Introdução Geral a Shakespeare (Tradução, Work in progress)

Introdução Geral

Ler Shakespeare no Século XXI

Por que ler Shakespeare hoje? Ele viveu há cerca de quatro séculos. Ele escreveu numa forma arcaica do Inglês que é necessário acostumar-se. Seu vocabulário é intimidador. Ele e sua audiência viveram num mundo que é marcadamente diferente do nosso: um mundo de guerras religiosas entre Católicos e Protestantes, de monarcas competidores, e de um extremo contraste entre a riqueza de uma diminuta elite dominante e a pobreza de uma grande classe baixa composta na sua maioria por trabalhadores rurais. As viagens eram inseguras e as condições de sanidade eram rudimentares. Shakespeare dramatizou a vida de antigos reis e personagens que não são uma parte imediata de nossa própria história. Ele era familiar com os antigos mitos e lendas que não estão em voga hoje. Dadas essas circunstâncias, como poderia se esperar que Shakespeare fosse relevante?

Até recentemente, Shakespeare era mais requerido pelas escolas e colégios do que é caso hoje.  Assunto obrigatório, ele resistiu como qualquer requerimento inflexível. Por que estudar algo simplesmente por ser uma parte tradicional do currículo? Isso não se torna chato? Numa época que nós estamos inclinados a sermos cautelosos com os autores homens mortos europeus e brancos, Shakespeare não é um dos primeiros candidatos a destituição? Ele é todas essas coisas: morto, Europeu, branco, e homem.

Ainda assim Shakespeare vive, apesar desses riscos, no teatro, em filme e vídeo, e na classe de aula. A evidência está ao nosso redor. As inscrições aumentam nos colégios e nas universidades, em grande parte numa base voluntária. E Shakespeare desfruta de um notável renascimento em filmes e vídeos.

Aqui podemos nomear alguns dos melhores filmes inspirados em Shakespeare do século vinte e vinte e um, para destacar a grande popularidade de Shakespeare em vídeo. Mary Pickford e Douglas Fairbanks estrelaram como Kate e Petruchio no primeiro filme falado e de duração completa de uma peça de Shakespeare, The Taming of the Shrew (A Megera Domada), 1929. A Midsummer Night´s Dream (Sonho de uma Noite de Verão),  de Max Reinhardt, 1935, estrelou Mickey Rooney como Puck e James Cagney como Bottom, ao lado de outras celebridades de Hollywood. Franco Zeffirelli dirigiu Richard Burton e Elizabeth Taylor como Petruchio e Kate em seu The Taming of the Shrew (1967), Leonard Whiting e Olivia Hussey nos papéis de Romeo and Juliet (1968), e Mel Gibson como o protagonista de seu Hamlet (1990), juntamente com Glenn Close como Gertrude, Helena Bonham Carter como Ofélia, Ian Holm como Polonius, Alan Bates como Claudius e Paul Scofield como o Fantasma.

            Laurence Olivier alcançou grande sucesso em 1944 com seu filme colorido e de duração completa Henry V, produzido durante a Segunda Guerra Mundial para encorajar o suporte patriótico contra a Alemanha. O Hamlet de Olivier, de 1948, seu Richard III, 1955, e Othello, 1965, não foram menos populares.

            Macbeth de Orson Welles, 1948, e Othello, 1952, foram tentativas conscientes em mostrar que os os Estados Unidos poderiam igualar a indústria de filmes Britânica na alta arte shakespeareana. Chimes at Midnight (1965) de Welles, com ele mesmo no papel de Falstaff, combinou os elementos do Henry IV, primeira e segunda partes e trechos de The Merry Wives of Windsor (As Alegres Comadres de Windsor) para produzir uma avaliação mutante da amizade do Príncipe Hal, e sua rejeição final, com relação a Falstaff.

            Outra onda de filmes shakespearianos inicia-se em 1989 com Henry V de Kenneth Branagh, filme que alcança muito sucesso, desafiando o patriotismo da versão de 1944 de Olivier com uma prosaica avaliação das causas da guerra. Much Ado About Nothing (Muito Barulho por Nada) seguiu-se, em 1993, com Branagh no papel de Benedick e sua então esposa Emma Thompson como Beatrice, juntamente com Denzel Washington como Don Pedro, Keanu Reeves com Don John, e Michael Keaton como Dogberry. Branagh repetiu a infalível estratégia de fazer uso de estrelas em seu Hamlet (1996), de quatro horas, com ele mesmo no papel de Hamlet, Julie Christie como Gertrude, Kate Winslet como Ophelia, Derek Jacobi como Claudius, e participações especiais de Jack Lemmon (Marcellus), Gérard Depardieu (Reynaldo), Robin Williams (Osric), Billy Cristal (o Coveiro) e Charlton Heston (o Rei).  Mais recentes de Branagh são Love´s Labour´s Lost (2000) (Trabalhos de Amores Perdidos) e As You Like It (2006) (Como Gostais).

            Outros famosos diretores inspirados por Shakespeare incluem Akira Kurosawa, com seu Throne of Blood, 1957, baseado em Macbeth e seu Ran, 1985, baseado em King Lear (Rei Lear). Grigori Kozintsev, com dois notáveis filmes russos, Hamlet, 1964, e King Lear, 1970; Peter Brook, dirigindo King Lear em 1971 com Paul Scofield no papel principal; Trevor Nunn, dirigindo Anthony and Cleopatra (1979), Othello (1990), e Twelfth Night (1996); Peter Hall, dirigindo A Midsummer Night´s Dream (1969); Roman Polanski, dirigindo Macbeth (1971); Julie Taymor, dirigindo Titus Andronicus (1999); Baz Luhrmann, dirigindo Romeo + Juliet (1996); Michael Almeyerda, dirigindo Hamlet (2000); e ainda outros.

            As adaptações em filmes são um sinal claro da popularidade de Shakespeare hoje. Ao lado dos filmes de Akira Kurosawa, listados acima, pensa-se imediatamente em West Side Story, 1961, baseado em Romeo and Juliet; Kiss Me, Kate, 1953, baseado em The Taming of the Shrew; Gil Junger´s 10 Things I Hate About You, 1999, baseado na mesma peça; O, de Tim Blake Nelson, 2001, baseado em Othello; e Shakespeare in Love, 1998, contendo algumas belas cenas de Romeo and Juliet. Novamente, ainda existem muitos outros.

            As produções teatrais recentes das peças de Shakespeare têm, também, alcançado grande sucesso, mesmo que necessariamente para audiências menos globais. Ian McKellen em King Lear (2007) fez tour intercontinental, angariando críticas positivas. Greg Doran obteve grande sucesso no Swan Theatre em Stratford-upon-Avon com seu Othello (2004), estrelando Antony Sher como Iago. Sher não estava menos brilhante como Ricardo III em Stratford-upon-Avon em 1984. Igualmente brilhante no mesmo papel foram Ian McKellen no National Theatre de Londres em 1990 e Simon Russell Beale em Stratford em 1992. Patrick Steward foi muito bem recebido com Macbeth (Londres, 2007). Alguns dos melhores versões em filmes começaram como produções teatrais,  incluindo o Richard III de Olivier, Henry V de Branagh, Macbeth de McKellen e Dench, Othello de McKellen e Willard White, West Side Story, Kiss Me, Kate, e outros. Much Ado About Nothing foi produzido por Joseph Papp e dirigido por A. J. Antoon no Festival Shakespeare de Nova Iorque no teatro Delacorte antes de ser transmitido pela televisão no próximo ano. A popularidade duradoura das atuações ao ar livre no verão no Central Park de Nova Iorque é confirmada pelo fato que os fãs esperam horas nas filas para verem as produções. Outros festivais e repertórios as companias de Shakespeare em Stratford, no Canadá, Stratford-upon-Avon na Inglaterra; Ashland, Oregon; Washington, D.C.; Chicago; e muitas outras, que não são menos que um tributo à Shakespeare, como um escritor notável e bem-sucedido para o palco. Shakespeare se tornou um grande negócio.

            Ver uma ou mais produções de uma peça de Shakespeare é geralmente um bom caminho para começar. Filmes são facilmente locados ou obtidos em vídeo, e assistir a um filme é algo que todos nós geralmente desfrutamos. Ver uma peça num teatro pode certamente ser não menos cativante, mas as oportunidades são muito mais raras, então a coisa a se fazer é tirar as vantagens do filme ou vídeo. Uma experiência comum hoje é para os espectadores, num teatro ou assistindo numa tela, ficarem surpresos em quão limpa a história pode ser e como a boa representação pode realmente ajudar na interpretação. Assistir a uma peça, mesmo pela primeira vez, alguém dificilmente nota como algumas formas de expressão podem parecer um pouco arcaicas ou não familiares. Bons atores entregam as frases com sua própria compreensão bem treinada, então, o que eles dizem um ao outro ou num solilóquio soa inteligível e persuasivo.

            Ao ler uma peça pela primeira vez, provavelmente a melhor coisa a se fazer é ignorar as notas por um momento e tentar ouvir as vozes dizendo as frases como numa performance. Podemos tirar vantagem das notas numa subsequente leitura, conforme retraçamos nossos paços e paramos para refletir no sentido de termos não familiares. Ler uma peça, de Shakespeare ou qualquer outro escritor, é uma tarefa desafiadora e excitante porque como leitores nossa tarefa é, de fato, produzir e dirigir a peça em nossas cabeças. Necessitamos imaginar o cenário, se no interior ou no exterior, com efeitos cênicos e móveis se necessários. Nós temos que vestir os atores com vestes adequadas e dar a ele o apetrecho indicado no script. Necessitamos decidir qual a idade dos atores, e como eles se parecem. Como Shakespeare diz aos seus espectadores, no coro de abertura de Henry V:

“Supri com o pensamento

nossas imperfeições. Cortai cada homem

em mil partes e, assim, formai exércitos

imaginários. Quando vos falarmos

em cavalos, pensai que à vista os tendes

e que eles as altivas ferraduras

na terra branda imprimem”[1]

Shakespeare nos pede para adornar os atores com nossos pensamentos e “Carregá-los para aqui e para lá, pulando sobre o tempo.” Nós estamos no comando do show. A discussão na sala de aula pode ser inestimável, é claro. Mas é necessário tomar uma iniciativa individual e se manter leitor ativo e imaginativo. É necessitário se perguntar todo o tempo: por que um personagem está dizendo o que ela ou ele está dizendo para outro personagem? Quais são as mudanças no tempo ou a “batida” de uma cena? O que acontece quando outro alguém entra ou sai de uma cena? O que eles se tornam depois? Como  eles se transformam sob a pressão da observação e da conversação?

Por que ler Shakespeare, quando alguns dramatistas mais modernos, ou novelistas, ou poetas, ou escritores de pequenas histórias podem parecer mais disponíveis e relevantes? Cada leitor ou espectador deve responder isso a si mesmo, é claro, mas a visão geral remanescente através dos séculos é que Shakespeare é um extraordinário poeta e que ele distingue-se na largura e argúcia das suas representações da experiência humana. Como poeta ele controla um escopo extraordinário de vocabulário e capacidade de criação de imagens. Seu vocabulário é aproximadamente duas vezes maior que o seu mais próximo competidor nas literaturas inglesas e americanas. Ele detém um formidável talento no uso da forma do verso, do verso branco à parelhas rimadas, dos sonetos em catorze linhas a várias estrofes líricas. Sua prosa é admiravelmente flexível, especialmente para a comédia. Ele pensa em imagens, assim como todo grande poeta o faz. Ele diz coisas tão bem que várias de suas declarações tornaram-se proverbiais: “Não seja nem aquele que empresta nem o que pede emprestado”, “A indumentária frequentemente proclama o homem”, “Fragilidade, seu nome é mulher”, “O tempo está fora dos eixos”, “Brevidade é a alma da argúcia”, “Ser ou não ser, eis a questão”, “Assim a consciência faz de todos nós covardes”, “Vá para um convento”, “Há uma divindade que forma nossos fins, desbastando a aspereza deles conforme queremos”, e outros mais. Todos estes foram escolhidos de Hamlet; a lista pode ser substancialmente extendida somente nesta peça. Shakespeare é um importante arquiteto da língua inglesa como a conhecemos.

Então, também, nós temos nos escritos de Shakespeare uma notável amplitude da experiência humana, analisada e descrita com sagacidade e entendimento compassivo. Os seus personagens se apaixonam, experienciam o ciúme e a competição, lidam com a estupidez parental, aprendem o que é desafiar a autoridade dos pais, experienciam a frustação de ambições pessoais, sofrem negligências e mal-entendidos. Conforme eles envelhecem, frequentemente encontram dúvidas religiosas, atravessam a escura noite da incerteza cética e perda da fé, sabem o que é se tornar de meia-idade e temerosos do declínio da potencia sexual e da força física, e descobrem, para seu próprio horror, sua própria capacidade para o mal ao ponto mesmo de matar outro ser humano. Eles algumas vezes experienciam a total desilusão da misantropia e misoginia, sentem vergonha e a necessidade de serem perdoados, e se preocupam sobre sua retirada do mundo. Uma bonita coisa sobre esse retrato ricamente complexo da luta humana é que ele pinta um retrato cronológico da vida dos seres humanos da infância até os anos médios e então o declínio até a morte, tudo isso brilhantemente tratadas por Shakespeare conforme suas peças e poemas se movem dos primeiros até os últimos. As peças e poemas são a biografia do que é ser humano.

O fato de o mundo de Shakespeare ser muito diferente do nosso dever ser adicionado como um incentivo para lê-lo, não uma detração. Todos nós precisamos saber mais de outras culturas e outros sistemas de valores, no nosso mundo de hoje e do passado. A estranheza pode nos dar uma perspectiva sobre nós mesmos. Ela pode nos dar a chance de questionar nossos valores ao compará-los com o que outras pessoas em outras épocas acreditaram.

Isso é somente um esboço do autor do qual nós podemos esperar aprender muito sobre nós mesmos. O lugar para começar, talvez, seja localizando Shakespeare na Inglaterra e na Londres na qual ele viveu e trabalhou. O que era a Inglaterra no final do século XVI e início do XVII, enquanto ele esteve vivo, de 1564 a 1616? Em que sentidos diferem de nosso mundo moderno? Quais insights nós podemos derivar do seu trabalho ao olhar para ele no contexto de seu ambiente pessoal?

A Vida na Inglaterra de Shakespeare

A Inglaterra durante a vida de Shakespeare (1564-1616) era uma nação orgulhosa com um forte sentido de identidade nacional, porém, uma nação pequena para os padrões modernos. Provavelmente não mais que cinco milhões de pessoas viviam na Inglaterra inteira, consideravelmente menos do que agora vivem em Londres. Os territórios da Inglaterra em França já não eram extensos como durante o século XIV e anteriores; de fato, pelo final do reinado da Rainha Elizabeth (1558-1603), a Inglaterra virtualmente retirou-se dos territórios que anteriormente controlava no continente, especialmente em França. O país de Gales era um principado conquistado. O império de além-mar da Inglaterra na América havia parcamente iniciado, com a colonização da Virginia estabilizada em cerca de 1580. A Escócia ainda não fazia parte da Grã-Bretanha; a união com a Escócia não se formará até 1707, apesar do fato que o Rei James VI da Escócia ter assumido o trono da Inglaterra em 1603 como James I da Inglaterra.  A Irlanda, ainda que declarada um reinado sobre o julgo inglês em 1541, era mais uma fonte de problemas do que uma força econômica. Os últimos anos do reinado de Elizabeth, especialmente de 1597 à 1601 foi infestado pela rebelião dos irlandeses sobre Hugh O´Neill, conde de Tyrone. Assim, a Inglaterra do século XVI e início do XVII era pequena e isolada.

O Pano de Fundo Social e Econômico

Amplamente a Inglaterra era uma terra rural. Muito do reino ainda continha madeira, mesmo que esta estivesse sendo cada mais usada na manufatura e na construção de navios. As áreas das Midlands, hoje muito industrializada, era uma região de grandes árvores, pastos verdes e córregos limpos. O principal meio de vida da Inglaterra era a agricultura. Entretanto, esta parte da economia geralmente ia mal, e as pessoas que viviam fora da terra não compartilhavam a prosperidade de muitos londrinos. Um problema ao longo do século XVI foi o dos “cercamentos”: a conversão pelos ricos donos de terra das colheitas em pastagens. Os lavradores e camponeses queixavam-se amargamente por serem desapropriados e passarem fome em prol da criação de rebanhos. As revoltas rurais e os motins por comida eram comuns, para consternação das autoridades. Alguns camponeses de Oxfordshire elevaram-se em 1596, ameaçando massacrar os nobres e marchar a Londres; outras revoltas ocorreram em 1586 e 1591. Em Kent houve treze revoltas somente durante o reinado de Elizabeth. O desassossego continuou no reinado de James I, notavelmente a revolta das Midlands em 1607. Apesar de o governo ter feito o que podia para inibir os cercamentos, as forças econômicas vigentes eram muito massivas e inadequadamente entendidas para serem freadas por decreto governamental. A falta de burocracia efetiva ou agências de coerção compunham a dificuldade do controle governamental. O pasto usava grandes áreas com maior eficiência que a agricultura, e necessitava de muito menos trabalho. A lã produzida era necessitada em porções cada vez mais elevadas para a manufatura de tecidos.

A indústria da lã também experienciou dificuldades econômicas ocasionais, para ser exato; a sobre-expansão nos primeiros anos do século XVII criou um mercado saturado que colapsou desastrosamente em 1551, produzindo desemprego generalizado. Apesar destas flutuações e revezes, a indústria da lã ao menos proporcionava vultosos lucros para alguns donos de terras e intermediários. A mineração e a manufatura do carvão, ferro, estanho, cobre e chumbo, apesar de insignificantes para os padrões modernos, também expandia a uma taxa significante. As companhias de comércio exploravam os ricos novos recursos das Américas, como também os da Europa oriental e do Oriente. A rainha Elizabeth apoiou o desenvolvimento econômico ao manter a Inglaterra fora da guerra com seus inimigos continentais pelo maior tempo possível, a despeito das provocações daquelas nações e também do ímpeto de alguns dos seus conselheiros em retaliar.

Certamente a condição econômica da Inglaterra era melhor que as condições econômicas do resto do continente; um italiano chamava a Inglaterra de “a terra dos confortos”. Mesmo que alguma prosperidade de fato existisse, ela não era proporcionalmente distribuída. Especialmente durante os primeiros anos de Shakespeare em Londres, no final dos 1580 e nos 1590, a distância entre os ricos e os pobres crescia mais e mais extrema. Os esforços de Elizabeth de fazer a paz não foram mais capazes de prevenir anos de guerra com os poderes católicos do continente. O imposto crescia deliberadamente, e a inflação avançava numa forma rápida e incomum durante esse período. Uma sucessão de más colheitas compunha as misérias daqueles que habitavam a terra. Quando as hostilidades no continente cessaram por um tempo, por volta de 1597, uma onda de veteranos retornantes foram adicionados ao desemprego e ao crime. A prosperidade experenciada por Shakespeare e outros afortunados londrinos era inegavelmente real, mas não universal. Em nenhum lugar o contraste entre os ricos e os pobres era mais visível do que em Londres.

Londres

A Londres do século XVI era, ao mesmo tempo, mais e menos atrativa que a Londres do século XXI. Era repleta de árvores e jardins; prados e áreas cultivadas alcançavam, em alguns lugares, os próprios muros. Hoje podemos talvez imaginar o modo como margeavam-lhe córregos limpos e campos verdes quando chegamos a uma distância algum cidade de província não-comercial como Lincoln, York ou Hereford. Parcialmente cercada pela sua antiga muralha, Londres não era uma grande metrópole. Com 190.000 a 200.000 mil habitantes na parte central da cidade e em seus subúrbios, era, entretanto, a maior cidade da Europa, e sua dominância entre as cidades inglesas era ainda mais notável; em 1543-1544, Londres pagava trinta vezes o subsídio de Norwich, então a segunda cidade do reino (15.000 habitantes). Apesar da população de Londres ter expandido até os arredores em todas as direções, a cidade propriamente alongava-se da margem norte do rio Tâmisa até a velha torre de Londres no leste da Catedral de São Paulo e o porto no oeste – uma distância de um pouco mais de uma milha. Visitantes que se aproximavam de Londres da margem sul do Tâmisa e cortavam a Torre de Londres podiam ver virtualmente tudo dessa cidade excitante sobre sua frente. A Torre de Londres ela mesma era uma das grandes atrações da cidade, contendo lojas e ricamente decorada na ocasião da entrada triunfal de um rei ou rainha.

Porém Londres tinha seu lado deprimente e feio também. Sobre a Ponte de Londres podia-se ver às vezes as cabeças de traidores executados. As casas da cidade eram geralmente pequenas e lotadas; suas ruas eram estreitas e imundas. Na falta de encanamento, valetas abertas nas ruas serviam para coletar dejetos. Frequentes epidemias de peste bubônica era o resultado inevitável da condição sanitárias inexistentes e a ignorância médica. A iluminação das ruas à noite era geralmente não existente, e a força policial era notoriamente duvidosa. Shakespeare nos dá sátiras inesquecíveis de guardas-noturnos e policiais desastrados em Much Ado About Nothing (Muito Barulho por Nada) (Dogberry e os vigias) e em Measure for Measure (Medida por Medida) (Condestável Elbow). A prostituição prosperava nos subúrbios, convenientemente localizadas, embora além do alcançe das autoridades de Londres. Novamente, estamos em débito com Shakespeare pela memorável representação em Medida por Medida da classe das prostitutas (a devassa Senhorita Overdone, Pompey o cafetão dela, e vários clientes). As casas de prostituição eram frequentemente encontradas nas vizinhanças de um teatro, pois os estes também tiravam vantagem das localizações suburbanas para escapar das regulações severas impostas pelo Prefeito de Londres e os vereadores. O famoso teatro Globe, por exemplo, era localizado na margem sul do Tâmisa, a uma pequena distância da Ponte de Londres. Outra construção teatral (chamado simplesmente de “O Teatro”), usado nos primeiro anos por Shakespeare e a companhia de Lord Chamberlain, era localizado em Finsbury Fields, a uma pequena distância do outro lado de Moorfields do canto nordeste de Londres. Os subúrbios detinham também vários lugares para jogos de trapaça e operações ilegais, algumas delas brilhantemente ilustradas (e sem dúvida exageradas) no The Alchemist (O Alquimista) (1610) de Ben Jonson.

Aproximadamente metade da população total de Londres, talvez 100.000 pessoas, viviam dentro da muralha, e ainda muitos mais nos subúrbios. O Palácio Real de Whitehall, a Abadia de Westminster (então conhecida como Abadia Igreja de São Pedro), a Casa do Parlamento e o edifício de Westminster eram afastados de Londres, cerca de duas milhas para o oeste do rio Tâmisa. Eles permanecem até hoje nos mesmos lugares, em Westminster, apesar da metrópole Londres já ter circundado há muito esses edifícios oficiais.

Viagens

As viagens eram extremamente penosas e lentas por causa das insatisfatórias condições das estradas. Os ladrões das estradas eram uma constante ameaça. (O celebrado roubo de estradas na primeira parte de Henry IV acontece em Gads Hill, na principal estrada entre Londres e Canterbury.) As hospedarias inglesas pareciam ser boas, entretanto, e certamente muito melhores dos que a do Continente. A viagem sobre cavalo era o método mais comum de transporte, e provavelmente o mais confortável, desde que a construção de charretes era uma arte nova e imperfeita. As charretes do estado, algumas delas nós vemos em impressões e figuras daquele tempo, eram pesadas, sem dúvida suficientemente bela nas procissões, mas sem molas, incontroláveis, e difíceis de serem puxadas. As carroças eram usadas para carregar mercadoria, porém as selas eram mais seguras e rápidas. Sob essas dificuldades, nenhuma área metropolitana como Londres poderia ter-se desenvolvido para o interior. A grandeza comercial de Londres dependia do rio Tâmisa e seu acesso ao Mar do Norte.

Comércio

Quando Elizabeth acede ao trono inglês em 1558, a principal rede de trocas da Inglaterra era com a Antwerp, Bruges e outras cidades belgas.  A Antwerp era um mercado especialmente importante para a exportação de tecidos de lã da Inglaterra. Esse mercado esteve severamente ameaçado, entretanto, desde que os Países Baixos estiveram sob dominação do rei católico da Espanha, Filipe II. Aquando Filipe empreendeu punições aos protestantes dos Países Baixos por heresia religiosa, muitos conselheiros e súditos de Elizabeth clamaram a ela a defesa dos vizinhos protestantes dos ingleses e seus aliados comerciais. Elizabeth se conteve. Os exércitos de Filipe atacaram a Antwerp em 1576 e novamente em 1585, colocando um fim à ascendência comercial daquela grande metrópole da Europa do norte. Talvez um número de um terço dos mercadores e artesãos da Antwerp se estabeleceram em Londres, trazendo consigo seus exímios conhecimentos do comércio e da manufatura. O influxo de tantos trabalhadores qualificados e mercadores à Londres produziu problemas de desemprego e superpopulação, porém contribuiu para a emergência de Londres como o mais importante porto de trocas.

Os navios ingleses assumiram uma posição dominante no comércio mediterrâneo, antes levado a cabo principalmente pelos venezianos. No mar Báltico, a Inglaterra competia com sucesso no comércio que anteriormente era controlado pela Liga Hanseática. Bristol prosperou no comércio com a Irlanda e subsequentemente no comércio com o Hemisférico Ocidental. Boston e Hull aumentaram seus negócios com os portos escandinavos. A Companhia Russa foi fundada em 1555; a Companhia do Levante se tornou a famosa Companhia das Índias Orientais em 1600; e a Companhia da Virginia abriu-se para o comércio com o Novo Mundo no Hemisfério Ocidental. A pesca se desenvolveu no Mar do Norte, nas águas do norte da Irlanda, ao largo das margens de Newfoundland. Elizabeth e seus ministros encorajaram essas expansões comerciais.

As Leis dos Pobres e a Aprendizagem

Apesar da nova prosperidade experienciada por muitos elisabetanos, especialmente em Londres, o desemprego permanecia um problema sério. A supressão dos monastérios em 1536-1539, como parte da reforma da Igreja Católica de Henrique VIII desalojou uma grande classe de pessoas que não eram facilmente reempregadas. Outras causas de desemprego, como os colapsos periódicos do comércio da lã, a desapropriação dos trabalhadores rurais pelo cercamento da terra, o influxo repentino de artesãos peritos da Antwerp, e o retorno dos veteranos de guerra, já foram mencionados. Os parlamentos elisabetanos tentaram lidar com o problema do desemprego, mas de tal forma que seriam desnecessariamente severas hoje em dia. Várias leis passaram entre 1531, quando a distinção entre aqueles pobres necessitados de caridade e aqueles outros que não queriam trabalhar tornou-se lei pela primeira vez, e 1597-1598. A mais severa das leis foi a de 1547, que promulgava que os vagabundos seriam marcados e escravizados por dois anos; o escape era punido com morte ou escravidão por toda a vida. Essa lei foi repelida em 1549, mas leis subsequentes de 1572 e 1576 designaram dez classes de errantes e requeriam às autoridades municipais a providenciarem trabalho para os desempregados sadios de cada povoado ou paróquia. Essa localização da responsabilidade fundamentou o que ficou conhecido historicamente com “taxas de pobres” (uma taxa local arrecadada para o suporte dos pobres) e para aquela instituição sinistra: a casa de trabalho. As estipulações dessa lei permaneceram vigentes por séculos. As mais abrangentes leis foram aquelas do Parlamento de 1597-1598, que repetiam muitas estipulações de antigos atos e adicionam severas penalidades punitivas com a intenção de mandar os vagabundos de volta às suas paróquias de nascimento ou onde trabalharam. Depois de 1597, o pedir esmola era proibido; aos pobres supostamente se concedia as “taxas de pobres” já estabelecida.

As regulações para aprendizes não eram menos estritas. Um ato do Parlamento de 1563, conhecido com o Estatuto dos Artífices, dava às corporações de ofícios da Inglaterra – ainda organizadas como guildas medievais – virtualmente completa autoridade sobre os jovens aprendizes de uma classe. A lei severamente limitava o acesso ao aprendizado para filhos de famílias com posses no valor de, no mínimo, quarenta xelins de renda. A aprendizagem geralmente iniciava-se entre os catorze e o dezessete anos, e durava por um período de não menos de sete anos. Durante esse tempo, o jovem trabalhador vivia com a família do empregador. Sem essa aprendizagem, entrar numa classe de trabalhadores era quase impossível. Os aprendizados não eram abertos, entretanto, em todas as guildas, e as cortes legislativas subsequentemente determinaram que as regras do aprendizado não se aplicassem a ofícios desenvolvidos depois de 1563, com algumas exceções. Todos os trabalhadores saudáveis não ligados à guildas supostamente trabalhavam na agricultura. Companhias de atuação, como a que Shakespeare ingressou, não eram tecnicamente organizadas como guildas, mesmo que os garotos que faziam papéis de mulheres fossem, em alguns casos, submetidos aos termos do aprendizado; uma parcela dos atores adultos pertencia a uma guilda de Londres ou outra e podiam usar deste status com os aprendizes. Nós não sabemos se Shakespeare de fato serviu a esse tipo de contrato antes de se tornar um membro cabal de uma companhia de atuação.

Mudança Social

As oportunidades de rápidos avanços econômicos na Inglaterra elisabetana, mesmo que quase inteiramente limitados aos já prósperos, produziu uma mudança social e a qualidade de incansável para a sociedade inglesa. “Novos homens” na corte era um fenômeno crescente sob os monarcas Tudors, especialmente Henrique VII e Henrique VIII, que tendiam a confiar em leais conselheiros de origem humilde antes que na outrora toda poderosa nobreza.  O cardeal Wolsey, por exemplo, saiu da obscuridade para se tornar o mais poderoso súdito do reinado de Henrique VIII, com uma nova residência construída (a Corte de Hampton) rivalizando o esplendor dos palácios do próprio rei. Era detestado como um presunçoso pelos antigos aristocratas, como o duque de Norfolk, e sua queda repentina foi tão espetacular quanto a sua chegada ao poder. O conde de Leicester, o favorito da Rainha Elizabeth, era descendente de Edmund Dudley que saiu de um começo despretensioso para a grande eminência sobre Henrique VII, o avô da Rainha Elizabeth.  Apesar da Rainha Elizabeth não ter contribuído substancialmente para a nova aristocracia – ela criou apenas três conselheiros a partir de 1573 – famílias novas e influentes eram numerosas ao longo do século. Contrariamente, as famílias antigas descobriram que não eram mais confiadas às posições da mais alta autoridade. Para ser claro, a aristocracia permaneceu no ápice da estrutura social da Inglaterra. Novos aspirantes ao emulavam a aristocracia ao comprar terrar e construir esplêndidas residências, em vez definir a si mesmos como a nova “classe média”. O status de burguês era algo que os novos homens colocavam para trás o mais rápido possível. Ademais, a mobilidade social podia se dar nas duas direções: para cima e para baixo. Muitos homens eram rapidamente arruinados pelo custoso e competitivo negócio de se buscar favores na corte Tudor. Os pobres, em sua maioridade, gozavam de praticamente nenhum direito. Entretanto, a era elisabetana foi uma de maior oportunidade para a rápida ascensão social e econômica entre as pessoas abastadas da Inglaterra que qualquer outra conhecida até hoje.

Um maior número de contatos com o mundo inevitavelmente leva à importação de novos estilos de vida. Essas novas tendências, juntamente com as rápidas mudanças agora possível de posição social, produziu uma reação de desapontamento daqueles que temia a destruição dos valores tradicionais ingleses. As atitudes em relação à Itália, variavam erraticamente entre a condenação e a admiração: de um lado a Itália era a casa da Igreja Católica e a origem de muitas tendências consideradas decadentes, por outro a Itália era o berço do humanismo e o país famoso pelo experimento veneziano de um governo republicano. Para vários conservadores ingleses, a palavra “italianate” conotava um escopo inteiro de práticas perniciosas, incluindo métodos diabólicos de tortura e vingança: livros envenenados de devoção que poderiam matar vítimas inocentes que as beijassem, cadeiras engenhosamente planejadas que se fechavam sobre a pessoa que se senta sobre ela e outras coisas parecidas. As peças de vingança dos contemporâneos de Shakespeare, como Antonio´s Revenge de John Marston, The Revenger´s Tragedy provavelmente de Thomas Middleton, e The White Devil de John Webster ofereciam caricaturas espetaculares do chamado estilo italiano de matar. O nome Itália era também associado com licenciosidade, imoralidade e costumes estrangeiros nas roupas. A França, também, era acusada de encorajar várias extravagâncias no vestir-se, como o uso de ornamentos na cabeça, rufos pregeado rígidos, gibões encouchoados, mangas bombásticas ou duplas e calças ricamente decoradas. Rápidas mudanças na moda somaram-se com a ostentação de se estar atualizado e assim cresceu o protesto contra a vaidade no vestir-se. O esgrima, o dado, o uso de cosméticos, o fumo de tabaco, o beber de vinhos importados, e quase todos os vícios conhecidos à humanidade eram atribuídos pelos raivosos moralistas à influência corruptora de outras paragens.

Nem todos os ingleses deploravam a moda continental, é claro. Pessoas como gostos requintados viam a importação de estilos europeus como um processo culturalmente libertador. A moda se torna assim um tema de debate entre os tradicionalistas morais e aqueles que felicitavam os novos estilos. A controvérsia era amarga, com tonalidades religiosas, na qual as acusações furiosas dos reformistas se tornaram cada vez mais extremas. Esse ataque contra a mudança da moda foi de fato uma parte integral do movimento Puritano. Por isso destacava o pecado, não somente da extravagancia no vestir-se , mas também a ostentação no construção de grandes casas e outros objetivos mundanos. Àqueles simpatizantes dos puritanos se tornaram mais desafeitos com os valores culturais representado pela corte, e assim a sociedade inglesa tendia cada vez mais a um conflito irremediável.

As visões pessoais de Shakespeare sobre essa controvérsia são difíceis de determinar e não conta muito para seus conseguimentos como artista. Geralmente, entretanto, podemos observar que suas várias referências às mudanças na moda não satisfaz nem à vanguarda nem aos tradicionalistas reacionários. A audiência de Shakespeare era, sobretudo, de uma amplitude nacional. Nela incluíam-se muitos londrinos bem informados que viam a moda “italianizada” nem com entusiasmo nem com alarme, mas com risos satíricos. Esses espectadores certamente viram o ponto, por exemplo, na espirituosa diatribe de Mercutio à custa do novo estilo Francês no esgrima. O objeto de seu desdém é Tybalt, que, de acordo com Mercutio: “luta como você canta uma música imbecil” e se vangloria por ser “o açougueiro de um botão de seda”. “Não é uma coisa lamentável” pergunta retoricamente Mercutio “que nós devamos ser assim afligidos por essas estranhas moscas, esses negociantes da moda, esses desculpadores que se preocupam tanto com a nova forma que não podem sentar-se facilmente no velho banco?” (Romeo and Juliet, 2.4.20-35). Com uma disposição similar, a audiência de Shakespeare deve ter apreciado a piada de O Mercador de Veneza sobre a imitação servil inglesa dos estilos continentais na roupagem. “O que você falaria então a Falconbridge, o jovem barão da Inglaterra?” pergunta Nerissa à sua madame Portia sobre um de seus vários pretendentes. Portia replica: “como ele é estranhamente adequado! Eu acho que comprou seu gibão na Itália, sua calça rodada em França, seu gorro na Alemanha, e seu comportamento em todo lugar” (1.2.64-74). “Borboletas” da corte, que se curvam e retiram e ajeitam seus chapéus plumados, como Le Beau em Como Gostais e Osric em Hamlet, são objetos do ridículo. Hotspur, na primeira parte de Henrique IV, orgulhoso aristocrata nortenho que é, tem desprezo por um cortesão afeminado, “perfumado como um chapeleiro” que veio até o rei Henrique para discutir a questão dos prisioneiros (1.3.36). Ao longo das peças shakespearianas, o uso de cosméticos geralmente contém uma conotação negativa de beleza artificial, usada para ocultar a corrupção interior, como na referência de Claudius à “bochecha prostituta, embeleza com a arte do reboco” (Hamlet, 3.1.52). Porém, o tratamento de Shakespeare a novidade na moda não é nunca aguda no tom. Nem ele falha em seus dramas em dar um lugar honrado ao cerimonial uso de ricas e esplêndidas vestimentas. Suas peças assim evitam ambos extremos da controvérsia sobre a mudança da moda, mesmo que elas forneçam evidências da vivacidade e vigência do tópico.

Shakespeare também reflete um interesse contemporâneo no problema da usura, especialmente em O Mercador de Veneza. Apesar da usura ter-se tornado cada vez mais uma necessidade, as atitudes emocionais sobre o assunto mudaram vagarosamente. A visão moral tradicional condenava a usura como proibida pelo ensinamento Cristão; por outro lado, os governos europeus do século dezesseis encontravam a si mesmos obrigados a emprestar grandes quantidades de dinheiro. As leis contra a usura eram alternadamente relaxadas e impostas, de acordo com as exigências econômicas do momento. As peças de Shakespeare capturam a atitude elisabetana ambivalente em torno dessa prática temida mas necessária (veja a introdução de O Mercador de Veneza). Similarmente, muitos ingleses tinham uma atitude contraditória em relação ao que hoje se chama a lei da oferta e da demanda no comércio. Os moralistas conservadores reclamavam amargamente quando os mercadores exploravam a escassez de alguma matéria-prima subindo os preços; a prática foi denunciada como ganho de lucro excessivo e declarada pecado como a usura. Na política econômica, então, quando se tratava de mudança da moda ou o aumento da mobilidade social, muitos ingleses eram ambivalentes sobre o conflito perene entre a antiga ordem e a nova.

As Casas Elisabetanas

Aqueles ingleses afortunados que acumularam renda no reinado de Elizabeth tiveram um prazer especial ao construírem para si mesmos belas casas novas com mobiliários equivalentes. As chaminés eram cada vez mais comuns, a fumaça não necessitava mais escapar por um buraco no telhado. O peltre, ou mesmo a louça de prata tomavam o lugar da colher e da fruteira de madeira. As camas, e mesmo os travesseiros tornaram-se comuns. Os carpetes substituíam o junco como revestimento do chão; entalhes, tapeçarias, cortinas e figuras apareciam nas paredes; o vidro começou a ser usado extensivamente nas janelas.

Apesar dos avisos dos moralistas que pregavam contra a vaidade da aquisição mundana, o conforto doméstico fez consideráveis progressos na Inglaterra elisabetana. Várias mansões esplêndidas Tudors permanecem até hoje, atestando as importantes mudanças sociais que tiveram lugar entre o século da repulsão das contendas, o século XV, e a era de relativa paz sobre Elizabeth. A muralha, o fosso, o portão fortificado e a pequena janela usada para tiros com arco ou armas de fogo, geralmente desapareciam em favor de belos jardins e terraços. Na camada mais baixa do estrato social os agricultores, que constituíam a grande massa da população inglesa, eram geralmente pobres, malnutridos, não-educados, porém, ao que parece, eles gozaram de uma maior segurança física que seus ancestrais do século quinze, e não mais necessitavam de trazer seu gado, porcos e aves para dentro de suas habitações, para protege-los de ladrões. As casas da cidade, as quais várias existem até hoje, eram frequentemente de estruturas largas e imponentes, de três ou quatro andares e estruturadas usualmente com carvalho forte com as paredes feitas de tijolos e reboco de cimento. Apesar das fachadas das ruas de Londres serem usualmente estreitas, muitas casas tinham árvores e belos jardins nos fundos. É claro que Londres também tinha amplos prédios de apartamentos compartilhados pelos pobres suburbanos.

Com melhores casas, a elite abastada criou dispositivos de privacidade que foram praticamente desconhecidos pelas gerações passadas. A vida na família de um lorde medieval era geralmente focada num grande saguão, que podia servir variamente como cozinha, sala de jantar e sala para a família e seus convidados. Os homens bebiam no saguão no começo da noite e dormiam nele posteriormente. As novas habitações dos prósperos elisabetanos, por outro lado, dispunham de salas privadas na qual a família e os convidados principais podiam se retirar.

Os elisabetanos construíam bem.  Não somente continuamos a admirar suas casas quanto podemos ver as janelas de suas sacadas e mosaicos, amplas escadarias, suas joias e seus costumes, que eles estimavam a nova beleza de suas vidas, possível através da cultura do Renascimento. Apesar de as artes gráficas e plásticas não terem se desenvolvido na Inglaterra na mesma extensão que na Itália, França e nos Países Baixos, a Inglaterra fez duradouras conquistas na arquitetura, assim como na música, drama e todas as formas de literatura.

O Histórico Político e Religioso

A Inglaterra comandada pelos Tudors sofreu conflitos religiosos quase incessantes. A batalha em torno da religião afetou todo aspecto da vida e nenhum mais que a política. No início do reinado dos Tudors, para ser claro, o problema da Inglaterra não era religioso e sim dinástico. Henrique VII, o primeiro dos reis Tudors, trouxe a um fim as devastadores guerras do século quinze ao destronar o rei Ricardo III na batalha de Bosworth Field em 1485. As guerras que terminavam assim eram as chamadas Guerras das Rosas, entre a casa de Lancastre (simbolizada pela rosa vermelha) e a casa de York de Eduardo IV (simbolizada pela rosa branca). Shakespeare escolheu essas agitadas disputas como tema para sua primeira série de peças de história inglesa, de Henrique VI, em três partes, a Ricardo III. A casa de Lancastre herdou seu título de John de Gaunt, duque de Lancastre, pai de Henrique IV e bisavô de Henrique VI; a casa de York tomou seu título de Edmund Langley, duque de York, bisavô de Eduardo IV e Ricardo III. Pelo fato de que Edmund Langley e John de Gaunt terem sido irmãos, virtualmente todos os nobres contestantes na Guerra das Rosas eram primos um do outro, presos numa luta dinástica sem remorso pelo controle da coroa inglesa.  Muitos deles perderam suas vidas na luta. Por volta de 1485 a Inglaterra estava exausta do conflito civil. Apesar das reinvindicações ao trono de Henrique VII serem fracas, ele conseguiu suprimir a oposição faccionária e dar à Inglaterra a trégua da guerra tão desesperadamente necessária. Seu filho, Henrique VIII, herdou o trono em 1509, o mais seguro em aproximadamente um século.

As dificuldades maritais de Henrique VIII, entretanto, em breve trouxeram um fim à segurança dinástica e ao acordo civil. Ademais, o conflito religioso dentro da Igreja Católica crescia a uma extensão que romper com Roma parecia inevitável. As dificuldades do casamento de Henrique precipitaram aquele importante evento. Porque ele se divorciou de seu primeira esposa, Catarina de Aragão, em 1530, sem o consentimento de Roma, ele foi excomungado pelo Papa. A sua resposta, em 1534, foi a de proclama a si mesmo “Protetor e Líder Supremo da Igreja e do Clero da Inglaterra”. Este ato decisivo assinalou o começo da Reforma na Inglaterra, não muitos anos depois do decisivo rompimento de Martinho Lutero com o papado, em 1517, e, por conseguinte, o início do Protestantismo luterano no Continente. Na Inglaterra, o ato desafiador de Henrique dividiu a Igreja e a Nação. Muitas pessoas escolheram a doutrina de Sir Thomas More, de auto sacrifício, em vez de se submeterem ao título de Henrique, de supremo líder da igreja inglesa. Os últimos anos de Henrique testemunharam um período de fortificação da religião, depois da queda de Thomas Cromwell, em 1540, e no fato do rompimento de Henrique com Roma ter tido origem no conflito marital e político, como também em matéria de dogma e liturgia. Entretanto, o estabelecimento de uma igreja inglesa era agora um fato consumado. A ascensão do filho de Henrique, Eduardo VI, aos dez anos, em 1547, deu aos reformadores uma oportunidade de causar rápidas mudanças no Protestantismo inglês. Os quarenta e dois artigos da religião do arcebispo Cranmer, de 1551, e seu livro de orações estabeleceram  as bases para a Igreja Anglicana do século XVI.

A morte do convalescente Eduardo VI em 1553, trouxe uma intensa crise na politica religiosa e uma temporária reviravolta na orientação religiosa da Inglaterra. O duque de Northumberland, protetor e governante virtual da Inglaterra nos últimos anos de Eduardo, tentou assegurar uma sucessão Protestante e seu próprio poder ao casar seu filho com Lady Jane Grey, uma bisneta de Henrique VII, a quem Eduardo havia nomeado herdeira do trono, porém a proclamação de Lady Jane como rainha terminou num fracasso. Ela foi executada, assim como seu marido e seu sogro. Por cinco anos, a Inglaterra retornou ao catolicismo através do governo da irmã mais velha de Eduardo, Mary, filha da rainha católica Catarina de Aragão. A crise que acompanhou essas mudanças de governo durante um período de meio século foi grandemente exacerbada pelo fato que todos os três filhos de Henrique VIII terem sido considerados ilegítimos por uma ou outra facção do povo inglês. Aos olhos protestantes, Mary era filha da divorciada rainha Catarina, cujo casamento com Henrique nunca foi validado porque ela havia sido a esposa do irmão mais velho de Henrique VIII, Arthur. Este morreu jovem, em 1502, pouco depois de seu casamento de estado com a princesa espanhola. Se, como os protestantes insistiam, Arthur consumou o casamento, então a união subsequente de Catarina com o irmão de seu falecido marido foi inválido, e Henrique estava livre para se casa com Anne Boleyn – a futura mãe de Elizabeth. Aos olhos católicos, entretanto, ambos Elizabeth e seu irmão Eduardo VI (filho de Jane Seymour, a terceira mulher de Henrique VIII) eram filhos bastardos dos casamentos bígamos de Henrique; O único casamento verdadeiro de Henrique, de acordo com a fé católica, foi com Catarina de Aragão. Eduardo e Elizabeth eram considerados por muitos católicos, em casa e no exterior, não somente como filhos ilegítimos, a serem desobedecidos e mesmo destronados à força. Assim,  os conflitos maritais e dinásticos se tornaram matéria de grave consequência política.

Por causa desses conflitos, a ascensão de Elizabeth ao trono, em 1558, permaneceu incerta até o último momento. Uma vez que ela de fato tornou-se soberana a Inglaterra retornou uma vez mais à fé protestante. Desde então, o tato e a moderação foram necessários para prevenir a conflagração de guerras religiosas. O gênio de Elizabeth ao compromisso instigou-a a buscar uma posição mediana para sua igreja, uma que combinasse uma forma episcopal de governo da igreja (que não devia fidelidade ao Papa) com uma forma essencialmente tradicional de liturgia e dogma. Conforme era praticada, ela deixava os assuntos para a consciência individual; ela desenhou a linhas, entretanto, onde assuntos de consciência tendiam a “exceder suas fronteiras e crescerem para se tornar de facção”. Na prática, isso queria dizer que ela não tolerava católicos declarados na direita religiosa ou seitas Protestantes que negava a doutrina da trindade na esquerda religiosa. A fundação desse chamado compromisso elisabetano foi os trinta e nove artigos, adotados em 1563, e baseados em vários aspectos dos quarenta e dois artigos de Cranmer, de 1551. O compromisso não agradou a todos, é claro, porém alcançou um notável nível de consenso durante o longo reinado de Elizabeth.

Rainha Elizabeth e o Absolutismo Tudor

A rainha Elizabeth teve que lidar com uma nação religiosamente dividida e com extremistas de ambas direita e esquerda que desejavam sua queda. Ela era mulher numa época abertamente cética da habilidade da mulher ou ser direito de governar. O sucesso dela em lidar com essas estranhezas formidáveis foi, em grande medida, o resultado de seu estilo pessoal como monarca. Sua combinação de vontade soberba e feminilidade, e seu tratamento brilhante a seus muitos pretendentes tornou-se lendário. Ela permaneceu solteira ao longo de sua vida, em parte, ao menos porque o casamento poderia frustrar a harmonia que ela mantinha entre os grupos rivais, tanto exteriores quanto internos. O casamento teria a comprometido irreparavelmente a uma nação externa ou a um eleitorado interno. Ela escolheu conceder seu favor a certos cortesãos, notavelmente Robert Dudley (o qual ela elevou a duque de Leicester) e, depois da morte de Leicester, em 1588, Robert Devereux, segundo duque de Essex. O relacionamento dela com esses homens, apesar de sua parcialidade, foi marcada pelos acessos tempestuosos de ciúmes. Ademais, ela confiava no sério conselho de seus diligentes ministros: Lord Burghley, Sir Frances Walsingham, o filho de Burghley, Robert Cecil e poucos outros.


[1]

Anúncios

Replique

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close