A Queixa de um Amante de Shakespeare

Thomas Thorpe publicou “A Queixa de um Amante” [A Lover´s Complaint] no quarto de 1609 dos Sonetos de Shakespeare, atribuindo o poema a “William Shakespeare” em seu cabeçalho. À atribuição não se deve dar muito peso, porque Thorpe, evidentemente, não teve a autorização de Shakespeare para publicar os sonetos e pôde, possivelmente, ter adicionado os dois últimos sonetos de alguma outra fonte. Ademais, a atribuição de “A Queixa de um Amante” a Shakespeare é inteiramente plausível e não é refutada por nenhuma outra alegação. O poema nunca foi atribuído a qualquer outro autor durante a vida de Shakespeare, e nenhuma alternativa convincente veio à tona desde então. Embora alguns críticos, costumeiramente, questionem se o poema é merecedor do gênio de Shakespeare, sua densidade de metáforas e energia nos jogos de palavras são estilisticamente e intelectualmente muito parecidos com a obra madura de Shakespeare, por volta ou antes da data de publicação.

          O poema toma como ponto de partida as convenções do gênero poético familiar elisabetano: a “queixa”. Frequentemente escolhido como cenário uma paisagem estilizada e habitada por pastores e pastoras rústicas, os poemas desse gênero geralmente descreviam à lamentação de amantes abandonados e não correspondidos. Tipicamente, o poeta podia catalogar os dispositivos instáveis dos amantes e lamentar em termos moralistas as perigosas consequências da paixão cega. Os elisabetanos esperavam, com frequência, essa forma de didatismo no gênero e podiam, de fato, ser tentados a ler o poema de Shakespeare como uma lição útil e objetiva para mulheres jovens sobre a língua doce de jovens cortejadores.

          Ademais, o valor do poema de Shakespeare vai muito além das demandas convencionais do gênero, como também o fazem as contribuições de outros escritores excepcionais. Como muito em Como Gostais [As You Like It] o poema mostra-nos uma visão complexa e irônica da vida pastoril e explora o gênero da “queixa” pastoril com sutileza e grande escopo. Seus múltiplos pontos de vista são notórios. Iniciando com a voz solidária do poeta-narrador, “A Queixa de um Amante” nos introduz à uma dama desprezada e então ao pastor velho que se torna uma audiência para a história de infortúnio dela. Ele é um bom ouvinte, em parte porque ele semeou sua própria aveia selvagem em seus dias (11. 58-60). A história que ele ouve incorpora, também, a voz do jovem homem que seduziu à dama; a passagem na qual o jovem homem fala diretamente para ela, como relatado ao velho homem e assim para nós como leitores, toma muito do poema (11. 177-280).

          Estruturado sucessivamente e concentricamente pelos pontos de vista da triste dama, o velho homem, o poeta e nós mesmos, é dado rédea livre à expressão do homem cortejador para suplicar por simpatia. O homem velho nos dá sua própria simpatia no lamento e no reconhecimento masculino de um tipo de cumplicidade, enquanto o poeta paira no pano de fundo, não simplesmente como narrador, mas também como alguém que compreende. O moralismo é evidente, mas ainda assim é menos importante para nós que à multiplicidade das vozes expressas numa linguagem metaforicamente rica a tensa e, no final das contas, a amarga luta contra a sexualidade que é também a chave para os sonetos da “Dama Negra”. A inclusão de Thorpe do poema em seu volume dos Sonetos sugere a integridade daquela aventura de publicação.

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