Andrew Cecil Bradley sobre Falstaff de Shakespeare

“A glória da liberdade obtida através do humor é a essência de Falstaff. Seu humor não é dirigido apenas, ou principalmente, ao absurdo óbvio; Falstaff é inimigo de tudo que interfere com o seu conforto, portanto, de tudo que é sério, em particular, daquilo que é respeitável e moral. Tudo isso nos impõe limites e obrigações e nos faz súditos da lei, do imperativo categórico, de nosso status e nossos deveres, da consciência, da reputação, da opinião de terceiros e de tantas outras bobagens. Digo que Falstaff é inimigo de tudo isso, mas, ao dizê-lo, não lhe faço justiça; afirmar que Falstaff se opõe a tais questões implica a ideia de que as leva a sério, que lhes reconhece a força, quando, na verdade, sequer se dá conta de sua existência. São, para ele, questões absurdas, e reduzir algo ad absurdum é reduzi-lo a nada, e sair a andar por aí lépido e faceiro. É isso que Falstaff faz (às vezes, por meio de palavras, outras, por meio de palavras e atos) com tudo na vida que tem pretensão à seriedade. Falstaff faz a verdade parecer absurda, através de pronunciamentos solenes, ditos com ar solene, nos quais ele não espera que pessoa alguma acredite. Faz o mesmo com a honra, demonstrando-a incapaz de encanar uma perna, e que nem os vivos nem os mortos podem possuí-la; igualmente, faz a lei parecer absurda, pois consegue esquivar-se dos ataques do seu mais alto representante e quase o obriga a rir da própria derrota; e o patriotismo, ao encher os bolsos com o suborno oferecido por soldados aptos que desejam escapar do serviço militar, enquanto alista mancos, mutilados e criminosos; e o dever, desempenhando tão bem a sua vocação – de ladrão; e a coragem, seja zombando de ter capturado Coleville, seja afirmando ter morto Hotspur; e a guerra, ao oferecer ao Príncipe a garrafa de xerez, quando este lhe pede a espada; e a religião, ao se entreter com a ideia de remorso quando se sente entediado; e o temor da morte, ao preservar, mesmo diante do perigo iminente, e mesmo quando sente medo de morrer, a capacidade de dissolver o medo na chacota de sempre, no conforto da taverna. São esses os grandes feitos que Falstaff realiza, não com o azedume de um cínico, mas com a alegria de um menino. Portanto, será por nós elogiado, louvado, pois só ofende os poderosos, nega que a vida é real ou séria e livra-nos da opressão desses pesadelos, elevando-nos a uma atmosfera de liberdade total.”

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