Devaneios de Dom Juan

À Memória de Hilda Hilst.

A tarde de inverno despenca. Odores de maracujás silvestres somam-se à sombra de um manacá em flor. Tudo está imerso naquela névoa de sordidez que aturde. Um bebê chora a infância enfiada na passagem do tempo. Rápidas as andorinhas anunciam a transição tênue dos tons avermelhados do sol que se põe. A música dita o embaraço das sensações num novelo, elã que resvala no corpo. Dom Juan está sentado, cabelos cacheados dobram-se caóticos, escreve:

– É do rastro esquivo da mão que brota o amor, mas é o movimento brusco do membro que o mantém. A inspiração descortina o palco do olhar marejado de alguém, porém é o sangue quente penetrante, a chupada fresca na manhã morna, a divina recompensa da sedução. (falar-te-ei, papel,  sem pretensão de maestria, como tratar a doce fruta encarnada no corpo da fêmea.) Gosto das curvas, declives e aclives de morros que gemem. Das nádegas protuberância triangular que escorre o gozo branco. Das mulheres ao acordar, ao alimentarem-se e maquilarem-se, quando se cansam, se espreguiçam, das mulheres quando sonham, acordam, levantam, das mulheres atrevidas e desnudas, com roupas exóticas e pintadas, de quatro ou de dois, montadas ou levadas. As mulheres quando planejam, roncam, gritam, as mulheres quando andam, balançam, comem, dormem. Da bundona marrom jogada na cama, do sentimento que ela tenta traduzir nessa língua que não faz sentido. A língua que baila, a língua que se debate na boquinha, que se transa na brancura, a língua que se lança em busca de continentes boreais. A linguinha que se molha. A língua da mulher que luta por ser mulher. Que se fala mulher, se projeta mulher. Línguas que se comem, que se somam, que se engolem. A língua é o princípio. Precipício fundo do abismo do corpo. A Língua é presente divino do sentir, ainda mais se for geográfica, cheia de buracos, de reentrâncias, de sulcos de rios que saraivam.

E continuou a descrever suas sensações, escrevendo o que considerava a cartilha básica, manual prosaico compartilhado secretamente pelos amantes através de séculos de prática carnal resoluta, revoluta.

– E a comi aqui mesmo! Nesse sofá reles que não me importava. Nesse buraco de fim de mundo mofado, contaminado, imundo. Misturar-se em qualquer sentido sem imundície não vinga. Sexo tem que ser enfiadinho, sem limites sanitários. Mas de volta às nádegas. As tuas eram vingativas, fechavam-se ao mais breve descuido. Se não empinavas daquele jeito só teu, então como o néctar podia ser colhido pela abelhinha? Tu intumescias, gotículas escorriam de teu corpo alagado de suor. Claro que não desejaria um pau seco assim tão rápido. Pedias então: Vem! Para! Devagarzinho. Rápido como frenesi de potro. Chorava o leite derramado! Chupei o teu dedão do pé esquerdo; esquentavas-me em pulsões que apertavam o pau roxo. Papai disse para que sempre levasse o dedão do pé direito muito a sério no sexo, como se fosse assunto de segurança nacional! Que anca! Espancavas-me e esperava que eu te espancasse também: tal qual boxeador defendendo título mundial. Lembro da tua masturbação séria mas auto-centrada, dos teus olhinhos fechando tal como a piscadela de um cuzinho. Então gozavas a rodo. Cachoeiras de águas. Comportas que arrebentam. Filha (pedias para que te chamaste assim), como era intenso o teu gozo! Não gostava das minhas cuecas molengonas, das minhas bolas para fora. E dizia queu era o comedor-mor do castelo! Que minha pica era grossa, tora roliça de carvalho. E mamãe ouvia teus gritos incontidos de tesão, mamãe nem dormia com a banda de black metal desafinada vinda dos nossos lençóis. Que ser humano úmido tu és! A relva sempre orvalhada onde eu pisava dentro de ti. Como me recebias bem…Ah, se pudesses mandar o nosso código para o ato daí, eu o receberia daqui e pronto começaria.

Dom Juan coçava as bolas, que tremiam, agitavam-se como pintos querendo quebrar a casca e nascer. Admirava as próprias coxas, pensava-as em pleno fulgor, mexendo-as tal qual aprendera na Pérsia, a terra das orgias. Dom Juan formou-se na Pérsia, é doutor na Babilônia, pertinho da antiga Sodoma e Gomorra. Terra onde a putaria é lei, com direitos trabalhistas e tudo. Em um surto voltava seus pensamentos para a cona e gritava o mantra dos mestres:

– Cavidade que suga, buraco-negro que tudo atrai, deixai-me invadir tua órbita com meu tarugo íngreme, inteiriço, forjado na canalhice, na pederastia. Boceta portal das galáxias, receba teu paizinho assanhado, que te prometo a alvura da porra, o leite primordial, bem no fundo colocado.

E assim desmaiava Dom Juan, repetindo ao acordar todo o ritual e desmaiando outra vez. E acendia incensos e preparava a música, e arrumava a cama. Despia-se no espelho, olhando a tatuagem que lhe lembrava ser único, o único no mundo capaz de gozar desmesuradamente. E a cabeça de baixo ia lhe ditando as seguintes palavras, anotadas pela sua tia:

– Em meu comprimento inicia-se e encerra-se a vida. Minhas cavernas recebem sangue jovem, são as mais profundas da Terra. Minha dureza compete com o morto diamante. Se me tocas gostoso prometo-lhe o gozo. A selva que me cerca é testemunha do vulcão ativo que sou. Transbordo, jorro, molho, esquento, sou a conexão antiga com o centro. Sou o falo, meto o que vive, estouro a continuação, sentes-me até o talo.

E Dom Juan tentava argumentar com seu pau, mas esse não o ouvia. Queria extravasar, vomitar o pólen, desaguar no mar do mundo. Derramava vinho tinto na cabeça e, virando os olhos, fez balançar o prédio ao uivar:

– Sou Home! Um dos dois sexos que estão por aí! A Mulhé é o que me move, me estraçalha por dentro, me arromba! Quero te arrombar também, uai! Vem. Vem pelada que te penetro. Vem suada que te lambo. Vem querida que te espanco. Dá tua nuca que eu mordo, teu peito queu aperto, seu olho que me vejo. Me empurra queu te puxo, me estapeia queu te seguro! Me molha queu gosto. Me sangra queu me sujo.

E aqui fez um adendo para sua amada:

– Você me quis assim, sou fruto das suas obsessões juvenis. Os mandamentos que fizestes são as próprias roupas que me vestes. Destilo teu álcool raro, mística simples onde me espalho.

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