O Louco e o Profeta são da mesma estirpe

-Vixe, você nem peidou ainda mas já sinto, como fede! (a escatologia é sempre saudável para iniciar conversas pautadas pelo riso)

– Ah muleque, que anda fazendo por aí, metido em escrever sei lá o que, com essa letra horrível? (Devolver patadas é praxe corriqueira, inscrita no coração de cada um com as farpas de mil cactos.)

– To rascunhando como será a onda domesticada ou o leão enfurecido do dia de amanhã. (Aquela habilidade humana de estar mergulhado bem no fundo das águas desse grande recife de corais)

– Baboseira, babo baboseira, babosa, babo, babando na tua cara de louco! (E que outra cara, senão a de louco?)

– Já tomou o remedinho hoje? Heim? Hã? Uh? (É preciso ficar sempre bem, para trabalhar mais e mover com mais força os dentinhos das engrenaginhas)

– Só a dosagem certa de caos, goladas secas de solidão, adoçadas com cubinhos pequenos de obsessão. (com olhar ousado de cego)

– HA ah ha ha ah ah HA HA Eeeee eeeee (fechando o semblante)

– Tá me tirando de lock? Se liga, vou te dar um toque: no oceano não se navega sozinho, mas a reboque. (descobrindo a verdade por detrás do véu envelhecido da noiva)

– Reboquei mesmo! Com a graninha que sobrou esse mês, reboquei metade da parede do banheiro. (Lembrando do cheiro do cimento)

– Essa cruel necessidade do engenho humano em fundar tijolos, paredes, impondo com ímpeto os limites. (Voltando a ser criança com pés descalços num grande gramado molhado)

– É, aquele murinho lá do fundo, no limite do vizinho! (Esticando-se bem, apontando)

– Os muros impedem que uma célula intua seu papel no tecido orgânico de Gaia. (Fazendo compressas para que o elixir não vaze.)

– Gaiato pra caramba! Qualquer hora eu taco uma bomba de bosta naquele filho da puta! (Fazendo uma figa.)

– Dilacerados, fragmentados, reduzidos à poeira seca que não é o milagre fértil do barro, parte dos que cagam todo dia gastam tempo e dedicação ao remexer o monte. (Com asco do cheiro ruim)

– Monte de gatos! Tinha uns 9 lá dos morféticos, acredita? (Chamando os gatinhos)

– E a crença é a grande lenha da fornalha, a crença iludida, fantástica, imaginável, lunática. Crê até na condição de possibilidade da crendice. (Iniciando um ritual indígena)

– Tudo crendice popular isso ae, a Amélia contou que falaram não de mim, mas de ti. (Apontando para a cara faceira)

– Sendo que nossa missão diplomática é ouvir o texto apoteótico do Vazio! (Dançando um sambinha.)

– Esvaziei memo a garrafa. Bão demais, sô. (Orgulhando-se do crime de lesa-majestade)

– E que a paz seja o cantil, o amor o fuzil, do exército juvenil, do sonho que partiu. (Fazendo cara de poder)

– Foi ele que partiu dois ovos na minha cabeça, tiu. (Rostinho triste, sentindo dores)

– E que os ungidos ergam pilastras que sustentem o edifício da história. (Fazendo posição de Atlas, segurando o mundo nas costas)

– A história da política ou do jogo de futebol? (Os nossos venenos de monotonia entornados a revelia)

– E que se queira ganhar nesse xadrez milimetrado da vida, porém se a derrota for o prato azedo do dia, encara-a, ouça-a: só assim ela se despende sorrindo. (Contemplando as luas de Júpiter)

– Tava mesmo, sorrindo feito criança com bola. (O início, o fim, e o sim)

– Iluminando o caminho da juventude com o farolete do que se é, mas omitindo alguns lúmens, que não querem vazar. (Todos são obviamente vulcões dormentes até que…)

– Vazou tudo aqui pelo tapete da sala, uma molhadeira só! (pode acontecer.)

– E que a natureza, com seus cantos e suspiros, seus pardais e seus ninhos, orquídeas e bromélias, laranjas e mandiocas, antúrios e abacates, a Natureza, esse vir-a-ser do infinito, conjunto de fissões e fusões nucleares criado per se! (Colhendo o amor – que nem se esforça em escorrer – pelas frestas)

– Pensei nisso aí! O Zé tinha me contado mesmo sobre Perseu. (Apontando para o que pensava ser um trigo de feijões gregos)

– E do alto da montanha do tempo, o horizonte longínquo do passado emite setas de fogo. (Só podia ser desse jeito, estabelecendo coesão.)

– Essa pimenta queima mais que fogo, man. (Mostrando a língua geográfica devastada)

– E ser escritor é uma honra, porque todos sentem sua influência, espalhando-se como água derramada, todos marcam suas oxítonas e respeitam suas vírgulas e pontos. (Fazendo milhões de caretas, cada uma representando um personagem bem bonito de seu acervo.)

– Ponto final ou ponto de ônibus? (Sentando-se para esperar o próximo)

 

 

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