux na direção dos dedos menores, então os arcos dos pés ficarão firmes. Se algum arco cai, então as nádegas e o ânus perdem suas aderências, o tórax inclina-se e a coluna verga no meio, perturbando todo o equilíbrio do tórax. Não espalhe os joelhos ou deliberadamente pressione-os para tocar o chão (grav. 21 e 22). Quaisquer dessas tentativas apenas perturbará o centro de gravidade. Com o tempo, devido à prática regular, apesar dos joelhos permanecerem acima do solo não se sente isso. Para alcançar igualdade no equilíbrio dos quadris, é aconselhável descansar o joelho que está acima do solo numa toalha enrolada (grav. 23). Altere a cruzada das pernas em dias alternados para alcançar igualdade no equilíbrio (grav. 24).

O Tórax

  1. O tórax ou tronco tem o papel mais importante na prática do prāṇāyāma. Mantenha o tórax vigorosamente ativo, pernas e braços inativos como que dormindo, e a área do pescoço até a coroa da cabeça num estado puro de quietude alerta. O tórax atua como uma ponte entre as pernas e braços estáticos e a mente alerta mas calma.
  2. O tórax colapsará se os músculos espinhais e intercostais perderem aderência, ou se as vértebras não estão totalmente alongadas. Os músculos da axila até os quadris, à frente, nas costas e em ambos os lados são as chaves. Eles estão ancorados acima nas clavículas e ombros, e abaixo na pélvis e nos ossos do quadril. Mantenha às costas firmes. Ajuste a coluna da base ao topo, isto é, do cóccix às vértebras cervicais. Alongue a coluna espinhal não apenas a partir do centro, mas também a partir dos lados esquerdo e direto.
  3. Mantenha a área do umbigo passiva e perpendicular ao solo. Limite a área da cintura ao elevá-la de ambos os lados. Quando levantá-la, tome cuidado para não a endurecer. As emoções, particularmente o medo, fazem com que essa área se torne firme ou endurecida, o que afeta o diafragma e consequentemente a respiração. Quando essa área está passiva a mente e o intelecto mantêm-se serenos. Então o corpo, mente e intelecto estão unidos com o Si.
  4. Em tāḍāsana (grav. 25) (veja Luz sobre a Yoga) cria-se espaço da base do púbis ao umbigo e mantém-se esta área lisa. Nas posições sentadas simule o alongamento de tāḍāsana. Sempre alongue a partir da coluna frontal. Alongue toda a parte do ânus até o púbis, ao umbigo, ao diafragma, ao esterno e finalmente até as clavículas. Se o púbis colapsa, a pureza da postura sentada desaparece e a prática perde precisão. Quando o peito é alongado corretamente os pulmões funcionam eficientemente e mais oxigênio flui no sistema. Quaisquer bloqueios dos canais sutis (nāḍīs) da energia prāṇica são removidos e a energia recebida através da inalação flui livremente através do sistema. Assim como o disco do sol emite raios de luz uniformemente em todas as direções, da mesma maneira o Si irradia a energia vital da respiração inalada para todos os cantos dos pulmões quando o esterno está bem elevado e alongado.
  5. Relembre-se que a extensão cultiva o campo que traz liberdade, a liberdade traz precisão o que, por seu turno, cria pureza e esta conduz à perfeição divina.
  6. Para saber se você está sentando corretamente ou não, vagarosamente curve as pontas dos polegares e dos dedos separados e os pressione leve, gentil e igualmente no chão ao lado das nádegas. Coloque às unhas perpendiculares ao solo (grav. visão lateral 26, visão frontal 27, visão traseira 28.) Se os indicadores pressionam muito forte, a cabeça inclina-se à frente; se os dedos mínimos, então o corpo inclina-se para trás. Se os dedos de uma mão pressionam o chão mais do que os dedos da outra, o corpo inclina-se para o lado onde a pressão é maior (grav. 29.) Uma pressão uniforme mas firme nos dedos polegares, do meio e mínimos e uma pressão leve nos outros dedos mantém o corpo direito. Não balance os ombros ou eleve-os enquanto pressiona os dedos. Sem levantar os joelhos eleve as nádegas levemente do chão (grav. 30), enrijeça os músculos das nádegas, encolha o cóccix e então coloque as nádegas no chão. Aqueles que não conseguem elevar as nádegas com as pontas dos dedos podem o fazer ao colocarem as palmas no chão como na grav. 31.
  7. Eleve as mãos do chão e descanse as costas das pulsos nos joelhos (grav. 32) ou a palma esquerda sobre a direita no colo e vice-versa (grav. 33). Essa mudança das mãos ajuda os músculos das costas a alcançarem um alongamento harmonioso. Não endireite os braços nos cotovelos pois isso fará com que você se incline para frente (grav. 34).

Três Locais Cruciais

  1. Lembre-se dos seguintes três locais cruciais no corpo:

(i) o períneo entre o ânus e os genitais;

(ii) o sacro e a primeira vértebra lombar;

(iii) a nona vértebra torácica nas costas, e o centro do esterno à frente (grav. 35 e fig. 18).

Quando a postura está correta, a pele das costas do pescoço e dos ombros move-se para baixo rumo à base e a das nádegas e quadril estende-se para cima. A tensão máxima é sentida na primeira vértebra lombar onde esses dois movimentos contrários encontram-se. A vértebra torácica nas costas e o centro do esterno à frente são elevados em direção ao queixo, enquanto este é curvado para baixo como no jālandhara bandha. O alongamento para cima da pele no centro do esterno ajuda o queixo a curvar-se para que este descanse no encaixe entre as clavículas. A primeira lombar é utilizada como um sustentáculo para alongar a espinha verticalmente e abrir o peito para os lados para manter a força dos quatro pilares do corpo (os cantos do tórax) em ambos os lados. Se a coluna dorsal ou lombar fraquejar, os pulmões não expandirão adequadamente. Apenas o movimento correto e o alongamento da pele das costas, das laterais e à frente do tórax permitem que os lobos superiores dos pulmões sejam preenchidos.

Pele do Tórax

  1. Como um pássaro abrindo suas asas no voo, mantenha as omoplatas para baixo e abertas em relação à coluna. Então a pele ali se move para baixo e a parte de trás das axilas estará levemente mais baixa do que a da frente. Isso previne que as costas incline. A pele à frente alonga-se para as laterais de ambos os lados conforme o peito é elevado e afastado das axilas (grav. 36).
  2. Os músculos intercostais interiores e exteriores interconectam toda a caixa torácica e controlam os alongamentos cruzados diagonais. É comumente entendido que a ação dos músculos intercostais interiores é expiratória e a ação dos músculos intercostais exteriores é inspiratória. As técnicas normais de respiração profunda diferem das técnicas do prāṇāyāma. No prāṇāyāma, os músculos intercostais interiores nas costas iniciam a inspiração e os músculos intercostais exteriores à frente iniciam a expiração. Na retenção interna (veja Cap. 15) o sādhaka tem que equilibrar igual e totalmente os músculos da parede do tórax do início ao fim para liberar a tensão no cérebro. Os músculos e a pele das costas devem agir em uníssono, como que interligados, tanto no prāṇāyāma quanto na meditação (dhyāna).
  3. A tensão ou frouxidão da pele do tórax indica estabilidade emocional ou falta desta e mostra se uma pessoa alcançou serenidade e tranquilidade da mente. Se a pele no topo do tórax, perto das clavículas cede e arqueja, a pessoa é uma vítima de suas emoções. Um tórax firme é um símbolo de estabilidade. Se o peito e o diafragma não são mantidos estáveis e a atividade da pele não for coordenada com os movimentos dos músculos das costas, a serenidade na respiração não será sentida. Se eles forem ativados em coordenação, a coragem vem para inspirar a mente.
  4. Na arte do sentar-se as costas se move para frente para alcançar o peito. Observe suas roupas, pois se suas costas toca a sua roupa, o movimento está errado, ao passo que se a frente toca ele está correto (errado, grav. 37 e 38; correta, grav. 39 e 40).
  5. Os iniciantes podem sentar-se próximo a uma parede, comprimindo às nádegas contra a parede. Mantenha a base do sacro e o topo das omoplatas tocando à parede. Quando os ombros tocarem a parede a base do sacro tende a mover-se para longe da parede (grav. 41). Se isso ocorre, reajuste a posição (grav. 42). Alongue as omoplatas para fora. Para alcançar a posição correta, coloque entre elas, logo atrás do esterno, uma barra de sabão, um pedaço de madeira de tamanho similar, ou uma pequena toalha enrolada (grav. 43).
  6. Movimentos espasmódicos são um sinal de fadiga, perda da atenção ou falta de confiança. Se eles ocorrerem, não perca tempo no prāṇāyāma, mas pratique āsanas, que desenvolve os pulmões e acalma os nervos.
  7. No início os ajustes para correção dos movimentos causam dor e desconforto, mas com o tempo e a prática regular esses desaparecem. A prática deve ser suspensa por um dia quando a dor ou o desconforto se torna severo e insuportável. Isso é um sinal que o tórax está corretamente posicionado para a prática de prāṇāyāma.
  8. Aprenda a distinguir entre os tipos corretos e errados de dores. A dor correta ocorre apenas enquanto o prāṇāyāma é praticado e desaparece imediatamente depois de śavāsana. Se a dor persiste ela é do tipo errado e continuará a irritar o sādhaka, ao passo que a do tipo correto atua como uma verdadeira amiga, ensinando ajustes e adaptações novas, continuamente moldando o cérebro assim como o corpo.

Inabilidade de Sentar-se no Chão

  1. Se com a idade, fraqueza ou enfermidade sentar no chão é impossível, uma cadeira ou banco podem ser utilizados. Porém mantenha os pés no chão, as coxas paralelas e paralelas ao solo e as canelas perpendiculares a este (grav. 44 e 45). Mantenha os braços e as pernas relaxadas e libere todas as tensões, seguindo todos os pontos desse capítulo o máximo possível.

Dormência nos Pés

  1. Sentar em qualquer postura para o prāṇāyāma causa dormência nos pés, pois sentar-se em uma posição restringe o fluxo de sangue. A correção, entretanto, é fácil. Faça śavāsana por dois ou três minutos com os joelhos dobrados, mantendo o calcanhar próximo das nádegas (grav. 46). Então alongue as pernas (grav. 47 e 48). Alongue os músculos da panturrilha, a parte traseira dos joelhos, calcanhares, peitos dos pés, com os dedos do pé apontando para o teto (grav. 49). Permaneça assim por um tempo e então deixe que os pés caiam para os lados (grav. 50). Isso fará com que o sangue circule nas pernas e a dormência dos pés desaparecerá.

Braços e Ombros

  1. Estenda os ombros para fora do pescoço de ambos os lados. Coloque-os para baixo o máximo possível para longe do lóbulo da orelha e mantenha-os paralelos ao solo. A pele à frente da axila se volta para cima, a das costas para baixo. Os ombros tendem a mover-se em direção às orelhas durante a prática de prāṇāyāma. Consciente e continuamente ajuste-os. Isso traz os ombros mais para perto do chão e garante que o alongamento e a extensão da parte de cima do braço à frente e atrás estejam nivelados. Não espalhe os cotovelos nem os movimente em direção aos ombros. (grav. 51 e 52).
  2. O ajuste da parte inferior dos braços e a colocação dos dedos nas narinas para certos tipos de prāṇāyāma serão discutidos em detalhe no Cap. 22.

Cabeça e Garganta

  1. Exceto quando deitado, nunca mantenha a cabeça ereta; forme uma trava de queixo, para que a coroa da cabeça não suba, permanecendo impassível ao longo de toda prática de prāṇāyāma. Isso limpa as passagens sutis dos nāḍīs nas laterais do dorso nasal. A constrição no dorso nasal, rigidez da garganta e estreiteza em torno da parte de trás do nariz indica que a posição da cabeça está errada. Para corrigir a posição da cabeça, solte às tensões internas da garganta, relaxe a área do lábio superior e traga os globos oculares para baixo.
  2. Relaxe a pele do crânio e mantenha os nervos passivos, para que o cérebro permaneça quieto e estável. Nunca enrijeça ou levante a pele acima das têmporas. Não comprima os lábios, mantenha-os relaxados e passivos com os cantos flácidos.

Língua

  1. Mantenha a língua passiva e relaxada, descansando no palato inferior. Não permita que a ponta da língua toque o palato superior ou o dente. Não cerre as mandíbulas nem mova a sua língua enquanto inala, exala ou retém a respiração. Se a língua se move, a saliva fluirá. Entretanto, quando você começa a praticar o prāṇāyāma a saliva fluirá e acumulará. Não se preocupe, engula-a antes de fazer uma nova inspiração. Se você mantiver a língua passiva o fluxo cessará gradualmente.

Nariz

  1. O nariz regula o fluxo e o som da respiração. Mantenha a ponta do nariz e o dorso entre as sobrancelhas apontando para o esterno sem inclinar a cabeça para os lados. A ponta do nariz tende a elevar-se durante a inalação, então fique atento e mantenha o dorso do nariz deliberadamente para baixo. Se o dorso ou a ponta do nariz mover-se para cima, o som da respiração será irregular.

Olhos e Ouvidos

  1. Os olhos controlam as flutuações do cérebro; os ouvidos da mente. Eles são como rios que levam o cérebro e a mente para o oceano da alma. O prāṇāyāma deve ser praticado com os olhos fechados e imóveis e os ouvidos receptivos ao som da respiração. Feche os olhos delicadamente, aplicando pequena pressão nas pupilas com as pálpebras superiores, enquanto mantém a parte inferior da pálpebra passiva. Os olhos ficarão, então, brandos. Não os deixe enrijecer e secar. Mova a parte superior das pálpebras em direção aos cantos externos da órbita dos olhos, aliviando assim qualquer tensão da pele nos cantos internos perto do dorso nasal. Mantenha as pupilas constantes e equidistantes do dorso nasal. Alivie a tensão da pele do centro da testa, pois isso alivia as dobras entre as sobrancelhas e mantém a área passiva.
  2. No começo é difícil dominar a arte do sentar-se, pois o corpo inclina-se inconscientemente. Portanto, periodicamente abra os olhos por uma fração de segundo e verifique se o corpo fraquejou, a cabeça está para cima ou para baixo ou inclinada para um lado. A seguir, verifique a tensão na garganta e da pele facial, particularmente em torno das têmporas. Finalmente, descubra se os olhos estão tremeluzentes ou estáveis. Então ajuste o corpo e a cabeça nas posições corretas, relaxe a garganta e mantenha os olhos passivos. Quando os músculos dali relaxam a pele também relaxa. Os lábios superiores e as narinas influenciam o trabalho dos sentidos e dos órgãos. Relaxe a área dos lábios superiores, pois isso ajuda os músculos faciais a relaxarem e o cérebro também. Enquanto pratica o prāṇāyāma numa posição sentada, se a pele ao redor das têmporas mover-se em direção aos ouvidos significa que o cérebro está sob pressão; se ela se move em direção aos olhos, então o cérebro está em repouso. Em posições reclinadas, a pele ao redor das têmporas se move em direção aos ouvidos e não em direção aos olhos.
  3. Direcione a visão para dentro como se olhando com os olhos fechados para alguma coisa atrás. Parecerá que os olhos estão plenamente abertos, apesar da visão estar direcionada para dentro (grav. 53 e 54). Os pupilos tendem a movê-los para cima e para baixo conforme inalam e exalam. Tente cessar isso pois esse movimento cria atividade no cérebro.
  4. A apatia ocorre quando as pálpebras ficam frouxas; o momento que o pupilo começa a tremer a distração surge. Se a parte superior da pálpebra contrai, os pensamentos tremeluzem como uma chama ao vento. Nada disso ocorre quando se está completamente relaxado.
  5. Se os cílios não se encontram, o cérebro está ativo e não relaxa. Se há tensão no arco das sobrancelhas, o cabelo nesse ponto arrepiará como quando com raiva; porém se as sobrancelhas estão planas, o cérebro está em repouso.
  6. Mantenha as aberturas dos ouvidos niveladas uma com a outra e equidistantes do topo dos ombros. Os ouvidos devem ouvir os sons da respiração e sentir a luz ao longo de toda a prática. Não cerre os maxilares pois isso enrijecerá a área em torno dos ouvidos e irá bloqueá-los, dando uma sensação de peso e coceira por dentro.
  7. Dê uma atenção particular à área onde os canais de energia sutil (nāḍīs) dos olhos, ouvidos e pulmões cruzam-se no centro do cérebro através e entre os olhos. Esse é o centro a partir do qual essas energias são controladas. (Veja Cap. 5). Ali é onde o controle da respiração começa.

Cérebro

  1. O cérebro é um computador e um instrumento do pensar. A mente tem sentimento, mas não o cérebro. Dado que o cérebro controla as funções do corpo e dos órgãos dos sentidos, ele deve ser mantido imóvel. No prāṇāyāma, ele é o indutor, não o ator, mas uma testemunha. Os pulmões são os atores, o cérebro é o diretor.
  2. Se a postura sentada está correta, firme, estável e igualmente equilibrada, as emoções são suspensas. O cérebro sente a leveza como se flutuasse. Então nenhuma tensão é sentida ali e consequentemente não há gasto de energia. Se houver uma elevação do cérebro frontal, a irritabilidade e as tensões são sentidas; se for inclinado para um lado, o outro lado sente-se pesado, perturbando o seu equilíbrio.
  3. Os intelectuais tendem a ser arrogantes. A inteligência, como o dinheiro, é uma boa criada, mas não uma mentora. Quando pratica prāṇāyāma, o iogue abaixa sua cabeça, ajustando a posição da fronte em relação à parte de trás do crânio para tornar-se humilde e sem orgulho em suas realizações intelectuais.
  4. Os iogues sabem que o cérebro é a sede da aquisição do conhecimento objetivo (vidyā), enquanto a mente (manas) é onde o conhecimento subjetivo (buddhi) é experienciado. Manas é o envelope externo, buddhi o seu conteúdo. Manas localiza-se no centro do coração, onde os levantes emocionais ocorrem.
  5. Enquanto tanto as emoções quanto a inteligência estão em silêncio e não flutuam, o iogue primeiro experiencia tranquilidade dos sentidos seguida pela da mente. A isso se segue a experiência mais rara e madura da tranquilidade espiritual, que o liberta dos pensamentos mundanos e das precauções. Ele se torna consciente do estado de ser raro, puro, uma consciência total, o estado divino no ser humano. Nele o finito funde-se no infinito. Isso é samādhi, a meta interminável do iogue.

Capítulo 12

A Arte de Preparar a Mente para o Prāṇāyāma

Quando a respiração está estável ou instável, da mesma maneira está a mente, e com ela o iogue. Assim, a respiração precisa ser controlada.

Haṭha Yoga Pradīpikā Cap. 11. 2.

  1. Diz-se que a árvore da vida tem suas raízes acima e seus galhos abaixo, da mesma forma é com o ser humano, pois o seu sistema nervoso tem suas raízes em seu cérebro. O cordão espinhal descendo através da coluna espinhal, enquanto os nervos descem do cérebro pelo cordão espinhal e ramificam-se ao longo do corpo.
  2. A arte de sentar-se em prāṇāyāma é explicada em detalhes no Cap. 11, que lida com a preparação mental que o sādhaka precisa para a prática do prāṇāyāma.
  3. As artérias, veias e nervos são canais (nāḍīs) de circulação e distribuição de energia ao longo do corpo. O corpo é treinado pela prática de āsanas, que mantém os canais livres de obstrução para o fluxo de prāṇa. A energia não se propaga pelo corpo se os nāḍīs estão bloqueados pelas impurezas. Se os nervos estão emaranhados, é impossível permanecer estável, e se a estabilidade não pode ser alcançada a prática de prāṇāyāma não é possível. Se os nāḍīs estão desequilibrados, a verdadeira natureza de um ser e a essência das coisas não podem ser descobertas.
  4. A prática de āsanas fortalece o sistema nervoso e a prática de śavāsana suaviza os nervos desordenados. Se os nervos colapsam, a mente também colapsará. Se os nervos estão tensos, a mente também estará tensa. A menos que a mente esteja relaxada, silenciosa e receptiva, o prāṇāyāma não poderá ser praticado.
  5. Em sua busca por paz o mundo moderno tornou-se interessado no benefício da meditação e na antiga arte do prāṇāyāma. Ambas as disciplinas são fascinantes à primeira vista, mas conforme o tempo passa é notório que elas não são apenas muito difíceis de aprender, mas também muito tediosas e repetitivas, porque o progresso é muito lento. Por um lado, a prática de āsanas é fascinante e totalmente absorvente, conforme a inteligência está focada e revigorada em várias partes do corpo. Isso cria um sentimento de satisfação. No prāṇāyāma a atenção está inicialmente nas duas narinas, nas passagens sinusais, tórax, coluna e diafragma. Dessa forma a inteligência não pode ser desviada para outras partes do corpo. Assim o prāṇāyāma não pode se tornar absorvente até que o corpo e a mente sejam treinados para receber o fluxo da respiração; meses ou anos podem passar sem muito progresso, entretanto, pelos esforços sinceros e inabaláveis, a mente do sādhaka se torna receptiva ao fluxo de ar regulado. Então ele começa a experimentar a beleza e a fragrância dos prāṇāyāmas, e depois de anos de prática ele apreciará a sua sutileza.
  6. Para a prática de prāṇāyāma há duas coisas essenciais, uma coluna estável (achala) e uma mente silenciosa (sthira) mas alerta. Tenha em mente, entretanto, que aqueles que praticam retroversões excessivamente podem ter uma coluna elástica, mas esta não permanece muito tempo estável; outros, que praticam muitos alongamentos à frente, podem ter uma coluna estável, mas não uma mente silenciosa e alerta. Nas retroversões, os pulmões são alongados, ao passo que estes não se expandem nas flexões à frente. O sādhaka tem que encontrar um equilíbrio entre as duas, para que a coluna permaneça estável e a mente permaneça alerta e inabalável.
  7. A prática de prāṇāyāma não deve ser mecânica. O cérebro e a mente devem se manter alertas, para corrigir e ajudar a posição do corpo e o fluxo da respiração de momento a momento. Não é possível praticar prāṇāyāma pela força de vontade; assim, não deve haver uma ordem sistemática. Uma completa receptividade da mente e do intelecto são essenciais.
  8. No prāṇāyāma o relacionamento entre chitta (mente, intelecto e ego) e a respiração é como a de uma mãe e seu filho. Chitta é a mãe e prāṇa é o filho. Assim como a mãe acalenta o seu filho com amor, cuidado e sacrifício, chitta deve acalentar o prāṇa.
  9. A respiração é como um rio turbulento, que, quando aproveitado por barragens e canais, proverá energia abundante. O prāṇāyāma ensinará ao sādhaka como aproveitar a energia da respiração para fornecer vitalidade e vigor.
  10. Entretanto, o Haṭha Yoga Pradīpikā (Cap. 2, 16-17) avisa: como um treinador doma um leão, um elefante ou um tigre vagarosamente, da mesma maneira o sādhaka deve adquirir o controle sobre sua respiração gradualmente, pois, de outra maneira, esta irá destruí-lo. Pela prática adequada de prāṇāyāma, todas as doenças são curadas ou controladas. A prática incorreta, entretanto, dá origem a todos os tipos de doenças respiratórias como tosses, asma, dores na cabeça, olhos e ouvidos.
  11. A estabilidade da mente e da respiração interagem e tornam o intelecto estável também. Quando este não oscila, o corpo se torna forte e o sādhaka é preenchido com coragem.
  12. A mente (manas) é a governante dos órgãos dos sentidos (indriyas), assim como a respiração é a governante da mente. O som da respiração é seu governante e quando esse som é mantido uniformemente o sistema nervoso aquieta-se. Então a respiração flui suavemente, preparando o sādhaka para a meditação.
  13. Os olhos têm um papel predominante na prática de āsanas, e os ouvidos no prāṇāyāma. Ao estar-se totalmente atento e utilizar-se dos próprios olhos, uma pessoa aprende āsanas e o equilíbrio adequado nas posturas. Esses podem ser dominados pela vontade e os membros podem se tornar subservientes. O prāṇāyāma, entretanto, não pode ser executado dessa forma. Durante a sua prática os olhos são mantidos fechados e a mente concentrada no som da respiração; enquanto os ouvidos ouvem o ritmo, o fluxo e as nuances da respiração são reguladas, diminuídas e suavizadas.
  14. Há uma variedade infindável de āsanas, por causa do número de diferentes posturas e movimentos e a atenção altera-se durante a prática. No prāṇāyāma há monotonia. As razões são: primeiro, o sādhaka tem que praticar em apenas uma posição; segundo, ele tem que manter um som contínuo e inabalável na respiração. É como a prática de escalas musicais antes do aprendizado de melodia e harmonia.
  15. Enquanto pratica āsanas, o movimento parte do corpo conhecido grosseiro e vai até o corpo sutil desconhecido. No prāṇāyāma o movimento parte da respiração sutil e vai até o corpo grosseiro externo.
  16. Assim como as cinzas e a fumaça obscurecem um pedaço de madeira queimando em combustão lenta, as impurezas do corpo e da mente cobrem a alma do sādhaka. Assim como a brisa limpa as cinzas e a fumaça, e a madeira continua a queimar, da mesma maneira a centelha divina no sādhaka resplandece quando, pela prática de prāṇāyāma, a sua mente se tornou livre das impurezas e adequada para a meditação.

Capítulo 13

Mudrās e Bandhās

  1. Para seguir as técnicas do prāṇāyāma é necessário conhecer algo sobre mudrās e bandhās. A palavra Sânscrita mudrā significa selo ou trava. Ela denota posições que fecham às aberturas do corpo, e onde os dedos são mantidos, juntamente com alguns gestos das mãos.
  2. Bandhā significa sujeição, união, agrilhoar ou segurar. Refere-se também à postura na qual certos órgãos ou partes do corpo são presos, contraídos e controlados.
  3. Quando a eletricidade é gerada é necessário haver transformadores, condutores, fusíveis, interruptores e cabos isolados para carregar a energia até a sua destinação; de outra forma a corrente seria letal. Quando o prāṇa flui pelo corpo do iogue através da prática de prāṇāyāma é igualmente necessário que ele aplique bandhās para prevenir à dissipação de energia e seu transporte para os locais certos sem dano. Sem os bandhās, a prática de prāṇāyāma perturba o fluxo do prāṇa e prejudica o sistema nervoso.
  4. Entre os vários mudrās mencionados nos textos de Haṭha-yoga, o jālandhara, o uḍḍīyāna e o mūla bandhā são essenciais para o prāṇāyāma. Eles ajudam a distribuir a energia e prevenir o seu gasto através da hiper-ventilação do corpo. Eles são praticados para elevar a dormente kuṇḍalinī e direcionar sua energia para cima através do canal suṣumṇā durante os prāṇāyāmas. A utilização dos bandhās é essencial para experienciar o estado de samādhi.

JĀLANDHARA BANDHA

  1. O primeiro bandha que o sādhaka deve dominar é o jālandhara bandha, jāla significando rede, uma teia ou uma malha. É dominado enquanto executa sarvāngāsana e o seu ciclo, durante o qual o esterno é mantido pressionado contra o queixo.

Técnica

(a) Sente-se numa posição confortável como siddhāsana, swastikāsana, bhadrāsana, vīrāsana, baddhakōṇāsana ou padmāsana (veja grav. 3 a grav. 14).

(b) Mantenha as costas ereta. Eleve o esterno e a parte frontal da caixa torácica.

(c) Sem tencionar, alongue as laterais do pescoço e mova as clavículas em direção ao corpo; mantenha a coluna torácica e cervical côncavas e incline a cabeça para frente e para baixo a partir da parte de trás do pescoço em direção ao peito.

(d) Não constrinja a garganta ou tencione os músculos do pescoço. Eles não devem ser forçados para frente, para baixo ou pressionados para trás (grav. 55 e 56). Mantenha os músculos do pescoço e da garganta soltos.

(e) Traga a cabeça para baixo de modo que a ponta e ambos os lados da mandíbula repousem igualmente no encaixe entre as clavículas na parede da frente do peito (grav. 57 e 58).

(f) Não alongue o queixo mais de um lado do que para o outro (grav. 59). Também não incline o pescoço para um lado (grav. 60), o que pode causar dor e estiramento que continuarão por um longo tempo. Conforme ganha-se elasticidade, o pescoço inclina-se cada vez mais para baixo.

(g) Não force o queixo contra o peito como na grav. 55, mas eleve o peito para encontrar o queixo descendente como na grav. 58.

(h) Mantenha o centro da cabeça e o queixo alinhados com o meio do esterno, o umbigo e o períneo (grav. 61)

(i) Não colapse as costelas, enquanto descansa o queixo no peito (grav. 62).

(j) Relaxe as têmporas e mantenha os olhos e os ouvidos passivos (grav. 57).

(k) Esse é o jālandhara bandha.

Efeitos

O plexo solar está situado no centro do tórax. De acordo com a Yoga ele é a sede do fogo digestivo (jāṭharāgni), que queima o alimento e cria calor. O plexo lunar está no centro do cérebro e cria frescor. Ao realizar jālandhara bandha, devido à trava dos nāḍīs em torno do pescoço, a energia fria do plexo lunar não flui para baixo ou não é dissipada pela energia quente do plexo solar. Dessa maneira o elixir da vida é estocado e a própria vida é prolongada. O bandha também pressiona os canais de īḍā e piṅgalā e permite que o prāṇa passe através de suṣumṇā.

         O jālandhara bandha limpa as passagens nasais e regula o fluxo de sangue e prāṇa (energia) ao coração, cabeça e glândulas endócrinas no pescoço (tireóide e para-tireóide). Se o prāṇāyāma é realizado sem jālandhara bandha, a pressão é imediatamente sentida no coração, cérebro, glóbulos oculares e no interior dos ouvidos. Isso pode levar à tontura.

         Ele relaxa o cérebro e também torna o intelecto (manas, buddhi e ahaṁkāra) humilde.

Nota

Aqueles com rigidez no pescoço devem manter a cabeça mais abaixada possível sem um desconforto excessivo (grav. 63), ou enrolar uma toalha e colocá-la no topo das clavículas (grav. 64 e 65). Mantenha-a ao elevar o peito em vez de pressionar para baixo com o queixo (veja grav. 57). Isso alivia a tensão na garganta e a respiração se torna confortável.

UḌḌĪYĀNA BANDHA

  1. Uḍḍīyāna, que significa voar alto, é uma trava abdominal. Nele, faz-se com que o prāṇa ou energia flua para cima do baixo abdômen em direção à cabeça. O diafragma é elevado do baixo abdômen até o tórax, puxando os órgãos abdominais para trás e para cima em direção da coluna espinhal.

Técnica

Primeiro domine uḍḍīyāna na posição em pé como explicado abaixo. Somente então introduza-o nas práticas de prāṇāyāma sentado durante bāhya kumbhaka (o intervalo entre a completa exalação e o início da inalação). Nunca faça uḍḍīyāna durante o prāṇāyāma antes de você ter dominado este, nem durante antara kumbhaka (a retenção da respiração durante o intervalo entre a inalação completa e o início da exalação), pois tencionará o coração.

(a) Faça tāḍāsana (grav. 25).

(b) Abra as pernas a cerca de um pé de distância.

(c) Incline-se ligeiramente à frente com os joelhos dobrados, alongue os dedos e segure o meio das coxas com as mãos.

(d) Dobre os braços levemente nos cotovelos e abaixe o queixo o máximo possível como no jālandhara bandha.

(e) Inale profundamente e então exale rapidamente para que o ar seja expelido dos pulmões com ímpeto.

(f) Segure a respiração sem inalar. Puxe toda a região abdominal para trás em direção à coluna e eleve-a (grav. 66). Nunca escave o peito durante a prática de uḍḍīyāna.

(g) Eleve a coluna lombar e dorsal para frente e para cima. Esprema os órgãos abdominais e pressione-os contra a coluna.

(h) Mantenha a trava abdominal, eleve as mãos das coxas e descanse-as um pouco acima da borda pélvica para uma contração ainda mais firme.

(i) Alongue as costas sem perder a trava abdominal ou elevar o queixo (grav. 67).

(j) Mantenha a trava o máximo que você puder, de dez a quinze segundos. Não tente mantê-la para além da sua resistência, mas, aos poucos aumente o tempo conforme ela se torna confortável.

(k) Primeiro relaxe os músculos abdominais sem mover o queixo e a cabeça. Se eles se movem, uma tensão é imediatamente sentida na região do coração e das têmporas.

(l) Permita que o abdômen retorne à sua posição normal. Então inale vagarosamente (grav. 68).

(m) Não inale durante o processo descrito nas letras (f) a (k).

(n) Respire algumas vezes, então repita o ciclo das letras (a) a (k) não mais que seis a oito vezes em um alongamento. Aumente a duração da trava ou o número de ciclos conforme a sua capacidade aumenta, ou a faça sob a supervisão pessoal de um professor ou guru experiente.

(o) Os ciclos devem ser realizados apenas uma vez ao dia.

(p) Quando a firmeza é alcançada na prática de uḍḍīyāna, gradualmente introduza-o em vários tipos de prāṇāyāma, mas apenas enquanto retém a sua respiração depois da exalação (bāhya kumbhaka).

Nota:

(i) Pratique apenas com o estômago vazio.

(ii) Não comprima o abdômen até que a respiração tenha sido expelida.

(iii) Se uma tensão é sentida nas têmporas ou se o influxo de ar está ofegante, isso quer dizer que o uḍḍīyāna foi feito para além da capacidade.

(iv) Nunca inale até que a trava do uḍḍīyāna seja solta e os órgãos abdominais sejam trazidos para seu estado original de relaxamento.

(v) Não comprima os pulmões enquanto os órgãos abdominais estão comprimidos.

Efeitos

Diz-se que através de uḍḍīyāna bandha o grande pássaro prāṇa é forçado a voar para o alto através do suṣumṇā nāḍī, o principal canal para o fluxo de energia nervosa, que está situado dentro da coluna espinhal (mērudanḍa). É o melhor dos bandhās, e aquele que constantemente o pratica, como lhe foi ensinado por seu guru, se torna jovem novamente. Diz-se que é o leão que mata o elefante chamado morte. Ele deve ser realizado apenas durante o intervalo entre uma completa exalação e uma inalação fresca. Ele exercita o diafragma e os órgãos abdominais. A elevação do diafragma massageia delicadamente os músculos do coração, tonificando-os. Ele também tonifica os órgãos abdominais, aumenta o fogo gástrico e elimina as toxinas no trato digestório. Como tal também é chamado śakti chālana prāṇāyāma.

MŪLA BANDHA

  1. Mūla significa raiz, fonte, origem ou causa e base, ou fundação. Refere-se à região principal entre o ânus e os genitais. Contraia os músculos dessa área e levante-os verticalmente em direção ao umbigo. Simultaneamente, o baixo abdômen anterior sob o umbigo é pressionado para trás e para cima em direção à coluna. O curso descendente do apāna vāyu é alterado e então flui para cima para se unir com o prāṇa vāyu, que tem sua sede na região do peito.

         O mūla bandha deve ser tentado primeiramente na retenção interna depois da inalação (antara kumbhaka). Há uma diferença entre as travas abdominais em uḍḍīyāna e em mūla bandha. Em uḍḍīyāna toda a região do ânus até o diafragma é recuada em direção à coluna e elevada em direção ao diafragma (grav. 69).

         A prática da contração dos músculos do esfíncter anal (aśvini mudrā) ajuda a dominar mūla bandha. Aśva significa um cavalo. Esse mūdra é chamado assim porque ele sugere a urina de um cavalo. Ele deve ser aprendido enquanto uma pessoa realiza vários āsanas, especialmente tāḍāsana, śīrṣāsana, sarvāngāsana, ūrdhva dhanurāsana, uṣtrāsana e paśchi mottanāsana. (Veja Luz sobre a Yoga).

         Há um grave perigo em tentar aprender uḍḍīyāna e mūla bandhās por si próprio. A realização imprópria daquele causará uma secreção involuntária de sêmen e perda da vitalidade, enquanto que a prática incorreta deste enfraquecerá seriamente o praticante, que perderá virilidade. Mesmo a realização correta de mūla bandha tem os seus próprios perigos. Ela aumenta o poder sexual retentivo, todos os seus desejos dormentes podem ser despertados e se tornarem letais como uma serpente adormecida agitada por um bastão. Com o domínio dos três bandhas o iogue estará na encruzilhada de seu destino, uma estrada levando à bhoga (o usufruto dos prazeres mundanos) e a outra levando à Yoga ou união com a Alma Suprema. O iogue, entretanto, sente uma atração maior pelo seu criador. Normalmente, os sentidos se abrem para fora e são atraídos pelos objetos seguindo o caminho de bhoga. Se essa direção é alterada, para que ela se volte para dentro, então eles seguem o caminho da Yoga. Os sentidos do iogue são voltados para dentro para encontrar a Fonte de toda Criação. É no momento em que o aspirante dominou os três bandhās que a orientação de um guru é mais essencial, pois sob orientação adequada esse poder aumentado é sublimado para propósitos maiores e mais nobres. O praticante é então conhecido como celibatário (ūrdhvareta). Tendo dominado o impulso sexual naturalmente, mas não pela força, ele para de dissipar sua virilidade. Ele é completamente potente, entretanto um mestre de si mesmo (bhava vairagī). Ele adquire então um poder moral e espiritual que brilhará como o sol.

         Enquanto pratica mūla bandha o iogue tenta alcançar a verdadeira fonte ou mūla de toda criação. A sua meta é a contenção completa ou bandha de chitta que inclui a mente (manas), o intelecto (buddhi) e o ego (ahaṁkāra).

Capítulo 14

A arte da Inalação (Pūraka) e da Exalação (Rechaka)

  1. Inalação (pūraka) é o influxo da energia cósmica pelo indivíduo para seu crescimento e progresso. É o caminho da ação (pravṛtti mārga). É o Infinito unindo-se com o finito. Ela inspira o sopro da vida tão cuidadosa e gentilmente quanto uma fragrância de uma flor pode ser inspirada e a distribui igualmente ao longo de todo o corpo.
  2. Enquanto realiza āsanas, a mente e a respiração do sādhaka são como as de uma criança entusiástica, sempre pronta para inventar, criar e mostrar suas habilidades, ao passo que ao praticar prāṇāyāma a respiração é como um bebê demandando atenção especial e cuidados de sua mãe. Assim como a mãe ama o seu bebê e devota a sua vida a seu bem-estar, do mesmo modo a consciência deve encorajar à respiração.
  3. Para entender essa arte é essencial conhecer sua metodologia, o que está certo e o que está errado e o que é grosseiro e sutil. Então é possível experienciar a essência do prāṇāyāma. É útil notar que o relacionamento entre a consciência (chitta) e a respiração (prāṇa) deve ser como aquele entre a mãe e o bebê. Porém, antes que isso possa ocorrer os pulmões, o diafragma e os músculos intercostais devem ser treinados e disciplinados pelos āsanas para que a respiração se mova ritmicamente.
  4. A ação da consciência na respiração é como aquela da mãe absorvida assistindo o seu filho brincar. Apesar de externamente passiva, ela está mentalmente alerta, observando-o minuciosamente enquanto permanece completamente relaxada.
  5. Quando a mãe envia pela primeira vez o seu filho para a escola, ela o acompanha, segurando a sua mão para guiá-lo, enfatizando a importância de ser amigável com seus futuros colegas e de estudar as lições. Ela submerge a sua própria identidade a fim de acompanhar o seu filho até que ele se acostume com a vida escolar. Assim também a consciência se transforma na mesma condição do fluxo respiratório, seguindo-o como uma mãe e guiando-o a um fluxo rítmico.
  6. A mãe treina o filho a andar e cruzar as ruas cuidadosamente. Da mesma maneira, a consciência tem que guiar o fluxo respiratório através das passagens respiratórias para a absorção nas células vivas. Conforme a criança ganha confiança e se torna ajustada à escola, então a mãe a deixa quando chega no portão. Similarmente, quando a respiração se move com precisão rítmica, chitta observa os seus movimentos e os une com o corpo e o Si.
  7. Na inalação o sādhaka tenta transformar o seu cérebro num centro receptor e distribuidor do fluxo de energia (prāṇa).
  8. Não infle o abdômen enquanto inala pois isso impede que os pulmões se expandam completamente. A inalação ou a exalação não devem ser nem forçadas nem rápidas, pois isso pode resultar em uma tensão do coração ou em um dano no cérebro.
  9. A exalação (rechaka) é o ar que sai depois da inalação. É a expiração do ar impuro ou a expulsão do dióxido de carbono. O fluxo de saída do ar é quente e seco e o sādhaka não sente nenhuma fragrância.
  10. A exalação é o refluxo de energia individual (jīvātmā) para unir com a energia cósmica (Paramātmā). Ela aquieta e silencia o cérebro. É a submissão do ego do sādhaka e a imersão no Si.
  11. A exalação é o processo pelo qual a energia do corpo gradualmente se une com a da mente, combinando-se na alma do sādhaka e dissolvendo-se na energia cósmica.
  12. Mantenha o peito elevado com consciência e conduza a exalação contínua e suavemente.
  13. Inale e exale sistematicamente com muita atenção ao padrão rítmico da respiração, como uma aranha tece simetricamente a sua teia e se move através dela.
  14. Para algumas pessoas a inalação é mais longa do que a exalação, enquanto que para outras a exalação é mais longa. Isso se deve aos desafios que enfrentamos na vida e as nossas respostas a eles, que altera o fluxo da respiração e a pressão do sangue. O prāṇāyāma ajuda a erradicar essas disparidades e distúrbios no fluxo da respiração assim como na pressão sanguínea e torna um ser imperturbável e desapegado de sua própria personalidade.

Técnica para a Inalação (Pūraka).

(a) Sente-se em qualquer postura confortável.

(b) Eleve a coluna juntamente com o peito, costelas flutuantes e umbigo e mantenha-a ereta.

(c) Agora traga a cabeça para baixo o máximo possível. (grav. 63 ou 64). Quando a elasticidade é alcançada na parte de trás do pescoço, realize jālandhara bandha (grav. 57).

(d) De acordo com a Yoga, a mente (manas), que é a fonte das emoções, está localizada na região entre o umbigo e o coração. Mantenha as costas em contato constante com o centro emocional. Alongue à frente do corpo para cima e para fora sem perder contato com o centro da consciência.

(e) Durante a inalação, expanda o peito para cima e para fora, sem inclinar-se para frente, para trás ou lateralmente.

(f) Não tencione ou balance o domo do diafragma. O ponto chave para iniciar a inalação profunda é a partir da faixa do umbigo, abaixo das costelas flutuantes de ambos os lados (grav. 70).

(g) Mantenha os pulmões passivos e maleáveis durante a inalação a fim de receber e absorver o influxo energético. Enquanto inala, preencha os pulmões completamente com total atenção. Sincronize o movimento da respiração igualmente com a expansão interior dos pulmões.

(h) Assim como um jarro é preenchido de baixo para cima, da mesma maneira encha os pulmões da base até a borda. Encha-os até o topo das clavículas e o interior das axilas.

(i) Um cuidado especial e atenção são necessários para treinar uma pessoa subdesenvolvida, antes que os pulmões possam receber toda a inalação do ar. Portanto explore cuidadosamente o alongar de suas fibras nervosas.

(j) Os tubos bronquiais alcançam da traqueia à periferia dos pulmões, onde eles se ramificam em numerosos bronquíolos. Faça com que cada inalação alcance até as pontas dos bronquíolos.

(k) A inspiração é absorvida pelas células vidas no corpo, assim como a água é absorvida no solo. Sinta essa absorção e a sensação revigorante da filtração da energia cósmica (prāṇa) que se segue.

(l) A energia da inalação entra pelo nariz e é recebida pela estrutura causal do corpo espiritual. Na inalação a consciência (chitta) ascende do umbigo (maṇipūraka chakra) ao topo do peito (viśuddhi chakra). O sādhaka deve manter do início ao fim um contato singular unificador entre as estruturas causais e sutis do corpo (veja Cap. 2) e a consciência ascendendo da sua fonte. Esse contato unifica o corpo, a respiração, a consciência e o Si. Então o corpo (kṣetra) e o Ātmā (kṣetrajña) tornam-se um.

(m) Cada poro da pele do tórax deve agir como o olho da inteligência (jñāna chakṣu) para absorver o prāṇa.

(n) Se a inalação for muito pronunciada a pele das palmas torna-se áspera. Regule a respiração para manter a pele das palmas suaves do início ao fim.

(o) Se os ombros são elevados durante a inalação, as áreas superiores dos pulmões não se expandem completamente e a nuca retesa-se.

(p) Relaxe a garganta. Repouse a língua no assoalho bucal sem tocar os dentes.

(q) Mantenha os olhos fechados e relaxados, porém a visão interior ativa (grav. 54). Na inalação os olhos tendem a voltar-se para cima (grav. 95); evite isso.

(r) Note se os ouvidos, os músculos faciais e a pele da testa permanecem relaxados.

(s) O método correto da inalação remove a letargia, estimula e energiza o corpo e a mente.

Técnicas para a Exalação (Rechaka)

(a) Siga as letras (a) a (d) referentes às técnicas de inalação.

(b) Na inalação o corpo age como um instrumento que recebe a energia na forma de ar. Na exalação ele se torna dinâmico, agindo como um instrumento para a liberação lenta do ar. Retenha a trava dos músculos intercostais e das costelas flutuantes do início ao fim. Sem essa trava, a exalação constante e suave não é possível.

(c) Na exalação a fonte ou o ponto de início é o topo do peito. Sem perder a trava ali, exale vagarosa e completamente até que a respiração esteja vazia num nível abaixo do umbigo. Aqui o corpo unifica-se com o Si.

(d) Conforme você libera a expiração, retenha a elevação não apenas da coluna espinhal central mas também de seus lados esquerdo e direito, mantendo o tórax firme como um tronco de uma árvore.

(e) Não trema ou balance o corpo, pois isso perturba o fluxo de ar, os nervos e a mente.

(f) Solte o ar vagarosa e suavemente sem colapsar o peito. Se a exalação é irregular isso indica que foi perdida a atenção na trava do corpo e na observação do fluxo da respiração.

(g) Na inalação a pele do tórax fica esticada, na exalação ela se torna suave sem perder a aderência com o corpo estrutural interior.

(h) A pele do peito e dos braços não devem se tocar na proximidade das axilas (grav. 75). Deve haver liberdade e espaço (grav. 76) sem excessiva extensão dos braços (grav. 51 e 52).

(i) A exalação é a arte de acalmar os nervos e o cérebro. Isso cria humildade e o ego aquieta-se.

Capítulo 15

A Arte da Retenção

(Kumbhaka)

  1. Kumbha quer dizer um vaso que pode estar cheio ou vazio. Kumbhaka é de dois tipos. É ou (a) uma pausa entre uma inalação e uma exalação ou (b) entre uma exalação e uma inalação. É a arte de reter a respiração num estado suspenso.
  2. Também significa a retirada do intelecto dos órgãos da percepção e ação, para focar na sede do Ātmā (puruṣa), a origem da consciência. Kumbhaka mantém o sādhaka silencioso nos níveis físico, moral, mental e espiritual.
  3. A retenção da respiração em kumbhaka não deve ser interpretada erroneamente como uma re-tensão do cérebro, dos nervos e do corpo para suster a respiração. A re-tensão conduz à hiper-tensão. Kumbhaka tem que ser feito com o cérebro relaxado para que possa re-vitalizar o sistema nervoso.
  4. Quando a respiração está estática em kumbhaka, os sentidos estão estáticos e a mente se torna silenciosa. A respiração é a ponte entre o corpo, os sentidos e a mente.
  5. Kumbhakas são realizados de duas formas: sahita e kevala. Quando a respiração é mantida intencional e deliberadamente, isso é sahita. Sahita kumbhaka é a pausa na respiração (a) depois da inalação total antes do início da exalação (antara ou pūraka kumbhaka), ou (b) depois de completar a exalação antes do início da inspiração (bāhya ou rechaka kumbhaka). Kevala significa ‘por si próprio’ ou ‘absoluto’. Kevala kumbhaka é a pausa na respiração desacompanhada de pūraka ou rechaka, como quando um artista está totalmente absorvido em sua arte ou um devoto está sem alento em adoração. Esse estado é frequentemente precedido de tremores corporais e medo, como aquela situação que um homem está no ponto de ser oprimido pelo inesperado. Paciência e perseverança removerão esse sentimento. Kevala kumbhaka é instintivo e intuitivo. Nesse estado alguém está completamente absorvido no objeto de sua devoção e isolado do mundo, experienciando um sentimento de alegria e paz que passa entendimento. Essa pessoa está afinada com o Infinito. (Haṭha Yoga Pradīpikā, II. 71.)
  6. Antara kumbhaka é a retenção do Senhor na forma de energia cósmica ou universal, que se combina com a energia individual. É um estado em que o Senhor (Paramātmā) está unido com a alma individual (jīvātmā).
  7. Bāhya kumbhaka é o estado no qual o iogue submete seu próprio si, na forma da sua respiração, ao Senhor e combina-se com o Alento Universal. É a forma mais nobre de submissão, pois a identidade do iogue está totalmente combinada com o Senhor.
  8. No Bhagavad Gīta (IV, 29/30) Kṛṣṇa explica a Arjuna os diferentes tipos de sacrifícios (yajñas) e de iogues. Kumbhaka prāṇāyāma é um desses yajñas e tem três categorias: inalação-retenção, exalação-retenção (ambos são sahita kumbhaka) e retenção absoluta (kevala kumbhaka). O corpo do iogue é o altar sacrificial, o influxo do ar (pūraka) é a oblação e o efluxo (rechaka) é o fogo. Kumbhaka é o momento quando a oblação de pūraka é consumida no fogo de rechaka, e a oblação e a chama tornam-se uma. O iogue adquire o conhecimento de como controlar a sua respiração (prāṇāyāma vidyā). A parte superior do tórax é a morada do influxo de ar (prāṇa), e a parte baixa do efluxo de ar (apāna). Quando ambas se unem no influxo de ar, esse é o estado de pūraka kumbhaka. Quando apāna entra em contato com o prāṇa e flui para fora na exalação, o estado vazio é o rechaka kumbhaka. Absorvendo esse conhecimento pela experiência, o iogue torna Prāṇāyāma vidyā uma parte da sua sabedoria (buddhi), a qual ele finalmente oferece seu conhecimento, sua sabedoria, seu próprio alento vital e seu ‘Si’ como oblação (Ātmāhuti). Esse é o estado de kevala kumbhaka, ou submissão absoluta, na qual o iogue é absorvido na adoração do Senhor.
  9. Como uma mãe protege o seu filho de toda catástrofe, a consciência (chitta) protege o corpo e a respiração. A espinha e o tórax são ativos e dinâmicos como uma criança e chitta está alerta e protetora como uma mãe.
  10. Em kumbhaka a vibração no corpo é como a de uma locomotiva a vapor estacionária, o seu condutor alerta e pronto para iniciar, mas relaxado. Similarmente, o prāṇa vibra no tórax, mas a chitta mantém-se relaxada e pronta para deixar ir ou vir a respiração.
  11. A sensibilidade, a trava e o alongamento da pele do tórax são como as de uma criança disciplinada, que é tanto audaciosa quanto cuidadosa.
  12. A duração de tempo que a respiração é retida pode ser comparada com os sinais de trânsito. Se alguém passa no vermelho, acidentes podem ocorrer. Assim também em kumbhaka, se alguém vai além de sua capacidade, o sistema nervoso será danificado. A tensão no corpo e no cérebro indicam que chitta não pode armazenar prāṇa em kumbhaka.
  13. Não retenha a respiração pela força de vontade. No momento em que o cérebro se torna tenso os ouvidos internos rígidos e os olhos vermelhos, pesados ou irritados, alguém está excedendo a sua própria capacidade. Preste atenção nesses sinais de advertência, que indicam que o ponto de perigo está próximo.
  14. O objetivo de kumbhaka é a contenção da respiração. Enquanto a respiração é mantida suspensa, a fala, a percepção e a audição são controlados. A chitta nesse estado está livre da paixão e do ódio, ambição e luxúria, orgulho e inveja. Prāṇa e chitta se combinam em kumbhaka.
  15. Kumbhaka é o impulso de trazer para fora a divindade latente no corpo, a morada do Ātman.

A Técnica de Antara Kumbhaka

(a) Não tente manter a sua respiração depois da inalação (antara kumbhaka) antes de dominar as inalações e exalações profundas (pūraka e rechaka). Não tente retê-la depois da exalação (bāhya kumbhaka) antes de dominar antara kumbhaka.

(b) Dominar significa um ajustamento artístico pelo refinamento disciplinado e controle do movimento da respiração. Equalize a duração da sua inalação e exalação antes de tentar o kumbhaka. Leia o Cap. 13 sobre os bandhās do início ao fim antes de começar o kumbhaka.

(c) Aprenda a fazer antara kumbhaka em passos lentos. Comece retendo a respiração apenas por alguns segundos sem perder a aderência ao corpo interno. Perceba a condição do corpo, dos nervos e do intelecto. Leva algum tempo antes que você possa entender, experienciar e reter a aderência interna precisa sobre os músculos intercostais e o diafragma no kumbhaka.

(d) Quando começar a aprender a retenção interna (antara kumbhaka) permita que passe algum tempo entre cada kumbhaka. Isso capacita os pulmões a reverter à condição normal, natural e fresca antes de fazer outra tentativa. Por exemplo, três ou quatro ciclos de respiração normal ou profunda devem seguir um ciclo de kumbhaka até que a sessão termine.

(e) Se os iniciantes realizam a retenção interna depois de cada inalação, eles tencionarão os pulmões, enrijecendo os nervos e tornando o cérebro tenso, fazendo com que o progresso seja excessivamente lento.

(f) Conforme você melhora, diminua o intervalo entre os ciclos de respiração normal e antara kumbhaka.

(g) Aumente o tempo que você retém a sua respiração na retenção interna sem exceder sua capacidade.

(h) Se o ritmo da inalação e da exalação é perturbado pela retenção da respiração, isso mostra que você excedeu a sua capacidade; portanto, reduza a duração da retenção interna. Se o ritmo não é perturbado, então a sua prática está correta.

(i) O conhecimento dos bandhās é essencial para a prática adequada de kumbhaka. Eles agem como válvulas de segurança na distribuição, regulação e absorção da energia, e previnem a sua dissipação. Um motor elétrico queima se se permite que a voltagem suba muito. Similarmente, quando os pulmões estão cheios e a energia neles não é verificada pelos bandhās, eles sofrerão danos, os nervos se desgastarão e o cérebro tornar-se-á excessivamente tenso. Isso não acontecerá se a pessoa praticar jālandhara bandha.

(j) Nunca faça antara kumbhaka em pé, pois você pode perder o equilíbrio e cair.

(k) Quando numa posição reclinada, coloque travesseiros abaixo da cabeça para mantê-la mais alta do que o tórax, para que nenhuma tensão seja sentida na cabeça (grav. 77)

(l) Iniciantes devem prestar atenção no uḍḍīyāna bandha e no mūla bandha até que eles dominem o ritmo da respiração. Pupilos avançados devem fazer todos os bandhās depois de dominá-los individualmente enquanto retém a respiração.

(m) Não levante o dorso do nariz na retenção interna. Se este se mover para cima, o cérebro é enredado no movimento; ele não poderá, então, assistir ao tórax (grav. 78).

(n) Do início ao fim da prática de prāṇāyāma, rotacione a cabeça e a coluna cervical para a frente e para baixo e mantenha ereta a coluna dorsal e o esterno (grav. 76). Isso ajuda o cérebro e a coluna cervical a moverem-se em direção ao esterno e relaxa a testa. Isso faz com que a energia do cérebro descenda até a sede do Si.

(o) Ao longo de cada retenção interna, mantenha uma firme trava no diafragma e nos órgãos abdominais. Há uma tendência, seja inconsciente ou deliberada, de enrijecê-los e afrouxá-los para manter por mais tempo a respiração. Evite isso porque dissipa energia.

(p) Se uma pressão é sentida nos pulmões e coração, exale e faça algumas respirações normais ou profundas. Isso refresca os pulmões a fim de retomarem antara kumbhaka. Se você continua depois de ter sentido a pressão, você perturba o funcionamento harmônico tanto do corpo quanto do intelecto. Isso leva a desequilíbrios mentais.

(q) Quando você é capaz de suster a respiração na retenção interna por um mínimo de dez a quinze segundos você pode introduzir mūla bandha. Nos estágios iniciais faça mūla bandha no final da inalação e retenha-o por toda a retenção.

(r) Na retenção interna, empurre os órgãos abdominal para dentro e para cima, e simultaneamente traga a coluna inferior à frente (grav. 69). Mantenha o tórax firme e a cabeça, braços e pernas relaxados do início ao fim.

(s) Mantenha a elevação da coluna a partir da região sacroilíaca, base do fígado e estômago do início ao fim.

(t) Mova a coluna espinhal exterior e interior à frente e para cima, rítmica e igualmente. Conforme a coluna se move anteriormente, estenda consigo a pele em direção ao tórax.

(u) Se a pele do seu peito afrouxa sobre as costelas é um sinal que a respiração escapou dos pulmões inconscientemente.

(v) Não alongue por demais ou escave o peito. Eleve-o na frente, nas costas e em ambos os lados igualmente. Mantenha a estrutura interna das costelas firme e o corpo externo solto. Isso equilibrará o corpo e aumentará a duração do kumbhaka.

(w) Perceba se a parte de trás e a da frente dos músculos intercostais e se as camadas internas e externas dos lados se movem independente e uniformemente.

(x) Ajuste a pele das axilas de trás para frente. Não pressione a pele em torno das axilas do peito mas eleve-a. Se a pele das axilas ou dos ombros move-se para cima, esse é um sinal de tensão. Solte-a e traga-a para baixo.

(y) No final da inalação (pūraka) e no início da retenção (kumbhaka) o sādhaka experiencia uma centelha da divindade. Ele sente a unidade do corpo, da respiração e do si. Nesse estado não há consciência que o tempo está passando. O sādhaka experiencia liberdade da causa e do efeito. Ele deve reter esse estado ao longo do kumbhaka.

(z) Os conteúdos voláteis de uma garrafa bem selada não vazam, mesmo que a garrafa seja agitada. A energia vital do sādhaka não escapa quando o kumbhaka é feito com os bandhās. O tórax é selado na base pela contração do ânus e do períneo e sua elevação de Mūlādhāra. O sādhaka então se torna cheio de vigor (tejas) e lustre (ojas).

A Técnica de Bāhya Kumbhaka

(a) Bāhya kumbhaka (a retenção da respiração depois da exalação completa) é de dois tipos, ponderada ou dinâmica. Quando ponderada, é praticado sem uḍḍīyāṇa. É realizado para manter-se silencioso e pode ser feito a qualquer momento, mesmo depois das refeições. Quando dinâmico é feito com uḍḍīyāṇa bandha, que massageia os órgãos abdominais e o coração e previne a dissipação da energia.

(b) Comece praticando ciclos ponderados de retenção externa. Então concentre-se na retenção externa com uḍḍīyāṇa bandha.

(c) No início, depois de cada retenção externa dinâmica, permita que se passe algum tempo para os pulmões e os órgãos abdominais voltarem ao normal.

(d) A retenção externa com uḍḍīyāṇa nunca deve ser forçada. Se forçada haverá arquejos, perda da trava dos órgãos abdominais e a sensação de secura nos pulmões.

(e) Comece a retenção externa com uḍḍīyāṇa muito gradualmente e mantenha a trava de uḍḍīyāṇa pela mesma duração de tempo em cada ciclo. Faça de seis a oito ciclos por dia.

(f) Faça alguns ciclos de respiração normal ou profunda e um de retenção externa com uḍḍīyāṇa. Por exemplo, três ou quatro ciclos de respiração normal podem ser seguidos por um de retenção externa com uḍḍīyāṇa. Repita a sequência, reduzindo o número de ciclo de respiração normal conforme a estabilidade é ganha pela prática.

(g) Enquanto pratica siga as técnicas dados nos parágrafos b, d, e, f, h, l, m, p, s, t, u e w das técnicas de antara kumbhaka, substituindo por ‘bāhya kumbhaka’ as palavras ‘antara kumbhaka’ onde quer que elas ocorram.

(h) Assim como alguém usa pinças para remover um espinho e se sente livre da dor imediatamente, utilize a inteligência como as pinças para remover travas imperfeitas e movimentos que atuam como espinhos na prática.

(i) Assim como as pálpebras agem instintivamente para prevenir a matéria estranha de entrar nos olhos, o sādhaka deve estar sempre alerta para prevenir travas falsas, movimentos e hábitos que entram em sua prática de prāṇāyāma.

(j) O kumbhaka que ruboriza a face, queima os olhos e causa irritabilidade está errado. Nunca faça kumbhaka com os olhos abertos. Não o pratique se você tem problemas cardíacos ou no peito, ou quando você não está bem.

(k) O corpo é o reino. A pele é sua fronteira. O seu governante é o Ātman, cujo olho que tudo vê (jñāna chakṣu) assiste a todo detalhe durante o prāṇāyāma.

(l) As avalanches removem rochas e escavam cânions entretanto, quando a energia da água que flui é acalmada e equilibrada contra a energia das rochas, ambas perdem as suas identidades separadas. O resultado é um lago, refletindo a beleza serena das montanhas em volta. As emoções são as avalanches, enquanto o intelecto constante forma às rochas. No kumbhaka ambos são igualmente equilibrados e a alma é refletida em seu estado prístino.

(m) A consciência (chitta) oscila com a respiração enquanto o kumbhaka a acalma e a liberta de seus desejos. As nuvens dispersam-se e o si brilha como o sol.

(n) Depois da prática de prāṇāyāma e kumbhaka relaxe em śavāsana (veja o Cap. 30).

Capítulo 16

Níveis de Sādhakas

  1. Os sādhakas são divididos em três grupos principais de acordo com o progresso que eles alcançam na prática de prāṇāyāma, essas categorias são: inferior (adhama), cuja respiração é grosseira e irregular; mediano (madhyama), que é parcialmente suave, e superior (uttama), cuja a respiração é suave e fina.
  2. Esses grupos são novamente subdivididos para mostrar as suas diferenças sutis. Os iniciantes são separados entre os mais inferiores dos ‘inferiores’ (adhamādhama), medianos entre os ‘inferiores’ (adhamamadhyana), e os melhores entre os ‘inferiores’ (adhamōttma). Os grupos ‘medianos’ (madhyama) e ‘superiores’ (uttama) são similarmente divididos. Porém a meta final de todo sādhaka é alcançar o melhor dos ‘superiores’ (uttamōttama).
  3. Um iniciante no prāṇāyāma (adhama) usa a força física e lhe falta ritmo e estabilidade. O seu corpo e cérebro são rígidos, enquanto sua respiração é forçada, irregular e superficial. Um sādhaka mediano (madhyama) tem algum controle na arte de sentar-se e uma capacidade pulmonar superior do que a do iniciante. A ele falta a habilidade de manter uma postura constante ou respirar ritmicamente. A sua prática é moderada, ao passo que a de um sādhaka mais aperfeiçoado (uttama) é disciplinada; ele senta-se ereto e alerta. Os seus pulmões são capazes de sustentar o prāṇāyāma por um tempo maior. A sua respiração é rítmica, suave e sutil, enquanto seu corpo, mente e intelecto são estáveis. Ele está sempre pronto para ajustar a sua postura e para corrigir seus próprios erros.
  4. Com muita frequência, o entendimento e a prática não caminham juntos. Um sādhaka pode ser mais capaz de entender, enquanto outro pode ter uma habilidade melhor na prática. Em cada caso, ele deve desenvolver uniformidade na habilidade e inteligência e usá-las harmoniosamente para uma melhor prática de prāṇāyāma.
  5. Patanjali menciona o papel importante interpretado no prāṇāyāma pelo local (deśa), tempo (kāla) e condição (saṁkhyā), sejam internas ou externas, para o sādhaka. Elas podem ser reguladas, alongadas ou tornadas sutis (Yoga Sūtras II, 50). Seu tórax é o local, sua idade é o tempo, e sua condição é o fluxo equilibrado, vagaroso, estável e uniforme da sua respiração.
  6. O iniciante pode usar apenas o topo de seus pulmões, enquanto o praticante mediano preocupar-se-á com o seu diafragma ou umbigo e o perito com sua região pélvica. É necessário aprender a envolver todo o tórax quando se pratica prāṇāyāma.
  7. O tempo representa a duração de cada inalação e exalação e condiciona o fluxo controlado e a sutileza da respiração.
  8. A condição representa o número e a duração da inalação, retenção, exalação e segunda retenção. O sādhaka tem que determinar o número e a duração para cada dia e deve manter um cronograma regular. O fluxo suave e delicado da respiração em todo ciclo é a condição ideal (saṁkhyā).
  9. O sādhaka pode completar um ciclo com a duração de dez segundos, outro de vinte e um terceiro de trinta. Ele pode praticar em três níveis, o puramente físico, usando o seu corpo como um instrumento, o emocional, utilizando apenas suas faculdades mentais ou o nível intelectual, controlando sua respiração com inteligência. Um iniciante pode alcançar a perfeição se o seu ciclo é bem curto mas suave e fino; por outro lado, um perito que se orgulha da duração de seu ciclo, que é grosseiro e irregular, é reduzido ao nível de um iniciante.
  10. O sādhaka deve desenvolver estabilidade no corpo, manter sua mente e emoções em equilíbrio e seu intelecto sóbrio. Então ele está apto a observar o fluxo sutil da sua respiração e sentir sua absorção no interior de seu sistema. Seu corpo, respiração, mente, intelecto e si tornam-se um e perdem suas identidades individuais. O conhecível, o conhecedor e o conhecimento se tornam um. (Yoga Sūtra, I, 41.)
  11. Um músico está perdido em seu êxtase enquanto mostra todas as sutilezas de rāga (nota musical, melodia e harmonia) na qual ele se especializou e experiencia consciência suprema. Ele pode ou não estar ciente que sua experiencia é compartilhada pela sua audiência. Essa é a busca do som (nādānusandhāna). Da mesma maneira o sādhaka está perdido em seu êxtase, porém a sua experiência do prāṇāyāma é puramente subjetiva. Apenas ele ouve ao som sutil e suave de sua própria respiração e desfruta do estado absoluto sem som de kumbhaka. Essa é a busca pelo Si (Ātmānusandhāna).
  12. O influxo de ar (pūraka) é a absorção da energia cósmica; a inalação-retenção (antara kumbhaka) é a união do Si Universal com o si individual; a exalação (rechaka) é a submissão da energia individual, seguida por exalação-retenção (bāhya kumbhaka), na qual o indivíduo e o Si Universal fundem-se. Esse é o estado de nirvikalpa samādhi.

Capítulo 17

Bīja Prāṇāyāma

O que é Japa?

  1. Apesar da alma ser livre da causa e efeito, alegria e angústia, ela é enredada pela atividade turbulenta da mente. O propósito do mantra japa é verificar e focar a mente perturbada num ponto único e está relacionado com um pensamento único. Mantra é um hino védico ou verso musical, a sua repetição é japa ou uma oração. Isso deve ser feito com sinceridade, amor e devoção, que desenvolve o relacionamento entre os seres humanos e o Criador. Quando restrito entre uma e vinte e quatro sílabas ele se torna um mantra semente (bīja), a palavra chave que destranca a alma. O guru iluminado, que ganhou a graça de Deus, inicia e dá a palavra chave para seu śiṣya merecedor, que destranca a alma deste. Essa é a semente para o śiṣya estudar a si mesmo e iniciar-se em todos os aspectos da Yoga.
  2. A mente toma a forma de seus pensamentos e é formada de tal maneira que os pensamentos bons tornam-na boa e os maus pensamentos tornam-na má. Japa (a repetição de um mantra) é usado para livrar a mente das conversas inúteis, ideias invejosas e dos contos de fadas, a fim de que a mente se volte para pensamentos em torno da alma e Deus. É o focar de uma mente oscilante e agitada num único pensamento, ato ou sentimento.
  3. Os mantras são dados para a expressão contínua, com razão, propósito e objeto. A repetição constante (japa) de um mantra com reflexão sobre seu significado (artha-bhāvana; artha = significado, bhāvana = reflexão) traz iluminação. Através dessa repetição e reflexão constantes, os pensamentos do sādhaka são agitados, purificados e clarificados. Ele vê a sua alma refletida no lago da sua mente.
  4. Esse japa transforma o sādhaka e transmuta o seu ego, desse modo tornando-o humilde. Ele atinge a quietude interna e se torna alguém que conquistou seus sentidos (jitēndriyan).
  5. Durante a prática de prāṇāyāma, repita o mantra, mentalmente sincronizando o seu fluxo silencioso sem mover a boca ou a língua. Isso mantém a mente atenta e ajuda a aumentar a duração dos três processos da respiração – inalação, exalação e retenção. O fluxo da respiração e o crescimento da mente se tornam suaves e estáveis.
  6. A prática de prāṇāyāma é de dois tipos: sabīja (com semente) e nirbīja (sem semente). Sabīja prāṇāyāma inclui a repetição de um mantra e é ensinado a quatro tipos de sādhakas, com variados estágios de desenvolvimento mental, mūḍha, kṣipta, vikṣipta e ekāgra (veja Cap. 2).
  7. O mantra não deve ser repetido rapidamente a fim de completar um ciclo de prāṇāyāma. Ele deve ser rítmico, regulando o fluxo da respiração igualmente na inalação, exalação e retenção. Então os sentidos ficam em silêncio. Quando a perfeição é alcançada, o sādhaka se torna livre e puro sem o suporte do mantra.
  8. Nirbīja prāṇāyāma é ensinado ao quinto tipo de sādhaka, àquele com o maior desenvolvimento mental, conhecido como niruddha. É realizado sem o suporte de um mantra, processo no qual o sādhaka respira, vive e experiencia o estado conhecido como ‘tu és isso’ (tattvam asi).
  9. Sabīja, como uma semente, faz brotar pensamentos, ideias e visões, enquanto nirbīja, que é como uma semente assada não o faz. Sabīja tem um começo e um fim; tem uma estrutura, forma e conotações, como lâmpada e luz e luz e chama. Nirbīja não tem nenhuma condição, nem começo nem fim.
  10. Sabīja prāṇāyāma volta a mente e o intelecto do sādhaka para o Senhor, a semente da onisciência e a fonte de todos os seres. A palavra que O expressa é a sílaba mística ĀUṀ (praṇava). O Senhor foi descrito por Patanjali como aquele que é intocado pelos ciclos de ação e reação, causa e efeito, aflição e prazer.
  11. Diz-se no Chāndogya-Upaniṣad que Prajāpati (o Criador) examinava os mundos criados por si. Disso surgiu os três Vēdas – Ṛg, Yajur e Sāma. A partir desses, quando analisados, surgiram as três sílabas: bhuḥ (terra), bhuvaḥ (atmosfera) e svaḥ (céu). A partir dessas, quando as ponderou, surgiu a sílaba ĀUṀ. Assim como as folhas são reunidas por um galho, da mesma maneira todo o discurso é reunido por ĀUṀ.
  12. ĀUṀ expressa conceitos de onisciência e universalidade. Ele contém tudo que é auspicioso assim como formidável. É um símbolo de serenidade e de poder majestoso. ĀUṀ é o espírito eterno, a meta mais elevada. Quando as suas conotações são totalmente conhecidas, todos os anseios são realizados. É o meio mais certeiro de salvação e de ajuda suprema. Ele conota a plenitude da vida humana, pensamento, experiência e adoração. É o som imortal. Aqueles que entram e tomam refúgio nele se tornam imortais.
  13. Os Upaniṣads mencionam várias tríades da alma, adoradas pelo uso triplo de ĀUṀ. No domínio do sexo elas simbolizam os sexos feminino, masculino e neutro, assim como seu criador, que está além dos sexos. Com poder e luz ĀUṀ simboliza o fogo, o vento e o sol, assim como o gerador dessas fontes de poder e luz. Na forma do Senhor, o símbolo é adorado como Brahmā, o criador, Viṣnu, o protetor e Rudrā, o destruidor, sintetizando as forças de toda a vida e matéria. Como tempo, ĀUṀ significa o passado, o presente e o futuro, juntamente com o Todo Poderoso, que está além do alcance do tempo. Como pensamento, representa a mente (manas), intelecto ou entendimento (buddhi), e o si ou ego (ahaṁkāra). A palavra ĀUṀ também representa os três estados (guṇās) da iluminação (sattva), atividade (rajas) e inércia (tamas), e também qualquer um que se tornou livre destes, um guṇātīta.
  14. As três letras A, U e M, juntas com o ponto sobre o M, são os símbolos da busca humana pela verdade, juntamente com os três caminhos do conhecimento, ação e devoção e a evolução de uma grande alma que atingiu o equilíbrio da alma, cujo intelecto atingiu um estado de estabilidade – um sthitaprajña. Se uma pessoa segue o caminho da sabedoria (jñāna-mārga), seus desejos (ichhā), ações (kriyā) e erudição (vidyā) estarão todos sobre o seu controle. Se seguir o caminho da ação (karma-mārga), sofrerá austera penitência (tapas) para alcançar a sua meta na vida, auto-estudo (svādhyāya) e então dedicará os frutos de suas ações ao Senhor (Īśvara-praṇidhāna). Se seguir o caminho da devoção (bhakti-mārga), ela estará imersa no ouvir do nome do Senhor (Śravaṇa), meditando sobre os Seus atributos (Manana) e pensando em Sua glória (Nididhyāsana). O seu estado está além do sono (nidrā), sonho (svapna) ou vigília (jāgṛti), pois apesar de seu corpo estar em repouso como num sono, sua mente está aparentemente num sonho e seu intelecto está totalmente alerta; ela está no quarto estado transcendental, o turīyāvasthā.
  15. Aquele que realizou os significados múltiplos de ĀUṀ se torna livre dos grilhões da vida. Seu corpo, respiração, sentidos, mente, intelecto e a sílaba ĀUṀ são fundidos.
  16. ĀUṀ é a palavra que todos os Vēdas glorificam, e que todo auto-sacrifício expressa. É a meta de todos os estudos sagrados e o símbolo da vida sagrada. O fogo está latente na madeira seca e ele pode ser gerado pela fricção contínua. Da mesma maneira, a divindade latente no sādhaka é forçada a manifestar-se pela palavra ĀUṀ. Ao atritar a sua consciência inteligente contra a palavra sagrada ĀUṀ ele vê a divindade oculta no interior de si mesmo.
  17. Pela meditação em ĀUṀ o sādhaka permanece estável, puro e leal e se torna grandioso. Como uma naja perde a sua antiga pele, ele também perde todo o mal. Ele encontra a paz do Espírito Supremo, onde não há medo, dissolução ou morte.
  18. Dado que a palavra ĀUṀ detém tal poder supremo e majestoso a sua força deve ser atenuada adicionando o nome de uma deidade, fazendo a combinação num mantra como um bīja para a prática de prāṇāyāma, como, por exemplo, as oito sílabas de ‘ĀUṀ NAMŌ NĀRĀYAṆĀYA’ ou cinco sílabas ‘ĀUṀ NAMAḤ ŚIVĀYA’ ou doze sílabas ‘ĀUṀ NAMŌ BHAGAVATE VĀSUDEVĀYA’ ou o GĀYATRI MANTRA com vinte e quatro sílabas.

Capítulo 18

Vṛtti Prāṇāyāma

  1. Vṛtti quer dizer ação, movimento, um curso de conduta ou método.
  2. Há dois tipos de vṛtti prāṇāyāmas: Samavṛtti e Viṣamavṛtti. É samavṛtti quando a duração de tempo de cada inalação, exalação e retenção da respiração é a mesma, e é viṣamavṛtti se a duração é alterada e variada.

SAMAVṚTTI PRĀṆĀYĀMA

  1. Sama significa igual, idêntico ou da mesma maneira. No samavṛtti prāṇāyāma tenta-se atingir uniformidade na duração de todos os quatro processos de respiração, nomeadamente, inalação (pūraka), retenção (antara kumbhaka), exalação (rechaka) e retenção (bāhya kumbhaka). Se a duração do pūraka durar cinco ou dez segundos, ela deverá ser a mesma no rechaka e nos kumbhakas.
  2. Comece samavṛtti prāṇāyāma obedecendo apenas a mesma duração da inalação (pūraka) e da exalação (rechaka).
  3. Alcance uniformidade na duração do tempo, mantendo o ritmo perfeitamente suave de pūraka e rechaka.
  4. Apenas então tente a retenção da respiração depois da inalação (antara kumbhaka). No início você não será capaz de manter a mesma duração de tempo da retenção interna quanto de pūraka e rechaka,
  5. Comece a retenção interna gradualmente. No início a razão de tempo entre os três processos deve ser mantido em 1 : ¼ : 1. Aumente vagarosamente as proporções para 1 : ½ : 1. Quando esta estiver firmemente estabelecida, aumente para 1 : ¾ : 1. Quando esta tornar-se fácil, então aumente a proporção de antara kumbhaka até a razão 1 : 1 : 1.
  6. Não tente conter a respiração depois da exalação total (bāhya kumbhaka) até que você tenha alcançado essa razão.
  7. Então comece a retenção externa (bāhya kumbhaka) gradualmente. No início, mantenha a razão de tempo para a inspiração, a retenção interna, a exalação e a retenção externa em 1 : 1 : 1 : ¼. Aumente vagarosamente as proporções para 1 : 1 : 1 : ½. Depois que esta estiver firmemente estabelecida, tente 1 : 1 : 1 : ¾ e, finalmente, aumente as proporções para alcançar a razão de 1 : 1 : 1 : 1.
  8. Primeiro pratique a retenção interna (antara kumbhaka) separadamente, espaçando um antara entre três ou quatro ciclos de respiração normal. Repita o ciclo antara cinco ou seis vezes. Quando isso tornar-se fácil e confortável, diminua o espaçamento. Quando isso acontecer com facilidade, faça pūraka, antara kumbhaka e rechaka sem espaçamento.
  9. Quando a razão uniforme de pūraka, antara kūmbhaka e rechaka é mantida com facilidade, introduza bāhya kumbhaka uma vez a cada três ou quatro ciclos.
  10. Gradualmente diminua o número de ciclos sem bāhya kumbhaka. Então realize pūraka, antara kumbhaka, rechaka e bāhya kumbhaka sem espaçamentos.

VIṢAMAVṚTTI PRĀṆĀYĀMA

  1. Viṣama significa irregular. Viṣamavṛtti prāṇāyāma é assim chamado porque a duração de pūraka, antara kumbhaka, rechaka e bāhya kumbhaka é variada. Isso conduz a um ritmo interrompido e a diferença na razão cria dificuldades e perigos para o pupilo, ao menos que ele seja dotado de nervos fortes e bons pulmões.
  2. Primeiro começe com inalação, antara kumbhaka e exalação apenas na razão de 1 : 2 : 1. Aumente a razão gradualmente para 1 : 3 : 1, e então para 1 : 4 : 1. Então ajuste e adote a razão de 1 : 4 : 1¼; 1 : 4 : 1½; 1 : 4 : 1¾ e 1 : 4 : 2. Quando isso é dominado, e apenas então, adicione bāhya kumbhaka gradualmente na razão de 1 : 4 : 2 : ¼; 1 : 4 : 2 : ½; 1 : 4 : 2 : ¾; e 1 : 4 : 2 : 1. Essas quatro razões constituem um ciclo de viṣamavṛtti prāṇāyāma.
  3. No começo o pupilo achará difícil manter o ritmo durante rechaka, bāhya kumbhaka e pūraka, pois ocorrerão arquejos. Porém tudo é facilitado com a longa e ininterrupta prática.
  4. Em viṣamavṛtti prāṇāyāma a razão ideal é a seguinte: na inalação completa de cinco segundos a retenção (antara kumbhaka) durará vinte segundos, a exalação durará dez segundos e bāhya kumbhaka cinco segundos, a razão sendo de 1 : 4 : 2 : 1.
  5. Quando isso for alcançado, inverta o processo. Inale por dez segundos, retenha por vinte segundos e exale por cinco segundos, a razão sendo de 2 : 4 : 1. Então adicione bāhya kumbhaka 2 : 4 : 1 : ¼, e gradualmente aumente a duração de bāhya kumbhaka para 2 : 4 : 1 : ½, 2 : 4 : 1 : ¾ e 2 : 4 : 1 : 1.
  6. A duração de tempo pode ser variada. Por exemplo, se a inalação leva vinte segundos, a retenção dez segundos e a exalação cinco segundos, minimize bāhya kumbhaka para 2½ segundos, para assim manter a razão de 4 : 2 : 1 : ½.
  7. A duração de tempo pode ser variado em viṣamavṛtti prāṇāyāma em diferentes razões, como, por exemplo, 1 : 2 : 4 : ½; 2 : 4 : ½ : 1; 4: ½ : 2 : 1; ½ : 1 : 4 : 2. As permutações e combinações em viṣamavṛtti prāṇāyāma são numerosas e nenhum mortal pode realizar todas as combinações possíveis em sua vida. Um exemplo de tais permutações e combinações é dado em nota nos prāṇāyāmas sūrya e chandra bhedana no Cap. 27.

Nota

  1. O caminho de viṣamavṛtti prāṇāyāma é cheio de perigos. Portanto não o pratique a sós sem a supervisão pessoal de um guru experiente.
  2. Devido às diferentes razões da inalação, inalação-retenção, exalação e exalação-retenção, todos os sistemas do corpo, especialmente os órgãos respiratórios, o coração e os nervos são sobrecarregados e tencionados. Isso pode causar tensão no cérebro e nos vasos sanguíneos, que pode, por seu turno, criar hipertensão, inquietação e irritação.
  3. Essa advertência em relação a samavṛtti prāṇāyāma e a prática de kumbhaka se aplica com grande força a viṣamavṛtti prāṇāyāma. Lembre-se das palavras de Svātmārama em seu Haṭha Yoga Pradīpikā, que o prāṇa deve ser domado mais gradualmente que os leões, elefantes e tigres; caso contrário isso matará o praticante.
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