O Sublime Psicodélico em Walter Pater

“Ou se iniciarmos com o mundo interior, do pensamento e da emoção, o torvelinho é ainda mais veloz, a chama mais ávida e devoradora. Já não se constata o obscurecimento gradual da visão, o esmaecimento da cor da parede – o movimento da maré, quando as águas refluem, embora pareçam paradas -, mas o fluxo rápido, típico do meio da corrente, o rumo dos atos momentâneos da visão, paixão e pensamento. À primeira vista, a experiência parece nos soterrar em uma montanha de objetos externos, que a nós se impõem como uma realidade aguda e desconfortável, incitando-nos a nos abrir em milhares de tipos de ações. Mas, quando a reflexão começa a operar sobre esses objetos, estes se dissipam sob a influência daquela; a força coesiva parece suspensa, como um passe de mágica; cada objeto se isola, reunindo um conjunto de impressões – cor, odor, textura – na mente do observador. E, se continuarmos a refletir sobre esse mundo, não sobre os objetos, nem sobre a solidez de que são investidos pela linguagem, mas sobre as impressões instáveis, vacilantes, inconsistentes, que entram em combustão e se extinguem com a nossa consciência das mesmas, tal mundo se contrai ainda mais; todo o escopo de observação é reduzido à câmara estreita da mente individual. A experiência, já diminuída a um enxame de impressões, fica protegida pela parede espessa da personalidade individual, que voz alguma é capaz de atravessar a fim de que seja por nós ouvida, e que nos permite tão-somente conjecturar o que existe do outro lado. Cada uma dessas impressões é a de um indivíduo isolado, cada mente mantendo como prisioneiro solitário o seu próprio sonho do mundo. A análise vai um passo adiante, e nos garante que as impressões da mente individual, a qual, para cada um de nós, se reduz à experiência, encontram-se em fuga perpétua; que cada uma delas é limitada pelo tempo e que, sendo o tempo infinitamente divisível, cada uma delas é também infinitamente divisível, uma vez que tudo o que é real no tempo se reduz a um único momento, que se vai enquanto tentamos apreendê-lo, do qual é sempre mais verdadeiro dizer que já não existe do que afirmar o contrário. Com esse filete trêmulo – constantemente se transformando em meio à torrente, a uma única impressão marcante, dotada de sentido, uma relíquia mais ou menos fugidia, desses momentos que já se foram – o que existe de real em nossa vida se afina. É com esse movimento, com a passagem e dissolução de impressões, imagens e sensações, que a análise cessa – com essa evanescência contínua, esse perpétuo fiar e desfiar de nós mesmos.”

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