“A Fênix e a Pomba (Tartaruga)” apareceu pela primeira vez numa coleção de poemas chamada Love´s Martyr: Or, Rosalins Complaint de Robert Chester (1601). Esse volume em quarto apresentava vários exercícios poéticos sobre a fênix e a pomba “pelos melhores e principais de nossos escritores modernos”. O poema,  atribuído a Shakespeare, tem sido universalmente aceito como dele e é uma das suas mais notáveis produções. Com uma ilusória dicção simples, com graciosos e puros quartetos e tercetos tetrâmeros, o poema facilmente invoca o ideal transcendental de um amor existindo eternamente além da morte. A ocasião é a de uma assembleia de pássaros para observar os ritos funerais da fênix (sempre encontrada sozinha) e a “pomba tartaruga” [Streptopelia turtur] (sempre encontrada em pares). A fênix, o pássaro lendário da ressureição de suas próprias cinzas, mais uma vez encontra à vida através da morte na companhia da pomba, emblema da pura constância na afecção. A união espiritual deles torna-se uma unidade mística na qual na presença a Razão permanece quase muda. O discurso humano confuso deve recorrer ao paradoxo a fim de explicar como dois seres tornam-se uma essência. “Corações distantes ainda que não separados.” A matemática e a lógica são “confundidas” por essa união de dois espíritos em “um concordante”. Esse paradoxo da unidade ecoa à teologia escolástica e sua exposição da doutrina da Trindade, em termos de pessoas, substância, acidente, tri-unidade, e assim por diante, embora, um tanto da maneira da poesia de John Donne, essa alusão seja mais uma parte da argúcia séria do poema quanto de seu significado simbólico. A pungente brevidade dessa visão e o cenário da massa de pássaros são reproduzidos ainda mais misteriosamente pelo nosso desconhecimento de qual, se alguma, tragédia humana pode ter provocado essa afirmação metafísica.

Publicado por rafaelsc

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