O Caminho Zen, Prefácio e Capítulo 1, Alan Watts

Prefácio

            Durante os últimos vinte anos houve um aumento extraordinário de interesse no Zen Budismo. Desde a Segunda Guerra Mundial esse interesse cresceu tanto que parece ter se tornado uma força considerável no mundo intelectual e artístico do Ocidente. Isso está conectado, sem dúvida, com o entusiasmo difundido pela cultura Japonesa, que é um dos resultados construtivos da recente guerra, mas que pode significar apenas uma moda passageira. A razão mais profunda desse interesse é que o ponto de vista do Zen repousa muito perto do conceito de “evolução pessoal” [NT. (growing edge), desafio empoderador que exige prática constante] do pensamento Ocidental.

            Os aspectos mais alarmantes e destrutivos da civilização Ocidental não nos devem cegar para o fato que, hoje em dia, ela se encontra em um dos seus momentos mais criativos. As mais fascinantes ideias e conhecimentos aparecem em alguns dos novos campos da ciência Ocidental – na psicologia e psicoterapia, na lógica e na filosofia da ciência, na semântica e na teoria da comunicação. Alguns desses desenvolvimentos podem ser influências sugestivas da filosofia Asiática, porém, em sua totalidade, sou mais inclinado a sentir que há mais um paralelismo do que uma influência direta. Nós estamos, entretanto, nos tornando conscientes do paralelismo, e isso promete uma mudança das visões que deve ser extremamente estimulante.

            O pensamento Ocidental mudou tão rapidamente nesse século, que nós estamos num estado de considerável confusão. Não somente existem dificuldades sérias de comunicação entre os intelectuais e o público em geral, mas o curso do nosso pensamento e nossa própria história minaram fortemente às hipóteses de senso comum que se encontram nas raízes das nossas convenções sociais e instituições. Os conceitos familiares de espaço, tempo e movimento, de natureza e lei natural, de história e mudança social, e da própria personalidade humana dissolveram-se, e nos encontramos a esmo, sem pontos de referência num universo que lembra cada vez mais o princípio Budista de “Grande Vacuidade”. As diversas sabedorias do Ocidente, religiosa, filosófica e científica, não oferecem muita orientação na arte do viver em tal universo, e achamos assustadora a perspectiva de traçar nosso caminho num oceano de relatividade tão inóspito. Pois éramos acostumados com absolutos, com princípios e leis firmes as quais podíamos aderir por segurança espiritual e psicológica.

            É por isso que há, penso, tanto interesse num modo de vida culturalmente produtivo que, por mil e quinhentos anos, sentiu-se completamente à vontade no “Vazio”, que não sente terror por este, mas um positivo encanto. Para usar as suas próprias palavras, a situação do Zen sempre foi –

            Acima, nem um ladrilho para cobrir a cabeça;

            Abaixo, nem uma polegada de chão para o pé.

Tal linguagem não deveria ser tão desconhecida para nós, se fôssemos preparados para aceitar o significado de “as raposas têm tocas, e os pássaros do ar têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde repousar sua cabeça.”

            Não sou a favor de “importar” o Zen do Extremo Oriente, pois ele tornou-se profundamente envolvido com instituições culturais que são absolutamente estranhas a nós. Mas, sem dúvida, há coisas que podemos aprender, ou desaprender, e aplicar de nossa própria maneira. O Zen tem o mérito especial de um modo de expressão de si mesmo que é tanto inteligível – ou talvez desconcertante – ao intelectual quanto ao iletrado, oferecendo possibilidades de comunicação que não exploramos. Ele tem franqueza, entusiasmo, humor e um sentido de beleza e disparate [NT. nonsense] ao mesmo tempo exasperado e prazeroso. Mas, sobretudo, ele tem uma maneira de virar a mente de alguém ao contrário, e dissolver os problemas humanos que parecem ser os mais opressivos, em questões como “Por que é um rato quando roda?” Em seu coração há uma compaixão forte, mas completamente não sentimental pelos sofrimentos e perecimentos humanos a partir de suas próprias tentativas de se salvarem.

            Há vários livros excelentes sobre o Zen, apesar de alguns dos melhores estarem esgotados ou, por outro lado, serem difíceis de obter. Mas nenhum ainda – nem mesmo o Professor Suzuki – nos deu um relato compreensível do assunto que inclui o pano de fundo histórico e sua relação com as formas Chinesas e Indianas de pensar. Os três volumes dos Ensaios sobre o Zen Budismo de Suzuki são uma coleção assistemática de artigos eruditos sobre o tema, enormemente úteis para o estudante avançado, mas consideravelmente desnorteante para o leitor em geral, sem um entendimento dos princípios gerais. Sua deliciosa Introdução ao Zen Budismo é um pouco limitada e especializada. Ela omite a informação essencial sobre a relação do Zen com o Taoísmo Chinês e o Budismo Indiano, e é, em alguns aspectos, mais mistificante do que necessitaria ser. Seus outros trabalhos são estudos de aspectos especiais do Zen, todos exigindo um pano de fundo geral e perspectiva histórica.

            O Zen na Literatura Inglesa e nos Clássicos Orientais, de R. H. Blyth, é uma das melhores introduções disponíveis, porém ela foi publicada apenas no Japão e, novamente, carece de informação de pano de fundo. Como uma série de observações criteriosas, errantes e maravilhosas, ele não tenta dar uma apresentação ordenada do tema. Meu próprio Espírito do Zen é uma popularização dos trabalhos anteriores de Suzuki, e, além de ser muito pouco erudito, ele está desatualizado e ilusório em vários aspectos, quaisquer que sejam os méritos que tenha na questão lucidez e simplicidade. O Zen Budismo de Christmas Humphrey, publicado apenas na Inglaterra, é igualmente uma popularização de Suzuki e, mais uma vez, não começa a colocar realmente o Zen em seu contexto cultural. Ele é escrito de uma maneira simples e vivaz, porém o autor encontra identidades entre Budismo e Teosofia, que eu sinto serem altamente questionáveis. Outros estudos de Zen, tanto por autores Ocidentais quanto Asiáticos, são de um caráter mais especializado, ou são discussões de Zen a propósito de alguma outra coisa – psicologia, arte, ou história cultural.

            Na carência, então, de um relato fundamental, ordenado e compreensivo sobre o assunto, não é de se estranhar que as impressões Ocidentais do Zen sejam de alguma forma confusas, apesar de todo o entusiasmo e interesse que suscitou. O problema, então, é escrever tal livro – e isso eu tentei fazer, pois ninguém que compreende o tema melhor do que eu parece disposto ou capaz de fazê-lo. Idealmente, suponho, tal obra deveria ser escrita por um realizado e reconhecido mestre Zen. Porém, no momento, nenhuma dessas pessoas tem um comando suficiente do Inglês. Ademais, quando alguém fala de dentro de uma tradição, e especialmente de dentro de sua hierarquia institucional, há sempre a propensão de uma certa falta de perspectiva e posse de um ponto de vista exterior. Novamente, um dos maiores obstáculos na comunicação entre os mestres Zen Japoneses e os Ocidentais é a ausência de clareza para diferenciar as premissas culturais básicas. Ambos os lados estão tão “atados aos seus modos” que se tornaram inconscientes das limitações de seus meios de comunicação.

            Talvez, então, o mais apropriado autor de tal obra seria um Ocidental que esteve alguns anos sob um mestre Japonês, passando por todo o curso de treinamento Zen. Agora, do ponto de vista dos “conhecimentos científicos” Ocidentais, isso não poderia dar-se de forma alguma, pois tal pessoa tornou-se uma “entusiasta” e “partidária”, incapaz de uma visão objetiva e desinteressada. Mas, feliz ou infelizmente, o Zen é sobretudo uma experiência, não-verbal em seu caráter, sendo simplesmente inacessível através de abordagens puramente literárias e eruditas. Para saber o que o Zen é, e especialmente o que ele não é, não há alternativa além da prática, do experimento concreto com ele, para assim descobrir os significados subjacente às palavras. Entretanto, esses Ocidentais que passaram por algum tipo especial de treinamento seguido pelo Rinzai Zen tendem a tornarem-se “cautelosos” e não-comunicativos sob o princípio que

            Aqueles que sabem não falam;

            Aqueles que falam não sabem.

Embora, apesar de não “demonstrarem”, eles não “se calam” completamente. Por um lado, eles amariam compartilhar seus conhecimentos com os outros. Mas, por outro, eles estão convencidos que as palavras são essencialmente fúteis, e estão, além disso, sob um acordo de não discutir certos aspectos de seus treinamentos. Eles começam, portanto, a tomar a atitude caracteristicamente Asiática de “Venha e encontre por si mesmo.” Mas o Ocidental cientificamente treinado é, não sem razão, um sujeito cuidadoso e cético, que gosta de saber onde “adentra”. Ele está agudamente consciente da capacidade da mente de enganar a si mesma, de ir a locais onde a entrada é impossível sem deixar sua perspectiva crítica na porta. Os Asiáticos tendem a desprezar muito dessa atitude, e seus seguidores Ocidentais ainda mais, então se recusam a dizer ao inquiridor científico muitas coisas que ainda estão bem dentro das possibilidades do discurso humano e da compreensão intelectual.

            Escrever sobre o Zen é, assim, tão problemático para quem está de fora, um observador “objetivo” tanto quanto para alguém de dentro, um discípulo “subjetivo”. Em várias situações associei-me e estudei com os “observadores objetivos” e estou convencido que, por todas as suas virtudes, eles invariavelmente erram o ponto e comem o menu em vez do jantar. Eu também estive dentro de uma hierarquia tradicional – não Zen – e estou igualmente convencido que dessa posição a pessoa não sabe qual jantar está sendo comido. Em tal posição uma pessoa torna-se tecnicamente “idiota,” isto é, incomunicável com aqueles que não pertencem ao mesmo nível.

            É perigoso e absurdo para nosso mundo ser um grupo de comunhões mutualmente incomunicáveis. Isso é especialmente verdadeiro em relação às grandes culturas do Oriente e do Ocidente, onde as potencialidades de comunicação são as mais ricas, e os perigos da falha na comunicação os piores. Como alguém que gastou um pouco mais de vinte anos tentando interpretar o Oriente ao Ocidente, tive cada vez mais convicção que, para interpretar um fenômeno como o Zen, existe um princípio claro a ser seguido. Por um lado, é necessário ser simpático com o experimento pessoal com o modo de vida, no limite das possibilidades pessoais. Por outro, é necessário resistir à toda tentação de “ingressar na organização” e envolver-se com seus compromissos institucionais. Nessa amigável posição neutra a pessoa está apta a ser repudiada por ambos os lados. Porém, em seu pior, a deturpação de alguém provoca-os a expressarem-se mais claramente. Pois o relacionamento entre duas posições torna-se muito mais claro quando há um terceiro para compará-las. Assim, mesmo se esse estudo do Zen não fizer mais do que expressar um ponto de vista que não seja nem Zen, nem nada Ocidental, ele irá, pelo menos, fornecer tal ponto de referência.

            Entretanto, não deve haver dúvida que o ponto de vista essencial do Zen recusa-se a ser organizado, nem ser uma posse exclusiva de qualquer instituição. Se há algo nesse mundo que transcende às relatividades do condicionamento cultural, é o Zen – por qualquer nome que seja chamado. Essa é uma razão excelente para o Zen não ser institucionalizado, e para o fato que muitos de seus expoentes antigos serem “individualistas universais” que nunca foram membros de qualquer organização Zen, e nunca buscaram o reconhecimento de qualquer autoridade formal.

            Essa, então, é minha posição com respeito ao Zen – e sinto que devo ser franco com o leitor numa época em que há muita ansiedade em relação às credenciais ou “qualificações” de alguém. Não posso descrever a mim mesmo como um monge Zen, ou mesmo como um Budista, pois isso me pareceria como tentar vestir e rotular o céu. Não posso descrever-me como um acadêmico cientificamente objetivo, pois – com respeito ao Zen – isso soaria como estudar as músicas dos pássaros numa coleção de rouxinóis empalhados. Não clamo direitos para falar do Zen. Somente clamo o prazer de ter estudado a sua literatura e observado as suas formas de arte, desde que eu era apenas um garoto, e de ter tido o encanto de associação informal com vários viajantes Japoneses e Chineses do mesmo caminho sem sinalização.

            Esse livro propõe-se tanto para o leitor geral quanto para o estudante mais sério, e acredito que o primeiro será tolerante com o uso de alguma terminologia técnica, um apêndice de caracteres Chineses, e outros aparatos crítico mais úteis para aqueles que desejam explorar o tema mais profundamente. O livro está dividido em duas partes, a primeira lidando com o pano de fundo e a história do Zen, e a segunda com os seus princípios e práticas. As fontes de informação são de três tipos. Utilizei, em primeiro lugar, quase todos os estudos do Zen nas línguas europeias. Naturalmente, fiz considerável uso das obras do Professor D. T. Suzuki, porém, ao mesmo tempo, tentei não contar muito com elas – não por causa de algum defeito nelas, mas porque penso que os leitores têm direito a algo a mais, através de um novo ponto de vista, do que uma mera sumarização de suas visões.

            Em segundo lugar, baseei a visão essencial do Zen apresentada aqui num estudo cuidadoso dos mais importantes de seus registros primitivos Chineses, com referência especial a Hsin-hsin Ming, o T’an Ching ou Sutra do Sexto Patriarcado, o Lin-chi Lu, e Ku-tsun-hsü Yü-lu. Meu próprio conhecimento da dinastia Chinesa T’ang certamente não é suficiente, penso, para extrair o que preciso, que é uma visão clara da doutrina essencial. Em tudo isso, meus esforços foram grandemente ajudados por colegas e pesquisadores associados da Academia Americana de Estudos Asiáticos, e quero, em particular, expressar minha gratidão aos Professores Sabro Hasegawa e Gi-ming Shien, ao Dr. Paul e Dr. Georg Fung, Dr. Frederick Hong, Sr. Charles Yick, e ao Sr. Kazumitsu Kato, sacerdote da Escola Soto-Zen.

            Em terceiro lugar, minha informação é derivada de um grande número de encontros pessoais com professores e estudantes de Zen, ao longo de mais de vinte anos.

            Nas páginas seguintes, as traduções dos textos originais são minhas, salvo se indicadas de outra maneira. Para a conveniência daqueles que leem Mandarim, forneci, após a Bibliografia, um apêndice das formas originais Chinesas das citações mais importantes e termos técnicos. Penso que esses são quase essenciais para o estudante mais sério, pois mesmo entre os mais qualificados estudiosos há, ainda, muita incerteza em relação à tradução adequada dos textos Zen da dinastia T’ang. As referências a esse apêndice são feitas com letras sobrescritas em ordem alfabética.

            As referências a outras obras são feitas pelo sobrenome do autor e número, direcionando o leitor à Bibliografia para detalhes completos. Leitores eruditos terão que me desculpar por não usar as absurdas marcas diacríticas nas palavras Sânscritas romanizadas, pois elas são meramente confusas ao leitor em geral e desnecessárias ao conhecedor do Sânscrito que irá imediatamente lembrar-se da escrita Devanagari. Em relação aos nomes próprios dos mestres Zen e aos títulos dos textos Zen, eles são fornecidos em formas romanizadas do Mandarim ou Japonês, de acordo com o país de origem, e os termos técnicos são dados em Mandarim, exceto se usado numa discussão do Zen especificamente Japonês. Pois para o Mandarim um é quase que forçada pelo uso geral a adoção da romanização de Wade-Giles, a qual coloquei como apêndice uma tabela de pronúncia a seguir desse Prefácio, pois ela tem tão pouca relação com os sons de fato.

            Sou muitíssimo grato ao Sr. R. H. Blyth por sua gentil permissão de citar várias de suas traduções dos poemas haikus de sua magnífica antologia em quatro volumes, Haiku, publicada pela Editora Hokuseido em Tokyo; ao Professor Sabro Hasegawa por sua ajuda generosa em preparar a sobrecapa e ao prover as ilustrações; e a minha filha Joan pelas fotos de Ryoanji.

            Concluindo, estou muito feliz em expressar minha gratidão à Fundação Bollingen pela bolsa de estudos de três anos, durante os quais muito do estudo preliminar foi feito para a escrita desse livro.

Alan W. Watts

Mill Valley, Califórnia

Julho de 1956

PARTE UM

PANO DE FUNDO E HISTÓRIA

UM

A FILOSOFIA DO TAO

         O Zen Budismo é uma forma e uma visão da vida que não pertence a nenhuma das categorias formais do pensamento Ocidental moderno. Não é uma religião ou uma filosofia; não é uma psicologia ou um tipo de ciência. É um exemplo do que é conhecido na Índia e China como um “caminho de liberação,” e é similar, nesse aspecto, ao Taoísmo, ao Vedanta e a Ioga. Como logo será óbvio, um caminho de liberação pode não ter uma definição positiva. Ele tem que ser sugerido ao dizer o que ele não é, como o escultor revela uma imagem através do ato de remover pedaços de rochas de um bloco.

         Historicamente, o Zen pode ser considerado como o cumprimento de longas tradições das culturas Indianas e Chinesas, apesar de ser, realmente, muito mais Chinês do que Indiano, e, desde o século XII, ter-se enraizado profundamente e mais criativamente na cultura do Japão. Como fruto dessas grandes culturas, e como um exemplo único e peculiarmente instrutivo de uma forma de liberação, o Zen é um dos mais preciosos presentes da Ásia ao mundo.

         As origens do Zen são tanto Taoistas quanto Budistas, e, porque seu aroma é tão peculiarmente Chinês, talvez seja melhor começar indagando pela sua linhagem Chinesa – ilustrando, ao mesmo tempo, o que se quer dizer por forma de liberação tomando como exemplo o Taoísmo.

         Muito da dificuldade e mistificação que o Zen apresenta para o estudante Ocidental é o resultado da sua não familiaridade com os modos Chineses de pensar – modos que diferem surpreendentemente dos nossos e que, por essa razão, têm valor especial para ganharmos uma perspectiva crítica sobre nossas próprias ideias. O problema aqui não é simplesmente o de tornar-se um especialista em ideias diferentes, diferentes das nossas próprias como, digamos, as teorias de Kant diferem das de Descartes, ou àquelas dos Calvinistas diferem das Católicas. O problema é compreender as diferenças nas premissas básicas do pensamento e dos próprios métodos do pensar, e esses são tão frequentemente ignorados que nossas interpretações da filosofia Chinesa têm a tendência de serem projeções de ideias caracteristicamente Ocidentais na terminologia Chinesa. Essa é a desvantagem inevitável de estudar a filosofia Asiática pelos métodos puramente literários do conhecimento Ocidental, pois as palavras podem comunicar apenas entre aqueles que compartilham experiências similares.

         Não se deve ir tão longe e dizer que uma linguagem tão rica e sutil quanto o Inglês é simplesmente incapaz de expressar às ideias Chinesas. Pelo contrário, ela pode dizer muito mais do que alguns estudantes Chineses e Japoneses do Zen e Taoísmo, cuja familiaridade com o Inglês deixa algo a desejar, acreditam ser possível. A dificuldade não é tanto na linguagem quanto nos padrões de pensamento que pareciam até aqui inseparáveis da maneira acadêmica e científica de tratar um assunto. A inadequação desses padrões para temas tais como o Taoísmo ou o Zen é, em grande medida, responsável pela impressão que a “mente Oriental” é misteriosa, irracional e inescrutável. Ademais, não se deve supor que essas questões são tão peculiarmente Chinesas ou Japonesas que elas não têm ponto de contato com nada de nossa própria cultura. Embora seja verdade que nenhuma das divisões formais da ciência e do pensamento Ocidental correspondem a modos de liberação, o estudo maravilhoso de R. H. Blyth do Zen na Literatura Inglesa mostrou muito claramente que os conhecimentos essenciais do Zen são universais.

         A razão por que o Taoísmo e o Zen apresentam, à primeira vista, tal quebra-cabeça para a mente Ocidental é que nós tomamos uma visão restrita do conhecimento humano. Para nós, quase todo o conhecimento é o que um Taoista chamaria de conhecimento convencional, porque não sentimos que realmente sabemos de qualquer coisa ao menos que possamos representá-la para nós mesmos em palavras, ou algum outro sistema de signos convencional tal como a notação da matemática ou da música. Tal conhecimento é chamado código de comunicação. Assim como pessoas falantes da mesma linguagem têm concordâncias tácitas em relação a quais palavras devem estar para quais coisas, da mesma forma, os membros de toda sociedade e toda cultura estão unidos pelos laços de comunicação que dependem de todos os tipos de acordos tais como a classificação e a valoração das ações e coisas.

         Assim a função da educação é a de fazer as crianças adequarem-se a uma sociedade ao persuadi-las a aprender e aceitar os códigos – as regras e convenções da comunicação por meio da qual a sociedade mantém-se unida. Há, primeiro, a linguagem falada. A criança é ensinada a aceitar “árvore” e não “boojum” como o signo aceito para aquilo (apontando o objeto). Não temos dificuldade em entender que a palavra “árvore” é uma questão de convenção. O que é muito menos óbvio é que a convenção também governa a definição da coisa a qual a palavra é atribuída. Pois a criança deve ser ensinada não somente o que as palavras são para representar tais coisas, mas também a maneira a qual a sua cultura concordou tacitamente em dividir as coisas uma da outra, para marcar as fronteiras dentro de nossas experiências diárias. Assim as convenções científicas decidem se uma enguia é um peixe ou uma cobra, e as convenções gramaticais determinam quais experiências devem ser chamadas de objetos e quais devem ser chamadas de eventos ou ações. É possível ver quão arbitrárias tais convenções podem ser a partir da questão, “O que acontece com meu punho [nome-objeto] quando abro a minha mão?” O objeto miraculosamente desaparece porque uma ação foi disfarçada por uma parte do discurso usualmente atribuída a uma coisa! Em Inglês, as diferenças entre as coisas e as ações são claramente distintas, mesmo que nem sempre logicamente, porém, um grande número de palavras Chinesas remete tanto para um nome quanto para um verbo – assim, alguém que pensa em Chinês tem pouca dificuldade em ver que os objetos são também eventos, que nosso mundo é uma coleção de processos em vez de entidades.

         Além da linguagem, a criança tem que aceitar muitas outras formas de código. Pois as necessidades da vida em conjunto requerem acordos em relação às leis e éticas, etiqueta e arte, pesos, medidas e números, e, sobretudo, função. Temos dificuldade em comunicar um com o outro, ao menos que possamos identificar nós mesmos em termos de papéis – pai, professor, trabalhador, artistas, “pessoa normal,” cavalheiro, esportista e assim por diante. Até onde identificamo-nos com esses estereótipos e com as regras de comportamento associadas a eles, sentimos que somos alguém porque nossos colegas têm menos dificuldade em aceitar-nos – isto é, em identificar e sentir que estamos “sob controle”. Um encontro de dois estranhos em uma festa é sempre um tanto quanto embaraçoso quando o anfitrião não identificou os papéis deles apresentando-os, pois ninguém sabe quais regras de conversação e ação devem ser observadas.

         Mais uma vez, é fácil ver o caráter convencional dos papéis. Pois um homem que é um pai pode ser também um doutor e um artista, assim como um empregado e um irmão. E é óbvio que mesmo a soma total desses rótulos estará longe de suprir uma descrição adequada do próprio homem, mesmo que possa colocá-lo em certas classificações gerais. Mas as convenções que governam à identidade humana são mais sutis e muito menos óbvias do que essas. Aprendemos muito minuciosamente, apesar de muito menos explícito, a identificar-nos com uma visão igualmente convencional de “mim mesmo”. Pois o “eu” convencional, ou a “pessoa” é composta principalmente de uma história consistindo de memórias selecionadas, e iniciando a partir do momento do nascimento. De acordo com a convenção, não sou apenas o que estou fazendo agora. Eu também sou o que fiz, e minha versão convencionalmente editada do meu passado é feita para que o meu “eu” pareça quase mais real do que aquilo que sou nesse momento. Pois o que sou parece tão transitório e intangível, mas o que fui é fixo e final. É uma base firme para predições do que serei no futuro, e então eu estou mais intimamente identificado com o que não existe mais do que com o que realmente existe!

         É importante reconhecer que as memórias e os eventos passados que perfazem a identidade histórica de um homem não são mais que uma seleção. Da infinitude real de eventos e experiências algumas foram selecionadas – separadas – como significantes, e essa significância foi, claramente, determinada pelos padrões convencionais. Pois a própria natureza do conhecimento convencional é que ele é um sistema de abstrações. Ele consiste em signos e símbolos cujas coisas e eventos são reduzidos aos seus contornos gerais, como o caractere Chinês jena está para “homem” por ser a máxima simplificação e generalização da forma humana.

         O mesmo é verdade para palavras, mesmo as que não são ideogramas. As palavras Inglesas para “homem, “peixe, “estrela”, “flor”, “correr”, “crescer”, todas denotam classes de objetos ou eventos que podem ser reconhecidos como membros de suas classes por atributos muito simples, separados da total complexidade das próprias coisas.

         A abstração é, assim, quase uma necessidade para a comunicação, desde que ela nos capacita a representar nossas experiências com “compreensões” simples e rapidamente feitas da mente. Quando dizemos que podemos pensar apenas uma coisa por vez, isso é como dizer que o Oceano Pacífico não pode ser engolido em um gole. Ele tem que ser tomado num copo, e engolido aos poucos. As abstrações e os signos convencionais são como o copo; eles reduzem a experiência a unidades suficientemente simples para serem compreendidas uma por vez. De maneira similar, as curvas são medidas reduzindo-as a uma sequência de pequenas linhas retas, ou pensando-as nos termos dos quadrados que elas cruzam quando plotadas em papel grafado.

         Outros exemplos do mesmo processo são a fotografia de jornal e a transmissão da televisão. Na primeira, uma cena natural é reproduzida em termos de luz e pontos mais escuros arranjados nos padrões de tela ou de grade para dar uma impressão geral de uma fotografia em branco e preto quando vista sem uma lupa. Por mais que pareça a cena original, ela é apenas uma reconstrução da cena utilizando-se pontos, assim como nossas palavras convencionais e pensamentos são reconstruções da experiência utilizando-se signos abstratos. Ainda mais parecida com o processo de pensamento, a câmera de televisão transmite uma cena natural utilizando-se de uma série linear de impulsos que podem ser transmitidos por um fio.

         Assim a comunicação por signos convencionais desse tipo nos dá uma tradução abstrata, um-por-vez, de um universo onde as coisas acontecem todas-de-uma-vez – um universo cuja realidade concreta sempre escapa à descrição perfeita nesses termos abstratos. A descrição perfeita de uma pequena partícula de poeira por esses meios levaria uma eternidade, pois seria necessário explicar cada ponto em seu volume.

         O caráter linear, um-por-vez, do discurso e pensamento é particularmente perceptível em todas as linguagens que usam alfabetos, representando à experiência em longas séries de letras. Não é fácil dizer porque devemos comunicar com os outros (falar) e com nós mesmos (pensar) através desse método um-por-vez. A própria vida não evolui desse modo linear, ineficiente, e nossos organismos dificilmente poderiam viver por um momento se tivessem que se controlar pensando em cada respiração, cada batida do coração e cada impulso neural. Porém se buscamos alguma explicação para essa característica do pensamento, o sentido da visão oferece uma analogia sugestiva. Pois temos dois tipos de visão – central e periférica, assim como um holofote que ilumina num pequeno ângulo e outro que ilumina numa grande angulação. A visão central é usada para trabalhos de precisão como a leitura, na qual os nossos olhos estão focados numa pequena área de cada vez. A visão periférica é menos consciente, menos brilhante do que o raio intenso do holofote de pequeno ângulo. Nós a usamos para ver à noite, e para tomar nota “subconsciente” de objetos e movimentos que não estão na linha direta da visão central. Diferentemente do holofote de pequeno ângulo, ela pode encapsular muitas coisas num só momento.

         Existe, então, uma analogia – e talvez mais do que uma mera analogia – entre a visão central e a consciência, o pensamento um-por-vez, e entre a visão periférica e o processo um tanto quanto misterioso que nos capacita à regular a incrível complexidade dos nossos corpos sem pensar. Deve ser notado, ademais, que chamamos os nossos corpos complexos como um resultado do tentar compreendê-los em relação ao pensamento linear, de palavras e conceitos. Mas a complexidade não está tanto em nossos corpos quanto na tarefa de tentar compreendê-los por intermédio do pensamento. É como tentar discernir as características de um grande cômodo com nenhuma outra luz além de um único raio brilhante. É tão complicado como tentar beber água com um garfo, em vez de um copo.

         Nesse aspecto, a linguagem escrita Chinesa tem uma pequena vantagem sobre a nossa, e é talvez sintomático de uma forma diferente de pensar. Ainda é linear, ainda é uma série de abstrações tomadas uma de cada vez. Mas seus signos escritos são um pouco mais próximos da vida do que as palavras soletradas porque elas são essencialmente figuras, e, como um provérbio Chinês o coloca, “Um mostrar vale mais que centenas de provérbios.” Compare, por exemplo, a facilidade de mostrar a alguém como fazer um nó complexo com a dificuldade de dizer como fazê-lo apenas com palavras.

         Hoje em dia a tendência geral da mente Ocidental é a de sentir que nós realmente não compreendemos o que não podemos representar, o que não podemos comunicar, por signos lineares – pelo pensamento. Somos como uma “pessoa inibida” que não consegue aprender uma dança ao menos que alguém desenhe o diagrama dos passos, que não consegue “pegá-los pelo sentimento”. Por alguma razão não acreditamos e não usamos totalmente a “visão periférica” das nossas mentes. Aprendemos música, por exemplo, ao restringir todo o alcance de tons e ritmos a uma notação de intervalos tonais e rítmicos fixos – uma notação que é incapaz de representar a música Oriental. Mas o músico Oriental tem uma notação simples que usa apenas para relembrar de uma melodia. Ele aprende música, não através da leitura das notas, mas ao ouvir à performance de um professor, sentindo-a e copiando-o, e isso o capacita a adquirir sofisticações rítmicas e tonais equiparadas apenas por aqueles artistas de jazz Ocidentais que utilizam a mesma abordagem.

            Não estamos sugerindo que os Ocidentais simplesmente não utilizam a “mente periférica”. Sendo humanos, utilizamos-na a todo o momento, e todo artista, trabalhador e atleta emprega algum desenvolvimento especial de seus poderes. Mas ela não é academicamente e filosoficamente respeitável. Começamos, dificilmente, a compreender suas possibilidades e raramente, se alguma vez, ocorre-nos que um de seus usos mais importantes é para aquele “conhecimento da realidade” que buscamos alcançar através dos difíceis cálculos da teologia, metafísica e da inferência lógica.

            Quando nos voltamos para a sociedade Chinesa antiga, encontramos duas tradições “filosóficas” atuando em complementariedade – o Confucionismo e o Taoísmo. Falando geralmente, o primeiro relaciona-se com as convenções linguísticas, éticas, legais e rituais que provêem à sociedade o seu sistema de comunicação. O Confucionismo, em outras palavras, preocupa-se com o conhecimento convencional, e sob seus auspícios as crianças são educadas para que suas naturezas erráticas e caprichosas se adequem ao leito Procustiano da ordem social. O indivíduo define a si mesmo e seu lugar na sociedade em relação à fórmula Confuciana.

            O Taoísmo, por outro lado, é geralmente a busca dos homens mais velhos, e especialmente de homens que estão se aposentando da vida ativa na comunidade. A aposentadoria deles da sociedade é um tipo de símbolo externo da liberação interna dos laços dos padrões convencionais de pensamento e conduta. Pois o Taoísmo preocupa-se com o conhecimento não convencional, com o entendimento da vida diretamente, em vez dos termos abstratos e lineares do pensamento representacional.

            O Confucionismo preside, então, sobre a tarefa socialmente necessária de forçar a espontaneidade original da vida em regras rígidas de convenção – uma tarefa que envolve não somente conflito e dor, mas também a perda daquela naturalidade peculiar e da não-auto-consciência pelas quais as crianças são tão amadas, e que são, às vezes, recuperadas pelos santos e sábios. A função do Taoísmo é a de desfazer o inevitável dano dessa disciplina, e não somente restaurar, mas também desenvolver à espontaneidade original, que é chamada de tzu-janb ou “naturalidade” [self-so-ness]. Pois a espontaneidade de uma criança ainda é infantil, como tudo em relação a ela. A sua educação estimula sua rigidez, mas não sua espontaneidade. Em certas naturezas, o conflito entre a convenção social e a espontaneidade reprimida é tão violenta que ela se manifesta no crime, insanidade e neurose, que são os preços que pagamos pelos benefícios, sob outros aspectos, indubitáveis da ordem.

            Porém o Taoísmo não deve ser considerado como uma revolução contra a convenção, embora ele tenha sido, às vezes, usado como pretexto para a revolução. O Taoísmo é uma forma de liberação, que nunca acontece através da revolução, pois é notório que a maioria das revoluções estabelecem tiranias piores do que destrói. Ser livre da convenção não é desprezá-la, mas não ser enganado por ela. É ser capaz de utilizá-la como um instrumento, em vez de ser utilizado por ela.

            O Ocidente não tem uma instituição reconhecida correspondente ao Taoísmo porque nossa tradição espiritual Hebreu-Cristã identifica o Deus-Absoluto – com a ordem moral e lógica da convenção. Isso pode, quase, ser chamada de uma considerável catástrofe cultural, porque valoriza a ordem social com autoridade excessiva, convidando justamente àquelas revoluções contra a religião e a tradição que foram tão características da história Ocidental. É uma coisa sentir-se em conflito com as convenções socialmente sancionadas, mas totalmente outra sentir-se desconfortável com a própria raiz e solo da vida, com o próprio Absoluto. Este último sentimento promove um senso de culpa tão absurdo que deve resultar ou na negação da própria natureza ou na rejeição de Deus. Porque a primeira dessas alternativas é essencialmente impossível – como mastigar o próprio dente – a segunda torna-se inevitável, quando tais paliativos como a confissão não são mais efetivos. Como é da natureza das revoluções, a revolução contra Deus dá lugar à tirania pior do estado absolutista – pior porque não pode perdoar e porque não reconhece nada além dos poderes de sua própria jurisdição. Pois enquanto esta é teoricamente verdadeira em relação à Deus, seu representante terreno, a Igreja, esteve sempre preparada para admitir que, embora as leis de Deus fossem imutáveis, ninguém poderia presumir os limites de Sua piedade. Quando o trono do Absoluto é deixado vazio, o relativo usurpa-o e comete a idolatria real, a indignidade real contra Deus – a absolutização de um conceito, uma abstração convencional. Porém é improvável que o trono ficaria vazio se, num certo sentido, ele já não estivesse – se a tradição Ocidental, de alguma maneira, tivesse apreendido o Absoluto diretamente, fora dos termos da ordem convencional.

            É claro que a própria palavra “Absoluto” nos sugere algo abstrato e conceitual, tal como o “Ser Puro”. Nossa própria ideia de “espírito” como oposta à “matéria” parece ter mais parentesco com o abstrato do que com o concreto. Mas com o Taoísmo, assim como outros caminhos de liberação, o Absoluto nunca deve ser confundido com o abstrato. Por um lado, se dizemos que o Tao,c como a Realidade essencial é chamada, é o concreto em vez do abstrato, isso pode levar a ainda outras confusões. Pois estamos acostumados à associar o concreto com o material, o fisiológico, o biológico e o natural, como distintos do sobrenatural. Porém da posição Taoista e Budista esses ainda são termos para as esferas convencionais e abstratas do conhecimento.

            A biologia e a fisiologia, por exemplo, são tipos de conhecimento que representam o mundo real em termos de suas próprias categorias abstratas especiais. Elas medem e classificam esse mundo de maneira apropriada para os usos particulares que querem fazer, assim como o agrimensor lida com a terra em termos de acres, um fornecedor em termos de carga ou toneladas e um analista de solo em classes de estruturas químicas. Dizer que a realidade concreta do organismo humano é fisiológico é como dizer que a terra é uma porção de toneladas e acres. E dizer que essa realidade é natural é suficientemente exato se queremos dizer espontânea (tzu-jan) ou natureza naturante. Mas é totalmente impreciso se queremos dizer natureza naturata, isto é, natureza classificada, arranjada em “naturezas” quando como perguntamos “Qual a natureza dessa coisa?” É nesse sentido da palavra que devemos pensar o “naturalismo científico”, uma doutrina que não tem nada em comum com o naturalismo do Taoísmo.

            Assim, para começar a entender o propósito do Taoísmo, devemos estar, pelo menos, preparados para admitirmos a possibilidade de alguma outra visão de mundo para além da convencional, algum outro conhecimento além dos conteúdos da nossa consciência superficial, que pode apreender a realidade somente na forma de uma abstração (ou pensamento, o Chinês niend) por vez. Não há dificuldade real nisso, pois já admitimos que “sabemos” como mover nossas mãos, como fazer uma decisão ou como respirar, mesmo que seja difícil começar a explicar como os fazemos em palavras. Sabemos como fazê-los porque simplesmente os fazemos! O Taoísmo é uma extensão desse tipo de sabedoria, uma extensão que nos dá uma visão muito diferente de nós mesmos daquela que estamos convencionalmente acostumados, e uma visão que liberta a mente humana da sua identificação constringida com o ego abstrato.

            De acordo com a tradição, o criador do Taoísmo, Lao Tzé, foi um contemporâneo mais velho de Kung Fu-tzu, ou Confúcio, que morreu em 479 a.C1. Lao-Tzé é considerado o autor do Tao Te Ching, um pequeno livro de aforismos, expressando os princípios do Tao e seu poder ou virtude (T e e). A filosofia tradicional Chinesa atribui tanto o Taoísmo quanto o Confucionismo a uma fonte anterior, a uma obra que se encontra na própria formação da cultura e do pensamento Chinês, datando de algum momento entre 3000 e 1200 a.C. Esse é o I Ching, o Livro das Mutações.

            O I Ching é ostensivamente um livro divinatório. Ele consiste de oráculos baseados em sessenta e quatro figuras abstratas, cada uma composta de seis linhas. As linhas são de dois tipos – divididas (negativo) e inteiras (positivo) – e acredita-se que as figuras de seis linhas, ou hexagramas, foram baseadas nas várias formas cujo casco de uma tartaruga se quebra quando aquecido.2 Isso refere-se a um método antigo de divinação no qual o profeta furava a parte de trás da casca de tartaruga, esquentava-a, e então previa o futuro a partir das rachaduras formadas no casco, assim como os quiromantes usam as linhas das mãos. Naturalmente essas rachaduras eram extremamente complicadas, e os sessenta e quatro hexagramas eram supostamente simplificações dos vários padrões das rachaduras. Há muitos séculos o casco de tartaruga caiu em desuso, e, em vez disso, o hexagrama apropriado ao momento que a questão é feita ao oráculo é determinado pela divisão aleatória de um conjunto de cinquenta caules de milefólio.

            Porém, um especialista no I Ching não necessita necessariamente usar o casco de tartaruga ou os caules de milefólios. Ele pode “ver” um hexagrama em qualquer coisa – no arranjo randômico de um vaso com flores, nos objetos espalhados sobre a mesa, nas marcas naturais de um pedregulho. Um psicólogo moderno irá reconhecer nisso algo não muito diferente do teste de Rorschach, no qual a condição psicológica do paciente é diagnosticada a partir da imagem espontânea que ele “vê” numa complexa mancha de tinta. Se o paciente puder interpretar suas próprias projeções sobre a mancha de tinta, ele terá algumas informações úteis sobre si mesmo como orientação para sua conduta futura. Em vista disso, não podemos rejeitar a arte divinatória do I Ching como mera superstição.

            De fato, um expoente do I Ching pode nos dar um argumento robusto sobre os méritos relativos das nossas formas de tomar importantes decisões. Sentimos que decidimos racionalmente porque baseamos nossas decisões na coleção de informação relevante sobre a matéria disponível. Não dependemos de ninharias irrelevantes como o arremesso aleatório de uma moeda, ou os padrões das folhas de chá ou rachaduras num casco. Entretanto, ele pode perguntar se nós realmente sabemos qual informação é relevante, desde que nossos planos são constantemente transtornados por incidentes totalmente imprevisíveis. Ele pode perguntar como sabemos quando coletamos informação necessária para podermos decidir. Se formos rigorosamente “científicos” na coleta da informação para nossas decisões, isso pode levar muito tempo para que coletemos às informações, tanto que o momento para a ação poderia passar, muito antes de o trabalho estar completo. Então como sabemos quando temos o suficiente? A própria informação nos diz que é suficiente? Pelo contrário, fazemos o trabalho mecânico de recolha da informação necessária de forma racional, e então, somente por causa de um palpite, ou porque estamos cansados de pensar, ou porque é tempo de decidir, agimos. Ele perguntaria se isso não depende de “ninharias irrelevantes” tanto quanto se nós estivéssemos jogando os caules de milefólio.

            Em outras palavras, o método “rigorosamente científico” de predizer o futuro pode ser aplicado apenas em casos especiais – onde a rápida ação não é urgente, onde os fatores envolvidos são amplamente mecânicos, ou em circunstâncias tão restritas que as tornam triviais. Quase todas as nossas decisões importantes dependem do “palpite” – em outras palavras, da “visão periférica” da mente. Assim, a confiabilidade das nossas decisões repousa, essencialmente, na nossa habilidade de “sentir” a situação, de acordo com o grau cuja essa “visão periférica” foi desenvolvida.

            Todos os expoentes do I Ching sabem disso. Eles sabem que o próprio livro não contém uma ciência exata, mas antes uma ferramenta importante que trabalhará para eles se tiverem uma boa “intuição”, ou se, como diriam, eles estão “no Tao”. Assim ninguém consulta o oráculo sem uma preparação adequada, sem passar, quieta e meticulosamente, pelos rituais prescritos para trazer à mente para aquele estado calmo onde é possível sentir que a “intuição” age mais eficientemente. Parece, então, que se a origem do Taoísmo é encontrada no I Ching, ela não está no livro ele próprio, mas sim na maneira que foi usada e nas hipóteses subjacentes a ela. Pois a experiência em tomar decisões pela intuição pode mostrar bem que esse aspecto “periférico” da mente trabalha melhor quando não tentamos interferi-lo, quando confiamos que ele trabalhará por si mesmo – tzu-jan, espontaneamente, “naturalmente”.

            Assim os princípios básicos do Taoísmo começam a se revelar. Existe, em primeiro lugar, o Tao – o indefinível, o “processo” concreto do mundo, a Maneira da vida. A palavra Chinesa quer dizer originalmente um caminho ou estrada, e, às vezes, “falar”, tanto que a primeira linha do Tao Te Ching contém um trocadilho sobre os dois significados:

O Tao que pode ser dito não é o Tao eterno. 3 f

Mas ao tentar ao menos sugerir o que ele quer dizer, Lao Tzé diz:

Havia algo vago antes de surgirem os céus e a terra. Tão calmo! Tão vazio! Mantém-se a sós, imutável; age em toda parte, incansável. Pode ser considerado a mão de tudo sob o céu. Não sei seu nome, mas chame-o pela palavra Tao. (25)

E novamente:

         O Tao é algo turvo e indistinto.

         Tão indistinto! Tão turvo!

         Entretanto, dentro dele há imagens.

         Tão turvas! Tão indistintas!

         Entretanto, dentro dele há coisas.

         Tão foscas! Tão confusas!

         Entretanto, dentro dele há poder mental.

         Porque seu poder é o mais verdadeiro,

         Dentro dele há confiança. (21)

            “Poder Mental” é ching,g uma palavra que combina com as ideias de essencial, sutil, psíquico ou espiritual e hábil. Pois a própria cabeça parece não ser nada aos olhos, apesar de ser a fonte da inteligência, por isso o Tao vago, vazio e indefinido é a inteligência que forma o mundo com uma habilidade acima da nossa compreensão.

         A diferença importante entre o Tao e a ideia usual de Deus é que enquanto este produz o mundo fazendo (weih), o Tao o produz “não-fazendo” (w u-w e ii) – que é aproximadamente o que entendemos por “crescimento”. Pois as coisas feitas são partes separadas unidas, como máquinas, ou coisas moldadas sem interior, como esculturas. Ao passo que as coisas que crescem dividem-se em partes, de dentro para fora. Porque o universo natural opera principalmente de acordo com os princípios do crescimento, seria muito estranho para a mente Chinesa perguntar como ele foi feito. Se o universo foi feito, haveria, é claro, alguém que saberia como ele foi feito – que poderia explicar como ele foi unido peça por peça, como um técnico pode explicar, em palavras uma por vez, como montar uma máquina. Porém, um universo que cresce exclui totalmente a possibilidade de saber como ele cresce nos termos desajeitados do pensamento e da linguagem, por isso nenhum Taoista sonharia em perguntar se o Tao sabe como produz o universo. Pois ele opera de acordo com a espontaneidade, não de acordo com um plano. Lao Tzé diz:

         O princípio do Tao é a espontaneidade. (25) j

         Mas a espontaneidade não é uma motivação cega, desordeira, um mero poder do capricho. Uma filosofia restrita às alternativas da linguagem convencional não tem como conceber uma inteligência que não trabalha de acordo com um plano, de acordo com uma (uma-por-vez) ordem de pensamento. Entretanto, a evidência concreta de tal inteligência é admissível em nossos próprios corpos organizados inconscientemente.3a Pois o Tao não “sabe” como ele produz o universo, assim como não “sabemos” como construir nossos cérebros. Nas palavras do grande sucessor de Lao Tzé, Chuang Tzu:

            As coisas são produzidas ao redor de nós, mas ninguém sabe a fonte. Elas aparecem, mas ninguém vê o portal. Todos os homens valoram aquela parte do conhecimento que é conhecida. Eles não sabem como avaliar a si mesmos e o Desconhecido como meios de atingir o conhecimento. Isso não é enganoso?4

            O relacionamento convencional do conhecedor ao conhecido é frequentemente tal como a do controlador e o controlado, e assim como a do senhor e do servo. Assim, enquanto Deus é o mestre do universo, pois “ele sabe sobre tudo! Ele sabe! Ele sabe!” o relacionamento do Tao com aquilo que ele produz é totalmente diferente.

         O grande Tao flui por todo lugar,

         a esquerda e a direita.

         Todas as coisas dependem dele para existir,

         e ele não as abandona.

         Ele não reivindica às suas realizações.

         Ele ama e nutre todas as coisas,

         mas não se assenhoreia delas. (34)

            Na concepção usual Ocidental, Deus é também auto-cognoscível – completamente transparente a seu próprio entendimento, a imagem do que homem poderia ser: o governante e controlador consciente, o ditador absoluto de sua mente e corpo. Porém, em contraste com isso, o Tao é completamente misterioso e escuro (hsüan k). Como um Zen Budista disse há algum tempo:

         Há uma coisa: acima, ela suporta o Céu; abaixo, ela sustenta a Terra. É negra como laca, sempre ativamente funcionando.5 1

            Hsüan é, claro, uma escuridão metafórica – não a escuridão da noite, do negro como oposto ao branco, mas o inconcebível transparente que confronta a mente quando esta tenta relembrar o tempo anterior ao nascimento, ou penetrar suas próprias profundezas.

         Os críticos Ocidentais frequentemente ridicularizam tais visões nebulosas sobre o Absoluto, caçoando-as como “nubladas e místicas” em contraste com suas opiniões robustamente definidas. Mas como Lao Tzé diz:

         Quando o homem superior ouve sobre o Tao,

         faz o melhor para praticá-lo.

         Quando o homem mediano ouve sobre o Tao,

         às vezes o mantém, às vezes o perde.

         Quando o homem inferior ouve sobre o Tao,

          rirá alto.

          Se não rir, não seria o Tao. (41)

            Pois é realmente impossível apreciar o que se quer dizer com o Tao sem tornar-se, num sentido um tanto quanto especial, estúpido. Enquanto o intelecto consciente está freneticamente tentando agarrar o mundo em sua rede de abstrações, e insistindo que a vida seja unida e adequada às suas categorias rígidas, a disposição do Taoísmo permanecerá incompreensível; e o intelecto exaurir-se-á. O Tao é acessível apenas à mente que pode praticar a arte simples e sutil do wu-wei, que, depois do Tao, é o segundo princípio importante do Taoísmo.

         Vimos que o I Ching deu à mente Chinesa alguma experiência em alcançar decisões espontaneamente, decisões que são efetivas a um grau que é possível saber como deixar a mente a sós, confiando em seu próprio trabalho. Isso é wu-wei, desde que wu quer dizer “não” e wei quer dizer “ação,” “fazer”, “esforçar”, “empenhar” ou “ocupar”. Para retornar ao exemplo da visão, a visão periférica atua mais eficientemente – como se no escuro – quando vemos com os cantos dos olhos, e não olhamos para as coisas diretamente. Similarmente, quando precisamos ver os detalhes de um objeto distante, tal como um relógio, os olhos devem estar relaxados, não fixos, não tentando ver. Assim, também, não importa o quanto trabalhamos com os músculos da boca e da língua, isso não nos permitirá sentir nosso alimento mais intensamente. É necessário confiar no trabalho dos olhos e da língua.

         Mas quando aprendemos a colocar uma confiança excessiva na visão central, no nítido holofote dos olhos e da mente, não podemos ganhar novamente os poderes da visão periférica, ao menos que o tipo de visão nítida e fixa esteja, primeiramente, relaxada. O equivalente mental ou psicológico disso é um tipo especial de estupidez a qual Lao Tzé e Chuang Tzu frequentemente referem-se. Não é apenas calmaria da mente, mas “não-apreensão” da mente. Nas palavras de Chuang Tzu, “O homem perfeito emprega sua mente como um espelho. Não apreende nada; não recusa nada. Recebe, mas não mantém.” Alguém diria que ela “cobre-se” um pouco para compensar uma claridade tão desagradável. Assim Lao Tzé diz de si mesmo:

            Corte o engenho e não haverá ansiedades! …

            As pessoas em geral são tão felizes, como se desfrutassem de um banquete,

            Ou como o subir de uma torre na primavera.

            Sozinho estou tranquilo, e não faço signos,

            Como um bebê que ainda não é capaz de sorrir;

            Abandonado como se não tivesse casa para ir.

            Todos os outros têm mais do que o suficiente,

            E eu a sós pareço estar na falta.

            Possivelmente a minha mente é a de um tolo,

            Que é tão ignorante!

            Os vulgares são brilhantes,

            E eu a sós pareço ser indiferente.

            O vulgar discrimina,

            E eu a sós pareço ser obtuso.

            Sou negligente como se fosse obscuro;

            Errante, como se anexado ao nada.

            As pessoas em geral todas têm algo a fazer,

            E eu a sós pareço inútil e desajeitado.

            Eu a sós sou diferente dos outros,

            Mas valorizo a busca do sustento na Mãe (Tao).

            (20)6

            Na maioria dos escritos Taoistas há um pequeno grau de exagero ou ampliação do ponto que é, de fato, um tipo de humor, uma auto-caricatura. Assim Chuang Tzu escreve sobre o mesmo tema:

            O homem de caráter (te) vive em casa sem exercer sua mente e executa ações sem preocupações. As noções de certo e errado e o elogio e a censura dos outros não o perturbam. Quando dentro dos quatro oceanos todas as pessoas puderem apreciar a si mesmas, isso é a felicidade para ele…. Pesaroso no semblante, parece um bebê que perdeu sua mãe; parecendo estúpido, circula com alguém que perdeu seu caminho. Tem dinheiro em abundância para gastar, mas não sabe de onde esse veio. Ele bebe e come apenas o suficiente, e não sabe de onde veio a comida.

(3:13)7

Lao Tzé é ainda mais enérgico nessa aparente condenação da inteligência convencional:

         Corte fora a sagacidade; descarte a sabedoria,

         e as pessoas vão beneficiar-se cem vezes.

         Corte fora a “humanidade”; descarte a retidão,

         E as pessoas reganharão o amor por seus companheiros.

         Corte fora a inventividade; descarte o utilitário,

         e não existirão ladrões e salteadores….

         Torne-se impassível;8

             Estime a sinceridade;

         Subestime o pessoal;

         Reduza o desejo. (19)

         A ideia não é a de reduzir a mente humana a uma vacuidade estúpida, mas de ativar sua inteligência espontânea e inata ao usá-la sem forçá-la. É fundamental tanto para o pensamento Taoista quanto para o Confucionista que o homem natural deve ser confiado, e, do ponto de vista deles, parece que a desconfiança Ocidental em relação à natureza humana – seja teológica ou tecnológica – é um tipo de esquizofrenia. Seria impossível, na visão deles, acreditar que alguém é inatamente maligno sem descreditar esta própria crença, pois todas as noções de uma mente pervertida seriam noções pervertidas. Apesar de religiosamente “emancipada”, a mente tecnológica mostra que herdou a mesma divisão contra si mesma quando tenta sujeitar toda a ordem humana ao controle da razão consciente. Ela esquece que a razão não pode ser confiável se o cérebro não pode ser confiável, pois os poderes da razão dependem de órgãos que crescem da “inteligência inconsciente”.

         A arte de deixar a mente a sós é vividamente descrita por outro escritor Taoista, Lieh Tzu (cerca de 398 a.C), celebrado por seu poder misterioso de viajar com o vento. Isso refere-se, sem dúvida, à sensação peculiar de “andar no ar” que surge quando a mente é liberada pela primeira vez. Diz-se que quando o Professor D. T. Suzuki foi, certa vez, perguntado sobre a sensação alcançada no satori,o a experiência de “despertar” do Zen, ele respondeu, “Assim como a experiência ordinária de todos os dias, exceto por estar duas polegadas acima do chão!” Assim, quando indagado a explicar a arte de viajar no vento, Lieh Tzu fez o seguinte relato de seu treinamento sob seu mestre Lao Shang:

Depois de o ter servido … por três anos, minha mente não se aventurava em refletir sobre o certo e o errado, meus lábios não se aventuravam a falar de lucros e perdas. Então, pela primeira vez, meu mestre me concedeu um olhar – e foi tudo.

No final de cinco anos uma chance se deu: minha mente estava refletindo sobre o certo e o errado, e meus lábios estavam falando de lucros e perdas. Então, pela primeira vez, meu mestre relaxou sua contenção e sorriu.

No final de sete anos, houve outra mudança. Deixei minha mente refletir sobre o que ela quisesse, porém ela não se ocupava mais com o certo e o errado. Deixei meus lábios pronunciarem quaisquer coisas que eles gostassem, mas eles não falavam mais de lucros e perdas. Então, finalmente, meu mestre levou-me para sentar no tapete ao seu lado.

No final de nove anos, minha mente dava rédea livre às suas reflexões,p minha boca passagem livre ao seu discurso. Do certo e do errado, lucros e perdas, eu não tinha conhecimento, tanto em relação a mim quanto aos outros…. Interno e externo foram combinados numa unidade. Depois disso, não havia distinção entre olho e ouvido, ouvido e nariz, nariz e boca: todos eram iguais. Minha mente estava congelada, meu corpo em dissolução, minha carne e ossos todos fundidos juntos. Eu estava completamente inconsciente sobre o que meu corpo se apoiava, ou sobre o que estava abaixo de meus pés. Eu era carregado para esse lado ou para o outro pelo vento, como a palha seca ou as folhas que caem de uma árvore. De fato, eu não sabia se o vento me carregava ou eu a ele.

O estado de consciência descrito soa como uma agradável embriaguez – embora sem os efeitos da “ressaca” do álcool! Chuang Tzu notou a similaridade, pois escreveu:

Um homem bêbado que cai de uma carroça, embora possa sofrer, não morre. Seus ossos são iguais aos das outras pessoas; mas ele encontra com o acidente de uma maneira diferente. O seu espírito está numa condição de segurança. Ele não está consciente que viaja numa carroça; nem está consciente ao cair dela. As ideias sobre a vida, morte, medo, etc. não podem penetrar seu seio; e então ele não sofre do contato com existências objetivas. E se tal segurança é retirada do vinho, quão maior a que é retirada da Espontaneidade. (19)10

            Como Lao Tzu, Chuang Tzu e Lieh Tzu foram todos suficientemente conscientes para escrever livros muito inteligíveis, assume-se que parte dessa linguagem é, novamente, exagerada ou metafórica. A “inconsciência” deles não é o coma, porém o que expoentes do Zen significaram, depois, por wu-hsin,q literalmente “não-mente”, ou seja, não-auto-consciência. É um estado de totalidade no qual a mente funciona livre e facilmente, sem a sensação de uma segunda mente ou ego nas cercanias com um taco. Se ao homem ordinário é necessário levantar as pernas conjuntamente com as mãos para andar, o Taoista é alguém que aprendeu a deixar as pernas andarem por si mesmas.

         Várias passagens nos escritos Taoistas sugerem que a “não-mente” emprega toda a mente, como usamos os olhos quando os repousamos em vários objetos, mas não fazemos um esforço especial para destacar nenhum. De acordo com Chuang Tzu:

O bebê olha para coisas o dia todo sem piscar; isso porque seus olhos não estão focados em nenhum objeto em particular. Ele vai sem saber para onde vai, e para sem saber o que está fazendo. Ele se une com o arredor e se move com este. Esses são os princípios da higiene mental.(23)11

E novamente:

Se regula teu corpo e unifica tua atenção, a harmonia do céu vir-te-á. Se integra tua consciência, e unifica teus pensamentos, o espírito far-te-á moradia. Te (a virtude) irá vestir-te, e o Tao abrigar-te-á. Teus olhos serão os de um filhote recém-nascido, que não procura razões. (22)

            Cada um dos outros sentidos pode, similarmente, ser usado para ilustrar o funcionamento “não-ativo” da mente – ouvir sem se esforçar para ouvir, cheirar sem inalação profunda, degustar sem torcer a língua e tocar sem pressionar o objeto. Cada um é uma instância especial da função mental que trabalha através de todos, e que os Chineses designam com a palavra peculiar hsin.r

         Esse termo é tão importante para a compreensão do Zen que é necessário tentar dizer o que o pensamento Taoista e Chinês, em geral, quer dizer por hsin.12 Usualmente traduzimo-lo como “mente” ou “coração”, mas nenhuma dessas palavras é satisfatória. A forma original do ideograma8 parece ser uma figura do coração, ou talvez dos pulmões ou fígado, e quando um Chinês fala de hsin ele irá, frequentemente, apontar para o centro do seu peito, um pouco abaixo do coração.

         A dificuldade com as nossas traduções é que “mente” é muito intelectual, muito cortical, e que “coração” em seu uso corrente em Inglês é muito emocional – mesmo sentimental. Ademais, hsin não é sempre utilizado no mesmo sentido. Às vezes é utilizado para uma obstrução a ser removida, como em wu-hsin, “não-mente”. Mas, outras vezes, é utilizado de uma forma que é quase sinônima de Tao. Isso é encontrado especialmente na literatura Zen, que é abundante de frases tais como “mente original” (pen hsin t), “mente de Buda” (fu hsin u), ou “fé na mente” (hsin hsin v). Essa contradição aparente é resolvida no princípio: “a verdadeira mente é a não-mente”, que é o mesmo que dizer que hsin é verdadeira, trabalha adequadamente quando opera como se não estivesse presente. Da mesma maneira, os olhos veem adequadamente quando não veem a si mesmos, em termos de borrões e manchas no ar.

         Considerando isso tudo, parece que hsin quer dizer a totalidade do nosso funcionamento psíquico, e, mais especificamente, o centro deste funcionamento, que é associado com o ponto central do corpo superior. A forma Japonesa da palavra, kokoro, é usada com ainda mais sutilezas de significados, mas, no momento, é suficiente perceber que ao traduzi-la por “mente” (uma palavra suficientemente vaga) não queremos dizer exclusivamente da mente intelectual ou pensante, nem mesmo a consciência superficial. O importante é que, de acordo com o Taoísmo e o Zen, o centro da atividade da mente não está no processo consciente do pensar, não está no ego.

         Quando um homem aprende a deixar sua mente a sós para que esta funcione da maneira integrada e espontânea que lhe é natural, ele começa a mostrar o tipo especial de “virtude” ou “poder” chamado te. Essa não é a virtude no sentido corrente de retidão moral, porém no sentido antigo de efetividade, como quando alguém fala sobre as virtudes curativas de uma planta. Te é, ademais, uma virtude impassível ou espontânea, que não pode ser cultivada ou imitada por qualquer método deliberado. Lao Tzé diz:

         O te superior não é te,

         e, por isso, contém te.

         O te inferior não libera o te,

         e, por isso, não é te.

         O te superior é não-ativo [wu-wei] e sem propósito.

         O te inferior é ativo e tem um propósito.

A tradução literal tem uma força e profundidade que é perdida em paráfrases tais como “A virtude superior não é consciente de si mesma como uma virtude, e assim realmente é uma virtude. A virtude inferior não pode dispensar à virtuosidade, e, por isso, não é uma virtude.”

         Quando os Confucionistas prescreviam uma virtude que dependia de uma observância artificial das regras e preceitos, os Taoistas apontavam que tal virtude era convencional e não genuína. Chuang Tzu inventou o seguinte diálogo imaginário entre Confúcio e Lao Tzé:

“Diga-me”, disse Lao Tzé, “no que consiste a caridade e o dever para com um semelhante?”

“Consiste,” respondeu Confúcio, “na capacidade de celebração por todas as coisas; no amor universal, sem o elemento do ego. Essas são as características da caridade e dever para com um semelhante.”

“Que coisa!” Gritou Lao Tzé. “O amor universal não contradiz a si mesmo? A sua eliminação do ego não é uma manifestação positiva do ego? Se lhe agradar que o império perca a sua fonte de nutrição – há o universo, sua regularidade incessante; há o sol e a lua, sua claridade incessante; as estrelas, seus agrupamentos nunca mudam; os pássaros e as bestas, eles caminham juntos sem variação; as árvores e arbustos, que crescem para cima sem exceção. Seja como esses: siga o Tao, e você será perfeito. Por que então essas lutas vãs por caridade e dever a um semelhante, como se tocasse um tambor na busca de um fugitivo. Ai de mim! O Senhor trouxe muita confusão para a mente do homem.” (13)13

A crítica Taoista à virtude convencional aplica-se não apenas à esfera moral mas também às artes, ofícios e trocas. De acordo com Chuang Tzu:

Ch’ui, o artesão, pode desenhar círculos com sua mão melhor do que com compassos. Seus dedos parecem acomodar-se tão naturalmente a coisa que ele está trabalhando, que é desnecessário fixar sua atenção. Suas faculdades mentais permanecem, assim, Unas (isto é, integradas), e não sofrem obstruções. Estar inconsciente em relação aos pés implica que os sapatos são confortáveis. Estar inconsciente da cintura implica que a cinta é confortável. A inteligência inconsciente do positivo e do negativo, implica que o coração (hsin) está à vontade….E aquele que, começando confortável, não está nunca desconfortável, está inconsciente do conforto do conforto. (19)14

            Assim como o artesão que se especializou no te pode desenhar sem a artificialidade do compasso, também o pintor, o músico e o cozinheiro não precisariam das classificações convencionais de suas respectivas artes. Por isso Lao Tzé diz:

         As cinco cores cegarão a visão de um homem.

         Os cinco sons enfraquecerão a audição de um homem.

         Os cinco gostos estragarão o paladar de um homem.

         Perseguir e caçar levarão um homem à selvageria.

As coisas difíceis de se conseguir irão danificar a conduta de um homem.

Por isso o sábio supri as necessidades do estômago e não do olho. (12)15

            Isso não deve ser tomado como uma aversão asceta da experiência sensorial, pois o ponto é, precisamente, que a sensibilidade do olho à cor é impedida pela ideia fixa que existem apenas cinco cores. Há uma continuidade infinita de nuances, e dividi-las em nomes distrai a atenção da sua sutileza. Daí que “o sábio supri as necessidades do estômago e não do olho,” querendo dizer que esse julga pelo conteúdo concreto da experiência, e não por sua conformidade com padrões puramente teóricos.

         Em resumo, então, te é ingenuidade impensada e o poder criativo do funcionamento espontâneo e natural do ser humano – um poder que é bloqueado quando alguém tenta controla-lo nos termos dos métodos formais e técnicas. É como a habilidade da centopeia em usar sem pernas de uma vez.

         A centopeia era feliz, totalmente,

         Até que um sapo por brincadeira

         Disse, “Qual perna vai depois dessa?”

         Isso ativou sua mente com tamanha intensidade,

         Que ela caiu distraída numa vala,

         Considerando como correr.

            Uma consideração profunda pelo te fundamenta toda a alta cultura do Extremo Oriente, tanto que se tornou o princípio básico de todo tipo de arte e ofício. Enquanto é verdade que essas artes empregam o que, para nós, são técnicas disciplinares altamente difíceis, é sempre reconhecido que estas são instrumentais e secundárias, e que a obra superior tem a qualidade de um acidente. Isso não é apenas uma imitação perita do acidental, uma espontaneidade assumida no qual o planejamento cuidadoso não aparece. Repousa num nível mais profundo e genuíno, pois o que a cultura do Taoísmo e do Zen propõe é que alguém pode tornar-se um tipo de pessoa que, sem ter a intenção, é uma fonte de acidentes maravilhosos.

         O Taoísmo é, então, o caminho para a liberação originalmente Chinês, que, combinado com o Budismo Mahayana Indiano, produz o Zen. É uma liberação da convenção e do poder criativo do te. Toda tentativa de descrevê-lo e formulá-lo em palavras e símbolos de pensamento um-por-vez deve, por necessidade, distorcê-lo. O capítulo anterior fê-lo necessariamente parecer uma das alternativas filosóficas ao “vitalismo” ou “naturalismo”. Pois os filósofos Ocidentais são constantemente atormentados pela descoberta que eles não podem pensar para além de certas rotinas desgastadas – que, por mais que tentem, suas “novas” filosofias revelam-se redeclarações de posições antigas, monistas ou pluralistas, realistas ou nominalistas, vitalistas ou mecanicistas. Isso ocorre porque essas são as únicas alternativas que as convenções do pensamento podem apresentar, e eles não podem discutir nada mais sem apresentá-las em seus próprios termos. Quando tentamos representar uma terceira dimensão numa superfície bidimensional, necessariamente parecerá pertencer mais ou menos às duas alternativas de comprimento e largura. Nas palavras de Chuang Tzu:

         Se a linguagem fosse adequada, levaria um dia inteiro para definir o Tao. Não sendo adequada, ela leva esse tempo para explicar as existências materiais. O Tao é algo além das existências materiais. Ele não pode ser expresso nem por palavras nem pelo silêncio. (25)16

1 Os estudiosos modernos questionaram ambas as datas e a historicidade de Lao Tzé, porém é difícil dizer se isso realmente é mais do que uma manifestação da moda, desde que há tendências periódicas em lançar dúvidas sobre as existências dos grandes sábios ou de questionar sua antiguidade. Dúvidas similares foram levantadas em relação a Jesus e o Buda. Há alguns argumentos sérios para uma data posterior, mas parece melhor manter a data tradicional até que evidência do contrário se torne mais conclusiva. Veja Fung Yu-lan (1), vol. 1, pp. 170-76.

2 Fung Yu-lan (1), vol. 1, pp. 379-80.

3 Duyvendak (1) sugere que tao não tinha o significado de “falar” nessa época, e então traduz a passagem, “O Caminho que pode ser verdadeiramente considerado como o Caminho é diferente de um caminho permanente”. De fato, é a mesma coisa, pois o que Duyvendak quer dizer por “caminho permanente” é um conceito fixo do Tao – isto é, uma definição. Quase todos os outros tradutores, e a maioria dos comentadores Chineses, tomam o segundo tao como querendo dizer “falado”.

3a A nota acima foi escrita antes de eu ter o segundo volume do magistral Ciência e Civilização na China, de Joseph Needham, onde ele discute a natureza orgânica da concepção de universo Chinesa e, especialmente, Taoista. Veja principalmente a Seção 13f, pp. 279 ff. Needham também chama a atenção para as diferenças essenciais do direito natural entre as visões Hebreu-Cristã e a Chinesa, a primeira derivando da “palavra” de um legislador, Deus, e a última de um relacionamento dos processos espontâneos num padrão orgânico. Veja a Seção 18, f e h, especialmente pp. 557-64 e 572-83

4 H. A. Giles (1), p. 345.

5 T’ung-shan Liang-chieh. Dumoulin e Sasaki (1), p. 74

6 Exceto pela primeira linha, segui Ch’u Ta-kao (1), p. 30.

7 Lin Yutang (1), p. 129.

8 “Impassível” é uma tentativa de reproduzir su,m um caráter que se refere originalmente a uma seda não colorida, ou ao pano de fundo de seda não pintada de uma pintura. “Humanidade” refere-se ao princípio central de jen,n do Confucionismo, que ordinariamente quer dizer “sinceridade-humana”, apesar de ser óbvio que Lao Tzé refere-se à sua forma auto-consciente e afetada.

9 L. Giles (1), pp. 40-42. De Lieh-tzu, ii.

10 H. A. Giles (1), p. 232.

11 Lin Yutang (1), p. 86.

12 O princípio central do Zen de “não-mente” ou wu-hsin, já é encontrada em Chuang Tzu.

Cf. Chuang Tzu (22):

            Corpo como osso seco,

            Mente como cinzas mortas;

            Isso é o verdadeiro conhecimento,

            Não tentar obter dificilmente o conhecimento de onde.

            Nas sombras, na obscuridade,

            A não-mente (wu-hsin) não pode planejar; –

            Qual atitude do homem é aquela?

  1. A. Giles (1), p. 281.

13 H. A. Giles (1), p. 167.

14 H. A. Giles (1), p. 242.

15 Ch’u Ta-kao (1), p. 22.

16 H. A. Giles (1), p. 351. 

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