“Jornalismo no Tennessee” de Mark Twain

[Conto escrito por volta de 1871.]

O editor do Avalanche, da cidade de Mênfis, critica desta maneira, com veemência, o correspondente que o denunciou como um radical: “Enquanto escrevia a primeira palavra, o meio, pondo os pingos nos is, sendo meticuloso e desferindo os pontos finais, ele sabia que estava armando uma frase saturada de infâmia e que transpirava falsidade”  -Informe.

O médico me disse que um clima sulino melhoraria a minha saúde, por isso fui para o estado do Tennessee, onde arrumei um emprego no Morning Glory and Johnson County War-Whoop como editor assistente. Quando me apresentei para trabalhar, encontrei o editor-chefe sentado numa cadeira de três pernas, inclinado para trás e com os pés em cima de uma escrivaninha de pinho. Na sala, havia uma outra escrivaninha de pinho e ainda outra cadeira quebrada, ambas parcialmente cobertas por jornais, recortes e folhas de manuscrito. Havia uma caixa de madeira com areia, pontas de charuto espetadas e uma estufa cuja porta era sustentada apenas pela dobradiça superior. O editor-chefe vestia uma sobrecasaca preta de abas compridas e calças de linho branco. As botas eram pequenas, caprichosamente engraxadas de preto. Ele usava uma camisa enfeitada com folhos, um enorme anel de sinete, uma gola alta de feitio antiquado e um lenço de pescoço com as pontas pendentes. O traje datava de cerca de 1848. Ele fumava um charuto, procurava pensar numa palavra e, ao coçar a cabeça, desalinhara bastante a cabeleira. Como franzia intensamente as sobrancelhas, concluí que estava concebendo um editorial particularmente difícil. Pediu-me que pegasse os informes, passasse os olhos neles e escrevesse “O espírito da imprensa no Tennessee”, condensando no artigo todo o conteúdo deles que parecesse interessar.

     Escrevi o seguinte:

O espírito da imprensa no Tennesse

Os editores do Terremoto Bissemanal obviamente estão equivocados quanto à ferrovia de Ballyhack. Não é o propósito da companhia deixar de lado Buzzardville. Ao contrário, considera-a um dos pontos mais importantes ao longo da linha e, por conseguinte, não tem desejo algum de negligenciá-la. Os cavalheiros do Terremoto terão, claro, o prazer de fazer a correção.

     O senhor John W. Blossom, o competente editor do Raio e Brado de Guerra da Liberdade, de Higginsville, chegou à cidade ontem. Hospeda-se na casa de Van Buren.

     Observamos que o nosso companheiro do Berro Matutino, de Mud Springs, cometeu o erro de supor que a eleição de Van Werter não é um fato comprovado, mas sem dúvida irá se dar conta do erro antes de tomar conhecimento deste lembrete. Indiscutivelmente, deixou-se iludir pelos resultados incompletos da eleição.

     É bom saber que a cidade de Blathersville está se empenhando para contratar uns cavalheiros de Nova York para pavimentar suas ruas quase intransitáveis com o calçamento de Nicholson. O Hurra Diário recomenda a medida com ênfase e parece confiante no êxito final.

     Entreguei o manuscrito ao editor-chefe para aprovação, alteração ou destruição. Ele deu uma olhada e fechou a cara. Correu os olhos nas páginas e sua expressão se tornou portentosa. Era fácil ver que algo estava errado. Dali a pouco, levantou-se de chofre e disse:

     — Raios me partam! Acha que vou falar com essa corja desse jeito? Acha que os meus assinantes vão suportar este mingau? Me passe a caneta!

     Nunca vi uma caneta raspar e rabiscar tão perversamente, ou rasurar tão implacavelmente os verbos e os adjetivos de um outro homem. No meio dessa atividade, alguém disparou um tiro contra ele pela janela aberta, prejudicando a simetria dos meus ouvidos.

     — Ah — exclamou ele —, é o canalha do Smith, do Vulcão Moral, que era para ter vindo ontem. — E, sacando da cinta um revólver da marinha, disparou. Smith caiu, atingido na coxa. O tiro atrapalhou a mira de Smith, que tentou uma segunda vez e estropiou um estranho. Que era eu. Só um dedo arrancado.

     O editor-chefe continuou então com as emendas e os realinhamentos. Assim que os concluiu, uma granada de mão rolou pela boca da chaminé da estufa e a explosão fez a estufa em milhares de pedaços. No entanto, não causou outros estragos, afora o fato de um fragmento perdido ter arrancado dois dentes meus.

     — A estufa foi totalmente destruída — disse o editor-chefe.

     Retruquei que achava que sim.

     — Mas não importa… ela não tem utilidade neste tipo de clima. Conheço o homem que fez isso. Vou apanhá-lo. Bom, é assim que se deve escrever este tipo de coisa.

     Peguei o manuscrito. Estava cheio de rasuras e realinhamentos, a ponto de seu autor não o reconhecer. Agora dizia o seguinte:

O espírito da imprensa no Tennessee

Os mentirosos inveterados do Terremoto Bissemanal estão, obviamente, empenhando-se para impingir a pessoas nobres e cavalheirescas outra de suas vis e brutais hipocrisias com relação a esta mais gloriosa concepção do século XIX, a ferrovia de Ballyhack. A ideia de que Buzzardville seja posta de lado se originou em seu próprio cérebro ofensivo, ou, melhor dizendo, nos sedimentos que eles veem como cérebro. É melhor que moderem esta mentira, se desejarem evitar que as abandonadas carcaças de répteis sejam fustigadas com o chicote que tanto merecem.

     Aquele asno, Blossom, do Raio e Brado de Guerra da Liberdade, de Higginsville, está aqui de volta às custas de Van Buren.

     Observamos que o estúpido patife do Berro Matutino, de Mud Springs, está anunciando, com a habitual tendência a mentir, que Van Werter não foi eleito. A divina missão do jornalismo é difundir a verdade; erradicar o erro; educar, refinar e exaltar o tom da moral e dos costumes públicos, tornar todos os homens mais gentis, mais virtuosos, mais generosos e, em todos os modos, melhores, mais puros e mais felizes. No entanto, este perverso salafrário degrada insistentemente seu grande ofício com a difusão da falsidade, da calúnia, do vitupério e da vulgaridade.

     Blathersville quer um calçamento de Nicholson…quer é mais uma cadeia e um asilo de indigentes! Ora, a ideia de uma calçamento numa cidade insignificante composta de duas fábricas de gim, de uma ferraria e dessa mostarda ressecada que é o jornal Hurra Diário! O inseto rastejante, Buckner, que edita o Hurra, vai alardeando seu negócio com a imbecilidade que lhe é habitual, imaginando que diz coisa com coisa.

     — Bom, é assim que se deve escrever… apimentado e objetivo. O jornalismo aguado me dá enjoo.

     Nesse momento, um tijolo voou janela adentro, espatifando-a num estrondo e esbarrando nas minhas costas. Desviei-me a tempo… comecei a perceber que estava no caminho.

     O chefe disse:

     — Foi o coronel, provavelmente. Eu o esperava dois dias atrás. Vai entrar aqui daqui a pouco.

     Tinha razão. O coronel apareceu à porta dali a pouco, com um revólver de cavalaria na mão. Disse:

     — Senhor, tenho eu a honra de estar me dirigindo ao covarde que edita este jornaleco?

     — Tem, sim. Sente, por favor. Cuidado com a cadeira, porque falta uma perna. Acredito eu ter a honra de estar me dirigindo ao corrupto mentiroso, o coronel Blatherskite Tecumseh?

     — Sim, eu mesmo. Tenho uma pequena conta a acertar com o senhor. Se tiver tempo, começaremos.

     — Tenho de terminar um artigo sobre o “Progresso animador do desenvolvimento moral e intelectual na América do Norte”, mas não há pressa. Comece.

     As duas pistolas soaram um furioso clamor ao mesmo tempo. O chefe perdeu uma mecha de cabelo e a bala do coronel encerrou o trajeto na parte carnosa da minha coxa. O ombro esquerdo do coronel sofreu um leve arranhão. Dispararam novamente. Desta vez, os dois não se acertaram, mas recebi a minha cota, um tiro no braço. No terceiro disparo, os dois cavalheiros ficaram ligeiramente feridos e uma junta dos meus dedos foi arranhada. Então eu disse que seria melhor eu sair e dar uma volta, porque se tratava de um assunto particular e seria difícil para mim participar mais dele. Mas os dois cavalheiros me pediram que continuasse sentado, garantindo-me que eu não estava atrapalhando.

     Em seguida, os dois conversaram sobre as eleições e as colheitas, enquanto recarregavam as armas e eu começava a cuidar dos meus ferimentos. Dali a pouco, porém, tornaram a abrir fogo todo animados, e cada disparo teve efeito — mas é correto observar que cinco dos seis disparos foram minha cota. O sexto feriu mortalmente o coronel, que comentou, com um humor aguçado, que agora deveria dizer bom-dia, pois tinha negócios a tratar na parte alta da cidade. Perguntou onde ficava o agente funerário e foi embora.

     O chefe se virou para mim e disse:

     — Vem gente para o jantar e preciso me preparar. Você me faria um favor se cuidasse das revisões e atendesse os clientes.

     Hesitei um pouco diante da ideia de atender os clientes, mas me sentia muito desnorteado com a fuzilaria que ainda ecoava nos meus ouvidos para poder dizer alguma coisa.

     Ele continuou:

     — Jones vai estar aqui às três horas… dê-lhe umas boas chicotadas. Gillespie vai vir antes… jogue-o pela janela. Ferguson deverá chegar por volta das quatro… mate-o. Acho que por hoje é só. Se lhe sobrar tempo, escreva um artigo ácido sobre a polícia… ridicularize o inspetor-chefe. Os chicotes estão embaixo da escrivaninha; os revólveres, na gaveta… a munição, naquele canto… compressas e ataduras, ali nos escaninhos. Em caso de acidente, vá ao Lancet, o cirurgião, no térreo. Ele anuncia: nosso negócio é tratar.

     Ele partiu. Eu me arrepiei. Ao final das três horas seguintes, enfrentei perigos tão medonhos que sumiram de mim toda a paz de espírito e toda a alegria. Gillespie viera e me jogara pela janela. Jones chegara prontamente e, quando eu estava preparado para chicoteá-lo, ele tomou o chicote da minha mão. Num encontro com um estranho, que não estava no programa, perdi o meu couro cabeludo. Outro estranho, chamado Thompson, deixou-me um caco. E por fim, acuado num canto, assediado por uma multidão de editores, trapaceiros, políticos e facínoras, todos furiosos, vociferando, xingando e brandindo armas à volta da minha cabeça até o ar estremecer com clarões de aço, eu estava a ponto de renunciar ao meu cargo no jornal quando o chefe chegou e, com ele, uma multidão de amigos fascinados e entusiasmados. Seguiu-se então uma cena de tumulto e carnificina que nenhuma caneta humana, ou mesmo de aço, conseguiria descrever. Pessoas foram alvejadas, perfuradas, desmembradas, explodidas, jogadas pela janela. Houve um breve furacão de tenebrosa blasfêmia, com o vislumbre de uma confusa e desvairada dança de guerra, e depois tudo terminou. Em cinco minutos, reinou o silêncio, e o chefe e eu, ensanguentados, ali ficamos, fazendo o levantamento da ruína sangrenta esparramada no chão a nossa volta.

     Ele disse:

     — Vai gostar deste lugar depois que se acostumar com ele.

     Eu disse:

     — Devo pedir que me desculpe. Acho que talvez eu tenha de escrever por mais um tempo de um jeito que lhe agrade. Assim que ganhar alguma prática, e aprender a linguagem, terei segurança. Mas, para falar a verdade, esse tipo de energia de expressão tem lá seus inconvenientes, e um homem está sujeito a interrupções. Você mesmo sabe disso. Uma escrita vigorosa está destinada a elevar o público, sem dúvida, mas acontece que escrever com satisfação quando sou interrompido tantas vezes como fui hoje. Gosto bastante deste cargo, mas não gosto de ter de ficar aqui sozinho à espera dos clientes. Os acontecimentos são novos, reconheço, e divertidos, também, de certa maneira, mas não são distribuídos criteriosamente. Um cavalheiro atira contra você pela janela e me estropia; uma granada entra pela chaminé contra a minha garganta; um amigo aparece para trocar elogios com você e me cobre de buracos de bala, de modo que a minha pele não pode conter meus princípios; você vai a um jantar e Jones aparece com o chicote dele, Gillespie me atira pela janela, Thompson esfrangalha a minha roupa e um estranho total arranca o meu couro cabeludo com a tranquila liberdade de um velho conhecido; e em menos de cinco minutos todos os patifes do país chegam com as caras pintadas para um ritual de guerra e me apavoram com machadinhas. Levando tudo em conta, nunca tive um momento tão animado em toda a minha vida como tive hoje. Não. Gosto de você, e gosto do seu jeito calmo e sereno de explicar as coisas aos clientes, mas, veja, não estou acostumado a isso. O sangue sulino é impulsivo demais; a hospitalidade sulina é generosa demais com o forasteiro. Os parágrafos que escrevi hoje, e cujas frases frias sua mão magistral impregnou do fervoroso espírito do jornalismo no Tennessee, irão mexer em outras casas de marimbondo. Aquela multidão toda de editores virá… e eles virão famintos, também, querendo devorar alguém no café da manhã. Eu devo lhe dizer adeus. Eu me recuso a estar presente nestas festividades. Vim ao sul para cuidar da minha saúde, vou voltar com a mesma missão, e de repente. O jornalismo no Tennessee é agitado demais para mim.

     Após o que nos despedimos com mútua tristeza, e me internei no hospital.

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