Luz sobre o Pranayama, Prefácio e Parte I, B. K. S. Iyengar

Prefácio

Meu primeiro livro, Luz sobre a Yoga, capturou as mentes e os corações de estudantes entusiastas e mudou até mesmo a vida de muitos que, à primeira vista, estavam curiosos em relação a essa nobre arte, ciência e filosofia. Espero que Luz no Prāṇāyāma também aumente o conhecimento deles.

         Com respeito e reverência a Patanjali e os Iogues da Índia antiga que descobriram o Prāṇāyāma, compartilho com os companheiros homens e mulheres o néctar de sua simplicidade, clareza, sutileza, fineza e perfeição. No passado recente, durante minhas práticas, uma nova luz de consciência interior nasceu em mim, luz que eu não havia experienciado quando escrevi Luz sobre a Yoga. Meus amigos e pupilos me pressionaram para que eu colocasse as experiências, assim como meus ensinamentos orais no papel; por isso essa tentativa de explicar as observações sutis e as reflexões que fiz para ajudar os estudantes em suas buscas por refinamento e precisão.

         Muitos eruditos ocidentais aceitaram a antiga concepção que o homem é uma trindade de corpo, mente e espírito. Várias técnicas de exercícios físicos, atléticos e esportes foram inventados para manter o homem e a mulher saudáveis. Eles foram projetados para suprir às necessidades do corpo (annamaya kośa) com seus ossos, ligamentos, músculos, tecidos, células e órgãos. Os estudiosos indianos chamaram essa disciplina de ‘conquista da matéria’. Isso eu expliquei completamente no meu livro Luz sobre a Yoga. Apenas recentemente os sábios ocidentais tornaram-se conscientes das técnicas desenvolvidas na Índia antiga para examinar os sistemas da respiração, da circulação sanguínea, digestão, assimilação, nutrição, as glândulas endócrinas e os nervos, as formas sutis que são coletivamente conhecidas como a Conquista da Força Vital (prāṇamaya kośa).

         Yoga Vidyā é um sistema codificado que especifica oito fases para a auto-realização. Eles são: Yama, Niyama, Āsana, Prāṇāyāma, Pratyāhāra, Dhāraṇā, Dhyāna e Samādhi. Nesse livro a ênfase recai sobre o Prāṇāyāma, para manter os sistemas involuntários ou autônomos de controle do corpo humano em um estado equilibrado de saúde e perfeição.

         Não há estudiosos, santos ou iogues em minha casa para me inspirar a absorver a Yoga. Quando criança fui afligido por muitas doenças, porém, assim quis o destino, isso me levou à Yoga em 1934 na esperança de reganhar minha saúde. Desde então ela tem sido minha forma de vida. Ela me ensinou a ser pontual e disciplinado apesar das provações que frequentemente perturbavam minhas práticas diárias, aprendizados e experiências.

         No início, o Prāṇāyāma foi uma batalha. O excesso na prática diária de āsanas fazia meu corpo interior muitas vezes tremer em poucos minutos após o início do Prāṇāyāma. Toda manhã eu me levantava para praticar e era um esforço manter minha respiração e manter o ritmo. Eu persisti, dificilmente executando três ou quatro ciclos, até quando eu arquejava por ar. Eu descansava por alguns minutos e então tentava novamente até que fosse impossível continuar. Eu me perguntava por que não conseguia. Não encontrava resposta. Eu não tinha ninguém para me guiar. As falhas e os erros zombaram do meu corpo, mente e ser por vários anos, porém eu firmemente continuava a ampliar meus padrões. Hoje em dia eu ainda devoto diariamente uma hora ininterrupta ao Prāṇāyāma e penso que até mesmo isso é inadequado.

         As palavras podem hipnotizar e atrair um leitor para uma prática religiosa (sādhana) e fazê-lo pensar que ele entende uma experiência espiritual. A leitura, entretanto, apenas o torna mais culto, enquanto a prática (sādhana) do que ele leu o traz mais próximo da verdade e da clareza. O fato é verdade e a claridade é pureza. A presente era é de avanço científico e novas palavras inundam os dicionários. Sendo um puro sādhaka e não um homem de palavras, acho difícil escolher os termos técnicos corretos para expressar tudo que eu gostaria de escrever. Posso apenas dar o meu inadequado melhor para apresentar aos meus leitores tudo que eu experienciei na minha prática da mais fina das artes.

         O Prāṇāyāma é um tema vasto com potencialidades ilimitadas. É psicossomático pois explora o relacionamento íntimo entre o corpo e a mente. Pode parecer muito simples e fácil, mas no momento em que se senta para praticar, rapidamente percebe-se que é uma arte difícil. Suas sutilezas são pouco conhecidas e muito mais permanece a ser explorado. No passado, os escritores dos textos da Yoga lidaram mais com os efeitos do Prāṇāyāma do que com sua aplicação prática. Isso pode ser porque o Prāṇāyāma era amplamente praticado e a maioria das pessoas estava familiarizada com ele. As suas explicações de seus efeitos deram algumas ideias de suas experiências, que extrapolavam suas palavras.

         Muitos dos movimentos no Prāṇāyāma são infinitamente sutis. Por exemplo, os movimentos deliberados e finos da pele em direções opostas parecem objetivamente impossíveis, mas é um processo desenvolvido na Yoga. Com o treinamento a pele pode ser movida dessa maneira, e isso desempenha um papel fundamental nas práticas de Prāṇāyāma. Por isso o Prāṇāyāma é, em vários aspectos, uma arte subjetiva. Quando essa habilidade é utilizada para a maximização do efeito, onde os movimentos da pele sincronizam com aqueles da inalação, exalação e retenção, o fluxo da energia (prāṇa) é harmonioso.

         Os cientistas modernos verificaram a eficácia do conhecimento intuitivo dos iogues pela utilização de instrumentos eletrônicos. Os efeitos do Prāṇāyāma são inequívocos e não ilusórios. Estou confiante que, num futuro não muito distante, o polo do conhecimento objetivo (ciência ou experimentação) e o outro do conhecimento subjetivo (arte ou participação) terão seus papéis na unificação do estudo do Prāṇāyāma e seus benefícios.

         Devido ao desenvolvimento da tecnologia, a vida moderna tornou-se infinitamente competitiva, resultando num aumento da tensão, tanto dos homens quanto das mulheres. É difícil manter uma vida equilibrada. As ansiedades e doenças que afetam os sistemas nervoso e circulatório multiplicaram-se. Em desespero, as pessoas tornaram-se viciadas em drogas psicodélicas, fumo e bebida ou sexo indiscriminado para encontrar alívio. Essas atividades permitem que uma pessoa esqueça de si mesma temporariamente, porém as causas permanecem não resolvidas e a doença retorna.

         Apenas o Prāṇāyāma fornece um alívio real para esses problemas. Esse não pode ser aprendido por argumentos e discussões, mas deve ser conquistado com paciência e esforço cuidadoso. Ele começa dando alívio aos que sofrem de enfermidades ordinárias como gripes comuns, dores de cabeça e desarmonia mental. O seu nadir é o elixir da vida.

         Este livro tem duas partes. A primeira cobre três seções lidando com a teoria, a arte e as técnicas do Prāṇāyāma. A segunda parte, intitulada ‘Liberdade e Beatitude’ preocupa-se com a conquista da alma (ātma jaya). Ela lida com a meditação (dhyāna) e o relaxamento (śavāsana).

         Na primeira parte, tentei integrar o Prāṇāyāma com todos os diferentes aspectos da Yoga. Prāṇāyāma é o elo de conexão entre o corpo e a alma dos seres humanos, e o eixo na roda da Yoga.

         Tentei expor técnicas ocultas, para que o leitor possa tirar máximo benefício sem ser assediado pela dúvida e confusão. Incorporei tabelas analisando os diferentes estágios de importantes variedades de Prāṇāyāma. A tabela dá informação detalhada da metodologia para referência rápida. Elas também dão ao leitor alguma ideia do infinito número de permutações e combinações possíveis nessa nobre arte e ciência. Mesmo o sādhaka leigo pode praticar independentemente, sem medo de efeitos colaterais. A informação contida nas tabelas tornará os sādhakas cuidadosos e corajosos.

         No apêndice introduzi cinco cursos, arranjando-os passo a passo para o praticante segui-los de acordo com sua capacidade. Cada um dos cursos pode ser estendido por semanas adicionais se o padrão fornecido não puder ser completado dentro do tempo estipulado. Apesar do Prāṇāyāma dever ser essencialmente aprendido aos pés de um guru (mestre), empenhei-me com toda a humildade para guiar o leitor – tanto o professor quanto o estudante – num método seguro de aperfeiçoamento dessa arte.

         Devo ficar feliz se minha obra ajudar as pessoas à atingirem a paz no corpo, estabilidade na mente e tranquilidade no ser. O Prāṇāyāma é um tema vasto. Uma vez que meu conhecimento na área tem suas limitações, devo dar boas-vindas às sugestões para incorporação nas edições futuras.

         O Yogachūdāmaṇi Upaniṣad diz que o Prāṇāyāma é um conhecimento exaltado (mahā vidyā). É uma estrada real para a prosperidade, liberdade e bem-aventurança.

         Leia, releia e digira a Parte I desse livro antes de começar a prática.

         Sou muito grato a meu guruji Śri T. Krishnamacharya pelos seus tributos ao livro. Agradeço sinceramente ao Sr. Yehudi Menuhin por sua Introdução e ao Sr. R. R. Diwakar por seu Preâmbulo e suporte. Estou em dívida com meus filhos Geeta e Prashant e aos meus pupilos B. I. Taraporevala, M. T. Tijoriwala, S. N. Motivala, e Dr. B. Carruthers, MD, CM, FRCP, que cederam seus valorosos tempos na preparação da obra. A paciência deles ao editar e re-editar esse livro várias vezes deu a ele sua forma final. Agradeço a Kumari Srimathi Rao por digitar o texto inumeráveis vezes. Agradeço ao Sr. P. R. Shinde por tirar inumeráveis fotos para o livro.

         Expresso minha sincera gratidão ao Sr. Gerald Yorke por suas sugestões construtivas e encorajamento. Se não fosse a sua orientação persistente, esse livro não viria à luz. Estou permanentemente em dívida com ele pelo cuidado que tomou na edição de todo o texto.

         Agradeço a George Allen & Unwin Ltd por publicar e apresentar minha obra para o público mundial.

B.K. S. Iyengar

Parte Um

Seção I

A Teoria do Prāṇāyāma

Capítulo I

O que é Yoga?

  1. Ninguém conhece o Uno absoluto atemporal, primevo, nem quando o mundo veio a existir. Deus e a natureza existiam antes dos seres humanos aparecerem, porém conforme estes desenvolveram-se eles cultivaram a si mesmos e começaram a realizar o seu próprio potencial. Através disso deu-se a civilização. As palavras evoluíram com isso, conceitos de Deus (Puruṣa) e natureza (prakṛti), religião (dharma) e Yoga desenvolveram-se.
  2. Uma vez que é muito difícil definir esses conceitos, todos os seres humanos têm que interpretá-los de acordo com seu entendimento. Quando os homens caem na rede dos contentamentos mundanos, eles encontram-se separados de Deus e da natureza. Eles tornam-se presas das polaridades do prazer e dor, bem e mal, amor e ódio, o permanente e o transiente.
  3. Presos nesses opostos, os seres humanos sentem a necessidade de uma divindade pessoal (Puruṣa), que é suprema, indiferente às aflições, intocável pelas ações e reações, e livre da experiência de alegria e angústia.
  4. Isso leva o ser humano a buscar o mais alto ideal incarnado no Puruṣa perfeito ou Deus. Assim o Ser Eterno, que chamou de Īśvara, o Senhor, o guru de todos os gurus, torna-se o foco de sua atenção e de sua concentração e meditação. Nessa busca fundamental por alcançá-Lo, o homem inventou um código de conduta por meio do qual poderia viver em paz e harmonia com a natureza, seus semelhantes e consigo mesmo.
  5. Ele aprendeu a distinguir entre o bem e o mal, a virtude e o vício, e o que era moral e imoral. Então surgiu um conceito abrangente da ação correta (dharma) ou a ciência do dever. O Dr. S. Radhakrishnan escreveu que ‘é o Dharma o que apoia, sustenta, suporta’ e guia a humanidade para viver uma vida superior independente de raça, casta, classe ou fé.
  6. O ser humano entendeu que deve manter o seu corpo saudável, forte e limpo, a fim de seguir o Dharma e de experienciar a divindade dentro de si mesmo. Os videntes indianos, em suas buscas pela luz destilaram à essência dos Vēdas nos Upaniṣads e Darśanas (espelhos de percepção espiritual). Os Darśanas ou escolas são: sāṃkhya, yoga, nyāya, vaīśeṣika, pūrva mīmāṁsa e uttara mīmāṁsa.
  7. O Sāṃkhya diz que toda a criação ocorre como um produto de vinte e cinco elementos essenciais (tattvas) mas não reconhece o Criador (Īśvara). A Yoga reconhece o Criador. Nyāya enfatiza a lógica e preocupa-se primeiramente com as leis do pensamento, confiando na razão e na analogia. Ela aceita Deus como resultado da inferência. Vaīśeṣika acentua noções tais como espaço, tempo, causa e matéria, e é suplementar a nyāya. Essa, também, endossa a visão de Deus da Nyāya. Mīmāṁsa é dependente dos Vēdas e tem duas escolas – pūrva mīmāṁsa, que lida com o conceito geral da Deidade, porém realça a importância da ação (karma) e dos rituais; e uttara mīmāṁsa, que aceita Deus baseada nos Vēdas, mas coloca uma ênfase especial no conhecimento espiritual (jñāna).
  8. Yoga é a união do si individual (jīvātma) com o Si Universal (Paramātma). A filosofia sāṃkhya é teorética enquanto a Yoga é prática. Sāṃkhya e Yoga combinadas dão uma exposição dinâmica do sistema do pensamento e da vida. O conhecimento sem ação e a ação sem conhecimento não ajudam os seres humanos. Eles devem estar combinados. Por isso o sāṃkhya e a Yoga vão juntas.
  9. De acordo com a Yoga, Yājnavalkya Smṛti, o Criador (Brahmā) como Hiraṇyagarbha (o Feto Dourado) foi o proponente original do sistema da Yoga para a saúde do corpo, controle da mente e conquista da paz. O sistema foi primeiramente ordenado e escrito por Patanjali em seus Yoga Sūtras ou aforismos. Estes são diretivos em vez de discursivos, revelando os meios e o fim. Quando todas as oito disciplinas da Yoga são combinadas e praticadas, o iogue experiencia unidade com o Criador e perde sua identidade do corpo, mente e ego. Isso é a Yoga da integração (saṁyama).
  10. Os Yoga Sūtras consistem de 195 aforismos divididos em quatro capítulos. O primeiro lida com a teoria da Yoga. Destina-se àqueles que já alcançaram uma mente estável e determina o que eles devem fazer para manter a estabilidade. O segundo capítulo sobre a arte da Yoga inicia o neófito em suas práticas. O terceiro ocupa-se com a disciplina interna e os poderes (siddhis) que ele ganha. O quarto e último capítulo lida com a emancipação ou liberdade das algemas desse mundo.
  11. A palavra ‘Yoga’ é derivada da raiz Sânscrita ‘yuj’ que significa atar, unir, ligar, atrelar, direcionar e concentrar a atenção a fim de usá-la para a meditação. Yoga, portanto, é a arte que traz uma mente incoerente e dispersa para um estado reflexivo e coerente. É a comunhão da alma humana com a Divindade.
  12. Na herança da natureza para o homem estão as três características ou qualidades (guṇas), nomeadamente, iluminação (sattva), ação (rajas) e inércia (tamas). Fixo na roda do tempo (kālachakra: kāla = tempo, chakra = roda), como um vaso na roda do oleiro (kulālachakra), o homem é moldado e remoldado de acordo com a ordem predominante dessas três características fundamentais combinadas.
  13. O ser humano é dotado de mente (manas), intelecto (buddhi) e ego (ahaṁkāra), coletivamente conhecido como consciência (chitta), que é a fonte do pensamento, entendimento e ação. Conforme a roda da vida gira, a consciência experiencia as cinco misérias da ignorância (avidyā), egoísmo (asmitā), apego (rāga), aversão (dveṣa) e amor pela vida (abhiniveśa). Estas, por seu turno, deixam chitta em cinco estados diferentes que podem ser embotada (mūḍha), oscilante (kṣipta), parcialmente estável (vikṣipta), atenção unidirecional (ekāgra) e controlada (niruddha). Chitta é como o fogo, abastecida pelos desejos (vāsanas), sem os quais o fogo morre. Chitta no estado puro torna-se uma fonte de iluminação.
  14. Patanjali desenvolveu oito estágios no caminho da realização, os quais trataremos no próximo capítulo. Chitta num estado de embotamento é purificada através de yama, niyama e āsana através dos quais a mente é incitada à atividade. Āsana e Prāṇāyāma trazem à mente oscilante a um estado de alguma estabilidade. As disciplinas do prāṇāyāma e Pratyāhāra tornam a citta atenta e focam a sua energia. É então restringida a esse estado por dhyāna e samādhi. Conforme há um progresso, os estágios superiores da Yoga tornam-se predominantes, porém os estágios precedentes, que estabelecem a fundação, não devem ser ignorados ou negligenciados.
  15. Antes de explorar o desconhecido ‘Ātmā’, o sādhaka tem que aprender sobre seu próprio corpo, mente, intelecto e ego. Quando ele conhece o ‘saber’ em sua totalidade, este funde-se no ‘desconhecido’, como os rios fundem-se com o mar. Nesse momento ele experiencia o maior estado de alegria (ānanda).
  16. Primeiramente a Yoga lida com a saúde, força e a conquista do corpo. Em segundo lugar ela levanta o véu da diferença entre o corpo e a mente. Em último lugar, ela conduz o sādhaka à paz e à pureza imaculada.
  17. A Yoga ensina sistematicamente o ser humano a buscar pela divindade dentro de si mesmo com minúcia e eficiência. Ele desembaraça-se do corpo externo ao si interior. Ele procede do corpo aos nervos, e dos nervos aos sentidos. Dos sentidos ele entra na mente, que controla as emoções. Da mente penetra no intelecto, que guia a razão. Do intelecto, o seu caminho conduz à vontade e dali à consciência (chitta). O último estágio é da consciência ao Si, seu próprio ser (Ātmā).
  18. Assim, a Yoga conduz o sādhaka da ignorância ao conhecimento, da escuridão à luz e da morte à imortalidade.

Capítulo 2

Estágios da Yoga

  1. São oito os estágios da Yoga: yama, niyama, āsana, prāṇāyāma, pratyāhāra, dhāraṇā, dhyāna e samādhi. Eles são todos integrados, porém, por conveniência, eles são tratados como componentes independentes.
  2. Uma árvore tem raiz, tronco, galhos, folhas, casca, seiva, flores e frutos. Cada um desses componentes tem uma identidade separada, porém cada componente não pode por si só tornar-se uma árvore. É o mesmo com a Yoga. Assim como todas as partes combinadas tornam-se uma árvore, também os oito estágios reunidos formam a Yoga. Os princípios universais de Yama são as raízes e as disciplinas individuais de Niyama formam o tronco. Os āsanas são como os vários galhos espalhados em diferentes direções. O prāṇāyāma, que areja o corpo com energia, é como as folhas que arejam a árvore inteira. O pratyāhāra previne a energia dos sentidos de fluir para fora, assim como a casca protege a árvore da decomposição. Dhāraṇā é a seiva da árvore que mantém o corpo e o intelecto firmes. Dhyāna é a flor amadurecendo na fruta do samādhi. Assim como a fruta é o desenvolvimento maior da árvore, a realização do verdadeiro si de alguém (ātma-darśana) é a culminação da prática da Yoga.
  3. Através dos oito estágios da Yoga o sādhaka desenvolve entendimento de seu próprio si. Ele procede passo a passo do conhecido – seu corpo – ao desconhecido. Ele procede do envelope externo do corpo – a pele – à mente. Da mente (manas), ele vai até o intelecto (buddhi), a vontade (saṁkalpa), a consciência discriminativa (viveka-khyāti ou prajñā), consciência (sad-asad-viveka) e finalmente o Si (Ātmā).

Yama

  1. Yama é um nome coletivo para mandamentos morais universais. Esses mandamentos são eternos, independentes de classe, tempo e local. Esses grandes votos (mahāvratas) são não-violência (ahimsā), verdade (satya), não-roubar (asteya), continência (brahmacharya) e não-cobiça (aparigraha). A não-violência é a abstinência do infligir qualquer tipo de injúria, seja física ou mental, em pensamento ou ação. Quando o ódio e a animosidade são abandonados, um amor que abarca a tudo permanece. O iogue é implacavelmente verdadeiro e honesto consigo mesmo, e qualquer coisa que pensa ou fala torna-se verdade. Ele controla seus desejos e reduz suas necessidades, de modo que ele se torna mais rico sem roubar e as coisas vêm até ele sem que ele as peça. A continência (brahmacharya) é prescrita em todas as questões relacionadas ao sexo, tanto na imaginação quanto de fato. Essa disciplina traz em seu rastro a virilidade e a habilidade de ver à divindade em todas as formas sem o despertar sexual. Não se deve desejar as cosas que não são necessárias para manter a vida, pois o desejo é seguido pela avareza que leva à angústia se alguém não consegue ter o que deseja. Quando o desejo multiplica, a conduta correta é destruída.

Niyama

  1. Niyamas são as regras de autopurificação, nomeadamente, pureza (śaucha), contentamento (santoṣa), austeridade (tapas), estudo das escrituras (svādhyāya) e submissão ao Senhor de todas as nossas ações (Īśvara praṇidhāna). O iogue sabe que seu corpo e sentidos são suscetíveis aos desejos, que prejudicam à mente, então ele observa esses princípios. A pureza é de dois tipos, interna e externa, e ambas devem ser cultivadas. Esta significa pureza de comportamento e hábitos, limpeza da pessoa e dos arredores. Aquela é a erradicação dos seis males, a saber, a paixão (kāma), raiva (krodha), ambição (lobha), obsessão (moha), orgulho (mada), malícia e inveja (mātsarya). Essa erradicação é alcançada ao ocupar a mente com pensamentos bons e construtivos, que conduzem à divindade. O contentamento reduz os desejos, torna alguém entusiasmado e fornece estabilidade à mente. A austeridade capacita uma pessoa à disciplina do corpo e a suportar provações e adversidades, direcionando assim a mente rumo ao Si interior. O estudo aqui é a educação de si mesmo pela busca da verdade e da auto-realização. Finalmente, é a submissão de todas as nossas ações ao Senhor e o cumprir da Sua vontade inteiramente. Assim os niyamas são as virtudes que acalmam a mente perturbada, conduzindo à paz tanto no interior quanto nos arredores do sādhaka.

Āsanas

  1. Antes de lidarmos com os āsanas é essencial conhecer sobre puruṣa e prakṛti. Puruṣa (literalmente ‘pessoa’) é o princípio psíquico universal, que apesar de incapaz de realizar qualquer ação por si mesmo, anima e vitaliza à natureza (prakṛti ou o produtor), o princípio físico universal, que, através de suas três qualidade e poderes evolucionários (guṇas) produz o intelecto (buddhi) e a mente (manas).

         Puruṣa e prakṛti agindo juntos incitam o mundo material à atividade. Ambos são ilimitados, sem começo nem fim. Prakṛti consiste de cinco elementos grosseiros (pancha mahābhūtas) a saber, terra (pṛthvi), água (ap), fogo (tejas), ar (vāyu) e éter (ākāśa). As cinco contrapartes desses (tanmātras) são cheiro (gandha), sabor (rasa), forma (rūpa), toque (sparśa) e som (śabda). Esses elementos grosseiros e suas contrapartes combinam-se com as três qualidades e os poderes evolucionários (guṇas) de prakṛti, a saber, iluminação (sattva), atividade (rajas) e dormência (tamas) para formar o intelecto cósmico (mahat). O ego (ahaṁkara), o intelecto (buddhi) e a mente (manas) formam a consciência (chitta), a contraparte individual de mahat. Mahat é a origem primária não evoluída da natureza ou princípio produtivo de onde todo o fenômeno do mundo material desenvolve-se. Existem cinco órgãos da percepção (jñānendriyas) – ouvidos, nariz, língua, olhos e pele – e cinco sentidos da ação (karmeñdriyas) – pernas, braços, fala, órgãos excretores e reprodutivos. Prakṛti, os cinco elementos grosseiros, suas cinco contrapartes sutis, o ego, intelecto e mente, os cinco órgãos da percepção, os cinco órgãos da ação e puruṣa formam os vinte e cinco elementos básicos (tattvas) da filosofia sāṁkhya. Um jarro não pode ser feito sem um oleiro, nem uma casa sem um pedreiro. A criação não ocorre sem puruṣa, a Força Primeva, entrando em contato com os tattvas. Toda a existência gira em torno de puruṣa e prakṛti.

  1. A vida é uma combinação do corpo, os órgãos da percepção e ação, mente, intelecto, ego e alma. A mente age como uma ponte entre o corpo e a alma. A mente é imperceptível e intangível. O si cumpre as suas aspirações e prazeres através da mente atuando como um espelho e o corpo como um instrumento de deleite e realização.
  2. De acordo com o sistema Indiano de medicina (Āyurveda) o corpo é feito de sete elementos constituintes (dhātus) e três humores (doṣas). Os sete elementos são assim chamados porque eles sustentam o corpo. Eles são o quilo (rasa), sangue (rakta), carne (māṁsa), gordura (medas), ossos (asthi), medula (majjā) e sêmen (śukra). Esses mantêm o corpo imune de infecções e doenças.
  3. O quilo é formado pela ação dos sucos gástricos sobre o alimento. O sangue produz carne e remoça o corpo inteiro. A carne protege os ossos e produz gordura. A gordura lubrifica e traz firmeza ao corpo. Os ossos sustentam o corpo e produzem medula. A medula dá força e produz sêmen. O sêmen não apenas procria, mas, de acordo com os textos antigos, em seu estado sutil flui ao longo do corpo sutil na forma de certa energia vital.
  4. Os três humores (doṣas) de vento (vāta), bile (pitta) e fleuma (ślesma), quando igualmente equilibrados fornecem saúde perfeita. O desequilíbrio deles traz doenças. A energia sutil ou vital chamada vento incita à respiração, movimento, ação, excreção e procriação. Ela coordenada as funções das diferentes partes do corpo e das faculdades humanas. A bile cria sede e fome. Ela digere o alimento e o converte em sangue, mantendo a temperatura do corpo constante. A fleuma lubrifica as juntas e músculos e ajuda a curar ferimentos. Mala é a matéria residual, sólida, líquida ou gasosa. Ao menos que ela seja excretada, as doenças ocorrem, perturbando o equilíbrio dos três humores.

Os Kośas

  1. De acordo com a filosofia Vedanta existem três estruturas ou tipos de corpo (śarīra) encapsulando a alma. Eles consistem de cinco camadas (kośas) inter-penetrantes e interdependentes.

         Os três śarīras são: (a) sthūla, a estrutura grosseira ou a camada anatômica, (b) sūkṣma, a estrutura sutil, consistindo das camadas fisiológica a psicológica e a intelectual, e (c) kāraṇa, chamada de estrutura casual – a camada espiritual.

         A sthūla śarīra é a camada da nutrição (annamaya kośa).

         As camadas fisiológica (prāṇamaya), psicológica (manomaya) e a intelectual (vijñānamaya) formam o corpo sutil (sūkṣma śarīra).

         A prāṇamaya kośa inclui os sistemas respiratórios, circulatórios, digestório, nervoso, endócrino, excretório e genital. A manomaya kośa afeta às funções da consciência, sentimento e motivação não derivada da experiência subjetiva. Vijñānamaya kośa afeta o processo intelectual de raciocínio e julgamento provenientes da experiência subjetiva.

         A kāraṇa śarīra é a camada da alegria (ānandamaya kośa). A experiência de estar-se consciente desta é sentida pelo sādhaka quando ele acorda depois de um sono profundamente revigorante e quando ele está totalmente absorvido no objeto da sua meditação.

         A pele envolve todas as camadas e corpos. Ela deve ser firme e sensível ao mais leve movimento. Todas as camadas entremesclam-se em seus diferentes níveis da pele ao Si.

Objetivos na Vida (Puruṣārthas)

  1. Os seres humanos têm quatro metas em suas vidas; dharma, artha, kāma e mokṣa. Dharma é dever. Sem isso e disciplina ética, a realização espiritual é impossível.

         Artha é a aquisição de riqueza para a independência e para as atividades mais elevadas na vida. Ela não pode fornecer felicidade duradoura; entretanto, um corpo pobremente alimentado é um chão fértil para preocupações e doenças.

Kāma significa os prazeres da vida, que dependem amplamente de um corpo saudável. Como o Kaṭhopaniṣad diz, o ‘si’ não pode ser experienciado por um fraco.

Mokṣa é liberação. O ser iluminado entende que o poder, o prazer, a riqueza e o conhecimento passam e não trazem liberdade. Ele tenta elevar-se acima de suas qualidades sátvicas, rajásticas e tamásicas e então escapar do domínio dos guṇās.

  1. O corpo é a moradia de Brahman. Ele desempenha um papel vital na consecução das metas quádruplas da vida. Os sábios entendiam que apesar do corpo desgastar-se ele serve como um instrumento para alcançar à realização e, como tal, tem de ser mantido em boas condições.
  2. Os āsanas purificam o corpo e a mente e têm efeitos preventivos e curativos. Eles são inumeráveis, solícitos às várias necessidades dos sistemas muscular, digestório, circulatório, glandular, nervoso e dos outros sistemas do corpo.

         Eles causam mudanças em todos os níveis, do físico ao espiritual. A saúde é o equilíbrio delicado do corpo, mente e espírito. Ao praticar āsanas as deficiências físicas e as distrações mentais do sādhaka desaparecem e os portais do espírito são abertos.

         Āsanas trazem saúde, beleza, força, firmeza, leveza, claridade de fala e expressão, tranquilidade dos nervos e uma disposição feliz. A sua prática deve ser comparada com o crescimento de uma mangueira. Se a árvore cresce segura e saudável a sua essência será encontrada em seus frutos. Da mesma forma, a essência destilada da prática dos āsanas é o despertar espiritual do sādhaka. Ele está livre de todas as dualidades.

Āsanas

  1. Há uma concepção popular errônea que ambos os āsanas e o prāṇāyāma devem ser praticados juntos no momento que a Yoga-sādhanā começa. É da experiência do autor que se um iniciante presta atenção à perfeição das posturas, ele não pode concentrar-se na respiração. Ele perde equilíbrio e a profundidade dos āsanas. Alcançe firmeza (sthiratā) e calmaria (achalatā) nos āsanas antes de introduzir as técnicas de respiração rítmicas. A amplitude dos movimentos corporais varia de postura a postura. Quanto menor a amplitude do movimento, menor será o espaço nos pulmões e o padrão respiratório será menor. Quando maior a amplitude do movimento corporal nos āsanas, maior será a capacidade pulmonar e mais profundo o padrão respiratório. Quando o prāṇāyāma e os āsanas são feitos conjuntamente, perceba que a postura perfeita não é perturbada. Até que as posturas estejam perfeitas, não tente o prāṇāyāma. Uma pessoa logo percebe que quando os āsanas são bem executados, a respiração prāṇāyāmica automaticamente ocorre.

Prāṇāyāma

  1. Prāṇāyāma é uma prolongação consciente da inalação, retenção e exalação. Inalação é o ato de receber a energia primeva na forma de respiração e retenção é quando a respiração é suspensa a fim de saborear essa energia. Na exalação todos os pensamentos e emoções são esvaziadas com a respiração: então, enquanto os pulmões estão vazios, a pessoa submete a energia individual, ‘Eu’, à energia primeva, o Ātmā.

         A prática de Prāṇāyāma desenvolve uma mente constante, uma forte força de vontade e um julgamento sensato.

Pratyāhāra

  1. Essa é uma disciplina para trazer a mente e os sentidos sob controle. A mente exerce um papel duplo. Por um lado, ela busca gratificar os sentidos, e por outro, unir-se com o Si. Pratyāhāra aquieta os sentidos e os atrai para o interior, conduzindo o aspirante ao Divino.

Dhāraṇa, Dhyāna e Samādhi

  1. Dhāraṇa é a concentração num ponto único, ou atenção total no que se está fazendo, a mente mantida imóvel e imperturbável. Ela estimula a consciência interior para integrar a inteligência sempre fluida e libera todas as tensões. Quando continua por um longo tempo ela se torna meditação (dhyāna), um estado indescritível que tem que ser experienciado para ser entendido.
  2. Quando o estado de dhyāna é mantido por um longo tempo sem interrupção ela funde-se em samādhi, onde o sādhaka perde sua identidade individual no objeto da meditação.
  3. Em samādhi o sādhaka perde a consciência do seu corpo, respiração, mente, inteligência e ego. Ele vive no espaço infinito. Nesse estado, sua sabedoria e pureza, combinadas com simplicidade e humildade, resplandecem. Não apenas está iluminado, mas também ilumina todos aqueles que vêm a ele em busca da verdade.
  4. Yama, Niyama, Āsana e Prāṇāyāma são partes essenciais da Yoga da ação (karma). Elas mantêm o corpo e a mente saudáveis para realizarmos todos os atos que agrada a Deus. Prāṇāyāma, Pratyāhāra e Dhāraṇa são partes da Yoga do conhecimento (jñāna). Dhyāna e Samādhi ajudam o sādhaka a combinar seu corpo, mente e inteligência no oceano do Si. Isso é Yoga da devoção ou amor (bhakti).
  5. Esses três córregos de jñāna, karma e bhakti fluem até o rio da Yoga e perdem suas identidades. Assim apenas o caminho da Yoga leva todos os tipos de sādhakas, do embotado (mūḍha) ao controlado (niruddha), rumo à liberdade e à beatitude.

Capítulo 3

Prāṇa e Prāṇāyāma

  1. É difícil explicar Prāṇa, assim como o é explicar Deus. Prāṇa é a energia que permeia o universo em todos os níveis. É energia física, mental, intelectual, sexual, espiritual e cósmica. Todas as energias vibrantes são prāṇa. Todas as energias físicas tais como o calor, luz, gravidade, magnetismo e eletricidade também são prāṇa. É a energia oculta ou potencial em todos os seres, liberada em extensão máxima em tempos de perigo. É o primeiro movente de toda atividade. É energia que cria, protege e destrói. Vigor, poder, vitalidade, vida e espírito são todos formas de prāṇas.
  2. De acordo com os Upaniṣads, prāṇa é o princípio da vida e da consciência. É equiparada com o Si real (Ātmā). Prāṇa é a respiração da vida de todos os seres do universo. Eles nascem e vivem através do prāṇa e quando morrem os seus alentos individuais dissolvem-se no alento cósmico. Prāṇa é o eixo da Roda da Vida. Tudo está estabilizado nele. Ele permeia o sol que dá a vida, as nuvens, os ventos (vāyus), a terra (pṛthvi), e todas as formas de matéria. É o ser (sat) e não-ser (asat). É a fonte de todo conhecimento. É a Personalidade Cósmica (o puruṣa) da filosofia Saṁkhya. Portanto o Yogi toma refúgio no prāṇa.
  3. Prāṇa é usualmente traduzido como respiração, apesar de essa ser apenas uma de suas várias manifestações no corpo humano. Se a respiração para, a vida também para. Os antigos sábios Indianos sabiam que todas as funções do corpo são executadas pelos cinco tipos de energias vitais (prāṇa-vāyus). Esses são conhecidos como prāṇa (aqui o termo genérico é usado para designar o particular), apāna, samāna, udāna e vyāna. Eles são aspectos específicos de uma força vital cósmica (vento vital), o princípio primevo da existência em todos os seres. Deus é único, mas os sábios O designaram com vários nomes, e assim também o é com o prāṇa.
  4. O prāṇa se move na região torácica e controla a respiração. Ele absorve a energia atmosférica vital. Apāna se move no baixo abdômen e controla a eliminação da urina, sêmen e fezes. Samāna atiça os fogos gástricos, ajudando à digestão e mantendo o funcionamento harmonioso dos órgãos abdominais. Samāna integra todo o corpo humano grosseiro. Udāna, agindo através da garganta (a faringe e a laringe), controla as cordas vocais e o influxo de ar e alimento. Vyāna permeia todo o corpo, distribuindo a energia derivada do alimento e da respiração através das artérias, veias e nervos.

5 No prāṇāyāma o prāṇa-vāyu é ativado pela inspiração e o apāna-vāyu pela expiração. Udāna eleva a energia da coluna inferior para o cérebro. Vyāna é essencial para as funções do prāṇa e apāna porque é o meio de transferência da energia de um para o outro.

  1. Existem também cinco divisões subsidiárias conhecidas como upaprāṇas ou upavāyus, nomeadamente, nāga, kūrma, kṛkara, devadatta e dhanaṁjaya. Nāga alivia a pressão do abdômen através do arroto. Kūrma controla o movimento das pálpebras, para prevenir que matéria estranha entre nos olhos; também controla o tamanho da íris, regulando assim a intensidade da luz para a visão. Kṛkara previne que as substâncias passem através das cavidades nasais até a garganta, ao provocar o espirro ou tosse. Devadatta causa bocejos e induz o sono. Dhanaṁjaya produz fleuma, alimenta e permanece no corpo mesmo depois da morte e, às vezes, infla um cadáver.
  2. De acordo com o Āyurveda, vāta, que é um dos três humores (doṣa), é outro nome para prāṇa. O Charaka Saṁhitā explica as funções de vāta da mesma maneira que os textos da Yoga explicam prāṇa. A única expressão perceptível do funcionamento de prāṇa é sentido nos movimentos dos pulmões ativados pela energia interna, causando a respiração.

Chitta e Prāṇa

  1. Chitta e prāṇa estão em constante associação. Onde há chitta o prāṇa está concentrado, e onde há prāṇa a chitta está concentrada. A chitta é como um veículo propelido por duas forças poderosas, prāṇa e vāsanā (desejos). Ela se move na direção da força mais poderosa. Como uma bola ricocheteia quando bate no chão, assim também o sādhaka é arremessado de acordo como o movimento de prāṇa e chitta. Se a respiração (prāṇa) prevalece, então os desejos são controlados, os sentidos são mantidos em guarda e a mente é aquietada. Se a força do desejo prevalece, a respiração torna-se desigual e a mente agita-se.
  2. No terceiro capítulo do Haṭha Yoga Pradīpikā, Swātmārāma declara que na medida em que a respiração e o prāṇa estejam tranquilos, chitta mantém-se constante e não pode haver liberação de sêmen (śukra). No momento certo o vigor aumentado do sādhaka é sublimado para propósitos mais altos e nobres. Ele então alcança o estado de ūrdhva-retas (ūrdhva = ascendente; retas = sêmen), aquele que sublimou sua energia sexual e sua chitta para combinar-se na pura consciência.

Prāṇāyāma

  1. ‘Prāṇa’ significa alento, respiração, vida, vitalidade, energia ou força. Quando utilizado no plural denota certas respirações vitais ou correntes de energia (prāṇa-vāyus). ‘Āyāma’ significa estender, extensão, expansão, comprimento, largura, regulação, prolongação, contenção ou controle. ‘Prāṇāyāma’ significa, assim, a prolongação da respiração e sua contenção. O Śiva Saṁhita o chama vāyu sādhana (vāyu = respiração; sādhana = prática, busca). Patanjali em seus Yoga Sūtras (Cap. 2, Sūtras 49-51) descreve o prāṇāyāma como a inspiração e a expiração controladas numa postura firmemente estabelecida.
  2. Prāṇāyāma é uma arte e tem técnicas para fazer os órgãos respiratórios moverem-se e expandirem-se intencional, rítmica e intensivamente. Ele consiste de um fluxo longo, sustentável e sutil de inalação (pūraka), exalação (rechaka) e retenção da respiração (kumbhaka). Pūraka estimula o sistema; rechaka expulsa o ar viciado e as toxinas; kumbhaka distribui a energia ao longo do corpo. Os movimentos incluem expansão horizontal (dairghya), ascensão vertical (āroha) e extensão circunferencial (viśālata) dos pulmões e da caixa torácica. Os processos e técnicas do prāṇāyāma são explicados nos capítulos subsequentes.

         Essa respiração disciplinada ajuda a mente a concentrar-se e permite que o sādhaka alcance uma saúde robusta e longevidade.

  1. Prāṇāyāma não é apenas a respiração habitual automática para manter o corpo e a alma juntos. Pela inspiração abundante de oxigênio através de suas técnicas disciplinadas, mudanças químicas sutis ocorrem no corpo do sādhaka. A prática de āsanas remove as obstruções que impedem o fluxo do prāṇa e a prática de prāṇāyāma regula aquele fluxo de prāṇa ao longo do corpo. Ele também regula todos os pensamentos do sādhaka, desejos e ações, dando estabilidade e a tremenda força de vontade necessária para se tornar mestre de si mesmo.

Capítulo 4

Prāṇāyāma e o Sistema Respiratório

‘Enquanto houver alento no corpo, há vida. Quando o alento parte, a vida também parte. Portanto, regule o alento.’

(Haṭha Yoga Pradīpikā – Cap. 2: Ś.3.)

  1. Durante a inalação normal, uma pessoa mediana toma cerca de 500 centímetros cúbicos de ar; durante a inalação profunda a inalação de ar é cerca de seis vezes maior, correspondendo a quase 3000 centímetros cúbicos. As capacidades dos indivíduos variam de acordo com suas constituições. A prática do prāṇāyāma aumenta a capacidade pulmonar do sādhaka e permite que os pulmões alcancem uma ótima ventilação.
  2. O segundo capítulo do Haṭha Yoga Pradīpikā trata do prāṇāyāma. Os primeiros três versos declaram: ‘Estando firmemente estabelecido na prática de āsanas, com seus sentidos sob controle, o iogue deve praticar o prāṇāyāma tal como ensinado pelo seu Guru, observando uma dieta moderada e nutritiva. Quando a respiração é irregular, a mente oscila; quando a respiração é estável, também o é a mente. Para alcançar estabilidade, o iogue deve refrear sua respiração. Enquanto houver alento no corpo, há vida. Quando o alento parte, a vida também parte. Portanto, regule o alento.’
  3. A prática de prāṇāyāma ajuda a limpar os nāḍīs, que são órgãos tubulares do corpo sutil através dos quais a energia flui. Há vários milhares de nāḍīs no corpo e muitos deles iniciam-se nas áreas do coração e do umbigo. O prāṇāyāma mantém os nāḍīs numa condição saudável e previne seu declínio. Isso, por seu turno, ocasiona mudanças na atitude mental do sādhaka. A razão para isso é que no prāṇāyāma a respiração começa na base do diafragma em ambos os lados do corpo perto da cintura pélvica. Assim sendo, o diafragma torácico e os músculos respiratórios acessórios do pescoço são relaxados. Isso por sua vez ajuda a relaxar os músculos faciais. Quando os músculos faciais relaxam, eles perdem o controle sobre os órgãos da percepção, nomeadamente, os olhos, ouvidos, nariz, língua e pele, diminuindo assim a tensão no cérebro. Quando a tensão ali é diminuída, o sādhaka alcança concentração, equanimidade e serenidade.

Por que tantos Prāṇāyāmas?

  1. Numerosos āsanas desenvolveram-se para exercitar várias partes da anatomia – músculos, nervos, órgãos e glândulas – para que todo o organismo trabalhe de maneira saudável e harmoniosa. Os ambientes humanos, suas constituições, temperamentos e estados de saúde e mente variam, e diferentes āsanas ajudam em diferentes situações para aliviar as dores humanas e desenvolver harmonia. Muitos tipos de Prāṇāyāmas foram inventados e desenvolvidos para cumprir os requisitos físicos, mentais, intelectuais e espirituais do sādhaka sob condições oscilantes.

Quatro Estágios do Prāṇāyāma

  1. O Śiva Saṁhitā discute os quatro estágios (avasthā) do prāṇāyāma em seu terceiro capítulo. Eles são: (a) o começo (ārambha), (b) esforço intencional (ghaṭa), (c) conhecimento íntimo (parichaya) e (d) consumação (niṣpatti).
  2. No estágio ārambha, o interesse do sādhaka no prāṇāyāma desperta. No início ele é impetuoso e, por causa de seu esforço e a velocidade que quer os resultados, seu corpo treme e ele transpira. Quando pela perseverança ele continua a sua prática, os tremores e a transpiração cessam e o sādhaka alcança o segundo estágio de ghaṭāvasthā. Ghaṭa quer dizer um vaso d’água. O corpo é comparado com um vaso. Como um vaso de barro não cozido, o corpo desgasta. Cozinhe-o no fogo do prāṇāyāma para ganhar estabilidade. Nesse estágio os cinco kośas e os três śārīras são integrados. Depois dessa integração o sādhaka alcança o parichayāvasthā, onde ele obtém conhecimento íntimo das práticas do prāṇāyāma e de si próprio. Através desse conhecimento ele controla as suas qualidades (guṇas) e percebe as causas de suas ações (karma). A partir do terceiro estágio, o sādhaka prossegue rumo a niṣpatti avasthā, o estágio final de consumação. Os seus esforços amadureceram, as sementes do seu karma queimaram-se. Ele cruzou as barreiras dos guṇas e tornou-se um guṇātīta. Ele tornou-se um jīvanmukta – uma pessoa que é emancipada (mukta) em vida (jīvana) pelo conhecimento do Espírito Supremo. Ele experienciou o estado de êxtase (ānanda).

Sistema Respiratório

  1. Para capacitar o leitor a ter uma figura clara de como o prāṇāyāma beneficia o corpo, é essencial ter alguma ideia do sistema respiratório. Discutiremos isso abaixo.
  2. É conhecido que as necessidades energéticas básicas do corpo humano são atendidas predominantemente pelo oxigênio mais a glicose. Aquele ajuda no processo de eliminação pela oxidação da matéria residual, enquanto a glicose, juntamente com o oxigênio, nutre as células do corpo no fluxo da respiração.
  3. O propósito do prāṇāyāma é o de fazer o sistema respiratório funcionar em seu melhor. Isso automaticamente melhora o sistema circulatório, sem o qual os processos de digestão e eliminação sofreriam. As toxinas podem acumular-se, as doenças espalharem-se através do corpo e uma saúde precária tornar-se habitual.
  4. O sistema respiratório é o portal para a purificação do corpo, mente e intelecto. A chave para isso é o prāṇāyāma.
  5. A respiração é essencial para a sustentação de todas as formas da vida animal, de uma ameba unicelular ao ser humano. É possível viver sem alimento ou água por alguns dias, mas quando a respiração cessa também cessa a vida. No Chāndogyopaniṣad diz-se: ‘Assim como os aros estão presos ao eixo da roda, da mesma maneira com o sopro dessa vida, tudo está preso. A vida move-se com a respiração da vida, que dá à vida a uma criatura viva. A vida a respira no pai de alguém, […] na mãe, […] no irmão, […] irmã, professor, […] ao Brahman […] Certamente, aquele que vê, conhece e entende isso torna-se o falante excelente.’ (S. Radhakrishnan: Os Upaniṣads Principais, VII, 15, 1-4.)
  6. O Kuaṣitaki Upaniṣad diz ‘Pode-se viver desprovido de discurso, pois vemos os estúpidos; desprovido de visão, pois vemos os cegos; da audição, pois vemos os surdos; sem mente, pois vemos os infantis; pode-se viver sem braços e pernas, pois assim vemos. Porém é apenas o espírito da respiração, o si inteligente que agarra esse corpo e o faz levantar. Isso é o tudo que obtém-se no espírito da respiração. Aquilo que é o espírito da respiração, também o é o si inteligente. Aquilo que é o si inteligente, também o é o espírito da respiração, pois juntos eles vivem nesse corpo e juntos saem dele.’ (S. Radhakrishnan: Os Upaniṣads Principais, III, 3.)
  7. A respiração começa com a vida independente fora da mãe e termina quando a vida cessa. Quando a criança ainda está no útero o seu oxigênio é suprido através do sangue da mãe, e os seus pulmões não precisam funcionar. Quando há o nascimento, a primeira respiração da vida inicia ao comando do cérebro.
  8. Durante a maior parte da vida, a profundidade e ritmo da respiração são autorregulados através do sistema nervoso, para suprir de uma maneira regulada e controlada o oxigênio fresco que é constantemente necessário pelas células e para dispensar o dióxido de carbono nelas acumulado.
  9. A maioria de nós assume que porque a respiração é usualmente automática, ela está para além do nosso controle ativo. Isso não é verdade. No prāṇāyāma, pelo treinamento árduo dos pulmões e do sistema nervoso, a respiração pode tornar-se mais eficiente pela alteração de seu ritmo, profundidade e qualidade. A capacidade pulmonar dos grandes atletas, escaladores e iogues é muito maior que das pessoas ordinárias, permitindo-os a realização de feitos extraordinários. Uma melhor respiração significa uma vida melhor e mais saudável.
  10. O ato de respirar é tão organizado que os pulmões são normalmente inflados dezesseis a dezoito vezes num minuto. O ar fresco contendo o vivificante oxigênio é sugado até eles e os gases contendo dióxido de carbono dos tecidos do corpo são enviados em contrapartida pelas passagens respiratórias. A inflação rítmica dos suaves alvéolos dos foles dos pulmões semelhantes aos favos de mel é mantida pelos movimentos da caixa torácica e do diafragma. Este, por sua vez, é dirigido ou alimentado pelos impulsos enviados pelo centro respiratório no cérebro aos músculos relevantes através dos nervos. Deste modo o cérebro é o instigador através do qual a respiração e as três funções do pensamento, vontade e consciência são reguladas.
  11. A ciclo respiratório consistem em três partes: inalação, exalação e retenção.

         A inalação é uma expansão ativa do tórax pela qual os pulmões são preenchidos de ar fresco. A exalação é um recuo normal e passivo da parede elástica do tórax por meio do qual o ar antigo é exalado e os pulmões são esvaziados. A retenção é uma pausa no final de cada inalação e exalação. Essas três formam um ciclo de respiração. A respiração afeta o ritmo cardíaco. Durante a retenção prolongada da respiração, uma diminuição da frequência cardíaca é observada, o que assegura um descanso maior ao músculo cardíaco.

  1. A respiração pode ser classificada em quatro tipos:

(a) Respiração alta ou clavicular, onde os músculos relevantes no pescoço ativam principalmente a parte superior dos pulmões.

(b) Intercostal ou respiração mediana, onde apenas as partes centrais dos pulmões são ativadas.

(c) Respiração baixa ou diafragmática, onde as porções inferiores dos pulmões são principalmente ativadas, enquanto as partes superiores e centrais permanecem menos ativas.

(d) Na respiração total ou prāṇāyāmica, ambos os pulmões são utilizados em suas capacidades máximas.

         Na inspiração prāṇāyāmica, a contração diafragmática é retardada até depois da contração consciente dos músculos da parede abdominal anterior e lateral. Esses músculos são conectados diagonalmente com a caixa torácica acima e a pélvis abaixo. Essa ação abaixa e estabiliza o diafragma em forma de cúpula que se origina na margem inferior da costela; ela empurra para cima os órgãos abdominais e aumenta a capacidade do tórax. Isso prepara o diafragma para uma contração subsequente de extensão e eficiência máximas ao reduzir a atração centrípeta. Isso minimiza a interferência com a próxima ação da sequência, a elevação, ascensão e expansão da caixa torácica inferior. Isso é realizado pela atração vertical do diafragma seguido da ativação sequencial dos músculos intercostais para permitir o pleno movimento, semelhante ao do compasso, das costelas flutuantes, movimento similar ao da alça de um balde das costelas individuais, elevação e expansão circunferencial plenas da caixa torácica como um todo a partir de sua origem na coluna. Finalmente os mais altos músculos intercostais conectando as costelas superiores, o esterno e as clavículas ao pescoço e crânio são contraídos, permitindo que a parte superior dos pulmões seja preenchida. Então a já expandida cavidade torácica expande-se ainda mais à frente, acima e lateralmente.

  1. Essa série de movimentos do abdômen, da parede do tórax e do pescoço, na qual cada passo da sequência prepara o terreno para o próximo, resulta do preenchimento máximo dos pulmões, a fim de criar espaço para que o ar admitido alcance todos os cantos de cada pulmão.
  2. O sādhaka deve primeiro direcionar sua consciência corporal especificamente e inteligentemente na parede abdominal anterior e inferior logo acima da pélvis. Para realizar isso, ele tem que mover a parede abdominal inferior em direção à coluna e contra o diafragma, como se massageando da pele aos músculos e dos músculos aos órgãos internos. Esse sentido de contração ativa consciente está associado com os movimentos visíveis da parede abdominal da superfície da pele às suas camadas mais profundas e pode ser direcionado à vontade. Depois disso, direcione a sua atenção na expansão das regiões laterais e posteriores do tórax. Eleve a parede do tórax inferior simultaneamente expandindo a parede superior do peito com sua pele e músculos. O diafragma gradual e suavemente retoma a sua forma de domo conforme começa a relaxar ao longo do final da inspiração. Durante a exalação o domo move-se novamente para cima. Ele é ativo no início da expiração para encorajar um início suave e lento ao recuo elástico dos pulmões.
  3. O oxigênio fresco que é sugado difunde-se entre os minúsculos sacos (os sacos alveolares) que formam a unidade básica dos pulmões. As membranas ao redor desses alvéolos conduzem esse oxigênio para a corrente sanguínea e então o dióxido de carbono do sangue até o ar dos pulmões para o seu descarte através da exalação. O sangue com oxigênio fresco é carregado pelas artérias do lado esquerdo do coração para as células de todo canto e recanto do corpo, reabastecendo assim os seus estoques de oxigênio que possibilita à vida. Os produtos restantes (principalmente dióxido de carbono) jogados fora por cada alvéolo são então levados pela corrente de sangue venoso do lado direito do coração até os pulmões para descarte. O coração bombeia esse sangue através do corpo numa taxa média de setenta vezes por minutos. Por isso que para respirarmos adequadamente precisamos da suave coordenação de todas as partes relevantes do corpo, a casa de controle ou poder (o sistema nervoso), dos foles (os pulmões), a bomba (o coração) e o encanamento (as artérias e veias), além do motor motriz das costelas e do diafragma.

O Tórax

  1. O tórax é uma caixa formada pelas costelas na qual os pulmões e o coração estão localizados. Sua forma é de um cone truncado, estreito no topo e ampliando-se abaixo. O topo é fechado pelos músculos do pescoço anexados às clavículas. O tubo de vento (traqueia) passa através dele em seu caminho da garganta até os pulmões. Esse cone truncado é levemente achatado da frente para trás. Sua superfície óssea inclui a parte torácica da coluna vertebral na linha média das costas e o peitoral na frente. Ele tem doze pares de costelas achatadas que se curvam sobre o intervalo entre a coluna atrás e o esterno na frente para formar pontes semicirculares de cada lado. Os espaços entre as colunas são preenchidos pelos músculos intercostais internos e externos. Existe, ademais, músculos conectando a décima-segunda costela à pélvis e a primeira à coluna cervical. Existem onze pares de músculos ao todo. A expansão e contração do tórax são controladas por esses músculos e o diafragma. A área torácica dorsal é como uma metade de uma folha de bananeira, a coluna sendo o talo, as costelas igualmente espaçadas sendo as veias e o cóccix o final mais fino da folha (Gravura 1 & 2).

Os Pulmões e a Árvore Brônquica

  1. Os pulmões direito e esquerdo diferem de forma e capacidade. Na maioria de nós a maior parte do coração, que é quase do tamanho de um punho, está do lado esquerdo. Consequentemente, este pulmão é menor. Ele é dividido em dois lobos, um sobre o outro, enquanto que o pulmão direito tem três lobos. (Fig. 5)
  2. Os pulmões são cobertos por uma membrana chamada de pleura e devido a sua forma expandem um pouco como a câmara de uma bola de futebol americano.
  3. O domo da parte direita do diafragma é mais alto do que da parte esquerda. Abaixo dele está o fígado, o maior órgão abdominal sólido, menos compressível e depressível do que o estômago e o baço que estão abaixo da parte esquerda do diafragma. Na inalação total, quando tenta encher os pulmões, a maioria das pessoas conseguem sentir uma maior resistência abaixo do lado direito do diafragma, onde está o fígado, quando a atenção delas é levada para a área. A fim de equalizar o enchimento de ambos os pulmões a partir da base e dos lados, um esforço especial e a atenção deve ser dirigida aos movimentos diafragmáticos e da parede do tórax do lado direito.
  4. O sistema brônquico, conectando a traqueia e os alvéolos, está na caixa torácica. Ele é similar a uma árvore invertida com suas raízes no esôfago, enquanto os galhos espalham-se abaixo em direção ao diafragma e as paredes laterais da cavidade torácica.
  5. A traqueia na garganta é um tubo de quase dez centímetro de comprimento e menos de 2.5 centímetros de largura, que se ramifica em dois brônquios primários, um para cada pulmão. Ambos ramificam-se em numerosas passagens de ar diminutas chamadas bronquíolos. Ao final de cada um desses bronquíolos estão os alvéolos, os pequenos sacos de ar aglomerados como cachos de uvas, em torno de 300 milhões revestindo cada pulmão, sua superfície cobrindo cerca de 67 a 83 metros quadrados – 40 a 50 vezes a superfície da pele humana.
  6. Esses alvéolos são pequenas câmaras com múltiplas bolsas com um revestimento incompleto de células. O intervalo entre as células (o espaço intersticial) é preenchido com fluido. Em torno da parede externa do alvéolo encontram-se minúsculos vasos sanguíneos (os capilares). A troca de gases ocorre entre o alvéolo e as células vermelhas de sangue e o plasma via fluido no alvéolo ou no espaço intersticial.
  7. A ar no alvéolo contém mais oxigênio e menos dióxido de carbono do que o sangue que passa através dos capilares nos pulmões. Durante a troca de oxigênio e dióxido de carbono, as moléculas de oxigênio difundem-se para dentro e as de dióxido de carbono para fora do sangue.

A Coluna

  1. A coluna deve ser mantida firme como o tronco de uma árvore. O cordão espinhal está protegido por trinta e três vértebras. As sete vértebras no pescoço são chamadas cervicais. Abaixo delas estão as doze dorsais ou vértebras torácicas, que são conectadas com as costelas, formando uma caixa protetora dos pulmões e do coração. As dez costelas superiores de ambos os lados estão unidas à frente no lado interior do esterno, porém as duas costelas flutuantes abaixo não estão. As costelas flutuantes são assim chamadas porque elas não estão ancoradas no esterno. Abaixo das dorsais estão as vértebras lombares e ainda mais abaixo o sacro e o cóccix, ambos formados por vértebras fundidas. A mais baixa vértebra coccígea enrola-se para a frente.

O Esterno

  1. O esterno tem três partes. Na respiração, o topo e a parte mais baixa devem ser mantidos perpendiculares ao chão. Utilize-o para atuar como um suporte para elevar as costelas laterais como a alça de um balde e criando, portanto, mais espaço através da expansão dos pulmões para os lados e para a frente.
  2. Os pulmões abrem-se lateralmente e espaço para a expansão é criado com a ajuda dos músculos intercostais. Mantenha os músculos intercostais interiores das costas firmes. Se a pele das costas não coordena com os músculos intercostais a respiração se torna superficial, reduzindo o influxo de oxigênio, causando fraqueza física e falta de resistência corporal.

A Pele

  1. Como um percussionista aperta a pele de seu tambor para alcançar a ressonância e o violinista ajusta suas cordas para obter clareza do som, o iogue ajusta e alonga a pele de seu tronco para criar uma resposta máxima dos músculos intercostais para ajudar o processo respiratório quando pratica o prāṇāyāma.
  2. As costelas flutuantes, não estando fixas à frente no esterno expandem-se como as duas pernas de um compasso para criar mais espaço no tórax. Lateralmente, as espessas costelas medianas podem expandir-se lateralmente, desse modo ampliando e elevando à caixa torácica. Isso não afeta as costelas superiores. Preencher os limites superiores dos pulmões requer treino e atenção. Aprenda a usar os músculos intercostais interiores mais elevados e a parte superior do esterno. Expanda a caixa torácica da estrutura interna para a externa, pois isso irá alongar os músculos intercostais.

O Diafragma

  1. O diafragma é uma grande partição muscular que separa à cavidade torácica da abdominal. Ancorado em toda a circunferência da caixa torácica inferior, ele está anexado nas costas às vértebras lombares, nas laterais das seis costelas inferiores e a frente à cartilagem na forma de uma adaga do esterno. Acima dele estão o coração e os pulmões e abaixo dele o fígado na direita e o estômago e o baço na esquerda.

Músculos Acessórios

  1. Os músculos acessórios da garganta, tronco, coluna e abdômen são os acessórios utilizados na respiração, que é ordinariamente controlada pelo diafragma. Para além dos músculos já descritos, os do pescoço, especialmente o esternocleidomastoideo e o escaleno, também atuam. Eles contribuem muito pouco na respiração silenciosa, porém se tornam ativos quando a taxa ou profundidade é aumentada e rígidos quando a respiração é retida. A utilização dos músculos respiratórios acessórios varia de um indivíduo para outro. Também varia de tempo em tempo na mesma pessoa, dependendo de quão poderosa ela se esforça em sua respiração e quão eficiente e tensamente.
  1. Todos nós respiramos, mas quantos de nós o faz corretamente, com atenção? Má postura, um tórax com má formação ou afundado, obesidade, desordens emocionais, vários problemas pulmonares, tabagismo e a utilização irregular dos músculos respiratórios, levam à respiração imprópria, abaixo da capacidade. Estamos conscientes do desconforto e deficiência que então surgem. Muitas mudanças sutis ocorrem em nosso corpo como um resultado da respiração pobre e da má postura, levando à respiração pesada, função pulmonar inadequada e agravamento de doença cardíaca. O prāṇāyāma pode também ajudar a prevenir essas desordens e ajudar a examiná-las ou curá-las, para que possamos viver plenamente e bem.
  2. Assim como a luz irradia a partir do disco do sol, da mesma maneira o ar espalha-se através dos pulmões. Mova o tórax para cima e para fora. Se a pele sobre o centro do esterno pode mover-se verticalmente para cima e para baixo e ela pode expandir-se para um lado e para o outro de maneira circunferencial, isso mostra que os pulmões estão sendo preenchidos até as suas capacidades máximas.

Capítulo 5

Nāḍīs e Chakras

  1. A palavra nāḍī é derivada de nād significando uma haste oca, som, vibração e ressonância. Nāḍīs são tubos, dutos ou canais que carregam ar, água, sangue, nutrientes e outras substâncias ao longo do corpo. Eles são nossas artérias, veias, capilares, bronquíolos e assim por diante. Em nossos assim chamados corpos sutis ou espirituais, que não podem ser pesados ou mensurados, eles são canais das energias cósmicas, vitais, seminais entre outras, assim como das sensações, consciência e da aura espiritual. Eles são chamados por diferentes nomes de acordo com suas funções. Nāḍikās são pequenos nāḍīs e nādīchakras são gânglios e plexos em todos os três corpos – o grosseiro, o sutil e o causal. Os corpos sutis ou causais ainda não são reconhecidos pelos cientistas ou pela profissão médica.
  2. Diz-se no Varāhopaniṣad (V, 54/5) que os nāḍīs penetram o corpo das solas dos pés até a coroa da cabeça. Neles há prāṇa, o alento da vida e nesta vida habita Ātmā, que é a morada de Śakti, criadora dos mundos animados e inanimados.
  3. Todos os nāḍīs originam-se de um centro ou de outro, do kandasthāna – um pouco abaixo do umbigo – ou do coração. Apesar dos textos da Yoga concordarem em relação ao ponto de início deles, eles variam sobre onde alguns terminam.

Nāḍīs que Se Originam Abaixo do Umbigo

  1. Quatro dedos acima do ânus e dos órgãos genitais e logo abaixo do umbigo, há um bulbo no formato de ovo chamado kanda. A partir dele diz-se que 72.000 nāḍīs empalham-se ao longo do corpo, cada um ramificando-se em outros 72.000. Eles se movem em todas as direções e têm inúmeras saídas e funções.
  2. O Śīva Saṁhitā menciona 350.000 nāḍīs, dos quais catorze são declarados importantes. Esses e poucos outros são listados com suas funções na tabela abaixo. Os três que são mais vitais são suṣumṇā, iḍā e pingalā.
  3. O suṣumṇā, que percorre através do centro da coluna, separa-se na raiz e termina na coroa da cabeça no lótus de mil pétalas (sahasrāra), que é a sede do fogo (agni). O Varāhopaniṣad (V, 29, 30) o descreve como flamejante e brilhante (jvalanti), e como sendo encarnado (nādarūpinī). Ele é também chamado de o ‘Suporte do Universo’ (Viśvadhāriṇī: viśva = universo, dhāriṇī = suporte), o brahmanāḍī e a abertura de Brahma (Brahmarandhra). Ele é iluminação (sattva). Ele provê deleite ao sādhaka quando o prāṇa o adentra e engole o tempo.

Nāḍīs que Se Originam no Coração

  1. De acordo com o Kaṭhopaniṣad (VI 16, 17) e o Praśnopaniṣad (III, 6), o Ātmā, que se diz ser do tamanho de um dedão, habita no interior do coração, onde cento e um nāḍīs propagam-se. No Chāndogyopaniṣad (III, 12, 4) diz-se que assim como a cobertura externa do ser humano é o corpo físico, seu núcleo interior (ḥrdayam) é o coração (VIII 3.3), onde habita o Ātmā. É também chamado antarātma (alma, coração ou mente). Antaḥkaraṇa (a fonte do pensamento, sentimento e consciência) e chidātmā (a faculdade do raciocínio e a consciência).
  2. Aqui o coração representa tanto o físico quanto o espiritual. Todos os alentos vitais ou ventos (vāyus) estão estabilizados ali e não vão para além dele. É ali que o prāṇa estimula as ações e ativa a inteligência (prajña). A inteligência se torna a fonte do pensamento, imaginação e vontade. Quando a mente está controlada e o intelecto e o coração estão unidos, o si é revelado. (Śvetāśvataropaniṣad IV 17.)
  3. De cada um desses 101 nāḍīs emanam cem nāḍīs mais sutis, cada um ramificando-se em outros 72.000. Se há harmonia entre os cinco ventos (vāyus) (nomeadamente, prāṇa, apāna, udāna, vyāna e samāna) e esses nāḍīs, então o corpo se torna um céu na terra; porém se há desarmonia ele se torna um solo para doenças.
  4. Dos 101 nāḍīs, apenas o chitrā divide-se em duas partes na raiz de suṣumṇā. Uma parte do chitrā se move em seu interior, estendendo-se para cima para a abertura (randhra) de Brahma na coroa da cabeça acima do sahasrāra chakra. Esse é o portal para o Espírito Supremo (Parabrahman). A outra parte de chitrā se move para baixo em direção aos órgãos reprodutores para a liberação do sêmen. Diz-se que no momento da morte, os iogues e os santos conscientemente partem através de Brahmarandhra. Uma vez que a abertura está no corpo espiritual ou causal (kāraṇa śarīra), ela não pode ser vista ou mensurada. Quando o prāṇa sobe via a chitrā através dos chakras, ele leva consigo o esplendor (ojas), uma energia criativa latente no sêmen. A chitrā é transformada no Brahma nāḍī ou parā (supremo) nāḍī. Então o sādhaka se torna alguém que sublimou seu apetite sexual (um ūrdhvareta) e está livre de todo desejo.

Dhamani e Sira

  1. Nāḍīs, dhamanis e siras são órgãos tubulares ou dutos dentro dos corpos físicos e sutis transportando energia em diferentes formas. A palavra ‘dhamani’ é derivada de ‘dhamana’, significando um par de foles. A analogia mais próxima é com uma laranja. Sua casca representa o grosseiro (sthūla), as membranas representam o sutil (sūkṣma), e os segmentos, contendo os gomos de suco, o corpo causal (kāraṇa) respectivamente. Os nāḍīs carregam ar, o dhamani carrega sangue, e as siras distribuem a energia vital seminal ao longo do corpo sutil.
  2. Āyurveda é a ciência da vida e da longevidade. De acordo com seus textos, que lidam com a antiga medicina Indiana, os siras iniciam-se no coração. Eles carregam sangue (rakta) e vitalidade seminal (ojas) do e para o coração. As siras são mais espessas no coração e tornam-se mais finas conforme ramificam-se como as nervuras de uma folha. Setecentas delas são consideradas importantes. Elas são dividas uniformemente em quatro categorias, cada uma delas abastece um dos humores: vento (vāta) para o funcionamento adequado do corpo, bile (pitta) para a harmonização dos órgãos, fleuma (kapha) para os movimentos livres das articulações e do sangue (rakta), que circula o oxigênio e sua própria forma de energia vital.

Nāḍīs e a Circulação

  1. O Śiva Saṁhitā (V 52-55) declara que quando o alimento é digerido, os nāḍīs carregam a melhor parte para alimentar o corpo sutil (sūkṣma śarīra), a parte mediana para o corpo grosseiro (sthūla śarīra) e elimina a parte inferior na forma de fezes, urina e suor.
  2. O alimento que é consumido torna-se quilo, que é carregado através de certos dutos conhecidos nos textos Āyurvédicos como srotas – um sinônimo para nāḍīs. As suas funções são amplas, pois eles também carregam à energia vital ou alento conhecido como prāṇa, água, sangue e outros materiais para vários tecidos, medula e ligamentos, assim como a emissão de sêmen, urina, fezes e suor.
  3. Na respiração os nāḍīs, dhamanis e siras realizam a função dual de absorver a energia vital do influxo de ar e liberar as toxinas resultantes. O fluxo de entrada do ar se move através da traqueia até os pulmões, até os bronquíolos (dhamanis) e então até os alvéolos (siras). O sangue retira a energia do oxigênio e infiltra-o nos dhamanis com a ajuda do prāṇa nos nāḍīs. Este infiltrar transforma o fluido seminal em energia seminal vital (ojas) e libera-a nas siras, que a distribuem para revitalizar o corpo e o cérebro. As siras então liberam a energia esgotada e as toxinas recolhidas tais como o dióxido de carbono nos dhamanis e através deles até a traqueia, para serem exaladas.
  4. O Varāhopaniṣad (V 30) chama o corpo de uma ‘joia’ preenchida de ingredientes essenciais (ratna pūrita-dhātu). No Prāṇāyāma o ingrediente essencial (dhātu), chamado sangue, é enriquecido e refinado como uma joia conforme ele absorve as várias energias. Os nāḍīs, dhamanis e siras também transportam cheiro, sabor (essência do alimento), formas, sons e inteligência (jñāna). A yoga ajuda-os a funcionar adequadamente ao manter todos esses canais puros, o corpo imune das doenças e a inteligência aguçada, para que o sādhaka possa conhecer o seu corpo, mente e alma (Varāhopaniṣad, V 46-9).
  5. Alguns nāḍīs, dhamanis e siras podem corresponder às artérias, veias e capilares dos sistemas respiratório e circulatório. Eles também podem ser nervos, canais e dutos dos sistemas nervoso, linfático, glandular, digestório e genital-urinário do corpo físico e fisiológico. Outros carregam energia vital (prāṇa) ao corpo mental, energia intelectual (vijñāna) ao corpo intelectual, e energia espiritual ao corpo causal ou espiritual (alma). O ponto terminal de cada nāḍī deve ser encontrado no folículo, célula ou cabelo. Eles funcionam como entrada e saída de várias energias. Ao todo, 5.9 bilhões deles fluem no corpo grosseiro, sutil e causal. Nenhuma surpresa quando se diz que o corpo está cheio de nāḍīs.

Kuṇḍalinī

  1. Kuṇḍalinī é a energia cósmica divina. A palavra é derivada de ‘kuṇḍala’, significando um anel ou rolo. A energia latente é simbolizada como uma serpente dormindo enrolada três vezes e meia; ela tem sua cauda na boca, voltada para baixo. Ela repousa na base oca de suṣumṇā, dois dígitos abaixo da área digital e dois acima do ânus.
  2. As três voltas da serpente representam os três estados da mente (avasthā), nomeadamente desperta (jāgrat), sonhando (Svapna) e em sono profundo (suṣupti). Há um quarto estado, turīya, combinando e transcendendo os outros, que é representado pela última meia volta. Ele é alcançado no samādhi.
  3. O Haṭha Yoga Pradīpikā (III. 1) declara que assim como Ādi Śeṣa, o Senhor das Serpentes, suporta o universo, da mesma maneira kuṇḍalini sustenta todas as disciplinas da Yoga.
  4. A energia que passa através de iḍā, pingalā e suṣumṇā é chamada bindu, literalmente um ponto não tendo nem partes nem magnitude. Esses três nāḍīs representam respectivamente os nāḍīs da lua, do sol e do fogo. Antes da palavra ‘kuṇḍalini’ estar em voga, ‘agni’ (fogo) era utilizada para representar o poder divino que purifica e eleva-se como fogo. Através da disciplina da Yoga a direção da boca da energia serpentina enrolada vira para cima. Ela eleva-se como vapor através de suṣumṇā através de chitrā (emanando do coração) até alcançar o sahasrāra. Quando a energia criativa (śakti) da kuṇḍalinī desperta, iḍā e pingala fundem-se no interior de suṣumnā. (Śiva Saṁhitā, V 13.)
  5. O metal é refinado ao queimar os refugos. Pelo fogo da disciplina ióguica, o sādhaka queima em seu interior as impurezas do desejo, raiva, ambição, paixão, orgulho e inveja. Então seu intelecto se torna refinado. A energia cósmica latente em seu interior é então despertada pela graça de Deus e do guru (Haṭha Yoga Pradīpikā, III. 2.). Conforme isso aumenta, o sādhaka fica cada vez mais afinado com o Divino. Ele se torna livre dos apegos em relação aos frutos das ações (karma mukta) e desapegado à vida (jīvana mukta).
  6. De acordo com os textos Tântricos, o objeto do Prāṇāyāma é o despertar do poder latente (śakti) chamado kuṇḍalinī, a energia cósmica divina em nossos corpos, repousando na base da coluna vertebral no mūlādhāra chakra, o plexo nervoso situado na pélvis acima do ânus na raiz da espinha. Essa energia deve ser despertada e elevada através de suṣumṇā, do mūlādhāra chakra até o lótus de mil pétalas (sahasrāra) na cabeça, a rede de nervos no cérebro. Depois de perfurar os chakras que interferem, ela finalmente une-se com a Alma Suprema. Essa é uma maneira alegórica de descrever a tremenda vitalidade seminal que é obtida pela prática de uḍḍīyāna, mūla bandhās (Cap. 13) e auto-controle. É uma maneira simbólica de descrever à sublimação da energia sexual.
  7. Quando a kuṇḍalinī alcança o sahasrāra, o sādhaka não tem o sentimento de sua identidade própria separada e nada existe para ele. Ele cruzou as barreiras do tempo e do espaço e tornou-se um com o universo.

Chakras

  1. ‘Chakra’ significa roda, um anel. Chakras são rodas flutuantes, que irradiam energia, localizadas em centros vitais ao longo da coluna, conectando os nāḍīs às várias camadas (kośas).
  2. Assim como uma antena capta as ondas de rádio e as transforma em som através de receptores, os chakras captam as vibrações cósmicas e as distribui ao longo do corpo pelos nāḍīs, dhamanis e siras. O corpo é uma contraparte do universo, um microcosmo no interior do macrocosmo dos níveis grosseiros, sutil e espiritual.
  3. De acordo com os textos da Yoga, dois outros importantes tipos de energia permeiam o corpo, aquela do sol radiando através do pingalā nāḍī e a da lua através do iḍā nāḍī. Ambas essas correntes se cruzam nos chakras, os centros vitais ao longo de suṣumṇā, o nāḍī do fogo na coluna vertebral.
  4. Para conservar as energias geradas no interior do corpo e prevenir a dissipação destas, os āsanas e mudrās (selos), Prāṇāyāmas e bandhās (travas) são prescritos. O calor assim gerado faz com que a kuṇḍalinī se desdobre. A serpente levanta sua cabeça, entra em suṣumṇā e é forçada para cima através dos chakras, um por um até o sahasrāra.
  5. A geração e distribuição do prāṇa no sistema humano pode ser comparado com a da energia elétrica. A energia da água que cai ou do vapor que sobe faz rodar turbinas com campos magnéticos para gerar eletricidade. A eletricidade é então armazenada em acumuladores e a energia é intensificada ou reduzida por transformadores que regulam à voltagem ou corrente. Ela é transmitida, então, através de cabos para iluminar cidades e fazer as máquinas funcionarem. O prāṇa é como a água que cai ou o vapor que sobe. A área torácica é o campo magnético. O processa respiratório da inalação, exalação e retenção do alento age como as turbinas, enquanto os chakras representam os acumuladores e transformadores. A energia (ojas) gerada pelo prāṇa é como a eletricidade. Ela é intensificada ou reduzida pelos chakras e distribuída por todo o sistema pelo nāḍīs, dhamanis e siras, que são as linhas de transmissão. Se a energia gerada não for adequadamente regulada ela destruirá a maquinaria e o equipamento. É o mesmo com o prāṇa e ojas, pois eles podem destruir o corpo e a mente do sādhaka.
  6. Os principais chakras são: (1) mūlādhāra (mūla = fonte, ādhāra = suporte, parte vital), situado na pélvis acima do ânus; (2) svādhiṣṭhāna (sede da força vital), situado acima dos órgãos reprodutores; (3) maṇipūraka, situado no umbigo; (4) sūrya, o sol; e (5) manas (mente), entre o umbigo e o coração; (6) anāhata (coração), na área cardíaca; (7) viśuddhi (puro), na região faríngea; (8) ājñā (comando), entre as sobrancelhas; (9) Soma, a lua no centro do cérebro; (10) lalāṭa, no topo da testa; e (11) sahasrāra, que é chamado de lótus de mil pétalas no cérebro. Os mais importantes deles são mūlādhāra, svādhiṣṭhāna, maṇipūraka, anāhata, viśuddhi, ājñā e sahasrāra.
  7. O mūladhāra chakra é a sede do elemento da terra (pṛthvi tattva) e do cheiro. Ele é a base do annamaya kośa, o corpo de nutrição, conectado com a absorção do alimento e a evacuação das fezes. Quando esse chakra é ativado, o sādhaka se torna firme em vitalidade e pronto para sublimar sua energia sexual (ūrdhvarētas).
  8. O svādhiṣṭhāna chakra é a sede do elemento água (ap) e do sabor. Quando ativado, o sādhaka se torna livre da doença e adquire uma saúde vibrante. Não sentindo fatiga ele se torna amigável e compassivo.
  9. O maṇipūraka chakra é a sede do elemento do fogo (agni) e quando ele é ativado o sādhaka obtém serenidade mesmo em circunstâncias adversas.
  10. Os chakras svādhiṣṭhāna e maṇipūraka são as fundações do Prāṇamaya kośa, o corpo fisiológico. Ambos devem mover-se juntos, coordenando suas funções durante a inalação e a exalação no Prāṇāyāma.
  11. O sūrya chakra, comumente conhecido como plexo solar, situa-se entre o umbigo e o diafragma. Ele mantém os órgãos abdominais saudáveis e aumenta à longevidade.
  12. O manas chakra situa-se entre o sūrya e o anāhata. É a sede da emoção, inflamando a imaginação e a criatividade, e pode ser estabilizado por Prāṇāyāmas envolvendo a retenção da respiração.
  13. O anāhata chakra situa-se na região do coração físico e espiritual. Ele é o elemento do ar (vāyu) e do toque.
  14. O chakra manas e o anāhata representam o corpo psicológico (manomaya kośa). Quando ativados, eles fortalecem o coração, desenvolvem adoração (bhakti) e conhecimento (jñāna). Eles libertam o sādhaka dos prazeres sensuais e fazem-no seguir o caminho da espiritualidade.
  15. O viśuddhi chakra, na região da garganta acima do tórax, e na base do pescoço, é o elemento do éter (ākāśa). Ele representa o corpo intelectual (vijñānamaya kośa). Quando é ativado, o poder de entendimento do sādhaka aumenta. Ele se torna intelectualmente alerta. Seu discurso se torna distinto, claro e fluente.
  16. O ajñā chakra representa a morada da alegria (ānandamaya kośa). Quando é ativado o sādhaka ganha perfeito controle sobre seu corpo e desenvolve uma aura espiritual.
  17. O soma chakra regula a temperatura do corpo.
  18. Quando o lalāṭa chakra é ativado, o sādhaka se torna o mestre de seu destino.
  19. O sahasrāra chakra, também chamado sahasrāra dala (dala = uma tropa, um grande número) é a sede do Espírito Supremo (Parabrahman) no final de Brahma nāḍī ou suṣumṇā.
  20. Quando a energia de kuṇḍalinī alcança o sahasrāra, o sādhaka cruzou todas as barreiras e se torna uma alma emancipada (siddha). Faz-se referência a esse estado no Ṣaṭ Chakra Nirūpaṇa (Verso 40) como o Estado de Vazio (Śūnya Deśa).

Capítulo 6

Guru e Śiṣya

  1. O guru (professor) e seu pupilo (śiṣya) estão ambos preocupados com o conhecimento espiritual (Brahma-vidyā). O guru primeiro estuda o seu pupilo e discute o que o pupilo sabe, enquanto o pupilo estuda o guru e o assunto que lhe está sendo ensinado. O próximo passo para o pupilo é a prática ascética prolongada (tapas) até que o conhecimento seja totalmente absorvido. Ao seu tempo a sabedoria (prajñā), a fruta da experiência em primeira mão, amadurece e o guru e o śiṣya exploram-na juntos.
  2. A palavra Sânscrita guru é derivada de duas raízes: ‘gu’ significando escuridão e ‘ru’ luz. Como um professor de conhecimento sagrado ele remove a escuridão da ignorância e conduz o seu pupilo à iluminação e à verdade. Ele é também alguém que aprendemos sobre a conduta correta ou estudamos sob sua tutela como levar uma vida boa. Livre do ódio, ele procurou amplamente pela verdade. Ele colocou seu conhecimento espiritual em prática. Ele não está contente com o nível teórico apenas. Ele mostra pelo exemplo o que experienciou e vive o que ensina. Um guru deve ser (a) limpo em sua percepção e conhecimento, (b) regular na prática espiritual (anuṣṭhāna), (c) constante e determinado no estudo (abhyāsa), (d) livre do desejo pelos frutos das ações (karma phala thyāgi ou vairāgya), e (e) puro no que faz para guiar seus pupilos na verdadeira essência do conhecimento (paratattva). Ele mostra a eles como voltarem suas essências e inteligências para dentro, para que eles possam aprender a explorar a si mesmos e alcançar a fonte de seus próprios seres (Ātmā). O guru é a ponte entre o individual (jīvātmā) e Deus (Paramātmā).
  3. Os exemplos clássicos do relacionamento guru-śiṣya são aqueles mencionados no Kaṭhopaniṣad e no Bhagavad Gītā. Naquele, Yama, o Deus da Morte dá conhecimento espiritual ao seu mais sincero buscador Nachiketā, que com coragem resoluta encara a morte. No Bhagavad Gītā, Śri Kṛṣṇa remove as dúvidas e o desânimo do poderoso arqueiro Arjuna, cuja meta infalível e seu espírito de humildade conduzem-no ao objetivo mais alto da vida.
  4. A força e energia de um ladrão chamado Ratnākara foram desviadas pelo sábio Nārada em direção a Deus. O ladrão finalmente tornou-se o sábio Vālmīki, o autor do épico Rāmāyaṇa. Por meio da parábola o Rāmāyaṇa compara o corpo humano a Laṅkā, a ilha reinado de Rāvaṇa, o rei demônio de dez cabeças com o ego inflado. As dez cabeças são os órgãos do conhecimento e da ação, cujos desejos não têm limites; como o oceano ao redor da ilha, Sītā, a alma individual ou prakṛti, é mantida confinada em Aśokavana, o jardim do prazer de Rāvana. Śītā está combalida e cheia de angústia por causa da separação forçada de seu Senhor, Rāma, e pensa nele constantemente. Rāma envia seu mensageiro Hanumān, filho de Vāyu (o vento vital), para consolar Sītā e levantar o seu fraco espírito. Hanumān ajuda a destruir Rāvaṇa, o ego, e a reunir Sītā e Rāma (prakṛti e puruṣa; jīvātmā e Paramātmā). Assim como Hanumān possibilitou a reunião de Sītā e Rāma, o prāṇāyāma possibilita a reunião do sādhaka com seu Ātmā.
  5. Inicialmente o guru reduz-se ao nível de seu pupilo, a quem ele encoraja e gradualmente eleva através do preceito e exemplo. A isso se segue o ensinamento ajustado à aptidão do pupilo e sua maturidade até que este se torne tão destemido e independente como o seu guru. Como uma mãe gato segurando o filhote cego e desamparado em sua boca, ele primeiro checa os movimentos de seu pupilo, deixando-o com pouca iniciativa. No próximo estágio ele lhe permite a mesma liberdade que a mãe macaco, quando o seu bebê pela primeira vez solta a sua pele, apesar dela o manter perto de si. No primeiro estágio o pupilo está sob a disciplina inquestionável do guru; no segundo estágio ele submete à sua vontade completamente. No terceiro estágio, como o peixe de olhos vigilantes ele se torna tanto habilidoso quanto puro em pensamento, palavra e ação.
  6. Os pupilos são de três categorias – fraco, medianos e intensos ou superiores. O pupilo fraco tem pouco entusiasmo, sendo sensual, instável e covarde. Ele não está disposto a perder suas qualidades negativas ou a trabalhar duro para a auto-realização. O segundo tipo de pupilo é um hesitante, igualmente atraído para as questões mundanas e as espirituais, às vezes dando peso para umas outrora para as outras. Ele sabe qual é o maior bem, mas lhe falta coragem e determinação para seguir firmemente. Ele precisa de um tratamento enérgico para corrigir sua natureza instável a qual o guru está consciente. O pupilo intenso ou superior tem visão, entusiasmo e coragem. Ele resiste às tentações e não tem hesitação em abrir mão de qualidades que o afasta de sua meta. Ele, portanto, se torna estável, hábil e constante. O guru está sempre alerta para encontrar um caminho para guiar seu pupilo intenso à realização de seu maior potencial até que ele se torne uma alma realizada (siddha). O guru está sempre feliz com seu pupilo, que pode eventualmente ultrapassá-lo.
  7. Um pupilo valoroso encontra seu guru pela graça de Deus. Satyakāma-Jābāli, que confessou não conhecer a sua ascendência, foi aceito como um pupilo pelo sábio Gautama, que ficou impressionado pela sua inocência e veracidade. Śvetaketu orgulhosamente retornou à sua casa depois de anos de estudo, porém falhou em responder quando seu pai Uddālaka o perguntou o que fez uma grande árvore crescer a partir de uma pequena semente. Quando com a devida humildade Śvetaketu confessou sua ignorância, seu pai lhe aceitou como seu pupilo e lhe deu conhecimento espiritual. Um discípulo deve ansiar por conhecimento espiritual e autocontrole. Ele deve praticar constantemente com atenção e possuir grande persistência.
  8. O treinamento espiritual (sādhana) não tem nada a ver com o estudo teórico, porém ele conduz a uma nova forma de vida. Assim como as sementes de gergelim são amassadas para produzir óleo e a madeira é acesa para retirar o seu calor latente, também o pupilo deve, pela prática inabalável, retirar o conhecimento latente de seu interior e encontrar a sua própria identidade. Quando ele realiza que é uma centelha da Flama Divina queimando através do universo, então todas as suas impressões passadas (saṁskāras) são queimadas, e ele se torna iluminado. Ele é então um guru por direito próprio.

Capítulo 7

Alimentos

  1. O Mahānārāyaṇopaniṣad (79-15) descreve alimento (anna) como o requisito primário sem o qual o ser humano não pode desenvolver seu corpo anatômico ao nível espiritual. Declara-se que o sol irradia calor que evapora a água. O vapor torna-se as nuvens de onde a chuva cai na terra. Os homens aram a terra e produzem alimento que, quando consumido, cria a energia que mantém o vigor. O vigor engendra a disciplina, que desenvolve a fé que dá conhecimento; o conhecimento concede erudição, que traz autocontrole que cria a tranquilidade; a tranquilidade estabelece a equanimidade, que desenvolve a memória que induz o reconhecimento; o reconhecimento traz julgamento, que conduz à realização do ‘Si’.
  2. O corpo precisa de alimentos contendo o equilíbrio correto de carboidratos, proteínas, gorduras, vitaminas e sais minerais. A água é necessária para ajudar à digestão e a assimilação. O alimento em sua forma nutricional é finalmente assimilado de várias formas ao longo do corpo.
  3. O alimento deve ser sadio, palatável e compatível com o corpo, e não deve ser comido meramente pela gratificação dos sentidos. Ele é amplamente dividido em três tipos – sátvico, rajástico e tamásico. O primeiro promove longevidade, saúde e felicidade; o segundo produz excitação e o terceiro cria doença. Os alimentos rajásticos e tamásicos tornam a consciência embotada e impedem o progresso espiritual. É dever do sādhaka descobrir pela experiência o que é adequado para si.
  4. Ao passo que é verdade que o caráter é influenciado pela comida, é igualmente verdade que a prática de Prāṇāyāma altera os hábitos alimentares do sādhaka. O temperamento dos seres humanos é influenciado pela sua dieta porque o que eles comem afeta o funcionamento da mente. O alimento sátvico vegetariano, entretanto, pode ser adotado por tiranos com mentes perturbadas, cheios de ódio, entretanto ele permanece rajástico ou tamásico. Da mesma forma caráteres nobres (como Buddha ou Jesus) podem não ser afetados pelo tipo de alimento oferecido a eles ou por aquelas pessoas que dão, apesar que eles seriam normalmente considerados tamásicos. É o estado da mente daquele que come que é importante. Contudo, uma dieta consistindo apenas de comida sátvica ajudará o praticante a manter uma mente clara e resoluta.
  5. O corpo é a morada do si individual (jīvātmā). Se ele perecesse por falta de alimento o ‘si’ apenas o deixaria, como um inquilino que se recusa a residir mais numa casa em ruínas. O corpo portanto tem que ser protegido para que o ‘Si’ possa residir. Negligenciar o corpo conduz à morte e à destruição do ‘Si’.
  6. De acordo com o Chāndogyopaniṣad (VI 7.2) o alimento sólido, os fluidos e as gorduras que abastecem o corpo são, cada um, divididos em dezesseis partes no consumo. O alimento é dividido em três partes; a mais grosseira se torna fezes, a mediana se torna carne e a mais sutil se torna a mente, na razão de 10/16, 5/16 e 1/16 respectivamente. Com os fluidos, os mais grosseiros se tornam urina, os medianos se tornam sangue e os mais sutis se tornam energia (prāṇa). Similarmente com as gorduras, o ingrediente mais grosseiro se torna osso, o mediano se torna medula e o mais sutil discurso (vāc). Śvetaketu viveu com fluido por quinze dias e perdeu o seu poder de pensamento, porém o readquiriu assim que comeu alimento sólido novamente; o seu poder de discursar diminuiu quando ficou sem gorduras. Essa experiência revelou-lhe que a mente é o produto do alimento, a energia dos fluidos e o discurso das gorduras.
  7. O Haṭha Yoga Pradīpikā (11. 14) diz que durante sua prática de prāṇāyāma o sādhaka tem que comer arroz triturado cozido no leite e manteiga clarificada. Quando bem estabelecido no prāṇāyāma ele pode escolher o alimento compatível para si e sua prática.
  8. Não coma quando a saliva não fluir, pois isso é indicação que o corpo não precisa de mais alimento. Tanto a quantidade quanto a qualidade da comida devem ser moderadas. O alimento escolhido pode parecer delicado e delicioso, porém pode não ser bom para o sādhaka. Ele pode conter alto valor nutritivo e, entretanto, desenvolver toxinas que afetam o progresso do sādhaka. Quando alguém está realmente com fome ou sede, o alimento é imediatamente absorvido no sistema e se torna nutrição. A água por si só pode sempre matar a sede. A sede real não escolhe outra bebida além da água. Contenha a fome artificial e a sede. Os textos da Yoga prescrevem que o sādhaka deve preencher metade de seu estômago com alimento sólido, um quarto com fluidos e manter um quarto vazio para o livre fluxo da respiração.
  9. Não coma quando emocionalmente perturbado. Enquanto come, fale bem e coma sabiamente. Quando uma estrutura da mente nobre prevalece enquanto nos alimentamos, todas as comidas são sátvicas exceto as venenosas.
  10. O fogo da digestão é aceso pela energia que se eleva da respiração. O alimento moderado e nutritivo é essencial para manter o vigor, força e alerta. Evite jejuar.
  11. De acordo com o Taittirīya Upaniṣad, o alimento é Brahman. Ele deve ser respeitado, não ridicularizado ou abusado.

Capítulo 8

Obstáculos e Ajudas

  1. O sādhaka deve estar ciente dos obstáculos que perturbam a sua prática de prāṇāyāma consciente ou inconscientemente. Ele deve evitar as distrações e levar uma vida disciplinada para preparar seu corpo e mente.
  2. Patanjali dá uma lista de obstáculos às práticas ióguicas. Elas são: doença (vyādhi), falta de disposição mental (styāna), dúvida em relação às práticas (saṁśaya), insensibilidade (pramāda), preguiça (ālaysa), sensualidade ou despertar do desejo quando os objetos sensoriais possuem a mente (avirati), conhecimento falso ou invalido (bhrānti-darśana), falha de alcançar continuidade de pensamento ou concentração (alabhdha-bhūmikatva), instabilidade ao continuar a prática devido ao relaxamento ou falha (anavasthitattva), dor (duḥkha), desespero (daurmansya), instabilidade do corpo (angamejayatva) e respiração (śvāsa-praśvāsa). (Yoga Sūtras, I 30/31). Essas originam-se tanto nos seres humanos quanto são devidas às calamidades naturais ou acidentes. As aflições criadas pelos humanos, provocadas pelo excesso e falta de disciplina, afetam o corpo e a mente do sādhaka. As curas das aflições estão formuladas nos textos da Yoga.
  3. Pode-se notar que dos treze obstáculos às práticas ióguicas mencionados por Patanjali, apenas quatro lidam com o corpo físico, nomeadamente, doença, preguiça, instabilidade do corpo e da respiração. Os nove obstáculos restantes lidam com a mente. O sábio menciona o estágio dos āsanas para capacitar o sādhaka a livrar-se dos obstáculos que afetam o corpo físico, antes que ele esteja pronto para abordar os obstáculos mentais pela prática de prāṇāyāma.
  4. O Haṭha Yoga Pradīpikā (I 16) menciona seis destruidores das práticas ióguicas; excesso de comida, excesso de esforço, fala inútil, conduta indisciplinada, má companhia e inconstância inquieta. De acordo com o Bhagavad Gitā (VI 16) a Yoga não é para aqueles que são glutões, passam fome ou dormem ou ficam acordados por muito tempo. Os Yoga Upaniṣads incluem má postura física e emoção autodestruidora, como a luxúria, raiva, medo, ambição, ódio e inveja.
  5. Para continuar e manter o seu treino, o pupilo necessita de fé, virilidade, memória, meditação (samādhi) e percepção aguda (prajña). (Yoga Sūtras, I, 20.)
  6. Para superar esses obstáculos, Patanjali ofereceu o remédio quádruplo da simpatia e do sentir-se uno com tudo o que é bom, compaixão com a ação devota para aliviar a miséria dos aflitos; deleite com o bom trabalho feito pelos outros e evitar o desdém e o sentimento de ser superior às vítimas do vício. O Haṭha Yoga Pradīpīka prescreve o entusiasmo, a audácia, a força moral, o conhecimento verdadeiro, a determinação e um sentimento de desapego, como estar no mundo, mas não pertencer a ele, como os meios para superar os obstáculos no caminho da Yoga.
  7. Pela moderação da alimentação e do descanso, pelas horas regulares de trabalho e pelo correto equilíbrio entre o sono e a vigília, a Yoga destrói todas as dores e angústias, diz o Bhagavad Gītā (VI 17). Yoga é trabalhar sabiamente e viver uma vida habilidosa e ativa, em harmonia e moderação. O que o sādhaka necessita é de uma prática com uma só meta, devota. (Yoga Sūtras, I 32).

Capítulo 9

Os Efeitos do Prāṇāyāma

  1. Os āsanas melhoram a circulação sanguínea ao longo do corpo, incluindo da cabeça, tronco e membros.
  2. Aqueles que são apropriados para as pernas e os braços mantêm o sistema circulatório ativo. As circulações arterial, capilar, venosa e linfática são estimuladas pela contração rítmica e relaxamento dos músculos que atuam como bombas na abertura de leitos vasculares novos e não utilizados. Isso permite um abastecimento eficiente, a utilização da energia e promove uma resistência notável perante a doença.
  3. Embora os āsanas produzam efeitos similares no tórax, o prāṇāyāma afeta a expansão rítmica dos pulmões, criando a circulação adequada dos fluidos corporais no interior dos rins, estômago, fígado, baço, intestinos, pele e outros órgãos, assim como na superfície do tórax.
  4. Os pulmões lidam diretamente com o descarte de dióxido de carbono no sangue venoso e previnem que a amônia, as cetonas e as aminas aromáticas atinjam limites tóxicos. Os pulmões precisam ser mantidos puros e livres de doenças bacteriais pela circulação eficiente do sangue e da linfa. O prāṇāyāma ajuda aqui ao manter os pulmões puros e ao aumentar o fluxo de sangue fresco.
  5. As funções do fígado dependem da corrente hepática arterial que traz substâncias não aproveitadas para serem quimicamente alteradas, a fim de que elas possam ser excretadas na bile e urina. Também dependem da circulação venosa portal, que ela traga o sangue do estômago e do intestino delgado para ser filtrado e processado a fim de remover as toxinas e os produtos bacteriais. O fígado também tem uma circulação linfática ativa e fornece células necrófagas (macrófagos) que perambulam na linfa sanguínea recolhendo restos sólidos, células estranhas e seus produtos para decomposição ou estoque. Todas essas atividades são estimuladas pelo prāṇāyāma.
  6. Nos rins a produção de urina é dependente da filtração contínua de grandes volumes de sangue arterial através do córtex renal. Esse fluxo é suscetível de demandas conflituosas e frequentemente é muito baixo. A tendência de desviar o sangue para longe do córtex renal é contida pela autorregulação do fluxo pelas pequenas artérias locais. Esse processo depende de pressões intra-renais adequadas e, por isso, será ajudado pelo prāṇāyāma a alcançar a posição correta, forma e estado de tensão nos rins. A massagem interna pela atividade temporária dos músculos abdominais e das costas estimulará o fluxo linfático renal, tão essencial para manter o órgão saudável.
  7. O uso rítmico do diafragma e dos músculos abdominais no prāṇāyāma estimula diretamente os movimentos peristálticos e segmentares dos intestinos, assim como promove a circulação intestinal. Deste modo ajuda o intestino em suas funções de absorver os materiais do alimento e descartar os refugos sólidos, principalmente alimento não absorvido e os produtos das nossas bactérias amigas, a flora intestinal, assim como os resíduos das secreções residuais do fígado (bile), pâncreas e intestinos.
  8. O baço, logo abaixo do diafragma esquerdo, age como um filtro que purifica o sangue circulatório das células vermelhas exauridas que carregam oxigênio. Muito da circulação do sangue no baço acontece no interior de estruturas linfáticas e é estimulada pelo prāṇāyāma.
  9. O prāṇāyāma ajuda a manter o fluxo do sangue puro, o que tonifica os nervos, cérebro, os músculos da coluna vertebral e cardíacos, mantendo assim as suas eficiências.
  10. As glândulas sudoríparas agem como micro-rins acessórios, especialmente quando estimuladas pelo prāṇāyāma.
  11. De acordo com os textos ióguicos, a prática regular de Prāṇāyāma previne e cura doenças. A prática inadequada, entretanto, pode causar asma, tosse, hipertensão, dor no coração, ouvidos e olhos, sequidão na língua e dureza dos bronquíolos. (Haṭha Yoga Pradīpikā, II 16-17.)
  12. O prāṇāyāma purifica os nāḍīs, protege os órgãos internos e células e neutraliza o ácido lático, que causa fatiga, tornando a recuperação rápida.
  13. O prāṇāyāma aumenta a digestão, vigor, vitalidade, percepção e memória. Ele liberta a mente da posse do corpo, aguça o intelecto e ilumina o si.
  14. Uma coluna ereta pode ser comparada com uma naja que se eleva. O cérebro é o que se eleva e os órgãos da percepção são as presas, enquanto que os pensamentos ruins e desejos são as glândulas venenosas. A prática de prāṇāyāma aquieta a escalada dos sentidos e desejos. Assim a mente se torna sacrossanta ou livre de pensamentos (nirviṣaya). Os pensamentos do sādhaka, suas palavras e ações se tornam claras e puras. Ele mantém firmeza (achalatā) no corpo e constância (sthirathā) em seu intelecto.
  15. Somente a prática traz força e conhecimento. A prática diária garante sucesso e consciência perfeita, o que purga o sādhaka do medo da morte. (Śiva Saṁhita, IV 17/18.)
  16. O sādhaka experiencia um estado de serenidade. Ele não pensa mais no passado, nem teme o futuro, mas permanece sempre no presente. Quando ele dominou o prāṇāyāma enquanto sentado em padmāsana, ele está pronto para se tornar uma alma liberada, assim o diz o Haṭha Yoga Pradīpika (I 49).
  17. Assim como o vento leva para longe a fumaça e as impurezas da atmosfera e sua qualidade inerente é queimar e purificar a área, o prāṇāyāma é um fogo divino que purifica os órgãos, sentidos, mente, intelecto e ego.
  18. Assim como o sol nascente dispersa vagarosamente a escuridão da noite, o prānāyāma remove as impurezas, refina o sādhaka e prepara seu corpo e mente para se tornarem aptos para a concentração (dhāraṇa) e meditação (dhyāna) –Yoga Sūtras, II 52, 53.
  19. O prāṇāyāma é a janela para o ‘Si’. É por isso que é chamado de grande austeridade (mahā tapas) e o verdadeiro conhecimento do Si (Brahma-vidyā).

 

Anúncios

Replique

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close